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sexta-feira, 6 de julho de 2018

Roger Waters – "It's A Miracle"

"Miraculous you call it babe, you ain't seen nothing yet"


Faz um mês que tive uma inundação trágica. Não acredito em Deus nem no Diabo, mas a desgraça teve tais requintes de malvadez, que mais parecia ter sido obra do Demo.

Apesar de ter os meus discos de vinil devidamente arrumados nas prateleiras com rigor bibliotecário, uma vez que tenho que aceder às prateleiras de escadote (eles chegam ao tecto e o pé direito tem 4 metros de altura), tenho os que estão em rotação corrente cá em baixo, cuidadosamente guardados num banco; banco esse onde figura também o poster do "The Division Bell" assinado pelo David, Nick e Rick (já devia estar na parede, eu sei). Ora, alguns destes discos têm enorme valor sentimental e coleccionista, caso da primeira prensagem do "The Wall" que vêem na imagem. E do poster assinado, enfim, nem preciso dizer nada.


Pois que há um mês tive uma inundação vinda do apartamento de cima e de todos os sítios do apartamento onde a água podia ter caído, foi escolher precisamente o centímetro onde os meus discos preferidos estão encostados ao poster do meu álbum preferido.

Para tornar a situação mais dramática, isto aconteceu na hora em que estava na cozinha a fazer o jantar, pelo que demorei uns bons 10 ou 15 minutos até me aperceber da tragédia que se abatia sobre mim.

Quando cheguei ao local da catástrofe, gelei. Nem queria acreditar no que estava a acontecer. Aflito, tentei salvar os discos da maneira que pude e corri a buscar toalhas e um secador. Mas parecia que não havia nada a fazer. Imaginem água suja de infiltração a cair sobre papel com 40 anos de idade, mais velho que eu. As capas dos discos ficaram todas engelhadas. Uma tragédia, portanto.

Como não sou de ficar derrotado tão facilmente, passei horas a minimizar os estragos e para tentar restaurar as capas, meti-as debaixo de uma pilha de discos.

Um mês passou e o milagre aconteceu. Como o autocolante da Flashback mostrar, a água passou por ali, mas a cama do meu The Wall está agora lisinha, como nova há 40 anos. Como diria o Roger himself, it's a fucking miracle.

P.S.: A causa da inundação? Facilmente identificável. Era sábado à noite e os meus vizinhos de cima, um casal germânico-coreano, estavam na brincadeira na banheira e a água transbordou para o chão em quantidades que sabe-se lá. Como é que eu sei? Em primeiro lugar porque eles ouvem-se. Muito. E muito alto. Especialmente ela. E porque fui lá em cima e estavam os dois meio molhados e enrolados em toalhas. Não é preciso ser o Einstein para perceber o que se estava ali a passar.

P.P.S.: Hoje é dia de Roger no Hyde Park. E' o meu 6º concerto do Roger e o 15º Floyd related:

Roger 2002/05/04 Lisboa
David & Rick 2006/03/15 Paris
Roger 2006/06/02 Lisboa
Roger 2012/03/21 Lisboa
Roger 2013/09/13 Wembley Stadium
David 2015/09/12 Pula
David 2015/09/14 Verona
David 2015/09/15 Firenze
David 2016/03/24 Hollywood
David 2016/03/25 Hollywood
David 2016/07/08 Pompeii (front row!)
David 2016/09/30 Royal Albert Hall
Roger 2018/05/20 Lisboa
Nick 2018/05/24 Putney
Roger 2018/07/06 Hyde Park

O melhor do concerto de hoje? Pensar que vou ver o Roger no Hyde Park e vou a pé para casa. What a life.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Nirvana - "Sliver"




Vi o "Supernanny". Não fiquei assim tão chocado


Quem já me leu mais que uma vez, especialmente quando trato de assuntos sociais, sabe que eu sou um libertário por natureza. Creio piamente nas liberdades individuais e apoio qualquer decisão de um indivíduo, seja ela gostar do mesmo sexo, mudar de sexo, recusar sexo, seja ela qual for, desde que venha de um adulto e que não prejudique directamente terceiros. Este princípio serve para tudo e elimina a esmagadora maioria dos argumentos em favor da censura, invariavelmente frutos de insegurança, medo e ignorância. A educação é a chave de tudo, não a censura. Só há uma restrição a este princípio libertário: é que serve unicamente e como refiro em cima, para os adultos.

