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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

John Lennon - "How?"

"How can I give love when I don't know what it is I'm giving?"


Hoje o John Lennon faria 75 anos. O meu John. Sim, meu. Não que eu tenha especial orgulho nisso, porque toda a vida eu quis ser Paul. Mas não é Paul quem quer, é Paul quem pode. E eu não sou Paul, sou John. Temperamental, apaixonado, obstinado, conduzindo o dia-a-dia com o sangue a ferver nas veias. Não é fácil ser assim, acreditem. E também não deve ser fácil para quem me rodeia. Preferia a constância, o método e a segurança do Paul. Ou pelo menos acho que preferia. Mas talvez assim perdesse a piada.

Vejam aqui quem vocês são. O meu resultado foi (expectavelmente):


Para celebrar o John, deixo-vos "How?", do álbum "Imagine" (1971) -  um dos seus temas mais confessionais. Isto se for possível sequer fazer uma consideração deste tipo, já que todos os temas de John (pelo menos na sua carreira a solo) são confessionais. Os seus álbuns a solo são como que actas de várias sessões de terapia psicanalítica ao longo dos anos. Talvez por isso sejam tão inconsistentes e talvez por isso a sua carreira a solo seja tão ignorada. Ninguém quer olhar para John como ele é, preferimos manter a imagem estereotipada de um puto rebelde, de um excêntrico a lutar pela paz numa cama com uma chinesa, ou de um mártir que caiu aos pés de um louco. Mas John é muitíssimo mais complexo que isso. Ouçam, se conseguirem, a discografia a solo de John (álbuns avant-garde incluídos). É um desafio de mind games.

John está longe de ser perfeito (alguns idiotas formatados da internet descobriram agora isso), mas não é por isso que não o devemos amar por aquilo que ele é. Quem de nós é perfeito, anyway? Que direito temos de julgar quem se deu todo à sua arte e fez tudo o que podia para mudar o mundo que odiava onde vivia?

"How can I have feeling when I don't know if it's a feeling?"

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Paul McCartney - "Ram On"

"Ram on"


"Ram On" – UK Spring Tour Journal 
(Part 2)

Continuando daqui, hoje deixo-vos a segunda parte do meu diário de bordo, em plena Disneylan... Liverpool.
Antes disso, uma explicação: porquê "Ram On" ali no título? Riam-se à vontade, "Ram On" é o nome da viagem. Sim, do alto da minha nerdice, baptizo a todas as viagens que faço. O nome é invariavelmente escolhido em função da música que ouço nessa altura (todas as viagens têm uma banda sonora, que depois fica para sempre colada àqueles lugares) e nesta viagem, a predominância foi do 2º álbum a solo de Paul McCartney – "Ram". "Ram" é cozy e homey, como a maioria da música do Paul; e talvez por isso me tenha sentido em casa no UK. Há qualquer coisa de heartwarming na música do Paul – ela é caseira, quentinha e deliciosa. But I digress. Voltando à viagem.
Estava eu a planear as minhas férias em cima do joelho (como sempre faço), dois dias antes da partida e deparo-me com um tempo morto entre York e Londres. O que fazer? Regresso a Manchester? Boa ideia. E por que não dar um saltinho a Liverpool? Genial. Marquei hotel no minuto seguinte. E assim cheguei à Liverpool Lime Station, quase por acaso. Mal eu sabia que aquela fora uma das melhores decisões da minha vida.

Dia 4 – Liverpool
Chegado a Liverpool, vou directo ao Cavern na Mathew Street – o mítico bar onde despontaram uns tais de The Beatles. No caminho, levo nos ouvidos "Ram". "Ram" sabe especificamente a morangos fresquinhos e doces, acabadinhos de colher. Mas talvez isso seja de eu estar a comer morangos neste preciso momento. Adiante.

Hoje, o Cavern está dividido em dois: o Cavern Pub e o Cavern Club. Como seria de esperar, Beatles por todo o lado. Ao lado, uma estátua do John Lennon, a imitar a pose na capa do álbum "Rock ‘N’ Roll". Vou já meter-me com estas italianas para me tirarem uma foto ali.
Ok, afinal eram inglesas; bem que podia ter guardado o italiano que aprendi com o Trappatoni e poupava-me a vergonha. Isto com as miúdas corria melhor em Manchester.
No topo da rua está o A Hard Day’s Night Hotel (sim, existe mesmo), com uma megastore dos Beatles. Imaginem a Fnac, mas de dois andares, só com Beatles: t-shirts, camisolas, pijamas, bonés, aventais, posters, quadros, bancos, porta-chaves, almofadas, bonecos, canecas, pratos, copos, livros, discos, sei lá, tudo o que possam imaginar. Estão a ver a loja no fim da Disneylândia, que é o terror dos pais, porque os miúdos querem tudo? É isso, mas aqui sou eu o miúdo. Com a carteira dos pais.
A Hard Day's Night Hotel, com a loja dos Beatles virada para a Mathew Street

Fico de tal forma esmagado com tudo o que vejo à minha volta na loja, que a minha cabeça entra em tilt. No fim de contas, acabo por trazer "só" um porta-chaves do Sgt. Pepper. Isso e um coração partido, porque vi o hoodie (nome muito mais fixe para "camisola com capuz") mais cool de sempre e não havia o meu número. Damn. Mas isto não fica assim, acreditem.

Agora sim, o momento por que tanto esperava. Chego ao museu dos Beatles.

À entrada do The Beatles Story, dizem-me que tenho duas horas para ver dois museus, mas é tranquilo: mesmo que eu seja um daqueles nerds que gosta de ver e ouvir tudo, duas horas chegam perfeitamente. Bora.
Começamos com o Casbah (onde os Beatles se estrearam), o Kaiserkeller, o Star-Club (Hamburgo) e claro, o Cavern, aqui brilhantemente reproduzido:


Depois, chegamos a Abbey Road, onde os Beatles gravaram quase toda a sua discografia. Passamos na porta de entrada dos estúdios e temos os instrumentos todos ali: o baixo do Paul, as guitarras do John e do George, a bateria do Ringo. A bateria do Ringo é hands down a minha peça preferida do museu. Temos também o Mellotron com que os Beatles gravaram o "Sgt.Pepper" e o "Magical Mystery Tour". The real thing. Isto é muito melhor do que ir à Eurodisney com 10 anos.

