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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Mihály Víg - "Valuska"



Todos procuramos no cinema (e em qualquer forma de arte) algo de particular.
Procuremos o riso e temos as comédias relaxantes que povoam os fins de tarde na televisão; procuremos o romance e temos as comédias românticas que enchem os video-clubes; procuremos vestir a pele de um herói por 2 horas e temos os filmes de acção do James Bond; enfim, e por aí fora, só para dar alguns exemplos do cinema mais comercial.

De quando em vez, também procuro no cinema um dos tópicos que listei em cima, mas confesso que cada vez tenho menos paciência para tais lugares comuns. Não levem isto como uma posição de snobismo, eu continuo a venerar os filmes do James Bond e não perdi a estreia do último "American Pie" (já agora, o filme que mais me fez rir da saga).
Porém, em sentido contrário, cada vez mais sou atraído pelos circuitos de cinema indie (ou alternativos), os quais nos oferecem um leque de sensações bem diferentes.

Acabar de ver um filme e ficar, estupefacto, a olhar para o ecrã negro durante alguns minutos; sair da sala de cinema a matutar; ficar o resto da semana com o filme colado na nossa mente; são estas as sensações que procuro nestes dias, algo ao alcance de muito poucos realizadores.

Já dei um excelente exemplo disso mesmo, aqui, quando descrevi (ou tentei) a minha experiência esvaziante de ver "A Torinói Ló" ("O Cavalo de Turim"), de Béla Tarr, numa sala de cinema.
Esvaziante, porque foi de profundo vazio, o sentimento com que o filme me deixou. Como um pano seco, outrora húmido, depois de torcido vigorosamente.

Como tive a oportunidade de referir na altura, à falta de acção no filme, um dos "aspectos chave" era a sua banda sonora, a cargo de Mihály Vig. Ora, se "A Torinói Ló" foi a última longa metragem de Béla Tarr, foi também o último capítulo de uma longa história de colaborações entre Béla e Mihály, que começou em 1984. A saber (entre parêntesis os nomes em inglês e/ou em português, quando disponíveis):
- "Őszi Almanach" ("Autumn Almanac") - 1984
- "Kárhozat" ("Damnation" / "Danação") - 1988
- "Az utolsó hajó" - 1990 [curta-metragem]
- "Sátántangó" ("Satan's Tango" / "O Tango de Satanás") - 1994
- "Utazás az Alföldön" ("Journey on the Plain") - 1995 [curta-metragem]
- "Werckmeister Harmóniák" ("Werckmeister Harmonies" / "As Harmonias de Werckmeister") - 2000
- "A Londoni Férfi" ("The Man From London" / "O Homem de Londres") - 2007
- "A Torinói Ló" ("The Turin Horse" / "O Cavalo de Turim") - 2011

Na prática, isto significa que Mihály Vig foi o autor da banda sonora de todas as longas-metragens de Béla Tarr desde 1984, bem como de algumas curtas. Note-se que algumas destas obras ("O Tango de Satanás", "As Harmonias de Werckmeister" e "Danação") estão previstas para lançamento em DVD, ainda este mês, pela Midas Filmes.

Não sei muito sobre Mihály Víg e a pesquisa sobre ele não é fácil, devido à imperceptibilidade do idioma magiar. Mas sei que a sua música é um complemento fundamental dos filmes de Béla Tarr, especialmente tendo em conta o tipo de cinema "contemplativo" do realizador húngaro.
Mais do que isso, as bandas sonoras de Mihály Víg nos filmes de Béla Tarr são uma obra em si mesmo.



É uma pena que não esteja disponível (pelo menos, que eu saiba) para compra, uma compilação exaustiva destas bandas sonoras, mas em 2001 foi lançado um álbum que faz parte desse trabalho: "Filmzenék Tarr Béla filmjeihez". Esta compilação junta os temas chave das bandas sonoras de 4 filmes de Béla Tarr: "Őszi Almanach", "Kárhozat", "Sátántangó" e "Werckmeister Harmóniák".
O alinhamento é o seguinte:

"Filmzenék Tarr Béla filmjeihez" (2001)

"Őszi almanach":
1. "Főcím" (1:13)
2. "Lukin" (1:37)
3. "Őskígyó" (1:27)
4. "Lengyelország" (1:42)
5. "Pajesz" (2:00)
6. "Synth" (1:46)
"Kárhozat":
7. "Csille" (1:33)
8. "Kész az egész" (8:18)
9. "Eső I." (4:24)
10. "R&R" (4:47)
11. "Lassú tánc" (5:05)
12. "Körtánc I." (5:38)
13. "Vonósnégyes" (1:44)
"Sátántangó":
14. "Harang I." (2:47)
15. "Eső II." (1:40)
16. "Halics" (3:46)
17. "Szabad egy tangót?" (3:04)
18. "Körtánc II." (5:24)
19. "Pityi" (0:13)
20. "Harang II." (1:33)
"Werckmeister harmóniák":
21. "Valuska" (4:14)
22. "Öreg" (10:00)

O tema que eu aqui deixo é "Valuska" de "Werckmeister Harmóniák" e é o meu preferido de Mihály Vig. Mais do que isso, "Valuska" é um dos meus temas preferidos de sempre, no que a bandas sonoras diz respeito. Principalmente se for ouvido e contextualizado, com a cena do filme em que aparece.



