Mostrar mensagens com a etiqueta 1974. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1974. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Queen - "White Queen (As It Began)" (Live At the Rainbow Theatre '74)

"The White Queen walks and the night grows pale"


Se há uma banda que ao longo da história inexplicavelmente ignorou os seus arquivos - tanto em áudio, como em vídeo - essa banda são os Queen.

Os Queen são sobejamente conhecidos pela sua imagem dos anos 80: Freddie Mercury de bigode, John Deacon e Roger Taylor com um look 80's Pop digno dos Duran Duran e Brian May com a sua farta cabeleira encaracolada.
O que nem todos sabem, é que antes dos grandes estádios e das grandes multidões dos 80's, na escuridão das arenas dos anos 70, tocavam uns Queen bem diferentes.

Nessa época, os Queen eram uma banda estandarte do movimento Glam Rock britânico e como era apanágio da banda, os seus membros levavam tudo ao limite: vestiam roupas femininas, pintavam as unhas, usavam maquilhagem e mostravam cabelos compridos e arranjados em palco.
Senhoras e senhores, isto são os clássicos Queen, uma banda de senhores que pareciam senhoras:


10 anos mais tarde, Freddie Mercury recordou esses tempos com algum humor, a propósito do sucesso de Boy George nos anos 80 (segundo 3:31) e de algum revivalismo dos tempos do Glam, que se vivia na altura. Vale a pena ver o vídeo, nem que seja para ver e ouvir a gargalhada musical de Freddie.

"At this point in time I think if I had long hair and fingernails and wearing those things, I would look ridiculous...I mean, I looked ridiculous then, but it worked!"



Se não conhecemos mais dos clássicos Queen - e o ouvinte mais casual pode mesmo desconhecer por completo - isso é porque estivemos sempre limitados ao espólio dos Queen ao vivo nos 80. Dos anos 70, fomos remetidos apenas às compilações de videoclips (e mesmo o DVD "Greatest Video Hits 1" já remonta a 2002, já lá vão 12 anos). Nesses vídeos, podíamos ver a banda a fazer playback dos seus maiores êxitos, mas nunca pudemos viver a experiência de um concerto dos Queen nos anos 70.

Esta experiência foi capturada na perfeição no filme "Live At The Rainbow", lançado em VHS em 1992, numa caixa de edição extremamente limitada, distribuída apenas pelo clube de fãs dos Queen.
Ainda que fortemente editado, o filme oferecido na caixa já dava um cheirinho do que eram os Queen nos early days.
A caixa dava pelo nome de "Box Of Tricks" e não, não consta da minha colecção. Apesar do esforço que tive em convencer os meus pais para me financiarem uma licitação de 100 euros no eBay em 2001, eles não foram na cantiga.


Durante anos, os fãs dos Queen desesperaram por um registo digno da banda ao vivo nos anos 70, mas ele nunca apareceu.
Até agora.

___________________________________


Após longos anos de espera, Brian e Roger decidiram olhar para os arquivos e este mês chegou finalmente o superlativo "Live At The Rainbow" - um álbum ao vivo que reúne os 2 concertos que os Queen deram no Rainbow Theatre, em Londres, no ano de 1974. Nesse ano, os Queen foram ao Rainbow Theatre por 2 ocasiões diferentes - uma em Março e outra em Novembro.


Em Março, os Queen estavam a promover o seu 2º álbum, lançado nesse mesmo mês e apropriadamente batizado de "Queen II" - uma maravilha sónica, que é também um dos melhores álbuns de sempre (considerado por mim, obviamente).
Naquela altura, para uma banda que ainda não tinha alcançado um único êxito ("Seven Seas Of Rhye" estava somente a começar a ganhar alguma notoriedade), parecia uma loucura uma banda como esses tais de "Queen" ir ao Rainbow - uma das salas mais prestigiadas de Londres na época. Mas foram e... esgotaram os mais de 3 mil lugares, provando que eram uma banda que tinha vindo para ficar.

O concerto juntou algumas das melhores faixas de "Queen" e "Queen II" e foi gravado profissionalmente em áudio e em vídeo (embora a maior parte das fitas de vídeo tenham desaparecido e por isso apenas 10 minutos dessa noite estão presentes no DVD/Blu-Ray).  O que muito pouca gente sabe, é que os Queen se deram ao trabalho de documentar este concerto porque foram ao Rainbow gravar o seu 3º álbum ("Queen III - Live At The Rainbow" soa tão bem...). Só que o motor dos Queen estava em alta rotação e obviamente, esse álbum nunca veria a luz do dia (até agora).
Mesmo depois de Brian May ter caído na cama do hospital por exaustão, após 6 noites consecutivas de concertos em Nova York e de lhe ser diagnosticada hepatite, os Queen enfiaram-se em estúdio, escreveram novas canções para um novo álbum de originais e o programado álbum ao vivo foi posto na gaveta.

