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sábado, 7 de setembro de 2019

Bruce Springsteen — "The Promised Land" (Live at Passaic '78)

"There's a dark cloud rising from the desert floor, I packed my bags and I'm heading straight into the storm"


1. PIÈCE DE RÉSISTANCE

Já devem ter ouvido muitos contos e lendas acerca dos concertos de Bruce Springsteen. São todos verdade. Mas de todos os concertos, há um acima de todos os outros. E pluribus unum, como diz o emblema do Benfica; o unum aconteceu a 19 de Setembro de 1978 no Capitol Theater em Passaic, New Jersey e foi o primeiro de três concertos de "regresso a casa" para Bruce. Ele aparece na melhor forma de toda a sua carreira e com o melhor lote de canções, a promover o álbum "Darkness On The Edge Of Town".

A melhor noite de toda a carreira de Bruce Springsteen e uma das melhores gravações ao vivo de toda a história do Rock, que é finalmente editada oficialmente pelo Boss. O concerto foi transmitido nas rádios americanas, sendo mais tarde editado profusamente, mas em forma de bootleg, com o nome "Pièce de Résistance". "Pièce de Résistance" vem do francês e significa "obra-prima maior do artista" e não poderia haver nome melhor para esta gravação que resume todas as lendas já alguma vez contadas sobre os concertos de Bruce Springsteen. Ainda que tenha sido originalmente lançada em zona cinzenta da legalidade, a gravação ganhou tanta reputação, que se tornou num dos bootlegs mais vendidos de sempre e com ela Bruce ganhou fama de ser um animal de palco. 41 anos depois, Bruce decide recuperar as mastertapes e tirar o melhor desta lendária gravação. Tempo por isso de recordar como este bootleg mudou a minha vida há 10 anos e como deixou uma marca indelével para tudo o que se passaria a seguir.

2. THINGS THAT CAN ONLY BE FOUND IN THE DARKNESS ON THE EDGE OF TOWN

No final de 2008, a minha vida dava uma cambalhota completa. Ao mesmo tempo que acabava o curso no Técnico e começava uma vida rotineira de trabalho, estava prestes a sair da relação mais sólida e duradoura da minha vida, um amor que durou os 5 anos da minha estadia no Técnico. É um período que hoje relembro com enorme carinho e um passado com o qual estou em perfeita paz. Mas nem sempre foi assim. Nos meses que se seguiram àquele rompimento, vivi a agonia da dúvida se tinha feito o que era certo para mim. Não era uma agonia aguda, um sentimento que me fizesse disparar a marcação de um número de telefone. Era sim um ruído que se arrastava no dia-a-dia, uma interferência no sinal da minha rádio, um grão na imagem que persistia e teimava em não sair. Estava confuso, perdido e à procura de respostas sobre as grandes questões da vida. Nesse período, descobri Bruce Springsteen.

Já me conhecem, não sou de deixar os superlativos caídos no chão. Por isso vou ser directo: Bruce Springsteen salvou a minha vida entre 2008 e 2009, num exorcismo que começou em Dezembro de 2008 e culminou no dia 2 de Agosto de 2009, num Monte do Gozo a rebentar pelas costuras em Santiago de Compostela. Foi a primeira vez que vi Bruce Springsteen ao vivo e uma noite que definiu a minha vida e tudo o que eu queria dela daí em diante. Emoção. Honestidade. Seja ela em beleza, ou em bruteza. É isso que Bruce dá ao público nos seus concertos, porque é exactamente aquilo por que as pessoas estão esfomeadas.

Durante este período de exorcismo, havia um CD que rodava em loop no meu carro. Era a gravação do primeiro set do primeiro concerto de Passaic. Tudo o que eu tinha que ouvir de Bruce naquele momento estava condensado ali. Bruce tinha todas as respostas que eu procurava para as grandes questões da vida. Foi ele que me fez perceber porque é que eu tinha saído. E o que é que me esperava a seguir.
Saí, porque quis ver o que havia na escuridão da orla da cidade. E como Bruce avisou, tive que pagar o preço de querer coisas que só podem ser encontradas na escuridão da orla da cidade. Leiam aqui o que entenderem.

