Mostrar mensagens com a etiqueta 1991. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1991. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Crowded House - "Weather With You"

"You can fight the sleep, but not the dream"
Estava eu a vasculhar o meu Spotify, quando dou de caras com uma das minhas bandas preferidas, a quem eu tenho feito vista grossa nos últimos tempos — os Crowded House. Outrora os Crowded House serviam para me aquecer o coração, qual cobertor quentinho que se puxa quando acordamos a tremer de frio naquelas noites em que parece que vai estar calor, só que depois não.

Numa altura em que a banda de Neil Finn se prepara para regressar aos concertos com o pretexto de celebrar as reissues de toda a sua discografia, talvez seja a hora de voltar a pegar no meu cobertor neozelandês preferido.

Lembrei-me então de uma história cutchi-cutchi de um grande amigo com o hit "Weather With You". Há uns anos, ele tinha uma "love interest" americana de nome Heather; a páginas tantas, a Heather —apaixonada — enviou-lhe por correio uma foto em formato postal dos dois juntos num barco. Romântico? Esperem. Virando o postal, no verso podia ler-se:

"Everywhere you go, always take the Heather with you"



Awwwww.
E eu, que não conhecia, nem nunca cheguei a conhecer a Heather, fiquei fã dela imediatamente.

If only he did.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Guns N' Roses - "Don't Cry" (Versão original de 1985)

"I know how you feel inside, I've been there before"


Numa altura em que se fala com insistência ensurdecedora (mas ainda sem grande fundamento) do regresso de Slash e Duff aos Guns N' Roses, hoje mostro um exemplo da magia criada quando os microfones se ligavam numa sala com o gangue original.

De certeza que já ouviram "Don't Cry". Estão com certeza familiarizados com a versão que passa nas rádios desde 1991, incluída no primeiro volume do álbum tudo-à-bruta "Use Your Illusion I", devidamente acompanhada por um videoclip épico realizado por Andy Morahan (cujos trabalhos à data incluíam clips de Wham!, Pet Shop Boys e The Human League):




Esta conhecem, certo? Se viveram no planeta Terra nos últimos 25 anos, não há maneira de não reconhecerem isto.
O que talvez não sabem é que "Don't Cry" remonta aos primórdios dos Guns N' Roses, quando Tracii Guns e Rob Gardner ainda faziam parte da banda, antes de serem substituídos por Slash e Steven Adler, respectivamente. Se não vejamos: o primeiro concerto dos Guns conforme nós conhecemos e amamos foi a 6 de Junho de 1985 (ainda nem eu era nascido) no Troubadour, West Hollywood, após apenas um dia de ensaios (!!!) com Slash e Steven. Foi assim:



Flyer do primeiro concerto dos Guns N' Roses com a formação clássica: Axl, Izzy, Duff, Slash, Steven;
Nas fotos ainda estão Tracii Guns e Rob Gardner

Segundo o livro "Reckless Road: Guns N' Roses and the Making of Appetite for Destruction" (e já agora, o setlist.com), os Guns tocaram "Don't Cry" no seu primeiro concerto. Este vídeo afirma ser dessa noite (mas eu não ponho as minhas mãos no fogo por isso):




Já o "Watch You Bleed: The Saga of Guns N' Roses" (só grandes títulos de livros) confirma que "Don't Cry" foi um dos primeiros temas que Axl e Izzy escreveram. O tema era um habitué na setlist durante 1985 e 1986 (aqui em versão acústica em 1985) e no entanto, nós só ouvimos a versão de estúdio 6 anos mais tarde. Mas porquê o hiato?
Simples.
Quando os Guns assinaram finalmente com a Geffen Records em 1986 (o que foi uma decisão arriscadíssima da editora, uma vez que eram conhecidos em Hollywood por serem um camião-cisterna descontrolado numa cidade a arder), "Don't Cry" foi gravado em estúdio para o álbum "Appetite For Destruction". Esta é a versão que podemos ouvir em cima. Mas depois apareceu "Sweet Child O' Mine" e a banda decidiu incluir apenas uma balada no álbum, de forma a representar fidedignamente o estilo de vida vicioso que levavam na época. O resto é História. O camião-cisterna ainda durou uns anos, mas eventualmente explodiu a meio dos anos 90.

A versão original de "Don't Cry", gravada em 1985, foi esquecida na gaveta e apenas recuperada num CD single, rotulada como Demo. Mas é muito mais que isso. É mais e é mais até que aquela versão limpinha e sanitizada que conhecem desde 1991. Hoje recupero-a, suja, crua e dura. Se fecharem os olhos, quase conseguem sentir o cheiro a látex e Jack Daniels.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Guns N’ Roses - “Estranged”

"When you're talkin' to yourself and nobody's home, 
You can fool yourself, you came in this world alone."

"This is something off Use Your Illusion II, this is my baby. This is called 'Estranged'." 
Axl, Los Angeles - July 29th, 1991

"Estranged" marca o capítulo final da trilogia de vídeos formulada por Axl Rose sobre as ligações afectivas, os conflitos que as envolvem (tanto mútuos, como internos) e a relação destes conflitos com a loucura. Por outras palavras, o desafio da sanidade mental na procura do amor.
"'November Rain' is a song about not wanting to be in a state of having to deal with unrequited love.
'Estranged' is acknowledging it, and being there and having to figure out what the fuck to do.
It's like being catapulted out into the universe and having no choice about it and having to figure out what the fuck are you gonna do, because the things you wanted and worked for just cannot happen and there's nothing you can fucking do about it."
 
