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sábado, 7 de setembro de 2019

Bruce Springsteen — "The Promised Land" (Live at Passaic '78)

"There's a dark cloud rising from the desert floor, I packed my bags and I'm heading straight into the storm"


1. PIÈCE DE RÉSISTANCE

Já devem ter ouvido muitos contos e lendas acerca dos concertos de Bruce Springsteen. São todos verdade. Mas de todos os concertos, há um acima de todos os outros. E pluribus unum, como diz o emblema do Benfica; o unum aconteceu a 19 de Setembro de 1978 no Capitol Theater em Passaic, New Jersey e foi o primeiro de três concertos de "regresso a casa" para Bruce. Ele aparece na melhor forma de toda a sua carreira e com o melhor lote de canções, a promover o álbum "Darkness On The Edge Of Town".

A melhor noite de toda a carreira de Bruce Springsteen e uma das melhores gravações ao vivo de toda a história do Rock, que é finalmente editada oficialmente pelo Boss. O concerto foi transmitido nas rádios americanas, sendo mais tarde editado profusamente, mas em forma de bootleg, com o nome "Pièce de Résistance". "Pièce de Résistance" vem do francês e significa "obra-prima maior do artista" e não poderia haver nome melhor para esta gravação que resume todas as lendas já alguma vez contadas sobre os concertos de Bruce Springsteen. Ainda que tenha sido originalmente lançada em zona cinzenta da legalidade, a gravação ganhou tanta reputação, que se tornou num dos bootlegs mais vendidos de sempre e com ela Bruce ganhou fama de ser um animal de palco. 41 anos depois, Bruce decide recuperar as mastertapes e tirar o melhor desta lendária gravação. Tempo por isso de recordar como este bootleg mudou a minha vida há 10 anos e como deixou uma marca indelével para tudo o que se passaria a seguir.

2. THINGS THAT CAN ONLY BE FOUND IN THE DARKNESS ON THE EDGE OF TOWN

No final de 2008, a minha vida dava uma cambalhota completa. Ao mesmo tempo que acabava o curso no Técnico e começava uma vida rotineira de trabalho, estava prestes a sair da relação mais sólida e duradoura da minha vida, um amor que durou os 5 anos da minha estadia no Técnico. É um período que hoje relembro com enorme carinho e um passado com o qual estou em perfeita paz. Mas nem sempre foi assim. Nos meses que se seguiram àquele rompimento, vivi a agonia da dúvida se tinha feito o que era certo para mim. Não era uma agonia aguda, um sentimento que me fizesse disparar a marcação de um número de telefone. Era sim um ruído que se arrastava no dia-a-dia, uma interferência no sinal da minha rádio, um grão na imagem que persistia e teimava em não sair. Estava confuso, perdido e à procura de respostas sobre as grandes questões da vida. Nesse período, descobri Bruce Springsteen.

Já me conhecem, não sou de deixar os superlativos caídos no chão. Por isso vou ser directo: Bruce Springsteen salvou a minha vida entre 2008 e 2009, num exorcismo que começou em Dezembro de 2008 e culminou no dia 2 de Agosto de 2009, num Monte do Gozo a rebentar pelas costuras em Santiago de Compostela. Foi a primeira vez que vi Bruce Springsteen ao vivo e uma noite que definiu a minha vida e tudo o que eu queria dela daí em diante. Emoção. Honestidade. Seja ela em beleza, ou em bruteza. É isso que Bruce dá ao público nos seus concertos, porque é exactamente aquilo por que as pessoas estão esfomeadas.

Durante este período de exorcismo, havia um CD que rodava em loop no meu carro. Era a gravação do primeiro set do primeiro concerto de Passaic. Tudo o que eu tinha que ouvir de Bruce naquele momento estava condensado ali. Bruce tinha todas as respostas que eu procurava para as grandes questões da vida. Foi ele que me fez perceber porque é que eu tinha saído. E o que é que me esperava a seguir.
Saí, porque quis ver o que havia na escuridão da orla da cidade. E como Bruce avisou, tive que pagar o preço de querer coisas que só podem ser encontradas na escuridão da orla da cidade. Leiam aqui o que entenderem.

3. A LIGHT IN THE DARKNESS

Naquela gravação ao vivo de Passaic, Bruce enquadrou tudo o que eu sentia naquela altura. Deu nomes aos lugares metafóricos que existiam na minha cabeça ("the edge of town"). Deu nomes aos sentimentos de culpa que me assolavam ("When the night's quiet and you don't care anymore / Your eyes are tired and someone at your door / And you realize... you wanna let go") e resumiu o espírito da minha viagem de redenção, quando introduziu "Darkness On The Edge Of Town" em jeito de pregador: "At one time or another, everybody's gotta drive through the darkness on the edge of town".

Mas o conteúdo era apenas uma parte e não a parte fundamental desta gravação catártica. A forma, aqui, é tudo. A paixão que Bruce imprime nesta actuação é arrepiante. Desde a contagem para "Badlands" que entramos numa auto-estrada sensorial, onde nos agarram pelos colarinhos e somos submetidos a chuveiro de emoções que tão depressa nos imprimem excitação ("Badlands"), raiva ("Streets Of Fire"), alegria ("Spirit In The Night"), ambição ("Thunder Road", "The Promised Land"), desespero ("Meeting Across The River") e arrepios, quando Bruce Springsteen pergunta à audiência "New Jersey, are you ready to prove it all night?" e depois abre a guitarra. Tudo num espaço de 80 minutos.

