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sábado, 7 de setembro de 2019

Bruce Springsteen — "The Promised Land" (Live at Passaic '78)

"There's a dark cloud rising from the desert floor, I packed my bags and I'm heading straight into the storm"


1. PIÈCE DE RÉSISTANCE

Já devem ter ouvido muitos contos e lendas acerca dos concertos de Bruce Springsteen. São todos verdade. Mas de todos os concertos, há um acima de todos os outros. E pluribus unum, como diz o emblema do Benfica; o unum aconteceu a 19 de Setembro de 1978 no Capitol Theater em Passaic, New Jersey e foi o primeiro de três concertos de "regresso a casa" para Bruce. Ele aparece na melhor forma de toda a sua carreira e com o melhor lote de canções, a promover o álbum "Darkness On The Edge Of Town".

A melhor noite de toda a carreira de Bruce Springsteen e uma das melhores gravações ao vivo de toda a história do Rock, que é finalmente editada oficialmente pelo Boss. O concerto foi transmitido nas rádios americanas, sendo mais tarde editado profusamente, mas em forma de bootleg, com o nome "Pièce de Résistance". "Pièce de Résistance" vem do francês e significa "obra-prima maior do artista" e não poderia haver nome melhor para esta gravação que resume todas as lendas já alguma vez contadas sobre os concertos de Bruce Springsteen. Ainda que tenha sido originalmente lançada em zona cinzenta da legalidade, a gravação ganhou tanta reputação, que se tornou num dos bootlegs mais vendidos de sempre e com ela Bruce ganhou fama de ser um animal de palco. 41 anos depois, Bruce decide recuperar as mastertapes e tirar o melhor desta lendária gravação. Tempo por isso de recordar como este bootleg mudou a minha vida há 10 anos e como deixou uma marca indelével para tudo o que se passaria a seguir.

2. THINGS THAT CAN ONLY BE FOUND IN THE DARKNESS ON THE EDGE OF TOWN

No final de 2008, a minha vida dava uma cambalhota completa. Ao mesmo tempo que acabava o curso no Técnico e começava uma vida rotineira de trabalho, estava prestes a sair da relação mais sólida e duradoura da minha vida, um amor que durou os 5 anos da minha estadia no Técnico. É um período que hoje relembro com enorme carinho e um passado com o qual estou em perfeita paz. Mas nem sempre foi assim. Nos meses que se seguiram àquele rompimento, vivi a agonia da dúvida se tinha feito o que era certo para mim. Não era uma agonia aguda, um sentimento que me fizesse disparar a marcação de um número de telefone. Era sim um ruído que se arrastava no dia-a-dia, uma interferência no sinal da minha rádio, um grão na imagem que persistia e teimava em não sair. Estava confuso, perdido e à procura de respostas sobre as grandes questões da vida. Nesse período, descobri Bruce Springsteen.

Já me conhecem, não sou de deixar os superlativos caídos no chão. Por isso vou ser directo: Bruce Springsteen salvou a minha vida entre 2008 e 2009, num exorcismo que começou em Dezembro de 2008 e culminou no dia 2 de Agosto de 2009, num Monte do Gozo a rebentar pelas costuras em Santiago de Compostela. Foi a primeira vez que vi Bruce Springsteen ao vivo e uma noite que definiu a minha vida e tudo o que eu queria dela daí em diante. Emoção. Honestidade. Seja ela em beleza, ou em bruteza. É isso que Bruce dá ao público nos seus concertos, porque é exactamente aquilo por que as pessoas estão esfomeadas.

Durante este período de exorcismo, havia um CD que rodava em loop no meu carro. Era a gravação do primeiro set do primeiro concerto de Passaic. Tudo o que eu tinha que ouvir de Bruce naquele momento estava condensado ali. Bruce tinha todas as respostas que eu procurava para as grandes questões da vida. Foi ele que me fez perceber porque é que eu tinha saído. E o que é que me esperava a seguir.
Saí, porque quis ver o que havia na escuridão da orla da cidade. E como Bruce avisou, tive que pagar o preço de querer coisas que só podem ser encontradas na escuridão da orla da cidade. Leiam aqui o que entenderem.

3. A LIGHT IN THE DARKNESS

Naquela gravação ao vivo de Passaic, Bruce enquadrou tudo o que eu sentia naquela altura. Deu nomes aos lugares metafóricos que existiam na minha cabeça ("the edge of town"). Deu nomes aos sentimentos de culpa que me assolavam ("When the night's quiet and you don't care anymore / Your eyes are tired and someone at your door / And you realize... you wanna let go") e resumiu o espírito da minha viagem de redenção, quando introduziu "Darkness On The Edge Of Town" em jeito de pregador: "At one time or another, everybody's gotta drive through the darkness on the edge of town".

Mas o conteúdo era apenas uma parte e não a parte fundamental desta gravação catártica. A forma, aqui, é tudo. A paixão que Bruce imprime nesta actuação é arrepiante. Desde a contagem para "Badlands" que entramos numa auto-estrada sensorial, onde nos agarram pelos colarinhos e somos submetidos a chuveiro de emoções que tão depressa nos imprimem excitação ("Badlands"), raiva ("Streets Of Fire"), alegria ("Spirit In The Night"), ambição ("Thunder Road", "The Promised Land"), desespero ("Meeting Across The River") e arrepios, quando Bruce Springsteen pergunta à audiência "New Jersey, are you ready to prove it all night?" e depois abre a guitarra. Tudo num espaço de 80 minutos.