3. A LIGHT IN THE DARKNESS

Naquela gravação ao vivo de Passaic, Bruce enquadrou tudo o que eu sentia naquela altura. Deu nomes aos lugares metafóricos que existiam na minha cabeça ("the edge of town"). Deu nomes aos sentimentos de culpa que me assolavam ("When the night's quiet and you don't care anymore / Your eyes are tired and someone at your door / And you realize... you wanna let go") e resumiu o espírito da minha viagem de redenção, quando introduziu "Darkness On The Edge Of Town" em jeito de pregador: "At one time or another, everybody's gotta drive through the darkness on the edge of town".

Mas o conteúdo era apenas uma parte e não a parte fundamental desta gravação catártica. A forma, aqui, é tudo. A paixão que Bruce imprime nesta actuação é arrepiante. Desde a contagem para "Badlands" que entramos numa auto-estrada sensorial, onde nos agarram pelos colarinhos e somos submetidos a chuveiro de emoções que tão depressa nos imprimem excitação ("Badlands"), raiva ("Streets Of Fire"), alegria ("Spirit In The Night"), ambição ("Thunder Road", "The Promised Land"), desespero ("Meeting Across The River") e arrepios, quando Bruce Springsteen pergunta à audiência "New Jersey, are you ready to prove it all night?" e depois abre a guitarra. Tudo num espaço de 80 minutos.

4. MEETING ACROSS THE RIVER


O tempo passou e eu procurei refazer a minha vida, sempre carregando a tocha do Bruce no meu dia-a-dia. Foram os anos áureos do blog "Escolha Musical do Dia", que na altura escrevia quase diariamente (como era suposto) e que, não por acaso, tinha uma avalanche de posts de Bruce Springsteen. Para meu gáudio, em 2012 Bruce vem a Portugal, ao Rock In Rio, e eu tenho a oportunidade de o voltar a ver.

Nesta altura, uma "ex" que tinha sido uma má ideia desde o início (não é a do segundo capítulo, obviamente), tenta uma reaproximação com o pretexto de que queria também ver o Bruce Springsteen no Rock In Rio e como tal, pediu-me para eu a ajudar a preparar o concerto. Eu gravei-lhe o CD do Passaic e acordámos um encontro à beira rio, que eventualmente iria reatar a má ideia inicial.

Na semana seguinte, escrevi o mail:
"De: Nuno Bento
Enviado: 25 de maio de 2012 19:22
Para: (...)
Assunto: "Stuff this in your pocket, it will look like you're carrying a friend" 
Olá! Conforme te tinha prometido, aí está o alinhamento do CD que te gravei do tio Bruce, uma das minhas gravações ao vivo preferidas de sempre (só atrás do Live At Wembley '86 dos Queen): 
1. Intro (0:31)
2. Badlands (5:00)
3. Streets Of Fire (4:47)
4. Spirit In The Night (6:50)
5. Darkness On The Edge Of Town (4:14)
6. Independence Day (5:29)
7. The Promised Land (5:23)
8. Prove It All Night (9:30)
9. Racing In The Street (8:09)
10. Thunder Road (5:28)
11. Meeting Across The River (3:17)
12. Jungleland (9:39) 
Como podes ver pelo site, este CD é apenas o 1º set de um concerto de quase 4 horas que o Bruce deu na sua terra Natal (New Jersey) em 1978. Na altura, ele dava dois "sets" de hora e meia e depois voltava para mais meia-hora/uma hora de encores. Aquilo nunca mais acabava! 
No sábado não acabei de te contar a minha "história" sobre este concerto: há mais ou menos 4 anos fiquei apanhadinho pela música do tio Bruce e por acaso dei com este concerto. Foi daquelas coisas que mudou a minha vida. Durante 2 anos, esteve em constante repeat no meu carro e arrisco dizer que foi o álbum que mais ouvi (de sempre) no meu carro! Ok, eu tenho um uso muito fácil de superlativos, mas é verdade! Mudou a minha vida! Por isso, quando te gravei o CD, foi como se de uma "entrega" de algo importante e pessoal se tratasse. Agora que já foste apanhada também pela mística do tio Bruce, achei que estavas preparada para ouvir isto! 
E pronto, já tens aí tudo o que precisas para saber tudo do tio Bruce. O trabalho não me deixou enviar isto mais cedo, mas ainda vais bem a tempo!
Desejo-te um bom concerto e, uma vez que vais incentivada por mim, espero que gostes! 
Beijinhos,
Nuno"
Ai, ai, ai, Nuno. Que tontinho. O concerto do Bruce foi espectacular, como é óbvio. O retomar da má ideia é que foi um desastre. O que vale foi que a seguir a uma série de desastres, que culminaram num acidente de automóvel em Setembro desse ano, deu-se início à caminhada que me iria levar para a terra prometida.

