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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Tears For Fears - "Standing On The Corner Of The Third World"

"Man I never slept so hard... I never dreamt so well"


Volvidos 3 meses, eis que mais uma vez me deparo com a tarefa da ressurreição do blog; e motivos para isso não me faltam.
Contudo, contra todas as incidências que se têm passado na minha vida nos últimos dias e que me permitiriam regressar à escrita (ver ao vivo Queens Of The Stone Age, ver ao vivo The Rolling Stones, ver ao vivo The Rolling Stones com Bruce Springsteen, conhecer Bruce Springsteen - sim, leram bem), hoje não vou falar de nada disso.
Hoje vou falar do álbum "The Seeds Of Love" dos Tears For Fears. E falar de "The Seeds Of Love" é falar de um dos melhores álbuns de sempre - o 21º para ser mais preciso (as of 2014/06/03 e sim, eu tenho uma lista).

"The Seeds Of Love" está para a Pop Rock do final dos anos 80, como os filmes de Krzysztof Kieslowski estavam para o cinema da mesma época. Na era do advento dos filmes da acção, fartos festivais de balas e explosões, os filmes do realizador polaco destacavam-se pela sua beleza sem paralelo (façam um favor a vocês mesmos e pesquisem pela obra deste génio, em particular a série "Dekalog", de 1988).
Na música, enquanto todos à volta dos TFF gravitavam em torno da preocupação em ser cool e surfavam na onda dos excessos dos 80's, dos sintetizadores, ou da nova vaga do Hair Metal que então rebentava, os Tears For Fears estavam obcecados com a procura pela beleza. Dessa obsessão, nasceu "The Seeds Of Love".

"As a band, we came from the programmed pop era of the early '80s and we had inherited a sense of structure that permeated almost all our music. The way we were working was becoming too sterile.
We wanted to do something more colourful, something that sounded big and warm. You cannot get that from machines. You only get that with real musicians and real players."
Curt Smith (Tears For Fears)

O processo de gravação do álbum "The Seeds Of Love" foi, eufemisticamente falando, um processo penoso.
Quando o álbum viu finalmente a luz do dia em Setembro de 1989, o frenesim gerado à sua volta já era enorme e não necessariamente pelas melhores razões. As razões eram semelhantes às que elevariam "Chinese Democracy" dos Guns N' Roses ao estatuto de elefante branco do Rock, uns anos mais tarde.

"A lot of it was programmed on synthesisers and drum machines. There was no fluidity or expression.
After two or three months it was driving me mad because I was waking up to the limits of our own music - it had become a straight jacket."
Roland Orzabal (Tears For Fears)

A gestação de "The Seeds Of Love" demorou 3 anos, passou pelas mãos de 4 produtores, em 9 estúdios de gravação e custou mais de 1 milhão de libras. Estes números eram absolutamente inauditos na época, tornando este o álbum mais caro de sempre no UK até então e demorando um período nunca antes visto para a gravação de um só disco.
O frenesim era, de facto, justificado; mas não só pelas piores razões. Se é verdade que "The Seeds Of Love" tivera um parto difícil, não é menos verdade que o que dali saiu foi o mais belo ser alguma vez parido por Roland Orzabal e Curt Smith.

"[After we recorded "Songs From The Big Chair"], all around us there was a desire to recreate it.
Everybody, except me and Curt, felt we were on to a good thing. I couldn't see it that way. I believe that, to create, you have to destroy. 
It's painful and it's difficult, but it's the only way I can work."
Roland Orzabal, em entrevista à revista Q 
"Para se criar, tens que destruir.", diz Roland, acrescentando que é um processo "difícil e doloroso". De facto, é uma situação pela qual a vida nos obriga a passar a todos: para construir um novo futuro, temos que cortar com o passado.

"One night in Kansas City, we played the concert, thousands of people, the lights, the huge PA, and it felt vacuous. After we showered we went down to the hotel bar, a dollar-fifty to get in because there was a band on.
There was a woman called Oleta Adams singing and playing piano, with bass and drums. It wasn't like a normal bar, there were families there, people in suits. You didn't feel you could talk, you had to listen. And it was incredible. I was in tears. Phenomenal atmosphere.
And I thought: "I'm doing something wrong. I've got to get back to basics.""
Roland Orzabal

O corte com o passado em "The Seeds Of Love" é evidente e o processo deixou marcas em Roland e Curt. Foi este o álbum que marcou a clivagem entre os dois.
Enquanto Roland desenvolvia uma obsessão com o detalhe (nada saudável, nem para ele, nem para as pessoas que o rodeavam), em busca de um perfeccionismo que só parecia existir na sua mente; Curt parecia deixar-se levar pelos excessos da vida de uma estrela Pop (pelo menos era o que Roland achava), talvez como auto-defesa para lidar com os pedaços do seu próprio casamento, que se desintegrava com a criação do novo álbum da banda.
O resultado foi o progressivo afastamento de Curt do processo criativo e, obviamente, da banda. Daí para a frente, Roland assumiria a maioria das partes vocais e muitas das restantes seriam entregues à sua nova protegée - Oleta Adams.




Na realidade, "The Seeds Of Love" é essencialmente um trabalho de Roland Orzabal. Retirando números efectivamente conjuntos como "Sowing The Seeds Of Love" (até hoje o tema dos TFF preferido de Curt Smith), este é um álbum de Roland. Não por acaso referi aqui diversas vezes a palavra obsessão. Há na produção meticulosa deste álbum, uma clara obsessão de Roland com a pureza.

"The Seeds Of Love" é um álbum mais adulto que "The Hurting" e "Songs From The Big Chair", é o disco que marca a transição de Roland para a maturidade como artista e como homem. Mais que isso, o álbum é, todo ele, um processo de purificação interior.

O tema que aqui deixo é um perfeito exemplo da maravilhosa produção a que o álbum foi sujeito.
"Standing On The Corner Of The Third World" é a brisa que entra pela janela no fim de uma tarde de verão abrasadora, é a chuva que cai na janela da sala quentinha, é o momento em que boiamos na água de uma praia deserta numa manhã de Agosto, é... bem, percebem a ideia. "Standing" é paz, é tranquilidade e é talvez o exemplo mais sucedido da sonoridade orgânica que os TFF almejavam para este álbum.

