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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Peter Gabriel - "Sky Blue"

"I keep moving to be stable"


Uma das armadilhas da condição humana é aquela tentação inócua de pensar n'o que podia ter sido. Todos o fazemos. Eu talvez o faça um bocadinho mais que a média, porque remoer tudo até à infinita iteração é o modo de funcionamento automático do meu cérebro. E é por isso que letting go sempre foi o meu maior martírio, algo que eu simplesmente não controlo. Não tenho culpa que a minha cabeça trabalhe a mil e as minhas memórias me fustiguem incessantemente com universos paralelos d'o que podia ter sido se eu tivesse feito as coisas de outra forma.

Não estou aqui para vos leccionar sobre se devem ou não remoer o passado. Só quero apontar o facto que isso acontece e que não podem fugir dessa fatalidade. Fora isso, de moral, não aprendem nada aqui. Nem eu a tenho para vos ensinar, nem isto é um livro de auto-ajuda. If anything, o que escrevo pretende ser exactamente o oposto de um livro de auto-ajuda. Tenho aversão ao cenário fantasioso pintado nessa literatura, onde a negação da realidade só serve para afundar ainda mais o leitor num estado de alienação (e para encher os bolsos do escritor). A realidade pode ser podre, mas é tudo o que temos. Fugir dela é negar a vida na sua essência.

O meu problema com os livros de auto-ajuda é que todos negam a própria condição humana. Todos advogam a repressão de quaisquer sentimentos de tristeza, amargura, ou ressabiamento. Mas esses sentimentos fazem parte de nós, são do nosso dia-a-dia. Temos que lidar com eles inexoravelmente. São reais. E porque são reais, merecem ser celebrados — não literalmente, isso seria deprimente — mas como a prova legítima que estamos vivos. No grande quadro da vida, são esses momentos viscerais de contacto intenso com a realidade que compõem what this shit is all about. Somos humanos e não há mal nenhum nisso. Quando cai a máscara e o sangue ferve, é aí que a vida acontece.

Ui, onde é que eu já vou. Como é hábito, comecei a divagar e já misturei aqui dois ou três posts que queria escrever.

Pensar n'o que podia ter sido não é mais do que uma forma de auto-ressabiamento, um ressentimento para com a merda que fizemos. E tanta merda que eu já fiz. O mais curioso é que apesar de a remoer até ao infinito, acabo por nunca me arrepender de nada. Tenho o meu juízo em boa conta, parece-me. Por outro lado, arrependo-me muitas vezes do que não faço. Aliás, a minha regra é que só me arrependo do que ficou por fazer. É por isso que de todos os que podia ter sido da minha vida, o que me bate com mais frequência talvez seja aquela vez em que estive a uma assinatura de cumprir o meu destino de viver em Londres. As estrelas estavam todas alinhadas: havia dinheiro em cima da mesa; havia a promessa de uma carreira; havia interesse de todas as partes. Havia tudo. Então por que raio eu não fui?!


"Sky Blue" é um dos temas-chave do (ainda) mais recente álbum de originais de Peter Gabriel — "Up" de 2002. Foi escrito originalmente para a banda sonora do (grande) filme "Rabbit Proof Fence", lançado no mesmo ano (obrigado Rita!). O filme conta a história de três meninas aborígenes que são raptadas na Austrália dos anos 30 para servir famílias brancas e por isso são levadas para o outro extremo do país. A única esperança que as meninas têm para regressar a casa é seguir o trilho de uma vedação de 2400 quilómetros que atravessa o deserto australiano, colocada para impedir a migração de coelhos (daí o nome do filme).

"Long Walk Home" é o nome da banda sonora de "Rabbit Proof Fence", um álbum que junta duas versões de "Sky Blue" — "Ngankarrparni (Sky Blue - Reprise)" e "Cloudless" —, ambas sem a lírica de Peter Gabriel, que é aqui substituída por cantos aborígenes, mais adequados ao filme. O nome da banda sonora é um perfeito retrato da inspiração de Peter Gabriel na criação da música para um filme que, mais que tudo, ilustra a força de vontade que pode vir do simples (mas tão poderoso) desejo de voltar a casa. Salvaguardadas as devidas proporções, é algo que só podemos sentir no aeroporto quando o voo atrasa mais uma hora, a roupa já se pega ao corpo e a vontade de chegar a casa ganha contornos de desespero. Abrir a porta e sentir o nosso cheiro. Comer a nossa comidinha e finalmente deitar na nossa caminha. Nada é melhor que isto.

