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sexta-feira, 24 de abril de 2020

10 Álbuns que influenciaram o meu gosto musical: #2 Pink Floyd - "Meddle" (1971)

#2 Pink Floyd - "Meddle" (1971)



Olha, olha. Que surpresa. O Nuno nomeou um disco dos Pink Floyd como um dos dez que mais influenciaram o seu gosto musical.
Antes que tome o gosto em falar sobre mim na terceira pessoa, interrompo-vos já esse revirar de olhos para vos dizer que pensei muito sobre qual dos álbuns dos Pink Floyd escolher para esta lista. A escolha lógica seria o "The Division Bell", que eu habitualmente cito como o meu álbum preferido de sempre; ou então o "The Dark Side Of The Moon", que eu habitualmente cito como o mais accomplished álbum de sempre. Mas o desafio em questão remete para as influências. Para como tudo começou. E se os Pink Floyd, para mim, começaram com Veneza em 1989 e continuaram em 1994 com o Division Bell, foi no ano 2000, quando saiu a compilação "Echoes: The Best Of Pink Floyd", que as comportas para a discografia da banda de Cambridge se abriram. E tudo girava à volta de um tema que era muito mais que um tema. Um tema que era uma vida. Um tema que no disco original em vinil, tomava todo o Lado B. Um tema que representava, melhor do que nenhum outro, tudo aquilo que eram os Floyd. E que por isso mesmo dava nome à primeira compilação que se atrevia a resumir a sua extensa e expansiva discografia num único álbum, orfanando os temas dos seus álbuns-mãe. Falo, obviamente, de "Echoes", o tema que ocupa o Lado B do álbum "Meddle", de 1971.

Nao é bem saudades. O que eu tenho mesmo é inveja do 15-year-old-me, que sem saber, estava numa viagem épica a descobrir toda uma avalanche de sons que nunca tinha ouvido. Estava pela primeira vez a descobrir música por mim próprio e era um sentimento de liberdade incomensurável. Quem me dera sentir-me assim outra vez. Quem me dera voltar sentir o que senti das primeiras vezes que ouvi o "Echoes". O fascínio. O bewilderment. Foram meses a tocar aquilo no meu quarto e no meu Discman em loop. Como eram 25 minutos, nunca cansava.

Estava a apanhar as primeiras bebedeiras e quando chegava a casa do Telheiro (o bar da moda em Castelo Branco) no fim da noite de Sexta-Feira, punha o CD do "Meddle", fast forward para a última faixa e deitava-me na cama a olhar para o tecto e a submergir-me na música. A minha imaginação voava sobre rios e desertos e desfiladeiros á noite, enquanto ecoava a guitarra do David. O mistério. O que era aquilo? Como é que o David fazia aqueles sons? Apaixonei-me pelo som daquela guitarra (ou vá, foi uma terceira lua-de-mel, depois de 1989 e 1994) e 20 anos depois, a paixão continua intacta.

Desde então, segui a guitarra o David sempre que pude e para onde pude. Tive o privilégio de o ver em Paris, a tocar os 25 minutos do "Echoes" com o Richard Wright. Continua a ser um dos momentos altos da minha vida.
A minha namorada da altura, que me acompanhava no concerto, deixou-se dormir na parte psicadélica do "Echoes". E não, não estava com os copos.

O "Echoes" mudou por completo a forma como eu olhava para a música. O conceito de canção podia agora tomar qualquer forma e qualquer duração. Tao válidos eram os 2 minutos de "Love Me Do", como os 25 de "Echoes", cada qual no seu contexto. A paciência compensava. É este tema, que na verdade é muito mais que apenas um tema, que o álbum "Meddle" aparece nesta lista.
Vem esta epifania a propósito da estreia no YouTube do filme "Live At Pompeii" que, na sua versão original, abre e fecha com "Echoes", contando ainda com o outro épico de "Meddle" - o instrumental "One Of These Days". Foi o filme que mudou a minha vida e fez de mim o weirdo que sou hoje.

Para ilustrar o "Meddle", deixou aqui apenas algumas das versões do álbum que constam na minha colecção (são 10 no total). Em baixo, as prensagens alemã e portuguesa, com a qual eu cresci, ouvindo-a esporadicamente no record player do meu Pai (estes não são os Floyd preferidos dele).
Em cima, a prensagem dourada da MFSL em CD, um dos items mais  preciosos da minha colecção. Mas ainda e muito mais precioso, é o que está atrás — uma 1st pressing UK, com os primeiros matrix numbers A-1U / B-1U, assinada pelo David Gilmour himself. Claro que o sonho era reunir as assinaturas do Roger e do Nick por cima das respectivas cabeças, mas acho que isso é tão provável como a reunião dos próprios em palco.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Pink Floyd - "Pigs (Three Different Ones)" (Live)

Pink Floyd: 40 anos depois de "Animals", os porcos triunfaram mesmo

O mais irado e niilista de todos os álbuns foi lançado há 40 anos. 



"Animals" foi a adaptação à música da visão distópica de George Orwell em "Animal Farm" ("O Triunfo dos Porcos", na sua spoiler tradução portuguesa). Foi também o álbum que fez implodir os Pink Floyd (como não?), mas não é disso que vos falo hoje, até porque esse assunto já está bem escapelizado aqui e aqui. Hoje falo-vos da carga política do álbum mais irado e niilista dos Pink Floyd.

Como todas as grandes obras de arte, "Animals" é tão relevante hoje como no dia em que foi desvendada. No caso em concreto, podemos até dizer que é mais relevante hoje do que há 40 anos.
Se é verdade que a profecia de Orwell estava lá desde 1945, ela parecia exageradamente dantesca para que alguém acreditasse que poderia ter fundamento para além da revolução pós-czar soviética. Ouvíamos "Animals" com a mesma candura que visionamos entre pipocas qualquer filme do "Matrix", demasiado longínquo e fantasioso para nos preocupar para além das duas horas em frente ao ecrã.

Ninguém diria que chegaríamos aqui. Neste reality show 24/7 que mais se assemelha a um episódio de Black Mirror, os factos passaram a ser debatíveis (veja-se a secretária de imprensa de Trump a falar em "factos alternativos"), a ciência misturou-se com a opinião (Trump já expurgou todas as menções do aquecimento global do site da presidência) e a fronteira entre a realidade e a fantasia tornou-se difusa.



Todos somos culpados. Amolecidos por esta overdose tecnológica, demos as nossas regalias como garantidas, desprezámos a História e esquecemo-nos que as acções têm consequências. Começámos por tomar Trump como uma anedota; depois achámos que ele iria moderar o seu discurso no fim das primárias; depois durante a campanha; depois chegado à Casa Branca. Nunca o fez. Ignorámos o perigo que batia à porta e sem que nos déssemos conta, ele está aí. 40 anos depois de "Animals", 72 após "Animal Farm", os porcos triunfaram mesmo.

O que é que isto nos interessa? Deste lado do Atlântico, a cinco mil quilómetros e um oceano de distância, podemos olhar para tudo isto como um grande reality-show que acompanhamos todos os dias ao jantar; podemos fazer como os americanos e ignorar o perigo que representa uma criança de 5 anos num corpo de adulto chegar à presidência da maior potência económica mundial, ao dispor do maior arsenal bélico do planeta. Isso, ou então perceber que quando a América espirra, a Europa constipa-se e que tudo leva a crer que o futuro próximo é imprevisível.

O que fazer? Em primeiro lugar, evitar que o efeito dominó comece a fazer efeito e proteger as democracias europeias do populismo que levou os EUA a este ponto. O mundo mudou muito e muito rapidamente e é hoje um lugar diferente daquele que conhecemos há 10 ou 20 anos, quando quer que nos deixámos dormir e não percebemos que a precariedade do trabalho e da educação poderia levar o povo a tomar decisões inenarráveis, como eleger um pateta para seu líder. É preciso fazer uma purga na classe política e injectá-la com mais gente qualificada e menos demagogos jotinhas que só lá estão porque não tiveram capacidade de ganhar a vida em mais lado nenhum.
Já não basta andarmos com activismos de Facebook para depois ir para a praia em dias de eleições. Aliás, se há uma lição que se pode tirar destas eleições americanas é que o voto conta e que é fundamental votar. Só assim se protege a democracia. É capaz de ser hora de acordar.

...ou, como diz o Roger, a resistência começa hoje:




P.S.: O blog já leva 7 anos e este é o primeiro post sobre política. É revelador dos tempos em que vivemos.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

David Gilmour - "Smile"

"Leaving is a better way to find my way home to your smile"


Adeus, David Gilmour (outra vez)

Esta é mesmo a última vez, agora é que é, a sério

Estive no primeiro (Pula), no segundo (Verona) e no terceiro (Firenze). Depois fui ao primeiro americano (Hollywood #1) e ao segundo americano (Hollywood #2). Depois presenciei o mais importante de todos (Pompeii) na primeira fila e prometi que seria o último. Menti.