4. MEETING ACROSS THE RIVER


O tempo passou e eu procurei refazer a minha vida, sempre carregando a tocha do Bruce no meu dia-a-dia. Foram os anos áureos do blog "Escolha Musical do Dia", que na altura escrevia quase diariamente (como era suposto) e que, não por acaso, tinha uma avalanche de posts de Bruce Springsteen. Para meu gáudio, em 2012 Bruce vem a Portugal, ao Rock In Rio, e eu tenho a oportunidade de o voltar a ver.

Nesta altura, uma "ex" que tinha sido uma má ideia desde o início (não é a do segundo capítulo, obviamente), tenta uma reaproximação com o pretexto de que queria também ver o Bruce Springsteen no Rock In Rio e como tal, pediu-me para eu a ajudar a preparar o concerto. Eu gravei-lhe o CD do Passaic e acordámos um encontro à beira rio, que eventualmente iria reatar a má ideia inicial.

Na semana seguinte, escrevi o mail:
"De: Nuno Bento
Enviado: 25 de maio de 2012 19:22
Para: (...)
Assunto: "Stuff this in your pocket, it will look like you're carrying a friend" 
Olá! Conforme te tinha prometido, aí está o alinhamento do CD que te gravei do tio Bruce, uma das minhas gravações ao vivo preferidas de sempre (só atrás do Live At Wembley '86 dos Queen): 
1. Intro (0:31)
2. Badlands (5:00)
3. Streets Of Fire (4:47)
4. Spirit In The Night (6:50)
5. Darkness On The Edge Of Town (4:14)
6. Independence Day (5:29)
7. The Promised Land (5:23)
8. Prove It All Night (9:30)
9. Racing In The Street (8:09)
10. Thunder Road (5:28)
11. Meeting Across The River (3:17)
12. Jungleland (9:39) 
Como podes ver pelo site, este CD é apenas o 1º set de um concerto de quase 4 horas que o Bruce deu na sua terra Natal (New Jersey) em 1978. Na altura, ele dava dois "sets" de hora e meia e depois voltava para mais meia-hora/uma hora de encores. Aquilo nunca mais acabava! 
No sábado não acabei de te contar a minha "história" sobre este concerto: há mais ou menos 4 anos fiquei apanhadinho pela música do tio Bruce e por acaso dei com este concerto. Foi daquelas coisas que mudou a minha vida. Durante 2 anos, esteve em constante repeat no meu carro e arrisco dizer que foi o álbum que mais ouvi (de sempre) no meu carro! Ok, eu tenho um uso muito fácil de superlativos, mas é verdade! Mudou a minha vida! Por isso, quando te gravei o CD, foi como se de uma "entrega" de algo importante e pessoal se tratasse. Agora que já foste apanhada também pela mística do tio Bruce, achei que estavas preparada para ouvir isto! 
E pronto, já tens aí tudo o que precisas para saber tudo do tio Bruce. O trabalho não me deixou enviar isto mais cedo, mas ainda vais bem a tempo!
Desejo-te um bom concerto e, uma vez que vais incentivada por mim, espero que gostes! 
Beijinhos,
Nuno"
Ai, ai, ai, Nuno. Que tontinho. O concerto do Bruce foi espectacular, como é óbvio. O retomar da má ideia é que foi um desastre. O que vale foi que a seguir a uma série de desastres, que culminaram num acidente de automóvel em Setembro desse ano, deu-se início à caminhada que me iria levar para a terra prometida.

5. THE PROMISED LAND


A continuação da história está contada aqui (por escrito) e aqui (na rádio). O caminho para a terra prometida continua. Sempre ao som do Bruce.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Tame Impala - "Apocalypse Dreams"

"It feels so real in my sleep, never held something so close I couldn't keep"




Na semana passada, aleguei que "fecharia" o ano de 2012 neste post. Not quite. Antes disso, tenho ainda que fazer algumas menções honrosas, de bandas, álbuns e temas que não entraram nas selectivas escolhas do ano: Álbum original, Artista no activo, Revelação/DescobertaBanda mais ouvida e Tema do ano.

Começo hoje com um tema de mais um álbum que me abanou em 2012, com a particularidade de ter sido lançado... em 2012. Aliás, este não é meramente "um" tema, é mais "o" tema que me abanou e me agarrou aos Tame Impala. Falo deste fantástico "Apocalypse Dreams", que podem ouvir em cima.
Aqui, o termo fantástico é usado num sentido abrangente e pode ser entendido em múltiplas dimensões, incluindo aquela "dimensão paralela" para onde se pode ir em determinadas condições... ingerindo determinadas substâncias (não sei se me estou a fazer entender). Enfim, aquela dimensão para onde o Syd Barrett foi muitas vezes; tantas vezes, que certo dia ficou lá preso e nunca mais conseguiu voltar.

Artwork de "Apocalypse Dreams", lançada em download gratuito a 14 Julho de 2012, como primeira amostra de "Lonersim"


Para quem não conhece, os Tame Impala são uma uma banda australiana de Rock Psicadélico (segundo os próprios, uma banda que faz psychedelic hypno-groove melodic rock music), cujo primeiro álbum foi lançado em 2010 ("Innerspeaker"). A dica foi-me dada por uma amiga, algures numa caixa de comentários deste blog e a aposta foi claramente ganhadora. Este registo psicadélico é totalmente a minha praia.

