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segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Trent Reznor and Atticus Ross - "What Have We Done To Each Other?" (Gone Girl Soundtrack)
Acabo de sair da sala de cinema, onde fui exposto a "Gone Girl" - o filme que supostamente será o melhor do ano. E é mesmo.
Não me vou alongar sobre como David Fincher já deve reclamar para si um lugar de proa no panteão dos melhores contadores de histórias da História de Hollywood. Outros especialistas em cinema tratarão disso.
Vou antes falar da banda sonora. Porque da mesma maneira que o povo diz que "por trás de um grande homem, está sempre uma grande mulher", também por trás de um grande filme, está sempre uma grande banda sonora. E não raras vezes, por trás de um grande realizador, está um grande músico. Foi assim com David Lynch e Angelo Badalamenti, foi assim com Béla Tarr e Mihály Vig, foi assim com Krzysztof Kieślowski e Zbigniew Preisner.
Fincher encontrou o seu Badalamenti em Trent Reznor e no seu fiel escudeiro Atticus Ross. Juntos, deram voz a "The Social Network" de 2010 (que ganharia o Oscar de melhor banda sonora), "The Girl with the Dragon Tattoo" de 2011 (que ganharia o equivalente Grammy) e agora trazem-nos a banda sonora de "Gone Girl", acabadinho de chegar aos cinemas.
Se as 2 anteriores foram muito boas, esta é de cortar a respiração; causa ansiedade, provoca arritmia. É o perfeito casamento com o filme que sonoriza.
David Fincher pode continuar a confiar em Trent Reznor e Atticus Ross. Foi muito à custa deles que eu passei as últimas 2 horas e meia com os rins colados ao fundo do banco do cinema. Fica o aviso: não bebam café antes de "Gone Girl".
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Mihály Víg - "Valuska"
Todos procuramos no cinema (e em qualquer forma de arte) algo de particular.
Procuremos o riso e temos as comédias relaxantes que povoam os fins de tarde na televisão; procuremos o romance e temos as comédias românticas que enchem os video-clubes; procuremos vestir a pele de um herói por 2 horas e temos os filmes de acção do James Bond; enfim, e por aí fora, só para dar alguns exemplos do cinema mais comercial.
De quando em vez, também procuro no cinema um dos tópicos que listei em cima, mas confesso que cada vez tenho menos paciência para tais lugares comuns. Não levem isto como uma posição de snobismo, eu continuo a venerar os filmes do James Bond e não perdi a estreia do último "American Pie" (já agora, o filme que mais me fez rir da saga).
Porém, em sentido contrário, cada vez mais sou atraído pelos circuitos de cinema indie (ou alternativos), os quais nos oferecem um leque de sensações bem diferentes.
Acabar de ver um filme e ficar, estupefacto, a olhar para o ecrã negro durante alguns minutos; sair da sala de cinema a matutar; ficar o resto da semana com o filme colado na nossa mente; são estas as sensações que procuro nestes dias, algo ao alcance de muito poucos realizadores.
Já dei um excelente exemplo disso mesmo, aqui, quando descrevi (ou tentei) a minha experiência esvaziante de ver "A Torinói Ló" ("O Cavalo de Turim"), de Béla Tarr, numa sala de cinema.
Esvaziante, porque foi de profundo vazio, o sentimento com que o filme me deixou. Como um pano seco, outrora húmido, depois de torcido vigorosamente.
Como tive a oportunidade de referir na altura, à falta de acção no filme, um dos "aspectos chave" era a sua banda sonora, a cargo de Mihály Vig. Ora, se "A Torinói Ló" foi a última longa metragem de Béla Tarr, foi também o último capítulo de uma longa história de colaborações entre Béla e Mihály, que começou em 1984. A saber (entre parêntesis os nomes em inglês e/ou em português, quando disponíveis):
- "Őszi Almanach" ("Autumn Almanac") - 1984
- "Kárhozat" ("Damnation" / "Danação") - 1988
- "Az utolsó hajó" - 1990 [curta-metragem]
- "Sátántangó" ("Satan's Tango" / "O Tango de Satanás") - 1994
- "Utazás az Alföldön" ("Journey on the Plain") - 1995 [curta-metragem]
- "Werckmeister Harmóniák" ("Werckmeister Harmonies" / "As Harmonias de Werckmeister") - 2000
- "A Londoni Férfi" ("The Man From London" / "O Homem de Londres") - 2007
- "A Torinói Ló" ("The Turin Horse" / "O Cavalo de Turim") - 2011
Na prática, isto significa que Mihály Vig foi o autor da banda sonora de todas as longas-metragens de Béla Tarr desde 1984, bem como de algumas curtas. Note-se que algumas destas obras ("O Tango de Satanás", "As Harmonias de Werckmeister" e "Danação") estão previstas para lançamento em DVD, ainda este mês, pela Midas Filmes.