Em Novembro, os Queen voltaram então ao Rainbow Theatre para promover o tal novo álbum - "Sheer Heart Attack" de seu nome - um álbum menos polido que o anterior, mas mais pesado e com mais potencial comercial. Na semana do concerto, o single de promoção do álbum "Killer Queen" / Flick Of The Wrist" chegou a nº2 das tabelas, falhando por uma unha negra o posto mais alto. Brian May faria referência a essa frustração durante o concerto. Mal sabia ele que aquilo seria apenas o início de uma longa caminhada real dos Queen.

O concerto de Novembro foi mais uma vez gravado profissionalmente em áudio e em vídeo e os registos desta mantiveram-se intactos ao longo dos anos, como se pode observar tanto no CD, como no DVD de "Live At The Rainbow". Este fora o concerto parcialmente incluído na "Box Of Tricks" e aparece aqui, completo, em toda a sua glória.


___________________________________


É preciso alguma perspectiva para olhar para estes concertos, principalmente para quem só conhece os Queen dos anos 80, conforme falei no início do post.
Em 1974 os Queen eram ainda uma banda em ascensão, esfomeada pelo sucesso, com tudo para provar ao público. E isso nota-se em "Live At The Rainbow", isso ouve-se.
Tanto no concerto de Março, como no de Novembro, podemos ouvir os Queen a esforçarem-se, a darem o litro.

Nesta altura, Freddie Mercury já se mostrava um predestinado a lidar com a plateia, mas ainda não era o showman que conhecemos dos estádios dos anos 80. Em sua defesa, ele não teve nenhum modelo para se basear, uma vez que foi ele, em grande parte, que inventou o seu próprio conceito. Freddie Mercury inventou-se a si próprio: inventou o seu nome, inventou a sua persona no palco, inventou a banda que os Queen se tornariam.


Mas quem ouvimos a brilhar mais intensamente em "Live At The Rainbow" e que eu não posso de maneira nenhuma esquecer é o Dr. Brian May. Munido da sua guitarra Red Special e do seu impressionante sistema de som Echoplex, Brian dispara lasers sonoros por toda a sala e desenha as linhas de um rendilhado que ornamenta os meus sonhos e me afaga a alma. Meu Deus, que paraíso.
Se o meu cérebro tem um estimulador, é aquele som que vem da guitarra de Brian. Um som vindo ao mesmo tempo do Céu e do Inferno.

E depois há as harmonias... Ai as harmonias. Que delícia.
Harmonias pode mesmo ser a palavra chave de "Live At The Rainbow". Freddie Mercury, Roger Taylor e Brian May, os 3 com um registo vocal bem diferente, juntos completam o espectro sonoro quando gritam em uníssono ao microfone. O efeito é arrepiante.
Infelizmente, por volta de 1976 / 1977, à medida que o espectáculo visual dos Queen crescia, o espectáculo das harmonias foi desaparecendo. Mas nos early days dos Queen, eles eram imbatíveis nas harmonias.

___________________________________


O tema que aqui deixo para mostrar "Live At The Rainbow" é "White Queen (As It Began)" -  tema composto por Brian May e incluído no Side White (ou 1º lado) do álbum "Queen II". "White Queen" é um dos meus temas preferidos dos Queen e esta versão em específico, ao vivo no concerto de Novembro no Rainbow Theatre, é a minha preferida de sempre.
Isto é Queen em estado cru: 4 senhores apenas, vestidos de senhoras, a fazerem Rock.


terça-feira, 29 de julho de 2014

Neil Young - "On The Beach"

"Though my problems are meaningless, that don't make them go away."



Já estou a dever meia dúzia de posts ao Neil Young. Mas tenho desculpa. Até há pouco tempo, vivi toda a minha vida oblívio à sua existência. Mas desde o inverno passado que acordei desta hibernação e ganhei uma obsessão pela sua música.
Conforme acontece frequentemente na minha relação com a música, ela vem ter comigo quando eu mais preciso, isto é, quando ela encaixa naquele momento específico que eu estou a viver. Foi isso que aconteceu com Neil Young.

"All my pictures are fallin' from the wall where I placed them yesterday."

A carreira de Neil Young é demasiado extensa no tempo e no volume para ser absorvida num ano, ou condensada num punhado de parágrafos.
Por isso não esperem aqui uma visão alargada sobre a mamutiana carreira de Neil. Nem eu tive tempo que me permita fazer essa análise.
Mas tive o tempo mais que suficiente para amadurecer um determinado período da carreira de Neil Young - o período que mais me fascinou quando comecei a pesquisar o seu trabalho - chamemos-lhe o período de glaciação de Neil Young.

Neil Young, no livrete de "Decade", sobre "Heart Of Gold"

"Heart Of Gold" e o respetivo álbum "Harvest" catapultaram Neil Young para o sucesso em 1972. "Harvest" está carregado de canções folk que ficam imediatamente no ouvido, quais êxitos instantâneos. É impossível não gostar de "Harvest". Desde "Old Man", passando pelo tema-título "Harvest", a balada "A Man Needs A Maid", o clássico "The Needle And The Damage Done" e claro, "Heart Of Gold", há neste álbum melodias em barda para agradar a todos. Cada tema conta uma história, valendo a Neil o epíteto de novo Bob Dylan.