"This could be the day that we push through, it could be the day that all our dreams come true... For me and you"

A música que ouvimos em "Lonerism" e particularmente neste meu favorito "Apocalypse Dreams" é uma curiosa amálgama da sonoridade de uma banda Indie dos anos 00, dos Pink Floyd circa-"Piper" e dos The Beatles circa-"Pepper" (note-se que o paralelismo entre estes dois álbuns, ambos lançados em 1967, é maior do que se possa pensar). Tudo isto, acompanhado pela inconfundível voz de... John Lennon (espera aí, o Lennon foi assassinado em 1980) Kevin Parker, também ele o grande criativo da banda.

A sério: que raio de acontecimento genético terá sucedido com Kevin Parker - o vocalista dos Tame Impala, que a voz dele é exactamente igual à do John Lennon? Principalmente àquele irresistível timbre arrastado do Lennon mid-60's, quando este estava encharcado em drogas? Incrível. Só mesmo ouvindo, para acreditar.
Terá o John Lennon ido à Austrália passar umas férias e deixado legado? Mas Lennon foi morto em 1980 e Parker nasceu em 1986, portanto não, não pode ser. A não ser que... Oh well.
A verdade é que fiquei completamente siderado com a voz do puto.

"Everything is changing and there’s nothing I can do..."

"Lonerism" é, de facto, um mostruário daquilo que de bom ainda se pode fazer no indie rock. Uma verdadeira maravilha, um dos álbuns mais entusiasmantes de 2012. Entusiasmante, porque ouvir um grupo de miúdos a fazer música desta, faz-me perceber que há esperança para o Rock.



O panorama da música está em mudança. A mudança é contínua, mas hoje, numa época em que tudo é feito e consumido a grande velocidade, essa mudança é feita a um ritmo ainda maior, num vórtice vertiginoso. O problema é que tenho dificuldade em ver uma direcção que me agrade neste vórtice e não há nada que possa fazer para mudar este panorama. Nada... a não ser levantar os braços sempre que sou abanado por algo novo.

A música dos Tame Impala é razão mais que suficiente para me fazer levantar os braços e ver uma luz. Uma luz de cores em tons de amarelo, verde, lilás e vermelho...
Deposito enormes esperanças neles, esperança que me tragam muito mais música para eu sonhar às cores... muito mais "Apocalypse Dreams".

Poster promocional da digressão britânica em 2012. Medusas psicadélicas para promover os Tame Impala, how appropriateDos melhores, mais fixes, mais fantásticos (pun intended) posters que já vi.
Está estava à venda neste site por 25$ (!!!), mas o stock foi trucidado em poucas horas.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Bruce Springsteen - "Rocky Ground"

"We've been traveling over rocky ground, rocky ground
There's a new day coming"



A próxima Escolha musical de 2012 é um habitué aqui no blog. Figura marcante da minha vida nos últimos 5 anos e vencedor em várias "categorias" neste ano, falo-vos de Bruce Springsteen que, com este post, soma já 15 entradas no blog.
Mesmo não sendo ouvido com tanta consistência como noutros anos, segundo a minha revisão, em 2012 Bruce foi o Artista no activo do ano; em grande parte devido a ter dado o Concerto do Ano (no Rock In Rio Lisboa) e a ter lançado o Tema original do ano ("Land Of Hopes And Dreams"), no seu álbum "Wrecking Ball".

"Wrecking Ball" pode ter perdido para "Shields" na categoria de Álbum original do ano, mas nem por isso Bruce Springsteen deixou de ter um papel importante no meu quotidiano, em 2012.
Uma vez que já tinha escrito um post sobre "Land Of Hopes And Dreams" (na véspera do concerto no Rock In Rio), hoje deixo aqui aquele que foi "o outro" grande tema do álbum.



"Rocky Ground" é um dos temas mais arriscados da carreira de Bruce Springsteen. Esta ofereceu-nos um filão quase inesgotável de boa música, mas sem grande diversidade. Bruce é muito forte no seu registo, mas arrisca pouco para além das suas incursões mais carregadamente folk.
Com "Rocky Ground", Bruce vai ao hip-hop (que heresia!) buscar uns loops e até põe um rap pelo meio; vai ao gospel buscar as vozes para uma paisagem harmoniosa edificante. No papel, nada disto parece ter a ver com Bruce Springsteen, mas a verdade é que em "Rocky Ground", esta mistura resulta.

Resulta ainda melhor no álbum "Wrecking Ball", com a passagem do fade-out gospel de "Rocky Ground" - tema de lamento em tempos difíceis, para o início a capella de "Land Of Hopes And Dreams" - hino de esperança. Os dois grandes temas de "Wrecking Ball" e dois temas que ilustram, e de que maneira, o meu 2012.

Se pensarmos no assunto, é incrível como a música pode ter um impacto tão grande nas nossas vidas:  conduz o nosso estado de espírito; ajuda-nos a levantar quando estamos no chão.
Mas mais que a ajuda pessoal, a música serve ainda como elo de ligação interpessoal: fortifica as amizades magoadas; dá-nos a conhecer amigos que ainda não o eram.
O concerto de Bruce Springsteen e da E Street Band no Rock In Rio foi um dos pontos mais altos do ano e foi tudo aquilo que referi. Para o bem e para o mal.

Neste post, já descrevi com bastante rigor aquilo que, para mim, foi ver Bruce Springsteen ao vivo no meu país. Mas não resisto a deixar só mais uma nota acerca da "experiência" que é um concerto da E Street Band e da autenticidade de Bruce.
James Hetfield - vocalista dos Metallica (banda de Thrash Metal, ou seja, longe do estilo de Bruce) - fala sobre a importância de ser verdadeiro na sua música:



"We went to see Bruce Springsteen the other night. I'm not the biggest fan of his music, but I watched him live and..." 
(James arregala os olhos) 
"My God, he means it!
He really means it! It's in his heart, it's in his face, it's in his eyes! 
You see him and you go.. WOW! He could go forever!"

