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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

António Variações - "Estou Além"

"Tenho pressa de sair / Quero sentir ao chegar / Vontade de partir / P’ra outro lugar / Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar / Porque até aqui eu só / Estou bem / Aonde não estou / Porque eu só quero ir / Aonde eu não vou / Porque eu só estou bem / Aonde não estou"

O António Variações é que a sabia toda. O sentimento de inadequação que descreve no seu hit "Estou Além" ("Anjo da Guarda", 1982) é algo que me acompanha desde sempre, uma armadilha da condição humana directamente ligada àquela tentação inócua de pensar n'o que podia ter sido. Todos o fazemos. Eu talvez abuse mais um bocadinho, porque remoer tudo até à infinita iteração é o modo de funcionamento automático do meu cérebro. Não tenho culpa que a minha cabeça me fustigue incessantemente com universos paralelos d'o que podia ter sido, caso tivesse feito as coisas de outra forma.

Pensar n'o que podia ter sido não é mais que uma forma de auto-ressabiamento, mas mais do que ressabiar o que fiz, a minha regra é só me arrepender do que ficou por fazer. É por isso que de todos os que podia ter sido da minha vida, o que sempre me bateu com mais força foi aquela vez em que estive a uma assinatura de cumprir o meu destino de viver em Londres. As estrelas estavam todas alinhadas: havia dinheiro em cima da mesa; havia a promessa de uma carreira; havia interesse de todas as partes. Havia tudo. Então por que raio eu não fui?!

Sempre me imaginei a viver em Londres. Londres é o centro do (meu) universo, a capital do país que deu à luz quase todos os meus ídolos, onde todos eles viveram (alguns ainda vivem) e que a todos consagrou em espaços sagrados como o Estádio de Wembley, Earl's Court, Hammersmith Odeon, Rainbow Theatre, Marquee e por aí fora. Por isso sempre me fez todo o sentido mudar para lá e viver as mesmas experiências que os meu ídolos viveram. Claro que a realidade não funciona bem assim, uma vez que só na minha cabeça é que sou uma "Rock 'n' Roll Star", mas pelo menos poderia estar no sítio onde tudo acontece primeiro e assim poder testemunhar ao vivo o nascimento do meu próximo ídolo.

Notem que em lado nenhum me referi a Londres como um "sonho". Não é bem disso que se trata. Lá em cima utilizei a expressão "cumprir o meu destino" porque na verdade, sempre achei que Londres era onde eu ia parar, era ali que eu pertencia. Como se a minha mudança fosse uma inevitabilidade. Não é um sonho na medida de, por exemplo, ver o Benfica campeão europeu, ou dar um abraço ao David Gilmour. É sim algo que eu sempre senti que tinha que fazer. Se é que esta dicotomia vos faz algum sentido.

Há cerca de cinco anos, a viver naquela agitação permanente (tão bem descrita pelo António Variações) de nunca estar satisfeito com o que tinha, achei que estava na hora de mandar tudo ao ar e ir atrás do meu destino londrino. Comecei a mandar currículos em Agosto e a resposta foi overwhelming. Estava de férias e na praia o telefone não parava de tocar com propostas para entrevistas. London was calling, literalmente. Para fazer o bingo de coincidências, tinha um concerto do Roger Waters no Estádio de Wembley marcado para Setembro, daí a poucas semanas. Uau. Parecia que o destino queria mesmo que eu fosse para Londres.

Mas já diz o ditado: Careful with what you wish for. Sem que eu tivesse tempo para reflectir, eles meteram-me um contrato à frente. Bastava assinar o papel et voilá, cumpria-se o destino de viver Londres. Não assinei. De regresso a Lisboa, poucos dias depois da entrevista, voltam a ligar-me com uma proposta mais alta. Voltei a rejeitar. Porquê? Fuck knows. De todos os que podia ter sido, este sempre foi aquele que mais dificuldade tive em encaixar. Foi uma decisão que tomei e que nunca soube se foi a mais correcta. Será que Londres não era, afinal, o meu destino? Ou será que simplesmente ainda não tinha chegado a hora de assinar o papel?

Importa agora chamar a atenção que os parágrafos em cima foram adaptados de um texto que escrevi no Verão passado, onde reflectia sobre o meu destino nunca cumprido de Londres. Mal eu sabia que, poucos meses volvidos, chegaria a hora de assinar o papel.