4. MEETING ACROSS THE RIVER


O tempo passou e eu procurei refazer a minha vida, sempre carregando a tocha do Bruce no meu dia-a-dia. Foram os anos áureos do blog "Escolha Musical do Dia", que na altura escrevia quase diariamente (como era suposto) e que, não por acaso, tinha uma avalanche de posts de Bruce Springsteen. Para meu gáudio, em 2012 Bruce vem a Portugal, ao Rock In Rio, e eu tenho a oportunidade de o voltar a ver.

Nesta altura, uma "ex" que tinha sido uma má ideia desde o início (não é a do segundo capítulo, obviamente), tenta uma reaproximação com o pretexto de que queria também ver o Bruce Springsteen no Rock In Rio e como tal, pediu-me para eu a ajudar a preparar o concerto. Eu gravei-lhe o CD do Passaic e acordámos um encontro à beira rio, que eventualmente iria reatar a má ideia inicial.

Na semana seguinte, escrevi o mail:
"De: Nuno Bento
Enviado: 25 de maio de 2012 19:22
Para: (...)
Assunto: "Stuff this in your pocket, it will look like you're carrying a friend" 
Olá! Conforme te tinha prometido, aí está o alinhamento do CD que te gravei do tio Bruce, uma das minhas gravações ao vivo preferidas de sempre (só atrás do Live At Wembley '86 dos Queen): 
1. Intro (0:31)
2. Badlands (5:00)
3. Streets Of Fire (4:47)
4. Spirit In The Night (6:50)
5. Darkness On The Edge Of Town (4:14)
6. Independence Day (5:29)
7. The Promised Land (5:23)
8. Prove It All Night (9:30)
9. Racing In The Street (8:09)
10. Thunder Road (5:28)
11. Meeting Across The River (3:17)
12. Jungleland (9:39) 
Como podes ver pelo site, este CD é apenas o 1º set de um concerto de quase 4 horas que o Bruce deu na sua terra Natal (New Jersey) em 1978. Na altura, ele dava dois "sets" de hora e meia e depois voltava para mais meia-hora/uma hora de encores. Aquilo nunca mais acabava! 
No sábado não acabei de te contar a minha "história" sobre este concerto: há mais ou menos 4 anos fiquei apanhadinho pela música do tio Bruce e por acaso dei com este concerto. Foi daquelas coisas que mudou a minha vida. Durante 2 anos, esteve em constante repeat no meu carro e arrisco dizer que foi o álbum que mais ouvi (de sempre) no meu carro! Ok, eu tenho um uso muito fácil de superlativos, mas é verdade! Mudou a minha vida! Por isso, quando te gravei o CD, foi como se de uma "entrega" de algo importante e pessoal se tratasse. Agora que já foste apanhada também pela mística do tio Bruce, achei que estavas preparada para ouvir isto! 
E pronto, já tens aí tudo o que precisas para saber tudo do tio Bruce. O trabalho não me deixou enviar isto mais cedo, mas ainda vais bem a tempo!
Desejo-te um bom concerto e, uma vez que vais incentivada por mim, espero que gostes! 
Beijinhos,
Nuno"
Ai, ai, ai, Nuno. Que tontinho. O concerto do Bruce foi espectacular, como é óbvio. O retomar da má ideia é que foi um desastre. O que vale foi que a seguir a uma série de desastres, que culminaram num acidente de automóvel em Setembro desse ano, deu-se início à caminhada que me iria levar para a terra prometida.

5. THE PROMISED LAND


A continuação da história está contada aqui (por escrito) e aqui (na rádio). O caminho para a terra prometida continua. Sempre ao som do Bruce.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Bruce Springsteen - "Because The Night" (Live at Agora)

Na minha interminável busca pelo concerto perfeito de Bruce Springsteen, há meses que andava à procura da versão perfeita de "Because The Night".

A versão perfeita de "Because The Night" chegou-me originalmente num mp3 de qualidade duvidosa, há mais de 10 anos, via Kazaa - um programa de p2p, que se usava antes do advento das torrents e que serviu para eu construir a minha primeira discografia extensiva.
Na altura, não era ainda hábito "sacar" álbuns inteiros, a velocidade da ligação de internet não o permitia. Começava então por fazer o download das minhas faixas preferidas (normalmente aquelas que ouvia na rádio) e, caso gostasse, mais se seguiriam. A honra máxima para o artista seria levar-me à loja comprar o álbum para ouvir em qualidade decente, passível de levantar o volume ao máximo. Devo relembrar, a qualidade dos mp3 na altura era bastante duvidosa (não costumava ir além dos 128kbs). O dinheiro também não abundava no bolso de um estudante do liceu, por isso a escolha tinha que der criteriosa.

Mas tal era impossível com "Because The Night (Live)". Sacado por entre um molho de temas avulsos de Bruce, esta faixa vinha órfã, que é como quem diz, na linguagem nerdi-musical, sem tags.
Sem identificação, não podia comprar o álbum, porque não sabia de onde vinha. Na altura, presumi que esta era a versão usada no álbum ao vivo mais conhecido - "Live 1975-85".
Uns anos mais tarde, já com dinheiro em caixa para transformar toda aquela discografia digital construída ao longo dos anos em discos palpáveis, comprei o álbum. E choque: não, não era aquela versão.
Qual seria, então?
Anos passaram-se e nunca dei com ela. Ouvi os bootlegs dos concertos mais conhecidos e nunca lá estava. A "versão perfeita" de "Because The Night" parecia jogar às escondidas comigo. Até hoje.