""Standing On The Corner Of The Third World" is the thing about womb-like containment, the oceanic realm of the imagination and picking up things in a subconscious manner.
The vibe is one of containment and safety and peace and solitude. "Rolling and controlling all the basements and the backroads of our lives", is a reference to how you get rid of all the shit and the dirt of life - it's swept under the carpet, or, at the very least, out of sight."
Roland Orzabal

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Tears For Fears - "Ready To Start"

"If I was yours, but I'm not... Now I'm ready to start."

Já tinha aqui avisado em Março: os Tears For Fears estão de volta.
Pelo aparato, parecia ser algo em grande e os últimos meses confirmaram: vem aí um novo álbum, o regresso da banda às grandes digressões (nomeadamente à Europa) e uma edição especial de "The Hurting" - o 1º álbum dos TFF.

Estas revelações foram surgindo na internet, muito pela mão de Curt Smith, mas nada de oficial tinha sido anunciado ainda. Até hoje.
Aproximadamente às 00:00, o Facebook oficial dos Tears For Fears repetiu uma imagem enigmática que já tinha sido sido partilhada a semana passada:



Os Tears For Fears estão de volta com... um cover dos Arcade Fire.
Apropriadamente, para dar início às hostilidades, "Ready To Start":





O cover vinha com uma dedicatória especial, onde Curt e Roland parecem querer piscar o olho à geração mais nova, homenageando os artistas que ao longo dos anos foram interpretando temas dos TFF:
Having appreciated artists like Kanye West, Katy Perry, Kimbra, Nas, Gary Jules/Michael Andrews, Adam Lambert & Dizzee Rascal covering and sampling our songs over the past years, we agreed that some reciprocal cross-generational love was in order. We decided to give Arcade Fire a twist of TFF. Enjoy.
Curt Smith e Roland Orzabal

[Aparte: Apreciaram o Kanye West e a Katy Perry? Medo!]

"Ready To Start" é um original dos Arcade Fire, incluído no álbum (muito bom) "The Suburbs" de 2010 e lançado em single na época.
Fica aqui a versão original dos Arcade Fire:



Curiosa, esta escolha de um tema dos Arcade Fire, a banda hipster mais mainstream da actualidade (ou será que é a banda mainstream mais hipster?).
Em qualquer dos casos, é seguramente uma das bandas que mais acende o paradoxo hipster / popular da cultura ocidental. Muito os hipsters devem coçar as cabeças debaixo daqueles chapéus, para decidir se podem gostar ou não dos Arcade Fire.

Mas isto é assunto para todo um outro tópico.
____________________________________

Voltando ao cover dos Tears For Fears, em primeiro lugar, tenho que rejubilar com a alegria de voltar a ouvir a voz do Roland Orzabal. Que saudades!
Desde "Floating Down The River (Once Again)", lançada em 2006, como faixa bónus no álbum ao vivo "Secret World Live in Paris", que não ouvíamos a voz de Roland Orzabal. Já lá vão mais de 7 anos!

Relativamente ao arranjo desta versão de "Ready To Start", parece que os TFF querem fazer um tributo à época de "The Hurting", ao regressarem em força aos sintetizadores. Acho que falta guitarra neste cover, instrumento que Roland sabe tão bem usar.
Deixo-lhe aqui um repto, que espero que ele siga para o que falta gravar do novo álbum:

More guitar please, Roland! Thank you.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Tears For Fears - "Pale Shelter (You Don't Give Me Love)"

"When you don't give me love, you give me pale shelter"


Foi ao som da faixa instrumental de "Pale Shelter" e com a icónica imagem do rapaz descalço, a chorar no vazio (capa do álbum "The Hurting"), como pano de fundo, que em Março deste ano, os Tears For Fears deixaram o aviso - "Este ano vai ser em grande. Preparem-se!".
Nessa semana, logo me apressei a conjecturar neste tópico o que é que poderia vir aí. Uma digressão mundial para relembrar "The Hurting"? Uma edição expandida do álbum de estreia dos TFF? Um novo álbum da banda? Não sabia, mas os níveis de entusiasmo já batiam no tecto.

Ao longo destes meses, foi sendo levantado o véu que tapava estes mistérios, muito por culpa de Curt Smith, que felizmente anda sempre activo nas redes sociais, para nos dar as últimas novidades em primeira mão. E o que é que nos espera, então? Ao que parece, TUDO.

A primeira grande revelação de Curt Smith é que voou até Bath, onde estava Roland Orzabal, para começar as gravações do novo álbum dos Tears For Fears. Alguns temas foram escritos e gravados e entretanto as sessões foram interrompidas, devendo ser reatadas ainda este Verão em Los Angeles, desta feita em território de Curt. Conhecendo a história da banda e o seu modus operandi na criação, gravação e produção de novo material, diria que, na melhor das hipóteses, poderemos esperar o álbum daqui a sensivelmente um ano. Aguardemos.

Antes disso, os Tears For Fears irão voltar certamente à estrada e, julgando pela dica de Curt Smith há umas semanas no Twitter, fazer o seu tão aguardado regresso à Europa, para uma digressão. quase 10 anos depois.
Faço desde já a promessa: a não ser que me seja, de todo, impossível, lá estarei presente, seja onde for.

Finalmente e antes disso ainda, esperar-nos-á uma pérola já há muito aguardada pelos fãs dos Tears For Fears: uma reedição de luxo, expandida e remasterizada do 1º álbum da banda "The Hurting". Tal como eu havia projectado aqui.