Vou finalmente cumprir o meu destino londrino e para que não falte nada para completar a experiência, vou viver em Earl's Court, outrora palco que coroou todos os meus ídolos: os Queen em 1977 na digressão da obra-prima da banda "A Day At Races"; os Pink Floyd em 1973 na digressão de "The Dark Side Of The Moon", em 1980 1981 com o espectáculo megalómano de "The Wall" e em 1994 com catorze concertos (um recorde na altura) que fecharam a digressão de "The Division Bell"; os Oasis em 1995 com a digressão de "(What's the Story) Morning Glory?". Percebem a ideia. Agora que o Earl's Court Exhibition Centre foi abaixo, serei eu "Live at Earl's Court".



Mas há mais. Vou também viver ao pé da casa onde viveu o Rei. A meros 500 metros do Garden Lodge de Freddie Mercury estarei protegido; posso sentir-me em casa. Porque esteja onde estiver, não há para mim sentimento igual ao de casa. Talvez por isso desde o concerto da Passagem de Ano que só ouço música portuguesa. Wait, what? Ainda nem fui e já estou com saudades disto. Et voilá, vejam lá o Variações a acertar outra vez. Agora não há volta atrás. Citando outro clássico do Rock português, agora é "carga pronta e metida nos contentores" e "adeus aos meus amores que me vou para outro mundo". Espero trazer-vos novidades de lá.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Phil Collins - "I Cannot Believe It's True"

" I think it must have slipped your mind, but I remember not so long ago I gave it all, it's gone and I gave it all to you"


Agora que está confirmado o regresso de Phil Collins aos espectáculos, esta crónica que escrevi em Janeiro sobre a necessária reapreciação do seu valor faz mais sentido que nunca.
Independentemente do passado, sobra-me dizer mais umas coisas sobre o Phil e a sua nova digressão.

Vi a conferência de imprensa do anúncio da digressão em directo. Deu-me pena. Adoro o Phil, para mim é como um tio não muito afastado que esteve sempre "ali" durante a minha vida. É difícil vê-lo tão fisicamente e animicamente acabado, cheio de ressentimentos (confessou que reatou com a última mulher, mas que esta "não lhe devolveu o dinheiro que lhe tirou") e uma sombra do poço de vida que já foi.

Phil sempre teve muita dificuldade em lidar com a visão que o mundo tinha sobre ele. Primeiro quando o elevaram a superestrela depois de ter feito um álbum intimista e silencioso sobre o seu próprio divórcio. Depois quando o atiraram para objecto de anedotas por ter continuado a fazer o que sempre fez.
Phil nunca conseguiu lidar com esta reviravolta mediática e como primeira defesa, isolou-se. Sem perceber que os Genesis eram a entidade que em última instância o protegia, enxotou-os da sua vida depois de Knebworth em 1992 (sempre Knebworth como cemitério) e quando as coisas pioraram no fim dos anos 90 e início dos 00s, Phil isolou-se ainda mais - quis uma reforma prematura, retirando-se da música agastado, surdo e sociologicamente queimado.

Quando voltou para casa para ser um pai a tempo inteiro, Phil foi recebido com o embate de um camião TIR: a mulher pediu-lhe o divórcio, levou-lhe os filhos, tirou-lhe o dinheiro e Phil ficou sozinho, agora sim, completamente isolado. Seguiram-se anos de depressão, alcoolismo solitário no sofá e conversas com a linha do suicídio. Até Peter Gabriel teve que intervir na situação, para salvar o seu amigo Phil.

Eventualmente Phil começou a trepar lentamente para fora do buraco em 2014, a sua ex-mulher aceitou-o de volta (ficando com o dinheiro, como ele próprio sublinhou) e chegámos ao dia de hoje, em que ele anuncia uma digressão. E eis que pela enésima vez, desde que despachou os Genesis em Knebworth, Phil volta a tomar uma decisão errada.

Phil volta para um punhado de espectáculos a solo no Royal Albert Hall, em Colónia (terra santa para os Genesis, deuses eternos das Alemanhas) e em Paris. Mas mais uma vez ignora que aquilo que realmente o protege e lhe faz bem é o chapéu-de-chuva dos Genesis.