Valuska é o nome do personagem principal do filme. Nesta cena, depois de ser expulso de um bar, Valuska caminha sozinho no frio da noite, pela rua vazia, escondido entre as sombras dos candeeiros de rua. A cada passo de Valuska, a câmara afasta-se mais e mais, revelando a natureza solitária da sua existência.


Um homem só, caminhando pela rua escura e deserta, no frio cru da noite.

Este plano da caminhada solitária de Valuska dura aproximadamente 2 minutos (nada de especial, na escala de Béla Tarr) e é, na minha opinião, o mais poderoso de toda a obra cinematográfica do húngaro. É um plano que condensa toda a força que o cinema do realizador nos despeja: toca-nos no fundo da alma; mexe com a complexa profundeza da psique.
Como?
Mostrando num plano, numa simples metáfora, numa soma de imagem e som, algo que personifica toda a história de uma vida.

Todos procuramos algo no cinema. Às vezes, sem querer, encontramo-nos.

domingo, 17 de junho de 2012

Mihály Víg - "A Torinói Ló"



Hoje vou mudar um pouco a agulha ao blog.
Já há algum tempo que tenho a vontade de fazer uma "Semana de Cinema". Isto é, uma semana temática (à semelhança do que fiz com a "Semana Elton"), dedicada às minhas bandas sonoras preferidas.
Infelizmente, tal como um rol de outras ideias, isso ainda não foi materializado por manifesta falta de tempo. E infelizmente também, ainda não será desta.
Porém, ainda antes de levar esse conceito mais a sério, não resisto a falar do filme que assisti ontem no cinema: "O Cavalo de Turim" (nome original "A Torinói Ló").
Mais que um filme, uma obra de arte.

"A Torinói Ló" é o filme de despedida do cineasta húngaro Béla Tarr (assim anunciado pelo próprio, que afirma nada mais ter para dizer), nos últimos tempos recorrentemente aclamado como um dos grande mestres do cinema moderno.

Não é fácil falar de "A Torinói Ló". Não é fácil, porque o filme pode ser analisado por diversas perspectivas diferentes.
Podemos falar da fotografia, que é de uma beleza meticulosa; da música, que com um tema apenas de Mihály Vig, em constante repetição, assume um papel fundamental na mensagem do filme; da acção, quase inexistente e numa "quase-repetição", com pequenas nuances, também fundamentais na percepção da referida mensagem; dos metaforismos, que estão por todo lado, igualmente fundamentais na interpretação do filme; da fortíssima carga religiosa (ou melhor, de negação da religião) que o filme parece carregar.
Enfim, poderíamos falar de tanta coisa, que falar de "O Cavalo de Turim" daria para uma tarde de discussão e poderia resultar numa longa dissertação.

Para já, ainda abanado com a carga emocional que o filme despeja no espectador, digo apenas que foram 2 horas e meia de belíssimo cinema.
Cinema difícil, mas belíssimo.

A espaços, chega a ser "secante". É preciso ter estômago, paciência e não levar sono para a sala.
Mas quem estiver disposto a contemplar 2 horas e meia da melhor cinematografia (de um verdadeiro deleite para os olhos), onde se metaforiza sobre o abandono a que Deus vetou o Mundo e as pessoas que o habitam... Vale muito, muito o esforço.
O meu valeu, com toda a certeza.

"A Torinói Ló" é um filme de 150 minutos, a preto e branco e com muito pouco diálogo.
Objectivamente, não é um filme de fácil visualização e não é para todos. Não é um filme de "pipocas e coca-cola", vivendo numa filosofia de antagonismo com o cinema americano a que estamos habituados. Quando fala à imprensa, Béla Tarr deixa isso bem claro e não se coíbe de malhar no cinema do circuito comercial:

‎"I always had in mind that the audience is intelligent, sensitive and will understand – so I always did my best.
I can’t do some piece of shit because it’s just for kids.
The showbiz guys treat the audience as children, and they say this shit is good enough for them. Not true.
I respect the viewer. I respect my work. And I want to protect it. That means protecting it from me too…"

Para Béla Tarr, a cinematografia é tudo. Muito parcos em acção ou enredo, os filmes do realizador húngaro são o exemplo mais acabado daquilo que eu chamo de "filmes contemplativos". Se há filmes que merecem ser vistos no ecrã de cinema, esses são os de Béla Tarr.