Axl Rose, in "The Making of 'Estranged' - Part IV of the Trilogy", 1994

"Don’t Cry" e "November Rain" foram os primeiros capítulos desta trilogia. Dos três, "Estranged" é de longe o menos popular, mas nem por isso o menos interessante.
A história da trilogia é baseada no livro "Without You" de Del James – um amigo de Axl. Embora nos vídeos seja difícil perceber um sentido lógico de continuidade, dando azo a inúmeras interpretações diferentes, eu vou tentar deixar aqui a minha.


O denominador comum dos três vídeos são as perturbações emocionais por que vemos Axl passar. A excepção terá sido nas célebres cenas do casamento com Stephanie Seymour em "November Rain", onde temos a oportunidade de ver raras imagens de um Axl Rose feliz.
Tal felicidade seria sol de pouca dura. Ainda no vídeo de "November Rain", Axl fica viúvo e vemo-lo a chorar a morte de Stephanie num cemitério, debaixo de uma chuva copiosa. A chuva de Novembro, talvez.

Recorde-se que Axl namorou mesmo com Stephanie durante 2 anos, entre 1991 e 1993 - um tempo que deixaria uma marca indelével na sua vida e no seu trabalho, uma vez que nunca terá recuperado totalmente desta separação.
"This I Love", do álbum/lenda "Chinese Democracy", finalmente lançado em 2008, seria uma continuação da temática de "Estranged" (vale a pena ouvir). 15 anos depois da separação, Axl ainda não tinha recuperado.
Estranged indeed, Axl.

"I'll never find anyone to replace you
Guess I'll have to make it through, this time
Without you"
Ironia do destino, aquando da gravação do vídeo para "Estranged", Axl e Stephanie já estavam separados. Afinal, os acontecimentos da vida real pareciam acompanhar os eventos da trilogia formulada por Axl.
Sozinho com as suas tormentas, no vídeo de "Estranged" Axl chega ao seu ponto de ebulição e tenta suicidar-se, saltando de um petroleiro sem qualquer protecção.
Note-se que isto aconteceu mesmo, sem duplos, tal como foi filmado. A única bóia de salvação de Axl foi, precisamente, uma bóia de salvação que lhe foi atirada por Gilby.
Seria seguramente uma morte poética. Estúpida, mas poética.
"Well I jumped into the river, too many times to make it home
I'm out here on my own, drifting all alone"

Já sem Stephanie para representar a sua redenção, Axl é salvo do afogamento por golfinhos, sendo resgatado por Slash num barco a remos.
Slash aproveita o momento cénico e oportunamente resolver fazer um solo ao pôr-do-sol. Um pôr-do-solo, talvez. (Desculpem, não se repetirá...)


"I see the storm getting closer and the waves they get so high"

É fácil perceber que Axl Rose estava num lugar muito escuro quando escreveu "Estranged" - um uivo de 10 minutos de pura agonia a amargura sobre um amor perdido. É um tema longo e estruturalmente complexo, que conta com uma das mais gloriosas simbioses entre a escrita de Axl e a guitarra de Slash.
"Old at heart, but I'm only 28. And I'm much too young to let love break my heart."
Talvez pela mágoa causada pela sua relação anterior com Erin Everly (a primeira mulher de Axl e a musa inspiradora de "Sweet Child O' Mine"), Axl já sentia o peso da idade nos seus ombros, aos 28 anos. Coração velho demais para a sua idade, mas novo demais para fechar o coração. Axl descobriu que ninguém o podia ajudar na sua tormenta, que estava sozinho naquela luta.
"Young at heart and it gets so hard to wait
When no one I know can seem to help me now
Old at heart but I mustn't hesitate
If I'm to find my own way out"
"Estranged" é um épico que aborda os enganos e as ilusões criadas pelo amor, especificamente por uma relação e as expectativas goradas que provoca.
É esta a moral de "Estranged": a idade faz-nos perder as ilusões. Invariavelmente da forma mais dolorosa. Para o bem e para o mal, estamos nisto sozinhos.

Lose your illusions.


"Slash, thanks for the killer guitar melodies"
Axl, no livrete de "Use Your Illusion II"

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

U2 - "Love Is Blindness"

"A dangerous idea that almost makes sense."



Do amor.
Porque o amor é uma doença.

______________________________

"Love is blindness. I don't want to see."
Da cegueira. 
Porque o amor é a venda que nos tapa os olhos para a realidade que não queremos ver.
______________________________


"Won't you wrap the night around me? Take my heart... Love is blindness."
Da rendição. Da mentira.
Porque o amor é a aceitação voluntária de uma ilusão, um ideal que não existe.
______________________________


"In a parked car, in a crowded street, you see your love made complete."
Do terrorismo. 
Porque não existe mais cruel forma de terrorismo, do que destroçar um coração.
______________________________


"Thread is ripping, the knot is slipping... Love is blindness."
Do descontrolo.
Porque o amor é a corda de sanidade que rompe, a loucura que nos rouba o auto-controlo.
______________________________


"Love is clockworks and cold steel. Fingers too numb to feel."
Do desespero. 
Porque o amor é a vida a ferro e fogo, uma bomba-relógio que não sabemos quando vai rebentar.
______________________________