As duas horas passam e nem a meio do primeiro museu eu consigo chegar. Estava tranquilamente a estudar o concerto no Shea Stadium, quando sou convidado a sair pelo impaciente staff, numa altura em que já as senhoras da limpeza varriam o chão. Nem ao Sgt. Pepper cheguei! O que vale é que posso voltar amanhã.
De regresso ao hotel, tinha no quarto à minha espera uma chaleira eléctrica, chávenas de porcelana e chá – o kit completo. Adoro Inglaterra.

Dia 5 – Liverpool / Londres
Começo o dia bem cedinho, às 7:30 (houvesse vontade para me levantar tão cedo para trabalhar e a minha vida seria bem diferente), para um glorioso English Breakfast no hotel.
Bacon, salsicha, ovos estrelados, feijão, torradas com muita manteiga e sumo de laranja. No fim, um chazinho. Adoro Inglaterra.

Às 9:30, já estou na The Beatles Shop na Mathew Street, que ontem me escapou. O motivo? O hoodie, obviamente. Não tenho sorte. Siga para o museu, que o tempo está contado até ao comboio para Londres, às 12:47.
O museu dos Beatles abre às 10:00 e às 10:00, eu estou à porta. Pontualidade britânica (deve ser a primeira vez na vida). Estou eu e está uma excursão sénior de chineses (ou coreanos; ou japoneses; não perguntei, mas isso não interessa para o caso). Que se lixe, vou passar à frente destes Miyagis todos, que não há tempo a perder. Começo onde fiquei ontem: "Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band". Dou com isto. Nice.

Depois, vem o "Magical Mystery Tour" (temos mesmo os bancos do autocarro, para nos sentarmos), o "Yellow Submarine" (entramos mesmo num submarino amarelo), o White Album e de repente, já estamos no fim. Ou sou eu que estou com pressa, ou eles claramente se desleixaram com os anos 1968, 1969 e 1970 – anos que os Beatles passaram em estúdio. Havia tanto para dizer... Enfim, na verdade também já não tenho muito tempo.

No fim, temos uma sala de design minimalista dedicada à memória de Lennon, onde ouvimos "Imagine". (então e o George, malta?!)

... e uma última sala dedicada aos Beatles a solo:
John:
Paul:
George:


Rin...:
...ora porra, ia jurar que tirei uma foto à secção do Ringo, mas não dou com ela. Queria ter um registo do melhor baterista dos Beatles, mas apareceu-me outra foto do Paul.
Haha, desculpa lá Ringo, eu adoro-te, a sério.

Contas feitas, o museu dos Beatles é dos melhores lugares que pisei em toda a minha vida. Confesso-vos que é difícil descrever o entusiasmo em estar aqui, mesmo em contra-relógio. Sinto-me como o miúdo de 10 anos que vê o Mickey pela primeira vez, ou aquele pastor de Pitões que foi a Lisboa ver o mar de helicóptero e conhecer o Mantorras. Qual Louvre, qual Smithsonian, qual Tate, o melhor museu do mundo fica em Liverpool e chama-se The Beatles Story (pelo menos até eu ir a Montreux e ver o museu dos Queen; ou ver aquele dos Pink Floyd que ia abrir em Milão, mas foi cancelado). Recomendo sem reservas, marquem a vossa viagem ainda hoje.

Com os minutos que me restam antes do comboio, ainda vou ao museu sobre a British Invasion (invasão cultural britânica dos EUA) e aproveito a oportunidade para me sentar pela primeira vez numa bateria, numa aula em vídeo do Ringo Starr. Acho que tive uma epifania: tenho que repetir isto.
Ringo, desculpa lá aquilo há bocado. Adoro-te, mesmo.

Não há tempo para mais, siga para Londres.











Mal chego à estação de Euston, tenho a brilhante ideia de ir para Camden com uma mala de 20 kg atrás. Malta, não tentem isto. O conceito de "aproveitar o tempo" não é válido quando tens que carregar uma mala de 20 kg ao longo de uma escada com 96 degraus [sim, as escadas rolantes estavam avariadas; e sim, estava lá escrito o número de degraus]. Isto não é aproveitar o tempo, é só estúpido.
Como ainda não estava preenchido no capítulo do exercício físico, ainda vou à London Beatles Store em Baker Street. O motivo?  Adivinharam, o hoodie. Mais uma vez, tão tenho sorte.
[Como sempre acontece nestes casos, fiquei obstinado pelo hoodie e nunca mais deixei de o perseguir. À hora que publico este texto, já deve vir a caminho de uma loja online dos States... que me cobrou a camisola duas vezes. A saga do hoodie ainda parece longe de terminar...]

Dia 6 - Londres
O primeiro dia em Londres é para compras. E compras em Londres significa discos, discos e mais discos. Ah e umas t-shirts também. Há uma loja em Notting Hill — Backstage Originals — que só vende merch de bandas Rock e é uma das lojas mais cool onde já entrei, uma das minhas paragens obrigatórias, sempre que vou a Londres.

Trago (mais) uma t-shirt dos Beatles, com desconto à pala de uma longa conversa com a miúda italiana (esta era mesmo) que lá trabalhava e que me prometeu uma visita a Sesimbra. O atendimento nesta loja é mesmo personalizado. Adoro Inglaterra, não sei se já disse.

