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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

David Bowie - "Stay"

" "Stay" - that's what I meant to say or do something,
But what I never say is "stay this time"
I really meant to so badly this time...
'Cause you can never really tell when somebody wants something you want too"



Descobri o álbum no final do ano passado e já é um dos meus preferidos. De sempre.
Falo de "Station To Station", o álbum de 1976 de David Bowie, que marca a transição para uma nova fase da sua carreira. Aliás, se há uma caracterização que faz sentido para este álbum é precisamente dada pelo seu nome... "estação para estação". Bowie faz a viagem da "estação" do Soul de "Young Americans", para a "estação" da Electronica da Trilogia de Berlim ("Low", ""Heroes"" e "Lodger"). E que viagem...


"Station To Station" apresenta solidez notável, muito difícil de encontrar num álbum. Entenda-se por "solidez", uma bitola de qualidade que é estabelecida no início do álbum e que até ao fim nunca é violada.
Esta é uma característica muito rara, uma vez que, por uma razão ou por outra, normalmente todos os álbuns têm pelo menos um tema que destoa no nível de qualidade dos restantes. É verdade que "Station To Station" tem apenas 6 temas, o que não deixa muito espaço a lixo, mas isso não significa que este álbum deixe de ser um exercício de solidez assinalável.

Neste caso, "solidez" não significa falta de risco, ou falta de ambição, ou "mais do mesmo".
Muito pelo contrário.
Perdido entre as fases Soul e Electronica de David Bowie, o álbum "Station To Station" é um improvável cocktail explosivo de tudo isto, com uma pitada de Funk e um topping dado pelo regresso de uma forte componente Rock, ausente desde "Diamond Dogs". Esta componente Rock, conjugada com o estado emocional periclitante de Bowie, confere um edge único a este álbum.
É arrepiante ouvir a carga emocional que David Bowie imprime à sua voz em temas como "Wild Is The Wind" ou "Word On A Wing". O que ouvimos neste álbum não tem qualquer paralelo em toda a sua carreira.

Quanto à saudada forte componente Rock que falei, ela está presente em temas como "Station To Station" e este fabuloso "Stay", que se tornou num dos meus temas preferidos de David Bowie.
Com um riff electrizante (lembrem-se do riff Disco de "Another Brick In The Wall - Part 2", criado por David Gilmour uns anos mais tarde... Coincidências?), um "cheirinho" de Funk e um solo que parece perdurar para sempre, "Stay" é o momento Disco Rock do álbum e marca também aquele que é, na minha opinião, o ponto alto da colaboração do guitarrista Carlos Alomar com David Bowie. No vídeo em baixo, Bowie apresenta o Thin White Duke na TV americana com uma performance ao vivo deste tema:



Diversidade. Intensidade. Solidez. Qualidade. São estes os 4 predicados que caracterizam "Station To Station" e o colocam lá em cima, no restrito lote dourado da longa carreira de David Bowie.

domingo, 16 de janeiro de 2011

David Bowie - "Station To Station"

"The return of The Thin White Duke, throwing darts in lovers' eyes"



David Bowie vestiu a pele de diversas personagens ao longo da sua carreira. A mais conhecida de todas terá sido "Ziggy Stardust", um alien que trazia uma mensagem de esperança à humanidade, nos seus últimos 5 anos ("Five Years") de existência.

Em 1976, esses tempos já pareciam um passado longínquo. A carreira de David Bowie nos anos 70 foi de tal forma intensa (11 álbuns de originais em 10 anos, sem contar com álbuns ao vivo e compilações!!!), que nesta altura Bowie já tinha passado por estilos como o Psicadelismo, o Glam, ou o Soul.

E foi depois de uma passagem pelo Soul que, em 1976, David Bowie apresentou o sinistro Thin White Duke no tema "Station To Station", do álbum com o mesmo nome. Na verdade, este personagem já vinha sendo desenvolvido desde o ano de 1975, na promoção e digressão do álbum "Young Americans".


The Thin White Duke foi a mais pertubadora e macabra personagem de David Bowie: um homem aprumado e de fino recorte por fora, mas oco por dentro; um fascista; um homem que cantava canções de amor com uma intensidade agonizante, mas que nada sentia. "Gelo disfarçado de fogo".



"The return of The Thin White Duke, making sure white stays"

David Bowie vestiu a pele do Thin White Duke durante 2 anos (1975 e 1976), dentro e fora dos palcos, levando mesmo a que se tenha alienado da sua própria personalidade. Viciado em cocaína, Bowie vivia a fase mais negra da sua vida, expressando sentimentos racistas e ideologias fascistas nas entrevistas e comportando-se de maneira estranhamente altiva.

Bowie nunca escondeu que sofria de alguma esquizofrenia. Numa entrevista em 1973, ele confessa que tem o dom de ser um "coleccionador de personalidades":



O problema é que em 1976, o Thin White Duke parecia que se tinha apoderado de David Bowie, tornando a sua condição mental mais alarmante que nunca. Segundo o próprio, esta foi uma altura da sua vida em que vivia de "pimentos, cocaína e leite". Na introdução de "Word On A Wing" no VH1 Storytellers (gravado em 1999), David Bowie aborda o período em que personificou o Thin White Duke:

"1975, 1976, and a bit of 1974, and the first few weeks of 1977, were singularly the darkest days of my life. I found myself up to my neck in such negativity. And it was so steeped in awfulness that recall is nigh on impossible, certainly painful..."

O tema "Station To Station" serve assim de introdução ao infame personagem The Thin White Duke. É o tema de abertura do álbum com o mesmo nome e é a mais longa gravação de estúdio da carreira de David Bowie. Revelando um dos seus hábitos da época, este tema também contém uma das linhas (pun intended) mais célebres de David Bowie:

"It's not the side-effects of the cocaine, I'm thinking that it must be love"


Ao perceber que a sua esquizofrenia e o seu vício de cocaína estavam a corroer a sua saúde física e mental, David Bowie decidiu mudar de Los Angeles para Paris e depois para Berlim Ocidental. Berlim acabaria por ser a chave da sua carreira: em Berlim, Bowie livrou-se dos demónios do Thin White Duke e da cocaína e gravou com o produtor Brian Eno o core da inovadora Trilogia de Berlim ("Low", ""Heroes"" e "Lodger").