Sou de impulsos, é certo. Mas isto é mais do que só um impulso. Sabem quando se vêem subjugados pelo peso da vida e sentem que têm que fazer alguma coisa? Pois, nessas situações, eu tenho duas coisas que nunca falham: Londres e David Gilmour. Quando as duas se juntam e cai no colo a oportunidade de ficar num lugar de luxo, numa sala lendária, numa ocasião irrepetível (the very last date of the tour), numa altura em que é exactamente disto que eu preciso, como recusar?

Chocada com a notícia, a minha mãe já me perguntou por que eu não me caso com o David Gilmour. Eu disse-lhe que apesar do amor não escolher idades, até ele é demasiado velhinho para mim. Bem sei que lhe disse adeus em Pompeia, mas depois de ter estado em todos os concertos importantes da Rattle That Lock Tour, não podia faltar ao último dos últimos. É um fecho de ciclo perfeito.

Agora sim, pela última vez, adeus David Gilmour. E obrigado por tudo. I love you.

P.S.: Para celebrar este momento, fiquem com "Smile" que, qual coincidência, acabei de encontrar, imaginem, numa mixtape velhinha.

P.P.S.: A minha mãe já está descansada. Depois de dizer que ia a Londres, disse-lhe que a escolha era isto, ou apanhar um avião para Denver (🎶é um dinossauro🎶) e ver os Tears For Fears em Red Rocks. Ficou logo mais aliviada.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Pink Floyd - "Is There Anybody Out There?"

"Is there anybody out there?"































"Is there anybody out there?"

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

David Gilmour - "Coming Back To Life" (live)

"I took a heavenly ride through our silence, I knew the moment had arrived for killing the past and coming back to life"



Rattle That Broken Fout Tour Journal

Tomo IV - Siga para Florença

Toda a vida ouvi maravilhas de Florença. Quando era pequeno, foi para lá o Rui Costa - o meu primeiro ídolo do futebol - e fiquei com o sonho de vestir aquela bela camisola patrocinada pela Nintendo. Não a vesti.
Falaram-me dos jardins (ao crescer em Castelo Branco, ouvia que o Jardim do Paço era uma miniatura dos alegadamente magníficos jardins de Florença). Não fui lá.
Falaram-me das praças, das catedrais, dos museus, das estátuas, da Galleria degli Uffizi, do Batistério de São João, da Ponte Vecchio. Tudo coisas que eu não vi, lugares onde eu não estive.
Falaram-me que ia ser uma viagem mágica, que Florença ia ficar comigo para sempre. Isso, vai. Porque a minha viagem a Florença não teve nada do que me falaram, mas teve mais um concerto de David Gilmour. O terceiro.

Recordo que na noite anterior tinha visto o segundo concerto da digressão, na Arena de gladiadores de Verona. Por isso não houve tempo para tretas de turismo. Na manhã seguinte, foi levantar e apanhar o Frecciarossa em direcção a Florença. Siga para bingo.

Chegado à estação de Santa Maria Novella, sigo directamente para o Ippodromo del Visarno.
Junto ao hipódromo, quase a bater nas seis da tarde, ouço sons de instrumentos vindos do palco. Estão a fazer o soundcheck! Começam com alguns temas do novo álbum. Nesta altura, dois concertos e outros tantos soundchecks depois, os temas já não constituem grande novidade. Até aqui, a setlist dos concertos fora sempre a mesma e não esperava grandes alterações para esta noite. Mas fico por ali. Para quê ver as maravilhas de Florença quando se tem a maior das maravilhas sonoras mesmo ao pé de nós?

Ouve-se um som grave. "É a introdução de "Sorrow"", penso. Confirma-se: David pratica o choro da sua Stratocaster. Ainda não ficou bem no "ponto", mas está quase.
Pausa.
Conversa-se no palco. Volta a ouvir-se o mesmo som grave. toum-toum... tãe-tãe... "Coming Back To Life"!!! Quatro notas chegam para identificar novo elixir da alma retirado de "The Division Bell". É a novidade da noite, espero.

Na foto não dá para ver, mas por trás daquelas árvores vem o som de "Coming Back To Life".

Ao contrário do concerto de Verona, em Florença há lugares marcados, por isso a entrada é feita de forma ordeira e lá dentro, salvo alguns grupos demasiado entusiastas, está um ambiente relativamente pacífico. Pelo menos até eu ter a brilhante ideia de comprar um Tour Program. Vendo o motim à frente da barraca do merchandising, hesito. Mas "estou de canadianas", penso. "O que é que pode correr mal?". Mal sabia eu.
Aproximo-me da multidão junto ao merch e não passa muito tempo até que se dê início ao empurranço... Que poucos minutos depois, dá lugar ao esmagamento. Canadianas? Who cares? Os italianos de certeza que não. Ao meu lado está um senhor com os seus 50 anos, aspecto fino de latifundiário da Toscana, que me põe a mão na cara e me empurra para trás para ganhar posição, num gesto que na grande área daria lugar a penalty. Siga para bingo.

O concerto (o terceiro) foi, musicalmente, o melhor de todos. Depois da insegurança de Pula e da tensão de Verona, em Florença, a banda já estava coordenada e saiu tudo quase ao milímetro. E tivemos, claro, a grande novidade: "Coming Back To Life". Faltou a mística das arenas romanas, a virgindade de Pula e a electricidade de Verona. Lados diferentes das mesmas moedas. Florença foi mais polido, mas também mais previsível.

Fiquem com "High Hopes":

David Gilmour - "High Hopes" live at Ippodromo del Visarno, Firenze

Posted by Nuno Bento on Quarta-feira, 16 de Setembro de 2015


No fim do terceiro concerto em apenas quatro dias, já estava habituado a isto. Tirar-me esse hábito foi como se me privassem da minha heroína (não que eu já tenha passado por essa experiência, ok Mãe? Eu sei que lês isto), mas já não dava mesmo para seguir David para Orange, demasiado fora de mão. A Oberhausen, foi o "Miguel" (esse mesmo) e a Londres, só se fosse doido, tendo em conta os preços dos bilhetes para o Royal Albert Hall. Era preferível ir aos EUA, ao outro lado do Mundo, na légua de 2016 da digressão, do que ir a Londres. Por isso, olhem, vou mesmo (por esta é que não estavas à espera, não é Mãe?).

Em 2016, lá estarei em Los Angeles, no histórico Hollywood Bowl, casa de noites lendárias de Beatles, Elton John e tantos outros, para mais duas doses de David (com possibilidade de uma terceira, no Forum de Inglewood). Siga para bingo.



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

David Gilmour - "Faces Of Stone"



Rattle That Broken Fout Tour Journal

Tomo III - Gilmour e Gladiadores no Arena di Verona

As lutas de gladiadores que animavam o Império Romano tinham quatro desfechos possíveis para os intervenientes: ou ganhavam; ou perdiam e morriam em combate; ou perdiam e o público ordenava-lhes a morte apontando o polegar para baixo; ou perdiam e o público poupava-os por bravura ou misericórdia. De todos os desfechos, o quarto era o mais raro. Ao sentar-me nas bancadas de pedra do Arena di Verona para um espectáculo expectavelmente menos sanguinário, percebi porquê.

O concerto de David Gilmour no Arena di Verona foi uma experiência surreal, para contar aos filhos e netos. Foi um regresso aos tempos de glória do Império, das lutas de gladiadores, quando havia uma contagem de baixas do público no fim do espectáculo. Muito álcool, muita droga à minha volta e nem sequer faltou a cena de porrada para animar. Surreal, mesmo.

Mas comecemos pelo início. Sair de Pula a um Domingo (o concerto fora no Sábado) e chegar a Verona para o segundo concerto não foi fácil. Desde logo porque não havia transportes. Autocarros para o estrangeiro, ao Domingo, nem vê-los. Aviões, só acima dos 1 000€. A alternativa eram os barcos. Mas como estávamos em Setembro — época baixa — só havia um ferry a sair da Croácia para Veneza nesse dia e era em Porec, a quase 100 kms de Pula. Ah e era às 7 da manhã. A minha única hipótese era assim apanhar um autocarro que saía de Pula às 5 da manhã e rezar para que ele não se atrasasse.
Bem dito, bem feito: o autocarro chega a Pula às 5:30 da manhã. meia hora de atraso. Foda-se. Furioso, dirijo-me ao condutor, explicando-lhe que preciso de estar em Porec às 7:00, misturando discurso em inglês com vernáculo em português. Imaginem um "I need to be there at seven, caralho!", à boa tradição benfiquista do Toni no Irão.