Agora atentem à nota que Neil Young escreveu na compilação "Decade", sobre o seu maior êxito "Heart Of Gold" - o tema que lhe deu o sucesso que qualquer artista ambiciona: "This song put me in the middle of the road (...), so I headed for the ditch". Traduzindo: "Este tema pôs-me no meio da estrada, por isso eu dirigi-me para a valeta."
A valeta / fosso de que Neil Young fala é o período negro da sua vida, que foi berço do seu trabalho mais fascinante. O fosso prolongou-se durante 2 anos (1973/1974), tempo em que Neil lidou com a perda de alguns amigos para a droga, com os fantasmas do sucesso e o alheamento do Mundo que o rodeava.
Este período produziu 3 álbuns: "Time Fades Away", "Tonight's The Night" e "On The Beach" - popularmente agrupados e baptizados como a Ditch Trilogy (Trilogia do fosso), Doom trilogy (trilogia da condenação) ou como eu gosto de chamar: a trilogia da glaciação de Neil Young.
Glaciação, porque se dá o congelamento de Neil Young para com o Mundo à sua volta e tudo o que esperavam dele. É a completa alienação para com o exterior e o foco no que se passa nas profundezas da sua mente.

"I went to the radio interview, but I ended up alone at the microphone."

"Time Fades Away" foi o 1º da trilogia - um álbum ao vivo que documenta a digressão mais desastrosa da carreira de Neil (segundo o próprio). O álbum é o despiste em direcção ao fosso a que Neil Young se refere. Ao fim de 40 anos, "Time Fades Away" permanece sem voltar a ver a luz do dia, não tendo sequer sido lançado alguma vez em CD.

Se "Time Fades Away" foi o despiste para o fosso, "Tonight's The Night" - o 2º volume da trilogia - foi o desespero que sucede a tragédia. Cheio de pregos e desafinações, o álbum é um exercício de lamentação puro e cru. De tal forma que, quando acabou de gravar o álbum, Neil Young decidiu arquivá-lo e gravar o próximo.
O próximo seria "On The Beach".

"On The Beach" é assim o álbum que fecha a trilogia da glaciação de Neil Young e fecha numa nota que tem tanto de depressão, como de cinismo. Enquanto o título do álbum nos pode remeter para uma paisagem como esta:


...o conteúdo de "On The Beach" leva-nos para o interior da mente de Neil Young e revela um cenário bem diferente:


É a obra prima de Neil Young.
Inexplicavelmente, este álbum também não voltaria a ver a luz do dia até 30 anos depois do seu lançamento, quando foi finalmente lançado em CD em 2003. Mas isso evidencia a relação de amor-ódio que Neil Young terá com os álbuns que gravou no período mais negro da sua vida.

"Now I'm livin' out here on the beach, but those seagulls are still out of reach."

O desencanto (e congelamento) de Neil Young para com o Mundo é bem evidente por todo o álbum, mas ressoa-me especialmente no tema-título "On The Beach".
Embora Neil confesse o privilégio de viver na praia - isto é, de ter atingido o sucesso que todos os músicos desejam - as gaivotas que ele ambiciona continuam fora do seu alcance. E aposto que nem ele sabe muito bem quem são e o que lhe podem trazer essas gaivotas. Mas ele quere-as. Disso, ele sabe.


"I follow the road, though I don't know where it ends.
Get out of town, think I'll get out of town"

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Supertramp - "School"

"I can see you in the morning when you go to school"



Foi na 6ª feira passada - já faz quase uma semana - mas ainda não me saiu da cabeça o concerto de Roger Hodgson no Hipódromo de Cascais.

Para quem o nome é estranho, Roger Hodgson foi um dos elementos fundamentais dos Supertramp, durante os seus anos dourados, entre 1974 e 1983. Roger e Rick Davies formaram uma parceria de compositores (ala Lennon-McCartney ou Jagger-Richards) que deu à banda 3 álbuns de luxo ("Crime Of The Century", "Even In The Quietest Moments..." e "Breakfast In America") e uma série de êxitos que levaram os Supertramp a um sucesso estratosférico em 1979, fazendo de "Breakfast In America" o álbum mais vendido do Mundo naquele ano.

Mais do que o sucesso, o que fica do legado de Roger Hodgson e Rick Davies é uma sonoridade única, inconfundível, nos álbuns clássicos dos Supertramp. A harmónica, o piano eléctrico Wurlitzer, bem como a restante bateria de instrumentos de teclas e todos os outros subtis adornos da paisagem sonora que os Supertramp tão bem sabiam utilizar. À custa desta identidade sonora muito própria, ao ouvirmos um qualquer trecho de um álbum dos Supertramp entre 1974 e 1983, imediatamente reconhecemos quem está a tocar.

"It's always up to you if you want to be that, want to see that way"

Como em quase todas as parcerias de sucesso na música (tirando Elton John/Bernie Taupin, não me lembro de outra que tenha prevalecido no tempo), Roger e Rick viraram costas um ao outro em 1983 e seguiram caminhos separados. Roger aventurou-se a solo e Rick continuou com os Supertramp.
Em 2010, tive a oportunidade de ver os Supertramp no Pavilhão Atlântico, na sua digressão de reunião "'70-10", que comemorava os 40 anos da banda. Reunião, mais ou menos, uma vez que um dos membros-chave - Roger Hodgson - não estava presente. O concerto foi muito bom, muito polido e profissional.
Foi bom, mas foi "só" isso, não andei com aquela noite a ressoar na minha cabeça durante uma semana.