Não há para mim sentimento igual ao de casa. É por isso que sempre que viajo (e felizmente posso fazê-lo muitas vezes), onde quer que esteja, crio um pequeno cantinho, normalmente ao lado da cama, onde ponho os meus óculos, telemóvel e gotas para os olhos. Aquele cantinho é casa. Olho para ali e sinto-me em segurança. It feels like home.
E casa pode ser em qualquer lado. Londres, por exemplo.

"I keep moving to be stable, free to wander, free to roam"

Sempre me imaginei a viver em Londres. Londres é a capital do país de onde vieram quase todos os meus ídolos e foi a cidade que os consagrou a todos: no Wembley Stadium, no Hammersmith Odeon, no Earls Court, no Rainbow Theatre... Por isso sempre me fez todo o sentido mudar para lá e viver as mesmas experiências que os meu ídolos viveram. Claro que na realidade isto não funciona bem assim, mas pelo menos poderia estar no sítio onde tudo acontece primeiro e assim poder testemunhar ao vivo o nascimento do meu próximo ídolo.

Notem que em lado nenhum me referi a Londres como um "sonho". Não é bem disso que se trata. Lá em cima utilizei a expressão "cumprir o meu destino" porque na verdade eu sempre achei que Londres era onde eu ia parar; que era ali que eu pertencia. Quase como se a minha mudança fosse uma inevitabilidade. Não é propriamente um sonho na medida de, por exemplo, ver o Benfica campeão europeu, ou apertar a mão ao David Gilmour (será que ganhava imortalidade?!). É sim algo que sempre senti que tinha que fazer. Se é que esta dicotomia vos faz algum sentido.

"I can hear the same voice calling, crying out from my heart"

Há cerca de cinco anos, a viver numa agitação permanente de nunca estar satisfeito com o que tinha (não que isso tenha mudado muito, mas já melhorei), talvez por ver os "vintes" a fechar-se, achei que estava na hora de mandar tudo ao ar e ir atrás do meu destino londrino. Comecei a mandar currículos em Agosto e a resposta foi overwhelming. Estava de férias e na praia o telefone não parava de tocar com propostas para entrevistas. Para fazer o bingo de coincidências, tinha um concerto do Roger Waters no Wembley marcado para Setembro, daí a poucas semanas. Uau. Parecia que o destino queria mesmo que eu fosse para Londres. It was really happenin'.

Na plataforma de comboios de Victoria Station, a estudar o Google Maps, percebi que afinal o trabalho não era bem em Londres. Era em Croydon, uma espécie de Amadora lá do sítio, a sul da cidade. Mas e depois? A caminho da empresa, o comboio passou ao lado da Battersea Power Station, essa mesmo, que aparece na capa do "Animals" dos Pink Floyd e que podem ver lá em cima, no banner do blog. Que cenário mais idílico poderia eu pedir? À chegada ao edifício, ajeitei a minha gravata e fui para cima deles.

Subi o elevador sem saber o que esperar. Não tive que esperar muito. Passado meia hora de entrevista, meteram-me um contrato à frente. De repente, tudo aquilo que eu queria, tudo aquilo que eu precisava estava ali, como se o meu desejo mais íntimo me tivesse caído no colo, sem que eu realmente o desejasse. Careful with what you wish for, não é? Bastava assinar o papel et voilá, cumpria-se o destino de viver Londres. Não assinei.

"So tired of all this traveling, so many miles away from home"

De regresso a Lisboa, poucos dias depois da entrevista, voltam a ligar-me. Parece que o meu caso foi ao CEO do grupo (e acreditem, era enorme) e eles abriam uma excepção para mim. Tinham gostado tanto de mim (eu tendo a despoletar reacções extremas nas pessoas e às vezes até acontece gostarem de mim), que estavam dispostos a oferecer-me um contrato superior a todos os que entravam para a minha posição. Voltei a rejeitar.

Porquê? Fuck knows. De todos os que podia ter sido, este é aquele mais dificuldade tenho em encaixar. Foi uma decisão que tomei e que, embora não me arrependa, ainda hoje não sei se foi a mais correcta. As perspectivas eram excelentes, não tinha nada a perder e nem sequer deixava cá ninguém. Às vezes penso, what the hell was I thinking?! Será que Londres não é, afinal, o meu destino? Ou será que simplesmente ainda não tinha chegado a hora de assinar o papel?