"Squeeze the handle, blow out the candle... Love is blindness."
Da escuridão.
Porque o amor é a entrada num quarto escuro de emoções fora do nosso controlo.
______________________________


"A little death, without mourning."
Da morte.
Porque morremos um pouco, sempre que o amor não é correspondido.
______________________________


"No call and no warning."
Do medo.
Porque o amor não avisa quando ataca.
______________________________


"A dangerous idea that almost makes sense."
Do perigo. 
Porque as ideias mais catastróficas são aquelas que quase fazem sentido.
______________________________


"Love is drowning in a deep well..."
Do fundo do poço.
Porque o amor nos pode atirar para a mais escura das profundezas.
______________________________


"All the secrets, and no one to tell."
Do isolamento.
Porque o amor é uma doença solitária, que mais ninguém pode compreender.
______________________________


"Take the money, honey... It's blindness."
Do vazio. 
Porque de nada serve ter os bolsos cheios, quando se tem o coração vazio.

______________________________


"Love Is Blindness" é uma canção que fala do amor, mas não de um amor qualquer. 
Fala da cegueira, da rendição, da ilusão, do terrorismo, do descontrolo, do desespero, da escuridão, da morte, do medo, do perigo, do fundo do poço, do isolamento, do vazio, de todos os estilhaços que nos atingem quando o amor rebenta na nossa cara. 
É uma ode ao amor cortante, ao amor atormentado.


Todo o álbum "Achtung Baby" explora a ideia do amor como uma fraqueza, uma deficiência. 
Para trás ficam as visões idílicas do amor que a banda deixara em temas como "All I Want Is You", onde Bono gritava a plenos pulmões que ela era tudo o que queria. Em "Achtung Baby", os U2 afirmam-se como uma banda adulta e retratam o lado escuro do mais complexo conceito da humanidade, da única forma de loucura socialmente aceitável: o amor.

"My heart is where it's always been, my head is something in between"  

"Even Better Than The Real Thing"

Em "Achtung Baby", os U2 mostram a natureza potencialmente destrutiva do amor, como uma força que nos desfigura, nos atemoriza (o medo de voltar a tentar), nos tenta pelo proibido ("Mysterious Ways") e nos leva ao limite do desespero.

______________________________


"Love Is Blindness" é uma das mais dilacerantes faixas de toda a carreira dos U2. O tema fecha "Achtung Baby" e resume na perfeição o ambiente escuro e sombrio para onde o álbum nos transporta. Escrito originalmente para Nina Simone, a banda não quis abrir mão do tema e decidiu incluí-lo no seu álbum de transformação. 
The Edge separou-se da sua mulher durante as gravações de "Achtung Baby" e o que ouvimos neste tema é o que o guitarrista dos U2 tinha para dizer sobre o assunto.
Reza a lenda que na gravação do solo presente no álbum, The Edge rebentou várias cordas da sua guitarra. O resultado foi de tal forma estrondoso, que a banda decidiu manter o solo tal como foi gravado.

______________________________


Para além de fechar o álbum, "Love Is Blindness" foi também utilizado para fechar os concertos da lendária digressão dos U2 - a ZooTV Tour (amplamente considerada como a melhor da banda, até hoje).


Ao tocar este tema no fim de um espectáculo enérgico como ZooTV, os U2 despediam-se do público da forma mais anti-climática possível. Porém, quando a digressão passou para os estádios, a banda decidiu acrescentar mais uma canção. Mas uma canção especial. Uma canção que fecha o arco de "Achtung Baby" da forma mais mais humana e verdadeira possível:


U2 - "Can't Help Falling In Love"

"Wise men say: 'Only fools rush in'. But I can't help falling in love with you"

Do amor.
Porque por pior doença que o amor seja, não conseguimos viver sem ele.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Metallica - "Sad But True"

"I'm your dream, I'm your eyes, I'm your pain. You know it's sad but true"



Hoje senti que algo falta na minha vida.
Ao longo dos anos, todos ganhamos rotinas, hábitos cujo somatório resultam num estilo de vida. O nosso estilo de vida.
Pequenas coisas, como olhar para o telemóvel quando estamos aborrecidos, como verificar se o carro está fechado depois de o trancarmos, ou como...


...um concerto dos Metallica no Verão.

Hoje senti que algo falta na minha vida. E o que falta é rebentar-me todo, com 2 horas de mosh num concerto dos Metallica.
Desde 2008, ano em que os vi pela primeira vez no festival Rock In Rio, que já apanhei a banda de thrash metal americana por 4 vezes:

2008/06/05 - Parque da Bela Vista, Lisboa [Rock In Rio] - 2008 European Vacation Tour
2009/07/09 - Passeio Marítimo de Algés, Oeiras [Alive] - World Magnetic Tour - 4ª légua europeia
2010/05/10 - Pavilhão Atlântico, Lisboa - World Magnetic Tour - 6ª légua europeia
2012/05/25 - Parque da Bela Vista, Lisboa [Rock In Rio] - 2012 European Black Album Tour

Por calhar na véspera de um exame do Técnico, perdi tragicamente o grande concerto de 2007 no SBSR, mas desde então que não voltei a falhar nenhuma passagem dos Metallica por Portugal.