O que Phil deveria ter feito era o seguinte: telefonava aos seus (verdadeiros) amigos Mike Rutherford e Tony Banks, deixava-os tratar de tudo e limitava-se a sentar-se num banco à frente do palco, a cantar as músicas dos Genesis para gáudio de milhares de pessoas que desesperam para o ver (eu! eu! eu!) interpretar aquelas canções especificamente. Acontecesse o que acontecesse, Phil teria sempre o apoio de Tony, Mike e da máquina dos Genesis. Assim, volta à estrada por sua conta e risco, vulnerável a tudo o que lhe possa cair em cima.

Dito isto, toda a sorte do mundo para o Phil. Whatever happens, I will always love you, Phil.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Paul McCartney & Michael Jackson - "Say Say Say" (2015 Remix)

Dizem que a Segunda-Feira é o pior dia da semana, mas não para mim. Para mim, é a Terça-Feira que devia ser despejada numa sala às escuras com o Pedro Guerra e o Bruno Carvalho. Terça-Feira é o dia em que a ressaca do último fim-de-semana já desvaneceu e ainda estou demasiado longe de Sexta-Feira para pensar em abrir o Jameson. Terça-Feira é o dia em que passo a hora de almoço na aula de francês (desculpa lá, Gorete) - fala-se muito nas vítimas do holocausto, mas só fala nisso quem nunca teve aulas de francês quando devia estar a comer um bom bitoque.
A Terça-Feira é uma merda, ponto.
Serve este raciocínio para inferir que o que a minha Terça-Feira precisava era disto:

"Say, say, say what you want, but don't play games with my affection"

Paul McCartney and Michael Jackson 'Say Say Say [2015 Remix]'

Paul McCartney and Michael Jackson - '#SaySaySay [2015 Remix]'Song taken from 'Pipes of Peace 2015 Remaster' - in stores nowVideo directed by Ryan Heffington#PaulMcCartney #MichaelJackson #PipesOfPeace

Posted by Paul McCartney on Terça-feira, 6 de Outubro de 2015


aqui dissera que no fim da década de 70 e início da década de 80, Michael Jackson e Freddie Mercury eram bons amigos. Mas o verdadeiro mate de Michael nesta altura era mesmo Paul McCartney. Talvez o Cute Beatle se revisse na dureza da fama precoce de Michael e o quisesse ajudar, ajudando-se também a si mesmo, ao navegar na onda da maior superestrela mundial da época.
Paul já tinha sofrido com a Beatlemania e era de facto, a pessoa indicada para aconselhar Michael. E aconselhou-o bem: Paul persuadiu Michael a investir bem o seu dinheiro, aplicando-o em direitos de autor. Michael foi bem mandando e em 1985 investiu muitos milhões em direitos de autor de músicas... dos The Beatles (aproximadamente 47.5 milhões de dólares por 160 a 260 temas, incluindo "Yesterday" e "Let It Be"). E assim a amizade terminou abruptamente.
Paul só recuperaria os direitos das suas próprias canções em 2013, já depois da morte de Michael.

Mas voltemos aos tempos em que Mack and Jack eram best mates.
Uma amizade entre duas estrelas nos anos 80 significava a palavra mágica dueto (onde é que andam os duetos hoje em dia? Eram uma coisa tão boa nos 80s. Mas onde é que andam as estrelas, anyway?). Macca e Michael juntaram-se várias vezes em estúdio entre 1981 e 1982 e dessa colaboração nasceram dois temas: "Say Say Say" (1981) e "The Girl Is Mine" (1982). O primeiro tema a ver a luz do dia até seria o segundo a ser gravado - "The Girl Is Mine" - como o primeiro single do álbum megaseller "Thriller". "Say Say Say" só seria lançado em 1983, como single de avanço do álbum "Pipes Of Peace", de Paul McCartney.


"Pipes Of Peace" foi esta semana lançado em formato de luxo, conjuntamente com "Tug Of War" - o álbum que juntou Paul e Chris Martin (o produtor dos Beatles) novamente. E que grande álbum.
É nessa campanha que agora surge a nova remistura de "Say Say Say", com honras de novo vídeo. E que grande remistura foi feita aqui. O conceito foi simples, mas eficaz: pegaram nas faixas vocais originais de Michael e de Paul e trocaram as linhas que cada um cantava, relativamente à versão original. Podemos assim praticamente afirmar que as versões de 2015 e 1983 são complementares.
Eis o original:



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Bruce Springsteen - "State Trooper"

"License, registration, I ain't got none.
But I got a clear conscience 'bout the things that I done"


À custa deste texto, hoje voltei a ouvir o álbum "Nebraska". É o texto que eu sempre quis escrever sobre o álbum alienado de Bruce Springsteen e nunca fui capaz. De leitura obrigatória.