Só os adultos têm bases comportamentais e cognitivas para tomar decisões responsáveis, ou pelo menos para serem responsabilizados por isso. As crianças, por seu turno, devem ser protegidas e devidamente educadas, de forma a poderem chegar a adultos informados, capazes de tomar decisões com pleno conhecimento do mundo que os rodeia, ou pelo menos para não votarem no Trump ou outras parvoíces como impedir a vacinação dos filhos.

Serve esta longa introdução para contextualizar a polémica do novo programa da SIC. O "Supernanny" é muito basicamente um spinoff o "Pesadelo na Cozinha" com crianças, em que o Stanisic é uma milf. E começo por dizer que na televisão, como no resto, sou igualmente defensor da liberdade total. Acho que todos os conteúdos televisivos devem ser permitidos, desde que, mais uma vez, seja salvaguardada a protecção das crianças.
Exemplo concreto: a pornografia deve ser transmitida em televisão? Deve. (não pode). Mas só a partir da meia-noite. Ao garantir isto, a TV está a zelar pelos interesses da criança. Se houver uma criança a ver TV a partir da meia-noite, a responsabilidade já é dos pais, que já deviam ter posto a criança na caminha àquela hora.
See? Simples.

O caso da "Supernanny" cai numa área cinzenta muito interessante, uma vez que é um programa para adultos (dá às 21:40, 40 minutos depois da hora de lavar os dentes e a 20 minutos da hora em que já eu já me arriscava a uma palmada se não estivesse na caminha), não devendo por isso ser sujeito ao mesmo critério que a programação do Canal Panda. Por outro lado, é um programa com crianças e tem como conteúdo a exploração da sua imagem. Estamos aqui a salvaguardar o superior interesse da protecção das crianças? Nem por isso. Volto ao exemplo de há pouco: a pornografia deve ser transmitida em televisão? Deve. A pornografia infantil deve ser transmitida em televisão? NÃO. Nem o Senhor Televisão se lembrou de uma dessas.

Portanto, a "Supernanny" explora a imagem das crianças? Explora. Isso é condenável? É. Mas não é mais condenável que todos os outros reality shows que também exploram a imagem de crianças. Todos os programas que põem os miúdos a cantar, dançar, ou cozinhar perante um júri, tantas vezes cruel e impiedoso para com as crianças são tão ou mais nocivos e traumáticos que o "Supernanny". E os miúdos na publicidade, com os paizinhos a encher o bolso? E já nem falo nos child actors, que em tantos casos descendem para uma adolescência de drogas e comportamentos desviantes. Mas esse é o preço de vermos o "Sozinho em Casa" no Natal (a propósito, não deixem de ler o artigo "Kevin McCallister is a sexist pig"; a sério, googlem) e de termos aqueles filmes com animais que falam no Domingo à tarde, não é?

Tanto alarido porquê, então? Porque os pais reconhecem muitas das figuras tristes que têm em casa? Provavelmente. As imagens incomodam? Claro que sim. É essa a ideia. Eu não sou pai, por isso talvez não incomode tanto. Mas faz-me muita confusão ver tanto moralista, tão chocado com o "Supernanny" e tão oblívio ao Masterchef Junior e programas derivados. Se é para discutirmos a exploração da imagem das crianças, então discutamos o essencial e proibimos tudo e deixemos o acessório.

P.S.: Relativamente ao último programa. Então a mãe, coitada, não lhe chegava ter que fazer tudo em casa, ainda tem a responsabilidade de educar e disciplinar sozinha os filhos? Depois de uma sessão de insultos e pontapés do fedelho à mãe, o pai chega a casa e ainda tira autoridade à mãe? É só festinhas? Que coninhas de primeira.

P.P.S.: Dispensa-se a perseguição mediática à psicóloga do programa. Que merda de hábito é este de nos focarmos no acessório, em vez do conteúdo. O que é que interessa a vida a vida pessoal da senhora?