"Back on the road, alone with the sky"

"Sky Blue" leva-me para um universo paralelo onde eu finalmente me decidi a assinar o papel. O tema puxa pelas saudades de quem está há demasiado tempo fora de casa e sonha regressar, pelo que me põe já dois passos à frente da realidade. A canção invoca uma nostalgia reversiva d'o que podia ter sido, saudades de casa se eu me tivesse mudado para Londres. É um sentimento que na escala da autocomiseração, deixa para trás o clássico sofrimento por antecipação. Este é mais o sofrimento por imaginação, algo que só é possível graças ao poder da música.

Naquele momento de imersão na música de Peter Gabriel, o meu coração aperta com saudades de casa e ali desespero por voltar ao céu azul de Lisboa, ao peixe de Sesimbra e aos lençóis lavados pela minha mãe. Depois olho à minha volta e vejo que afinal estou a conduzir na A5, apenas a 20 minutos de cumprir o sonho de chegar a casa.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Oasis - "Shout It Out Loud"

"Never be enough to learn, the river's deep and the road is long"


Enjoados de Oasis? Não? Então tomem lá mais uma dose. Para hoje, mais um B-Side, desta vez de "Stop Crying Your Heart Out" e mais um exemplo daquele bonito nonsense que é ter um B-Side melhor que o A-Side.



Na sequência da enxurrada de posts sobre o período de "Standing On The Shoulder Of Giants", o post de hoje é importante para perceber duas coisas importantes sobre o período subsequente: 1. O estado de espírito de Noel é completamente diferente; 2. A sua apetência para escolher as faixas para o álbum continua nas ruas da amargura.
"Every night we hope and pray that we can do enough to keep our love"
Relativamente ao primeiro ponto, "Shout It Out Loud" mostra um Noel em recuperação, mais bem disposto, com novo casamento e a fé na vida reposta. Esta tendência é seguida, aliás, um pouco por todo o álbum, como podemos ouvir em "Little By Little" e "She Is Love".

Quanto ao segundo ponto, se as escolhas de Noel para "Standing On The Shoulder Of Giants" não foram as melhores, a selecção de temas para "Heathen Chemistry" não foi menos infeliz. De fora voltaram a ficar temas-chave como "Shout It Out Loud", "You've Got The Heart Of A Star", "Thank You For The Good Times" (embora este seja de Andy Bell), "Let There Be Love" (OUTRA vez, só apareceria no álbum seguinte) e um tal de "Stop The Clocks". Mas isso talvez já se devesse a uma carreira a solo que Noel tinha em vista para tempos não muito longínquos.

Mas há mais. Ainda falta falar em "Idler's Dream" e "Just Getting Older", que já tinham ficado de fora de SotSoG e acabariam por ser usados como B-Sides de "The Hindu Times", ou na versão demo de "Songbird", a milhas superior à que apareceu no álbum. É óbvio que não poderia haver espaço para tudo mas se pensarmos que "Heathen Chemistry" é o álbum mais fraco dos Oasis (eu pelo menos penso isso), então facilmente Noel lhe poderia subir a bitola de qualidade. Assim, ficou com o álbum mais pobrezinho da sua carreira.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Peter Gabriel - "Signal To Noise"

"Receive and transmit"


Uma das temáticas que mais gosto de ouvir na música é a comunicação; ou o problema da falta dela. É disso que trata o meu álbum preferido de sempre e é disso que fala este "Signal To Noise", superlativo tema do álbum "Up", o mais recente de Peter Gabriel (ainda o é, apesar de ter sido lançado em 2002).


A comunicação é a base de todo o relacionamento interpessoal e deveria ser uma das aptidões a merecer maior atenção da nossa parte. Mas não é. Ao invés, é uma competência tratada de forma débil, negligente e selectiva. Tiramos MBAs, vamos a cursos de oratória para aprender a falar em público, desenvolvemos todo um leque de capacidades comunicativas de uso profissional e esquecemo-nos da puta da capacidade para comunicar com quem gostamos. Uma coisa tão simples, mas tão difícil.

É mais fácil dizer "vai-te foder", "não vales nada" e "és uma merda", do que "amo-te", "não quero que vás embora", "senti a tua falta" ou "isto sem ti não tem piada nenhuma". Não me refiro a dizê-lo por mensagem, Messenger, Facebook, ou qualquer uma da miríade de redes sociais que catalisam palavras nunca ditas ao vivo. Refiro-me a dizê-lo cara-a-cara, no meio de uma discussão que dura há horas, sem que ninguém se lembre como começou e cujo único propósito é a pífia vitória de "ter razão". Como se isso fosse uma grande merda. Nunca ninguém foi para o Marquês de Pombal por ter ganho uma discussão com a namorada. Não há vencedores num jogo que não acaba com a taça de um beijo.