Hoje à noite, vagueando pelo Youtube e pelo espólio aparentemente infindável que lá se pode encontrar, dei sem querer com ela.
Às vezes é assim que funciona a nossa vida: procuramos em vão algo durante muito tempo e depois, sem saber como, ela vem-nos parar às mãos. No caso, aos ouvidos.


Esqueçam a versão da Patti Smith. Esqueçam a versão polida de "The Promise", com a nova faixa vocal. Esqueçam a versão condensada de "Live 1975-85".
Se querem ouvir a verdadeira, a versão perfeita de "Because The Night", ela foi gravada ao vivo a 9 de Agosto de 1978 no Agora, em Cleveland, no lendário "Darkness Tour" e está aqui:



Puxem até ao segundo 17:12 et voilá.


Notem que, à hora que Bruce Springsteen arrancou para a versão perfeita de "Because The Night, ele já levava 3 horas e meia de concerto na garganta. Impressionante.
Que o diga o jornalista de Cleveland que fez a cobertura do concerto:


quinta-feira, 18 de julho de 2013

Bruce Springsteen - "Badlands"

"You spend your life waiting for a moment that just won't come"



Por vezes, deparamo-nos com aquele tema que descreve minuciosamente, palavra por palavra, o nosso estado de alma.
Mais raras vezes, esse tema é cantado da mesma forma que a nossa alma liberta o sentimento estampado nessas palavras.


Há uma razão que explica a minha devoção à arte de Bruce Springsteen. Ele, como nenhum outro artista consegue fazer, condensa o meu estado de alma em música. Especialmente neste álbum - "Darkness On The Edge Of Town" - que em dias é um periscópio para as profundezas do meu sub-consciente.


Tudo o que tenho a dizer por hoje, confio-o ao Bruce. Palavra a palavra:
"Lights out tonight, trouble in the heartland
Got a head-on collision, smashin' in my guts, man
I'm caught in a crossfire, that I don't understand
But there's one thing I know for sure, girl
I don't give a damn for the same old played out scenes
I don't give a damn for just the in-betweens
Honey, I want the heart, I want the soul, I want control, right now
You better listen to me baby
Talk about a dream, try to make it real
You wake up in the night with a fear so real
You spend your life waiting for a moment that just won't come
Well don't waste your time waiting

BADLANDS, you gotta live it everyday
Let the broken hearts stand
As the price you've gotta pay
We'll keep pushin' till it's understood
and these badlands start treating us good

Workin' in the fields 'til you get your back burned
Workin' 'neath the wheel 'til you get your facts learned
Baby, I got my facts learned real good right now,
You better get it straight, darling,
Poor man wanna be rich, rich man wanna be king
And a king ain't satisfied 'til he rules everything
I wanna go out tonight, I wanna find out what I got

I believe in the love that you gave me
I believe in the faith that can save me
I believe in the hope and I pray
That some day it may raise me, above these...

BADLANDS, you gotta live it everyday
Let the broken hearts stand
As the price you've gotta pay
We'll keep pushin' till it's understood
and these badlands start treating us good

For the ones who had a notion, a notion deep inside
That it ain't no sin to be glad you're alive
I wanna find one face that ain't looking through me
I wanna find one place,
I wanna spit in the face of these...


BADLANDS, you gotta live it everyday
Let the broken hearts stand
As the price you've gotta pay
We'll keep pushin' till it's understood
and these badlands start treating us good"

sábado, 25 de dezembro de 2010

Bruce Springsteen - "The Promise: The Darkness On The Edge Of Town Story"

"At one time or another, everybody's gotta drive through the darkness on the edge of town"

Um olhar sobre "Darkness On The Edge Of Town" de Bruce Springsteen, por ocasião da (magnífica) reedição do álbum.

Capítulo I - A promessa

"When the promise was broken, I cashed in a few of my dreams"

"A promessa". "A promessa" é um tema que fala de uma história de desilusão, traição e isolamento. É um tema que descreve a situação que Bruce Springsteen passava naquela altura.

Quem quebrou "a promessa" foi Mike Appel, o manager de Bruce Springsteen na época. Em 1972, Mike deu a assinar a Bruce um contracto, que estipulava que este recebesse uma ínfima parte dos direitos de autor das suas músicas e que os direitos de publicação fossem exclusivamente da editora. Reza a lenda que este contracto foi assinado por Bruce Springsteen num parque de estacionamento em New Jersey, sem sequer o ler.

Só em 1976, quando Bruce Springsteen decidiu que Jon Landau estivesse envolvido nas suas decisões artísticas e Landau aconselhou-o a analisar este contracto, Bruce se apercebeu do que tinha feito. Na sequência, Bruce despede Mike Appel e dão início a uma longa batalha jurídica que se arrastou pelos tribunais até 1977, sem que Bruce pudesse voltar ao estúdio, uma vez que Mike o tinha impedido de gravar com Landau.

"When the promise was broken I was far away from home, sleeping in the back seat of a borrowed car"

"A promessa". "A promessa" não só é um dos melhores temas que Bruce Springsteen nunca lançou (e são muitos), como também é dos momentos mais brilhantes da carreira de Bruce. Um momento tão brilhante e ao mesmo tempo tão pessoal, que Bruce tinha receio de o submeter ao juízo do público e da crítica. Medo esse que, em boa verdade, nunca terá perdido, uma vez que mais de 30 anos depois do lançamento do álbum, a versão mais aclamada deste tema continua sem ver a luz dia, em forma oficial:



"I followed that dream just like those guys do up on the screen"

A performance vocal de Bruce Springsteen neste take específico é tão profunda e tão emocional, que consegue materializar o sentimento de desilusão como nenhum outro tema que eu já ouvi. E parece-me que foi o seu cunho pessoal na interpretação do tema, que o impediu de lançar este take nas várias oportunidades que teve ao longo dos anos.

