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segunda-feira, 19 de junho de 2017

Bruce Springsteen - "For You" (Live at Hammersmith Odeon '75)

"I came for you, but you did not need my urgency"


Tenho uma teoria: acho que a minha vida pode ser contada através dos álbuns do Bruce Springsteen. Eliminando algumas incongruências e introduzindo algumas analepses e outras tantas prolepses, posso contar a minha história a partir do "Born To Run", quase cronologicamente. O mais engraçado é que os álbuns são biográficos, sim, mas naturalmente do próprio Bruce. Eles reflectem o seu estado de espírito na altura em que foram gravados e cada um desses álbuns entrou na minha vida em ordem cronológica no respectivo tempo em que eu passei esse mesmo estado de espírito ou condição de vida. Perdoem-me se tiverem que ler esta frase mais uma vez, mas é isto mesmo.

Várias vezes senti que o Bruce estava "ali" a tomar notas sobre a minha vida e a escrever sobre isso, em canções com 30 e 40 anos. Mesmo admitindo algum (ou muito!) pretensiosismo associado a esta teoria, às vezes eu próprio fico pasmado com a capacidade que Bruce tem em descrever minuciosamente os eventos da minha vida e pôr em palavras o meu estado de alma.

É enquadrado nessa teoria que hoje me lembrei de "For You", tema que faz parte do primeiro álbum de Bruce Springsteen (teria que ser introduzido na minha história como uma analepse na sua discografia, portanto), mas que só levantou voo quando Bruce se sentou ao piano e deu asas ao que lhe ia na alma. A versão que resultou do concerto no Hammersmith Odeon em Londres, 1975 — o primeiro concerto da E Street Band na Europa — é das materializações mais bonitas de um sentimento em música. Como só Bruce Springsteen sabe fazer.
Princess cards she sends me, with her regards
Her bar room eyes shine vacancy, to see her you have to look hard
I was wounded deep in battle, but I stood stuffed like a soldier undaunted
To her Cheshire smile I'd stand on file, she was all I ever wanted
But you let your blue walls get in the way of these facts
And honey, get your carpetbaggers off my back
You wouldn't even give me time to cover my tracks
You said, "Here boy, here's your mirror, your ball and your jacks"
But they ain't what I came for, and I'm sure you know that's true

Baby, I came for you, for you, I came for you; but you did not need my urgency
For you, for you, I came for you, but your life was one long emergency
And the cloud line urges me, and my electric surges free

Oh, crawl into my ambulance, your pulse is getting weak
Reveal yourself just once for me baby, while you've got the strength to speak
'Cause they're waiting for you at Bellevue with their oxygen masks
But I could give it all to you here, if only you would ask...
And don't call for your surgeon, even he says it's too late
It ain't your lungs this time, baby, it's your heart that holds your fate
Don't give me my money, honey, I don't want it back
You and your pony face and your union jack
You can take that local joker and teach him how to act
You know I was never that way even, even when I really cracked
And didn't you think I knew that you were born with the power of a locomotive
You could leap tall buildings in a single bound
And your Chelsea suicide with no apparent motive
You could laugh and could cry in a single sound

Your strength is devastating in the face of all these odds
Remember how I kept you waiting when it was finally my turn to play the god?
And you were not quite half so proud when I found you broken on the beach
Remember how I poured salt on your tongue and hung just out of reach
And the band they played the homecoming theme as I caressed your cheek
And that ragged, ragged jagged melody, still clings to me like a leech
And you know that medal you wore on your chest, and how it always got in the way
You were like a little girl with a trophy, so soft to buy her way
We were both hitchhiking, but you had your ears tuned to the roar
Of some metal-tempered engine on an alien, distant shore
So you left to find a better reason than the one we were living for
And it ain't that nursery mouth that I came back for
And it ain't the way that you're stretched out on the floor
'Cause I've broken all your windows and rammed through all your doors
And who am I to ask you to lick my sores? 
You should know that's true

Baby, I came for you! But you did not need it...
For you, baby, I came for you, but your life was one long, long emergency
And your cloud line urges me, and my electric surges free

sábado, 3 de novembro de 2012

David Bowie - "Time"

"Love has left you dreamless. The door to dreams was closed."