5. THE PROMISED LAND


A continuação da história está contada aqui (por escrito) e aqui (na rádio). O caminho para a terra prometida continua. Sempre ao som do Bruce.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Noel Gallagher - "(It's Good) To Be Free" (Semi-Acoustic Live)

"The little things, they make me so happy. Well, it's good... Yes, it's good... It's good to be free"



"Head like a rock spinning round and round"
Volvido praticamente um mês, hoje voltei a ouvir no carro o "álbum do acidente". O álbum é "The Dreams We Have As Children", uma gravação semi-acústica de Noel Gallagher, ao vivo no Royal Albert Hall, no concerto de beneficiência para Teenage Cancer Trust.
Chamo-lhe o "álbum do acidente", mas sem quaisquer ressentimentos. Ao ouvi-lo, obviamente me lembrei do acidente, mas acho que isso vai ficar para sempre. O meu primeiro acidente de viação (muito menos grave que este, só "chapa") foi há quase 4 anos e deu-se ao som de "Candy's Room" de Bruce Springsteen. Não há vez nenhuma que eu ouça o tema e eu não me lembre dessa manhã azarada...
Mas dizia eu que não guardo ressentimentos da música de Noel Gallagher. Afinal, o acidente foi muito mais que um simples azar, foi uma chamada de atenção, um wake up call.

A vida testa-nos de muitas maneiras e às vezes dá-nos um valente abanão, que no mínimo serve para nos obrigar a repensar o nosso caminho. Não estou aqui a teorizar sobre o destino, ou sobre qualquer ordem que o Universo tenha sobre os acontecimentos caóticos da nossa vida, de modo a dar algum sentido a "tudo isto". Nada disso. À parte de toda a subjectividade de tais discussões, reitero apenas que alguns destes acontecimentos caóticos nos obrigam a parar... e a pensar.
E foi o que se passou comigo.

"So what would you say if I said to you: "it`s not in what you say, it`s in what you do!"...?"
Esta manhã, ao ouvir novamente o maravilhoso órgão na introdução de "(It's Good) To Be Free" - tema de abertura de "The Dreams We Have As Children" - mais do que recordar o acidente, lembrei-me que o abanão teve resultados práticos.
Lembrei-me de como é bom ser livre para operar uma revolução na nossa vida , sempre que tal seja necessário. ("so I start a revolution from my bed", como dizia Noel em "Don't Look Back In Anger")
Lembrei-me que, volvido um mês um mês do acidente, a palavra já deu lugar a acção.
A palavra escrita vai dar lugar à palavra falada.
A palavra lida vai dar lugar à palavra escutada.

Lembrei-me de tudo isso... e esbocei um sorriso.
Porque são as pequenas coisas que me fazem feliz.

"The little things, they make me so happy. All I wanna do is live by the sea Well, it's good... Yes, it's good... It's good to be free"


P.S.: "(It's Good) To Be Free" foi originalmente lançado pelos Oasis em 1994, como um Lado B do single "Whatever". Criminoso, como é que Noel relegou um tema da tarimba de "To Be Free" para a obscuridão de um lado B... Crime esse que repetiria mais vezes ao longo da sua carreira, tanto nos Oasis, como a solo, ao deixar temas de fora dos álbuns temas como "Fade Away", "Masterplan", "Idler's Dream", "Listen Up", "Alone On The Rope" e muitos outros.
À semelhança de "Fade Away", a versão original de "(It's Good) To Be Free" era cantada por Liam Gallagher, num registo bem mais eléctrico. Ambas foram incluídas em 1998 na colectânea de Lados B "The Masterplan".