Mais do que isso, as bandas sonoras de Mihály Víg nos filmes de Béla Tarr são uma obra em si mesmo.
É uma pena que não esteja disponível (pelo menos, que eu saiba) para compra, uma compilação exaustiva destas bandas sonoras, mas em 2001 foi lançado um álbum que faz parte desse trabalho: "Filmzenék Tarr Béla filmjeihez". Esta compilação junta os temas chave das bandas sonoras de 4 filmes de Béla Tarr: "Őszi Almanach", "Kárhozat", "Sátántangó" e "Werckmeister Harmóniák".
O alinhamento é o seguinte:
"Filmzenék Tarr Béla filmjeihez" (2001)
"Őszi almanach":
1. "Főcím" (1:13)"Kárhozat":
2. "Lukin" (1:37)
3. "Őskígyó" (1:27)
4. "Lengyelország" (1:42)
5. "Pajesz" (2:00)
6. "Synth" (1:46)
7. "Csille" (1:33)"Sátántangó":
8. "Kész az egész" (8:18)
9. "Eső I." (4:24)
10. "R&R" (4:47)
11. "Lassú tánc" (5:05)
12. "Körtánc I." (5:38)
13. "Vonósnégyes" (1:44)
14. "Harang I." (2:47)"Werckmeister harmóniák":
15. "Eső II." (1:40)
16. "Halics" (3:46)
17. "Szabad egy tangót?" (3:04)
18. "Körtánc II." (5:24)
19. "Pityi" (0:13)
20. "Harang II." (1:33)
21. "Valuska" (4:14)
22. "Öreg" (10:00)
O tema que eu aqui deixo é "Valuska" de "Werckmeister Harmóniák" e é o meu preferido de Mihály Vig. Mais do que isso, "Valuska" é um dos meus temas preferidos de sempre, no que a bandas sonoras diz respeito. Principalmente se for ouvido e contextualizado, com a cena do filme em que aparece.
Valuska é o nome do personagem principal do filme. Nesta cena, depois de ser expulso de um bar, Valuska caminha sozinho no frio da noite, pela rua vazia, escondido entre as sombras dos candeeiros de rua. A cada passo de Valuska, a câmara afasta-se mais e mais, revelando a natureza solitária da sua existência.
Um homem só, caminhando pela rua escura e deserta, no frio cru da noite.
Um homem só, caminhando pela rua escura e deserta, no frio cru da noite.
Este plano da caminhada solitária de Valuska dura aproximadamente 2 minutos (nada de especial, na escala de Béla Tarr) e é, na minha opinião, o mais poderoso de toda a obra cinematográfica do húngaro. É um plano que condensa toda a força que o cinema do realizador nos despeja: toca-nos no fundo da alma; mexe com a complexa profundeza da psique.
Como?
Mostrando num plano, numa simples metáfora, numa soma de imagem e som, algo que personifica toda a história de uma vida.
Todos procuramos algo no cinema. Às vezes, sem querer, encontramo-nos.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
Tony Bennett & George Michael - "How Do You Keep The Music Playing?"
"I know the way I feel for her: it’s now or never
The more I love, the more that I’m afraid, that in her eyes I may not see forever"
Hoje sinto-me romântico. Eu sei, é uma grande décalage em relação ao estado espírito de ontem, mas ainda bem. Antes assim. E quando me sinto romântico, o mais habitual é recorrer a George Michael - a minha voz de eleição, no que toca a baladas. Mas se é verdade que ao longo da sua carreira, George tem no seu reportório um imenso lote de grandes baladas, este não é um desses casos. Ou melhor, é uma grande balada, sim, mas não foi composta por ele.