P.P.P.S.: A música do post é uma birra de um puto. Foi obviamente escolhida à pressão, por isso não me fodam a cabeça.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Alice In Chains - "Them Bones"

"I believe them bones are me.
Some say we're born into the grave.
I've been so alone, gonna end up a big ol' pile o' them bones"

"Ha!!!...... Ha!!!...... Ha!!!......"  ...é com estes gritos, em prantos de quem está ao microfone debaixo de um chicote, que os Alice In Chains dão início ao seu 2º álbum "Dirt".
"Them Bones", como a maioria da discografia dos Alice, soa-me a isto:


A imagem em cima é uma fotografia de um combate de boxe, onde vemos a expressão de dor de um homem que leva um murro na cara. É disto que trata a música dos Alice In Chains - são representações de dor, de sofrimento.
Não havia, de certeza, melhor imagem para capa da colectânea "Greatest Hits" da banda:


É por demais evidente que os Alice In Chains levavam a sua música muito a sério. Tão a sério que roçavam a aversão ao mercado mais comercial. Os Alice eram demasiado mórbidos para serem do mainstream. E não digo mórbidos no sentido a que estamos habituados nas bandas de metal - eles não falam em entranhas expostas, nem no mau hálito do demo, ao som de grunhidos do vocalista e de mil notas por segundo do guitarrista.
Os Alice são mórbidos porque falam da morte, falam da dor e do sofrimento, falam de sentimentos reais. Eles não faziam música para agradar às massas, nem mesmo para os miúdos das camisas de flanela, que acharam piada aderir à moda do grunge. Os Alice faziam música porque sabiam o que é a  dor, o que é o sofrimento e queriam mostrar-nos alguma dessa dor e desse sofrimento, para que nós saibamos o que é também.

"I've been so alone, gonna end up a big ol' pile o' them bones"
Se havia veículo perfeito para passar esta mensagem, esse veículo era Layne Staley - o já falecido vocalista original da banda.
Layne Staley é a voz da morte. Se a morte tivesse uma voz, eu imagino-a como a voz do Layne Staley.

Não há esperança da voz arrastada de Layne, nem na música dos Alice In Chains. Não é como, por exemplo, os Pearl Jam, onde Eddie Vedder cantava sobre o pai que tinha morrido e nunca tinha conhecido, mas ao mesmo tempo exclamava a plenos pulmões que "Oooooh-aaaaaah-aah Ooh-ooh I'm still alive!", ou seja, que ainda estava vivo - há esperança ali. Não há nada disso nos Alice, aqui só há desolação, só há aridez.
Nomes de temas como "Rain When I Die", "Down In A Hole",  "Sea Of Sorrow", ou "We Die Young", falam por si.


Não gosto de bater sempre na mesma tecla, mas palavra que eu não entendo como é que os Nirvana é que foram a "cena" dos early 90's. Só entendo na perspectiva da "acessibilidade".
Por mais que eu esteja aqui a elevar a sua música, o apelo comercial dos Alice In Chains para as massas era diminuto. O sucesso que tiveram acabou por ser muito devido a terem surfado na onda dos Nirvana - banda que me parece em tantas coisas inferior aos Alice... e a muitas outras de Seattle.

sábado, 12 de julho de 2014

Roger Waters - "The Ballad Of Bill Hubbard"



Ainda "Amused To Death" - o álbum mais essencial da discografia a solo de Roger Waters. Dizia ontem que apesar da falta de melodias, isso não significa que este álbum não seja capaz de nos tocar.

A história de Bill Hubbard, que abre e fecha o "Amused To Death", consegue sempre deixar-me arrepiado. A história passa-se num campo de batalha durante a 1ª Guerra Mundial e é contada por Alf Razzell - um antigo soldado dos Royal Fusiliers (exército britânico).
Alf tinha a missão de ir à terra de ninguém depois de um combate e retirar a carteira aos cadáveres do seu exército que ia encontrando, de modo a serem identificadas as baixas. Com um trabalho destes, era normal Alf encontrar corpos desmembrados, decapitados e sabe-se lá mais o quê. O cúmulo dos horrores.
Um dia, na Batalha do Somme, os alemães levaram Alf à terra de ninguém e este encontrou um soldado com feridas profundas e em grande sofrimento, mas ainda com vida. Esse soldado era Bill Hubbard.

"Two things that have haunted me most are the days when I had to collect the paybooks; and when I left Bill Hubbard in no-man's-land.
I was picked up and taken into their trench. And I'd no sooner taken two or three steps down the trench when I heard a call, 
'Hello Razz, I'm glad to see you. This is my second night here,' and he said 'I'm feeling bad' and it was Bill Hubbard, one of the men we'd trained in England, one of the original battalion.
I had a look at his wound; rolled him over. I could see it was probably a fatal wound.
You could imagine what pain he was in, he was dripping with sweat; and after I'd gone about three shellholes, traversed that, had it been...had there been a path or a road I could have done better.
He pummelled me,
 'Put me down, put me down, I'd rather die, I'd rather die, put me down.' I was hoping he would faint.
He said 
'I can't go any further, let me die.' I said 'If I leave you here Bill you won't be found, let's have another go.' He said 'All right then.'
And the same thing happened. he couldn't stand it any more, and I had to leave him there, in no-man's-land."
Alf Razzell em "The Ballad Of Bill Hubbard" - "Amused To Death"


Para quem não percebe inglês, Alf Razzell encontrou Bill Hubbard com feridas mortais e tentou levá-lo às suas costas ao longo das trincheiras, com a esperança do salvar. Mas as dores por que Bill passava eram insuportáveis e este obrigou Alf a deixá-lo ali, a morrer, em terra de ninguém.