Talvez motivado pelo vernáculo que ele não entendia, o condutor arranca numa corrida desenfreada rumo a Porec, tirando vantagem do parco trânsito matutino, mas numa velocidade claramente desaconselhada para a segurança do veículo e dos seus ocupantes. Pouco antes da paragem em Rovinj... PA-PAUM!! ...o autocarro tropeça num buraco que deixa a suspensão num perceptível mau estado. Resultado: paramos em Rovinj, esvazia-se o autocarro e espera-se pelo seguinte. O tempo que o condutor recuperou no caminho, esfuma-se novamente. Mas ele tranquiliza-me que chegaremos a Porec a tempo, mesmo contra as leis da Matemática e do Google Maps, com o ar assustadoramente assertivo de quem relativiza as regras de trânsito. Mas chegamos mesmo: às 6:55, estou a Porec... para descobrir que o ferry vinha uma hora atrasado.

Chegado a Veneza, regresso à Praça de São Marcos para recordar o concerto que me introduziu aos Pink Floyd aos 5 anos. Mas não sem antes virar um pequeno almoço à campeão: uma caneca de litro.



Sigo para Verona. Segundo concerto do David Gilmour e logo num dos recintos que sempre quis visitar: a Arena di Verona, onde os Simple Minds gravaram um vídeo histórico nos late 80s. Depois da Arena de Pula, é mais um concerto num anfiteatro romano.


Fast-forward para o concerto. À chegada à Arena di Verona, não há lugar para me sentar. Ou o tráfico de bilhetes esteve ao rubro, ou os italianos venderam mais um terço da capacidade da Arena, na esperança que "cabe sempre mais um". Ando eu de canadianas, a mancar exageradamente para chamar a pena de algum bom samaritano, mas ninguém se oferece sequer para se desviar um bocadinho (não há cadeiras, o cu ia mesmo na pedra). É cada um por si. Depois lá me consigo sentar numas escadas onde nem sequer posso ver o David, que está tapado pelas colunas. É como os lugares da ACAPO no estádio do Alvalade. Isto está bonito.

  
Penso em protestar, mas como? Não há ninguém indignado com a organização, todos agem como se fosse tudo normal. E protestar com quem? Seguranças? Stewards? Nem vê-los. Se houvesse problemas à séria, isto era um festival de pancadaria à antiga, com corpos a rebolar pelas bancadas de pedra até lá abaixo e cânticos em latim de sacrifícios divinos, como nos bons velhos tempos do Império. Há uma equipa da cruz vermelha, sim. Mas passam o concerto a filmar o palco, sentadinhos em lugares de honra. Maravilha.
O que não falta são tipos a vender cerveja. É vê-los a subir aquelas bancadas de pedra íngremes sem qualquer protecção ou preocupação. Não pode faltar cerveja com fartura, para satisfazer este público dos gladiadores, que bebe como se a bexiga não tivesse limite.
Se nas bancadas há gente a mais, lá à frente não há gente nenhuma. Ou as primeiras filas faltaram ou o David tem medo destes italianos, porque nunca vi um espaço tão grande entre a primeira fila e o palco. 

Neste cenário reminiscente do Século I, penso que só falta mesmo uma boa cena da pancada. E ela aí está! Mesmo na minha fila. O que vale é que a porrada se dá entre um tipo que é um cruzamento entre o Totti e o Michael Scofield e um que parece o Fernando Mendes do Preço Certo em Euros. O Fernando Mendes viu à partida que não tinha grande hipótese, mas ainda assim levou três tabefes de mão fechada, mesmo ao lado da mulher e dos filhos. Não contente, o Totti Scofield ainda lhe arrancou os óculos, atirou-os para o chão e pisou-os repetidamente. Só visto.

Dito isto, por mais incrível que pareça, Verona foi uma experiência interessante. O concerto perdeu obviamente para Pula, mas só porque depois de chegar ao Olimpo, só se pode descer. A performance da banda até foi melhor: David já não borrou a pintura tantas vezes (só o solo de "The Blue" é que foi destruído pela distorção nos agudos) e até tivemos um "Comfortably Numb" para a história. Mas as distracções à minha volta eram tantas, que o espectáculo no palco era apenas um dos factores de interesse.


Mais que interessante, Verona foi uma experiência surreal. A Arena é uma sala de espectáculos lindíssima, um anfiteatro romano clinicamente preservado, que nos leva até aos tempos dos gladiadores. Não há guardas, não há cadeiras, não há protecções, nada. É tudo como dantes. E se mais alguma coisa faltasse, a negligência da organização e do público transporta-nos até à época do Império. É uma viagem no tempo, como se Caligula ainda ditasse leis na Lusitânia.

Se alguém disse que o Rock está morto, tem que vir a Itália. Onde haviam combates de gladiadores, há hoje concertos Rock. A sede de sangue é a mesma.

Próxima paragem: Florença.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

David Gilmour - "In Any Tongue"



Rattle That Broken Fout Tour Journal

Tomo II - Um Fariseu em Pula, três contactos

Conta o Novo Testamento que quando os Fariseus conheceram Jesus, não ficaram muito impressionados. Os Fariseus sabiam de estórias de um Rei cujo reino "não fazia parte deste mundo", um Rei dos Reis, mas quando lhes apareceu, Jesus era "apenas" um homem mal vestido que falava de maneira diferente. "O quê? É isto?! É este gajo? Este gajo está vestido pior que nós!", terão protestado os Fariseus, num qualquer dialecto hebraico.

Quando eu tive o David Gilmour à distância da minha canadiana na Arena de Pula, por três ocasiões diferentes, lembrei-me deste episódio bíblico. Durante toda a minha vida, tive Gilmour como um ser divino, criador de sons que me definiram, autor de obras que engrandeceram a minha existência, um ser perfeito. Mas agora, este ser divino estava ali, tão perto de mim, mais perto do que eu poderia imaginar quando aos 5 anos de idade, o meu Pai me submetia repetidamente ao concerto de Veneza até eu decorar a arquitectura da Praça de São Marcos. Pude-lhe ver as rugas, o medo de ser engolido pela multidão, a insegurança de quem já não tocava ao vivo há 10 anos, a preocupação de quem pelejava para que nada falhasse, o ar frágil de quem borrou a pintura numa série de solos e o alívio de quem chegou ao fim da primeira noite deixando tudo o que podia em palco. Vi tudo como um qualquer Fariseu que teve o acaso de se cruzar com aquele a quem chamavam o Rei dos Reis.

E assim pude ver que David Gilmour é "apenas" um homem vestido com uma t-shirt preta. Um homem com fragilidades, medos e dúvidas. David é, afinal, humano.

Mas vamos ao princípio. Recuemos 24 horas.

Chego a Pula no dia anterior ao concerto e vou directo para a Arena. Estão a montar o palco e pasme-se, as visitas turísticas ainda estão abertas!
Entro.
WOWOWOW!!! O que é isto? Caixas dos Pink Floyd?!


Ando no meio do equipamento do David Gilmour, a maioria ainda remonta aos tempos dos Pink Floyd. Quase todas as caixas têm a inscrição PINK FLOYD WORLD TOUR. Nem acredito que me deixam andar ali.
Depois de uma hora estarrecido em frente ao equipamento com um estranho sentimento de "foda-se, estou mesmo aqui", dou uma volta ao recinto e deparo-me com o camarim de David Gilmour. Amanhã à noite estará ocupado.



Ao fim da tarde, enquanto virava canecas de cerveja croata num bar com vista panorâmica para a Arena (a foto fala por si) e trocava histórias de vidas Floydianas com um fã turco, David aparece para o soundcheck. Sem mais, começa a despejar temas do novo álbum, um depois do outro, seis no total, quatro deles ouço pela primeiríssima vez (só conhecia "Today" e Rattle That Lock"). Incrível, um concerto de borla! Dois destes temas conquistam-me desde logo, com solos directamente saídos do Olimpo (saberia mais tarde que dão pelo nome de "Faces Of Stone" e "In Any Tongue". Ouçam este último no vídeo em cima, é uma bomba.).
Depois vem "Wish You Were Here". Esta todos conhecem, é vê-los de telemóvel em punho, a gravar o momento. Cena normal nos nossos dias. Mas David ainda tem mais uma na manga. Pam... Pam... Pam... Pam... "High Hopes"! A minha reacção neste momento não deveria ser descrita aqui, sob pena de perder a imagem máscula perante as meninas. Mas que se foda. Mal ouvi o sino, desatei a chorar descontroladamente, cara escondida no braço da canadiana. "High Hopes" é a minha música, o meu elixir. Naquele momento, tudo valera a pena. O pé partido, o risco da viagem solitária para a Croácia, o frio que rapei em Zagreb, tudo fora compensado. O sentimento era um misto de deslumbramento e de "o que raio está a acontecer?!".
Para quem não acredita, o próprio David partilhou no Youtube um vídeo do ambiente na esplanada com vista para a Arena.