Com Roger Hodgson foi bem diferente, incrível. Incrível, mesmo.
A noite foi memorável; já tinha começado da melhor maneira com os Level 42 e o slapping bass de Mark King - um baixista dotado de uma técnica ímpar.
Mas o melhor veio depois. Apresentando uma setlist com 90% de material dos Supertramp, o concerto de Roger Hodgson foi tão bom, tão belo, tão harmonioso, que em partes chegava a doer, de tão bom que estava a ser. Partes houve, em que a linha que separa o deleite do sofrimento ficava esbatida, com a ultra-estimulação dos sentidos. O concerto valeu-me uns quantos arrepios na espinha.

Enquanto eu ia cuspindo umas interjeições do tipo "Brutal!", ou "Espectáculo!", nos intervalos entre temas, ou entre secções da mesma música (não esquecer que os Supertramp fizeram muito Rock Progressivo), o amigo que me acompanhava estava sem palavras, limitava-se a sorrir. Esse amigo é de uma geração à frente da minha, com poucos anos de diferença do meu Pai, é alguém que viveu os Supertramp in loco. Ele nada dizia, trazia apenas consigo um sorriso aberto, inocente, idiota, qual miúdo de 10 anos a abrir os presentes na noite de Consoada.

Quanto a mim, o efeito do concerto de 6ª feira foi tal que, desde então, ainda não consegui parar de ouvir Supertramp.
Para celebrar esta semana inundada de Supertramp deixo aqui "School", tema que Roger Hodgson foi buscar logo no início do concerto. "School" abriu o álbum "Crime Of The Century" de 1974, com aquela inconfundível harmónica e à semelhança do tema-título "Crime of the Century" foi uma composição de facto conjunta de Roger e Rick.



A poucos dias de embarcar para Londres, para aquele que espero que seja um dos concertos do ano - Roger Waters ao vivo no Estádio do Wembley, com o álbum "The Wall" - outro Roger já elevou a fasquia, e de que maneira.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

John Lennon - "#9 Dream"

"Ah böwakawa poussé, poussé"


"Everything is clearer when you're in love."
John Lennon

Volta John, estás perdoado.

Quem quer que tenha acompanhado o blog, pode perceber que John Lennon é o Beatle a quem eu dediquei menos atenção. Já por várias vezes aqui confessei a minha admiração por George Harrison e até Ringo Starr já mereceu dois posts em nome próprio. John tem sido esquecido, mas não por acaso.
(Agora que penso nisso, também estou em falha para com Paul McCartney. A rever.)

Porquê, então, esta ausência de John do blog?
Não, não sou um daqueles extremistas anti-Lennon, que acham que a defesa da facção de Paul McCartney na eterna discussão de "Quem separou os Beatles?" deve ser alimentada com ódio para com a facção de John.
Falando nisso, para um olhar diferente sobre John, visto por um extremista anti-Lennon, leiam este texto. Devido à imagem corrente que temos de John, a leitura do texto chega a ser dolorosa. Mas vale a pena, independentemente do seu conteúdo ser verdade ou mentira, nem que seja para vos pôr a pensar sobre o facto que todas as moedas têm duas faces. Nenhum dos nossos heróis é perfeito; eles, como nós, têm um lado negro.

Eu sei que já me estou a afastar do caminho do assunto inicial; é normal, faço-o sempre. Mas deixem-me divagar, já volto ao caminho inicial.

John, mais do que qualquer outro Beatle, levou com as culpas da separação dos The Beatles. Nem tanto ele, mas sim a Yoko Ono, apesar de ter sido Paul o primeiro a sair da banda.
Sem nunca confirmarem nem desmentirem, os outros membros da banda deixaram o boato criar raízes e durante anos as culpas da separação foram imputadas à infame mulher de John.
Só no ano passado, mais de 42 anos depois da notícia da separação dos The Beatles, Paul admitiu que Yoko não fora a culpada, uma vez que John iria sair de qualquer forma.

Mas será que Yoko está, assim, isenta de culpas? CLARO QUE NÃO. A verdade é que os The Beatles tinham os dias contados, já desde 1968.
John estava com a cabeça na Yoko, no experimentalismo avant-garde e no activismo anti-guerra.
Paul estava com a cabeça em Linda e numa carreira a solo, sem ter que dar satisfações a ninguém.
George estava com a cabeça no espiritualismo, na cultura indiana e no hinduísmo.
O Ringo, coitado, só queria que o deixassem fazer parte da festa.
Portanto, contas feitas, "a culpa" da separação dos The Beatles é de todos (ok, menos do Ringo).
"A culpa", neste caso, é um conceito ridículo. Procurar "a culpa" da dissolução de uma relação que já vive moribunda é ridículo. Isto serve para os The Beatles, como serve para qualquer outra relação interpessoal. O que há a fazer é juntar as peças que nos sobram e seguir em frente. Como os Beatles, que seguiram todos os seus caminhos, todos eles diferentes.