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Noel Gallagher - "There Is A Light That Never Goes Out" (Live)

"There is a light and it never goes out..."



Já tive dias melhores. Não que o dia de regresso ao trabalho após as férias seja, alguma vez, um dia muito feliz, mas regressar ao trabalho com um acidente de automóvel é, digamos, um dia especialmente mau.
O que mais vos posso dizer acerca do dia de hoje? É que hoje é um dia tão bom como qualquer outro para se ser poético. E por isso mesmo vos digo que hoje, pela primeira vez em toda a minha vida, durante uma fugaz sequência de fracções de segundo... as luzes apagaram todas e eu vi a Velha Senhora. Fitei-a e olhei-a nos olhos, algo que espero nunca mais fazer durante muitos... muitos anos.
As luzes apagaram todas... todas menos uma. Porque para mim, há ainda uma luz que nunca se apaga.



Qual era a música que profeticamente tocava no auto-rádio no exacto momento do acidente?
Nem a propósito: "There Is a Light That Never Goes Out", tema original dos The Smiths, do seu álbum ex libris "The Queen Is Dead" (mas lançado em single apenas em 1992), na voz de Noel Gallagher.

"Driving in your car, I never never want to go home, because I haven't got one... Anymore."

Já tive dias melhores. Mas daqui vos continuo a escrever porque para mim, há ainda uma luz que nunca se apaga.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Bruce Springsteen & The E Street Band - "Working On A Dream" (Live Hyde Park 2009)

"I'm working on a dream, though sometimes it feels so far away"



Começou na passada 6ª feira o Rock In Rio Lisboa 2012. São dois fins-de-semana de grande concertos, que culminam naquele que é, para mim, o mais esperado concerto ano. Falo obviamente de Bruce "The Boss" Springsteen, que traz a Portugal, pela primeira vez, a E Street Band. Infelizmente tarde demais para o público português ver o saxofonista Clarence Clemons e o teclista Danny Federeci, membros originais da banda, já falecidos entretanto.
Mas isso não parece abalar a energia do Boss.

Bruce têm andado a espalhar a sua magia pela Europa e nos últimos dias deu concertos que quase bateram a marca das 3 horas e meia. Leram bem: 3 horas e meia!! Para um rockeiro que já conta com 62 anos, isto é um feito, no mínimo, notável.

É fácil perceber que as minhas expectativas estão a bater nos limites.
Porque um concerto de Bruce Springsteen & The E Street Band é muito mais que um concerto: é uma life changing experience. E, acreditem, não sou só eu que o digo. Basta fazer uma simples pesquisa na internet para perceber que este é o mais comum dos relatos após o "baptismo" da E Street Band.

Obviamente, eu também tenho a minha estória de baptismo.
Foi no dia 2 de Agosto de 2009, no Monte do Gozo, a poucos quilómetros de Santiago de Compostela, que eu assisti a um dos melhores concertos da minha vida. Foi muito mais que um concerto, foi uma experiência, foi o meu baptismo da E Street Band.

O concerto marcava o ponto final da longa digressão europeia, de promoção ao álbum "Working On A Dream". Bem... De promoção ao álbum, o concerto teve pouco, uma vez que Bruce despachou "Outlaw Pete" e o tema-título "Working On A Dream" logo no início e depois foram mais de 3 horas de clássicos, sobre clássicos. Um must.
Nessa noite ameaçada pela chuva, eu carregava uma gripe já em fase implacável, mas nada disso impediu que se tornasse uma das noites mais memoráveis da minha vida.

Foi ali, naquele belíssimo auditório natural do Monte do Gozo (onde não puderam entrar milhares de pessoas com bilhete na mão, porque os organizadores foram gananciosos e venderam mais 10 000 bilhetes do que podiam), que eu percebi do que se tratava. Qualquer pessoa que goste de ver um concerto Rock não deve viver sem ver pelo menos uma vez a E Street Band em acção.
É qualquer coisa de inexplicável.