Numa altura em que a carreira de George Michael já se encontrava em fase descendente, Tony Bennett convidou-o para um dueto para o álbum de celebração do seu 80º aniversário.
O tema escolhido foi este "How Do You Keep The Music Playing?", um tema originalmente composto para o filme de 1982 "Best Friends". O filme consistia numa mera comédia romântica dos anos 80, com Burt Reynolds e Goldie Hawn, destinado a ficar esquecido nas traseiras de qualquer
"How Do You Keep The Music Playing?" foi nomeado para o Oscar de Melhor Canção Original em 1983, tendo perdido para o célebre "Up Where We Belong", do filme "Oficial e Cavalheiro" (nome original "An Officer and a Gentleman"), interpretado por Joe Cocker e Jennifer Warnes.
"How Do You Keep The Music Playing?" fala sobre a dificuldade de manter uma relação duradoura e lidar com o lento abafamento da chama da paixão. Como é que se mantém a música a tocar? É difícil, de facto. Já todos passámos por isso. É difícil e, no entanto, é tão simples:
Rendição: "How do you lose yourself to someone? And never lose your way"
Amizade: "If we can be the best of lovers, yet be the best of friends..."
Adaptação: "Since we know we’re always changing, why should it be the same?"
Pôr isto em prática? Pois, isso já é outra história...
"If we can try with every day to make it better as it grows, with any luck, then I suppose, the music never ends."
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Koji Kondo - "Spirit Temple Theme"
Aproveitando a boleia do último post, em que mudei bastante a agulha do blog, hoje vou fazê-lo novamente, mas de forma ainda mais radical.
Depois de uma banda sonora de um filme, hoje, a banda sonora de um videojogo.
Mas não é um videojogo qualquer. Dá pelo nome de "The Legend Of Zelda: Ocarina Of Time" (dito com o queixo levantado, semblante pomposo e voz de ocasião solene) e ainda hoje é reconhecido como um dos melhores jogos de sempre, que marcou indelevelmente o panorama do género na sua época.
Para mim, foi, é e provavelmente sempre será, o melhor. Mas acima de tudo, o mais especial.
(até porque longe já vão os tempos em que tinha tempo para jogar a estas coisas)

Estávamos no Natal de 1998 e eu já andava há anos a suspirar pela chegada do "Zelda 64" (nome por que era conhecido o jogo nas revistas da especialidade, em analogia ao então novíssimo jogo do outro grande franchise da Nintendo: o "Super Mario 64").
Já suspirava desde 1996, aquando do lançamento da consola Nintendo 64 e do revolucionário "Super Mario 64", que fez as delícias de todos os fãs da Nintendo (eu incluído), com a adaptação a 3D da saga "Super Mario". Na altura, foi prometida "para breve" uma adaptação da minha saga preferida da Nintendo, que conheci através do seu primeiro jogo, "The Legend Of Zelda", de 1986, para a velhinha NES. Mas esse dia nunca mais chegava... Acreditem, não é fácil para um miúdo esperar mais de 2 anos por um jogo.
Mas o dia eventualmente chegou. E a ansiedade era tanta que, como é óbvio, ainda me lembro como se tivesse sido ontem.
26 de Dezembro de 1998. Sábado.
A meio da manhã, alguém toca à campainha.
"Que chatice...", pensei eu. No dia a seguir ao Natal, ainda por cima num fim-de-semana, alguém que toca a campainha àquela hora só podia ser família, ou outra visita qualquer, que me ia obrigar a levantar do sofá e a deixar os desenhos animados. A mando da minha mãe, lá me levantei e fui ver quem era...
Era o carteiro.
(CHOQUE)
"O carteiro?! Será que...", interroguei-me enquanto lhe abria a porta.
O jogo estava esgotado em todo o lado, desde o seu lançamento e por isso fui obrigado a encomendá-lo pelo correio.
"Será que...", pensava eu, nervoso, enquanto cumprimentava o Sr. Albano - carteiro de serviço do meu bairro.
Entretanto, o carteiro saca de um pacote da sua bolsa e diz sorridente: "Encomenda para Nuno Bento".