À saída da Arena, a carrinha que levava David e a sua mulher Polly Samson passa mesmo à minha frente. Primeiro contacto. Estive a uma janela de David! Comigo, carregava um LP do meu álbum preferido ("The Division Bell", para quem não sabe) na esperança que David pudesse parar para assinar. Nos olhos dele, o medo de ser engolido pela multidão. Já visualizava a capa do melhor álbum de todos os tempos assinada, mas havia muita gente. Não é desta.
Ainda assim, levo uma recordação da minha visita à Arena de Pula. É o que dá deixarem os fãs andarem pelo backstage antes dos concertos. Agora quero ver como é que a banda se orienta para fazer chichi durante o solo de 10 minutos do "Comfortably Numb".


Dia de concerto. Porra, já não era sem tempo, a expectativa já estava a dar cabo de mim. Na camarata do hostel, acumulam-se rapazes de todo o mundo, ali de propósito para o concerto: um uruguaio, um argentino, um russo, um espanhol, um inglês e um português. Nações Unidas Floydianas. Com todos abaixo dos 25 anos, sou o mais velho ali. Conto histórias do meu concerto em Paris de 2006, do Roger Waters em Wembley e ganho logo a admiração da plateia. Fossem todas as plateias assim tão fáceis.
À tarde, aproveito para um mergulho no Adriático de canadianas, para espanto dos transeuntes na praia. O mergulho de canadianas até foi fácil, a grande aventura foi chegar ao mar. Falaram-me maravilhas das praias na Croácia, mas esqueceram-se de me avisar que as praias eram de calhaus, óptimas para um pé partido. Adiante.

Hora do concerto. Já conhecendo os cantos à casa, finto a segurança e consigo entrar com uma garrafa de Jameson. Ouvir Pink Floyd sóbrio também é fixe, é verdade, mas para que é que eu haveria de fazer uma coisa dessas?
Vou directo com o meu LP para junto do camarim do David. Poucos minutos depois, aí está ele. David sai do camarim. Segundo contacto.
"DAAAAVID!", grito em súplica. David vira-se e vem na minha direção. Quase a chegar, a um metro apenas, David repara que naqueles parcos segundos se haviam juntado dezenas atrás de mim. David pára. Vira-se. Vai-se embora.
"FODA-SE! Estive tão TÃO perto! FODA-SE!", gritei num português que pareceu aos demais um qualquer dialecto hebraico. Ainda não é desta.

Procuro o meu lugar. Que maravilha: segunda fila, ainda a inspirar o fumo saído do palco. E logo chega David. Com todas as rugas à minha frente, juntando o ar frágil de um homem de 69 anos, com a robustez de quem teve que aturar o Roger Waters durante quase duas décadas. Terceiro contacto.
Porque o som e as imagens são, como sabemos, louder than words, deixo-vos com alguns dos momentos em Pula (desculpem-me, não consegui carregar os vídeos do Facebook aqui. Se me puderem ajudar, agradecia).


"Wish You Were Here"

"Money"

"High Hopes"


Astronomy Domine
Posted by Nuno Bento on Segunda-feira, 14 de Setembro de 2015

"Fat Old Sun"


"Sorrow"

"Run Like Hell"




"Time"

Pula foi especial. Não sabia nada da setlist e tinha feito um aviso de excomunhão a quem ousasse quebrar-me esse segredo. Mesmo assim, a setlist foi mais ou menos aquilo que eu estava à espera. Mas quando David arrancou com o BRRRRRUMMMM de "Sorrow", saltei da cadeira, num grito que deve ter sido audível no outro lado do Adriático (na verdade são dois gritos e são bem audíveis no vídeo em cima). Foi o meu momento da noite.
O concerto não foi perfeito, mas foi memorável. O David fartou-se de meter água, mas foi humano. Pula foi especial porque estive mesmo ali, ao pé de David, vi que ele é "apenas" um homem. E passei a amá-lo ainda mais por isso. Porque David Gilmour não é um homem qualquer, é um homem que cria coisas divinas.

Fui à Croácia e à Itália à caça de momentos. Este foi o primeiro.




segunda-feira, 21 de setembro de 2015

David Gilmour - "5 A.M."



Rattle That Broken Foot Tour Journal

Tomo I - Três Prólogos

O início da história desta viagem remonta a Março. Não, pensando melhor, o primeiro prólogo remonta a 2006. Foi a 15 de Março desse ano que eu vi David Gilmour e Richard Wright ao vivo no Grand Rex, em Paris. Foi a melhor noite da minha vida. Foi uma noite para a eternidade, com "Echoes", "High Hopes", "Time" e "Comfortably Numb" a duas vozes, num lugar mágico e em circunstâncias irrepetíveis.
Mas o que é vida, se não a perseguição de um momento irrepetível? Foi por isso sem grandes dúvidas que, quando David Gilmour anunciou em Março a sua primeira digressão desde 2006 (segundo prólogo), eu comprei o número máximo de bilhetes possível. No total, três concertos em quatro dias: Pula na Croácia e Verona e Florença em Itália. Venham de lá esses momentos.

O terceiro prólogo desta história aconteceria em Julho, no concerto dos The Prodigy no Alive. Olvidando a minha idade, dissolvi-me num mosh pit cheio de miúdos com mais horas de ginásio que de livros e que, se eu fosse de outra etnia, já podiam ser meus filhos. Ao segundo tema, um destes jovens caiu em cima de mim e partiu-me o pé. "Ainda faltam dois meses para a Croácia", pensei eu. Os médicos profetizaram uma recuperação rápida que nunca se deu, mediante um descanso que nunca houve. E assim chego à semana da viagem em pânico, ainda a precisar de canadianas como o Dr. House precisa da sua muleta.

Vou ao médico. De certeza que o optimismo que ele demonstrou no passado me vai validar a viagem.
"E então doutor, acha que que estou em condições de fazer esta viagem?", pergunto.
"Não.", responde ele secamente. "Pode e deve ir de férias, para descansar; mas se a sua ideia de férias é cruzar a região do Adriático em 10 dias, o meu aviso é que não o faça. Se quiser, passo-lhe os papéis para as companhias aéreas".
"O doutor não está a perceber. Fazer a viagem não está em causa."
"Então o que quer que lhe diga?"
"Quero a sua aprovação."
"... Não posso fazer isso. Você está a arriscar. Tem mesmo que ir? É trabalho?"
"Não, é muito mais que isso. É o David Gilmour."
"Quem?!", pergunta o doutor, genuinamente confuso.
"O guitarrista dos Pink Floyd!"
"Ah, ok", suspira o médico, de semblante baralhado. "Nesse caso, se tem mesmo que ir, vá. Só lhe desejo boa sorte".

E assim lá fui para a Croácia, canadiana em riste, na perseguição de mais um momento.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Capitão Fausto - "Interstellar Overdrive"



O Lux-Frágil vai ter que ser ressarcido depois do que os Capitão Fausto fizeram no concerto da última Sexta-feira. Alguém vai ter que pagar pelos estragos. Porque os Capitão Fausto mandaram aquilo tudo abaixo.

Talvez devido ao facto de estar sob o efeito simultâneo de antibióticos e de uma garrafa de vinho italiano (não ia ouvir a música do Syd Barrett sóbrio, não é?), ou talvez devido ao facto de ter sido um concertão, daqueles que são alvo de lendas que se contam a filhos e netos, saí do Lux com a sensação de ter visto a melhor actuação de uma banda portuguesa em toda a minha vida. E já vi muitas, acreditem.
São palavras fortes, bem sei. Mas do lado dos Capitão Fausto estava um leque de canções invencível. Foram essas canções - as canções de Syd - que chamaram o público que encheu o piso de baixo do Lux. Houve temas de "The Piper At the Gates Of Dawn", "A Saucerful Of Secrets" e também alguns temas a solo do ícone britânico. Mas a partir desses temas invencíveis, havia tanto por onde errar; tantas armadilhas onde tantas vezes vezes caem as bandas que arriscam covers de temas tão sagrados como os dos Pink Floyd. Os Fausto não só evitaram todos os alçapões, como deram à música o seu cunho e tiveram no Lux uma noite épica for the ages. Para ser perfeito, só faltavam as projecções.