O vídeo que eu deixo aqui hoje foi filmado num concerto um mês antes de Compostela, no festival Hard Rock Calling em Londres. Nesta interpretação de "Working On A Dream", o tema mais forte do álbum que Bruce promovia na altura, o Boss faz um longo interlúdio onde explica quem são a E Street Band e ao que vêm.
O momento é arrepiante e eu deixo aqui a transcrição do discurso, que ilustra a missão a que a E Street Band se propõe:

“The E Street Band has come thousands of miles to fulfil their solemn vow to ROCK THE HOUSE!
But we didn’t come all this way tonight just to ROCK the house… We came here tonight because we wanna BUILD a house!
We’re gonna take the FEAR that’s out there and we’re gonna build a house of LOVE!
We’re gonna take the DOUBT and we’re gonna build us a house of FAITH tonight!
We’re gonna take the DESPAIR and we’re gonna build us a house of HOPE!
We’re gonna take all the BLUES that’s out there and that’s in you and we’re gonna build us a house tonight of JOY and HAPPINESS! Because that’s our job…
And we’re gonna take the COOLING OFF and we’re gonna build a house of SEXUAL HEALING!
That’s right, oh yes we will! And we got all the tools we need right here on this stage and on this lawn tonight… And when we build that house, we’re gonna use the bad wood and we’re gonna use the good wood! And we’re gonna use the bad news that’s out there tonight and we’re gonna use the good news that’s in here tonight…
Now, to build a house out of music and out of spirit and out of noise… Well, the mighty E Street Band is here tonight and we’re gonna bring down the power of the music on you!"


Pela minha parte, cá os espero no Domingo, com as expectativas nos píncaros.
Vem, Boss! Vem e traz tudo! Eu estou preparado. :)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Noel Gallagher - "Fade Away" (Semi-Acoustic Live)

"Fade away while we're living the dreams we have as children"



Depois do fim dos Oasis em 2009, a carreira a solo de Noel Gallagher está neste momento a arrancar a sério.
Em Outubro teremos o lançamento do álbum homónimo da sua nova banda - os "Noel Gallagher's High Flying Birds" - e entretanto o single de avanço "The Death Of You And Me" foi lançado dia 21 de Agosto, chegando ao (discreto) 15º lugar das tabelas britânicas. Uma desilusão, tendo em conta que Noel Gallagher é ainda uma das referências do Rock britânico.
Veremos como é que o álbum será recebido no mês que vem.

No entanto, o primeiro lançamento oficial de Noel Gallagher a solo data de Março de 2009, uns meses antes da famosa discussão em Paris, que ditaria o fim dos Oasis. Trata-se de "The Dreams We Have As Children", um álbum gravado ao vivo no Royal Albert Hall em 2007, para a instituição de caridade "Teenage Cancer Trust".


"The Dreams We Have As Children" tem sido o meu álbum de eleição nas últimas semanas, tocando repetidamente em qualquer lado onde esteja: seja em casa na minha aparelhagem, ou na rua no meu Creative (sim, porque em termos de compatibilidade e de qualidade sonora, a Creative é muito melhor que a Apple e o seu iPod).

O que mais me impressiona em "The Dreams We Have As Children" é a forma como os temas clássicos dos Oasis ganham uma nova vida, uma vez submetidos à transformação semi-acústica imposta por uma banda formada por Noel na guitarra acústica, Gem na guitarra eléctrica ou nas teclas e "the mysterious Terry" na percussão.



É esse o caso deste fabuloso "Fade Away", que dá nome a este álbum numa das suas linhas.
"Fade Away" é um tema da autoria do próprio Noel, originalmente gravado em 1994 como um Lado B para o Single de "Cigarrettes And Alcohol".


A versão original de "Fade Away" era cantada por Liam Gallagher e situava-se no território mais próximo do Punk que os Oasis pisaram. Ao ouvir "Fade Away" novamente em "The Dreams We Have As Children", este tema transforma-se, de repente, numa melódica balada.
Fabuloso.