Perdido entre a ressaca do sucesso de "The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars" e a teatralidade de "Diamond Dogs", o álbum "Aladdin Sane" aparece como uma espécie de filho bastardo de Ziggy Stardust. Uma compilação desconexa de temas sobre decadência, o álbum revela (como normalmente acontece) o momento que David Bowie viva na altura.
"Ziggy goes to America", foi como Bowie descreveu "Aladdin Sane".



"Aladdin Sane" é, de facto, o outro álbum de Ziggy Stardust. Mas quem daqui concluir que "Aladdin Sane" não tem motivos de interesse, não pode estar mais longe da verdade.

David Bowie introduzira este personagem ao Mundo em Julho de 1972, com "The Rise And Fall Of Ziggy Stardust" (chamemo-lo apenas "Ziggy Stardust" a partir de agora...) e este trabalho elevara-o ao estatuto de super-estrela internacional. A digressão americana que se seguiu, serviu de inspiração para grande parte da escrita de "Aladdin Sane".

"All I had to give was the guilt for dreaming."

Experimentando um estilo de vida hedonístico, onde o álcool, as drogas e o sexo fácil eram partes do quotidiano, a personalidade absorvente de David Bowie dissolvia-se dia após dia naquela espiral decadente.
Enquanto tal acontecia, Bowie ia escrevendo canções, desenvolvendo uma fixação na cultura americana; canções que resultariam em "Aladdin Sane", lançado em Julho de 1973. Estas canções não formavam uma história, nem seguiam uma linha condutora, como em "Ziggy Stardust". Eram apenas páginas soltas de uma vida agarrada ao ponto mais alto do céu, enquanto batia no fundo do poço.
"Strung out on heaven's high, hitting an all time low", escreveria Bowie no autobiográfico "Ashes To Ashes", uns anos mais tarde.

Neste sentido, "Aladdin Sane" é um álbum que, no meio da sua esquizofrenia e falta de fio condutor, resulta pela força individual dos temas que o compõem. E aqui, olhando para os temas individualmente, arrisco dizer que não fica a dever nada ao seu antecessor.

"Time - He's waiting in the wings, he speaks of senseless things... His script is you and me"

O meu momento preferido de "Aladdin Sane" surge no início do Lado B. "Time" foi escrito por David Bowie em Nova Orleães, Novembro de 1972, durante a já referida digressão de Ziggy Stardust pelos EUA.
O tema foi descrito pela crítica como uma peça burlesca e comparada à música de cabaret de Jacques Brel. Tal como o álbum onde aparece, "Time" dividiu as opiniões, entre os que aclamavam a nova abordagem erudita de Bowie e o melodramatismo do tema e os que achavam que Bowie se devia cingir ao Rock. Como a história se encarregaria de provar, Bowie fez muito bem em nunca se cingir a qualquer estilo definido e os seus melhores trabalhos resultariam sempre das fusões musicais nascidas na sua cabeça.



O nome do álbum é um trocadilho com "A lad insane", referindo-se obviamente ao próprio David Bowie. Embora "Aladdin Sane" possa ser visto como um novo personagem, tendo em conta a sugestiva pintura facial que Bowie apresenta na capa, Aladdin não é mais que um desenvolvimento de Ziggy Stardust. Mesmo a digressão de promoção a "Aladdin Sane" foi apenas a continuação do espectáculo de Ziggy Stardust, acompanhado dos Spiders From Mars.

No fim da digressão, num concerto no lendário Hammersmith Odeon a 3 de Julho de 1973, David Bowie matou Ziggy Stardust e seguiu em frente com a sua vida e a sua carreira.



David Bowie ressuscitaria David Bowie uma última vez no Marquee, em Outubro de 1973, curiosamente para interpretar "Time", numa actuação para a televisão:


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ringo Starr - "Photograph"

"Now you're expecting me to live without you, but that's not something that I'm looking forward to..."