"[Alf:] Years later, I saw Bill Hubbard's name on the memorial to the missing at Aras.
And I...when I saw his name I was absolutely transfixed; it was as though he...he was now a human being instead of some sort of nightmarish memory of how I had to leave him, all those years ago.
And I felt relieved, and ever since then I've felt happier about it, because always before, whenever I thought of him, I said to myself, 'Was there something else that I could have done?'
And that always sort of worried me. And having seen him, and his name in the register - as you know in the memorials there's a little safe, there's a register in there with every name - and seeing his name and his name on the memorial; it sort of lightened my...heart, if you like."
[woman:] "When was it that you saw his name on the memorial?"
[Alf:] "Ah, when I was eighty-seven, that would be the year, ninete...eighty-four, nineteen eighty-four."
Alf Razzell em "Amused To Death" - "Amused To Death"


Ainda estou para perceber qual é, afinal, o fundamento de mandar os homens de um país para a morte num campo de batalha.
Se no fim de qualquer guerra os generais se sentam à mesa e chegam a um acordo, porque é que não fazem isso antes da guerra?

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Roger Waters - "Amused To Death"

"No tears to cry, no feelings left. This species has amused itself to death."


Depois de falar nos Pink Floyd de David Gilmour (na prática, é isto) e de Richard Wright, chega a vez de Roger Waters.

Eu sei, nos últimos tempos tenho batido muito no tio Roger aqui no blog e ainda não dei a devida atenção à sua obra a solo. Mas isso não quer dizer que não goste dele.
Falar em Roger Waters é falar num dos maiores génios da história do Rock, criador dos álbuns conceptuais mais superlativos algumas vez gravados. É da cabeça deste génio criativo que saíram as ideias (não necessariamente toda a música) que resultariam em "The Dark Side Of The Moon", "Animals" e "The Wall". Não é de somenos.

Roger Waters é, de facto, um génio criativo. O problema de Roger é que o título de génio criativo lhe foi atribuído... por ele próprio. Reza a História que esta auto-indulgência pode ser extrapolada toda a sua personalidade.
Para ser friamente honesto, Roger era - pelo menos até há bem pouco tempo - o tipo de pessoa com quem nenhum de nós gostaria de se cruzar.
Se há um adjectivo que vemos repetidamente atribuído a Roger, esse será o de Prick (tradução livre: anormal/idiota/cabrão). "Roger is a prick", disse um dia David Gilmour, para explicar porque é que não falava com ele há 15 anos. "Just another prick in the wall" (esta tem piada), chamou-lhe recentemente este colunista, devido às suas posições anti-Israel.
Eu sou mais simpático e chamar-lhe-ia o maior egomaníaco da história do Rock, com tanto de mérito, como de idiota. Não poderá ter sido fácil trabalhar com ele, especialmente na sua fase mais obnóxia, durante a 2ª metade da década de 70 e 1ª da década de 80.

Foram precisos muitos anos para amansar a fera. Só recentemente parece ter enterrado o machado de guerra com David, tendo até marcado presença num evento de caridade promovido por Gilmour, favor que este retribuiu ao aparecer num concerto de Roger, para uma lendária rendição de "Comfortably Numb".

Mas o facto de eu o criticar e de até me pôr ao lado dos seus companheiros dos Pink Floyd devido à sua personalidade detestável, nada disso significa que eu não me identifique com o que escreveu Roger. Porra, se há alguém que conseguiu pôr em disco os meus medos, os meus dilemas e as minhas lutas internas, esse alguém é Roger Waters (e Bruce Springsteen, obviamente).

E ainda assim, nunca dediquei grande atenção à obra a solo de Roger Waters aqui no blog. Poderia ser obra do acaso, mas não é. O problema é que a obra a solo de Roger não é assim tão boa quanto isso.