Mesmo tendo em conta estes ensinamentos sociológicos, que a dureza da vida nos transmite, a verdade é que é difícil absolver uma personagem tão macabra como a Yoko Ono. Tão difícil como imaginar o que seria trabalhar com alguém que, a partir de um determinado momento em que conhece alguém, passa a trazer essa pessoa para o seu local de trabalho, "colada" a si, 24 sobre 24 horas por dia. É toda uma nova dimensão para a definição de "sufoco". Tenho pena, a sério que tenho pena do Paul, do George e do Ringo, por terem sido sujeitos a isso.

Talvez tenha sido isso que "vacinou" os Beatles para admitirem a presença de câmaras de filme em Twickenham, enquanto gravavam o (abortado) álbum "Get Back", que depois daria lugar ao álbum "Let It Be". Se levaram com a Yoko, 24 sobre 24 horas, que diferença fariam umas câmaras de televisão?

Volto então à pergunta inicial: qual a razão da ausência de John do blog?
Acho que se deveu a um processo de ostracização subconsciente da minha parte para com o John, devido à Yoko. Também eu lhe imputei as culpas pela separação dos The Beatles, mesmo que subconscientemente.
Esta situação absurda, de uma presença estranha no local de trabalho, faz com que se torne fácil apontar o dedo a Yoko.

Em Março de 2006, tive a oportunidade de ver em Paris, no Cité de la Musique, a exposição "John Lennon, Unfinished Music", patrocinada pela Yoko. Escusado será dizer, que para além de toda a memorabilia alusiva aos The Beatles, a exposição tinha uma forte carga de Yoko Ono. Como se a vida dele fosse dividida em 2 capítulos de igual importância: "The Beatles" e "Yoko Ono". Isto serviu mais ainda para implantar a ideia de culpada, a Yoko.

A outra face da moeda (atenção, que não vão ouvir muitos argumentos a favor dela), foi que Yoko levou o underground psicadélico para os The Beatles. E foi essa pedrada no charco que mudou a música da banda em 1966 e que nos trouxe maravilhas como "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" e "Magical Mystery Tour". Nem tudo foi mau.

______________________________

Fast-forward 7 anos, até Agosto de 2013. A primeira semana deste mês foi de John Lennon. Debaixo de um oceano de trabalho, bateu-me a curiosidade e fiz de minha banda sonora de trabalho os álbuns a solo de John: desde o tão afamado "Plastic Ono Band", passando por "Mind Games", ou "Walls And Bridges".
A páginas tantas, deparo-me com "#9 Dream" e...

"Ah böwakawa poussé, poussé"

...foda-se! Por onde é que eu andei? Como é que eu não conhecia isto?

"#9 Dream", como o nome indica, evoca um sonho, um sonho que John teve. John escreveu e produziu o tema à volta disso (daí a sonoridade dreamy psicadélica) e até o refrão "Ah böwakawa poussé, poussé" terá tido origem nesse sonho.



A descoberta da obra a solo de John fez-me pensar acerca da sua posição nos últimos anos dos The Beatles e do que sujeitou os outros membros da banda.
O que fez John, se não seguir o seu coração? No fundo, o que ele sempre fez, foi ouvir o seu coração e agir, sem pensar nas consequências sociais disso mesmo. Será que isso torna a sua atitude inatacável? Obviamente que não, uma vez que ele afectou a vida e o bem-estar dos seus colegas, levando um elemento intrusivo para o seu ambiente de trabalho.
Mas tudo o que John fez, fê-lo por amor; o que para mim é razão suficiente para justificar todas, ou quase todas, as decisões que tomamos na nossa vida.

Volta John, está perdoado.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Queen - "In The Lap Of The Gods" / "In The Lap Of The Gods... Revisited"

"I live my life for you. Think all my thoughts with you, and only you.
Anything you ask I do, for you..."



Estou de partida para Amesterdão, onde acompanharei a grande jornada do Benfica na rota dos Deuses. Como escreveu Freddie Mercury em 1974, "In The Lap Of The Gods".

Parto, ainda com feridas bem abertas, a sangrar, e um coração despedaçado, depois da catástrofe que se abateu sobre nós na última semana. Sinto que parte de mim morreu nestes dias.  O Universo, na sua cruel ordem caótica, resolveu castigar o glorioso Sport Lisboa e Benfica com a mais inglória, dolorosa e injusta das derrotas. Não merecíamos tal destino.

Mas isto do benfiquismo tem muito que se lhe diga e mesmo depois de uma devastação sem precedentes, ainda resta fé no meu coração. É essa fé que me move e me faz viajar 2000 kms em busca da redenção. Da redenção de mim para com o Benfica, por quem tive a minha fé abalada e, claro, do Benfica para comigo, para que me mantenha acesa a chama imensa. A chama que aquece esta paixão de sempre pelo Benfica.