Hoje continuamos a olhar para o trajecto de Ringo Starr nos Beatles e na impotância da banda na sua carreira a solo.
No último dia, ficámos em 1965, no álbum "Rubber Soul", onde John Lennon e Paul McCartney ajudaram Ringo no seu primeiro crédito de autoria, com o sensaborão "What Goes On" (único tema creditado a Lennon-McCartney-Starkey).
Lennon e McCartney continuariam a ajudar Ringo ao longo dos anos, mas em 1966, logo a seguir a "Rubber Soul", dar-lhe-iam um presente envenenado. Ou não, depende da perspectiva.

Na gravação de "Revolver", Paul McCartney achou por bem escrever um tema para Ringo, um tema que se adequasse à sua imagem e à sua voz. O resultado de tal ideia pioneira seria... "Yellow Submarine".
Segundo as palavras de John Lennon, "Yellow Submarine" foi: "Paul's inspiration. Paul's idea. Paul's title... written for Ringo".
"Yellow Submarine" é um tema que parece saído dos megafones de uma banda marcial (para quem não sabe, é o que em inglês se denomina marching band), que desce a rua a anunciar que "vivemos todos num submarino amarelo"... Exacto. Foi esta a brilhante conclusão de Paul, depois de mais uma daquelas sessões de inspiração transcendental (cough... trips) que ele gostava de experimentar na época: a de que vivemos todos num submarino amarelo!

Bem... Eu sou o primeiro a dar graças pelas trips dos Beatles! Afinal, elas deram-nos coisas fantásticas como os álbuns "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" e "Magical Mystery Tour". Louvado seja o cogumelo que deu "I Am The Walrus" a Lennon, ou "Fixing a Hole" a McCartney!
Mas isto?! WTF?!

Não contentes com a façanha, os Beatles resolveram lançar "Yellow Submarine" em single... E não é que acertaram?! O tema esteve no 1º lugar das tabelas britânicas durante 4 semanas (1 mês!!!) e venceu um Ivor Novello Award como o single mais vendido de 1966 no Reino Unido. Incrível.
Para elevar a demência a níveis estratosféricos, ainda foi feito um filme de animação baseado no conceito de "Yellow Submarine": uma viagem dos Beatles... num submarino amarelo. (Jesus...) Incrível, mesmo...

A redenção de Lennon e McCartney para com Ringo (na minha opinião, claro; porque para o resto do Mundo, parece que "Yellow Submarine" é coisa que se apresente...) surgiria logo a seguir no álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band". Apresentando-se como Billy Shears - líder da Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band - Ringo canta "With A Little Help From My Friends", na minha opinião, um dos melhores temas do álbum. Aqui sim, um tema digno de Ringo.

O primeiro tema da autoria exclusiva de Ringo Starr seria "Don't Pass Me By" e apareceria apenas em 1968, no álbum homónimo da banda "The Beatles" (vulgarmente conhecido como o "White Album"). Convenhamos que foi um início muito pouco auspicioso para o baterista dos Beatles como compositor.

Por esta altura, Ringo ameaçou abandonar a banda, por achar que estava a um nível muito inferior de todos os outros. Com a auto-estima em baixo, farto das incessantes discussões em estúdio (lembro que foi aqui que uma nova personagem entrou no quotidiano da banda - a sinistra Yoko Ono) e de um processo de gravação cheio de precalços e indefinições, Ringo deixou Londres e foi de férias para o sul de França.
Duas semanas depois, a pedido dos restantes Beatles, Ringo regressaria ao estúdio para terminar as gravações do álbum. Fruto dos rasgos criativos individuais de cada um dos Beatles, sem qualquer matriz orientadora, o "White Album" acabaria por resultar numa compilação de álbuns a solo dos vários elementos da banda (obviamente com o domínio de John Lennon e Paul McCartney).

Depois da primeira amostra de criatividade com "Don't Pass Me By", o ano seguinte traria um enorme salto qualitativo para as composições de Ringo, quando contribuiu com "Octopus's Garden" para "Abbey Road", o último álbum gravado pelos Beatles. Agora sim, finalmente: um tema divertido e jovial, mesmo à imagem de Ringo Starr, para terminar o seu trajecto na banda.
Continuando na saga do surrealismo que tantos frutos tinha dado no passado, desta vez Ringo exclama que quer viver num jardim habitado por polvos no fundo do mar. Muito bem. Entre o jardim dos polvos e o cântico da banda marcial em como vivemos num submarino amarelo... fico com o jardim!