Êxtase... Puro êxtase. Diz o povo que "cada maluco com a sua mania" e eu, certamente, tenho as minhas.
Foi assim, em puro êxtase, que eu me senti quando dei de caras com a notícia, no fabuloso blog Super Deluxe Edition, cujo autor contribuiu para a compilação da caixa (o que significa que ainda há esperança para o meu dream job).
O entusiasmo era tanto, que à primeira leitura que dei do texto consegui ler muito pouco. Tive que ler 3 a 3 vezes para conseguir processar toda aquela informação. Que mais não seja, porque fiquei vidrado com esta imagem:


Deixemo-nos de rodeios e vamos então aos pormenores sobre o conteúdo da caixa de "The Hurting", que nos chegará pelas mãos da Universal a 21 de Outubro de 2013:

Tears For Fears - "The Hurting" [3CD+DVD] (2013)

Disco 1: "The Hurting" [Álbum original] (1983)
1. "The Hurting" (4:20)
2. "Mad World" (3:55)
3. "Pale Shelter" (4:34)
4. "Ideas As Opiates" (3:46)
5. "Memories Fade" (5:08)
6. "Suffer the Children" (3:53)
7. "Watch Me Bleed" (4:18)
8. "Change" (4:15)
9. "The Prisoner" (2:55)
10. "Start of the Breakdown" (5:00)


Disco 2: B-Sides And Remixes
1. "Suffer the Children" [7" Version] (3:36)
2. "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love)" [Single Version] (3:55)
3. "The Prisoner" [Single Version] (2:40)
4. "Ideas As Opiates" [Single Version] [Lado B de "Pale Shelter"] (3:54)
5. "Change (New Version)" (4:33)
6. "Suffer the Children (Remix)" (4:15)
7. "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love) (Extended Version)"  (6:25)
8. "Mad World (World Remix)" [Lado B de  "Pale Shelter"] (3:30)
9. "Change (Extended Version)" (5:54)
10. "Pale Shelter (New Extended Version)" (6:41)
11. "Suffer the Children [Instrumental]" (4:26)
12. "Change" [Single Version] (3:52)
13. "Wino" [Lado B de “Suffer the Children”] (2:17)
14. "The Conflict" [Lado B de “Change”] (4:02)
15. "We Are Broken" [Lado B de  "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love)"] (4:03)
16. "Suffer The Children (Promo CD Version)"


Disco 3: Live Sessions
John Peel Sessions (1982.09.01):
1. "Ideas As Opiates" (3:51)
2. "Suffer The Children" (4:00)
3. "The Prisoner"
4. "The Hurting" (3:51)
Kid Jensen Sessions (1982.10.20):
5. "Memories Fade" (4:21)
6. "The Prisoner"
7. "Start Of The Breakdown" (3:45)
8. "The Hurting" (3:47)
"The Way You Are" single:
9. "Start of the Breakdown (Live in Oxford)" (5:53)
10. "Change (Live in Oxford)" (4:36)


Disco 4 (DVD): "In My Mind’s Eye"
1. "Start of the Breakdown"
2. "Mothers Talk"
3. "Pale Shelter"
4. "The Working Hour"
5. "The Prisoner"
6. "Ideas As Opiates"
7. "Mad World"
8. "We Are Broken"
9. "Head Over Heels"
10. "Suffer the Children"
11. "The Hurting"
12. "Memories Fade"
13. "Change"
Nota: A duração das faixas não é oficial, foi retirada da Wikipedia e dos meus registos.


Para além da música, a caixa irá conter também uma réplica do livro da digressão (tour programme) de 1983 dos Tears For Fears, bem como um livro de capa dura, de 34 páginas, com detalhes sobre a gravação do álbum e algumas fotos nunca antes vistas publicamente.

O vídeo já tinha sido lançado em 1984 em VHS e vê agora a sua 1ª aparição em DVD. Infelizmente, parece que vamos ter novamente aqueles irritantes efeitos especiais dos anos 80. Mas não se pode pedir tudo.

"I ask for more and more. How can I be sure?"

A música, essa foi toda remasterizada a partir das fitas "master" (master tapes) no estúdios de Abbey Road, pelo conceituado engenheiro acústico Peter Mew. Mew é conceituado, mas nos últimos anos não necessariamente pelas melhores razões. No fim dos anos 90 / início dos 00, foi responsável pelas remasterizações do catálogo de David Bowie na Virgin e da compilação "1" dos The Beatles.
As remasterizações de Bowie fizeram a sua música soar estéril, digital, sem o afago que as gravações analógicas nos proporcionam. Já a compilação "1" tem o volume estupidamente alto, com a consequente perda de dinâmica e sensibilidade. Uma bagunça auditiva.

Esperemos que Peter Mew largue as ferramentas de redução de ruído das fitas originais de "The Hurting" e nos traga uma remasterização aconchegante, como se estivéssemos a ouvir o velhinho vinil do álbum.

Já vimos o que a caixa tem, falta saber o que não tem. Relativamente às minhas sugestões neste post, o que é que foi deixado de fora? Muito pouco.
Quanto aos singles lançados na época, de fora desta caixa ficaram apenas a versão Extended de "The Way You Are" (um dos temas mais fracos que já foi gravado pelos TFF), e (infelizmente) "Saxophones As Opiates" - um lado B de "Mad World", que é uma versão de "Ideas As Opiates", mas onde a voz é substituída pelo saxofone. Segundo Paul Sinclair, foi a própria banda que vetou "Saxophones", o que é uma pena.
O saxofone é um dos meus instrumentos preferidos e o seu uso nesta faixa resulta muito bem. Era uma das preciosidades que me faltava. Com esta ausência, penso que "Saxophones" passa a ser o único tema dos TFF que nunca foi lançado em CD.

Para além destas 2 faixas, a Universal não incluiu também o concerto gravado para a BBC no Hammersmith Palais, nem o vídeo do programa alemão Rockpalast. Paciência, ao menos temos este material disponível à borla, para quem procurar devidamente.
Em contrapartida, temos uma versão de "Suffer The Children" que eu desconhecia, lançada num disco promocional em 1989, para fechar o disco de raridades deste set.

"How can I be sure? When your intrusion is my illusion
How can I be sure? When all the time you changed my mind"

Uma das faixas que aparece mais vezes na caixa é "Pale Shelter", tema que foi lançado em single, em versões diferentes, por 3 vezes (!!) entre 1982 e 1983. "Pale Shelter" foi gravado originalmente em 1982 e lançado em single com o nome de "Pale Shelter (You Don't Give Me Love)", ainda antes da gravação do álbum "The Hurting", numa versão mistura por Mike Howlett.
Para o álbum, o tema seria regravado e rebaptizado para apenas "Pale Shelter".