Vejamos: em 1978, Bruce deixa "The Promise" de fora do álbum "Darkness On the Edge of Town", muito embora este tema se encaixe na perfeição no espírito do álbum. Em 1998, Bruce deixa de fora da caixa "Tracks" que pretendia reunir em 4CD, os melhores temas de Bruce que tinham ficado de fora dos álbuns. Em 1999, pressionado pelos fãs que ficaram surpreendidos com a exclusão de "The Promise" da caixa, Bruce lança finalmente o tema em "18 Tracks", uma compilação com o melhor de "Tracks". No entanto, Bruce volta a surpreender, ao lançar uma regravação de 1999, excluindo os vários takes existentes no arquivo, de 1976 a 1978. Esta regravação é nomeada para um Grammy, mas voltou a não deixar os fãs satisfeitos. Finalmente, em 2010, Bruce lança um duplo álbum com os melhores temas gravados entre 1976 e 1978, que ficaram de fora de "Darkness On the Edge Of Town". A compilção chama-se "The Promise" e finalmente é incluído um take gravado na época. Mas ainda não não foi desta que "o take" que os fãs querem viu a luz do dia.



"We're gonna take it all and throw it all away"


Capítulo II - A escuridão

"I'll pay the cost for wanting things that can only be found in the darkness on the edge of town"

Para minha enorme satisfação, foi no passado fim-de-semana que, após largos meses de espera, me chegou às mãos no a reedição do álbum "Darkness On the Edge Of Town" de Bruce Springsteen, com o nome pomposo: "The Promise: The Darkness on the Edge of Town Story".

Mas já lá vamos. Antes disso, vamos abordar a complexa história deste álbum e resumir o que aconteceu até chegarmos aqui.

Depois do enorme sucesso do álbum "Born To Run" de 1975, altura em que Bruce cometeu a proeza de ser capa da Time e da Newsweek na mesma semana, a expectativa era grande para saber o que é que Bruce Springsteen tinha na manga para o 4º álbum. No entanto os meses passavam, Bruce andava na estrada e estreava alguns temas novos, mas não havia notícias sobre o novo álbum...

O problema estava no contracto que ele tinha assinado em 1972 com o manager Mike Appel, num parque de estacionamento em New Jersey, sem sequer o ler. "A promessa" tinha sido quebrada.

Enquanto decorria a batalha legal com Mike Appel, Bruce era obrigado a continuar na estrada a dar concertos com a E Street Band, a sua única verdadeira fonte de rendimento. Impedidos de gravar em estúdio, foi neste período que Bruce Springsteen e a E Street Band aperfeiçoaram as suas perfomances ao vivo, eventualmente ganhando a reputação de uma das melhores bandas rock ao vivo da história.

Resolvida a questão legal, no Verão de 1977 Bruce Springsteen avançou determinado para o estúdio com a E Street Band para gravar o seu novo álbum "American Madness", nome que daria lugar ao mais apropriado "Darkness On The Edge Of Town", lançado em 2 de Junho de 1978. Só que desta vez a motivação de Bruce Springsteen era bem diferente de "Born To Run".

Enquanto "Born To Run" era uma ode ao optimismo, à esperança e à mudança para um lugar e para tempos melhores (a metáfora nova-iorquina de “passar para o lado de lá do rio”); "Darkness" representa a percepção que afinal o lugar e os tempos para onde se mudou também têm os seus problemas e que a vida é isso mesmo: podemos andar a vida inteira à espera de um momento ("Badlands"), ou a perseguir um sonho ("Something In The Night"), mas no fim de contas o handicap com que nascemos ("Adam Raised A Cain") vai acompanhar-nos para sempre.

É esta dicotomia que faz estes dois álbuns tão especiais. Em suma, o optimismo e romantismo de "Born To Run", dá lugar à desilusão e isolamento de "Darkness On The Edge Of Town".



Fica aqui o tema-título "Darkness on the Edge of Town", ao vivo em Passaic (New Jersey), naquela que é a minha performance ao vivo preferida de Bruce Sprinsgteen. Seja ao vivo ou em estúdio. A paixão que Bruce imprime nesta actuação é arrepiante.
Na introdução, Bruce dedica a música a um amigo em dificuldades, com a seguinte frase lapidar, que resume o espírito do álbum:

"At one time or another, everybody's gotta drive through the darkness on the edge of town"



Capítulo III - O compromisso

Os primeiros 3 álbuns de Bruce Springsteen são uma ode ao romance, aos sonhos da vida e do Rock N' Roll, sob a premissa que tudo é possível, desde que se acredite piamente nisso e se tenha força de vontade suficiente para mudar.

São álbuns que transmitem um sentido de possibilidades ilimitadas que intoxicam o ouvinte. São álbuns cheios momentos de glória que não são reais, são fantasias que reflectem a vontade de um jovem de origens modestas, mas com grande coração, em triunfar no mundo.

Na introdução do documentário "The Promise: The Making Of Darkness On The Edge Of Town", incluído na edição especial lançada no último mês, Bruce Springsteen descreve o álbum da seguinte forma:

“The album is a reckoning with the adult world, with a life of limitations and compromises.”

