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terça-feira, 15 de julho de 2014

Black Sabbath - "Into The Void"

"Make a home where love is there to stay, peace and happiness in every day"



Agora que já lá vão quase 2 semanas do concerto dos Black Sabbath em Londres, chegou a altura de escrever umas palavras sobre aquele épico fim de tarde no Hyde Park. Começando por aí, destaco que depois de uma tarde em que tocaram Soulfly, Motorhead, Faith No More, Soundgarden e Black Sabbath, às 22:30 já estava tudo despachado e a caminho de casa.
Em Portugal, essa é a hora a que começam os concertos com algum interesse nos festivais. Não digo que um está certo e o outro errado, mas agora ficou finalmente explicado porque é que os Queen entraram em Wembley em 1986 quando ainda havia luz natural. Os concertos em Inglaterra acontecem cedo.

Como Soulfly não me diz nada, a tarde começava para mim com um aperitivo chamado Motörhead. Só apanhei o final do concerto, mas ainda deu para ouvir "Ace Of Spades", bem como o cartão de visita de Lemmy: "Hello, we are Motörhead and we play Rock n Roll". Continua em forma.

A seguir, vieram os Faith No More e o que posso dizer é que não fiquei nem mais, nem menos fã da banda do que já era. Foram competentes.
Depois fui lá para a frente e chegaram os Soundgarden, a primeira banda que eu queria realmente ver. E foi qualquer coisa entre o excepcional e o mesmérico. Voltarei aos Soundgarden em breve.

Finalmente, por volta das 20:00, o sol começou a esconder-se e uma nuvem negra desceu ao Hyde Park. Vinham aí os Black Sabbath.
Sobre o que aconteceu a seguir, vou dizer-vos uma coisa: eu já vi muito concertos na minha vida - centenas, diria (nunca fiz as contas, mas sabendo que já vejo concertos há 15 anos, fazendo uma média de 10 por ano e contando os múltiplos concertos em festivais, diria que é um número que passa os 200) - mas nunca vi uma entrada tão apoteótica em palco. Parecia que estávamos em Southampton a receber os fuzileiros ingleses e os Aliados tinham ganho a guerra sem ir para o campo de batalha.

Os Black Sabbath entraram ao som de "War Pigs" - o tema de abertura do álbum "Paranoid" - e geraram uma euforia como nunca vi igual. O público  cantava  gritava a letra a plenos pulmões e quando não havia letra para cantar,  cantava  gritava as partes instrumentais. Incrível. Começava em grande a noite de glorificação dos Black Sabbath.

Ainda estava a plateia a recuperar o fôlego da entrada extasiante da banda, já Ozzy anunciava o segundo tema... e logo um dos meus preferidos. Do álbum "Master Of Reality", vinha aí "Into The Void" - que na primeira prensagem americana do álbum estava dividida em 2 secções: "Deathmask" e "Into The Void".


"Into The Void" é provavelmente o tema mais influente dos Black Sabbath. Ao ouvir este tema, imediatamente reconhecemos uma série de bandas que de certeza beberam aqui as suas influências. Sabemos, por exemplo, que este é o tema dos Sabbath preferido de James Hetfield. Eu ouço "Into The Void" e reconheço um tema dos Metallica. Ou dos Soundgarden. E não é à toa que os Soundgarden fizeram um cover deste tema.
Por outro lado, não é ao acaso que "Master Of Reality" é largamente considerado o primeiro álbum de Stoner Rock. Logo aqui, podemos encaixar uma série de bandas.

Voltando ao concerto, a banda mostrou-se ao longo da noite em plena forma.


Tony Iommi - o pai do heavy-metal e o homem que derrotou um cancro para fazer mais um álbum com os Sabbath - esteve imperial na guitarra. Tony sempre tocou os seus riffs a um ritmo lento nos discos, o que confere (na minha opinião) uma atmosfera ainda mais obscura e carregada à música dos Black Sabbath. Mas ao vivo, parece-me que Tony faz questão de tocar ainda mais lentamente,  como quem a cada nota quer prolongar um orgasmo; com a distorção, dá um efeito ainda mais pesado aos Sabbath. Majestoso.
Geezer Butler - o baixista, letrista e conceptualista da banda - esteve imparável no baixo. A música dos Sabbath tem muito que se lhe diga e uma das suas marcas são as constantes mudanças de andamento, das quais o seu baixo tem que ser o faroleiro. Preciso.
Ozzy Osbourne - o príncipe da escuridão, estrela da reality TV americana e o homem que desceu ao inferno de uma depressão e voltou para regressar aos Sabbath - foi uma revelação. O homem está melhor que nunca. Ozzy  canta  grita os clássicos dos Black Sabbath como que um avozinho a gritar com os netos. Mas para falar a verdade, quando é que ele teve uma grande voz? Ozzy é perfeito para os Sabbath e a música dos Sabbath é perfeita para Ozzy. Foram feitos um para o outro, tal como Ozzy e este público, sempre com os braços no ar; nem Ozzy deixaria que fosse de outra forma, uma vez que fazia questão de mandar toda a gente levantar os braços, 3 a 4 vezes por música. Ele é um padre numa cerimónia religiosa. E foi exactamente disso que se tratou esta noite.