O facto de terem nomes diferentes ajuda a perceber qual é qual, por entre a confusa discografia dos TFF nesta altura, mas eu prefiro muito mais o nome "Pale Shelter (You Don't Give Me Love)", do que o abreviado "Pale Shelter". Manias.

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ADENDA:

Em baixo, fica o resumo das faixas lançadas em Single pelos Tears For Fears na era de "The Hurting". A verde estão indicadas as faixas incluídas no material bónus da caixa, sendo que as versões de álbum de "Mad World" e "Pale Shelter" estarão, obviamente, também incluídas.
Note-se que a versão canadiana de "Pale Shelter (You Don't Give Me Love)", lançada em 1985 (para capitalizar o sucesso de "Songs From The Big Chair") não é mais que um novo edit da versão Extended deste tema lançada em 1982.








Sim, eu tenho uma folha de Excel com isto tudo. Sim, eu sei que isso pode indicar um problema. Manias.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Tears For Fears - "Secret World"

"You and I have a secret world and we can keep it unfurled"


Porque hoje estou especialmente bem disposto, trago-vos um pouco do meu álbum preferido dos "anos 00". Sim, arrisco logo à partida tal louco epíteto. Não digo que é "o melhor" (esse exercício é extremamente subjectivo e terá que ficar para outra altura), muito menos direi que é o mais inovador e ainda menos o mais influente; mas é definitivamente o meu preferido.

Porque são os Tears For Fears e porque todos gostamos de um final feliz.
"Everybody Loves A Happy Ending" é o título que assenta como uma luva ao álbum da reconciliação dos Tears For Fears. Foram precisos 10 anos para que os elementos do core dos TFF voltassem a falar. A separação que seguiu a digressão de "The Seeds Of Love" foi feia, complicada. Complicada como fora todo o processo de gestação deste álbum.
Em 2000, as burocracias relativas àquela que ainda era "a banda" de ambos levaram a que Curt Smith e Roland Orzabal restabelecessem contacto. Nesta altura, Curt já levava 10 anos de (uma modesta) carreira a solo e Roland já tinha deixado de trabalhar a solo debaixo do nome da banda, lançando no ano seguinte o seu único álbum em nome próprio: "Tomcats Screaming Outside".

O encontro de Curt e Roland em 2000 foi um momento estranho, desconfortável. Sob o repto de Orzabal, cujo agente sugerira ao de Smith a possibilidade de uma reunião, Curt voou para Bath (onde Roland ainda vivia e vive) e aí se reuniram para jantar. Foi um reencontro incómodo, como se de um casal divorciado se tratasse.
Em tempos idos, esse casal fora feliz e mais próximas estavam as memórias dos conflitos entre ambos. Mas 10 anos volvidos, já nem os ressabiamentos dos conflitos estavam presentes na sala. Apenas estava uma amálgama de memórias, algumas boas, outras más e estavam duas pessoas que juntas, chegaram a conquistar o Mundo.

Depois de 10 minutos de constrangimento, as histórias dos dias em que o Mundo era deles começaram a voar sobre a mesa e, como sempre deveria acontecer, a força da amizade atropelou o que restava dos ressentimentos. Curt e Roland decidiram gravar um novo álbum juntos e em menos de 6 meses já tinham 14 novos temas escritos.

O processo de gestação de "Happy Ending" foi mais suave que o de "Seeds", mas nem por isso foi remotamente fácil. O álbum foi terminado em 2003, quase 3 anos (!!!) depois do início das gravações, e tinha lançamento previsto para esse ano, mas a saída da banda da editora Arista começou um longo e penoso período de espera para os fãs (onde eu me incluía), que ansiavam pelo infame álbum de reunião dos TFF.


"Everybody Loves A Happy Ending" acabaria por ser lançado em 2004 nos EUA e apenas em 2005 na Europa, altura em que eu (finalmente) lhe pus as mãos. Lembro-me como se fosse hoje daquele início de tarde na Fnac do Colombo, depois de um qualquer exame na faculdade. As primeiras audições do álbum foram uma viagem de descoberta. Uma viagem num balão de ar quente (como no vídeo do 1º single "Closest Thing To Heaven"), às vezes de dia ("Call Me Mellow"), às vezes de noite ("The Devil") carregada de vivas e coloridas imagens ("Who Killed Tangerine?").

Todo o álbum é um exercício de catarse, à boa maneira dos Tears For Fears. É da dor que saem os seus melhores trabalhos. Foi assim que nasceram "The Hurting" e "Songs From The Big Chair" (os 2 primeiros álbuns), à custa da dolorosa infância de Curt e Roland; foi assim com "The Seeds Of Love", que levou 2 anos e mais 1 Milhão de libras para gravar; foi assim com "Raoul And The Kings Of Spain", quando Roland se debatia com a dificuldade de manobrar a pesada máquina dos TFF sozinho.
"Happy Ending" é um álbum diferente de todos os anteriores. Desta feita, da dor resulta um arco-íris. Um produto de redenção.

"Secret World" é um exemplo desta redenção. Para dar a "Secret World" o cariz épico que procuravam, os Tears For Fears foram buscar uma orquestra dirigida pelo lendário Paul Buckmaster, "o homem" dos arranjos orquestrais de Elton John.
"You and I have a secret world and we can keep it unfurled"
"Eu e tu temos um mundo secreto e podemos mantê-lo à vista de todos". Ou a história de duas pessoas que encontraram em si uma zona de conforto para continuar a mostrar ao mundo o seu mundo secreto. Ou a continuação da história de Curt Smith e Roland Orzabal.

Curt e Roland voltaram a gravar e esperam-se novidades para este ano. Felizmente, "o final feliz" de "Everybody Loves A Happy Ending" ainda não foi o final dos Tears For Fears.

terça-feira, 26 de março de 2013

Tears For Fears - "The Hurting"

"Is it an horrific dream? Am I sinking fast?"