O meu concerto preferido até hoje foi, curiosamente, o último.
Para comemorar 20 anos do lançamento de "Metallica" (mais conhecido como "The Black Album", devido à capa integralmente preta), a banda lançou-se numa digressão onde tocava de trás para a frente (literalmente) o icónico álbum.  O álbum lançou os Metallica para a estratosfera do sucesso e apesar de não figurar nas preferências dos fãs mais puristas (que perderam o ónus da exclusividade da banda com este álbum), continua a ser um dos trabalhos mais populares da banda e também um dos meus preferidos.


O concerto foi fabuloso, com uma banda em grande forma, uma grande setlist e grandes condições sonoras. Foram 2 horas de mosh quase contínuo, apenas interrompido pelas baladas presentes no álbum (que muito irritam os tais puristas), como "Nothing Else Matters", ou "The Unforgiven".

Adorei. Mas a verdade é que os anos passam. Apesar do êxtase que levei para casa no final do concerto, levei também os hematomas de todo o arraial de pancada onde estive embrulhado durante aquelas 2 horas. O dia seguinte foi de ressaca do concerto: mal me consegui levantar da cama.
A verdade é que os anos passam e já pesam. Sad but true.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Quim Barreiros - "Bacalhau à Portuguesa"‏

"Mariazinha deixa-me ir à cozinha p'ra cheirar teu bacalhau."




Contra a minha vontade, o blog tem nos últimos tempos conhecido um hiato prolongado, principalmente devido à comédia. Infelizmente, o tempo não estica e já não dá para vir aqui tantas vezes deixar as minhas dissertações musicais.
Mas hoje vamos regressar à música e assim passar a assuntos sérios. Vamos falar de Quim Barreiros.

"Teu bacalhau é mesmo uma beleza, és a portuguesa com teu prato especial"
A ascensão de Quim Barreiros ao mainstream foi feita na sequência do lançamento da colectânea “Disco D’Ouro” em 1991, a qual tinha sido impulsionada pelo mega-sucesso de “Bacalhau à Portuguesa”. "Bacalhau" é um tema cuja melodia é apoiada na matriz do Vira - estilo do folclore português característico do Minho.
Antes disso, Quim já contava com uma carreira de enorme longevidade, com várias décadas de actuações em bailes (Quim já tocava bateria nos anos 50!), com muitos quilómetros de estrada e uma discografia a solo cujo início já remontava a 1971.

Assim, o estrondoso sucesso do tema “Bacalhau à Portuguesa”, em 1991, foi o corolário de uma carreira já longa e que Quim dificilmente poderia prever que se estenderia até aos dias de hoje, volvidas duas décadas.

Curiosamente, este foi um sucesso fora de tempo para "Bacalhau à Portuguesa”, uma vez que tinha sido originalmente lançado em single em 1986, num Double A-Side com o tema “Riacho da Pedreira”.
O single teve um sucesso modesto na época e só com a sua inclusão na colectânea “Disco D’Ouro” é que alcançou a notoriedade que reconhecemos hoje, fazendo a carreira de Quim finalmente levantar voo.



A fórmula é simples e foi aperfeiçoada ao longo dos anos: pegar numa melodia facilmente reconhecível do folcore português, adicionar uma letra brejeira, normalmente com duplo sentido (aqui lanço o exemplo paradigmático do tema "Adolfo Dias"), et voilá, mais um sucesso de Quim Barreiros.

A partir daí, foram sucessos atrás de sucessos, com temas como “Mestre da Culinária”, “Garagem da Vizinha”, “A Cabritinha” ou, o meu preferido:  “O Sorveteiro (Chupa Teresa)”. Este tema é retirado do seu álbum de 1992 “O Sorveteiro”, lançado um ano depois do breakthrough de Quim, com o "Disco D'Ouro" e o já referido "Bacalhau à Portuguesa".
O que vos posso garantir é que se há um nome que nunca darei a uma filha minha, esse nome é Teresa. É fatal: sempre que conheço uma Teresa, este tema automaticamente dispara na minha cabeça. Obrigado Quim, por arruinares a relação com quaisquer Teresas que apareçam na minha vida.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Queen - "The Show Must Go On"

"Inside my heart is breaking, my make-up may be flaking, but my smile still stays on."


"You probably already know that I am suffering and what my problem is.
But I don't want to talk about it...
I just want to keep making music 'til the day I f***ing die."
Freddie Mercury, revelando aos membros dos Queen que estava infectado com o vírus da SIDA
(reconstituição de Brian May no documentário "Days Of Our Lives")

Freddie sabia que lhe restava pouco tempo. Ainda o álbum "The Miracle" aguardava ordens de lançamento nas lojas e já os Queen estavam de volta aos estúdios para a gravação do álbum seguinte. Estávamos na Primavera de 1989, altura em que se iniciava a gestação de "Innuendo" - o álbum que a banda temia ser o seu último.

Desde as gravações de "The Miracle" que, no restrito círculo da banda, todos já tinham percebido que Freddie estava gravemente doente, mas ninguém sabia ao certo o que se passava. Só Jim Beach - o manager dos Queen - sabia exactamente o que era: Freddie recebera a notícia que estava infectado com o vírus da SIDA na Páscoa de 1987 e sabia que estava com os dias contados.
Note-se que, naquele tempo, o diagnóstico de SIDA era como que de uma sentença de morte se tratasse.

"On and on, does anybody know what we are looking for?"