Ainda pior que a má comunicação, é a falta dela. No jogo do silêncio não há taças, saem todos a perder.
Não há coragem para falar nos problemas. Preferimos viver em paz podre, com sorrisos plásticos, olhares vazios e conversas que ignoram os elefantes que já não deixam ver mais nada na sala. Criou-se a noção que falar nos problemas é criá-los, como se os elefantes fossem embora sem que alguém os acordasse.

É desesperante, o atrito mental na hora de abrir o coração e expressar um sentimento. Mais desesperante ainda, é expressar um sentimento e ver o interlocutor fechar-se em copas, dentro de uma muralha intransponível.

Talvez devido à falta de comunicação, talvez devido à má comunicação com os que o rodeavam, Peter Gabriel fala desta muralha na sua música desde os tempos dos Genesis. O álbum "The Lamb Lies Down On Broadway" não é mais que uma amálgama de metáforas sobre isolamento e alienação de Peter, quando tinha apenas 24 anos. As estalactites e as estalagmites de "In The Cage" enclausuravam Rael (anagrama de Gabriel) nas catacumbas de Manhattan e protegiam-no do mundo mau lá fora, ao pé de pessoas. Ugh, outra pessoas.

Mais tarde, no álbum sem título de 1980 (conhecido por "Melt", devido à sua face que aparece derretida na capa), Peter deu conta da sua dificuldade em lidar com outras pessoas. "Sabes que eu detesto magoar-te, detesto ver a tua dor, mas não sei como parar, não sei como me controlar", dizia em "No Self Control", já com 30 anos e a perfeita noção das suas dificuldades na comunicação com quem ama.

"Man I'm losing sound and sight of all those who can tell me wrong from right
When all things beautiful and bright sink in the night"

"Signal To Noise" aparece muito mais tarde, depois dos 50, após inúmeras horas de psicoterapia, presumo eu. Mas não é por isso que Peter Gabriel já resolveu os seus problemas na comunicação. Infelizmente não é a idade, nem o falso sentimento de maturidade adquirido com o passar dos anos, que resolve os problemas de comunicação. É preciso falar sobre isso.
"Receive and transmit"

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Bruce Springsteen - "The Rising"

"Come on up for the rising"


Hoje a cidade de Santiago de Compostela está nas notícias e está pelas piores razões.
Santiago não merecia tal tragédia. Adoro a Galiza e esta cidade em particular. Foi lá que vivi uma das melhores noites da minha vida, quando assistir ao concerto de Bruce Springsteen & The E Street Band no Monte do Gozo. Mais do que um concerto, foi uma experiência, como aqui descrevi no ano passado.



À conta deste dia e de muitos outros que passei em terras galegas, desenvolvi uma relação especial com aquele lugar e com aquelas pessoas. Não mereciam tal provação. Força para eles; que juntem as mãos, como Bruce cantou em "The Rising" e que recuperem rapidamente deste fatídico dia.

domingo, 9 de setembro de 2012

Bruce Springsteen - "My City Of Ruins"

"Come on, rise up!"



Reza a História que logo a seguir aos atentados de 11 de Setembro de 2001, enquanto os orgulhosos Estados Unidos da América tentavam colar os cacos de um país despedaçado, alguém viu Bruce Springsteen na rua e gritou: "Bruce, we need you now!"

Bruce respondeu à chamada e reuniu a lendária E Street Band, para gravar o seu primeiro álbum desde "Born In The U.S.A." de 1984. Naquele momento, mais do que nunca, os EUA precisavam de Bruce Springsteen e o Boss não os desiludiu. O resultado foi "The Rising" - um álbum que serviu de catarse para o orgulho americano, um álbum que serviu não só para carpir as mágoas de todos os que perderam os seus entes queridos, mas também para lhes apontar um caminho.


Na ressaca dos atentados de 9/11, muitos foram os artistas que se inspiraram naqueles acontecimentos e lançaram álbuns sobre essa temática… e depois houve Bruce Springsteen.

"The Rising" é uma das mais cabais obras sobre a perseverança, é uma ode à esperança. Bruce convoca aquela força interior que desconhecíamos até nos depararmos com uma situação adversa, seja essa situação uma tragédia como a perda de um familiar ou de um amigo num atentado (como o 9/11), um acidente, ou a dissolução de uma relação. Ao longo de todo o álbum percorre-se um sentimento de perda. Mas "The Rising" é uma receita de como dar a volta por cima, rogar a verdadeira natureza humana, a força necessária para dobrar uma situação.