A seguir, passo na Rough Trade ali ao lado e menciono ao Nigel (espero que o Nigel não se importe que eu use o nome dele) um concerto "secreto" que o Noel Gallagher ia dar em Londres no dia a seguir. O Nigel não sabe do que eu estou a falar, mas promete averiguar. Diz-me para lhe deixar o meu mail; se ele souber mais qualquer coisa, avisa-me. Deixo-lhe o mail, mas sem grandes esperanças. Nem um vinil levei, o que é que o Nigel se vai importar com um tuga?
Notting Hill, Soho, Camden e uma porradona de discos depois, está cumprido mais um objectivo da viagem. 15 discos na mala. Venham agora os concertos.

À noite, vou beber umas pints com um amigo que vive em Londres. Chamemos a este amigo "Miguel". O "Miguel" esqueceu-se das chaves dentro de casa (onde vive com a namorada) e por isso a noite prolonga-se. As pints multiplicam-se.
Vou ver o mail. Não acredito, o Nigel respondeu! O concerto secreto é no Rivoli Ballroom, em Brockley. Haha, lindo! Ganda Nigel. Esta viagem está cada vez melhor. "Brockley?! Ninguém vai a Brockley!", diz o "Miguel" com ar enojado. "Mas não interessa, vamos lá na mesma! Aliás, é como se já tivéssemos entrado!", profetiza o "Miguel". E assim brindamos a um concerto para o qual não temos bilhete e onde não fazemos a mínima ideia de como entrar. Sabemos apenas que temos que entrar. Típica chico-espertice tuga.

Se querem saber se conseguimos entrar no concerto secreto do Noel Gallagher, não percam a última parte do diário de bordo. Se não quiserem saber, leiam na mesma. Sempre se podem rir à nossa custa.

domingo, 1 de setembro de 2013

The Beatles - "Back In U.S.S.R."

"You don't know how lucky you are, boy"




Esqueçam as compilações com os maiores êxitos, esqueçam as colectâneas, esqueçam o Álbum Vermelho ("1962-1966"), esqueçam o Álbum Azul ("1967-1970"). Se quiserem saber porque os The Beatles foram mesmo importantes, então o que querem ouvir é o Álbum Branco ("The Beatles").

"The Beatles" é um monumento. É o castelo de pedra, em cima do monte majestoso que é a discografia da banda. É um castelo construído em pedra maciça, pesada. As pedras são as canções, 30 no total. 30 temas que mostram o bom, o mau e o feio dos The Beatles.
As compilações podem mostrar porque os Beatles foram grandes, mas não mostram o porquê de terem sido os mais importantes.



O álbum homónimo dos The Beatles é vulgarmente conhecido como White Album ou, em português, o Álbum Branco. É um álbum duplo, lançado em 1968 e que não inclui muitos mega-êxitos; esses foram, propositadamente, deixados de fora do álbum - falo de "Hey Jude" e "Revolution" (a versão pesada do tema).
Curiosamente, o grande êxito que foi, de facto, incluído no álbum, é um dos temas mais fracos do lote: "Ob-La-Di Ob-La-Da" - um tema-paródia cujo interesse eu considero ser pouco superior ao de "Yellow Submarine". (não era difícil)

O que resta do álbum... Bem, o que resta é um cardápio ilustrado da importância dos The Beatles na música Rock feita desde então; é um autêntico catálogo de tudo, ou quase tudo, o que se pode fazer no Rock.
Estamos em 1968 e, logo aqui, os The Beatles deixaram muito pouco para inventar. Não que eles tenham inventado alguma coisa no vácuo. Nada disso. Mas tiveram o condão de ir beber aqui e ali, a tudo o que de novo se experimentava na época (estamos nos anos 60 e a palavra-chave é precisamente esta: experimentar), somar essas influências ao seu único sentido melódico e usar o veículo dos The Beatles - na altura, uma das entidades com maior visibilidade no Mundo (lembrem-se do "bigger than Jesus" de John Lennon) - para as espalhar por toda a parte.
De repente, milhões de miúdos foram expostos ao Heavy Metal de "Helter Skelter" (e isso não fez muito bem a alguns deles, veja-se o Charles Manson), ao Avant-Garde de "Revolution #9" (escusado, John, escusado...), ao Country Rock de "Rocky Racoon", ao British Hall de "Honey Pie", bem como a um pouco de todos os géneros que os Beatles já tinham experimentado anteriormente.
Em cima deste bolo, temos ainda a cereja trazida por Eric Clapton, a fazer a estreia de um non Beatle num disco da banda, em "While My Guitar Gently Weeps" - o meu tema preferido dos The Beatles.

Como vimos, a grande novidade que a banda introduziu em "The Beatles" e que é a palavra-chave deste álbum é diversidade. Mas será que esta é a grande valência do White Album? Negativo.
A grande valência de "The Beatles" são as melodias; umas atrás das outras, são descarregadas sobre o ouvinte como uma torrente.
Recordo que este é um álbum duplo, com 30 temas e todos eles com o seu interesse. Até o "Revolution #9" é interessante, só que não o é no âmbito musical.

"The Beatles" é rico devido à sua diversidade, mas é maravilhoso devido à qualidade individual das suas canções. Nem todas são apostas ganhadoras, é preciso dizê-lo. Já referi o escusado (ou deverei dizer Yokonizado?) "Revolution #9", há a parvoíce de "Why Don't We Do It In The Road?" (o tema mais gráfico da banda, que curiosamente não deu polémica alguma) e há também "Don't Pass Me By" - o inevitável rebuçado que deram ao Ringo (bem que podiam tê-lo ajudado a escrever algo melhor). Mas mesmo estas são apostas feitas conscientemente; eles sabiam os riscos que corriam, mas lavaram as mãos e não se importaram com isso em favor da... diversidade.