Um rapaz descalço, a chorar, no vazio. Foi assim que os Tears For Fears se deram a conhecer ao Mundo em 1983:


"Could you understand a child, when he cries in pain?"

É esta a capa de "The Hurting", o 1º álbum dos Tears For Fears. Uma imagem que assenta na perfeição ao nome da banda (Tears For Fears - lágrimas para medos), ao título do álbum ("The Hurting" - a mágoa) e, mais que tudo, ao conteúdo do álbum.

"The Hurting" é um dos álbuns mais depressivos que já ouvi. Corrijo: é o álbum mais maravilhosamente depressivo que já ouvi. É um mergulho na escuridão da psique de 2 recém-adultos (tanto Roland Orzabal como Curt Smith tinham 21 anos, à data de lançamento de "The Hurting"), a carpir mágoas de infâncias dolorosas.

Roland e Curt inspiraram-se largamente na terapia de Arthur Janov (psicólogo/psicoterapeuta), cujo livro "The Primal Scream" ("A terapia primal") deu, inclusivamente, o nome à banda. Em "The Primal Scream", Janov defende que os traumas de infância deveriam ser tratados, incitando o paciente a expressar, sentir, e relembrar as dores outrora reprimidas.
O álbum "The Hurting" é isto. Terapia primal, em música.

"Learn to cry like a baby, then the hurting won't come back"

A componente da psicologia e a influência de Arthur Janov é tão forte e tão ampla por todo o álbum, que "The Hurting" aproxima-se do modelo clássico do "álbum conceptual". Neste caso, um álbum conceptual sobre depressão.

A roupa que veste este difícil conceito é sui generis. Em vez dos trejeitos góticos, mais apoiados no Rock, do Post-Punk / Urbano-depressivo em voga na altura (para as bandas que abordavam estas temáticas), os Tears For Fears preferiram experimentar com os sintetizadores, numa produção mais New Wave.

Mas estabeleça-se agora um paralelismo entre "The Hurting" e, por exemplo, o que faziam os Duran Duran ou os Simple Minds, duas bandas referência do New Wave na época, no UK. Em ambos casos, este tipo de produção é utilizada para conferir um estilo atraente e upbeat. Já em "The Hurting", os sintetizadores são aplicados para sugerir ao ouvinte uma ambiente de drama e angústia. E nem assim deixa de ser lindíssimo, nem assim deixa de dar prazer ao ouvinte.

Ouçam "The Hurting" e experimentem mergulhar na sua essência. Prestem atenção às letras e aos arranjos sonoros, numa rara simbiose entre a electrónica e a guitarra acústica. É um álbum maravilhosamente depressivo.

"Could you see my pain? Could you please explain the hurting?"

"The Hurting" fez este mês 30 anos. Para comemorar a data, os Tears For Fears lançaram (finalmente!) o seu website e a sua página no Facebook, onde deixaram o seguinte anúncio:

"Thanks for an amazing 30 years. This year is gonna be a big one. Get ready!"
Curt Smith e Roland Orzabal


O que é que Curt e Roland querem dizer com isto? Não faço a mínima ideia. Uma coisa parece certa: terá algo a ver com "The Hurting".
Será uma digressão mundial para relembrar o álbum de 1983? Ou será uma edição especial, daquelas que eu adoro, cheia de extras e coisas boas, para comemorar a data?

O excelente site The Second Disc já fez uma previsão do que poderia sair numa edição especial de "The Hurting". Eu pego na sugestão do site, mas se é para pedir, eu vou mais longe:

Tears For Fears - "The Hurting [30th Anniversary Edition]" (2013)

Disco 1: Álbum original (1983) + Lados B
1. "The Hurting" (4:20)
2. "Mad World" (3:55)
3. "Pale Shelter" (4:34)
4. "Ideas As Opiates" (3:46)
5. "Memories Fade" (5:08)
6. "Suffer the Children" (3:53)
7. "Watch Me Bleed" (4:18)
8. "Change" (4:15)
9. "The Prisoner" (2:55)
10. "Start of the Breakdown" (5:00)
11. "Wino" [Lado B de “Suffer the Children”] (2:17)
12. "Saxophones As Opiates" [Lado B de “Mad World”] (3:54)
13. "The Conflict" [Lado B de “Change”] (4:02)
14. "We Are Broken" [Lado B de  "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love)"] (4:03)

Disco 2: Singles (1981-1983)
1. "Suffer the Children" [Single Version] (3:36)
2. "Change (New Version)" (4:33)
3. "Suffer the Children [Remix]" (4:15)
4. "Suffer the Children [Instrumental]" (4:26)
5. "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love)" [Single Version] (3:55)
6. "The Prisoner [Single Version]" (2:40)
7. "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love) [Extended Version]"  (6:25)
8. "Change [Extended Version]" (5:54)
9. "Mad World [World Remix]" [Lado B de  "Pale Shelter"] (3:30)
10. "Ideas As Opiates [Single Version]" [Lado B de  "Pale Shelter"] (3:54)
11. "Pale Shelter [New Extended Version]" (6:41)
12. "Change [Live in Oxford]" (4:36)
13. "Start of the Breakdown [Live in Oxford]" (5:53)
14. "The Way You Are [Extended Version]" (7:33)

Disco 3: Live
"BBC In Concert":
1. "Memories Fade" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (6:01)
2. "The Way You Are" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (5:21)
3. "Suffer the Children" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (4:53)
4. "Pale Shelter" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (6:47)
5. "Ideas As Opiates" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (3:46)
6. "Mad World" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (3:42)
7. "Watch Me Bleed" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (4:14)
8. "Change" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (4:43)
9. "Start of the Breakdown" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (6:28)
10. "The Hurting" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (4:09)
Kid Jensen Sessions:
11. "Start Of The Breakdown" [Jensen Session] (3:45)
12. "The Hurting" [Jensen Session] (3:47)
13. "Memories Fade" [Jensen Session] (4:21)
John Peel Sessions:
14. "Ideas As Opiates" [14/08/1982 Peel Session] (3:51)
15. "The Hurting" [14/08/1982 Peel Session] (3:51)
16. "Suffer The Children" [14/08/1982 Peel Session] (4:00)
17. "The Prisoner" [14/08/1982 Peel Session]