Numa retrospectiva, podemos dizer que a visão que definiu a carreira de Bruce é dada em “Darkness on the Edge of Town” e não nos seus primeiros álbuns. As ideias de luta contra as dificuldades do mundo e os handicaps da vida são a fundação de quase tudo o que seguiria no seu trabalho.

O resultado desta mudança foi um álbum bem menos comercial e com sucesso bem mais reduzido. Mas isso não incomodou Bruce Springsteen, uma vez que a sua motivação para este álbum era criar algo verdadeiramente seu, inserido nas experiências que estava a viver. Como o próprio diz no referido documentário:

"More than rich, more than famous, more than happy, I wanted to be great"

A prova de que Bruce Springsteen não procurava o sucesso mainstream com este álbum é a escolha das músicas. Alegadamente, foram escritos e gravados aproximadamente 60 a 70 temas para "Darkness", sendo que a larga maioria não chegou à versão final do álbum.

Alguns destes temas seriam oferecidos a outras artistas e resultaram em grandes êxitos (por exemplo, "Because The Night" a Patti Smith, ou "Fire" às Pointer Sisters). Outros temas só chegariam no álbum seguinte, o duplo "The River", ou muito mais tarde na retrospectiva de 4CD "Tracks", em 1998. Outros ainda apareceriam apenas em performances ao vivo, ou em bootlegs que os fãs partilhavam entre si.

Tudo isto até agora, quando em 2010 chega finalmente a tão prometida edição especial de "Darkness On The Edge Of Town". Juntamente com esta reedição, é lançado "The Promise", uma compilação de 22 temas que ficaram de fora do álbum. Neste lote, incluem-se temas mais conhecidos como "Because The Night", "Fire", temas novos como "Save My Love" ou até versões alternativas de temas do álbum, como a versão eléctrica de "Racing In The Street".


Dos temas incluídos em "The Promise", provavelmente o mais conhecido é mesmo "Because The Night", que seria o grande êxito da carreira de Patti Smith. Como é contado no documentário pelos próprios, Bruce Springsteen deixou o tema fora de "Darkness On the Edge Of Town" porque era uma canção de amor e não entrava no espírito gélido que procurava para o álbum. Assim, o tema foi entregue a Patti por meio de Jimmy Iovine (um produtor que trabalhava com ambos), ainda com partes da letra incompleta. Patti completou-a e lançou "Because The Night" como single de avanço do seu álbum "Easter".

Mais tarde, Bruce completaria a letra à sua maneira e o tema tornar-se-ia uma presença assídua nos seus concertos. Fica aqui um exemplo de uma versão ao vivo de "Because The Night" em Houston, uma performance também incluída na reedição de "Darkness On The Edge Of Town".




Capítulo IV - O álbum

"I've been working real hard, trying to get my hands clean"

 

Com este post, termino hoje a sequência de artigos dedicados a "Darkness On The Edge Of Town" de Bruce Springsteen, por ocasião da (magnífica) reedição do álbum. Juntamente com o álbum remasterizado, esta reedição conta com a compilação "The Promise", com dois (!!) discos de temas que ficaram de fora do álbum original, um concerto completo da lendária digressão de promoção do álbum em 1978, um documentário sobre a história do álbum, uma performance recente do álbum e ainda diverso material de arquivo.

Assim, a caixa é composta por 3 CD e 3 Blu-Ray (ou DVD, na versão mais barata) e é uma delicia para quem é fã de Bruce ou, como é o meu caso, deste álbum em particular.

Resumidamente, o conteúdo da caixa é o seguinte:

CD 1 - "Darkness On the Edge of Town" (Remastered)
CD 2 - "The Promise" (Disc 1)
CD 3 - "The Promise" (Disc 2)
DVD 1 - The Promise: The Making of "Darkness On the Edge of Town" (documentário sobre o gravação do álbum, realizado por Thom Zimmy, vencedor de prémios Emmy e Grammy)
DVD 2 - "Darkness on the Edge of Town": Paramount Theatre, Asbury Park & Thrill Hill Vault: 1976–1978 (performance intimista do álbum completo, filmada em Asbury Park em 2009. Filmagens do arquivo pessoal de Bruce Springsteen, nunca antes vistas)
DVD 3 - Houston '78 Bootleg: House Cut (concerto completo da Darkness on the Edge of Town Tour, nunca antes visto)

Olhando agora para o álbum original, este começa com um estrondoso Badlands (que parece fazer a transição do optimismo de "Born To Run" para o que viria a seguir) e depois continua até ao fim do Lado 1 com uma das sequências mais fantásticas num álbum rock: o brutal "Adam Raised A Cain", o desesperante "Something In The Night", o explosivo "Candy's Room" e o melancólico "Racing In The Street". É difícil escolher momentos altos ou baixos no Lado 1 deste álbum, tal é a sua solidez.