Em meados dos anos 80, Waters estava deserto por se ver livre dos restantes membros dos Pink Floyd, por achar que eles já não contribuíam nada para as suas criações. Saiu assim dos Pink Floyd em 1984, alegando que estes eram já uma "força esgotada" (estou a citar) e ingenuamente presumiu que a banda tinha terminado, por não fazer sentido sem a sua presença. A vaidade sair-lhe-ia cara, uma vez que o futuro provaria que não poderia estar mais enganado e os Pink Floyd lançariam mais 2 3 álbuns de grande sucesso.

Se houve alguém que sofreu com a separação dos Pink Floyd, esse alguém foi Roger Waters. Sem David Gilmour, sem Richard Wright, músicos que ele considerou dispensáveis e esgotados, as ideias de Roger nunca mais puderam ser materializadas em música que o público quisesse ouvir.
Roger foi buscar Eric Clapton, Jeff Beck e Andy Fairweather Low para fazer de David Gilmour, mas nenhum deles tapou os buracos que ele próprio abrira com o seu ego. Uma pena. E por que não, uma lição para a vida de todos nós.

Nesta matéria eu falo à vontade, uma vez que a discografia de Roger Waters foi a primeira que eu conheci a fundo, de todos os membros dos Pink Floyd a solo.
No meu top de álbuns a solo dos Pink Floyd (vá lá, não façam essa cara, é óbvio que eu tenho isto categorizado e ordenado), em primeiro vêm "On An Island" de David e "Wet Dream" de Rick, quase ex aequo e só depois surge "Amused To Death" de Roger.



"Amused To Death" é o 3º álbum a solo de Roger Waters (o 4º, se contarmos com a colaboração com Ron Geesin em 1970) e o último a ser lançado até hoje; já remonta a 1992, já lá vão 22 anos.

Esqueçam as melodias. Em "Amused To Death", elas são inexistentes, ou estão tão difusas na quantidade torrencial de efeitos sonoros (explosões, comentadores, telefones, entrevistas, etc etc), que são praticamente imperceptíveis. Valham-nos um Jeff Beck e um Patrick Leonard em grande forma, que nos vão dando alguns laivos de musicalidade aqui e ali.

Na maior parte do tempo, o tio Roger tem coisas para dizer e quer que vocês ouçam. Estamos no início dos anos 90 e a televisão assume um papel mais importante que nunca na sociedade.
Guerra do Golfo é transmitida em directo para grandes audiências, Roger Waters não concorda e, como não poderia deixar de ser, quer falar sobre isto. Mais uma vez, muita política.

"Amused To Death" marca o culminar de um ciclo que começou em "The Wall", continuou em "The Final Cut" e prolongou-se pela discografia a solo de Waters ("The Pros And Cons Of Hitchicking" e "Radio K.A.O.S."), ciclo esse que eu chamo de purificação de Waters (grande trocadilho). À medida que Roger foi ganhando poder, a sua música foi ficando cada vez mais insípida, com cada vez mais foco nas palavras e menos (ou nenhum) na melodia.

Faltam as melodias, mas isso não significa que este álbum não seja capaz de nos tocar. E mais: que este não seja um grande álbum; que é. Mas poderia ser muito melhor e esse é que é o problema.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Noel Gallagher - "There Is A Light That Never Goes Out" (Live)

"There is a light and it never goes out..."



Já tive dias melhores. Não que o dia de regresso ao trabalho após as férias seja, alguma vez, um dia muito feliz, mas regressar ao trabalho com um acidente de automóvel é, digamos, um dia especialmente mau.
O que mais vos posso dizer acerca do dia de hoje? É que hoje é um dia tão bom como qualquer outro para se ser poético. E por isso mesmo vos digo que hoje, pela primeira vez em toda a minha vida, durante uma fugaz sequência de fracções de segundo... as luzes apagaram todas e eu vi a Velha Senhora. Fitei-a e olhei-a nos olhos, algo que espero nunca mais fazer durante muitos... muitos anos.
As luzes apagaram todas... todas menos uma. Porque para mim, há ainda uma luz que nunca se apaga.



Qual era a música que profeticamente tocava no auto-rádio no exacto momento do acidente?
Nem a propósito: "There Is a Light That Never Goes Out", tema original dos The Smiths, do seu álbum ex libris "The Queen Is Dead" (mas lançado em single apenas em 1992), na voz de Noel Gallagher.

"Driving in your car, I never never want to go home, because I haven't got one... Anymore."