O White Album faz parte da minha banda sonora do Verão, já desde 2008 que assim é. Há qualquer coisa no gesto de ligar a ignição do carro, quando estou debaixo de um sol que, num céu aberto, parece querer torrar o volante, que me induz a pôr "Back In The U.S.S.R." em volume máximo.
"Back In The U.S.S.R." é um tema escrito por Paul McCartney (mas creditado à parceria Lennon-McCartney) , que prova que Paul pode não ser o mais convincente dos roqueiros (era ele o cute Beatle), mas consegue ser um dos melhores. O tema causou na época alguma controvérsia uma vez que, em plena guerra fria, Paul parecia cantar "I'm backin' the U.S.S.R.". A verdade é que os Beatles não queriam tomar lados nesta guerra e a fazê-lo, não seria com certeza o americano, até porque os mercados (na altura barrados) do leste eram muito apetecíveis.

O avião que introduz "Back In The U.S.S.R." (uma das melhores introduções de sempre para um tema) dá o pontapé de saída para o monstro que é o White Album. Curiosamente, o álbum surge numa altura em que a banda já andava às avessas, tendo mesmo levado à saída de Ringo Starr (mas só por umas semanas). Com isto, muitos dos temas foram gravados pelos vários membros da banda, literalmente a solo; com John, Paul e George a gravarem, ao mesmo tempo, temas diferentes, em salas diferentes do mesmo estúdio.
O resultado é que "The Beatles" pode ser visto como o somatório de vários álbuns a solo dos vários Beatles. Contudo, a verdade é que tudo o que aqui ouvimos tem o filtro, os instrumentos e o sentido melódico dos The Beatles; E isso não é de somenos, como se veria uns anos mais tarde, em alguns trabalhos verdadeiramente a solo dos vários Beatles, quando estavam rodeados epanas de yes men.

White Album é o meu álbum de eleição dos Beatles.
No dia em que forem obrigados a escolher um álbum dos The Beatles para levar para uma ilha deserta, esqueçam as colectâneas, esqueçam o Álbum Vermelho, esqueçam o Álbum Azul. Levem o Álbum Branco.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

John Lennon - "#9 Dream"

"Ah böwakawa poussé, poussé"


"Everything is clearer when you're in love."
John Lennon

Volta John, estás perdoado.

Quem quer que tenha acompanhado o blog, pode perceber que John Lennon é o Beatle a quem eu dediquei menos atenção. Já por várias vezes aqui confessei a minha admiração por George Harrison e até Ringo Starr já mereceu dois posts em nome próprio. John tem sido esquecido, mas não por acaso.
(Agora que penso nisso, também estou em falha para com Paul McCartney. A rever.)

Porquê, então, esta ausência de John do blog?
Não, não sou um daqueles extremistas anti-Lennon, que acham que a defesa da facção de Paul McCartney na eterna discussão de "Quem separou os Beatles?" deve ser alimentada com ódio para com a facção de John.
Falando nisso, para um olhar diferente sobre John, visto por um extremista anti-Lennon, leiam este texto. Devido à imagem corrente que temos de John, a leitura do texto chega a ser dolorosa. Mas vale a pena, independentemente do seu conteúdo ser verdade ou mentira, nem que seja para vos pôr a pensar sobre o facto que todas as moedas têm duas faces. Nenhum dos nossos heróis é perfeito; eles, como nós, têm um lado negro.

Eu sei que já me estou a afastar do caminho do assunto inicial; é normal, faço-o sempre. Mas deixem-me divagar, já volto ao caminho inicial.

John, mais do que qualquer outro Beatle, levou com as culpas da separação dos The Beatles. Nem tanto ele, mas sim a Yoko Ono, apesar de ter sido Paul o primeiro a sair da banda.
Sem nunca confirmarem nem desmentirem, os outros membros da banda deixaram o boato criar raízes e durante anos as culpas da separação foram imputadas à infame mulher de John.
Só no ano passado, mais de 42 anos depois da notícia da separação dos The Beatles, Paul admitiu que Yoko não fora a culpada, uma vez que John iria sair de qualquer forma.

Mas será que Yoko está, assim, isenta de culpas? CLARO QUE NÃO. A verdade é que os The Beatles tinham os dias contados, já desde 1968.
John estava com a cabeça na Yoko, no experimentalismo avant-garde e no activismo anti-guerra.
Paul estava com a cabeça em Linda e numa carreira a solo, sem ter que dar satisfações a ninguém.
George estava com a cabeça no espiritualismo, na cultura indiana e no hinduísmo.
O Ringo, coitado, só queria que o deixassem fazer parte da festa.
Portanto, contas feitas, "a culpa" da separação dos The Beatles é de todos (ok, menos do Ringo).
"A culpa", neste caso, é um conceito ridículo. Procurar "a culpa" da dissolução de uma relação que já vive moribunda é ridículo. Isto serve para os The Beatles, como serve para qualquer outra relação interpessoal. O que há a fazer é juntar as peças que nos sobram e seguir em frente. Como os Beatles, que seguiram todos os seus caminhos, todos eles diferentes.

Mesmo tendo em conta estes ensinamentos sociológicos, que a dureza da vida nos transmite, a verdade é que é difícil absolver uma personagem tão macabra como a Yoko Ono. Tão difícil como imaginar o que seria trabalhar com alguém que, a partir de um determinado momento em que conhece alguém, passa a trazer essa pessoa para o seu local de trabalho, "colada" a si, 24 sobre 24 horas por dia. É toda uma nova dimensão para a definição de "sufoco". Tenho pena, a sério que tenho pena do Paul, do George e do Ringo, por terem sido sujeitos a isso.

Talvez tenha sido isso que "vacinou" os Beatles para admitirem a presença de câmaras de filme em Twickenham, enquanto gravavam o (abortado) álbum "Get Back", que depois daria lugar ao álbum "Let It Be". Se levaram com a Yoko, 24 sobre 24 horas, que diferença fariam umas câmaras de televisão?