Eu não sei, mas devo ter arregalado os olhos de tal maneira, que ele se deixou rir e disse: "Então hoje faço eu de Pai Natal, não é?!".
Fez mesmo. Mas ainda melhor! Porque aquela prenda, já eu a andava a pedir ao Pai Natal há 2 anos e nada... E o Sr. Albano (um abraço para o simpático Sr. Albano, se ele me estiver a ler), com a sua motorizada que precisava de um empurrão para fazer as subidas do bairro, fez o serviço que o outro senhor de barbas, com as renas voadoras, não conseguiu.
Lá chamei a minha mãe para pagar a encomenda ao carteiro e a partir daquele momento, a minha vida nunca mais foi a mesma.
Da mesma maneira que por vezes uma música, um álbum, ou um filme muda as nossas vidas, também aquele jogo mudou a minha. Para sempre.
Desde então, joguei todos os títulos da série "The Legend Of Zelda", exceptuando os dois últimos ("Spirit Tracks" para a Nintendo DS e "Skyward Sword" para a Wii) que estão ali, na prateleira, ainda intactos. Ou seja, comprei os jogos (porque "tenho" que o fazer), mas por falta de tempo, ainda nem sequer lhes toquei. Com muita pena minha.
Mas se é verdade que já não tenho tempo para jogar, ainda tenho algum para ouvir música. E é por isso que, nos últimos dias, tenho andado a recordar a fantástica banda sonora de "The Legend Of Zelda: Ocarina Of Time".

Que saudades... Eu não sou muito dado a nostalgias e sinceramente, de uma forma geral, não tenho saudades daqueles tempos. Mas tenho saudades daqueles momentos. Quando estava sentado na sala, despreocupado da vida, concentrado num jogo que dava que pensar (na época era algo de alta exigência cognitiva), imerso no universo de Hyrule. Ouvir estas músicas depois de todos estes anos (já lá vão 14 !!!), transporta-me directamente para aqueles momentos.
As bandas sonoras dos jogos da saga "The Legend Of Zelda" são de uma longevidade que não tem qualquer paralelo no mundos videojogos. Ou melhor, até tem, mas apenas da outra saga que mencionei há pouco e é um ano mais velha - a saga do "Super Mario".
O compositor original das bandas sonoras para ambas as sagas é o mesmo: Koji Kondo.
Koji Kondo foi o primeiro compositor musical da Nintendo e foi ele o responsável pela criação de temas que ainda hoje fazem parte do imaginário de quem quer que já jogou os jogos do Mario ou Zelda.
Os seus primeiros trabalhos para estes franchises foram nos seus jogos originais: "Super Mario Bros.", de 1985 e "The Legend of Zelda", de 1986. Para estes jogos, Kondo compôs 3 a 4 melodias muito simples, em loops de 8-bit, que iam sendo repetidas continuamente ao longo do jogo. A ideia era criar um ambiente que não aborrecesse o jogador, funcionando também como um hook na sua mente.
A verdade é que na época, as melodias do "Super Mario Bros." e do "The Legend of Zelda" ficavam-me na cabeça durante dias... semanas seguidas.


Desde aí, a popularidade das melodias de Koji Kondo nunca parou de crescer e estas foram sucessivamente adaptadas às novas tecnologias das versões dos jogos para qualquer que seja a consola da última geração. Mais que isso, hoje estas melodias servem de base para longas peças orquestrais, que são tocadas em enormes salas de espectáculos e que esgotam em todo o Mundo.
De certeza que Kondo estava longe de pensar até onde chegariam os seus loops de 8-bit.
A banda sonora de "Ocarina Of Time" foi lançada em Dezembro de 1998, pouco depois do jogo. "The Legend Of Zelda: Ocarina Of Time" foi o último jogo para o qual Koji Kondo compôs integralmente a banda sonora. Até então, essa era uma tarefa massiva que estava a cargo de Kondo, nos jogos mais emblemáticos da Nintendo. A partir daí, Koji passou a trabalhar como supervisor de música criada por outros.
O tema que aqui fica é a música que se ouve no Templo dos Espíritos (Spirit Temple), situado ao fundo do deserto (Desert Colossus), no universo de "Ocarina Of Time".