"My City Of Ruins" foi escrito em Novembro de 2000 para um evento de beneficência em Asbury Park, bairro natal de Bruce, que havia baptizado o seu primeiro álbum "Greetings From Asbury Park, NJ". O significado original do tema era o abandono a que o seu bairro tinha sido vetado, mas depois do 9/11, "Ruins" ganhou todo um novo significado.
Bruce tocou o tema no America: A Tribute to Heroes - o concerto de apoio aos familiares das vítimas do 11 de Setembro - apenas com a sua guitarra e a sua harmónica. "My City Of Ruins" serviu de abertura do programa, com Bruce a introduzir como "uma reza pelos nossos irmãos e irmãs perdidos". Foi um dos pontos altos da noite.



"Now tell me how do I begin again?"

Como é que eu começo de novo? O que é que eu faço? "The Rising" não se limita a fazer as perguntas, os dilemas que nos colocamos depois de uma tragédia. Mais do que isso, este álbum dá as respostas.
Com "The Rising", Bruce mostra também a sua faceta de messias, alguém que para além de saber apontar os problemas da sociedade (como fez ao longo da maior parte da sua carreira), sabe igualmente apontar as suas valências e mostrar o seu lado mais humano, mais redentor.
Áfinal, Bruce também sabe fazer canções de esperança.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Richard Wright - "Breakthrough"

"By HATING more, you're FEELING more and that's how you get caught"



De todas carreiras a solo, de todos os membros Pink Floyd, o meu tema preferido é de... Richard Wright.

Para quem desconhece o nome (shame on you!), Richard Wright foi o brilhante teclista de sempre dos Pink Floyd. Em toda a carreira dos Pink Floyd, Wright só não participou no álbum "The Final Cut", uma vez que tinha sido despedido por Waters durante a gravação de "The Wall", por não estar a "contribuir musicalmente" para a banda segundo os padrões de Waters. Obviamente que a isto não terão ajudado os problemas com droga que o começavam a atormentar nesta altura... Até à sua saída, Wright ainda acompanharia a lendária digressão de promoção a "The Wall".

Como o próprio Wright confirmaria uns anos mais tarde, a sua falta de ideias durante as sessões de "The Wall" deveu-se também, em grande parte, à gravação do seu primeiro álbum a solo "Wet Dream" em 1978, um ano antes.

O ex-teclista dos Pink Floyd teve uma carreira a solo muito curta, com apenas dois álbuns em nome próprio: em 1978, depois do animicamente arrasador "Animals" e respectiva digressão (brevemente falarei disto), Wright escreveu, gravou e produziu o superlativo "Wet Dream", um álbum fabuloso de forte carga instrumental; em 1996, depois da regeneração artística de Wright em "The Division Bell" (Wright andara perdido nos anos 80 com problemas familiares e lutas com problemas de droga), este lançou o seu 2º e último álbum "Broken China".

É precisamente de "Broken China" que é retirado este fantástico "Breakthrough".
Este tema foi considerado para inclusão em "The Division Bell", mas segundo David Gilmour não foi fechado a tempo. Ao ser rejeitado para os Pink Floyd (eventualmente em favor do também genial "Wearing The Inside Out"), Richard Wright usou-o para o seu álbum "Broken China".
Para a gravação em disco de "Breakthrough", Wright chamou o guitarrista de digressão dos Pink Floyd Tim Renwick e convidou Sinéad O'Connor para a voz. O resultado é bom mas, na minha opinião, muito pouco satisfatório quando comparado com a versão que aqui apresento.

Esta versão foi gravada ao vivo no Royal Festival Hall em 2002, num concerto de David Gilmour inserido numa mini-digressão semi-acústica a solo. Wright apareceu como convidado especial para este tema e ambos tocaram aquele que poderá ter sido o arranjo preparado nas sessões de "The Division Bell" para "Breakthrough", alguns anos antes. As imagens desta reunião podem ser vistas no DVD "David Gilmour in Concert", que eu recomendo vivamente!


Voltando ao princípio, reitero que "Breakthrough" é o meu tema preferido das carreiras a solo de todos os Floyd.
Este é um tema que fala sobre a redenção, sobre a procura infrutífera de um lugar seguro, ao abrigo da dor e da desilusão... Só derrubando o muro, retirando o capacete emocional e expondo-nos às contingências da dor é que podemos viver em pleno.
É uma visão que subscrevo.
"Breakthrough" pretende desta forma ser um tema psicologicamente revigorante, uma vez que todos os que andam na vida de coração aberto sabem que, após várias quedas no vazio, não é fácil manter o queixo levantado...

"You die more times than anyone, but there's still no place to fall"