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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Guns N' Roses - "Don't Cry" (Versão original de 1985)

"I know how you feel inside, I've been there before"


Numa altura em que se fala com insistência ensurdecedora (mas ainda sem grande fundamento) do regresso de Slash e Duff aos Guns N' Roses, hoje mostro um exemplo da magia criada quando os microfones se ligavam numa sala com o gangue original.

De certeza que já ouviram "Don't Cry". Estão com certeza familiarizados com a versão que passa nas rádios desde 1991, incluída no primeiro volume do álbum tudo-à-bruta "Use Your Illusion I", devidamente acompanhada por um videoclip épico realizado por Andy Morahan (cujos trabalhos à data incluíam clips de Wham!, Pet Shop Boys e The Human League):




Esta conhecem, certo? Se viveram no planeta Terra nos últimos 25 anos, não há maneira de não reconhecerem isto.
O que talvez não sabem é que "Don't Cry" remonta aos primórdios dos Guns N' Roses, quando Tracii Guns e Rob Gardner ainda faziam parte da banda, antes de serem substituídos por Slash e Steven Adler, respectivamente. Se não vejamos: o primeiro concerto dos Guns conforme nós conhecemos e amamos foi a 6 de Junho de 1985 (ainda nem eu era nascido) no Troubadour, West Hollywood, após apenas um dia de ensaios (!!!) com Slash e Steven. Foi assim:



Flyer do primeiro concerto dos Guns N' Roses com a formação clássica: Axl, Izzy, Duff, Slash, Steven;
Nas fotos ainda estão Tracii Guns e Rob Gardner

Segundo o livro "Reckless Road: Guns N' Roses and the Making of Appetite for Destruction" (e já agora, o setlist.com), os Guns tocaram "Don't Cry" no seu primeiro concerto. Este vídeo afirma ser dessa noite (mas eu não ponho as minhas mãos no fogo por isso):




Já o "Watch You Bleed: The Saga of Guns N' Roses" (só grandes títulos de livros) confirma que "Don't Cry" foi um dos primeiros temas que Axl e Izzy escreveram. O tema era um habitué na setlist durante 1985 e 1986 (aqui em versão acústica em 1985) e no entanto, nós só ouvimos a versão de estúdio 6 anos mais tarde. Mas porquê o hiato?
Simples.
Quando os Guns assinaram finalmente com a Geffen Records em 1986 (o que foi uma decisão arriscadíssima da editora, uma vez que eram conhecidos em Hollywood por serem um camião-cisterna descontrolado numa cidade a arder), "Don't Cry" foi gravado em estúdio para o álbum "Appetite For Destruction". Esta é a versão que podemos ouvir em cima. Mas depois apareceu "Sweet Child O' Mine" e a banda decidiu incluir apenas uma balada no álbum, de forma a representar fidedignamente o estilo de vida vicioso que levavam na época. O resto é História. O camião-cisterna ainda durou uns anos, mas eventualmente explodiu a meio dos anos 90.

A versão original de "Don't Cry", gravada em 1985, foi esquecida na gaveta e apenas recuperada num CD single, rotulada como Demo. Mas é muito mais que isso. É mais e é mais até que aquela versão limpinha e sanitizada que conhecem desde 1991. Hoje recupero-a, suja, crua e dura. Se fecharem os olhos, quase conseguem sentir o cheiro a látex e Jack Daniels.

domingo, 19 de abril de 2015

Queen - "We Will Rock You"

"I like it, sing it again!"


Os melhores 20 minutos da história da humanidade. Ou quase.

A memória mais antiga que tenho de um sonho remonta aos meus 6 anos de idade. O sonho foi tão vívido e tão marcante, que ainda hoje me recordo dele com exactidão.
Estádio do Wembley. Eu estou num concerto, mesmo à frente do palco. Em cima do palco, os Queen. Lá atrás, o símbolo do Live Aid e um relógio gigante. Os Queen tocam o seu set, mas no fim de um estrondoso "We Will Rock You", Freddie Mercury cai no chão, inanimado. O Estádio do Wembley tem um momento de silêncio aterrador, como se tivesse mergulhado no oceano. De repente, começam a ouvir-se gritos histéricos de horror, eu olho para o palco e o Freddie desapareceu. Sumiu-se.
Acordo em pânico.