A partir daí, Freddie Mercury nunca mais parou. Em primeiro lugar, realizou o seu sonho de trabalhar com a sua voz preferida: a cantora lírica catalã Montserrat Caballé. Desse projecto nasceu a fabuloso álbum "Barcelona", cujo tema-título seria utilizado, uns anos mais tarde, como hino dos Jogos Olímpicos de Barcelona.

Depois de "Barcelona", Freddie reuniu os seus fiéis escudeiros para um sprint final. Os últimos anos da sua vida seriam passados entre as camas de sua casa e dos hospitais e os estúdios de gravação, com os Queen.

Entretanto, multiplicavam-se as histórias nos jornais sobre o estado de saúde de Freddie. Os restantes membros dos Queen negavam tudo. "Freddie está bem de saúde e a trabalhar como nunca!", disse uma vez Roger Taylor aos tablóides. Mas só a parte de "trabalhar como nunca" era verdade.

"The sicker Freddie got, the more he seemed to need to record.
It was really a period of fairly intense work."
Roger Taylor - baterista dos Queen


Certo dia, Freddie teve que confessar aos seus colegas de banda que, afinal, as histórias dos tablóides eram verdade. Ele estava realmente doente e já lhe restava pouco tempo. Todo o tempo era precioso e todo o tempo teria que ser investido a fazer música.
Até ao fim.

A notícia da doença de Freddie tinha atingido a esfera dos Queen como uma tempestade feroz, mas o assunto era tabu. A ordem era para ignorar a doença e continuar a fazer música. Quanto muito, canalizar aquele drama para a música.
Os Queen continuaram a negar os rumores e a imprensa não soube de nada até à véspera da morte de Freddie.

Os sumos criativos dos Queen estavam ao rubro. Neste período de intensa criatividade, a partir de uma sequência de acordes de Roger Taylor e John Deacon, da cabeça de Brian May saiu o corpo de "The Show Must Go On" - um tema que descrevia com precisão o estado de alma vigente da banda. Era preciso continuar, custasse o que custasse.

"We spent our days in the studio waiting for Freddie.
Whenever he was feeling better, he would come, throw a couple of vodkas down and... go for it.
It was some of our best studio times."
Brian May - guitarrista dos Queen


Brian May temia o pior. Brian tinha desenvolvido "The Show Must Go On" e projectara um tema com uma faixa vocal poderosa e proeminente, estupidamente exigente, ao nível do "melhor" Freddie Mercury. Algumas notas eram tão altas, que na gravação demo do tema, Brian fora obrigado a cantar várias partes em falsetto.

O problema é que a doença de Freddie não parava de avançar e por isso, reticente, Brian mostrou a demo a Freddie, com medo que este não conseguisse atingir as notas mais altas.
Segundo reza a lenda, para surpresa de todos, Freddie consumiu então uma considerável quantidade de vodka e gravou, em apenas um take, a impressionante faixa vocal de "The Show Must Go On".

"Dêem-me alguma coisa para cantar e eu canto. Qualquer coisa.", terá suspirado Freddie para os seus colegas de banda. Mesmo que a sua condição física, cada vez mais frágil, parecesse servir de obstáculo, esse handicap não é, de todo, audível no álbum.

"I'll top the bill! I'll overkill! I have to find the will to carry on! On with the show!"

Ao longo de todo o álbum "Innuendo", parece que Freddie tenta, sozinho, travar uma luta hercúlea contra a sua doença, usando como arma apenas o poder catártico das suas cordas vocais.
Durante os 4 minutos de "The Show Must Go On", parece até que Freddie está em vantagem.

"I'll face it with a grin! I'm never giving in!  On with the show!"

Ouçam Freddie a cantar em "The Show Must Go On". Mas ouçam com atenção. Prestem atenção às nuances expressivas, à força, à dinâmica, à emoção.
É o mais preciso, concentrado, afinado, grito de desespero que jamais ouvirão.

Freddie está preso num beco sem saída, à procura da sobrevivência. Se alguma forma de escapar existe, ela será de certeza a cantar. E quem pode dizer que Freddie não escapou? Volvidos mais de 20 anos, a sua música continua aí, mais forte que nunca.

Na época, o single de "The Show Must Go On" chegou apenas ao 16º lugar nas tabelas britânicas - uma posição modesta, explicável tendo em conta que já era o 4º single de um até aí muito bem sucedido álbum "Innuendo".
Com a notícia da morte do Rei, desencadeou-se uma febre pela música dos Queen, que duraria anos.


"The Show Must Go On" serviu como canto do cisne da discografia dos Queen, "aprovada" por Freddie Mercury. Lançado a pouco mais de 1 mês da sua morte, foi o último single e o último tema do último álbum dos Queen, em tempo de vida de Freddie.
Se há algum sentido na expressão "fechar com chave de ouro", ela tem que ser aplicada a "The Show Must Go On".

terça-feira, 15 de maio de 2012

Guns N' Roses - "Double Talkin' Jive"

"Double talkin' jive, get the money motherfucker 'cos I got no more patience.
Double talkin' lies! No more patience, man... You dig what the fuck I'm sayin', old fuck?"



Todos os anos é a mesma coisa. Chega o sol, o termómetro sobe e as minhas colunas são invadidas pelos Guns N' Roses. Os Guns ou, alternativamente, algo também num panorama mais pesado.
E sabe tão bem.