"Hey, somebody out there, listen to my last prayer: deliver me from nowhere."

"Alguém aí que ouça a minha última prece: livrem-me do nada."
Desde o primeiro sopro na harmónica de Bruce Springsteen no tema-título "Nebraska", passando pelos gritos de "State Trooper", até ao último suspiro na mesma harmónica em "Reason To Believe", que Bruce nos leva numa viagem por um túnel escuro, onde não encontramos quaisquer laivos de luminosidade; apenas morcegos, ratazanas e gotas de água gelada que condensou no tecto e que nos caem na nuca, ao passar.

Nada. É este o lugar para onde Bruce Springsteen nos leva em "Nebraska". O lugar do vazio, onde não há redenção, nem esperança; não há vida, nem morte; não há inocentes, nem culpados. Nada disso importa aqui, de qualquer forma. Aqui, só importam as histórias.



"Nebraska" é um álbum insípido, de muito difícil digestão. À falta de grandes adornos sonoros, a audição da música obriga-nos a tomar atenção às escassas melodias e às duras histórias que Bruce vai contando.
Tal como no túnel escuro, das ratazanas e morcegos, as histórias em "Nebraska" são de seres escondidos da luz do dia, exilados do mundo de fora, proscritos pela sociedade. São histórias de criminosos e fugitivos, pessoas a quem a vida virou as costas e que já não têm esperança na sua redenção. Para eles, já nada disso importa: “I guess there’s just a meanness in this world.”, suspira a personagem de Bruce em "Nebraska" (assunto para outro tópico).

Gravado numa cassete durante uma tarde fria de Janeiro, o álbum mostra-nos Bruce sozinho no seu quarto em New Jersey, com a sua guitarra, a sua harmónica e a sua depressão.
1982 foi um ano problemático para Bruce, altura em que foi obliterado por pensamentos suicidas.
Bruce conduzia o seu carro furiosamente de New Jersey até à Califórnia e da Califórnia, de volta a New Jersey, somando quilómetros de estrada na fuga dos seus próprios fantasmas.
(Faço exactamente o mesmo. É nestas pequenas coisas que eucomo homem, me sinto próximo de Bruce.)

"Mr. State Trooper, please don't stop me."

Em "State Trooper", ouvimos Bruce num raro grito histérico e despido, que soma ao desespero da história de um homem que, tal como ele, tal como eu, também conduzia para afastar os seus fantasmas. Sem carta de condução e sem documentos do carro, rogando apenas que a Brigada de Trânsito não o mande parar. Tudo o que ele quer é a solidão do volante, uma companhia que não ponha em causa a sua existência e a sua consciência tranquila.

Em busca da sua própria consciência tranquila, Bruce foi obrigado a fazer terapia para combater a depressão. O seu passado continuava a atormentá-lo: Bruce passava repetidamente em frente à casa dos seus pais, em New Jersey, 3 a 4 vezes por semana
Acerca deste comportamento obsessivo, o seu terapeuta ter-lhe-á dito:

"What you’re doing is that something bad happened, and you’re going back, thinking that you can make it right again. 
Something went wrong, and you keep going back to see if you can fix it or somehow make it right."

Ao que Bruce exclamou, em concordância: 

"Yes! That is what I’m doing!" 

E ao que o terapeuta terá respondido: 

"Well, you can’t."

(...)

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Tears For Fears - "Pale Shelter (You Don't Give Me Love)"

"When you don't give me love, you give me pale shelter"


Foi ao som da faixa instrumental de "Pale Shelter" e com a icónica imagem do rapaz descalço, a chorar no vazio (capa do álbum "The Hurting"), como pano de fundo, que em Março deste ano, os Tears For Fears deixaram o aviso - "Este ano vai ser em grande. Preparem-se!".
Nessa semana, logo me apressei a conjecturar neste tópico o que é que poderia vir aí. Uma digressão mundial para relembrar "The Hurting"? Uma edição expandida do álbum de estreia dos TFF? Um novo álbum da banda? Não sabia, mas os níveis de entusiasmo já batiam no tecto.