Disco 4: DVD - "In My Mind’s Eye" + Videoclips
"In My Mind's Eye":
1. "Start of the Breakdown"
2. "Mothers Talk"
3. "Pale Shelter"
4. "The Working Hour"
5. "The Prisoner"
6. "Ideas As Opiates"
7. "Mad World"
8. "We Are Broken"
9. "Head Over Heels"
10. "Suffer the Children"
11. "The Hurting"
12. "Memories Fade"
13. "Change"
Videoclips:
1. "Mad World"
2. "Change"
3. "Pale Shelter"
4. "Mad World" (Top of the Pops, 1982)
5. "Pale Shelter" (Top of the Pops, 1983)
Disco 5: DVD - Rockpalast (Sartory-Säle Köln 12.05.1983)
1. "Memories Fade"
2. "The Way You Are"
3. "Suffer the Children"
4. "Pale Shelter"
5. "The Prisoner"
6. "Ideas As Opiates"
7. "The Hurting"
8. "Mad World"
9. "Watch Me Bleed"
10. "Change"
11. "Start of the Breakdown"
12. "Mad World"
13. "Pale Shelter"

Sonhar não custa, pois não?

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Tears For Fears - "Raoul And The Kings Of Spain"

"When the seventh son of the seventh son comes around and breaks the chain..."


Quando que me perguntam qual é a minha música preferida de sempre (na verdade, não me lembro de alguém me perguntar isto, eu é que gosto de fazer estas reflexões nerdicas), há meia dúzia temas que me vêm imediatamente à cabeça. Entre temas como "High Hopes" dos Pink Floyd, "The Show Must Go On" dos Queen, ou "Champagne Supernova" dos Oasis, está... (como já devem ter adivinhado por esta introdução) "Raoul And The Kings Of Spain" dos Tears For Fears.

Tenho uma amiga que me costuma dizer que as nossas preferências musicais se devem a 3 factores: "Opiniões, gostos e vivências", porque "muitas vezes gostamos ou não de uma música pela vivência que temos com ela". 
É uma teoria com fundamento.

Separar opiniões e gostos, é algo que não é fácil, mas que é possível. Por exemplo, se me perguntarem qual e a minha banda preferida (a que eu mais gosto), a resposta seriam os Queen. Por outro lado, se me perguntarem qual a melhor banda de sempre (a que na minha opinião, é a melhor), a minha resposta já seriam os Pink Floyd. Em qualquer dos casos, obviamente que gosto de ambas.

Relativamente às vivências, é uma relação que dispensa exemplificações. A música fica associada a momentos da nossa vida. Os bons e os maus. É inevitável. E se tivermos em conta o efeito terapêutico da música, nem é preciso ficar associada a bons momentos, para que crie um elo de ligação connosco.
Pensem nos vossos temas preferidos, ou nos vossos álbuns preferidos e avaliem, caso a caso, se eles estão associados a tempos de bonança, ou a tempos de provação. Pode ser que tenham uma surpresa.

Mas se é verdade que já risquei determinados álbuns, por me levarem para lugares para onde eu não quero ir; há outros que puxo sempre que preciso de navegar para o meu porto seguro. São os álbuns que passam mais tempo empilhados junto ao leitor de CD's, do que devidamente arrumados na prateleira. São os álbuns que me teleportam para um lugar de segurança e despreocupação, a maioria deles associados a momentos da minha infância.

Este é o caso de "Raoul And The Kings Of Spain", dos Tears For Fears - um disco que marcou a minha vida, um dos meus álbuns preferidos de sempre.

Viajemos então no espaço e no tempo.

Fim de semana alargado, de 6 a 9 de Abril, de 1996. A família Bento decide fazer a sua primeira grande viagem de carro ao estrangeiro, no seu Lancia Dedra branco. O roteiro compreendia o Sul de Espanha, com passagens por Sevilha, Gibraltar, Algeciras, Granada e a Serra Nevada.

No auto-rádio Alpine do carro, uma cassete:



Mas a cassete não tinha o álbum todo. Numa geração diferente da pirataria, muito antes do mp3 e dos downloads, esta ainda se fazia com a gravação indevida em formato Compact Cassette, abreviado de MC (MusicCassette). Nas cassetes, gravava-se o que se podia, tendo em conta a limitação de espaço na fita. No caso de "Raoul", com pouco mais de 50 minutos, o álbum caberia em qualquer cassete de 60 minutos - as mais banais naquela altura.

O problema é que, quem quer que tenha gravado a cassete, gravou duas vezes o mesmo "lado", isto é, o mesmo conjunto de temas nos dois lados da fita. Graças ao inovador sistema auto-reverse do auto-rádio, o resultado foi um loop contínuo de 25 minutos que se repetiu ad aeternum ao longo da viagem, durante 4 dias, dentro do carro:


1. "Raoul and the Kings of Spain" (5:16)
2. "Falling Down" (4:56)
3. "Secrets" (4:42)
4. "God's Mistake" (3:47)
5. "Los Reyes Católicos" (1:44)
6. "Sorry" (4:48)


Uma viagem destas, cheia de paisagens novas e cheiros desconhecidos, teria que marcar indelevelmente a impressionável mente de um miúdo de 10 anos. Colado às imagens da neve na Serra Nevada, da chuva copiosa de Gibraltar, ou da miragem de África lá ao fundo, para lá do intenso nevoeiro, estará para sempre um grito:
"Raaaaaaoooouuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuul!!"
Aos 10 anos, a minha percepção da língua inglesa ainda não era grande coisa, mas para cantar a plenos pulmões o refrão de "Raoul And The Kings Of Spain" com Roland Orzabal, tal não era necessário.

Colados à música, ficaram estes momentos, estas vivências. Daí em diante, "Raoul" ficaria sempre como um bilhete directo para os bancos de trás do Lancia Dedra branco, onde eu podia dormitar em segurança, despreocupadamente, enquanto olhava pela janela, para paisagens nunca vistas.