Curiosamente, "Fade Away" já tinha conhecido um tratamento semelhante, quando em 1998 foi gravada a "Warchild Version", para uma compilação de ajuda à caridade e incluída como lado B no single japonês de "Don't Go Away". Esta versão conta com Noel na voz, Johnny Depp na guitarra e Lisa Moorish e Liam nos backing vocals.



Na altura em que Noel escreveu "Fade Away", supostamente com o propósito definido de ser um lado B, era habitual este ter a arrogância de atirar grandes temas para lados B dos singles, não os guardando para futuros álbuns. Embora constantemente avisado que os temas que escrevia eram bons demais para serem relegados para lados B, Noel teimava que "se foram escritos para serem lados B, lados B devem ser". E assim foi.

"Now my life has turned another corner, I think it`s only best that I should warn you: Dream it while you can, maybe someday I`ll make you understand"

Noel julgava que a inspiração que carregava consigo nos anos dourados dos Oasis duraria para sempre. Como seria de esperar, uns anos mais tarde Noel já se confessava arrependido destas decisões.
Outro exemplo desta arrogância é o fabuloso "Listen Up", que curiosamente também foi deixado como um Lado B de "Cigarrettes And Alcohol". Estes temas, juntamente com outros lados B de qualidade semelhante, foram reunidos em 1998 para a compilação "The Masterplan" - provavelmente a mais sólida compilação de lados B da História.


O vídeo que se apresenta em cima foi gravado na Union Chapel (em Londres), em Novembro de 2006. Este foi um concerto inserido numa pequena digressão semi-acústica pela Europa, que Noel Gallagher e Gem Archer fizeram para promover a compilação "Stop The Clocks" dos Oasis.
Esta actuação na Union Chapel seria posteriormente editada para transmissão televisiva, dando lugar ao especial "Sitting Here In Silence", numa alusão a "Sittin' Here In Silence (On My Own)", outro lado B dos Oasis, também escrito por Noel Gallagher, para o single de "Let There Be Love".

terça-feira, 19 de julho de 2011

Grizzly Bear - "I Live With You"

"Return... Don’t put me on! Return... Don’t make me beg!"



Foi mais uma das surpresas de 2009. O álbum "Veckatimest" dos Grizzly Bear, o terceiro da sua carreira, conseguiu deixar-me com a estranha sensação de ouvir música dos anos 60 em 2009. Ou será música de 2009 nos anos 60?

Para quem não conhece, os Grizzly Bear são uma banda de Brooklyn, composta por Edward Droste e Daniel Rossen nas vozes, guitarras e teclas, Chris Taylor no baixo e Christopher Bear na bateria.

Classificar os Grizzly Bear... Isso já se torna um desafio.
É seguro rotular os Grizzly Bear de Alternativo, ou Indie. Mas atendendo às óbvias influências do psicadelismo dos anos 60 em "Veckatimest", à fraca proeminência de guitarras e ao uso dos sintetizadores, eu diria que a banda se situa algures na cena do Pop Psicadélico Moderno. O que quer que isso signifique.
Não que isto de rótulos tenha muita importância, até porque já ouvi chamarem os Grizzly Bear de muita coisa, entre as quais Chamber Pop Music e isso é que eu gostaria que decifrassem...

"Veckatimest" é um álbum complexo, obsessivamente meticuloso nos arranjos e na sónica. É um álbum carregadinho de ideias; algumas novas, outras nem por isso, mas a maioria conhece aqui uma nova e única forma de execução.
As decisões estratégicas de produção põem este álbum à partida à frente da maioria das bandas dos tempos que correm:
Em tempos em que as gravações são feitas quase exclusivamente de forma digital, os Grizzly Bear decidiram dar um passo atrás na tecnolgia e gravar em analógico.
Em tempos em que o som é comprimido para ficar bem em mp3, em que as partes calmas são altas e as partes altas são distorcidas, os Grizzly Bear decidiram dar primazia à dinâmica e apresentar um disco com um tratamento sónico magistral.