Ao longo destes meses, foi sendo levantado o véu que tapava estes mistérios, muito por culpa de Curt Smith, que felizmente anda sempre activo nas redes sociais, para nos dar as últimas novidades em primeira mão. E o que é que nos espera, então? Ao que parece, TUDO.

A primeira grande revelação de Curt Smith é que voou até Bath, onde estava Roland Orzabal, para começar as gravações do novo álbum dos Tears For Fears. Alguns temas foram escritos e gravados e entretanto as sessões foram interrompidas, devendo ser reatadas ainda este Verão em Los Angeles, desta feita em território de Curt. Conhecendo a história da banda e o seu modus operandi na criação, gravação e produção de novo material, diria que, na melhor das hipóteses, poderemos esperar o álbum daqui a sensivelmente um ano. Aguardemos.

Antes disso, os Tears For Fears irão voltar certamente à estrada e, julgando pela dica de Curt Smith há umas semanas no Twitter, fazer o seu tão aguardado regresso à Europa, para uma digressão. quase 10 anos depois.
Faço desde já a promessa: a não ser que me seja, de todo, impossível, lá estarei presente, seja onde for.

Finalmente e antes disso ainda, esperar-nos-á uma pérola já há muito aguardada pelos fãs dos Tears For Fears: uma reedição de luxo, expandida e remasterizada do 1º álbum da banda "The Hurting". Tal como eu havia projectado aqui.

Êxtase... Puro êxtase. Diz o povo que "cada maluco com a sua mania" e eu, certamente, tenho as minhas.
Foi assim, em puro êxtase, que eu me senti quando dei de caras com a notícia, no fabuloso blog Super Deluxe Edition, cujo autor contribuiu para a compilação da caixa (o que significa que ainda há esperança para o meu dream job).
O entusiasmo era tanto, que à primeira leitura que dei do texto consegui ler muito pouco. Tive que ler 3 a 3 vezes para conseguir processar toda aquela informação. Que mais não seja, porque fiquei vidrado com esta imagem:


Deixemo-nos de rodeios e vamos então aos pormenores sobre o conteúdo da caixa de "The Hurting", que nos chegará pelas mãos da Universal a 21 de Outubro de 2013:

Tears For Fears - "The Hurting" [3CD+DVD] (2013)

Disco 1: "The Hurting" [Álbum original] (1983)
1. "The Hurting" (4:20)
2. "Mad World" (3:55)
3. "Pale Shelter" (4:34)
4. "Ideas As Opiates" (3:46)
5. "Memories Fade" (5:08)
6. "Suffer the Children" (3:53)
7. "Watch Me Bleed" (4:18)
8. "Change" (4:15)
9. "The Prisoner" (2:55)
10. "Start of the Breakdown" (5:00)


Disco 2: B-Sides And Remixes
1. "Suffer the Children" [7" Version] (3:36)
2. "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love)" [Single Version] (3:55)
3. "The Prisoner" [Single Version] (2:40)
4. "Ideas As Opiates" [Single Version] [Lado B de "Pale Shelter"] (3:54)
5. "Change (New Version)" (4:33)
6. "Suffer the Children (Remix)" (4:15)
7. "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love) (Extended Version)"  (6:25)
8. "Mad World (World Remix)" [Lado B de  "Pale Shelter"] (3:30)
9. "Change (Extended Version)" (5:54)
10. "Pale Shelter (New Extended Version)" (6:41)
11. "Suffer the Children [Instrumental]" (4:26)
12. "Change" [Single Version] (3:52)
13. "Wino" [Lado B de “Suffer the Children”] (2:17)
14. "The Conflict" [Lado B de “Change”] (4:02)
15. "We Are Broken" [Lado B de  "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love)"] (4:03)
16. "Suffer The Children (Promo CD Version)"


Disco 3: Live Sessions
John Peel Sessions (1982.09.01):
1. "Ideas As Opiates" (3:51)
2. "Suffer The Children" (4:00)
3. "The Prisoner"
4. "The Hurting" (3:51)
Kid Jensen Sessions (1982.10.20):
5. "Memories Fade" (4:21)
6. "The Prisoner"
7. "Start Of The Breakdown" (3:45)
8. "The Hurting" (3:47)
"The Way You Are" single:
9. "Start of the Breakdown (Live in Oxford)" (5:53)
10. "Change (Live in Oxford)" (4:36)


Disco 4 (DVD): "In My Mind’s Eye"
1. "Start of the Breakdown"
2. "Mothers Talk"
3. "Pale Shelter"
4. "The Working Hour"
5. "The Prisoner"
6. "Ideas As Opiates"
7. "Mad World"
8. "We Are Broken"
9. "Head Over Heels"
10. "Suffer the Children"
11. "The Hurting"
12. "Memories Fade"
13. "Change"
Nota: A duração das faixas não é oficial, foi retirada da Wikipedia e dos meus registos.