Lado 2 parece começar mais uma vez com um raio de optimismo em "The Promised Land", outro fabuloso tema, mas também aqui prossegue com temas que transmitem dificuldades. A dureza da rotina de uma vida de trabalho em "Factory", a dureza da libertação em "Streets Of Fire" e a dureza do compromisso em "Prove It All Night". Todos estes temas fazem um build-up para o que chega no fim, quando o sujeito do álbum já perdeu tudo e surge de mãos vazias e coração despedaçado em "Darkness on the Edge of Town", terminando o álbum de forma sumária e lapidar:

"I'll pay the cost for wanting things that can only be found in the darkness on the edge of town"

O que me parece de realçar em "Darkness" é que, enquanto os temas no Lado 1 aparecem no álbum com as suas versões definitivas, os temas no Lado 2 parecem resultar melhor em concerto (especialmente na digressão de 1978), integrados num ambiente mais livre, vivo e acutilante. Para além disso, alguns temas foram alargados nas versões ao vivo, casos de "The Promised Land", com um solo duplo de harmónica no início e principalmente de "Prove It All Night" cuja versão no álbum durava 3:56, mas que ao vivo por vezes passava a marca dos 10 minutos.

E foi mesmo ao vivo que este álbum ganhou outra dimensão. A digressão de "Darkness On The Edge Of Town" ainda hoje é recordada como uma das mais intensas e lendárias da história do rock. A banda tinha chegado ao seu ponto alto, aperfeiçoando a performance dos temas novos e antigos.

O vídeo que está em cima é de uma performance de "Prove It All Night" em Phoenix, ainda no início da digressão, numa altura em que a versão alargada ainda não estava bem oleada, mas já dá para ter uma ideia. Esta versão está incluída no material de arquivo da reedição de "Darkness On The Edge Of Town".

Para terminar, vou fazer uso das palavras do próprio Bruce Springsteen, da mesma maneira que ele fecha o documentário de Thom Zimmy.

“How do you deal with those things and move on (...) to a life where you can make your way through the day and sleep at night”
“That's what most of these songs were about”



P.S.: Com este post encerro a sequência de posts de análise à reedição de "Darkness On The Edge Of Town". As 4 partes da análise estão aqui compiladas e estruturadas, de modo a conferir uma forma coerente ao texto.

P.P.S.: Esta foi a minha prenda de Natal. Espero que recebam as vossas.

BOM NATAL!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Bruce Springsteen - "Prove It All Night" (Live in Phoenix '78) (IV)

"I've been working real hard, trying to get my hands clean"

 

Com este post, termino hoje a sequência de artigos dedicados a "Darkness On The Edge Of Town" de Bruce Springsteen, por ocasião da (magnífica) reedição do álbum. Juntamente com o álbum remasterizado, esta reedição conta com a compilação "The Promise", com dois (!!) discos de temas que ficaram de fora do álbum original, um concerto completo da lendária digressão de promoção do álbum em 1978, um documentário sobre a história do álbum, uma performance recente do álbum e ainda diverso material de arquivo.

Assim, a caixa é composta por 3 CD e 3 Blu-Ray (ou DVD, na versão mais barata) e é uma delicia para quem é fã de Bruce ou, como é o meu caso, deste álbum em particular.

Resumidamente, o conteúdo da caixa é o seguinte:

CD 1 - "Darkness On the Edge of Town" (Remastered)
CD 2 - "The Promise" (Disc 1)
CD 3 - "The Promise" (Disc 2)
DVD 1 - The Promise: The Making of "Darkness On the Edge of Town" (documentário sobre o gravação do álbum, realizado por Thom Zimmy, vencedor de prémios Emmy e Grammy)
DVD 2 - "Darkness on the Edge of Town": Paramount Theatre, Asbury Park & Thrill Hill Vault: 1976–1978 (performance intimista do álbum completo, filmada em Asbury Park em 2009. Filmagens do arquivo pessoal de Bruce Springsteen, nunca antes vistas)
DVD 3 - Houston '78 Bootleg: House Cut (concerto completo da Darkness on the Edge of Town Tour, nunca antes visto)

Olhando agora para o álbum original, este começa com um estrondoso Badlands (que parece fazer a transição do optimismo de "Born To Run" para o que viria a seguir) e depois continua até ao fim do Lado 1 com uma das sequências mais fantásticas num álbum rock: o brutal "Adam Raised A Cain", o desesperante "Something In The Night", o explosivo "Candy's Room" e o melancólico "Racing In The Street". É difícil escolher momentos altos ou baixos no Lado 1 deste álbum, tal é a sua solidez.

Lado 2 parece começar mais uma vez com um raio de optimismo em "The Promised Land", outro fabuloso tema, mas também aqui prossegue com temas que transmitem dificuldades. A dureza da rotina de uma vida de trabalho em "Factory", a dureza da libertação em "Streets Of Fire" e a dureza do compromisso em "Prove It All Night". Todos estes temas fazem um build-up para o que chega no fim, quando o sujeito do álbum já perdeu tudo e surge de mãos vazias e coração despedaçado em "Darkness on the Edge of Town", terminando o álbum de forma sumária e lapidar:

"I'll pay the cost for wanting things that can only be found in the darkness on the edge of town"

O que me parece de realçar em "Darkness" é que, enquanto os temas no Lado 1 aparecem no álbum com as suas versões definitivas, os temas no Lado 2 parecem resultar melhor em concerto (especialmente na digressão de 1978), integrados num ambiente mais livre, vivo e acutilante. Para além disso, alguns temas foram alargados nas versões ao vivo, casos de "The Promised Land", com um solo duplo de harmónica no início e principalmente de "Prove It All Night" cuja versão no álbum durava 3:56, mas que ao vivo por vezes passava a marca dos 10 minutos.

E foi mesmo ao vivo que este álbum ganhou outra dimensão. A digressão de "Darkness On The Edge Of Town" ainda hoje é recordada como uma das mais intensas e lendárias da história do rock. A banda tinha chegado ao seu ponto alto, aperfeiçoando a performance dos temas novos e antigos.