A música carrega uma forte carga mística, ao mesmo tempo calmante e erótica.
Com influência indiana, faz lembrar um Pungi (as flautas que atraem as cobras), embora Koji Kondo tenha utilizado um sintetizador para o efeito.
É o meu tema preferido desta banda sonora, ou pelo menos, foi aquele que mais ecoou na minha mente, depois de recordar estas composições.
Na senda das sucessivas adaptações destas melodias originalmente criadas por Kondo, um grupo de fãs conhecidos como Zelda Reorchestrated (ZREO) gravou em 2009 todas as faixas da banda sonora de "The Legend Of Zelda: Ocarina Of Time", utilizando samples orquestrais. De seguida, ficam aqui as suas interpretações do "Spirit Temple Theme", bastante mais elaboradas que o original, mas não necessariamente melhores:
Etiquetas:
1998,
Álbum: The Legenda Of Zelda OST,
Artista: Koji Kondo,
Banda sonora,
Nintendo
domingo, 17 de junho de 2012
Mihály Víg - "A Torinói Ló"
Hoje vou mudar um pouco a agulha ao blog.
Já há algum tempo que tenho a vontade de fazer uma "Semana de Cinema". Isto é, uma semana temática (à semelhança do que fiz com a "Semana Elton"), dedicada às minhas bandas sonoras preferidas.
Infelizmente, tal como um rol de outras ideias, isso ainda não foi materializado por manifesta falta de tempo. E infelizmente também, ainda não será desta.
Porém, ainda antes de levar esse conceito mais a sério, não resisto a falar do filme que assisti ontem no cinema: "O Cavalo de Turim" (nome original "A Torinói Ló").
Mais que um filme, uma obra de arte.
"A Torinói Ló" é o filme de despedida do cineasta húngaro Béla Tarr (assim anunciado pelo próprio, que afirma nada mais ter para dizer), nos últimos tempos recorrentemente aclamado como um dos grande mestres do cinema moderno.
Não é fácil falar de "A Torinói Ló". Não é fácil, porque o filme pode ser analisado por diversas perspectivas diferentes.
Podemos falar da fotografia, que é de uma beleza meticulosa; da música, que com um tema apenas de Mihály Vig, em constante repetição, assume um papel fundamental na mensagem do filme; da acção, quase inexistente e numa "quase-repetição", com pequenas nuances, também fundamentais na percepção da referida mensagem; dos metaforismos, que estão por todo lado, igualmente fundamentais na interpretação do filme; da fortíssima carga religiosa (ou melhor, de negação da religião) que o filme parece carregar.
Enfim, poderíamos falar de tanta coisa, que falar de "O Cavalo de Turim" daria para uma tarde de discussão e poderia resultar numa longa dissertação.
Para já, ainda abanado com a carga emocional que o filme despeja no espectador, digo apenas que foram 2 horas e meia de belíssimo cinema.
Cinema difícil, mas belíssimo.
A espaços, chega a ser "secante". É preciso ter estômago, paciência e não levar sono para a sala.
Mas quem estiver disposto a contemplar 2 horas e meia da melhor cinematografia (de um verdadeiro deleite para os olhos), onde se metaforiza sobre o abandono a que Deus vetou o Mundo e as pessoas que o habitam... Vale muito, muito o esforço.
O meu valeu, com toda a certeza.
"A Torinói Ló" é um filme de 150 minutos, a preto e branco e com muito pouco diálogo.
Objectivamente, não é um filme de fácil visualização e não é para todos. Não é um filme de "pipocas e coca-cola", vivendo numa filosofia de antagonismo com o cinema americano a que estamos habituados. Quando fala à imprensa, Béla Tarr deixa isso bem claro e não se coíbe de malhar no cinema do circuito comercial:
"I always had in mind that the audience is intelligent, sensitive and will understand – so I always did my best.
I can’t do some piece of shit because it’s just for kids.
The showbiz guys treat the audience as children, and they say this shit is good enough for them. Not true.