Hoje deixo aqui "Double Talkin' Jive", um tema de Izzy Stradlin, originalmente no álbum "Use Your Illusion I", mas cuja versão no álbum está longe de lhe fazer justiça, talvez por casmurrice do próprio Izzy.
Axl Rose queixava-se que Izzy não queria trabalhar nas suas canções em estúdio, aquando das sessões dos álbuns "Use Your Illusion", preferindo que os seus temas se mantivessem "o mais simples possível", em contraponto com a visão grandiosa que Axl tinha para o quádruplo álbum que aí vinha.
Com Izzy fora da banda, pouco depois do muito aguardado lançamento de "Use Your Illusion I" e "Use Your Illusion II", os Guns tiveram oportunidade de desenvolver "Double Talkin' Jive" para a dimensão épica que Axl desejava. A chave foi uma longa coda, ao ritmo da batida latina das congas de Dizzy Reed e do pausado solo de Slash, com algum improviso à mistura.

Este lento definhar é a despedida perfeita da explosão de raiva e revolta que é "Double Talkin' Jive".
Depois da erupção, a morosa acalmia. É isto.

O vídeo remonta a uma célebre actuação no Hipódromo de Paris em 1992, que teve transmissão um pouco para todo o Mundo. Na introdução, Axl descarrega em cima de Warren Beatty, um actor que alegadamente andava a "rondar" Stephanie Seymour - a namorada de Axl na época (podemos condená-lo?).
A raiva de Axl nesta noite faz com que esta actuação, em especial, se tenha materializado numa das melhores versões que já ouvi de "Double Talkin' Jive".

É também uma das minhas escolhas, quando me apetece fazer um pirete para o Mundo.

"You dig what the fuck I'm sayin', old fuck?"

sábado, 29 de janeiro de 2011

Guns N' Roses - "Only Women Bleed" / "Knockin' On Heaven's Door" (Live)

"Man lies right at you
He's your life's mistake
All you're really lookin' for... is an even break"



Hoje vou contar a história da entrada da música dos Guns N' Roses na minha vida.

Estávamos no início 1992 e eu, na inocência e ignorância da minha tenra idade, esforçava-me para perceber as consequências da horrível notícia que tinha abalado o Mundo alguns meses antes: a morte de Freddie Mercury, vítima do vírus da SIDA. Esta notícia despertou definitivamente as pessoas para a percepção daquela terrível doença, mas abalou também o meu mundo. Já desde há uns anos a essa parte que os Queen eram a minha banda preferida e Freddie Mercury o meu grande ídolo. Vê-lo de cima de um palco era (e ainda é) o epítome da grandiosidade. Não foi fácil para um miúdo perceber que, a partir de então, tudo tinha acabado...

Foi nesta altura que foi organizado aquele que seria o maior evento musical global desde o "Live Aid" (e o maior até ao "Live 8", mas de 10 anos depois): o "The Freddie Mercury Tribute Concert". Este evento juntou os maiores nomes da música daquela época a alguns dos maiores nomes das décadas anteriores. Foi uma tarde magnífica de homenagem ao Rei, um concerto histórico transmitido em directo para 76 (!!) países, para mais de mil milhões de espectadores.


"We got one more time to go... Let's make this one reach the heavens"

Para mim, este era uma espécie de último adeus ao Rei e uma passagem de testemunho às bandas que iam substituir os Queen. Literalmente.
Ou seja, na minha inocência, eu pensava que os Guns N' Roses, os Metallica, ou os Def Leppard estavam ali para tomar o lugar dos Queen. Embora me tenham explicado várias vezes que todas as bandas eram entidades diferentes, isto era o que fazia mais sentido na minha cabeça e foi esta a explicação que eu teimosamente assumi.
De repente, ao ver o Axl Rose no palco cantar "Knockin' On Heaven's Door", a morte de Freddie Mercury deixou de parecer uma tragédia irreversível. Afinal, tinha chegado alguém para o substituir.

sábado, 22 de janeiro de 2011

U2 - "The Fly"

"It's no secret that ambition bites the nails of sucess"



Depois do enorme sucesso do álbum “The Joshua Tree” e do pretensioso “Rattle & Hum”, os U2 chegaram ao fim da década de 80 com o estatuto de uma das bandas mais importantes na cena pop/rock internacional, com sucesso em ambos os lados do Atlântico.

Foi nesta altura que os U2 mostraram a sua ambição. Quando facilmente poderiam repetir o sucesso de "The Joshua Tree" com um álbum semelhante, decidiram "desmanchar" e voltar a construir, fazendo algo de completamente novo e embarcando numa tourné megalómana. E assim nasceu "Achtung Baby", um álbum arrojado, com uma sonoridade a romper intencionalmente com o passado, alienando milhares de fãs no processo... mas trazendo outros tantos.

O exemplo mais claro deste rompimento com as raízes está neste “The Fly”, o tema mais "heavy” até à data, propositadamente escolhido para single de avanço deste álbum. "The Fly" foi descrito por Bono como o "som de quatro homens a destruir "The Joshua Tree"".
Para mim, esta é a prova cabal de que quando os U2 querem fazer rock, sabem fazê-lo como poucos.