Com este panorama, previa-se que a carreira a solo de Ringo seria a menos interessante de todos os Beatles. E é assim sem surpresa que, a meu ver, percebemos que essa previsão se confirmou.
Só não digo que a carreira a solo de Ringo Starr foi, de todo, "desinteressante", porque em 1971 George "apareceu" com "It Don't Come Easy" e em 1973, Ringo chamou os restantes amigos da sua antiga banda (afinal, Ringo até era o "gajo porreiro" dos Beatles) para o álbum "Ringo".

O álbum "Ringo" foi a estrela que iluminou todo o seu reportório a solo.
"Ringo" é a cara de Ringo: é divertido, descontraído e despreocupado. A adicionar a esta equação, tem um punhado de boas canções, compostas com o auxílio dos seus amigos. Não é nada de extraordinário, nada que se possa pôr lado a lado com discos como "Band On the Run" (dos Wings de McCartney), ou a "All Things Must Pass" (de Harrison); mas cumpre. Cumpre a missão de deixar um trabalho de referência na carreira a solo de Ringo e mostra aquilo que ele pode e sabe fazer, especialmente quando é bem auxiliado.
O caso mais bem sucedido é este "Photograph", escrito (mais uma vez) com o auxílio de George Harrison (que andava on fire nesta altura), tema lançado em single em Maio de 1973 e que liderou as tabelas nos EUA; um feito que seria repetido no fim desse ano por "You're Sixteen".

No concerto de tributo a George Harrison no Royal Albert Hall, depois da sua morte em 2002, Ringo apareceu para tocar o tema escrito conjuntamente com o seu amigo, numa homenagem que, tendo em conta o conteúdo da letra de "Photograph", fez todo o sentido:

"Every time I see your face, it reminds me of the places we used to go.
But all I've got is a photograph and I realize you're not coming back anymore..."




"I thought I'd make it, the day you went away. But I can't make it, 'til you come home again to stay..."

George e Ringo partilhavam uma enorme amizade. No documentário "Living In The Material World" de Martin Scorsese (que já recomendei, sem reservas, aqui), Ringo conta a comovente história da última vez que viu George, já este estava gravemente doente... e não conseguiu evitar as lágrimas:


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Bruce Springsteen & The E Street Band - "Spirit In The Night" (Live in Lisboa 2012)

‎"Trust some of this, it'll show you where you're at, or at least it'll help you really feel it"

Nota prévia: Se não estão preparados para (mais) um texto cheio de superlativos e loas a Bruce Springsteen e à sua E Street Band, devem abandonar desde já este espaço. Aqui, sempre se adorou, adora-se e vai continuar a adorar-se o Boss.

Segunda nota prévia: Por volta das 21:30 de ontem, a meio do concerto dos James no Palco Mundo, o vocalista da banda - Tim Booth - deu o mote para o que se passaria umas horas mais tarde. Com aquele seu ar sério de ex-presidiário na tentativa de reinserção na sociedade, Tim Booth contou uma história que se passou com ele e que terá marcado o fim da sua adolescência "rebel without a cause":

"I was a 16 years old punk rocker, all my role models were self destructive.
I was into the Sex Pistols and Iggy Pop and a 100 other tortured artists who wished to come on stage and cut themselves for people's entertainment.
And then... when I was 17, a friend of mine bought me a ticket to see a concert in Birmingham, in England. I didn't wanna go, because I didn't like the guy's music. And they dragged me along to this guy's concert in Birmingham and after the 3rd song, I was standing up with the biggest smile on my face.
That was Bruce Springsteen & The E Street Band. That was the "Born To Run" tour.
They showed me another kind of artist that doesn't have to burn himself out... That doesn't have to cut themself for people's entertainment.
They showed me a new way of being onstage.
So it's a great pleasure to be here this evening, with you and with them.
We need more role models like Bruce Springsteen.
I needed one."

Bruce Springsteen & The E Street Band ao vivo, como uma life changing experience. Onde é que eu já ouvi isto?
De uma maneira ou de outra, esta é uma história cujos contornos são comuns a milhares de pessoas em todo o Mundo e que ontem foi partilhada por muitas outras.