Para além da música, a caixa irá conter também uma réplica do livro da digressão (tour programme) de 1983 dos Tears For Fears, bem como um livro de capa dura, de 34 páginas, com detalhes sobre a gravação do álbum e algumas fotos nunca antes vistas publicamente.

O vídeo já tinha sido lançado em 1984 em VHS e vê agora a sua 1ª aparição em DVD. Infelizmente, parece que vamos ter novamente aqueles irritantes efeitos especiais dos anos 80. Mas não se pode pedir tudo.

"I ask for more and more. How can I be sure?"

A música, essa foi toda remasterizada a partir das fitas "master" (master tapes) no estúdios de Abbey Road, pelo conceituado engenheiro acústico Peter Mew. Mew é conceituado, mas nos últimos anos não necessariamente pelas melhores razões. No fim dos anos 90 / início dos 00, foi responsável pelas remasterizações do catálogo de David Bowie na Virgin e da compilação "1" dos The Beatles.
As remasterizações de Bowie fizeram a sua música soar estéril, digital, sem o afago que as gravações analógicas nos proporcionam. Já a compilação "1" tem o volume estupidamente alto, com a consequente perda de dinâmica e sensibilidade. Uma bagunça auditiva.

Esperemos que Peter Mew largue as ferramentas de redução de ruído das fitas originais de "The Hurting" e nos traga uma remasterização aconchegante, como se estivéssemos a ouvir o velhinho vinil do álbum.

Já vimos o que a caixa tem, falta saber o que não tem. Relativamente às minhas sugestões neste post, o que é que foi deixado de fora? Muito pouco.
Quanto aos singles lançados na época, de fora desta caixa ficaram apenas a versão Extended de "The Way You Are" (um dos temas mais fracos que já foi gravado pelos TFF), e (infelizmente) "Saxophones As Opiates" - um lado B de "Mad World", que é uma versão de "Ideas As Opiates", mas onde a voz é substituída pelo saxofone. Segundo Paul Sinclair, foi a própria banda que vetou "Saxophones", o que é uma pena.
O saxofone é um dos meus instrumentos preferidos e o seu uso nesta faixa resulta muito bem. Era uma das preciosidades que me faltava. Com esta ausência, penso que "Saxophones" passa a ser o único tema dos TFF que nunca foi lançado em CD.

Para além destas 2 faixas, a Universal não incluiu também o concerto gravado para a BBC no Hammersmith Palais, nem o vídeo do programa alemão Rockpalast. Paciência, ao menos temos este material disponível à borla, para quem procurar devidamente.
Em contrapartida, temos uma versão de "Suffer The Children" que eu desconhecia, lançada num disco promocional em 1989, para fechar o disco de raridades deste set.

"How can I be sure? When your intrusion is my illusion
How can I be sure? When all the time you changed my mind"

Uma das faixas que aparece mais vezes na caixa é "Pale Shelter", tema que foi lançado em single, em versões diferentes, por 3 vezes (!!) entre 1982 e 1983. "Pale Shelter" foi gravado originalmente em 1982 e lançado em single com o nome de "Pale Shelter (You Don't Give Me Love)", ainda antes da gravação do álbum "The Hurting", numa versão mistura por Mike Howlett.
Para o álbum, o tema seria regravado e rebaptizado para apenas "Pale Shelter".

O facto de terem nomes diferentes ajuda a perceber qual é qual, por entre a confusa discografia dos TFF nesta altura, mas eu prefiro muito mais o nome "Pale Shelter (You Don't Give Me Love)", do que o abreviado "Pale Shelter". Manias.

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ADENDA:

Em baixo, fica o resumo das faixas lançadas em Single pelos Tears For Fears na era de "The Hurting". A verde estão indicadas as faixas incluídas no material bónus da caixa, sendo que as versões de álbum de "Mad World" e "Pale Shelter" estarão, obviamente, também incluídas.
Note-se que a versão canadiana de "Pale Shelter (You Don't Give Me Love)", lançada em 1985 (para capitalizar o sucesso de "Songs From The Big Chair") não é mais que um novo edit da versão Extended deste tema lançada em 1982.