Como é que lograram esta efeméride? Os Capitão Fausto não se limitaram a tocar de forma absolutamente fidedigna, nota-por-nota, as versões que ouvimos nos álbuns. Nem faria sentido, este era um live show. Por outro lado, também não caíram na tentação de inventar versões alienadas do cerne Sydiano. Para alcançar um equilíbrio, a banda tocou os temas de Syd, da forma como esperaríamos que Syd os tocasse ao vivo: pincelando um solo de guitarra aqui, estendendo um solo de teclas ali, fiéis ao álbum quando tinham que o ser e carregando no ruído psicadélico sempre que o tema chamava por isso.

O momento da noite? Está no vídeo lá em cima: "Interstellar Overdrive". Os Fausto não se fizeram rogados e tocaram uma versão de 10 minutos do tema que nos pôs a viajar pelas estrelas. Honestamente, na altura não percebi se foram 10 minutos, 20 minutos, ou 3 horas. Mas foi longo, foi mind-tripping e foi tudo aquilo que eu poderia desejar. Eu e não só. A audiência foi ao rubro em "Overdrive", a electricidade no ar era tal, que houve mosh junto ao palco (sim, leram bem) e houve crowdsurfing do Tomás Wallenstein - vocalista dos Capitão Fausto - enquanto tocava guitarra. Épico.

O público foi outro dos factores que elevou este concerto para o patamar de lendário. Do alto dos meus 29 anos, acho que era um dos mais velhos na sala. Olhei à minha volta e o que vi foram miúdos que gostam de Pink Floyd, conhecem os temas todos do Syd Barrett e cantam-nos de peito cheio. E fazem mosh quando a música pede uns encontrões.
Apesar do estrato etário novo, não houve telemóveis no ar, nem idiotas a tapar a vista com smartphones ou tablets. O público estava lá pela música. Foi um dos ambientes mais puramente Rock N' Roll que já presenciei.

No fim, a banda lamentou-se que nunca mais iria repetir esta noite, nunca mais iria tocar temas dos Pink Floyd e de Syd Barrett. Para eles, uma mensagem: conhecem aquele episódio do "Seinfeld", em que o Jerry e o George montam um estratagema para ele trocar a namorada pela amiga, através da sugestão de uma ménage a trois? E depois elas aceitam? Lembram-se do que o George diz? "This is like discovering plutonium by accident!". Eu acho que vocês também descobriram o vosso plutónio. Não estou com isto a sugerir que se tornem numa banda de covers, mas podem repetir a experiência, porque certamente terão procura. Mas acima de tudo, bebam daqui muita inspiração, porque vi-vos a nadar na vossa praia. 

Quando a banda voltou para o encore, estava eu convencido que iam sacar de "Astronomy Domine" (o tema mais óbvio, até por ser o tema da era de Syd mais tocado pelas incarnações posteriores dos Pink Floyd) e eis que a banda sobe ao palco com "PA PUM TE, TCH TCH; PA PUM TE, TCH TCH". E metade da audiência respondeu audivelmente, para faces de estupefacção da outra metade: "ÓI ÓI, ÓI ÓI". Mágico. "Pow R. Toc H.". Confesso que por esta não estava à espera.

Na verdade, toda a noite foi de surpresas. Enquanto gritava a plenos pulmões no segundo tema do set "AAAAAAPPLES AND ORANGEEEEEEES!" comentei que nunca pensei ver estes temas ao vivo. E não. E foi a melhor merda de sempre. Pelo menos desde a semana passada. A sério, foi de um nível de brutalidade que só o Mike Tyson nos poderia explicar. Malta, vá lá, não me tirem isto agora, fiquei viciado.
Se os Fausto cumprirem a ameaça e esta noite não se repetir, então pelo menos posso dizer que estive lá. Estive no Lux na noite em que a casa foi teleportada para a outra dimensão; aquela dimensão onde o Syd foi muitas vezes; tantas vezes, que certo dia por lá ficou.

Não tomei notas, por isso perdoem-me qualquer falha na setlist, mas de cabeça, os Fausto tocaram o seguinte:
"Arnold Layne"
"Apples And Oranges"
"Lucifer Sam"
"Matilda Mother"
"Scarecrow"
"Take Up Thy Stethoscope And Walk"
"Interstellar Overdrive"
"Octopus"
"Terrapin"
"See Emily Play"
"Dominoes"
"Jugband Blues" 
ENCORE:
"Pow R. Toc H."
"Bike"


quarta-feira, 4 de março de 2015

David Gilmour - "Take A Breath"

"Take a breath"



Inspira.

Já se passaram algumas horas, mas os meus dedos ainda tremem, o meu coração ainda bate a ritmos BlueMondayanos e a minha pulsação ainda está em nível de minutos-finais-de-segunda-mão-da-meia-final-da-Liga-Europa. O que é isto? Estou nas nuvens, os pés flutuam dois palmos acima do chão. Mas estou de rastos, aquelas horas de stress deram cabo de mim. Suores frios. Dói-me a cabeça, dói-me o corpo todo. E de repente, sentimentos de dúvida assolam-me. A cabeça trabalha a mil. Será que isto me está mesmo a acontecer? Não, isto não me pode estar a acontecer. É bom demais para ser verdade. Foi o dia todo nisto. Calma, Nuno, já passou.
Que cavalgada de emoções.

Expira.



Inspira.

Já se passaram algumas horas desde que comprei bilhetes para dois (dois!!) concertos de David Gilmour e ainda não acredito que é verdade. Chovem-me flashes daquela noite mágica de 2006, em Paris, a melhor noite da minha vida. São flashes que me apertam o coração e o empurram contra a omoplata. São flashes de uma noite perfeita, da noite em que vi David Gilmour ao vivo no Grand Rex, acompanhado de Richard Wright, a tocar temas como "Echoes", "High Hopes", "Time", ou "Comfortably Numb". Subi ao céu.
Agora o céu espera-me novamente em Itália, em dose dupla, na belíssima Arena di Verona e no Ippodromo Le Mulina, em Firenze. É um sonho tornado realidade. Quem disse que a felicidade não é possível?

Já sei que não vou pregar olho hoje, o êxtase não me vai deixar. Mas que se lixe, não preciso de sonhar. Eu vou viver o meu sonho.

Expira.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Pink Floyd - "The Show Must Go On"

"Where has the feeling gone? Will I remember the songs? The show must go on."


Imagino que todas as (cinco) pessoas que costumam vir aqui ler o meu espaço já se tenham perguntado o que é feito de mim. Não? Nem vocês? Ok. Em todo o caso, eu tenho um enorme respeito por vocês e seria incapaz de deixar o meu espaço neste limbo, sem uma resolução.

O que se passou comigo foi aquele tipo de coisas que achamos que só acontecem aos outros, até que nos acontece e não sabemos bem como reagir. Não, não foi nenhum acidente. Foi algo bem mais improvável: a concretização de um sonho.

No fim do Verão, fui convidado para escrever sobre música na New in Town (NiT) — uma nova revista urbana digital de lifestyle, lazer e cultura. Esta é a página do Facebook, os gajos escrevem alguns artigos muito fixes e dão muitas dicas interessantes (principalmente para quem vive em Lisboa). Podem lá ir fazer like para acompanhar o que vou escrevendo.
O que é que tudo isto significa? Que sim, é verdade: os sonhos também se tornam realidade. Por isso, sempre que vos quiserem convencer do contrário, não acreditem. Façam-lhes um pirete e continuem a lutar pelos vossos sonhos, por mais insignificantes ou idiotas que possam parecer aos outros.



Desde que a revista foi online a 12 de Novembro, escrevo uma crónica semanal (a Rapsódia Boémia - não poderia haver outro nome) e, sempre que tenho mais alguma disponibilidade, vou dando também a minha opinião sobre os álbuns que vão saindo. No fim de contas, não sobrou muito tempo para voltar a escrever aqui.


Para vos falar a verdade, nem sabia bem o que vos dizer, porque também não sabia ainda o que ia fazer com o blog, obviamente sufocado pelo tempo que dispenso com a NiT. Mas o blog não pode morrer. Afinal de contas, onde é que eu ia escrever sobre os álbuns que David Bowie lançou em 1977? Exactamente.
Que continue o espectáculo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Pink Floyd - "Louder Than Words"

"It's louder than words, this thing that we do.
Louder than words, the way it unfurls.
It's louder than words, the sum of our parts.
The beat of our hearts is louder than words."