Lembram-se da nuvem negra que falei? Não estava a metaforizar. A chegada dos Sabbath trouxe a escuridão ao Hyde Park, literalmente. A meio do concerto, começou a chover e foi como que se de uma bênção aos rockeiros se tratasse. Parecia que estava preparado e fazia parte do espectáculo.
Vinculou-se o clima de cerimónia religiosa.

Black Sabbath no Hyde Park foi muito mais que um concerto; foi um ritual, uma celebração, uma experiência, uma cerimónia para os fiéis dessa forma de viver, dessa religião, que é o Rock. Foi um daqueles dias que quem lá esteve vai relembrar durante muitos anos e dizer com orgulho às próximas gerações: "eu estive lá".
Pela minha parte, eu esperava que o concerto fosse bom, mas não estava preparado para isto. Um dos dias mais gloriosos de sempre.


segunda-feira, 30 de junho de 2014

Black Sabbath - "Sweet Leaf"

"ALRIGHT NOW! Won't you listen?"


Há um ditado popular que refere que "as pessoas entram na nossa vida por uma razão". Pela minha experiência, aprendi duas coisas sobre os ditados populares: batem sempre certo e há sempre um segundo ditado que contradiz o primeiro.
Não sei se as pessoas entram na nossa vida por alguma razão ou não, até porque (cada vez mais) acredito na ordem caótica das coisas e dos acontecimentos que sucedem no nosso quotidiano; mas sei que há música que entra na minha vida em determinados momentos e que... me salva.
"When I first met you, I didn't realize I can't forget you, for your surprise.
You introduced me to my mind and left me wanting, you and your kind"
Estes versos que compõem a introdução de "Sweet Leaf" poder-se-iam referir à entrada da música dos Black Sabbath na minha vida. Contudo, como o nome pode deixar escapar, refere-se à entrada da erva na vida dos membros dos Black Sabbath. Close enough.



"Sweet Leaf" é o tema de abertura do álbum "Master Of Reality" - o 3º álbum dos Black Sabbath e o mais pesado da sua discografia. Foi o álbum que cimentou a posição da banda como a banda mais pesada da sua geração.
“I remember saying to Tony [Iommi]:
"Did you hear how heavy that Led Zeppelin album sounded?" 
Without missing a beat, he replied:
"We’ll be heavier."”
Ozzy Osbourne em "I Am Ozzy"

A música dos Sabbath tem algo de único. A aura mística, pesada e sombria que a banda carrega trouxe-lhes tanto de sucesso como de problemas.
No início dos anos 70, uma enfermeira foi encontrada morta nos seu quarto, com o álbum "Paranoid" (o 2º da banda) ainda a tocar no gira-discos. Estalou a polémica.
A banda foi acusada de ser responsável pelo suicídio, devido ao conteúdo satânico da sua música e o caso foi mesmo para tribunal. A banda foi absolvida, mas a nuvem das trevas satânicas nunca deixaria de pairar sobre os Sabbath.

Mas que raio. Poderão então ser os Black Sabbath - esses vis mandatários satânicos - uma banda curandeira? Como pode então esta banda pesada e (presumivelmente) satânica servir de bálsamo para alguém? Pode, se esse alguém estiver de costas voltadas para o Mundo.
Os Black Sabbath são a banda sonora perfeita para quem está a percorrer a sua própria via sacra. A música dos Sabbath alivia o peso nos ombros do ouvinte, atira a sua bagagem borda fora.

A falecida lenda do saxofone da E Street Band - Clarece The Big Man Clemons - refere no documentário "Wings For Wheels", que quando um fã lhe disse que o solo de saxofone de "Jungleland" lhe tinha salvo a vida, Clarence achou que o seu trabalho estava feito.
Tony: pela minha parte, considera o teu trabalho feito.

Não deixa de ser apropriado que os Black Sabbath tenham entrado na minha vida neste ano e que neste ano me tenha sido dada a oportunidade de os ver ao vivo em Londres, no Hyde Park, num cartaz de sonho, com os Soundgarden a abrir.


Lá estarei, já na 6ª feira. Para atirar a minha bagagem borda fora.