Isto ignorando o facto que Tim Booth se trocou todo nas datas e/ou nos locais, uma vez que a E Street Band tocou pela primeira vez em Birmingham (UK) em 1981, na digressão de promoção ao álbum "The River". Na digressão de "Darkness On The Edge Of Town" (1978-1979), Bruce não saiu do espaço EUA / Canadá, por falta de verbas. Nas digressões de "Born To Run" (1974-1977), Bruce foi, efectivamente ao Reino Unido (Tim fez 17 anos em 1977), mas tocou apenas em Londres, no lendário Hammersmith Odeon.


Loas a Bruce Springsteen? Este espaço está longe de estar sozinho.
Especialmente desde ontem à noite, quando Bruce Springsteen trouxe finalmente a lendária E Street Band a Portugal. Depois do espectáculo sensaborão de Alvalade em 1993, com a Other Band (sim, a "outra" banda de Bruce foi mesmo baptizada de... Other Band), havia uma clara onda descrente em relação ao Boss no nosso país. Até ontem. Ou melhor, até hoje, porque o Boss demorou a chegar e quando entrou no Palco Mundo do Rock In Rio Lisboa 2012, já passavam das 0:00 de 4 de Junho.

Bruce demorou, mas quando chegou, não defraudou as expectativas e deu aquele que para mim foi o MELHOR (e mais longo?) concerto do festival. Como já esperava, foi mais que um concerto, foi uma experiência.

Por onde é que eu hei-de começar? Vou ter que escrever qualquer coisa sobre o que presenciei, mas não sei ao certo o quê, uma vez que ainda estou em êxtase pós-orgásmico.
Foram 2 horas e meia de masturbação emocional colectiva. Um turbilhão de emoções. Milhares de vidas que nunca mais serão as mesmas. Porque a partir de ontem, para essas pessoas houve qualquer coisa lá dentro que mudou, uma emoção que acordou.
Tal como aconteceu com Tim Booth, na sua juventude. Tal como aconteceu com o meu melhor amigo que, tal como acontecera com Tim Booth, também eu "arrastei" para o concerto de ontem. E tal como Tim, também ele, ao fim do 3º tema, deu por ele com um sorriso idiota na cara.
São muitos anos a arrancar sorrisos a carrancudos.
É o Boss. É inigualável.

Mas reitero: desde as 2:30 de hoje, que este espaço deixou de estar sozinho em Portugal.
Ao longo do dia, a imprensa multiplicou-se em loas ao Boss, elegendo a sua actuação como o grande concerto do Rock In Rio 2012. Mas não só. Hoje já li críticas que vão desde “o concerto do Rock In Rio”, passando pelo “concerto do ano”, até ao “concerto da década”.
Para ver alguns exemplos: aqui, aqui, aqui, aqui, ou aqui.
Como disse ontem Bruce, após arrancar um surpreendente "Twist And Shout" para fechar o concerto (até ontem "Tenth Avenue Freeze Out" tinha sido sempre o último tema): "You've just experienced the legendary E Street Band!". Indeed we did.

Ninguém se pode queixar que não foi avisado.
No início do concerto, como é seu hábito, Bruce profetizou a missão da E Street Band. Na introdução de "Spirit In The Night" - um dos meus temas preferidos de Bruce, do seu álbum de estreia de 1973: "Greetings From Asbury Park, NJ" - Bruce revelou ao que vinha:

"The E Street Band has come thousands of miles, just to be here in Lisbon tonight.
And we've come here on a mission!
We're gonna bring the power! We're gonna bring the glory! We're gonna bring the fun! We're gonna stimulate your sexual organs, with the power of Rock N' Roll!
Can you feel the spirit? Can you feel the spirit now?"



E assim foi.
Depois de 3 dias consecutivos de Rock In Rio, hoje estou de rastos. Sem voz, com a garganta rebentada e já não sinto pernas, pés e costas.
Estou mais morto que vivo, mas estou feliz. Com o tal sorriso idiota na cara.

Obrigado por tudo, Bruce. Vemo-nos por aí, numa estrada qualquer. De preferência brevemente.

"Together we move like spirits in the night!"