Sim, eu tenho uma folha de Excel com isto tudo. Sim, eu sei que isso pode indicar um problema. Manias.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Tony Bennett & George Michael - "How Do You Keep The Music Playing?"

"I know the way I feel for her: it’s now or never
The more I love, the more that I’m afraid, that in her eyes I may not see forever"



Hoje sinto-me romântico. Eu sei, é uma grande décalage em relação ao estado espírito de ontem, mas ainda bem. Antes assim. E quando me sinto romântico, o mais habitual é recorrer a George Michael - a minha voz de eleição, no que toca a baladas. Mas se é verdade que ao longo da sua carreira, George tem no seu reportório um imenso lote de grandes baladas, este não é um desses casos. Ou melhor, é uma grande balada, sim, mas não foi composta por ele.

Numa altura em que a carreira de George Michael já se encontrava em fase descendente, Tony Bennett convidou-o para um dueto para o álbum de celebração do seu 80º aniversário.
O tema escolhido foi este "How Do You Keep The Music Playing?", um tema originalmente composto para o filme de 1982 "Best Friends". O filme consistia numa mera comédia romântica dos anos 80, com Burt Reynolds e Goldie Hawn, destinado a ficar esquecido nas traseiras de qualquer videoclube (espera, isso hoje já não existe...), mas isso não impediu que o seu tema principal ganhasse uma vida própria e assim se prorrogasse no tempo.

"How Do You Keep The Music Playing?" foi nomeado para o Oscar de Melhor Canção Original em 1983, tendo perdido para o célebre "Up Where We Belong", do filme "Oficial e Cavalheiro" (nome original "An Officer and a Gentleman"), interpretado por Joe Cocker e Jennifer Warnes.

"How Do You Keep The Music Playing?" fala sobre a dificuldade de manter uma relação duradoura e lidar com o lento abafamento da chama da paixão. Como é que se mantém a música a tocar? É difícil, de facto. Já todos passámos por isso. É difícil e, no entanto, é tão simples:

Rendição: "How do you lose yourself to someone? And never lose your way"
Amizade: "If we can be the best of lovers, yet be the best of friends..."
Adaptação: "Since we know we’re always changing, why should it be the same?"

Pôr isto em prática? Pois, isso já é outra história...

"If we can try with every day to make it better as it grows, with any luck, then I suppose, the music never ends."

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Duran Duran - "Save A Prayer"

"Some people call it a one night stand but we can call it paradise"



Aproximamo-nos do fim do ano e por isso já só restam 2 temas nesta retrospectiva de 2010. Nesta fase, começa a ser difícil não só a escolha dos temas, mas também a sua ordenação. Não que esta seja vinculativa, mas procurei ordenar vagamente os temas, de modo a terminar o ano com aquele que teve mais importância ao longo de 2010.

Assim, para a penúltima escolha do ano, fica aqui o tema de uma banda que decobri mais profundamente este ano. Não que eu não conhecesse o essencial do trabalho dos Duran Duran, mas faltava-me dissecar os álbuns e a sua história para ter uma noção mais concreta da importância e da qualidade do seu trabalho. Ambas são imensas. Mas já lá vamos.

O tema que fica aqui hoje é "Save A Prayer", uma irresistível e sedutora balada retirada de "Rio" - o álbum de referência dos Duran Duran. Um tema que marcou os meus fins de tarde no Verão.
O single de "Save A Prayer" foi lançado em Agosto de 1982, como o 3º single de promoção de "Rio" e rapidamente despoletou um estrondoso sucesso à escala global. Chegou a nº 2 no Reino Unido, não atingindo o lugar cimeiro devido a "Eye Of The Tiger" dos Survivor.


Nesta altura, os Duran Duran eram a banda da moda. Faziam capas de revista, as suas músicas tocavam na rádio em alta rotação e os seus vídeos cosmopolitas serviam como pão para a boca da então embrionária MTV.
Dizia-se nos anos 80 que "Se a MTV gostasse de ti, o Mundo gostava de ti". E a MTV adorava os Duran Duran.