Volto então à pergunta inicial: qual a razão da ausência de John do blog?
Acho que se deveu a um processo de ostracização subconsciente da minha parte para com o John, devido à Yoko. Também eu lhe imputei as culpas pela separação dos The Beatles, mesmo que subconscientemente.
Esta situação absurda, de uma presença estranha no local de trabalho, faz com que se torne fácil apontar o dedo a Yoko.

Em Março de 2006, tive a oportunidade de ver em Paris, no Cité de la Musique, a exposição "John Lennon, Unfinished Music", patrocinada pela Yoko. Escusado será dizer, que para além de toda a memorabilia alusiva aos The Beatles, a exposição tinha uma forte carga de Yoko Ono. Como se a vida dele fosse dividida em 2 capítulos de igual importância: "The Beatles" e "Yoko Ono". Isto serviu mais ainda para implantar a ideia de culpada, a Yoko.

A outra face da moeda (atenção, que não vão ouvir muitos argumentos a favor dela), foi que Yoko levou o underground psicadélico para os The Beatles. E foi essa pedrada no charco que mudou a música da banda em 1966 e que nos trouxe maravilhas como "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" e "Magical Mystery Tour". Nem tudo foi mau.

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Fast-forward 7 anos, até Agosto de 2013. A primeira semana deste mês foi de John Lennon. Debaixo de um oceano de trabalho, bateu-me a curiosidade e fiz de minha banda sonora de trabalho os álbuns a solo de John: desde o tão afamado "Plastic Ono Band", passando por "Mind Games", ou "Walls And Bridges".
A páginas tantas, deparo-me com "#9 Dream" e...

"Ah böwakawa poussé, poussé"

...foda-se! Por onde é que eu andei? Como é que eu não conhecia isto?

"#9 Dream", como o nome indica, evoca um sonho, um sonho que John teve. John escreveu e produziu o tema à volta disso (daí a sonoridade dreamy / psicadélica) e até o refrão "Ah böwakawa poussé, poussé" terá tido origem nesse sonho.



A descoberta da obra a solo de John fez-me pensar acerca da sua posição nos últimos anos dos The Beatles e do que sujeitou os outros membros da banda.
O que fez John, se não seguir o seu coração? No fundo, o que ele sempre fez, foi ouvir o seu coração e agir, sem pensar nas consequências sociais disso mesmo. Será que isso torna a sua atitude inatacável? Obviamente que não, uma vez que ele afectou a vida e o bem-estar dos seus colegas, levando um elemento intrusivo para o seu ambiente de trabalho.
Mas tudo o que John fez, fê-lo por amor; o que para mim é razão suficiente para justificar todas, ou quase todas, as decisões que tomamos na nossa vida.

Volta John, está perdoado.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ringo Starr - "Photograph"

"Now you're expecting me to live without you, but that's not something that I'm looking forward to..."




Hoje continuamos a olhar para o trajecto de Ringo Starr nos Beatles e na impotância da banda na sua carreira a solo.
No último dia, ficámos em 1965, no álbum "Rubber Soul", onde John Lennon e Paul McCartney ajudaram Ringo no seu primeiro crédito de autoria, com o sensaborão "What Goes On" (único tema creditado a Lennon-McCartney-Starkey).
Lennon e McCartney continuariam a ajudar Ringo ao longo dos anos, mas em 1966, logo a seguir a "Rubber Soul", dar-lhe-iam um presente envenenado. Ou não, depende da perspectiva.

Na gravação de "Revolver", Paul McCartney achou por bem escrever um tema para Ringo, um tema que se adequasse à sua imagem e à sua voz. O resultado de tal ideia pioneira seria... "Yellow Submarine".
Segundo as palavras de John Lennon, "Yellow Submarine" foi: "Paul's inspiration. Paul's idea. Paul's title... written for Ringo".
"Yellow Submarine" é um tema que parece saído dos megafones de uma banda marcial (para quem não sabe, é o que em inglês se denomina marching band), que desce a rua a anunciar que "vivemos todos num submarino amarelo"... Exacto. Foi esta a brilhante conclusão de Paul, depois de mais uma daquelas sessões de inspiração transcendental (cough... trips) que ele gostava de experimentar na época: a de que vivemos todos num submarino amarelo!

Bem... Eu sou o primeiro a dar graças pelas trips dos Beatles! Afinal, elas deram-nos coisas fantásticas como os álbuns "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" e "Magical Mystery Tour". Louvado seja o cogumelo que deu "I Am The Walrus" a Lennon, ou "Fixing a Hole" a McCartney!
Mas isto?! WTF?!

Não contentes com a façanha, os Beatles resolveram lançar "Yellow Submarine" em single... E não é que acertaram?! O tema esteve no 1º lugar das tabelas britânicas durante 4 semanas (1 mês!!!) e venceu um Ivor Novello Award como o single mais vendido de 1966 no Reino Unido. Incrível.
Para elevar a demência a níveis estratosféricos, ainda foi feito um filme de animação baseado no conceito de "Yellow Submarine": uma viagem dos Beatles... num submarino amarelo. (Jesus...) Incrível, mesmo...

A redenção de Lennon e McCartney para com Ringo (na minha opinião, claro; porque para o resto do Mundo, parece que "Yellow Submarine" é coisa que se apresente...) surgiria logo a seguir no álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band". Apresentando-se como Billy Shears - líder da Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band - Ringo canta "With A Little Help From My Friends", na minha opinião, um dos melhores temas do álbum. Aqui sim, um tema digno de Ringo.

O primeiro tema da autoria exclusiva de Ringo Starr seria "Don't Pass Me By" e apareceria apenas em 1968, no álbum homónimo da banda "The Beatles" (vulgarmente conhecido como o "White Album"). Convenhamos que foi um início muito pouco auspicioso para o baterista dos Beatles como compositor.