Dentro em breve, voltarei inevitavelmente a "Raoul And The Kings Of Spain", da mesma forma que já voltei imensas vezes ao longo da minha vida. Voltarei a "Raoul", porque muito mais fica por dizer sobre este álbum, na minha opinião uma das obras primas da curta, mas concisa, carreira dos Tears For Fears.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Tears For Fears - "Laid So Low (Tears Roll Down)"

"What a fool I've been to have laid...
So low...
For so long...
SO LOOOOOOOOOOOOOW"



"Chewed the bone down too low"

Submissão. Às vezes acontece. Na procura de um cruzamento de interesses comuns, na perspectiva de uma reviravolta em busca de um horizonte mais risonho, por vezes numa luta interna contra a nossa própria idiossincrasia, somos levados à submissão. Não porque queremos, ou gostamos, mas porque achamos que isso é um passo rumo a um local mais feliz. Na esmagadora maioria das vezes não é.

"I was humble for you"

Cedência. O antecedente da submissão, o conceito de aparência virtuosa que nos convence a aceitar as regras do jogo impostas por outrem. Diz-se que para um relacionamento resultar (e não falo necessariamente de relacionamentos amorosos), é preciso ceder, ser humilde. É verdade. Mas isso por vezes desencadeia uma espiral de acontecimentos que resulta no conceito referido em cima.

"What a fool I've been to have laid so low"

Rotura. O resultado da epifania da submissão. Quando acordamos e percebemos que todas aquelas cedências que pensávamos que nos iriam transportar para esse tal lugar mais feliz, afinal, só nos rebaixaram ("sent your soul underground").


Nunca consigo ser parco em superlativos para os Tears For Fears. Atrás dos Queen e dos Pink Floyd, serão provavelmente a minha banda preferida, com um obra que, sem ser muito extensa, é de uma qualidade fenomenal. Para mim, são a banda mais subvalorizada (underrated) da História da música Pop/Rock. É "só" isto.
Muita dessa subvalorização se deve ao mega-sucesso dos singles "Shout" e Everybody Wants To Rule The World" (do álbum "Songs From The Big Chair"), que ofuscaram todo o restante trabalho dos Tears For Fears, largamente ignorado, devido à presunção que são uns meros one hit wonders. Longe, muito longe disso.

Os anos dourados dos TFF foram nos anos 80, época em que Curt Smith (a face alegre, voz doce da banda) e Roland Orzabal (a face soturna, o génio perturbado) lançaram 3 álbuns: "The Hurting", "Songs From The Big Chair" e "The Seeds Of Love". TODOS eles, álbuns fabulosos.
Saltando para 1990/1991 (noutra altura falarei sobre os anos 80 dos TFF), Curt decide abandonar a banda, em rotura (hint) com Roland e põe-lhe as culpas em cima. Orzabal oferecera muitas das partes vocais de Curt no álbum "The Seeds Of Love" a Oleta Adams (que fora "descoberta" por Roland num bar de hotel e assim lançada para uma carreira a solo de sucesso), atirando Smith para um plano secundário da banda. Para além disso, a busca obsessiva de Orzabal pelo perfeccionismo na produção tornava-se frustrante para Smith, que pretendia amenizar a carga de trabalho da banda, para se dedicar à família.

Em 1992, Roland Orzabal resolveu seguir em frente com a sua vida, agora a solo (hint),
mas mantendo o nome dos Tears For Fears. Assim, lançou "Tears Roll Down (Greatest Hits 82–92)", compilação que reunia todos os êxitos dos TFF nos anos 80, mais um tema novo: "Laid So Low (Tears Roll Down)".


"Laid So Low (Tears Roll Down)" foi assim lançado em Fevereiro de 1992 como single de promoção à compilação, atingindo sucesso muito moderado. "Laid So Low" é uma reformulação de "Tears Roll Down" - um Lado B do single "Sowing The Seeds Of Love" - que serviu de base para a criação deste tema.

Devido a esta criação "a dois tempos", "Laid So Low" congrega uma amálgama de intenções (nomeadamente em relação à infância difícil de Roland), mas é essencialmente um tema sobre rotura.
Cedência, submissão e rotura.
Neste caso concreto, é um tema sobre a rotura com Curt Smith. Segundo Roland, "so low" é um anagrama de "solo". E a verdade é que se a lírica for lida dessa forma, então tema ganha outro significado. Roland admite também a sua condição de solitário ("What a fool I've been to have laid solo..."). Admite, mas repudia-a.
O lamento de Roland no refrão, descreve o preenchimento do silêncio da solidão pelas suas próprias lágrimas:

"Into that void of silence, where we cry without sound... where tears roll down"

"Laid So Low (Tears Roll Down)" é um dos temas sobre rotura mais efectivos que conheço. Não necessariamente uma rotura amorosa, mas com certeza afectiva. É efectivo porque encarna a dureza da traição, da submissão. Atente-se no grito de Roland Orzabal em "SO LOOOOW". É um grito catártico e irado. É o grito da epifania da submissão.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Tears For Fears - "Broken"

"In my mind's eye, one little boy anger one little man"



1985 foi um ano magnífico. Já em 1973, Paul McCartney tinha antecipado que este seria um ano especial, quando escreveu o fantástico "Nineteen Hundred and Eighty Five" para o maravilhoso álbum "Band On The Run". Mas isso ficará para outro dia.
Não é sobre nada disso que eu vou falar hoje.

O meu álbum preferido de 1985, que é simultaneamente um dos meus álbuns preferidos de sempre, dá pelo nome de "Songs From The Big Chair" e é de uma das bandas que definiu esse ano: os Tears For Fears.