A verdade. É isso que procuro na música de Bruce Springsteen. Não a verdade sobre Bruce, mas a verdade sobre mim. Como disse o Presidente dos EUA - Barack Obama (outro grande fã do Boss) - quando laureou Bruce Springsteen nos Kennedy Center Honors, citando o próprio:
"I’ve always believed that people listen to your music not to find out about you, but to find out about themselves."

Ao longo dos anos que a música de Bruce me acompanhou, muito já descobri sobre mim e 2012 não foi excepção. Para o bem e para o mal.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Grizzly Bear - "Speak In Rounds"

"Step back just once, learn how to be alone"



Depois do longo hiato, o blog regressa hoje para o que eu espero que seja uma ponta final de 2012 e um 2013 em força. Os últimos meses foram de grande azáfama e espero, também nesse sentido, ter novidades em breve. Para já, voltemos ao clássico modelo da Escolha musical do dia.

Estamos no fim do ano e é por isso tempo de balanço. No ano passado (2011) não tive oportunidade para fazer essa analepse aqui no blog, mas na última semana de 2010 fiz nestes posts a revisão do que ouvira nesse ano.
Como na altura referi, raramente a música que eu mais ouço num determinado ano concorre com a música que se fez nesse ano. Claro que há excepções e é nesse sentido que eu, desde os meus 14 anos,  em jeito de revisão, sistematizo os mais ouvidos do ano, dividindo as "escolhas musicais do ano" em várias categorias.
Sem mais demoras, passemos então ao Álbum original do ano (ou seja, o álbum que mais gostei de 2012, em 2012): "Shields" dos Grizzly Bear.


Tinha começado a escrever um texto a tecer loas a "Shields", mal o ouvi pela primeira vez no início de Setembro. Na altura, pensei logo que isto era o melhor que os Grizzly Bear já tinham feito. Seria impossível ouvir algo tão bom como isto até ao final de 2012, tinha instantaneamente ouvido o "álbum do ano".
Isto no ano em que um dos meus artistas preferidos - Bruce Springsteen - lançara um álbum novo, um trabalho que até ganhou o prémio de "álbum do ano" atribuído pela Rolling Stone (publicação que classificou "Shields" no 35º lugar).

Mas "Shields" deixara-me estarrecido com aquela sequência de 4 músicas iniciais ("Sleeping Ute" / "Speak In Rounds" / "Adelma" / "Yet Again") e senti uma urgência de revelar ao mundo o meu êxtase. Porém, acabei por me decidir em esperar uns meses, para deixar o álbum amadurecer em mim e, depois sim, emitir um julgamento.

Ao fim de alguns meses, qual é o meu veredicto? Exactamente o mesmo.
Um dos álbuns mais entusiasmantes do ano, "Shields" é um trabalho fabuloso dos Grizzly Bear, mas merece ser mais que isso: merece o epíteto de álbum do ano.

"Shields" mostrou uns Grizzly Bear inventivos como sempre. Para além de todo o virtuosismo técnico e sónico que lhes é reconhecido e que já fora cristalizado em "Veckatimest" (álbum que eu adorei), em  "Shields", a banda de Brooklyn conseguiu superar as minhas expectativas.
Como? Uma palavra chega, para descrever como: coração.

O meu problema com algumas bandas art-house / alternativas de hoje, tão veneradas pelas publicações hipster como a Pitchfork, deve-se precisamente à falta de coração; à falta de sentimentos que me conseguem transmitir.
A ânsia de criar algo de diferente leva a que muitas vezes a música perca o que mais tem de importante: o veículo de um sentimento.
"Play with your fu**ing heart!", já dizia o Bill Hicks.

Este é um conflito que não se aplica ao mais recente trabalho dos Grizzly Bear. Se eles me impressionaram com "Veckatimest" em 2009, em 2012 tocaram-me fundo com "Shields".

O meu momento preferido do álbum surge a meio da já referida sequência inicial, com este "Speak In Rounds".

"Shields" é um álbum com coração. É um álbum que na produção mantém o nível meticuloso, qual peça de relojoaria, mas que a isso acrescenta grandes canções. É o apogeu criativo da banda nova-iorquina.
É o meu álbum "original" de 2012.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Elton John vs Pnau - "Sad"

"Sad... So sad..."



Quando soube que Elton John iria lançar um álbum de remisturas produzidas por um duo de música electrónica, confesso que a minha primeira reacção foi torcer o nariz. Geralmente, não sou apreciador de remisturas. Em primeiro lugar, porque desvirtuam a essência criativa do tema original. Depois, porque esta violação é normalmente feita em virtude de uma componente "dançável", que possa promover a reprodução do tema nas pistas de dança. O que costuma sair destas remisturas electrónicas é um híbrido que não funciona para os seguidores do artista original, nem para os apreciadores da música electrónica. Com algumas excepções, é isto.
Objectivamente, a função das remisturas (falo, obviamente, daquelas que são promovidas pelos próprios artistas originais e habitualmente lançadas nos singles) é comercializar os seus temas noutros mercados, que não o do seu target mais óbvio. Dessa (absurda) necessidade, às vezes saem verdadeiras hecatombes, como o caso da versão de Wycleaf Jean de "Another One Bites The Dust" dos Queen. (Por respeito a mim mesmo, não coloco aqui o link desse assassinato musical. Se quiserem, procurem vocês por vossa conta e risco...)