Por esta altura, Ringo ameaçou abandonar a banda, por achar que estava a um nível muito inferior de todos os outros. Com a auto-estima em baixo, farto das incessantes discussões em estúdio (lembro que foi aqui que uma nova personagem entrou no quotidiano da banda - a sinistra Yoko Ono) e de um processo de gravação cheio de precalços e indefinições, Ringo deixou Londres e foi de férias para o sul de França.
Duas semanas depois, a pedido dos restantes Beatles, Ringo regressaria ao estúdio para terminar as gravações do álbum. Fruto dos rasgos criativos individuais de cada um dos Beatles, sem qualquer matriz orientadora, o "White Album" acabaria por resultar numa compilação de álbuns a solo dos vários elementos da banda (obviamente com o domínio de John Lennon e Paul McCartney).

Depois da primeira amostra de criatividade com "Don't Pass Me By", o ano seguinte traria um enorme salto qualitativo para as composições de Ringo, quando contribuiu com "Octopus's Garden" para "Abbey Road", o último álbum gravado pelos Beatles. Agora sim, finalmente: um tema divertido e jovial, mesmo à imagem de Ringo Starr, para terminar o seu trajecto na banda.
Continuando na saga do surrealismo que tantos frutos tinha dado no passado, desta vez Ringo exclama que quer viver num jardim habitado por polvos no fundo do mar. Muito bem. Entre o jardim dos polvos e o cântico da banda marcial em como vivemos num submarino amarelo... fico com o jardim!

Com este panorama, previa-se que a carreira a solo de Ringo seria a menos interessante de todos os Beatles. E é assim sem surpresa que, a meu ver, percebemos que essa previsão se confirmou.
Só não digo que a carreira a solo de Ringo Starr foi, de todo, "desinteressante", porque em 1971 George "apareceu" com "It Don't Come Easy" e em 1973, Ringo chamou os restantes amigos da sua antiga banda (afinal, Ringo até era o "gajo porreiro" dos Beatles) para o álbum "Ringo".

O álbum "Ringo" foi a estrela que iluminou todo o seu reportório a solo.
"Ringo" é a cara de Ringo: é divertido, descontraído e despreocupado. A adicionar a esta equação, tem um punhado de boas canções, compostas com o auxílio dos seus amigos. Não é nada de extraordinário, nada que se possa pôr lado a lado com discos como "Band On the Run" (dos Wings de McCartney), ou a "All Things Must Pass" (de Harrison); mas cumpre. Cumpre a missão de deixar um trabalho de referência na carreira a solo de Ringo e mostra aquilo que ele pode e sabe fazer, especialmente quando é bem auxiliado.
O caso mais bem sucedido é este "Photograph", escrito (mais uma vez) com o auxílio de George Harrison (que andava on fire nesta altura), tema lançado em single em Maio de 1973 e que liderou as tabelas nos EUA; um feito que seria repetido no fim desse ano por "You're Sixteen".

No concerto de tributo a George Harrison no Royal Albert Hall, depois da sua morte em 2002, Ringo apareceu para tocar o tema escrito conjuntamente com o seu amigo, numa homenagem que, tendo em conta o conteúdo da letra de "Photograph", fez todo o sentido:

"Every time I see your face, it reminds me of the places we used to go.
But all I've got is a photograph and I realize you're not coming back anymore..."




"I thought I'd make it, the day you went away. But I can't make it, 'til you come home again to stay..."

George e Ringo partilhavam uma enorme amizade. No documentário "Living In The Material World" de Martin Scorsese (que já recomendei, sem reservas, aqui), Ringo conta a comovente história da última vez que viu George, já este estava gravemente doente... e não conseguiu evitar as lágrimas:


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Ringo Starr - "It Don't Come Easy"

"I don't ask for much, i only want your trust and you know it don't come easy."



Não vos estarei a dar uma grande novidade se disser que Ringo Starr não era o mais talentoso dos The Beatles. Não que ele fosse mau na sua função de baterista. Aliás, na minha opinião, Ringo era o baterista ideal para a banda; o seu estilo assentava que nem uma luva nos Beatles.
Ringo marcou um estilo de tocar e influenciou milhares de outros bateristas em todo o Mundo. Beneficiando da popularidade sem paralelo dos Beatles, não há dúvidas que Ringo foi influente na arte do seu instrumento como muito poucos.

No entanto, como compositor, o facto é que Ringo era a face mais pálida dos Beatles. Como referi aqui, quando escrevi sobre George Harrison, os The Beatles foram a banda de Lennon e McCartney, onde também tocavam Harrison e Ringo. Os momentos destes últimos debaixo dos holofotes foram efémeros e se pela parte de George, isso pode ser apontado como uma crítica à política vigente do grupo, pela parte de Ringo, isso só pode ser apontado como uma forma de proteger o próprio baterista.

À falta de material escrito por Ringo para incluir nos álbuns, este foi interpretando temas escritos por outros artistas, nos primeiros anos dos The Beatles: "Boys" (Dixon, Farrell) em "Please Please Me"; "I Wanna Be Your Man" (Lennon, McCartney) em "With The Beatles"; "Honey Don't" (Carl Perkins) em "Beatles For Sale" e "Act Naturally" (Russell, Morrison) em "Help!".
O primeiro crédito de Ringo Starr apareceria em "Rubber Soul" (6º álbum da banda), como co-autor de "What Goes On" (único exemplo de co-autoria Lennon-McCartney-Starkey), que na minha opinião salda-se como um dos temas pobres de um álbum que, no resto, é simplesmente fabuloso.

Se é verdade que Paul e John sempre tentaram ajudar Ringo na sua carreira, logo desde a fase inicial (George também o faria mais tarde, como veremos à frente), também não é menos verdade que sempre tiveram noção das limitações do seu colega e amigo. Numa entrevista em 1980, John Lennon acabaria por se mostrar (estranhamente) bastante cínico em relação à "ajuda" que dera a Ringo, referindo-se a "I Wanna Be Your Man" (primeiro tema composto pela dupla Lennon-McCartney para Ringo cantar) de forma muito pouco abonatória:
"It was a throwaway. The only two versions of the song were Ringo and the Rolling Stones. That shows how much importance we put on it: We weren't going to give them anything great, right?"