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Elton John - "The Ballad of Danny Bailey (1909-34)"


‎"Born and raised a proper, I guess life just bugged him
He found faith in danger, a lifestyle he lived by...
A running gun youngster in a sad restless age"





Mais um dia na semana Elton e hoje chegamos a um dos meus temas preferidos. Se tivesse que escolher 5 temas de toda a carreira de EJ (segundo o Eltonography são mais de 620 temas!), com certeza que "The Ballad of Danny Bailey (1909-34)" estaria presente nesse lote. E no entanto, fora da fanbase de Elton, não é dos temas mais populares, uma vez que não foi promovido como single.

“The Ballad of Danny Bailey (1909-34)” faz parte do álbum “Goodbye Yellow Brick Road”, a obra-prima de Elton John e segue o mesmo padrão lírico que Bernie Taupin já tinha explorado no álbum "Tumbleweed Connection" de 1970: o Faroeste Americano.
O tema conta a história da curta vida errante do gangster Danny Bailey, um pistoleiro no Oeste americano. Danny Bailey é um personagem criado por Berie Taupin, na linha de outros célebres foras-da-lei como John Dillinger, ou Pretty Boy Floyd.

“Goodbye Yellow Brick Road” foi gravado em Maio de 1973 no Château d'Hérouville, na pequena localidade de Hérouville, em França. Num espaço rústico, tranquilo e isolado da civilização, Elton e a sua banda encontraram a inspiração que precisavam para produzir um lote notável de música (em quantidade e muita, muita qualidade), num curto espaço de tempo.

O Château foi uma lufada de ar fresco para a banda de Elton, que vinha traumatizada depois de umas sessões abortadas em Kingston, na Jamaica, onde tudo correu mal. A ideia foi de Elton, inspirado pelos The Rolling Stones, que tinham acabado de gravar ali o álbum "Goats Heads Soup", mas depressa se revelou uma má ideia. Desde forças armadas na rua, falta de microfones no estúdio, a energia era claramente negativa para Elton e a sua banda.

“Goodbye Yellow Brick Road” foi também o álbum onde a Elton John Band assumiu, pela primeira vez, a sua "formação clássica" completa: Elton John, no piano; Dee Murray, no baixo; Davey Johnstone, nas guitarras; Nigel Olsson, na bateria; Ray Cooper, na percussão.

Regressados ao Château (onde já tinham sido gravados "Honky Château" e "Don't Shoot Me I'm Only the Piano Player"), no total foram 22 as faixas compostas pela dupla Elton John / Bernie Taupin, das quais 18 chegaram a "Goodbye Yellow Brick Road", materializando o primeiro duplo álbum da carreira de Elton. Segundo o produtor do álbum Gus Dudgeon, a ideia não era fazer um álbum duplo, mas a quantidade de material era tanta e com tanta qualidade, que foram se tornava impossível rejeitar tanta coisa.

No vídeo em baixo, vemos a banda de Elton no Château a ouvir uma mistura de “The Ballad of Danny Bailey (1909-34)”, imagens do documentário "Goodbye Norma Jean":



Os temas de "Goodbye Yellow Brick Road" andam à voltam do desencantamento com a fama e da nostalgia dos tempos de uma infância mais humilde, em contraponto com a vida hedonística que John e Taupin levavam na época. Chegados ao auge do sucesso, surge a velha questão: "É isto?".

"Now it's all over Danny Bailey and the harvest is in"

“The Ballad of Danny Bailey (1909-34)” vai numa direcção ligeiramente diferente. A efemeridade da vida de um herói, em oposição a uma vida longa e, na sua maioria, desinteressante. O que é preferível? Para personagens como Danny Bailey, a questão nem se coloca. A única forma de viver é mesmo nos limites.
Embora a situação óptima esteja no meio de ambos os paradigmas, é inegável que a vida efémera de um homem como Danny Bailey (morte aos 25 anos, segundo o título do tema) é sempre mais interessante.

A produção de “The Ballad of Danny Bailey (1909-34)” é do melhor que é possível ouvir num álbum Rock. Somos disparados para uma outra dimensão quando ouvimos os coloridos arranjos orquestrais de Del Newman na parte final do tema. Fabuloso.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Elton John - "Funeral For A Friend / Love Lies Bleeding"

"The roses in the window box have tilted to one side"



Esqueçam tudo o que pensavam que sabiam acerca de Elton John.