I respect the viewer. I respect my work. And I want to protect it. That means protecting it from me too…"
Para Béla Tarr, a cinematografia é tudo. Muito parcos em acção ou enredo, os filmes do realizador húngaro são o exemplo mais acabado daquilo que eu chamo de "filmes contemplativos". Se há filmes que merecem ser vistos no ecrã de cinema, esses são os de Béla Tarr.
Os planos nos seus filmes são longos, longos, longuíssimos, a desafiarem a calma do espectador mais paciente, mas valem pela sua beleza e pelo seu significado.
Para terem uma ideia do que estou a falar, "O Cavalo de Turim" tem a duração de 2 horas e meia (150 minutos) e apenas 30 planos. Isto equivale a uma média (repito: média!) de 5 minutos por plano. Tendo em conta que a média "normal" de duração de um plano é de cerca de 5 a 10 segundos, 300 segundos por plano é algo que, como referi, testa a paciência do espectador.
Conclusão: não convém levar sono para a sala de cinema.
Contas à parte, não é por acaso que Béla Tarr é quase unanimemente considerado, entre os cinéfilos, como um dos mais brilhantes realizadores da actualidade. Por isso, não admira que a chegada de "O Cavalo de Turim" às salas de cinema portuguesas tenha sido recebida com êxtase por toda a crítica de cinema portuguesa: no DN (por João Lopes e Flávio Gonçalves), no i, na RTP, no Ípsilon (Público), no C7nema, ou no Sétimo Continente.
Note-se que "O Cavalo de Turim" é o primeiro filme de Béla Tarr a estrear em Portugal. Não deixa de ser curioso que o primeiro filme do húngaro a chegar a Portugal seja o último capítulo da sua obra.
Da minha parte, o meu muito obrigado à Midas Filmes, por trazerem a Portugal, finalmente, os filmes de Béla Tarr.
Já não era sem tempo.
Em baixo está a cena de abertura de "A Torinói Ló", em que o narrador conta a história que serve de mote à acção do filme, seguida de uma sequência fabulosa, das mais belas que já vi no cinema, em que vemos "O Cavalo de Turim" (na realidade é uma égua) a puxar uma carroça ao som da hipnótica banda sonora de Mihály Vig.
Lindo, lindo, lindo.
Neste clip podemos ouvir toda a banda sonora que Mihály Vig compôs para "A Torinói Ló". Um só tema, que é repetido até à exaustão ao longo do filme. Um só tema que, com a sua melancolia, aperta mais e mais o coração e permanece na nossa cabeça, num teimoso loop depois do filme terminar, durante dias, semanas a fio...
"Hogy a lóval mi lett, nem tudjuk" (Do cavalo, nada sabemos)
O filme parte de um evento histórico: o cavalo que Friedrich Nietzsche viu ser espancado em Turim e depois do qual o filósofo fica traumatizado, perdendo a razão e a fala durante os 10 anos que se seguiram, culminando na sua morte. Este episódio não está relacionado com o que vemos no filme. Nietzsche está ali, mas apenas a nível filosófico.
Depois deste evento, o cavalo regressa a casa com o seu dono e o filme disseca até ao mais pequeno detalhe a vida vazia do cavalo, do dono e da sua filha.
A acção do filme é de tal forma minimalista, que somos obrigados a agarrar nos mais pequenos pormenores para conseguir "ligar os pontos" e perceber qual é, afinal, a mensagem de Béla Tarr.
Béla Tarr deu uma pista e revelou que "A Turin Horse" era uma reflexão sobre o "peso da existência humana". O "insustentável peso do ser".
A minha interpretação é que o filme é, essencialmente, uma reflexão religiosa. Ou melhor, uma reflexão niilista sobre a religião. O vazio da vida, para além daquilo que nós fazemos dela. Uma tese da descrença em qualquer fundamentação metafísica para a existência humana. Uma ilustração do tal "peso da existência humana".
A religião aparece em várias pistas que Béla Tarr vai dando ao longo do filme, como no monólogo do vizinho que aparece para pedir a Palinka, ou no livro que um cigano deixa à filha.
O abandono de Deus à humanidade. Como disse Nietzsche: “Deus morreu, mas a natureza humana é de tal ordem que é muito provável que, durante milhares de anos, haja grutas em que a sua sombra continuará a ser vista.”