Não é habitual ouvirmos John referir-se a Ringo nestes termos. Alguns anos antes, em 1975, numa entrevista para a televisão americana, Jonh abordou a dificuldade que Ringo sentia em escrever o seu próprio material, mas defendeu o seu amigo, sublinhando que ele não era um estúpido (dumb) qualquer e que até àquele ponto a sua carreira a solo até já conhecera mais sucesso que a do próprio Lennon:



Desabafos à parte, dêem-se as voltas que quiserem, a verdade é que os membros dos Beatles sempre tentaram proteger o seu elo mais fraco. Ringo era o "gajo porreiro" da banda e contribuía, à sua maneira, para aquilo que os Beatles se tornaram.

Nesse sentido, reza a História que George Harrison lhe terá oferecido "It Don't Come Easy" em 1970, mais uma sobra da pilha de temas que tinha para o álbum "All Things Must Pass".
Em Abril de 1971, Ringo lançou "It Don't Come Easy" em single (figurando como co-autor) e o tema tornar-se-ia numa dos seus ex libris.



Meses depois, em Agosto de 1971, Ringo juntou-se à banda de George Harrison no Madison Square Garden, para o concerto de ajuda ao Bangladesh (The Concert For Bangladesh) e cantou "It Don't Come Easy", ao mesmo tempo que tocava bateria. Resultado? Ringo esqueceu-se da letra e assim imortalizou esta actuação com uma valente argolada:

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

The Beatles - "Magical Mystery Tour"

"Roll up for the Magical Mystery Tour! Step right this way!"



Hoje foi finalmente anunciado o lançamento do filme "Magical Mystery Tour" em DVD e Blu-Ray, uma obra criada, produzida e realizada pelos The Beatles.
"Magical Mystery Tour" foi o 3º filme dos The Beatles e partiu de uma ideia de Paul McCartney que, depois do álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" (conceito que também partiu dele), queria criar um filme sobre a música que os Beatles faziam na época. Ora, estando os Beatles na sua fase mais profundamente psicadélica, cheios de droga no corpo (pronto, já disse!), o que é que se poderia esperar de um filme sem enredo e sem guião, baseado numa excursão de autocarro (que existia mesmo nos anos 60) de Liverpool a Blackpool em que, segundo George Harrison, apenas servia para os passageiros se embebedarem como se não houvesse amanhã? O que esperar disto?
Uma fritadura do princípio ao fim. Objectivamente, é isto.

Mas "Magical Mystery Tour" vale pela sua música e isso não é pouco. De resto, sejamos sinceros, como filme, é uma imagem pálida da arte dos Beatles. Vale momentos de piada, por mostrar algumas situações inusitadas, como John Lennon a servir esparguete com uma colher gigante e claro, pelos interlúdios musicais. Na minha opinião, são estes que salvam o filme, e salvam (sempre) a pele dos Beatles, porque na verdade é de música que os The Beatles percebem, é essa a sua arte. E isso não é pouco.

A recepção ao filme foi um verdadeiro desastre, logo após a sua transmissão na BBC, a preto-e-branco. Sendo "Magical Mystery Tour" uma obra psicadélica, onde a cor assume um papel fundamental, isto não ajudou a divulgação do filme e revelou ainda mais as suas fraquezas. O facto de ter sido mostrado ao público a preto-e-branco foi apontado pelo produtor dos Beatles George Martin, como o responsável pelo seu falhanço, mas a verdade é que todos sabiam que o filme era realmente fraco, especialmente tendo em conta que levava a marca de qualidade dos Beatles. O falhanço foi mais tarde admitido pelo próprio Paul, que acabou por pedir desculpa publicamente pelo filme, algo que, segundo o biógrafo dos Beatles Hunter Davies, marcou a primeira vez que um artista foi obrigado a pedir desculpa pelo seu trabalho.

O grande interesse de "Magical Mystery Tour" é, como referi, a música.
Para acompanhar o lançamento do filme, em Dezembro de 1967 os The Beatles lançaram no Reino Unido um duplo EP (Extended Play) de 45 rotações com a sua banda sonora:


DUPLO EP (lançado a 8 de Dezembro de 1967 no Reino Unido)

EP 1
- Lado A
"Magical Mystery Tour"
"Your Mother Should Know"
- Lado B
"I Am the Walrus"

EP 2
- Lado A
"The Fool on the Hill"
"Flying"
- Lado B
"Blue Jay Way"

Nos EUA, a Capitol (editora dos The Beatles naquele país) não gostou da ideia dos EP's em 45 rotações, um formato que não era popular no público americano. Como o material era muito pouco para um álbum inteiro (daí o lançamento em formato EP), a editora decidiu colocar a banda sonora no Lado A, adicionar o material dos singles lançados em 1967 pelos Beatles no Lado B e assim lançar um reformulado LP (Long Play).


LP (lançado a 27 de Novembro de 1967 nos EUA)
- Lado A (Banda Sonora)
"Magical Mystery Tour"
"The Fool on the Hill"
"Flying"
"Blue Jay Way"
"Your Mother Should Know"
"I Am the Walrus"
- Lado B (Singles de 1967)
"Hello, Goodbye"
"Strawberry Fields Forever"
"Penny Lane"
"Baby, You're a Rich Man"
"All You Need Is Love"


Esta reformulação foi feita contra a vontade da banda, mas a verdade é que pegou e com o passar dos anos, "Magical Mystery Tour" ganhou o estatuto de um álbum genuíno dos The Beatles, em nome próprio.
Durante muitos anos, antes de mergulhar mais profundamente no maravilhoso mundo dos álbuns dos The Beatles, se perguntassem qual o meu álbum preferido da banda, a minha resposta seria mesmo "Magical Mystery Tour". Entre uma série de singles que moldaram a minha infância, o álbum tem aquele que foi o meu tema preferido da banda desde que um amigo meu levou uma cassete com uma gravação pirata da compilação 1967-1970 para a escola, andava eu no 4º ano: "I Am The Walrus". Quando fui exposto pela primeira vez ao grito de Lennon "GOO GOO G´JOOB", soube imediatamente que estava ali uma banda que iria marcar indelevelmente a minha vida.