Já tive dias melhores. Mas daqui vos continuo a escrever porque para mim, há ainda uma luz que nunca se apaga.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Tears For Fears - "Laid So Low (Tears Roll Down)"

"What a fool I've been to have laid...
So low...
For so long...
SO LOOOOOOOOOOOOOW"



"Chewed the bone down too low"

Submissão. Às vezes acontece. Na procura de um cruzamento de interesses comuns, na perspectiva de uma reviravolta em busca de um horizonte mais risonho, por vezes numa luta interna contra a nossa própria idiossincrasia, somos levados à submissão. Não porque queremos, ou gostamos, mas porque achamos que isso é um passo rumo a um local mais feliz. Na esmagadora maioria das vezes não é.

"I was humble for you"

Cedência. O antecedente da submissão, o conceito de aparência virtuosa que nos convence a aceitar as regras do jogo impostas por outrem. Diz-se que para um relacionamento resultar (e não falo necessariamente de relacionamentos amorosos), é preciso ceder, ser humilde. É verdade. Mas isso por vezes desencadeia uma espiral de acontecimentos que resulta no conceito referido em cima.

"What a fool I've been to have laid so low"

Rotura. O resultado da epifania da submissão. Quando acordamos e percebemos que todas aquelas cedências que pensávamos que nos iriam transportar para esse tal lugar mais feliz, afinal, só nos rebaixaram ("sent your soul underground").


Nunca consigo ser parco em superlativos para os Tears For Fears. Atrás dos Queen e dos Pink Floyd, serão provavelmente a minha banda preferida, com um obra que, sem ser muito extensa, é de uma qualidade fenomenal. Para mim, são a banda mais subvalorizada (underrated) da História da música Pop/Rock. É "só" isto.
Muita dessa subvalorização se deve ao mega-sucesso dos singles "Shout" e Everybody Wants To Rule The World" (do álbum "Songs From The Big Chair"), que ofuscaram todo o restante trabalho dos Tears For Fears, largamente ignorado, devido à presunção que são uns meros one hit wonders. Longe, muito longe disso.

Os anos dourados dos TFF foram nos anos 80, época em que Curt Smith (a face alegre, voz doce da banda) e Roland Orzabal (a face soturna, o génio perturbado) lançaram 3 álbuns: "The Hurting", "Songs From The Big Chair" e "The Seeds Of Love". TODOS eles, álbuns fabulosos.
Saltando para 1990/1991 (noutra altura falarei sobre os anos 80 dos TFF), Curt decide abandonar a banda, em rotura (hint) com Roland e põe-lhe as culpas em cima. Orzabal oferecera muitas das partes vocais de Curt no álbum "The Seeds Of Love" a Oleta Adams (que fora "descoberta" por Roland num bar de hotel e assim lançada para uma carreira a solo de sucesso), atirando Smith para um plano secundário da banda. Para além disso, a busca obsessiva de Orzabal pelo perfeccionismo na produção tornava-se frustrante para Smith, que pretendia amenizar a carga de trabalho da banda, para se dedicar à família.

Em 1992, Roland Orzabal resolveu seguir em frente com a sua vida, agora a solo (hint),
mas mantendo o nome dos Tears For Fears. Assim, lançou "Tears Roll Down (Greatest Hits 82–92)", compilação que reunia todos os êxitos dos TFF nos anos 80, mais um tema novo: "Laid So Low (Tears Roll Down)".


"Laid So Low (Tears Roll Down)" foi assim lançado em Fevereiro de 1992 como single de promoção à compilação, atingindo sucesso muito moderado. "Laid So Low" é uma reformulação de "Tears Roll Down" - um Lado B do single "Sowing The Seeds Of Love" - que serviu de base para a criação deste tema.

Devido a esta criação "a dois tempos", "Laid So Low" congrega uma amálgama de intenções (nomeadamente em relação à infância difícil de Roland), mas é essencialmente um tema sobre rotura.
Cedência, submissão e rotura.
Neste caso concreto, é um tema sobre a rotura com Curt Smith. Segundo Roland, "so low" é um anagrama de "solo". E a verdade é que se a lírica for lida dessa forma, então tema ganha outro significado. Roland admite também a sua condição de solitário ("What a fool I've been to have laid solo..."). Admite, mas repudia-a.
O lamento de Roland no refrão, descreve o preenchimento do silêncio da solidão pelas suas próprias lágrimas:

"Into that void of silence, where we cry without sound... where tears roll down"

"Laid So Low (Tears Roll Down)" é um dos temas sobre rotura mais efectivos que conheço. Não necessariamente uma rotura amorosa, mas com certeza afectiva. É efectivo porque encarna a dureza da traição, da submissão. Atente-se no grito de Roland Orzabal em "SO LOOOOW". É um grito catártico e irado. É o grito da epifania da submissão.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Freddie Mercury - "Time (Nile Rodgers 1992 Remix)"

"Time waits for nobody..."