O motor de toda esta atenção dos media? Os Duran Duran aliavam a boa música, integrada nos então emergentes movimentos New Romantic e New Wave, à apresentação de uma imagem atraente. Eles sabiam disso e tinham intenção de explorar a sua imagem para impulsionar a promoção da música.
Para se ter uma dimensão da importância da banda nesta época, os Duran Duran eram então apelidados de "Fab Five", em alusão aos The Beatles. A banda tinha assim todos os dados para para conquistar o Mundo, pelo menos na sua faixa etária mais jovem.

Deste modo, para a gravação do vídeo de "Save A Prayer", os Duran Duran contrataram o consagrado realizador Russel Mulcahy e viajaram para o Sri Lanka, onde aproveitaram os cenários exóticos para criar vídeos pioneiros, completamente diferentes de tudo o que se fazia naquela altura. Os media adoraram e o público também.

"You don't have to dream it all, just live a day"

"Save A Prayer" é uma balada romântica e melancólica, que carrega na sua música e na sua lírica um simbolismo... um significado próprio. O tema basicamente relata a história de um amor efémero, mas segundo Simon Le Bon é muito mais que isso. É um tema sobre a liberdade individual, sobre o conceito filosófico que o que importa é o momento presente. Para Simon, a linha mais importante deste tema é aquela que está no início do post:

"Some people call it a one night stand but we can call it paradise"

A explicação, pela palavras do próprio Simon: "Não vamos pensar no que significa, não vamos pensar no que vai ser amanhã... Vamos pensar no que vai ser este momento. É a única coisa que importa."

A verdade é que há muito mais em "Save A Prayer" do que uma mensagem. A estrutura deste tema é de uma complexidade extraordinária, mas é soberanamente organizada por um trabalho de produção magistral de Colin Thurston. Segundo o baixista John Taylor, o tema é composto por 4 faixas diferentes de sintetizador, 4 faixas de guitarra, 2 faixas de baixo, para além da bateria e das faixas vocais. Estonteante.

É fascinante a quantidade de coisas que acontecem simultaneamente em "Save A Prayer".
Mais do que isso, para alguém com algum treino de ouvido, é uma delícia identificar as diferentes partes que vão surgindo nos vários espaços da cortina sonora deste tema. Não estou a falar um muro de som, no sentido da wall of sound de Phil Spector ou do brickwalling de Owen Morris. Falo de uma cortina fina e delicada, produzida com a minúcia de um bordado.

A base da música é um loop de sintetizador que entra no início do tema e se estende até ao fim, quando sai em fade-out. Ao fim de dois loops, entra mais uma faixa de sintetizador com a melodia base do tema, uma faixa de guitarra acústica com os acordes básicos e a restante secção rítmica (bateria e baixo). Na verdade, a estrutura do tema é tão complexa que confesso que nem sequer consigo identificar algumas das faixas que referi em cima.

Para mim, o momento chave de "Save A Prayer" surge durante o 2º refrão (ao segundo 2:25 no vídeo), numa altura em que Simon Le Bon canta:

"Don't say a prayer for me now, save it 'til the morning after"

...e rebenta a agressiva guitarra eléctrica de Andy Taylor com um riff arrepiante... arrebatador. É um momento único, exclusivo, irrepetível.
É um daqueles momentos raros na música que mexem profundamente connosco.

Importa frisar que a agressividade da guitarra eléctrica de Andy Taylor era, nesta altura, um dos factores mais importantes que separava os Duran Duran de todas as outras bandas Pop. Andy tinha raízes Punk e dava um edge único à música dos Duran Duran. Infelizmente, com a sua saída durante a gravação de Notorious - o 4º álbum dos Duran Duran - a banda perdeu esta faculdade e nunca mais foi a mesma.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Simple Minds - "New Gold Dream (81,82,83,84)" (Maxi-Single 12")

"New Gold Dream... And the world goes hot! And the cities take! And the beat goes crashing... all along the way!"





Lançado no auge do movimento New Wave, o álbum "New Gold Dream (81,82,83,84)" dos Simple Minds foi um dos responsáveis pela expansão internacional e mainstream do movimento com origem no underground britânico.

Este é o tema-título desse álbum, que fica aqui com a mistura feita para o Maxi-Single de 12'' (mais longa que a versão do álbum, como era hábito naquela altura).

Este tema é um dos muitos exemplos que mostram como o baixo foi um instrumento em grande destaque na música dos anos 80. A linha de baixo é do grande Derek Forbes.

"She was your friend until the bitter end"