O vídeo que está em cima é de uma performance de "Prove It All Night" em Phoenix, ainda no início da digressão, numa altura em que a versão alargada ainda não estava bem oleada, mas já dá para ter uma ideia. Esta versão está incluída no material de arquivo da reedição de "Darkness On The Edge Of Town".

Para terminar, vou fazer uso das palavras do próprio Bruce Springsteen, da mesma maneira que ele fecha o documentário de Thom Zimmy.

“How do you deal with those things and move on (...) to a life where you can make your way through the day and sleep at night”
“That's what most of these songs were about”


P.S.: Para leitura complementar: os Capítulos I, II e III.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Bruce Springsteen - "Because The Night" (Live in Houston '78) (III)

Os primeiros 3 álbuns de Bruce Springsteen são uma ode ao romance, aos sonhos da vida e do Rock N' Roll, sob a premissa que tudo é possível, desde que se acredite piamente nisso e se tenha força de vontade suficiente para mudar.

São álbuns que transmitem um sentido de possibilidades ilimitadas que intoxicam o ouvinte. São álbuns cheios momentos de glória que não são reais, são fantasias que reflectem a vontade de um jovem de origens modestas, mas com grande coração, em triunfar no mundo.

Na introdução do documentário "The Promise: The Making Of Darkness On The Edge Of Town", incluído na edição especial lançada no último mês, Bruce Springsteen descreve o álbum da seguinte forma:

“The album is a reckoning with the adult world, with a life of limitations and compromises.”

Numa retrospectiva, podemos dizer que a visão que definiu a carreira de Bruce é dada em “Darkness on the Edge of Town” e não nos seus primeiros álbuns. As ideias de luta contra as dificuldades do mundo e os handicaps da vida são a fundação de quase tudo o que seguiria no seu trabalho.

O resultado desta mudança foi um álbum bem menos comercial e com sucesso bem mais reduzido. Mas isso não incomodou Bruce Springsteen, uma vez que a sua motivação para este álbum era criar algo verdadeiramente seu, inserido nas experiências que estava a viver. Como o próprio diz no referido documentário:

"More than rich, more than famous, more than happy, I wanted to be great"

A prova de que Bruce Springsteen não procurava o sucesso mainstream com este álbum é a escolha das músicas. Alegadamente, foram escritos e gravados aproximadamente 60 a 70 temas para "Darkness", sendo que a larga maioria não chegou à versão final do álbum.

Alguns destes temas seriam oferecidos a outras artistas e resultaram em grandes êxitos (por exemplo, "Because The Night" a Patti Smith, ou "Fire" às Pointer Sisters). Outros temas só chegariam no álbum seguinte, o duplo "The River", ou muito mais tarde na retrospectiva de 4CD "Tracks", em 1998. Outros ainda apareceriam apenas em performances ao vivo, ou em bootlegs que os fãs partilhavam entre si.

Tudo isto até agora, quando em 2010 chega finalmente a tão prometida edição especial de "Darkness On The Edge Of Town". Juntamente com esta reedição, é lançado "The Promise", uma compilação de 22 temas que ficaram de fora do álbum. Neste lote, incluem-se temas mais conhecidos como "Because The Night", "Fire", temas novos como "Save My Love" ou até versões alternativas de temas do álbum, como a versão eléctrica de "Racing In The Street".


Dos temas incluídos em "The Promise", provavelmente o mais conhecido é mesmo "Because The Night", que seria o grande êxito da carreira de Patti Smith. Como é contado no documentário pelos próprios, Bruce Springsteen deixou o tema fora de "Darkness On the Edge Of Town" porque era uma canção de amor e não entrava no espírito gélido que procurava para o álbum. Assim, o tema foi entregue a Patti por meio de Jimmy Iovine (um produtor que trabalhava com ambos), ainda com partes da letra incompleta. Patti completou-a e lançou "Because The Night" como single de avanço do seu álbum "Easter".

Mais tarde, Bruce completaria a letra à sua maneira e o tema tornar-se-ia uma presença assídua nos seus concertos. Fica aqui um exemplo de uma versão ao vivo de "Because The Night" em Houston, uma performance também incluída na reedição de "Darkness On The Edge Of Town".



P.S.: Continua...

P.P.S.: Para leitura complementar: aqui e aqui.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Bruce Springsteen - "Darkness On The Edge Of Town" (II)

"I'll pay the cost for wanting things that can only be found in the darkness on the edge of town"

Para minha enorme satisfação, foi no passado fim-de-semana que, após largos meses de espera, me chegou às mãos no a reedição do álbum "Darkness On the Edge Of Town" de Bruce Springsteen, com o nome pomposo: "The Promise: The Darkness on the Edge of Town Story".

Mas já lá vamos. Antes disso, hoje vamos abordar a complexa história deste álbum e resumir o que aconteceu até chegarmos aqui.

Depois do enorme sucesso do álbum "Born To Run" de 1975, altura em que Bruce cometeu a proeza de ser capa da Time e da Newsweek na mesma semana, a expectativa era grande para saber o que é que Bruce Springsteen tinha na manga para o 4º álbum. No entanto os meses passavam, Bruce andava na estrada e estreava alguns temas novos, mas não havia notícias sobre o novo álbum...

O problema estava no contracto que ele tinha assinado em 1972 com o manager Mike Appel, num parque de estacionamento em New Jersey, sem sequer o ler. "A promessa" tinha sido quebrada.