Os planos nos seus filmes são longos, longos, longuíssimos, a desafiarem a calma do espectador mais paciente, mas valem pela sua beleza e pelo seu significado.
Para terem uma ideia do que estou a falar, "O Cavalo de Turim" tem a duração de 2 horas e meia (150 minutos) e apenas 30 planos. Isto equivale a uma média (repito: média!) de 5 minutos por plano. Tendo em conta que a média "normal" de duração de um plano é de cerca de 5 a 10 segundos, 300 segundos por plano é algo que, como referi, testa a paciência do espectador.
Conclusão: não convém levar sono para a sala de cinema.

Contas à parte, não é por acaso que Béla Tarr é quase unanimemente considerado, entre os cinéfilos, como um dos mais brilhantes realizadores da actualidade. Por isso, não admira que a chegada de "O Cavalo de Turim" às salas de cinema portuguesas tenha sido recebida com êxtase por toda a crítica de cinema portuguesa: no DN (por João Lopes e Flávio Gonçalves), no i, na RTP, no Ípsilon (Público), no C7nema, ou no Sétimo Continente.
Note-se que "O Cavalo de Turim" é o primeiro filme de Béla Tarr a estrear em Portugal. Não deixa de ser curioso que o primeiro filme do húngaro a chegar a Portugal seja o último capítulo da sua obra.
Da minha parte, o meu muito obrigado à Midas Filmes, por trazerem a Portugal, finalmente, os filmes de Béla Tarr.
Já não era sem tempo.

Em baixo está a cena de abertura de "A Torinói Ló", em que o narrador conta a história que serve de mote à acção do filme, seguida de uma sequência fabulosa, das mais belas que já vi no cinema, em que vemos "O Cavalo de Turim" (na realidade é uma égua) a puxar uma carroça ao som da hipnótica banda sonora de Mihály Vig.
Lindo, lindo, lindo.



Neste clip podemos ouvir toda a banda sonora que Mihály Vig compôs para "A Torinói Ló". Um só tema, que é repetido até à exaustão ao longo do filme. Um só tema que, com a sua melancolia, aperta mais e mais o coração e permanece na nossa cabeça, num teimoso loop depois do filme terminar, durante dias, semanas a fio...

"Hogy a lóval mi lett, nem tudjuk" (Do cavalo, nada sabemos)

O filme parte de um evento histórico: o cavalo que Friedrich Nietzsche viu ser espancado em Turim e depois do qual o filósofo fica traumatizado, perdendo a razão e a fala durante os 10 anos que se seguiram, culminando na sua morte. Este episódio não está relacionado com o que vemos no filme. Nietzsche está ali, mas apenas a nível filosófico.
Depois deste evento, o cavalo regressa a casa com o seu dono e o filme disseca até ao mais pequeno detalhe a vida vazia do cavalo, do dono e da sua filha.

A acção do filme é de tal forma minimalista, que somos obrigados a agarrar nos mais pequenos pormenores para conseguir "ligar os pontos" e perceber qual é, afinal, a mensagem de Béla Tarr.
Béla Tarr deu uma pista e revelou que "A Turin Horse" era uma reflexão sobre o "peso da existência humana". O "insustentável peso do ser".

A minha interpretação é que o filme é, essencialmente, uma reflexão religiosa. Ou melhor, uma reflexão niilista sobre a religião. O vazio da vida, para além daquilo que nós fazemos dela. Uma tese da descrença em qualquer fundamentação metafísica para a existência humana. Uma ilustração do tal "peso da existência humana".

A religião aparece em várias pistas que Béla Tarr vai dando ao longo do filme, como no monólogo do vizinho que aparece para pedir a Palinka, ou no livro que um cigano deixa à filha.
O abandono de Deus à humanidade. Como disse Nietzsche: “Deus morreu, mas a natureza humana é de tal ordem que é muito provável que, durante milhares de anos, haja grutas em que a sua sombra continuará a ser vista.”
Deus abandonou esta família numa "ilha" rodeada por uma tempestade inultrapassável. A "ilha" (na realidade, uma casa isolada, perdida no meio do nada) vai morrendo lentamente ao longo do filme, caminhando, tal como os seus habitantes, em direcção ao vazio, ao nada (em latim nihil, ou seja, "niilismo"). O caruncho que deixa de roer, o cavalo que deixa de comer, o poço que seca, a tempestade que redunda no silêncio, o preto e branco que redunda no... preto. E no final, a escuridão.

"Teljes csend borul a házra is.

VÉGE"