Se me dissessem há uns meses que hoje, 9 de Outubro de 2014, eu me levantaria mais cedo da cama, só para ligar a emissão online da BBC Radio e ouvir um tema novo dos Pink Floyd, eu abanaria a cabeça em descrença, olhando para o chão enquanto pensava nas parcas possibilidades para que tal pudesse acontecer. Mas às vezes a vida guarda-nos surpresas onde menos esperamos.

"Louder Than Words" está aí e é o tema de avanço do álbum "The Endless River", que junta 4 diferentes peças musicais, cada uma ocupando um lado do duplo LP. Estas peças foram gravadas em 1993, nas sessões de "The Division Bell", as quais produziram 5 a 6 horas de música (segundo Richard Wright referiu numa entrevista em 1994).
Ao contrário do que eu especulei aqui, não vão aparecer as sessões instrumentais que Richard Wright gravou nos seus últimos anos (essas ficarão guardadas para o próximo álbum a solo de David Gilmour, ou até, quem sabe, para um álbum em nome próprio); não vão aparecer elementos da montagem "Soundscape"; e aparecerão alguns segundos apenas da peça "The Big Spliff", originalmente criada por Andy Jackson.
O que teremos em "The Endless River" é algo totalmente novo, inaudito.


"The Endless River" será - David Gilmour já o garantiu - o capítulo final da História dos Pink Floyd. É um duplo álbum quase integralmente instrumental do trio Gilmour-Wright-Mason. Quase, porque David Gilmour quis fechar a discografia dos Pink Floyd com um olhar para o passado.


"Well, Rick is gone. This is the last thing that’ll be out from us. I’m pretty certain there will not be any follow up to this. And Polly, my wife, thought that would be a very good lyrical idea to go out on. A way of describing the symbiosis that we have. Or had… I didn’t necessarily always give [Wright] his proper due. People have very different attitudes to the way they work and we can become very judgmental and think someone is not quite pulling his weight enough, without realising that theirs is a different weight to pull."
David Gilmour
É isso que ouvimos em "Louder Than Words".



Agora impõe-se a pergunta: será que as expectativas geradas por um novo tema dos Pink Floyd foram correspondidas? A resposta é não. Era praticamente impossível.

Não me interpretem mal, eu adorei "Louder Than Words". Mesmo. A voz de David continua divinal, a sua guitarra está no ponto e o Hammond de Richard conseguiu puxar-me as lágrimas diversas vezes em 4 minutos e meio. Só que "The Division Bell" é o meu álbum preferido de todos os tempos. É o álbum que o meu Pai punha a tocar todos os Domingos de manhã, durante anos a fio. Está na minha cabeça colado com a mesma força que a face da minha mãe e o caminho para a minha casa. É injusto comparar o que quer que seja ao melhor de sempre.

Posto isto, confesso que fiquei um pouco desapontado com o solo de guitarra do David Gilmour, para aquele que ficará para sempre como o último tema da discografia dos Pink Floyd. É demasiado curto. Mas depois lembrei-me que o que ouvi hoje é apenas um radio edit(uma versão curta para passar na rádio), por isso é possível que haja mais 2 minutos de solo no disco.
Mais uma vez, note-se que David é o meu guitarrista preferido de todos os tempos, por isso the bar was set very high para ele também.

Nesta paixão pela música, como em qualquer outra paixão, quando as expectativas são tão altas... É previsível haver dissabores e alguém acabar magoado.
Assim, sem querer ser um desmancha prazeres, vou pôr um pouco de água na fervura (também na minha).
Sejamos realistas, é muito difícil (para não dizer virtualmente impossível) que "The Endless River" supere "The Division Bell". Logo à partida, por 2 motivos: em primeiro lugar, porque TER é o que sobra das sessões de gravação de TDB, TER está para TDB como a Liga Europa está para a Liga dos Campeões; depois, porque o que vamos ouvir é material inacabado e daí ser revelado em forma instrumental.

Reitero que não quero com isto decretar o funeral a "The Endless River". Eu estou em pulgas para ouvir o resto do álbum. Estou convicto que vai ser fenomenal (olha para mim de volta aos superlativos), que vou adorá-lo e que vou ouvi-lo 100 vezes, só contando com o pouco que resta de 2014. Mas tenho que resfriar os ânimos desta paixão, especialmente para mim.

Honestamente, "The Endless River" é uma incógnita para mim. É um álbum duplo com 45 minutos instrumentais. Não sei o que esperar.

Se os Pink Floyd tivessem terminado em "High Hopes", teria sido um final perfeito. Mas se me derem a escolher entre ter ou não ter mais um álbum dos Pink Floyd, ainda que imperfeito, ainda que inacabado, a minha resposta será sempre: "SIM! CLARO QUE SIM! 'tás parvo ou quê, para me fazeres uma pergunta dessas?!".

Às vezes, a vida guarda-nos surpresas onde menos esperamos. E essas são as mais saborosas.
Foi o que me ensinou 2014.
"Let's go with the flow, wherever it goes. We're more than alive."

domingo, 13 de julho de 2014

Nick Mason & Rick Fenn featuring David Gilmour - "Lie For A Lie"

"Give me a lie for a lie"


Na ressaca do anúncio do novo álbum dos Pink Floyd, em que David Gilmour tem estado a trabalhar, falei nos últimos dias dos projectos a solo dos outros membros da banda: Richard Wright e Roger Waters. Quem é que resta? Nick Mason - o baterista.
E porque é que resta? Porque Nick Mason não tem, na verdade, projectos a solo.

Nick Mason é bom rapaz,  é  foi um baterista competente e escreveu o livro mais revelador dos Pink Floyd que já li - "Inside Out: A Personal History of Pink Floyd", que recomendo vivamente. Mas é pouco mais que isso. (Ah e percebe muito de carros também. Eu confesso que não percebo nada.)
Hoje em dia, para além de fazer as partes de bateria do novo álbum dos Pink Floyd (será que são dele?), pouco mais Nick Mason poderá acrescentar à banda. E se é assim hoje, no passado pouco diferia.
Musicalmente, em estúdio, Nick nunca acrescentou nada aos Pink Floyd (embora tenha alguns créditos de autoria nas composições conjuntas). Ao vivo, desde a digressão The Wall Live que Mason tem outro baterista para o ajudar a completar as suas próprias partes.
A propósito, fiquei muito contente quando o vi no Live 8 com os Pink Floyd a tocar bateria sozinho, mesmo tendo em conta os vários pregos que deu. Esse é que é o apelo da música ao vivo.

Resumindo, Nick Mason como músico é muito fraco (ou nulo) e como baterista é muito limitado.

E no entanto, Mason apresenta na sua discografia 2 álbuns a solo. Pois. Como é óbvio, o input de Nick em ambos os álbuns é proporcional ao seu talento para a composição: muito limitado.
Se o 1º álbum ("Fictitious Sports" de 1981) foi essencialmente o trabalho solitário da artista jazz Carla Bley (que nem sequer aparece na capa do álbum), o 2º álbum ("Profiles" de 1985) é obra do guitarrista dos 10CC - Rick Fenn.


Mas então porquê é que eles querem dividir os louros com Nick Mason? É fácil: porque podem pôr na capa o nome de um membro dos Pink Floyd e assim as vendas e o interesse na sua música disparam em 1000% (número meigo).
"I've certainly enjoyed working with Rick... I think it's useful and important to change the people you work with. You get so stuck in certain patterns.
You know: Roger will do this and Dave will do that and... well, you can go and make the tea, Nick!"
Nick Mason

Pois. Com os Pink Floyd, Nick já estava relegado a fazer o chá, ficamos sem saber se fez muito mais com Rick Fenn.
Em "Lie For A Lie" - single de avanço de "Profiles" - Rick Fenn ainda teve um bónus: quem canta é nem mais nem menos o vocalista dos Pink Floyd - David Gilmour. Ainda por cima, David aparece no vídeo promocional do tema, que está em cima. O áudio nesse vídeo é muito manhoso, por isso se quiserem ouvir o tema com maior fidelidade, façam-no aqui.



Como estávamos nos anos 80, as versões estendidas para os singles de 12'' eram costumeiras. Se gostaram do tema, fica aqui também a versão mais comprida:



O resto do álbum "Profiles" é quase inteiramente instrumental (excepto a faixa "Israel") e, para ser sincero, de muito pouco interesse. Confesso que nunca consegui ouvi-lo na íntegra, porque vou passando de faixa sucessivamente ao fim de 1 ou 2 minutos até que chego ao fim.
Em suma, é uma audição quase penosa. Salva-se "Lie For A Lie", que é um tema Pop agradável, mas pouco mais que isso.

Ah e a capa do álbum, com aquele homem vestido com um maillot e uma máscara de corvo pretos... Perturba-me.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Roger Waters - "Amused To Death"

"No tears to cry, no feelings left. This species has amused itself to death."