Voltando a Elton, a História reza que em 2007, enquanto estava preso no trânsito em Sydney, Elton ouviu na rádio "Wild Strawberries" - tema do duo electrónico Pnau, retirado do álbum baptizado com o nome da banda - e o tema chamou a sua atenção. Ao ouvir o restante álbum, Elton proclamou que "aquele era o melhor álbum que ouvira nos últimos 10 anos" e ofereceu aos Pnau um contrato discográfico. A colaboração entre ambos começou no álbum de 2008 dos Pnau "Soft Universe", um álbum com forte input de Elton. Mas Elton tinha guardado para os Pnau um projecto bem mais ambicioso.

O projecto foi desvendado na semana passada e dá pelo nome de "Good Morning To The Night" - um álbum de mashups de temas de Elton John, gravados entre 1970 e 1976. E é um trabalho notável. Mas já lá vamos.
Primeiro, vou ter que sublinhar uma diferença fundamental que faço entre um remix e um mashup: enquanto que o primeiro se limita a "dar uma nova cara" a um determinado tema (eventualmente adicionando alguns elementos novos, mas partindo sempre com base num tema), o segundo combina elementos de diversos temas e resulta num tema completamente novo. Atenção que isto não são são definições semânticas absolutas, são apenas as minhas.

Um álbum de mashups de um grande artista Rock não é uma coisa completamente nova. Já em 2006, os The Beatles (os que ainda estão vivos, mais as famílias dos que já não estão) concordaram com a utilização das fitas multipistas para a criação de "Love" - um álbum de trabalhos totalmente novos, produzidos exclusivamente a partir das gravações originais da banda, com uma única excepção: os arranjos orquestrais em "While My Guitar Gently Weeps". Totalmente novos... ou quase.
Em "Love", os The Beatles jogaram pelo seguro. O álbum foi compilado com um objectivo concreto: servir de banda sonora para o espectáculo "Love" do Cirque de Soleil e quem fez as remisturas foi Sir George Martin - o lendário produtor da banda - e Giles Martin - o seu filho. O resultado foi muito interessante, com novos elementos a sobressaírem de temas que já conhecíamos, com passagens inesperadas feitas por snippets de outros temas, mas com muito poucos riscos assumidos. Curiosamente, "Love" resulta melhor onde os Martin arriscam mais, nomeadamente na passagem de "Being for the Benefit of Mr. Kite!" para o solo final de "I Want You (She's So Heavy)", acompanhado pelos berros de Paul McCartney em "Helter Skelter". Fabuloso. A linha "and tonight Mr. Kite is topping the bill" passou a ser um dos grande momentos da discografia dos The Beatles e não foi ideia de nenhum dos quatro.

O caso de Elton é completamente diferente. O risco aqui é assumido, em jeito de mergulho profundo, como Elton tão bem sabe fazer. Não é ao acaso que a sua carreira é marcada por quase tantos falhanços estrondosos, como por sucessos. Mas isso só acontece porque Elton arrisca e quando o faz, joga tudo. Neste caso, jogou brilhantemente.
Sem meias medidas, Elton deu aos Pnau livre acesso ao seu filão de ouro: o reportório gravado entre 1970 e 1976. Os Pnau evitaram a tentação dos êxitos e ao invés pegaram em temas menos conhecidos do catálogo de Elton, dissolvendo-os em várias matrizes completamente novas. O resultado foram 8 temas surpreendentemente originais, que combinam numa medida idílica a magia das gravações clássicas de Elton, com a face moderna da música electrónica, que assenta que nem uma luva às pistas de dança.
O tema-título "Good Morning To The Night" já é um êxito e o álbum teve uma ascensão meteórica ao 1º (primeiro!) lugar da tabelas de álbuns no Reino Unido. Isto marca "apenas" a primeira vez que Elton lidera esta tabela com um álbum de originais em 23 anos, desde "Sleeping With The Past" de 1989. Depois disso, só mesmo a compilação "The Very Best Of" de 1990 chegou ao topo das tabelas britânicas. Incrível.

Na generalidade, apesar de utilizarem elementos de vários temas (até um máximo de 9 (!!) em "Phoenix"), cada tema de "Good Morning To The Night" toma como inspiração um determinado tema. Por exemplo, "Good Morning To The Night" parte de uma linha de "Mona Lisas And Mad Hatters"; "Sad" serve-se do lamento "so sad..." de "Sorry Seems To Be The Hardest Word" como punchline de um tema Chill-Out; "Phoenix" pega numa linha de "Grey Seal" ("If the Phoenix bird can fly, then so can I"), sem nunca chegar ao refrão; "Telegraph To The Afterlife" parte do "Hello, baby hello" de "Harmony" para um tema psicadélico, a fazer lembrar os Pink Floyd. Mas mesmo nestes casos, os elementos originais estão tão difusos na matriz do tema novo, que tudo ganha nova vida.
É esta a chave de "Good Morning To The Night": os Pnau deram mesmo nova vida a Elton John. E a partir daqui, tudo é possível. Arrisco a dizer que este álbum, ao estar a tornar-se num caso de sucesso, pode abrir muitas portas para o mundo novo dos mashups.

Elton John nas pistas de dança? Ouçam o álbum "Good Morning To The Night" com os vossos próprios (descomplexados) ouvidos e digam de vossa justiça.
O álbum que mais me surpreendeu este ano e até ver, a minha banda sonora do Verão.