Nos próximos dias, vou apresentar 5 temas "que ninguém ouviu" de Elton John, 5 razões que provam que Elton John é muito mais que o "velho gay gordo" que alguma comunicação social (principalmente a portuguesa) quer fazer passar. Aliás, a má imprensa que Elton John tem em Portugal é (quase) um caso de estudo, de tão desligada da realidade de outros países na Europa e nos EUA. Digo "quase" já que, para além do inevitável factor homofóbico (sempre importante numa análise musical), a única razão que pode explicar esta incompreensão geral em Portugal para com EJ redunda no famoso incidente do Casino Estoril.

Pois, o incidente do Casino Estoril... Todos já ouvimos falar dele, mas poucos sabem o que realmente se passou.
A 13 de Setembro de 2000, Elton John faria supostamente o seu regresso a Portugal, depois do grande concerto no Estádio de Alvalade em 1992, na digressão de promoção ao álbum "The One". Mas desta feita, quem trouxe EJ a Portugal foram os euros de um casino (na época já se transaccionava o Euro) e não uma comum promotora. Assim, o concerto estava reservado à "nata" socialite portuguesa, mais preocupada em fumar os seus charutos, do que em ouvir o espectáculo que aí vinha.

Chegada a hora de entrar em palco, Elton reparou que o Salão Preto e Prata do Casino Estoril, onde iria actuar, estava repleto por uma densa nuvem de fumo, o que iria dificultar a sua tarefa de... cantar. Porque na verdade, até era para isso que ele ali estava.
Preocupado com as condições da sala, Elton pediu ao Casino para tratar do assunto e durante 2 horas, Júlio César (o Director Artístico do Casino) pediu encarecidamente aos presentes para guardarem os seus cachimbos e apagarem os seus charutos, com risco de que Elton não pudesse actuar.

Claro que sim. Donos da sua razão, com a força de um convite na mão, o Jet-set português manteve a sua postura e a nuvem de fumo não desvaneceu.
Resultado? Elton pega no cachet e apanha o primeiro charter para fora do país. Só voltaria em 2009, para um (fabuloso) concerto de quase 3 horas no Pavilhão Atlântico.

No dia seguinte ao "incidente do Casino Estoril" não faltaram teorias para explicar o desaparecimento de Elton. Se bem me recordo, a mais popular dizia que um massagista musculado português tinha despertado um ataque de ciúmes no namorado e por isso Elton "teve" que sair imediatamente do país.

Claro que sim. Um artista que já levava mais de 30 anos de palcos e a quem não são conhecidos comportamentos deste tipo, cancelava um concerto e guardava o cachet, porque o namorado teve um ataque de ciúmes. A história pegava no inevitável factor homofóbico e a partir daí alimentava um ódio de estimação a Elton John. A perfeita fuga para a frente do Casino Estoril, protegendo a imagem dos seus nobres (e, como se viu, respeitosos) clientes.

Agora que esclarecemos este ponto, fiquemos então com o primeiro tema da semana Elton aqui no blog: "Funeral For A Friend / Love Lies Bleeding", que abre o magnífico álbum "Goodbye Yellow Brick Road".


Um tema que, na verdade, são dois. A primeira parte ("Funeral For A Friend") é uma faixa instrumental, em sintetizador, criada a partir da ideia da música que Elton desejava no seu próprio funeral. "Funeral For A Friend" segue naturalmente para "Love Lies Bleeding", um tema que lida com os destroços de uma relação que terminou.

Esta sequência marca uma ligeira incursão de Elton no Rock Progressivo. Não é por acaso que bandas como os Dream Theater (que lançaram um cover deste tema no seu álbum "A Change Of Seasons") citam Elton como uma das suas influências.
"Funeral For A Friend / Love Lies Bleeding" passa a marca dos 11 minutos, sendo o tema mais extenso da já longa carreira de Elton John. Apesar de, por razões óbvias de duração, nunca ter sido lançada como single, o tema foi ganhando ao longo dos anos uma notável projecção, precisamente por mostrar Elton em territórios menos usuais.