Deus abandonou esta família numa "ilha" rodeada por uma tempestade inultrapassável. A "ilha" (na realidade, uma casa isolada, perdida no meio do nada) vai morrendo lentamente ao longo do filme, caminhando, tal como os seus habitantes, em direcção ao vazio, ao nada (em latim nihil, ou seja, "niilismo"). O caruncho que deixa de roer, o cavalo que deixa de comer, o poço que seca, a tempestade que redunda no silêncio, o preto e branco que redunda no... preto. E no final, a escuridão.
"Teljes csend borul a házra is.
VÉGE"
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2011,
Artista: Mihály Víg,
Banda sonora
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Nancy Sinatra - "You Only Live Twice"
"You only live twice, or so it seems: one life for yourself and one for your dreams"
Depois de ter dedicado a semana passada a temas alusivos ao Natal, na última semana do ano vou fazer uma retrospectiva da música que mais ouvi e que mais me marcou em 2010.
Atenção que não se trata de uma retrospectiva da música que se fez em 2010, mas sim daquilo que eu ouvi, duas acções que raramente concorrem no tempo.
Começo por aquele que foi provavelmente o álbum que mais ouvi em 2010. Na realidade não é bem um álbum de originais, mas sim uma compilação: "The Best of Bond...James Bond", lançada aquando do 40º aniversário do 1º filme da saga - "Dr. No".
Confesso que sou um grande fã da saga de James Bond. Não são filmes intelectualmente exigentes, mas têm uma série de outras valências primárias e secundárias que os tornam num produto único no cinema.
As primárias são reconhecidas por todos: os filmes oferecem acção, fantasia e divertimento a rodos.
As valências secundárias são muitas vezes negligenciadas, mas são aquelas que separam a saga de Bond de todos os outros filmes de acção. Começando pela ligação histórica entre a acção nos filmes e a tensão característica da guerra fria, entre o mundo Ocidental e a realidade do Leste europeu. Esta dicotomia de culturas é aqui retratada pela acção de um agente secreto ocidental nos cenários dos países de Leste e serviu de pano de fundo ao core da saga Bond.
Outra valência única destes filmes é a banda sonora. Arrisco dizer que nenhuma outra saga está tão bem representada neste capítulo como a saga de James Bond. É isso mesmo que podemos ouvir nesta compilação.
A enxurrada de grandes temas que "The Best of Bond...James Bond" oferece é impressionante. Desde as inúmeras versões do clássico "James Bond Theme", originalmente composto por Monty Norman em 1962, passando por temas dramáticos como "Goldfinger" ou "Goldeneye", baladas como "Nobody Does It Better" ou "Moonraker", até temas mais Pop como "A View To A Kill" ou "The Living Daylights".
Temas fabulosos, arranjos orquestrais grandiosos, interpretações intensas por alguns dos mais conceituados artistas do Pop, do Rock e do Soul. Há espaço para um pouco de tudo.
Tendo em conta que a saga acompanhou a cultura popular desde os anos 60 até aos anos 00, o leque de artistas que já contribuíram para os filmes é vasto e representativo do mainstream de cada época: desde Shirley Bassey nos anos 60, passando por Paul McCartney nos anos 70, Duran Duran nos anos 80, Moby nos anos 90, ou Jack White nos 00.
O tema que fica aqui é "You Only Live Twice", do filme com o mesmo nome de 1967, interpretado por Nancy Sinatra e composto por John Barry. É um tema que acolhe maior significado em relação ao standard das bandas sonoras de Bond. Fala das flutuações que fazemos entre dois mundos diferentes: a vida corrente e uma 2ª vida, diferente do quotidiano, que oferece experiências e sensações diferentes: às vezes noutro lugar; às vezes noutro trabalho; às vezes com alguém diferente.
O fenómeno da vida-dupla.
"You Only Live Twice" é um dos meus temas preferidos da saga Bond (são tantos...) e é um dos temas que mais vezes foi "emprestado" a outros artistas, casos de Coldplay e de Björk. Robbie Williams também construiu um dos seus temas de maior sucesso (o seu primeiro nº 1 no Reino Unido) com base num sample deste tema. Nunca repararam que "Millennium" tem uma forte influência Bond? Pois é, até o vídeo faz inúmeras referências à saga.
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