O dia em que o Rei faz anos. É hoje.

Foi há 65 anos que, em Zanzibar, numa pequena ilha ao largo da Tanzânia, nasceu o Rei. O Rei, claro está, é Freddie Mercury. O único, o mais genial e mais completo artista da História do Rock, o meu ídolo de sempre, o Rei Freddie Mercury.

Freddie nasceu pacatamente sob a cultura Parsi, muito longe dos palcos que viria a pisar uns anos mais tarde.
Muito cedo Freddie se mudou para a Índia, onde frequentou escolas britânicas na zona de Bombaim (hoje Mumbai), as quais lhe incutiram formação musical, principalmente de piano, instrumento onde já revelava capacidades notáveis.

Aos 17 anos, Freddie e a sua família mudaram-se para o Middlesex no Reino Unido. Freddie integrou alguns projectos musicais sem sucesso, até que em 1970 se junta a Brian May e Roger Taylor dos Smile e, mais tarde com John Deacon, formam os Queen.
O resto é História. A História que todos conhecemos.

Para festejar esta data, o tema que aqui deixo é "Time", um dos meus preferidos da curta carreira a solo de Freddie Mercury. "Time" foi originalmente gravado em 1986, juntamente com "In My Defence" (outro tema fabuloso), para o musical de Dave Clark com o mesmo nome.
Para a promoção do musical e do respectivo álbum, "Time" foi lançado em single no Reino Unido, atingindo o modesto 32º lugar.


As versões originais de "Time" e "In My Defence" ficariam de fora dos álbuns a solo de Freddie Mercury. Em 1992, diferentes remisturas de ambos os temas apareceriam nas compilações póstumas "The Great Pretender" (lançada nos Estados Unidos) e "The Freddie Mercury Album" (lançado na Europa). Os originais apareceriam apenas mais tarde na megalómana caixa "Solo" de 2000 e na compilação "Lover of Life, Singer of Songs: The Very Best of Freddie Mercury Solo" de 2006.

A versão que aqui fica é a remistura de Nile Rodgers (dos Chic) em 1992, uma vez que foi aquela que eu sempre conheci e aprendi a gostar. E é nada menos que fantástica.

A verdade é que parece que todo o Mundo hoje presta homenagem ao Rei. Basta abrir a página do Google, para darmos com o doodle:



A equipa da banda decidiu também criar um "vídeo oficial" de homenagem ao Rei:



Aqui vemos Freddie em vários momentos ao longo da sua carreira, seja ao vivo, em entrevistas, ou mesmo em estúdio. Destaco as imagens (absolutamente inéditas) de Freddie a gravar a lindíssima balada "My Melancholy Blues", nas sessões de "News Of The World". Adorei.
Neste vídeo, Freddie profere algumas frases fortes (a maioria já conhecia), onde fala também da sua pessoa:

"I think I am a man of extremes, I don't think I have that much in the middle"

Como eu te compreendo, Freddie!

"Everybody looks at me on stage and they think that's the way I am, arrogant and all...
And you look at me now and you see that actually I'm quite boring"

E aqui está aquilo que, para muitos, pode ser uma revelação. Freddie Mercury era mesmo um homem de extremos e se em palco era a bola de fogo que conhecemos, fora dele podia ser uma pessoa calma, até mesmo enfadonha.

"When I'm dead, who cares? I don't"

I do Freddie! I still do...

sábado, 29 de janeiro de 2011

Guns N' Roses - "Only Women Bleed" / "Knockin' On Heaven's Door" (Live)

"Man lies right at you
He's your life's mistake
All you're really lookin' for... is an even break"



Hoje vou contar a história da entrada da música dos Guns N' Roses na minha vida.

Estávamos no início 1992 e eu, na inocência e ignorância da minha tenra idade, esforçava-me para perceber as consequências da horrível notícia que tinha abalado o Mundo alguns meses antes: a morte de Freddie Mercury, vítima do vírus da SIDA. Esta notícia despertou definitivamente as pessoas para a percepção daquela terrível doença, mas abalou também o meu mundo. Já desde há uns anos a essa parte que os Queen eram a minha banda preferida e Freddie Mercury o meu grande ídolo. Vê-lo de cima de um palco era (e ainda é) o epítome da grandiosidade. Não foi fácil para um miúdo perceber que, a partir de então, tudo tinha acabado...