Por tudo isto (e não só), facilmente se percebe que "Veckatimest" é um álbum que tenta ser diferente. Eu diria que o consegue com brilhantismo.
Mas isso não chega aos Grizzly Bear. A atenção ao detalhe mostra que o verdadeiro objectivo do álbum é tentar ser perfeito. Eu diria que, pelo menos na produção, anda lá perto.


É assim que, logo à partida, pela forma de gravar, pela sonoridade morna das fitas e pela cuidada engenharia sonora, os Grizzly Bear primam pela diferença.
Louvo-os por isso.
Mas não é tudo. Nem só de brilhante produção vive "Veckatimest". Detrás de todo o folclore por cima de cada tema está uma melodia. Uma canção que poderia ser também tocada com uma guitarra acústica.
Em "Veckatimest", a complexidade dos arranjos não serve para esconder o vazio das melodias, mas sim para as enriquecer.

Hoje fica aqui o meu tema preferido de "Veckatimest": este "I Live With You", um tema repleto de texturas psicadélicas, que parecem fazer um cruzamento entre os Zero 7 e os Pink Floyd em 1967.
Pode parecer estranho e talvez até arbitrário, mas os elementos estão lá e esta é a melhor descrição que eu consigo formular para a caracterização de música Pop... Electrónica... Psicadélica.

domingo, 17 de julho de 2011

The XX - "Infinity"

"I can't give it up to someone else's touch, because I care too much"




Um dos álbuns que mais me surpreendeu em 2009 foi o homónimo álbum de estreia dos "The XX".
"XX" lançou a banda directamente para a linha da frente da cena Indie, dando-lhes uma posição de destaque nos mais conceituados festivais em todo o Mundo, coleccionando diversos prémios e posicionando-se mesmo no topo de diversas listas dos melhores álbuns daquele ano.

Os "The XX" são um quarteto londrino formado em 2005, que passou a trio depois da saída do seu teclista no final de 2009, pouco depois do lançamento do primeiro álbum da banda.
Defrontando as normais limitações de recursos de quem está a começar, os "The XX" gravaram o seu primeiro trabalho numa pequena garagem (segundo a banda: um "estúdio do tamanho de uma casa de banho"), num arrepiante ambiente durante várias sessões pela madrugada fora.

O resultado foi o meticuloso "XX", um álbum arguto que invoca uma ímpar aura de sensualidade e tranquilidade. A origem do nome do álbum deve-se ao facto de que todos os membros da banda tinham 20 anos, aquando do seu lançamento.


Para mim, os "The XX" foram uma agradável surpresa, que serviu de banda sonora a muitas tardes de Verão. O álbum cai num registo que aprecio bastante, oferecendo um tipo de música relaxante numa onda de Chill Out que me sugere, por exemplo, a música dos Zero 7. O meu tema preferido de "XX" é este fabuloso "Infinity", um tema que apresenta uma tonalidade de guitarra a fazer lembrar "Wicked Game" de Chris Isaak.

Neste momento, os "The XX" estão em estúdio a gravar o 2º álbum, esperando-se novidades para 2012.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

George Michael - "December Song (I Dreamed of Christmas)"

"I could believe in peace on Earth and I could watch TV all day, so I dreamed of Christmas"



No primeiro dia de Dezembro e já a pensar na época especial do Natal, fica aqui o single lançado no Natal de 2009 por George Michael: "December Song (I Dreamed of Christmas)". Na verdade, esta música é de 2008, mas só um ano depois viu a luz do dia em single, sendo o primeiro tema de Natal escrito por George Michael desde "Last Christmas" dos Wham!.

O excelente vídeo animado conta a história de um rapaz que sonha com o Natal, o que aconteceu com todos nós a determinada altura...

Foi um grande regresso de George Michael, com (mais) um grande tema a juntar a tantos outros na sua já longa carreira. No entanto, as coisas não têm corrido bem para George. O seu vício de drogas e álcool tem piorado e este ano levaram-no mesmo a cumprir várias semanas de prisão por ter entrado com o carro por uma loja dentro... Para mim, é lamentável ver um dos meus artistas preferidos, alguém com tanto talento e uma voz divinal, deixar-se submergir pela droga, quando poderia continuar a fazer música, como poucos sabem fazer. Continuo então à espera do novo álbum...