Em baixo fica a lista completa dos elementos utilizados pelos Pnau em cada tema de "Good Morning To The Night":

1. "Good Morning To The Night"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Philadelphia Freedom"
"Mona Lisas and Mad Hatters"
"Funeral for a Friend"
"Tonight"
"Gulliver / Hay Chewed"
"Sixty Years On" ("Live in Australia")
"Goodbye Yellow Brick Road"
"Someone Saved my Life Tonight"



2. "Sad"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Nice and Slow"
"Crazy Water"
"Curtains"
"Sorry Seems To Be the Hardest Word"
"Friends"

3. "Black Icy Stare"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Cold Highway"
"You’re So Static"
"Solar Prestige a Gammon"

4. "Foreign Fields"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Pinky"
"Someone Saved My Life Tonight"
"High Flying Bird"
"Sweet Painted Lady"
"Cage the Songbird"
"Chameleon"

5. "Telegraph to the Afterlife"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Harmony"
"We All Fall in Love Sometimes"
"Funeral for a Friend"
"Sweet Painted Lady"
"I've Seen That Movie Too"
"Love Song"
"Indian Sunset"

6. "Phoenix"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Grey Seal"
"Are You Ready for Love"
"Bennie and the Jets"
"Someone Saved My Life Tonight"
"Where to Now St Peter?"
"Love Lies Bleeding"
"Border Song"
"Country Love Song"

7. "Karmatron"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Madman Across The Water"
"Funeral for a Friend"
"Stinker"
"The Ballad of Danny Bailey (1909-1934)"
"Tonight"
"One Horse Town"
"Screw You"

8. "Sixty"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Sixty Years On"
"Sixty Years On" ("Live in Australia")
"Sixty Years On" ("17-11-70")
"Indian Sunset"

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Bruce Springsteen & The E Street Band - "Spirit In The Night" (Live in Lisboa 2012)

‎"Trust some of this, it'll show you where you're at, or at least it'll help you really feel it"

Nota prévia: Se não estão preparados para (mais) um texto cheio de superlativos e loas a Bruce Springsteen e à sua E Street Band, devem abandonar desde já este espaço. Aqui, sempre se adorou, adora-se e vai continuar a adorar-se o Boss.

Segunda nota prévia: Por volta das 21:30 de ontem, a meio do concerto dos James no Palco Mundo, o vocalista da banda - Tim Booth - deu o mote para o que se passaria umas horas mais tarde. Com aquele seu ar sério de ex-presidiário na tentativa de reinserção na sociedade, Tim Booth contou uma história que se passou com ele e que terá marcado o fim da sua adolescência "rebel without a cause":

"I was a 16 years old punk rocker, all my role models were self destructive.
I was into the Sex Pistols and Iggy Pop and a 100 other tortured artists who wished to come on stage and cut themselves for people's entertainment.
And then... when I was 17, a friend of mine bought me a ticket to see a concert in Birmingham, in England. I didn't wanna go, because I didn't like the guy's music. And they dragged me along to this guy's concert in Birmingham and after the 3rd song, I was standing up with the biggest smile on my face.
That was Bruce Springsteen & The E Street Band. That was the "Born To Run" tour.
They showed me another kind of artist that doesn't have to burn himself out... That doesn't have to cut themself for people's entertainment.
They showed me a new way of being onstage.
So it's a great pleasure to be here this evening, with you and with them.
We need more role models like Bruce Springsteen.
I needed one."

Bruce Springsteen & The E Street Band ao vivo, como uma life changing experience. Onde é que eu já ouvi isto?
De uma maneira ou de outra, esta é uma história cujos contornos são comuns a milhares de pessoas em todo o Mundo e que ontem foi partilhada por muitas outras.

Isto ignorando o facto que Tim Booth se trocou todo nas datas e/ou nos locais, uma vez que a E Street Band tocou pela primeira vez em Birmingham (UK) em 1981, na digressão de promoção ao álbum "The River". Na digressão de "Darkness On The Edge Of Town" (1978-1979), Bruce não saiu do espaço EUA / Canadá, por falta de verbas. Nas digressões de "Born To Run" (1974-1977), Bruce foi, efectivamente ao Reino Unido (Tim fez 17 anos em 1977), mas tocou apenas em Londres, no lendário Hammersmith Odeon.


Loas a Bruce Springsteen? Este espaço está longe de estar sozinho.
Especialmente desde ontem à noite, quando Bruce Springsteen trouxe finalmente a lendária E Street Band a Portugal. Depois do espectáculo sensaborão de Alvalade em 1993, com a Other Band (sim, a "outra" banda de Bruce foi mesmo baptizada de... Other Band), havia uma clara onda descrente em relação ao Boss no nosso país. Até ontem. Ou melhor, até hoje, porque o Boss demorou a chegar e quando entrou no Palco Mundo do Rock In Rio Lisboa 2012, já passavam das 0:00 de 4 de Junho.

Bruce demorou, mas quando chegou, não defraudou as expectativas e deu aquele que para mim foi o MELHOR (e mais longo?) concerto do festival. Como já esperava, foi mais que um concerto, foi uma experiência.

Por onde é que eu hei-de começar? Vou ter que escrever qualquer coisa sobre o que presenciei, mas não sei ao certo o quê, uma vez que ainda estou em êxtase pós-orgásmico.
Foram 2 horas e meia de masturbação emocional colectiva. Um turbilhão de emoções. Milhares de vidas que nunca mais serão as mesmas. Porque a partir de ontem, para essas pessoas houve qualquer coisa lá dentro que mudou, uma emoção que acordou.
Tal como aconteceu com Tim Booth, na sua juventude. Tal como aconteceu com o meu melhor amigo que, tal como acontecera com Tim Booth, também eu "arrastei" para o concerto de ontem. E tal como Tim, também ele, ao fim do 3º tema, deu por ele com um sorriso idiota na cara.
São muitos anos a arrancar sorrisos a carrancudos.
É o Boss. É inigualável.