O resto é História. Os U2 criaram aquela que é, na minha opinião, a sua grande obra-prima: o álbum "Achtung Baby". Um álbum radicalmente diferente de tudo o que tinham feito antes, mas que conseguiu manter (aumentar?) a bitola de qualidade de "The Joshua Tree".
Mais do que isso, teve o condão de exponenciar as expectativas do público para tudo o que os U2 fizessem daí em diante. Uma banda com a capacidade de se reinventar, submetendo-se a uma transformação de som e imagem tão grande e mesmo assim elevando a qualidade da sua oferta... só pode ser uma banda muito especial.



A outra face da moeda foi mesmo a alienação de milhares de fãs, traídos por uma inesperada revolução na sua banda preferida. Se é verdade que, em contrapartida, foram angariados outros tantos milhares de ouvintes, mais importante que isso, os U2 ganharam o respeito do público e da indústria musical.

Questionado sobre a hipótese da mudança radical na música e na imagem dos U2 afastar alguns fãs, Bono não se mostrou preocupado e respondeu da seguinte forma lapidar:

"I'm into it, we're into it and the real U2 fans that have been around, they'll be into it.
We might lose some of the pop kids... but we don't need them"



Soberana a resposta por parte de Bono (pode ser vista no final do vídeo em cima). Como alguém já disse, os U2 passaram da banda mais quente dos anos 80, à banda mais fixe dos anos 90, pelo menos até sermos brindados com "Pop"...

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

U2 - "Ultraviolet (Light My Way)"

"When I was all messed up and had opera in my head, your love was a light bulb hanging over my bed"



E pronto. Hoje chegamos ao fim da linha de 2010. Terminado que está 2010, fica aqui hoje o tema que mais me marcou este ano. O tema é "Ultraviolet (Light My Way)" dos U2, retirado do álbum "Achtung Baby" de 1991.


Sometimes I feel like I don't know
Sometimes I feel like checkin' out
I want to get it wrong
Can't always be strong
And love it won't be long...

"Ultraviolet (Light My Way)" é um tema sobre amor e a dependência que o amor pode causar. Relata o desespero de um homem cuja vida está na escuridão, à espera de encontrar uma luz que o guie.
É a história de um homem que cometeu erros no passado, erros que o levaram à situação actual. E que está disposto a tudo para encontrar esta luz.

"I guess that's the price of love, I know it's not cheap"

Este é o tema que faz a transição entre as sonoridade dos U2 dos anos 80 e dos anos 90, combinando elementos de ambas as partes. A estrutura básica da música, com o inconfundível riff de The Edge, é semelhante ao que os U2 faziam nos 80's. Já os arranjos e a produção do tema é característica da inovação vincada no álbum "Acthung Baby".

Os U2 revolucionaram a sua música em 1991. E essa revolução não foi nada pacífica. Influenciados pela música de dança que proliferava no início dos anos 90 e pela cena Industrial, Bono e The Edge queriam inovar a música dos U2, experimentando novas sonoridades. Por outro lado, Mullen e Clayton estavam satisfeitos e confortáveis com o tipo de música que a banda fazia nos 80. Assim, os conflitos no seio da banda não se fizeram esperar e os U2 estiveram mesmo à beira da separação, devido a diferenças criativas.

Alegadamente, o consenso chegou quando The Edge estava a tentar escrever a bridge para "Ultraviolet (Light My Way)" e começou a tocar aquele que viria a ser o riff de "One". Ao ouvir esta descoberta de The Edge, todos concordaram que essa seria a nova sonoridade dos U2.

Uma das grandes novidades que os U2 trouxeram em 1991 foi a digressão de promoção a Acthung Baby: a espectacular "ZooTV Tour".
"Ultraviolet (Light My Way)" tinha um papel chave nos concertos da légua americana desta digressão: o tema figurava no encore da setlist e antes da entrada da banda, Bono telefonava para a Casa Branca e pedia para falar com o então Presidente dos EUA George Bush.
Ao ser confrontado com a indisponibilidade do Presidente, Bono responde:

"The President of the United States is not available TO ME?!
Oh... Well, I guess I mustn't be so important as I thought I was..."




"Ultraviolet (Light My Way)" esteve sempre lá. Mas encadeado pelo brilho dos singles dos U2, nunca tinha prestado particular atenção a este tema, até ver a sua performance no Blu-Ray "U2 360° at the Rose Bowl".




É impossível ficar indiferente à performance de "Ultraviolet (Light My Way)" na "360º Tour". Aqui, este tema volta a ter um papel fundamental na setlist, mais uma vez no encore. Depois de uma longa sequência em vídeo, Bono entra em palco usando um casaco de lasers (também quero um destes!) e canta para um volante iluminado que desce do cimo da estrutura. Espectacular.

Eu próprio pude testemunhar tudo isto, quando vi os U2 em Coimbra no dia 3 de Outubro deste ano, naquele que para mim foi o concerto do ano.


Rapidamente "Ultraviolet (Light My Way)" se juntou ao lote dos meus temas preferidos dos U2, juntamente com outras malhas como "Where The Streets Have No Name", "The Fly" , ou "Pride (In The Name Of Love)". Mais do que isso, o tema teve alta rotação durante um longo período de tempo. O suficiente para fazer "Ultraviolet (Light My Way)" o tema mais importante de 2010.

"Baby, baby, baby, light my way"

FELIZ 2011!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Queen - "A Winter's Tale"

"Children are fantasising, grown-ups are standin' by, what a super feeling! Am I dreaming?"