Depois de falar nos Pink Floyd de David Gilmour (na prática, é isto) e de Richard Wright, chega a vez de Roger Waters.

Eu sei, nos últimos tempos tenho batido muito no tio Roger aqui no blog e ainda não dei a devida atenção à sua obra a solo. Mas isso não quer dizer que não goste dele.
Falar em Roger Waters é falar num dos maiores génios da história do Rock, criador dos álbuns conceptuais mais superlativos algumas vez gravados. É da cabeça deste génio criativo que saíram as ideias (não necessariamente toda a música) que resultariam em "The Dark Side Of The Moon", "Animals" e "The Wall". Não é de somenos.

Roger Waters é, de facto, um génio criativo. O problema de Roger é que o título de génio criativo lhe foi atribuído... por ele próprio. Reza a História que esta auto-indulgência pode ser extrapolada toda a sua personalidade.
Para ser friamente honesto, Roger era - pelo menos até há bem pouco tempo - o tipo de pessoa com quem nenhum de nós gostaria de se cruzar.
Se há um adjectivo que vemos repetidamente atribuído a Roger, esse será o de Prick (tradução livre: anormal/idiota/cabrão). "Roger is a prick", disse um dia David Gilmour, para explicar porque é que não falava com ele há 15 anos. "Just another prick in the wall" (esta tem piada), chamou-lhe recentemente este colunista, devido às suas posições anti-Israel.
Eu sou mais simpático e chamar-lhe-ia o maior egomaníaco da história do Rock, com tanto de mérito, como de idiota. Não poderá ter sido fácil trabalhar com ele, especialmente na sua fase mais obnóxia, durante a 2ª metade da década de 70 e 1ª da década de 80.

Foram precisos muitos anos para amansar a fera. Só recentemente parece ter enterrado o machado de guerra com David, tendo até marcado presença num evento de caridade promovido por Gilmour, favor que este retribuiu ao aparecer num concerto de Roger, para uma lendária rendição de "Comfortably Numb".

Mas o facto de eu o criticar e de até me pôr ao lado dos seus companheiros dos Pink Floyd devido à sua personalidade detestável, nada disso significa que eu não me identifique com o que escreveu Roger. Porra, se há alguém que conseguiu pôr em disco os meus medos, os meus dilemas e as minhas lutas internas, esse alguém é Roger Waters (e Bruce Springsteen, obviamente).

E ainda assim, nunca dediquei grande atenção à obra a solo de Roger Waters aqui no blog. Poderia ser obra do acaso, mas não é. O problema é que a obra a solo de Roger não é assim tão boa quanto isso.

Em meados dos anos 80, Waters estava deserto por se ver livre dos restantes membros dos Pink Floyd, por achar que eles já não contribuíam nada para as suas criações. Saiu assim dos Pink Floyd em 1984, alegando que estes eram já uma "força esgotada" (estou a citar) e ingenuamente presumiu que a banda tinha terminado, por não fazer sentido sem a sua presença. A vaidade sair-lhe-ia cara, uma vez que o futuro provaria que não poderia estar mais enganado e os Pink Floyd lançariam mais 2 3 álbuns de grande sucesso.

Se houve alguém que sofreu com a separação dos Pink Floyd, esse alguém foi Roger Waters. Sem David Gilmour, sem Richard Wright, músicos que ele considerou dispensáveis e esgotados, as ideias de Roger nunca mais puderam ser materializadas em música que o público quisesse ouvir.
Roger foi buscar Eric Clapton, Jeff Beck e Andy Fairweather Low para fazer de David Gilmour, mas nenhum deles tapou os buracos que ele próprio abrira com o seu ego. Uma pena. E por que não, uma lição para a vida de todos nós.

Nesta matéria eu falo à vontade, uma vez que a discografia de Roger Waters foi a primeira que eu conheci a fundo, de todos os membros dos Pink Floyd a solo.
No meu top de álbuns a solo dos Pink Floyd (vá lá, não façam essa cara, é óbvio que eu tenho isto categorizado e ordenado), em primeiro vêm "On An Island" de David e "Wet Dream" de Rick, quase ex aequo e só depois surge "Amused To Death" de Roger.



"Amused To Death" é o 3º álbum a solo de Roger Waters (o 4º, se contarmos com a colaboração com Ron Geesin em 1970) e o último a ser lançado até hoje; já remonta a 1992, já lá vão 22 anos.

Esqueçam as melodias. Em "Amused To Death", elas são inexistentes, ou estão tão difusas na quantidade torrencial de efeitos sonoros (explosões, comentadores, telefones, entrevistas, etc etc), que são praticamente imperceptíveis. Valham-nos um Jeff Beck e um Patrick Leonard em grande forma, que nos vão dando alguns laivos de musicalidade aqui e ali.

Na maior parte do tempo, o tio Roger tem coisas para dizer e quer que vocês ouçam. Estamos no início dos anos 90 e a televisão assume um papel mais importante que nunca na sociedade.
Guerra do Golfo é transmitida em directo para grandes audiências, Roger Waters não concorda e, como não poderia deixar de ser, quer falar sobre isto. Mais uma vez, muita política.

"Amused To Death" marca o culminar de um ciclo que começou em "The Wall", continuou em "The Final Cut" e prolongou-se pela discografia a solo de Waters ("The Pros And Cons Of Hitchicking" e "Radio K.A.O.S."), ciclo esse que eu chamo de purificação de Waters (grande trocadilho). À medida que Roger foi ganhando poder, a sua música foi ficando cada vez mais insípida, com cada vez mais foco nas palavras e menos (ou nenhum) na melodia.

Faltam as melodias, mas isso não significa que este álbum não seja capaz de nos tocar. E mais: que este não seja um grande álbum; que é. Mas poderia ser muito melhor e esse é que é o problema.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Richard Wright - "Mediterranean C"



Parece que é desta: o Verão está aí em força. Já não era sem tempo.
Como tal, hoje vou falar de um dos meus álbuns de Verão preferidos. O álbum dá pelo nome de "Wet Dream" e é o álbum de estreia de Richard Wright - esse mesmo, o teclista dos Pink Floyd.

Fazendo um trocadilho com a língua inglesa, diria que "Wet Dream" shows the Wright way; isto é, o álbum mostra a forma de fazer música segundo Richard Wright. Aqui não há espaço para poesia profunda e confessional, ou histórias de vida e de sofrimento. Pode-se dizer que é o antagonismo do que é a música, por exemplo, segundo Roger Waters. Pode-se dizer também que estes dois estilos são, no fundo, complementares; e que por isso é que a música dos Pink Floyd resulta tão bem. Mas isso é outra discussão.


"Wet Dream" é um álbum num registo mais Jazz-Rock, com forte carga instrumental: dos 10 temas, 6 são instrumentais e 4 têm (lindíssimas) faixas vocais de Rick. Aqui, tudo é melodia, tudo é ambiance, tudo nos sugere a calma e o azul do céu e o azul do mar (ui, daqui a pouco temos aqui o André Sardet).
"Wet Dream" é o típico álbum de música ambiente, que nos permite desligar o cérebro da música, concentrar a nossa atenção na paisagem (ou no meu caso - no trabalho) e desfrutar das pinturas melódicas que nos entram pelo ouvido.

É verdade: Richard vai cantando umas coisas de vez em quando e a sua voz soa lindamente. "I don't want to fight no more tonight.", suspira Wright em "Agaisnt The Odds" (não confundir com a balada de Phil Collins). Ok, é um tema que ele terá escrito quando estava chateado com a mulher, mas dificilmente se qualifica como poesia confessional como a que estamos habituados a ouvir com os Pink Floyd (escrita por Waters, naturalmente). Mas nada disso importa; na verdade, pouca é a atenção que damos ao que Richard canta. Imediatamente somos absorvidos pelos longos solos de guitarra, de saxofone, de teclado, ou de flauta. Como disse em cima, aqui, o ambiance é tudo.

A história de "Wet Dream" é simples e sem especial interesse. Depois da digressão de "Animals" (In The Flesh Tour de 1977) e dos seus percalços, os sumos criativos dos membros Pink Floyd estavam em alta. Enquanto Roger Waters pensava e criava o conceito do próximo álbum da banda ("The Wall"), David Gilmour concentrou-se no seu primeiro álbum a solo (o homónimo "David Gilmour" sairia em 1978) e poucos meses depois, Richard Wright lançaria também o seu primeiro trabalho em nome próprio - "Wet Dream".
O problema desta dispersão de atenções foi que (como o próprio Roger se queixou - e com razão), os sumos de David e Rick secaram e quando chegou a altura de gravarem "The Wall", era muito pouco o material que tinham para trazer para cima da mesa dos Pink Floyd. Mas isso é outra discussão ainda.