Mas reitero: desde as 2:30 de hoje, que este espaço deixou de estar sozinho em Portugal.
Ao longo do dia, a imprensa multiplicou-se em loas ao Boss, elegendo a sua actuação como o grande concerto do Rock In Rio 2012. Mas não só. Hoje já li críticas que vão desde “o concerto do Rock In Rio”, passando pelo “concerto do ano”, até ao “concerto da década”.
Para ver alguns exemplos: aqui, aqui, aqui, aqui, ou aqui.
Como disse ontem Bruce, após arrancar um surpreendente "Twist And Shout" para fechar o concerto (até ontem "Tenth Avenue Freeze Out" tinha sido sempre o último tema): "You've just experienced the legendary E Street Band!". Indeed we did.

Ninguém se pode queixar que não foi avisado.
No início do concerto, como é seu hábito, Bruce profetizou a missão da E Street Band. Na introdução de "Spirit In The Night" - um dos meus temas preferidos de Bruce, do seu álbum de estreia de 1973: "Greetings From Asbury Park, NJ" - Bruce revelou ao que vinha:

"The E Street Band has come thousands of miles, just to be here in Lisbon tonight.
And we've come here on a mission!
We're gonna bring the power! We're gonna bring the glory! We're gonna bring the fun! We're gonna stimulate your sexual organs, with the power of Rock N' Roll!
Can you feel the spirit? Can you feel the spirit now?"



E assim foi.
Depois de 3 dias consecutivos de Rock In Rio, hoje estou de rastos. Sem voz, com a garganta rebentada e já não sinto pernas, pés e costas.
Estou mais morto que vivo, mas estou feliz. Com o tal sorriso idiota na cara.

Obrigado por tudo, Bruce. Vemo-nos por aí, numa estrada qualquer. De preferência brevemente.

"Together we move like spirits in the night!"

domingo, 3 de junho de 2012

Bruce Springsteen - "Land Of Hope And Dreams"

"You don’t know where you’re goin’ now, but you know you won’t be back"



É HOJE!
E pronto, é hoje que o Rock In Rio chega ao fim, despedindo-se da melhor forma, com o regresso do Boss a Portugal, pela primeira vez com a sua E Street Band. É o mais esperado (por mim, obviamente) concerto do Rock In Rio.

Como não poderia deixar de ser, as minha expectativas estão em alta.

‎Começo por dizer que Bruce Springsteen é o meu "artista a solo" (por oposição a "banda") preferido. Não só pela sua música per se, mas mais até pela poder da mensagem que ele transmite. Porque a música é um veículo de emoções, ninguém sabe transmitir melhor uma emoção que Bruce Springsteen.

Bruce Springsteen toca-me em especial porque a sua música descreve situações reais, emoções reais, com as quais eu (e milhões de outras pessoas) me posso identificar. E não é para isso que a música serve?

Acima de todas as outras qualidades que Bruce, como artista, pode carregar, esta é a que o distingue de todos os outros: a capacidade de materializar o sofrimento de um homem, as suas dúvidas e fraquezas, os seus anseios e dilemas, num pedaço de música. Com Bruce, é possível agarrar num disco e dizer "aqui mora a verdadeira dimensão do sofrimento de um homem".

Há um tema em particular, do qual eu já falei aqui, que ilustra a minha argumentação. Chama-se "The Promise" e é o meu tema preferido de Bruce.
É este o tema que eu desejo, em especial, que Bruce toque hoje à noite. Há muitos outros, como é óbvio, mas esta é especial. É o fecho de um ciclo.

Mas nem só de sofrimento vive a música de Bruce Springsteen.
A música de Bruce Springsteen é também sinónimo de redenção e de esperança.
E é isso que ouvimos em "Land Of Hope And Dreams": a celebração da redenção e dos sonhos de uma reviravolta para um futuro mais risonho.

"This train, dreams will not be thwarted
This train... Faith will be rewarded
This train... The steel wheels singing
This train... Bells of freedom ringing"

Agora impõe-se a questão... O que é que nos espera no concerto de hoje do Boss?
A verdade é que é extremamente difícil prever a setlist de um concerto de Bruce Springsteen, uma vez que este nunca repete um alinhamento e estreia temas novos todas as noites.
O conceito de um concerto de Bruce é tocar à medida da resposta do público, tanto em termos de duração do espectáculo, como na escolha dos temas. Ora, tendo em conta que o seu reportório é muitíssimo vasto, torna-se virtualmente impossível adivinhar o que se vai passar a seguir.
Porém, existem alguns padrões e só mediante uma análise estatística podemos (vagamente) prever o que se vamos ouvir hoje à noite.

Até ao momento, na digressão de promoção ao álbum "Wrecking Ball", Bruce já deu 29 concertos, 9 dos quais na Europa (as setlists integrais estão aqui). Esta distinção é fundamental, uma vez que há determinados temas que Bruce toca preferencialmente nos EUA e na Europa.
Assim, no conjunto da digressão, estes foram os temas que Bruce mais tocou:


Desde que chegou à Europa, Bruce abandonou muitos dos habitués americanos, como é o caso de "American Skin (41 Shots)" (felizmente, uma vez que é dos poucos temas de Bruce que não aprecio). Na Europa, os temas que Bruce mais tocou foram:


Olhando para ambas as tabelas, nota-se que há uma viragem para temas mais comerciais, com especial ênfase no álbum "Born In The U.S.A.", de 1984. Isto é visível analisando a estatística do número de vezes que temas de cada álbum foram tocados, no conjunto da digressão e apenas na Europa:


Com isto, voltamos à pergunta inicial: o que esperar do concerto de Bruce?
Como podemos ver nas tabelas em cima, há uns temas que ele toca sempre e outras quase sempre. A base é o novo álbum ("Wrecking Ball"), complementado com alguns êxitos no fim e uns fan favorites pelo meio.