As feridas abertas no último Sábado foram muito profundas e Amesterdão é o local onde, todos juntos, podemos fazer as pazes com o Benfica e reacender esta paixão de sempre. Ainda é possível salvar esta época.

Vou com o coração hasteado e espero trazer de volta a Taça.

Numa rara ocasião, vou juntar as duas plataformas da blogosfera onde me costumo expressar, ora sobre música, ora sobre o Benfica. Deixo com a simbiose perfeita das minhas duas grandes paixões: a música dos Queen.

Em 1974, obcecadamente à procura do sucesso que tanto ambicionava, Freddie Mercury também queria colocar os Queen na rota dos Deuses. Para além de "In The Lap Of The Gods", escreveu para o álbum "Sheer Heart Attack" o tema"In The Lap Of The Gods... Revisited". A intenção de Freddie era clara e ele gritava-a a plenos pulmões. Antes do aparecimento dos hinos "We Will Rock You" e "We Are The Champions", que fechariam todos os concertos a partir de 1977, era com "In The Lap Of The Gods... Revisited" que os Queen se despediam dos palcos todas as noites.

Deve ser este o mote para o Benfica amanhã.
Faço minhas as palavras de Freddie Mercury e deixo aqui a minha declaração de intenções para este dia histórico para o nosso clube.



Para o Benfica, revisitar a glória do passado é preciso. Que os nossos jogadores sejam bravos e que voltem a colocar o Benfica na rota dos Deuses.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Genesis - "The Lamia"

"The lights are dimmed and once again the stage is set for you"



"As luzes estão apagadas e mais uma vez, o palco está à tua espera."


Já uma estrela de culto, figura de proa do Rock Progressivo, foi no dia 22 de Maio de 1975, que Peter Gabriel entrou em palco pela última vez com os Genesis. A ocasião foi a última noite da "The Lamb Lies Down On Broadway Tour" - um espectáculo teatral alucinante, na época revolucionário no Rock.
O palco esperava-o no Palais des Sports, em Besançon, muito longe de casa. Gabriel estava farto. Até esta noite, um longo caminho com os Genesis ficara para trás. Com 5 álbuns em 4 anos e uma agenda de espectáculos intensa, Peter Gabriel decidiu sair dos Genesis e dedicar-se à sua família, orientando a sua carreira segundo o seu próprio ritmo, sem a pressão associada ao monstro que ele acabara de ajudar a criar. Uma banda de virtuosos, com um instinto melódico ímpar e guiada por uma força conceptual pioneira, os Genesis sobressaíam na cena do Rock Progressivo. Não que os Genesis tivessem a força e o sucesso, por exemplo, dos Pink Floyd, na mesma época. Mas mesmo assim era demais para Gabriel.
Peter Gabriel foi-se embora e nunca mais voltou.

E de que melhor forma Gabriel se poderia despedir dos Genesis, do que com um álbum absolutamente pivotal na História do Rock Progressivo, um marco que seria recordado e admirado durante décadas? Falo obviamente de "The Lamb Lies Down On Broadway", o 6º álbum dos Genesis e o último que contou com o seu histórico vocalista.


A vontade de abordar este álbum vem desde há muito tempo e matéria prima para escrever não falta. Diria mesmo que desde o início do blogue que venho acumulando pequenas ideias sobre "Lamb". Então porquê a demora? A razão é muito simples: por onde começar? Há tanto, TANTO para dizer... "Lamb" é uma obra tão complexa que não é fácil estruturar uma análise global satisfatória. Por isso mesmo, essa abordagem ficará para outro dia.
Para desatar este novelo, hoje resolvi começar por um dos fios: "The Lamia". Será que, ao puxar este fio, conseguimos desenlaçar parte do novelo de "Lamb"? Veremos.

"The Lamb Lies Down On Broadway" é um álbum duplo e extremamente diverso. O álbum conta a história surreal de Rael (um anagrama de "Real" e "Gabriel") - um jovem delinquente de ascendência Porto-Riquenha, perdido no subsolo de Nova Iorque.
"The Lamia" aparece a meio do 2º disco e é um dos temas de maior beleza do álbum. Segundo a wikipedia (adaptado a português legível):

"De acordo com a versão mais corrente, Lâmia era uma belíssima rainha da Líbia, filha de Poseidon e amante de Zeus, de quem concebeu muitos filhos, entre os quais a ninfa Líbia. Hera (mulher de Zeus), corroída pelos ciúmes, matava os filhos de Lâmia ao nascer. Desesperada, Lâmia escondeu-se numa caverna isolada e devido ao seu próprio desespero, transformou-se num monstro. Por fim, para torturá-la ainda mais, Lâmia foi condenada por Hera a não poder fechar os olhos, para que ficasse para sempre obcecada com a imagem dos filhos mortos. Por piedade, Zeus deu-lhe o dom de poder extrair os olhos de vez em quando, para descansar."

Repito o bold: "Desesperada, Lâmia escondeu-se numa caverna isolada e devido ao seu próprio desespero, transformou-se num monstro.". É isto. Para mim, esta explicação é uma das chaves do significado de "The Lamb Lies Down On Broadway". O isolamento, o desespero e a transformação. A transformação que se dá sempre que nos damos de caras com uma das anteriores.

