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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Grizzly Bear - "Speak In Rounds"

"Step back just once, learn how to be alone"



Depois do longo hiato, o blog regressa hoje para o que eu espero que seja uma ponta final de 2012 e um 2013 em força. Os últimos meses foram de grande azáfama e espero, também nesse sentido, ter novidades em breve. Para já, voltemos ao clássico modelo da Escolha musical do dia.

Estamos no fim do ano e é por isso tempo de balanço. No ano passado (2011) não tive oportunidade para fazer essa analepse aqui no blog, mas na última semana de 2010 fiz nestes posts a revisão do que ouvira nesse ano.
Como na altura referi, raramente a música que eu mais ouço num determinado ano concorre com a música que se fez nesse ano. Claro que há excepções e é nesse sentido que eu, desde os meus 14 anos,  em jeito de revisão, sistematizo os mais ouvidos do ano, dividindo as "escolhas musicais do ano" em várias categorias.
Sem mais demoras, passemos então ao Álbum original do ano (ou seja, o álbum que mais gostei de 2012, em 2012): "Shields" dos Grizzly Bear.


Tinha começado a escrever um texto a tecer loas a "Shields", mal o ouvi pela primeira vez no início de Setembro. Na altura, pensei logo que isto era o melhor que os Grizzly Bear já tinham feito. Seria impossível ouvir algo tão bom como isto até ao final de 2012, tinha instantaneamente ouvido o "álbum do ano".
Isto no ano em que um dos meus artistas preferidos - Bruce Springsteen - lançara um álbum novo, um trabalho que até ganhou o prémio de "álbum do ano" atribuído pela Rolling Stone (publicação que classificou "Shields" no 35º lugar).

Mas "Shields" deixara-me estarrecido com aquela sequência de 4 músicas iniciais ("Sleeping Ute" / "Speak In Rounds" / "Adelma" / "Yet Again") e senti uma urgência de revelar ao mundo o meu êxtase. Porém, acabei por me decidir em esperar uns meses, para deixar o álbum amadurecer em mim e, depois sim, emitir um julgamento.

Ao fim de alguns meses, qual é o meu veredicto? Exactamente o mesmo.
Um dos álbuns mais entusiasmantes do ano, "Shields" é um trabalho fabuloso dos Grizzly Bear, mas merece ser mais que isso: merece o epíteto de álbum do ano.

"Shields" mostrou uns Grizzly Bear inventivos como sempre. Para além de todo o virtuosismo técnico e sónico que lhes é reconhecido e que já fora cristalizado em "Veckatimest" (álbum que eu adorei), em  "Shields", a banda de Brooklyn conseguiu superar as minhas expectativas.
Como? Uma palavra chega, para descrever como: coração.

O meu problema com algumas bandas art-house / alternativas de hoje, tão veneradas pelas publicações hipster como a Pitchfork, deve-se precisamente à falta de coração; à falta de sentimentos que me conseguem transmitir.
A ânsia de criar algo de diferente leva a que muitas vezes a música perca o que mais tem de importante: o veículo de um sentimento.
"Play with your fu**ing heart!", já dizia o Bill Hicks.

Este é um conflito que não se aplica ao mais recente trabalho dos Grizzly Bear. Se eles me impressionaram com "Veckatimest" em 2009, em 2012 tocaram-me fundo com "Shields".

O meu momento preferido do álbum surge a meio da já referida sequência inicial, com este "Speak In Rounds".

"Shields" é um álbum com coração. É um álbum que na produção mantém o nível meticuloso, qual peça de relojoaria, mas que a isso acrescenta grandes canções. É o apogeu criativo da banda nova-iorquina.
É o meu álbum "original" de 2012.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Grizzly Bear - "I Live With You"

"Return... Don’t put me on! Return... Don’t make me beg!"



Foi mais uma das surpresas de 2009. O álbum "Veckatimest" dos Grizzly Bear, o terceiro da sua carreira, conseguiu deixar-me com a estranha sensação de ouvir música dos anos 60 em 2009. Ou será música de 2009 nos anos 60?

Para quem não conhece, os Grizzly Bear são uma banda de Brooklyn, composta por Edward Droste e Daniel Rossen nas vozes, guitarras e teclas, Chris Taylor no baixo e Christopher Bear na bateria.

Classificar os Grizzly Bear... Isso já se torna um desafio.
É seguro rotular os Grizzly Bear de Alternativo, ou Indie. Mas atendendo às óbvias influências do psicadelismo dos anos 60 em "Veckatimest", à fraca proeminência de guitarras e ao uso dos sintetizadores, eu diria que a banda se situa algures na cena do Pop Psicadélico Moderno. O que quer que isso signifique.
Não que isto de rótulos tenha muita importância, até porque já ouvi chamarem os Grizzly Bear de muita coisa, entre as quais Chamber Pop Music e isso é que eu gostaria que decifrassem...

"Veckatimest" é um álbum complexo, obsessivamente meticuloso nos arranjos e na sónica. É um álbum carregadinho de ideias; algumas novas, outras nem por isso, mas a maioria conhece aqui uma nova e única forma de execução.
As decisões estratégicas de produção põem este álbum à partida à frente da maioria das bandas dos tempos que correm:
Em tempos em que as gravações são feitas quase exclusivamente de forma digital, os Grizzly Bear decidiram dar um passo atrás na tecnolgia e gravar em analógico.
Em tempos em que o som é comprimido para ficar bem em mp3, em que as partes calmas são altas e as partes altas são distorcidas, os Grizzly Bear decidiram dar primazia à dinâmica e apresentar um disco com um tratamento sónico magistral.

Por tudo isto (e não só), facilmente se percebe que "Veckatimest" é um álbum que tenta ser diferente. Eu diria que o consegue com brilhantismo.
Mas isso não chega aos Grizzly Bear. A atenção ao detalhe mostra que o verdadeiro objectivo do álbum é tentar ser perfeito. Eu diria que, pelo menos na produção, anda lá perto.


É assim que, logo à partida, pela forma de gravar, pela sonoridade morna das fitas e pela cuidada engenharia sonora, os Grizzly Bear primam pela diferença.
Louvo-os por isso.
Mas não é tudo. Nem só de brilhante produção vive "Veckatimest". Detrás de todo o folclore por cima de cada tema está uma melodia. Uma canção que poderia ser também tocada com uma guitarra acústica.
Em "Veckatimest", a complexidade dos arranjos não serve para esconder o vazio das melodias, mas sim para as enriquecer.

Hoje fica aqui o meu tema preferido de "Veckatimest": este "I Live With You", um tema repleto de texturas psicadélicas, que parecem fazer um cruzamento entre os Zero 7 e os Pink Floyd em 1967.
Pode parecer estranho e talvez até arbitrário, mas os elementos estão lá e esta é a melhor descrição que eu consigo formular para a caracterização de música Pop... Electrónica... Psicadélica.