Originalmente gravado em 1983, "We Are Broken" foi um tema construído à volta de drum machines e sintetizadores, guiado por um áspero riff de guitarra de Roland Orzabal.
Dois anos mais tarde, este tema foi recuperado para "Songs From The Big Chair" e rebaptizado de "Broken", numa gravação com a banda completa. No álbum, "Broken" foi dividido em dois excertos, que apareceriam separados pelo tema "Head Over Heels" (outra grande malha).
A versão original "We Are Broken" ficaria relegada para a obscuridão, apenas lançada como um Lado B no single "Pale Shelter" e no single exclusivo ao Japão de "The Way We Are".

Na verdade, a sequência de acordes de "We Are Broken" deu origem a uma série de diferentes temas dos Tears For Fears. A saber:
- "Broken"
- "Broken (Live)" (ambas as versões fazem parte do álbum "Songs From The Big Chair", intercaladas por "Head Over Heels")
- "Broken Revisited" (uma bizarra versão alternativa de "We Are Broken" com a gravação de vozes invertidas)
- "Head Over Heels" (um tema absolutamente novo com base na sequência de acordes de "We Are Broken")
- "When In Love With A Blind Man" (mais uma vez, um tema completamente novo com base na mesma sequência de acordes)

As faixas "Broken", "Head Over Heels" e "Broken (Live)" foram incluídas no álbum "Songs From the Big Chair". "When in Love with a Blind Man" foi o Lado B de Head Over Heels e "Broken Revisited" foi incluído numa edição limitada em MC de "Songs From the Big Chair".

É interessante perceber que todos estes 5 temas foram editados por diversas vezes ao longo dos anos, tanto em reedições de "Big Chair", como em compilações. Porém, o tema berço "We Are Broken" continuou sem ver a luz do dia até 2007, quando foi incluído na compilação "Famous Last Words - The Collection". E mesmo assim, já li que a introdução não é exactamente igual àquela que estava no single "Pale Shelter" de 1983. Se assim for, ainda estou para ouvir a versão original de "We Are Broken".

"Between the searching and the need to work it out, I stop believing everything will be alright"

"Broken" é a âncora do Lado 2 do álbum "Songs From The Big Chair". É um tema que reflecte o desespero visceral causado pela necessidade de fazer com que as coisas resultem na vida... quando as coisas teimam em não resultar.
Quem nunca sentiu isso?

É também interessante observar a colocação de "Broken" na estrutura do álbum, se pensarmos que "Head Over Heels" é um tema que transmite a pureza e a inocência de uma paixão juvenil. Estando "Head Over Heels" entalado entre dois segmentos de "Broken", esta sequência dá a ideia de full circle... A cada ciclo completo, mantém-se o mesmo estado de espírito:

"Broken, we are broken"

O vídeo que fica aqui documenta uma performance de "Broken" ao vivo em Munique, na digressão de promoção do multi-platinado "Songs From The Big Chair". Este vídeo está incluído no excelente filme "Scenes From The Big Chair", que compila uma série de clips, entrevistas e performances ao vivo dos Tears For Fears, alusivas ao álbum "Big Chair".

"Scenes From The Big Chair" é um documentário que retrata os Tears For Fears no seu auge de popularidade em todo o mundo, capturando o sucesso da banda em locais tão distantes como o Japão, a Alemanha, ou os EUA.

Lançado em vídeo em 1985, "Scenes From The Big Chair" foi recentemente reeditado em DVD, numa edição que eu aconselho sem reservas. Conjuntamente com o documentário, está também incluído neste DVD uma entrevista com o produtor do disco Chris Hughes e ainda o concerto "Going To California", que teve lugar em Santa Barbara, na digressão do álbum "The Seeds Of Love". É pena que o concerto não seja da era de "Big Chair", mas não se pode pedir tudo...


"Funny how... time flies"

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Tears For Fears - "Advice For The Young At Heart"

"While they play mothers and fathers, we play little boys and girls... When we gonna make it work?"



Hoje termino o dia com uma das minhas músicas "light" preferidas: Tears For Fears com "Advice For The Young At Heart" do álbum "The Seeds Of Love" de 1989.

Os TFF sempre foram um mistério para mim: uma banda com vários álbuns fabulosos e que no entanto são amplamente conhecidos como "Two Hit Wonders", devido ao sucesso com os dois singles mais populares do álbum "Songs From The Big Chair" de 1985: "Shout" e "Everybody Wants To Rule The World". De facto, este álbum é excelente e estes dois temas são peças fulcrais que moldaram a FM nos 80's. Mas a verdade é que os TFF são muito mais para além disto.

Talvez porque nunca foram uma banda preocupada com a promoção da imagem, não obtiveram a promoção que outros conseguiram, com muito menos qualidade (à cabeça vêm os Culture Club de Boy George, por exemplo), uma vez que os TFF "apenas" tinham a sua música para vender. A verdade é que os TFF lançaram nos anos 80 três álbuns muito bons e estilisticamente distintos. Se "The Hurting" foi um álbum severamente integrado no Synth Pop e no New Wave (com uma fortíssima carga emocional e depressiva) e "Songs From the Big Chair" foi uma evolução natural para o Pop Rock mais mainstream e alegre, em "The Seeds of Love", Roland Orzabal diz que "para criar, muitas vezes tem que se destruir e começar de novo". E isso dá a "Seeds" uma sonoridade completamente diferente de "Big Chair" e "The Hurting". É um álbum mais maduro, mais orgânico, mais cuidado na produção (só o loop de bateria em "Badman's Song" demorou 15 dias consecutivos a editar) e mais eclético. Mas nem por isso teve mais sucesso que os anteriores.

O problema é que "Seeds" foi editado 4 anos e 1 milhão de libras depois de "Big Chair", numa altura que a banda já tinha perdido o seu momentum. A descolagem do estilo de "Big Chair" também não ajudou e por isso o público não aderiu tão massivamente como no álbum anterior, atingindo "apenas" a platina em ambos os lados do Atlântico, contra a quíntupla platina nos EUA e tripla platina no Reino Unido de "Big Chair".

Voltando a "Advice", este é o tema mais alegre de "The Seeds Of Love", o único interpretado por Curt Smith neste álbum. Curt sentiu-se marginalizado na produção do álbum e na sequência de antigos conflitos com Roland Orzabal, acabaria por sair da banda e enveredar por uma carreira a solo.