"Um conto de Inverno". Chegados ao primeiro dia de Inverno, hoje vou falar de um dos mais poderosos temas sobre esta estação: o fabuloso "A Winter's Tale" dos Queen.
A verdade é que "A Winter's Tale" é muito mais que uma "Um conto de Inverno", muito mais que um tema natalício.


"A Winter's Tale" foi o último tema jamais escrito por Freddie Mercury e foi também o último tema que ele cantou antes da sua morte, dia 24 de Novembro de 1991.
As sessões de gravação dos Queen em 1991, que resultariam no álbum póstumo de 1995 "Made In Heaven", foram alguns dos mais impressionantes capítulos da História da música.

No ano de 1990, a condição de Freddie já era de tal forma debilitada, que ele temia não terminar a tempo o álbum "Innuendo", que seria lançado no início de 1991. "The Show Must Go On" seria supostamente o último tema dos Queen, uma vez que ele não acreditava ser possível trabalhar mais no seu estado. Completado o processo de gravação e promoção deste álbum (para o qual Freddie ainda se sujeitou à filmagem de alguns videoclips), Freddie decidiu que até ao seu último suspiro, iria cantar... e gravar o máximo que pudesse, com o tempo que lhe restava.
Freddie terá então dito aos restantes membros dos Queen:

"Deêm-me qualquer coisa, o que quer que seja, que eu canto!"

Nos meses que se seguiram, os Queen instalaram-se nos Mountain Studios em Montreux, à espera de Freddie. Freddie esteve este tempo entre Londres e Montreux, entre casa e os consultórios, aparecendo em estúdio sempre que se sentia em condições mínimas para entregar a sua voz à música dos Queen.
E de que maneira o fez...

Esta é a história de um homem gravemente doente, severamente debilitado nas suas capacidades mais básicas, debaixo de dores terríveis, mas que mesmo assim cantava com um poder inabalável, com uma emoção visceral, como se fosse a última vez que estaria em frente a um microfone.

No caso de "A Winter's Tale", foi mesmo a última vez... No dia 12 de Novembro de 1991, Freddie interrompeu a sua medicação (cuja reacção o impedia de executar dignamente funções básicas como comer e beber) e deslocou-se pela última vez aos estúdios de Montreux, para gravar o take definitivo de "A Winter's Tale".
Foi a última vez que o Rei cantou para um microfone.

Dois dias depois, Freddie regressaria a Londres para passar tranquilamente os seus últimos dias com a sua família e na sua casa, onde acabaria por falecer 10 dias mais tarde.

(Dreaming) So quiet and peaceful
(Dreaming) Tranquil and blissful
(Dreaming) There's a kind of magic in the air
(Dreaming) What a truly magnificent view
(Dreaming) A breathtaking scene
With the dreams of the world
In the palm of your hand

"A Winter's Tale" foi assim o último tema de Freddie Mercury. Um tema cheio de imagens de beleza, de paz e tranquilidade, algo que nada tem a ver com a dor que sentia na época. Sob o peso podre e insustentável de uma doença maldita, Freddie conseguiu completar a letra e a melodia deste lindíssimo tema.

It's all so beautiful
Like a landscape painting in the sky, yeah
Mountains are zoomin' higher, uh
Little girls scream an' cry
My world is spinnin' and spinnin' and spinnin'
It's unbelievable
Sends me reeling
Am I dreaming
Am I dreaming...?

Num só take (aquele que ouvimos no disco), algo raríssimo na sua carreira, Freddie despejou tudo o que tinha e despediu-se dos ouvintes com "Um Conto de Inverno". O seu Inverno. O Inverno da sua vida. Um Inverno que foi penoso, mas tranquilo; doloroso, mas em paz; prematuro, mas glorioso. Com a glória que só o Rei poderia desfrutar.

"It's bliss!"

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

George Michael - "Cowboys And Angels"

"That scar on your face, that beautiful face of yours..."



É sabido que George Michael sabe escrever uma balada como ninguém. Temas como "Careless Whisper", "Jesus To A Child", ou "Last Christmas" são algumas das melhores baladas da história da Pop e apenas alguns exemplos do vastíssimo reportório de George Michael neste registo.

O que não se sabia em 1990, é que George Michael sabia escrever muito mais que simples "baladas Pop". E foi quando George lançou a sua obra-prima "Listen Without Prejudice Vol.1" que se percebeu que o seu talento e o seu ecletismo iam muito para além do registo Pop, que já tinha explorado largamente nos Wham! e no seu álbum de estreia a solo "Faith".

O problema é que este desvio do registo habitual de George Michael, aliado à recusa de George em aparecer nos seus vídeos e promover o álbum (como tinha feito com "Faith"), fez cair as vendas a pique e enfureceu a Sony, que bloqueou o lançamento de "Listen Without Prejudice Vol.2".

Mesmo sendo este o 6º (!!!) single retirado de "Listen Without Prejudice Vol.1", um álbum com promoção praticamente nula, "Cowboys And Angels" foi o único tema de George Michael a falhar a entrada no Top 40 de singles no Reino Unido.

O que George Michael mostra neste "Cowboys And Angels" é uma "balada Jazz", um single com 7:14 (o mais longo da sua carreira), que é um dos seus momentos mais brilhantes. Tudo parece estar no lugar certo: a lindíssima letra, o piano, os sopros, o ritmo, a produção... Uma obra-prima.

"Please be stronger than your past, the future may still give you a chance"