No fundo, "Wet Dream" foi um esforço solitário de Wright, que escreveu música e letra (quando aplicável) para todas as composições, menos para "Against The Odds", que escreveu em conjunto com (adivinhe-se) a sua mulher.
O álbum foi virtualmente ignorado na altura, não entrando sequer nas tabelas dos mais vendidos. Com o tempo, ganharia alguma reputação nos círculos dos fãs dos Pink Floyd, sendo hoje bastante difícil de encontrar (eu que o diga, que só tenho a versão em CD), uma vez que está há muito descontinuado.

Richard Wright tem estado na ordem do dia, devido ao novo álbum dos Pink Floyd que aí vem e que conta com as suas últimas gravações. Tal como "Wet Dream", espera-se que "The Endless River" tenha forte carga melódica e seja essencialmente instrumental. Assim, se queremos antecipar como poderá ser o álbum que nos chegará no final do ano, a melhor aposta deverá ser ouvir "Wet Dream" e este "Mediterranean C".

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Pink Floyd - "Coming Back To Life"

"I took a heavenly ride through our silence
I knew the moment had arrived
For killing the past and coming back to life"
Hoje era para vos vir aqui falar de um fim-de-semana épico, onde tive o privilégio de presenciar um serão de concertos com Soundgarden e Black Sabbath, no Hyde Park em Londres, que entrou directamente para as noites mais gloriosas da minha vida.

Mas não.

Tudo o que se passou em Hyde Park foi pulverizado pela notícia que recebi quando estava a caminho de casa, sentado no piso superior de um qualquer autocarro londrino, às 3 e 40 da manhã de Sábado:

Os Pink Floyd vão lançar um novo álbum!!!

Repito:

OS PINK FLOYD VÃO LANÇAR 
UM NOVO ÁLBUM!!!

É verdade. Isto deve ser a melhor notícia de sempre, desde que Rui Costa foi apresentado no Benfica no Verão de 2006.
Quem diria? Eu não poderia imaginar uma coisa destas, de certeza.
Bem, na verdade, até já tinha pensado que seria possível fazer este álbum, mas nunca pensei que se concretizasse. Mas já lá vamos.

Antes de mais, vamos aos factos que já conhecemos.
Tudo começou com um tweet de Polly Samson, esposa de David Gilmour e co-letrista da banda no (fabuloso) álbum "The Division Bell":

Estava assim confirmado o regresso à vida dos Pink Floyd.



E estava também desvendado o mistério desta fotografia, que apareceu na internet no início deste ano pela mão de Durga McBroom (que faz backing vocals nos Pink Floyd desde a segunda metade dos anos 80) e que fazia adivinhar um novo álbum a solo de David Gilmour. Esse álbum a solo vai chegar mas, na melhor das hipóteses, só lá para 2015.


De repente, a internet entrou em histeria. E não era para menos.
20 anos depois de "The Division Bell", numa altura em que todos os fãs já davam como certo o fim da banda, aparece este oásis. Aliás, não é um oásis, mas sim um rio - um rio sem fim.
A história de "The Endless River" é contada em vários actos, em diferentes períodos temporais. Fica então aqui a história, conforme vista por mim.

O 1º Acto de "The Endless River" remonta às sessões de gravação de "The Division Bell", em 1993/1994. Na altura, Nick Mason confessou que a banda tinha gravado material suficiente para 2 álbuns, sendo que o primeiro lote fora lançado em "The Division Bell" e o segundo consistia em material instrumental, nascido de improvisações dos Pink Floyd no estúdio, o qual baptizou de "The Big Spliff". Algumas dessas improvisações devem aparecer na compilação de outtakes em baixo:



Nick revelou que a banda tinha intenção de lançar "The Big Spliff", mas o projecto nunca foi para a frente e desde então que os fãs dos Pink Floyd viveram aguados com este lote de instrumentais.
A única fracção que se pensa fazer parte deste projecto e que viu a luz do dia foi uma colagem de sons com mais de 20 minutos de duração, que os Pink Floyd usavam para abrir os seus concertos na digressão de "The Division Bell".
"Soundscape" - como foi adequadamente baptizado - seria mais tarde incluído na versão cassette do álbum ao vivo "PULSE", lançado em 1995. Para vossa curiosidade, fica também aqui:



Entretanto, foi recentemente anunciada uma caixa de luxo de "The Division Bell" (que me chegou hoje às mãos - oh happy days!) e parecia ser a oportunidade perfeita para "The Big Spliff" ser finalmente libertado. Mas para desgosto dos fãs dos Pink Floyd (e meu, obviamente), that was not to be*.
*gosto sempre de citar Take That num post.

Em todo o caso, a caixa de "The Division Bell" é um filão de tesouros e é para mim o produto musical mais perfeito desde o duplo DVD "Queen Live At Wembley Stadium", lançado em 2003 (um dia falarei disso).
Deixo-vos aqui algumas imagens desta maravilha:




Passemos então para o 2º Acto de "The Endless River".
Quando Richard Wright morreu em 2008, sabendo da sua importância para a sonoridade dos Pink Floyd e da sua forte amizade com o líder da banda - David Gilmour, ficou claro para mim que os Pink Floyd tinham acabado oficiosamente naquele dia.
No entanto, houve uma revelação no dia da sua morte que me despertou o interesse: Wright passara os últimos meses da sua vida a gravar material novo, para um álbum instrumental. Neste cenário, seria expectável que este material fosse entregue a David - amigo e companheiro musical de sempre de Rick.
Mas o que poderia fazer David com este material? Terminar, sozinho, um álbum "a solo" de Richard Wright? Incorporar o material de Richard no seu próprio disco a solo? Não fazia muito sentido. E restaurar os Pink Floyd, para uma última homenagem a Rick? Isso já fazia mais sentido. Mas não, não podia ser; afinal, David fazia sempre questão de ser peremptório na resposta negativa à questão do regresso dos Pink Floyd.
Entretanto, fez-se silêncio.

O 3º Acto desta história teve lugar desde há um ano para cá, no estúdio particular de David Gilmour, quando este decidiu finalmente pegar no material de "The Big Spliff" e (presumo eu) nas restantes gravações deixadas por Richard Wright e dar-lhe forma, para um álbum de despedida, agora sim, dos Pink Floyd.

Originalmente, "The Endless River" estava para ser um álbum instrumental de música ambiente, seguindo a linha temática de "The Big Spliff". No entanto, desde há um ano que David Gilmour e Nick Mason têm feito overdubs nas gravações originais, acrescentando faixas vocais em pelo menos um dos temas (o que está a ser gravado na foto de estúdio em cima).

Como seria de esperar, Roger Waters não estará presente em "The Endless River". E não é porque Roger não queira, mas sim porque David não está interessado.
É pena, mas é melhor assim. Senão vejamos: o último laivo de musicalidade de Roger Waters já remonta a 1979 ("The Wall") e o seu último álbum data de 1992 ("Amused To Death" foi lançado há 22 anos). Por muito que eu goste dele e admire o seu trabalho passado, ele dá mostras de estar criativamente terminado (embora adorasse ser provado do contrário, com aquele álbum a solo de Roger que nunca mais aparece).
Desde então, Roger deixou-se inebriar pela política, mas especializou-se na recriação de grande obras suas do passado. Nisso, faça-se justiça, ele é mestre.

Por outro lado, embora muito menos profícuo que no seu auge, David Gilmour vai fazendo uma gestão inteligente da sua carreira e lançando álbuns muito bons (como o "On An Island", a solo, em 2006), ou excelentes (como "The Division Bell" em 1994).
Isto não significa que eu não gostasse de os ver juntos novamente, mas a verdade é que é extremamente improvável.

Nesta altura, não se sabem ainda mais detalhes, mas o álbum já foi confirmado oficialmente para Outubro deste ano, esperando-se mais novidades no fim do Verão, provavelmente no que diz respeito à capa e aos formatos em que será lançado.
A minha aposta, a avaliar por aquilo que ouvi em "The Division Bell" e "On An Island", é que "The Endless River" vai ser um álbum do caralhão.

Para já, o tempo é de alegria. Venha então daí "The Endless River", que eu entretanto vou me entretendo com a edição de luxo do meu álbum preferido dos Pink Floyd de sempre. "Ah, mas como é que podes dizer isso? O Roger Waters nem está nesse álbum!" Olhem para a minha cara de preocupado:


"I took a heavenly ride through our silence
I knew the waiting had begun
And headed straight...into the shining sun"