Fica então o vídeo promocional do novo lançamento do filme "Magical Mystery Tour" em DVD e Blu-Ray, bem como numa caixa de luxo que junta os dois formatos a um livro e a uma réplica do duplo EP original. O maior ponto de interesse é, para mim, a remistura da banda sonora em surround 5.1 e stereo. Se tudo correr como de costume, vou acabar por ceder à maior (e mais cara) edição...



Podem também ver os extras destas reedições no site oficial da banda, ou no meu blog de eleição no que toca a toda a actualidade informativa de reedições: o The Second Disc.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

The Beatles - "I'm Down"

"How can you laugh, when you know I'm down?!"



A acção decorre por volta da meia noite.
O local: o parque de estacionamento de uma discoteca algures nos arredores de Gruissan, no sul de França. A noite é escura, mas nitidamente estrelada, fruto da distância a qualquer centro urbano.

Enquanto estou dentro do carro com um amigo a cheirar o ambiente da casa, toca na aparelhagem do carro uma compilação de temas antigos, mais rockeiros, dos The Beatles. Ouve-se "I Saw Her Standing There", "Twist And Shout", "Roll Over Beethoven", entre outros.
A páginas tantas, entra um tema com Paul McCartney a gritar:

"YOU TELL LIES THINKING I CAN'T SEE!
YOU CAN'T CRY 'CAUSE YOU'RE LAUGHING AT ME!
I'M DOWN!"

A adrenalina do grito de Paul atinge-me como um relâmpago e eu abro a porta do carro.
Ao sair disparado da viatura, é com enorme surpresa que encontro, lá fora, um grupo de franceses a dançar, igualmente atingidos pela força do grito melódico de Paul.
E todos dançamos e em uníssono gritamos com os The Beatles:

"HOW CAN YOU LAUGH, WHEN YOU KNOW I'M DOWN?!"

Esta história é verídica e aconteceu em 2010, 45 anos depois da gravação de "I'm Down", 40 anos depois da separação dos The Beatles. Nenhum dos presentes viveu a Beatlemania e provavelmente os seus pais são demasiado novos para se lembrarem disso.
O que é que isso interessa? Nada.
À 3ª geração, volvidos tantos anos, é esta a força dos The Beatles.
Permanece intacta.

Bem, intacta... Mais ou menos.
A época da Beatlemania já passou e momentos como os que Paul, John, George e Ringo passaram, não voltaram nunca mais. Nem para eles, nem para mais nenhuma banda, por maior que tenha sido o sucesso que obteve.
O vídeo que se segue mostra-nos o último tema da performance dos The Beatles ao vivo no Shea Stadium, em New York, numa quente noite de Agosto de 1966. O tema é precisamente "I'm Down" e a reacção do público (principalmente do público feminino) é qualquer coisa que... só visto. Ver para crer.



Esta seria a ante-antepenúltima actuação ao vivo dos The Beatles, antes da sua retirada dos palcos, para se focarem exclusivamente nos seus álbuns de estúdio. Depois disso, só mesmo a famosa actuação no tecto dos estúdios da Apple, em Londres.

Note-se que "I'm Down" foi lançado em 1965 como o lado B do single de "Help!" e nunca foi incluído num álbum dos The Beatles. Não sei se o público conhecia o tema ou não, mas dá-me a sensação que isso não interessava para nada.


Aposto que quando Paul McCartney escreveu "I'm Down", há 45 anos atrás, este não imaginava que os netos dos fãs que na época gritavam pelos The Beatles em países diferentes, se juntariam de madrugada, num parque de estacionamento perdido no sul de França, para uma vez mais gritarem com ele.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

The Beatles - "I Am The Walrus"

"I am he, as you are he, as you are me and we are all together"

Ontem fez 30 anos que John Lennon foi assassinado à porta da sua casa em Nova Iorque.

O autor deste obsceno crime foi Mark Chapman, um homem que sofria de graves distúrbios mentais e que alegadamente até era um grande fã dos The Beatles. Ao longo dos anos, Chapman foi desenvolvendo uma obsessão em matar Lennon, uma vez que este, nos anos da sua carreira a solo, manifestava-se frequentemente contra o seu passado nos The Beatles, a religião, ou o direito à propriedade ("Imagine no possessions"). Apesar deste intervencionismo, Lennon tinha uma conta bancária recheada, pelo que Chapman achava que Lennon era um hipócrita e acreditava mesmo que depois do seu assassinato, Chapman seria visto como um visionário e um salvador.

Foi devido a esta demência que se perdeu um dos mais inventivos, mais influentes e mais importantes artistas da História.

Se é fácil reconhecer que John Lennon fez uma grande quantidade de trabalhos brilhantes, mais difícil é identificar a sua obra-prima. Para mim, esta é a resposta:



Lançado em 1967 simultaneamente no álbum/EP "Magical Mystery Tour" e como o Lado B do single nº1 "Hello Goodbye", "I Am The Walrus" é um dos temas de maior influência psicadélica dos The Beatles. Sem surpresa, Lennon revelaria mais tarde que grande parte do tema tinha sido escrito durante as suas trips.


"GOO GOO G´JOOB"

O carácter indecifrável da letra deve-se também ao facto de Lennon ter recebido uma carta de um aluno do Secundário, revelando que as letras das suas músicas eram objecto de estudo nas aulas de Inglês. Em resposta, Lennon deciciu escrever um tema cuja letra não fizesse qualquer sentido, de forma a confundir este sistema.