Mas antes de avançar, vou tecer algumas considerações sobre o que significa falar de "The Lamb Lies Down On Broadway".

Em "The Lamb Lies Down On Broadway", os Genesis tratam um conflito interno, como os Pink Floyd fizeram em "The Wall". O ciclo crise/conflito/resolução/crise/... está lá, a descida à loucura na fase de conflito também, mas "Lamb" é infinitamente mais denso, complexo e multi-layered que "The Wall". Impenetrável.

É muito mais fácil identificarmo-nos com "The Wall", do que com "Lamb", da mesma maneira que, em geral, é muito mais fácil identificarmo-nos com Roger Waters do que com Peter Gabriel. Ambos têm uma compulsiva necessidade de auto-procura e auto-resolução, que os leva em busca de respostas aos dilemas pessoais mais profundos. Mais que isso, ambos sofrem de um determinado grau de demência e genialidade ("De génio e de louco..."), que lhes permite criar estas fascinantes obras sobre a condição humana. Porém, são graus de demência diferentes. Não sou psicólogo, nem aspiro a tal, mas a demência de Gabriel é diferente, porque ele também é diferente. Único.
Peter Gabriel tem uma qualidade impenetrável que o distingue de os demais vocalistas Rock. Ele é mais erudito, mais culto, mais eloquente e mais perturbado que o clássico artista Rock. E essa junção bizarra de características torna o seu trabalho nos Genesis e o seu trabalho a solo numa ilha, isolada. Impenetrável.

Eu posso dissertar parágrafos e parágrafos sobre o que ele quer dizer com esta ou aquela linha, mas tudo não passam de interpretações. Interpretações pessoais de uma obra que pode ser lida de muitas formas, porque de tão metaforicamente rica, se torna opaca. Impenetrável.

Tendo tudo isto em conta, quero esclarecer que tudo o que está aqui exposto é apenas a minha visão da história. "The Lamb Lies Down On Broadway" é um mistério cuja resolução cabe a cada ouvinte que se proponha a desvendar a história de Rael.

Talvez para nos elucidar, talvez para nos confundir ainda mais, Peter Gabriel conta mais uma parte da história de Rael (a que não entrou nas letras dos temas) no livrete do álbum (ou no gatefold do LP original). Esta serve de complemento explicativo para a acção que ocorre durante a música.
Em baixo fica a parte de "The Lamia":

"Rael touches his face to confirm that he is still alive. He writes Death off as an illusion, but notices a thick musky scent hanging in the air. He moves to the corner where the scent is stronger, discovering a crack in the rubble through which it is entering. He tries to shift the stones and eventually clears a hole large enough to crawl out of. The perfume is even stronger on the other side and he sets off to find its source, with a new-found energy.

The scent grows richer, he knows he must be near,
He finds a long passageway lit by chandelier.
Each step he takes, the perfumes change
From familiar fragrance to flavours strange.
A magnificent chamber meets his eye.

He finally reaches a very ornate pink-water pool. It is lavishly decorated with gold fittings. The walls around the pool are covered with a maroon velvet up which honeysuckle is growing. From out of the mist on the water comes a series of ripples.

Inside, a long rose-water pool is shrouded by fine mist.
Stepping in the moist silence, with a warm breeze he's gently kissed.

Thinking he is quite alone,
He enters the room, as if it were his own
But ripples on the sweet pink water
Reveal some company unthought of

Three snakelike creatures are swimming towards Rael. Each reptilian creature has the diminutive head and breasts of a beautiful woman. His horror gives way to infatuation as their soft green eyes show their welcome. The Lamia invite him to taste the sweet water and he is quick to enter the pool. As soon as he swallows some liquid, a pale blue luminescence drips off from his skin. The Lamia lick the liquid; very gently as they begin, with each new touch, he feels the need to give more and more.

Rael stands astonished doubting his sight,
Struck by beauty, gripped in fright;
Three vermilion snakes of female face
The smallest motion, filled with grace.
Muted melodies fill the echoing hall,
But there is no sign of warning in the siren's call:
"Rael welcome, we are the Lamia of the pool.
We have been waiting for our waters to bring you cool."

Putting fear beside him, he trusts in beauty blind,
He slips into the nectar, leaving his shredded clothes behind.
"With their tongues, they test, taste and judge all that is mine.
They move in a series of caresses
That glide up and down my spine.

They knead his flesh until his bones appear to melt, and at a point at which he feels he cannot go beyond, they nibble at his body. Taking in the first drops of his blood, their eyes blacken and their bodies are shaken. Distraught with helpless passion he watches as his lovers die. In a desperate attempt to bring what is left of them into his being, he takes and eats their bodies, and struggles to leave his lovers' nest.

As they nibble the fruit of my flesh, I feel no pain,
Only a magic that a name would stain.
With the first drop of my blood in their veins
Their faces are convulsed in mortal pains.
The fairest cries, 'We all have loved you Rael'.