Enquanto decorria a batalha legal com Mike Appel, Bruce era obrigado a continuar na estrada a dar concertos com a E Street Band, a sua única verdadeira fonte de rendimento. Impedidos de gravar em estúdio, foi neste período que Bruce Springsteen e a E Street Band aperfeiçoaram as suas perfomances ao vivo, eventualmente ganhando a reputação de uma das melhores bandas rock ao vivo da história.

Resolvida a questão legal, no Verão de 1977 Bruce Springsteen avançou determinado para o estúdio com a E Street Band para gravar o seu novo álbum "American Madness", nome que daria lugar ao mais apropriado "Darkness On The Edge Of Town", lançado em 2 de Junho de 1978. Só que desta vez a motivação de Bruce Springsteen era bem diferente de "Born To Run".

Enquanto "Born To Run" era uma ode ao optimismo, à esperança e à mudança para um lugar e para tempos melhores (a metáfora nova-iorquina de “passar para o lado de lá do rio”); "Darkness" representa a percepção que afinal o lugar e os tempos para onde se mudou também têm os seus problemas e que a vida é isso mesmo: podemos andar a vida inteira à espera de um momento ("Badlands"), ou a perseguir um sonho ("Something In The Night"), mas no fim de contas o handicap com que nascemos ("Adam Raised A Cain") vai acompanhar-nos para sempre.

É esta dicotomia que faz estes dois álbuns tão especiais. Em suma, o optimismo e romantismo de "Born To Run", dá lugar à desilusão e isolamento de "Darkness On The Edge Of Town".



Fica aqui o tema-título "Darkness on the Edge of Town", ao vivo em Passaic (New Jersey), naquela que é a minha performance ao vivo preferida de Bruce Sprinsgteen. Seja ao vivo ou em estúdio. A paixão que Bruce imprime nesta actuação é arrepiante.
Na introdução, Bruce dedica a música a um amigo em dificuldades, com a seguinte frase lapidar, que resume o espírito do álbum:

"At one time or another, everybody's gotta drive through the darkness on the edge of town"


P.S.: Continua...

P.P.S.: Para leitura complementar: "A promessa" de Bruce Springsteen.

domingo, 21 de novembro de 2010

Bruce Springsteen - "The Promise" (I)

"When the promise was broken, I cashed in a few of my own dreams"
"A promessa". "A promessa" é um tema que fala de uma história de desilusão, traição e isolamento. É um tema que descreve a situação que Bruce Springsteen passava naquela altura.

Quem quebrou "a promessa" foi Mike Appel, o manager de Bruce Springsteen na época. Em 1972, Mike deu a assinar a Bruce um contrato, que estipulava que este recebesse uma ínfima parte dos direitos de autor das suas músicas e que os direitos de publicação fossem exclusivamente da editora. Reza a lenda que este contrato foi assinado por Bruce Springsteen num parque de estacionamento em New Jersey, sem sequer o ler.

Só em 1976, quando Bruce Springsteen decidiu que Jon Landau estivesse envolvido nas suas decisões artísticas e Landau aconselhou-o a analisar este documento, Bruce se apercebeu do que tinha feito. Na sequência, Bruce despede Mike Appel e dão início a uma longa batalha jurídica que se arrastou pelos tribunais até 1977, sem que Bruce pudesse voltar ao estúdio, uma vez que Mike o tinha impedido de gravar com Landau.

"When the promise was broken I was far away from home, sleeping in the back seat of a borrowed car"
"A promessa". "A promessa" não só é um dos melhores temas que Bruce Springsteen nunca lançou (e são muitos), como também é dos momentos mais brilhantes da carreira de Bruce. Um momento tão brilhante e ao mesmo tempo tão pessoal, que Bruce tinha receio de o submeter ao juízo do público e da crítica. Medo esse que, em boa verdade, nunca terá perdido, uma vez que mais de 30 anos depois do lançamento do álbum, a versão mais aclamada deste tema continua sem ver a luz dia, em forma oficial:



"I followed that dream just like those guys do up on the screen"

A performance vocal de Bruce Springsteen neste take específico é tão profunda e tão emocional, que consegue materializar o sentimento de desilusão como nenhum outro tema que eu já ouvi. E parece-me que foi o seu cunho pessoal na interpretação do tema, que o impediu de lançar este take nas várias oportunidades que teve ao longo dos anos.

Vejamos: em 1978, Bruce deixa "The Promise" de fora do álbum "Darkness On the Edge of Town", muito embora este tema se encaixe na perfeição no espírito do álbum. Em 1998, Bruce deixa-o de fora da caixa "Tracks", a qual pretendia reunir em 4CD, os melhores temas de Bruce que tinham ficado de fora dos álbuns. Em 1999, pressionado pelos fãs que ficaram surpreendidos com a exclusão de "The Promise" da caixa, Bruce lança finalmente o tema em "18 Tracks", uma compilação com o melhor de "Tracks". No entanto, Bruce volta a surpreender, ao lançar uma regravação de 1999, excluindo os vários takes existentes no arquivo, de 1976 a 1978. Esta regravação é nomeada para um Grammy, mas voltou a não deixar os fãs satisfeitos. Finalmente, em 2010, Bruce lança um duplo álbum com os melhores temas gravados entre 1976 e 1978, que ficaram de fora de "Darkness On the Edge Of Town". A compilção chama-se "The Promise" e finalmente é incluído um take gravado na época. Mas ainda não não foi desta que "o take" que os fãs querem viu a luz do dia.



"We're gonna take it all and throw it all away"