Esta é a minha aposta para o que vamos ouvir hoje, com a escala cromática do vermelho (slots de maior variabilidade, impossíveis de adivinhar), passando pelo amarelo torrado (alguma probabilidade), o amarelo (muito provável), até ao verde (temas que vão ser tocados com quase toda a certeza).


Ao lado está a setlist que eu, realisticamente, gostaria de ouvir. Escusado será dizer, que se fosse eu a escalar o alinhamento, este seria muito mais leve em temas do novo álbum e muito mais pesado em álbuns como "Darkness On The Edge Of Town" e "Born To Run".
Mas a verdade é esta: nunca se sabe. E esse é um dos factores mágicos de um concerto do Boss.

É HOJE!!!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Bruce Springsteen - "We Take Care of Our Own"

"I been knocking on the door that holds the throne
I been looking for the map that leads me home"



Silêncio...
Já lá vai algum tempo. Tempo a mais de silêncio, para quem gosta de escrever.
E que melhor forma de quebrar o silêncio, do que com uma grande notícia? É o que se pode chamar um regresso LIKE A BOSS!


E quem diz Like a Boss é como quem fala em... Bruce Springsteen.
Foi há exactamente 3 semanas, pouco passava do meio-dia de 19 de Janeiro, que Bruce quebrou o seu silêncio e largou a "bomba" na sua página do Facebook: vem aí novo álbum de originais e uma nova digressão com a E Street Band.

O anúncio foi acompanhado de um tema novo e dos detalhes do álbum.


O 17º álbum de estúdio de Bruce chamar-se-á "Wrecking Ball", terá 11 faixas (13 na sua edição especial) e será lançado no próximo dia 6 de Março, dentro de menos de 1 mês. O alinhamento será o seguinte:

1. "We Take Care of Our Own" (3:53)
2. "Easy Money" (4:00)
3. "Shackled and Drawn" (6:20)
4. "Jack of All Trades" (3:23)
5. "Death to My Hometown" (5:00)
6. "This Depression" (2:57)
7. "Wrecking Ball" (5:40)
8. "You've Got It" (4:18)
9. "Rocky Ground" (3:19)
10. "Land of Hope and Dreams" (7:03)
11. "We Are Alive" (4:23)
12. "Swallowed Up (In the Belly of the Whale)" (Bonus track) (3:24)
13. "American Land" (Bonus track) (4:00)

Olhando para este lote de temas, alguns nomes saltam à vista, como familiares para os fãs de Bruce Springsteen.
Desde logo o tema-título do álbum "Wrecking Ball", que foi alvo de um lançamento especial em vinil, aquando do Record Store Day, em Abril de 2010. A versão incluída nesse single foi uma gravação ao vivo no Giants Stadium, na Working On A Dream Tour, em 2009. O tema teria sido composto por Bruce, propositadamente para os espectáculos de regresso a New Jersey.
Reconhece-se também "American Land", que foi escrito durante as Seeger Sessions, em 2006, (as quais deram origem ao álbum "We Shall Overcome") e foi presença assídua nos concertos de Bruce desde então.
Por fim, "Land of Hope and Dreams", que foi composto em 1998, estreado ao vivo na Reunion Tour com a E Street Band em 1999, mas nunca viu a luz do dia num álbum de originais.
O restante material de "Wrecking Ball" terá sido escrito em 2011.

Várias notícias ao longo dos últimos meses já apontavam para novidades no mundo de Bruce Springsteen. No dia anterior ao anúncio do álbum, um artigo na Rolling Stone dava conta que o novo álbum combinava elementos da sonoridade clássica de Bruce e da sua experiência nas Seeger Sessions, com novas texturas e estilos.
Jon Landau - manager de Bruce - falou em "texturas inesperadas, loops, percussão electrónica, com influências e ritmos desde o hip-hop ao folk irlandês", num "esforço experimental com um produtor novo".
Como seria de esperar, estas foram palavras que não caíram muito bem no seio dos fãs de Bruce, adeptos naturais de sonoridades Rock e ávidos de um disco mais próximo de "Born To Run", ou "Darkness In The Edge Of Town", do que do último disco de Wyclef Jean.

Claro que estas palavras, para mim, valem o que valem, uma vez que serviram apenas para criar buzz para o novo álbum e não necessariamente caracterizam aquilo que ele nos vai trazer.
Landau disse também que "Wrecking Ball" será o álbum "mais enfurecido" que Bruce já escreveu, mas para quem ouviu "Darkness On The Edge Of Town", não posso de deixar aqui as minhas dúvidas sobre esta afirmação.

O tema novo é o primeiro single retirado de "Wrecking Ball": "We Take Care Of Our Own". Este é um tema que, embora efectivamente mais "enraivecido" do que a tarimba jovial de "Working On A Dream", poderia figurar num dos últimos álbuns de Bruce. Isto é, em termos de sonoridade, não se ouve a revolução propalada por Landau.
Esperemos então pelo álbum, já falta muito pouco.