Each empty snakelike body floats,
Silent sorrow in empty boats.
A sickly sourness fills the room,
The bitter harvest of a dying bloom.
Looking for motion I know I will not find,
I stroke the curls now turning pale, in which I'd lain entwined
"O Lamia, your flesh that remains I will take as my food"
It is the scent of garlic that lingers on my chocolate fingers.

Looking behind me, the water turns icy blue,
The lights are dimmed and once again the stage is set for you.
"


...e depois arranca Steve Hackett, com um dos solos mais arrepiantes que alguma vez registou nos Genesis. Um dos momentos altos do álbum. Fabuloso.

"The Lamia" era também um dos pontos altos do espetáculo ao vivo de "Lamb". Peter Gabriel cantava este tema dentro de um cone translúcido, com imagens de cobras, que rodava à sua volta. No fim do tema, o cone caía e Peter surgia envergando um body branco que brilhava no escuro.


Este foi um dos pontos altos da reconstrução que os The Musical Box - a banda de covers mais reconhecida dos Genesis - fizeram no Drámatico de Cascais na noite de 10 de Março deste ano, revivendo a lendária dupla jornada de 6 e 7 de Março de 1975. Mas isso é assunto para outro dia.


O que me resta dizer é que muito devido a este concerto, Fevereiro e Março de 2012 só deram "Lamb", fazendo "The Lamb Lies On Broadway", até ver, o meu álbum do ano. Para além disso, está também (já estava) na minha lista de 10/20 álbuns preferidos de sempre e isso não é dizer pouco. Já andava a dever este post aos Genesis. Mais sobre "Lamb" brevemente.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Eric Clapton - "Let It Grow"

"Standing at the crossroads, trying to read the signs
To tell me which way I should go to find the answer and all the time I know,
Plant your love and let it grow.
"



"Plant your love and let it grow", ou a história da vida de Eric Clapton. Um homem apaixonado, um homem que fez uma estranha mistura de uma vida de excessos, com um registo low profile de um homem afável.

Apaixonado. Seja pela guitarra, pela música, ou pelas mulheres, Eric Clapton foi plantando ao longo da sua vida o amor e deixando-o crescer, tal como profetizou em 1974, no tema "Let It Grow".

"Let It Grow" foi incluído no álbum "461 Ocean Boulevard", o 2º álbum a solo de Eric Clapton, imediatamente a seguir ao turbulento período do projecto com os Derek and the Dominos, de onde havia nascido o álbum "Layla And Other Assorted Love Songs".
A primeira metade da década de 70 foi, aliás, uma autêntica novela trágica para Eric Clapton, com duas temáticas centrais: o triângulo amoroso com George Harrison e a sua primeira mulher Pattie Boyd e a dependência da heroína.

Um dos episódios mais lendários desta novela aconteceu quando Eric mostrou a Pattie a gravação de "Layla" (música que lhe era dedicada) e lhe lançou a ameaça: ou Pattie se rendia ao seu amor, ou então Eric mergulhava as frustrações no vício da heroína. Perante a intransigência de Pattie e depois de se envolver com a sua irmã, Eric cumpriu a sua promessa e sucumbiu à dependência da heroína, que por pouco não o destruiu em definitivo.
"Plant your love and let it grow", sem dúvida.
Voltarei a esta novela noutra oportunidade.

"Love is lovely, let it grow."

Na primavera de 1974, Eric já estava livre da heroína (mas começava a abusar no álcool...) e já tinha conquistado Pattie (embora só se casassem em 1979). Assim, Clapton juntou uma banda mais calma e gravou um álbum mais relaxado, mais focado, com menos solos de guitarra e até um cheirinho de um (na época) determinado emergente estilo jamaicano: o Reggae. Isto sem nunca perder as raízes de Eric, fundadas no Blues.

Eric Clapton vivia na altura em Golden Beach, perto de Miami, numa casa alugada no endereço de... 461 Ocean Boulevard. O álbum foi gravado em Miami e, como sempre acontece, a localização do artista durante as gravações tem uma contribuição decisiva na forma que o álbum toma.


Eric gravou mesmo um cover de "I Shot The Sheriff", um tema de um artista de Reggae que começava a ganhar estatuto... Bob Marley.
Por influência dos restantes membros da sua banda, "I Shot The Sheriff" foi lançado em single por Eric Clapton e foi o primeiro (e até hoje, único) tema de Eric a chegar a número 1 das tabelas americanas, tornando-se também num dos grandes responsáveis pela divulgação do Reggae a um público mais vasto.

"Let It Grow", por seu turno, nunca foi lançado em single, mas é na minha opinião um dos melhores temas de Eric Clapton, apenas atrás da sua obra-prima "Layla". O solo final é fabuloso... é um daqueles solos tocados com tal fluidez, que desejamos que nunca acabe.
Liricamente, "Let It Grow" é um tema simples, mas lapidar: define a atitude que deveríamos ter perante o tempo, o amor e a vida.

"Plant your love and let it grow", ou a história da vida de qualquer homem, por natureza, apaixonado.

"Time is getting shorter and there's much for you to do.
Only ask and you will get what you are needing,
The rest is up to you.
Plant your love and let it grow."