Foi nesta altura que foi organizado aquele que seria o maior evento musical global desde o "Live Aid" (e o maior até ao "Live 8", mas de 10 anos depois): o "The Freddie Mercury Tribute Concert". Este evento juntou os maiores nomes da música daquela época a alguns dos maiores nomes das décadas anteriores. Foi uma tarde magnífica de homenagem ao Rei, um concerto histórico transmitido em directo para 76 (!!) países, para mais de mil milhões de espectadores.


"We got one more time to go... Let's make this one reach the heavens"

Para mim, este era uma espécie de último adeus ao Rei e uma passagem de testemunho às bandas que iam substituir os Queen. Literalmente.
Ou seja, na minha inocência, eu pensava que os Guns N' Roses, os Metallica, ou os Def Leppard estavam ali para tomar o lugar dos Queen. Embora me tenham explicado várias vezes que todas as bandas eram entidades diferentes, isto era o que fazia mais sentido na minha cabeça e foi esta a explicação que eu teimosamente assumi.
De repente, ao ver o Axl Rose no palco cantar "Knockin' On Heaven's Door", a morte de Freddie Mercury deixou de parecer uma tragédia irreversível. Afinal, tinha chegado alguém para o substituir.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Vangelis - "Light & Shadow"



O álbum de Vangelis "1492: The Conquest Of Paradise" teve um sucesso fora de tempo e inesperado. Aquando do seu lançamento em 1992, como banda sonora do filme com o mesmo nome (um filme muito interessante sobre a viagem de Colombo e que eu aconselho vivamente), o álbum passou despercebido e teve um sucesso muito parco, inserido numa curva claramente descendente na carreira de Vangelis.

Só em 1995/1996 e por razões de ordem diferente em vários países europeus (em Portugal, devido ao seu uso na campanha de António Guterres para as Legislativas), é que o tema-título "Conquest Of Paradise" teve uma enorme projecção e levou o álbum a um sucesso estrondoso, em boa hora rejuvenescendo a carreira de Vangelis e incentivando um público mais novo a descobrir os seus trabalhos mais antigos. Em boa hora, porque também eu me insiro neste grupo.

O tema que aqui fica é "Light & Shadow", uma das minhas peças preferidas deste álbum. Note-se que a letra dos cânticos que se ouvem neste tema não tem qualquer significado; são uma linguagem inventada (pseudo-Latim) usada para descrever as sensações que a música transmite, uma técnica denominada wordpainting. E sim, isto serve também para a célebre lírica do tema "Conquest Of Paradise", se é que alguma vez se questionaram o que é aquilo significava...



Se é verdade que a banda sonora compõe um álbum fabuloso, o filme não é menos interessante.
É um filme essencial sobre os Descobrimentos (embora não seja sobre a "nossa" parte), que eu recomendo quase sem reservas. Penso que não arrisco muito em dizer que este é mesmo o melhor filme jamais feito sobre a temática dos Descobrimentos. As reservas que tenho sobre o guião referem-se à forma invariavelmente pejorativa com que Portugal sai retratado...

Apesar disso, o filme conta com uma grande interpretação de Gérard Depardieu como Cristóvão Colombo, mostra cenários majestosos com bela filmagem e acompanha tudo com a sublime banda sonora de Vangelis. A banda sonora é amplamente carregada neste filme, projectando-o para uma dimensão superior. Repito: aconselho vivamente.

Nesta cena do filme, Cristóvão Colombo chega ao continente americano, oportunamente ao som de "Hispanola" de Vangelis:

domingo, 12 de dezembro de 2010

Undercover - "Baker Street"

"Just one more year and then you'll be happy"



O início dos anos 90 foi uma época viu que as pistas de dança povoadas de grande música. O Pop e o Rock misturaram-se com o Disco e muitos temas da noite chegaram mesmo a encontrar sucesso mainstream, com airplay significativo nas rádios generalistas. A música de dança era, no entanto, bastante diferente da que ouvimos hoje. Para melhor.
Foi o caso deste magnífico cover do tema mais famoso de Gerry Rafferty, "Baker Street" (um original de 1978), pela banda Undercover, que invadiu as discotecas e as tabelas em todo o mundo em 1992.

Confesso que me inclino mais para esta versão "dançável" deste tema, do que para o original de Gerry Rafferty.