Foi só um pesadelo, mas Freddie Mercury estava mesmo morto. Só não teve um final tão teatral e espectacular como o que sonhara. O sonho foi o resultado do impacto profundo na mente de um miúdo de 6 anos, após a perda do seu maior ídolo. A cobertura mediática do acontecimento e o documentário da BBC que passou na RTP no dia da sua morte, com a performance dos Queen no Live Aid, ficaram coladas no subconsciente daquele miúdo, que reagiu assim àquela tragédia. Foi como se a tivesse presenciado com os seus próprios olhos.

Foi assim que eu vi os Queen no Live Aid na altura. O mundo viu-o como "os 20 minutos que mudaram a música":



Fast-forward até hoje e já vejo as coisas de forma diferente. Agora, eu vejo os Queen no Live Aid como os melhores 20 minutos da história da humanidade. Ou quase. À frente, só as 2 horas do concerto dos Queen no mesmo local, um ano mais tarde. Independentemente da minha opinião, uma coisa é certa: durante aqueles 20 minutos, os Queen reinaram o Mundo.

Quando Freddie Mercury conduzia a audiência em "We Will Rock You" com um grito de "I like it, sing it again!", já milhares de milhões de espectadores em todo o Mundo moravam na palma da sua mão. O Wembley, esse já era seu, desde que "Radio Ga Ga" pusera as 74 mil pessoas que enchiam o estádio a bater palmas, com a coordenação de um comício nazi. E aqui reside a magnitude do seu feito: aquele não era sequer o público dos Queen.

No Wembley havia U2, Elton John, David Bowie, reunião dos The Who e Paul McCartney a cantar temas dos Beatles. No JFK, em Filadélfia, havia reunião dos Black Sabbath, reunião dos Led Zeppelin, Neil Young, Madonna, Duran Duran e Simple Minds. Todos os grandes nomes da Pop e do Rock estavam no Live Aid, incluindo os líderes das tabelas da época. A maioria da audiência em Wembley, pelo menos a falange mais nova, estava lá para ver os U2 (basta olhar para os cartazes à frente do palco). Aquele não era o público dos Queen, mas aquela era a noite de Freddie Mercury.

Naquela noite, Freddie queria mais do que o Wembley, Freddie queria o Mundo. E agarrou-o, ao dançar com o cameraman em "Hammer To Fall", como se desse a mão às 1.9 mil milhões de pessoas (um terço da humanidade) que o viam em casa. E foi assim, que na noite de 13 de Julho de 1985, o Mundo acordou para um facto que estivera o tempo todo à sua frente: não havia (não voltou a haver) um showman como Freddie Mercury, com uma capacidade sem paralelo para captar a audiência. O Wembley parecia uma pequena chávena, para o brilho da estrela que explodia em palco.

Assim foi a vida de Freddie Mercury: como uma estrela que brilhou muito, muito rápido, muito intensamente e explodiu, porque o universo não aguentava com tanto brilho.
O sonho daquele rapaz de 6 anos não fez mais do que captar esta metáfora na perfeição.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

The Smiths - "How Soon Is Now?"

"When you say it's gonna happen "now", when exactly do you mean?"


A vida é dura para quem é impaciente.
Para quem não tem paciência, a vida arrasta-se como se a atmosfera fosse substituída por um denso colóide. Para quem não aprendeu a arte de esperar, o ar pesa como se a gravidade nos arrastasse para além dos 9.81 m/s2.

Os The Smiths falaram sobre isso no seu tour de force "How Soon Is Now?" - como alguém um dia descreveu, o "Stairway To Heaven" dos anos 80. Inicialmente lançado como o lado B do single "William, It Was Really Nothing" em 1984, o tema acabaria por ganhar tal notoriedade, que seria lançado em nome próprio em single no ano seguinte, sendo também incluído no álbum "Hatful Of Hollow".


Em "The Queen Is Dead", Morrissey diz que a vida é longa para quem está sozinho. Mas essa não é grande lição da discografia dos The Smiths.
A vida é longa, sim, mas a vida é mais longa, insuportavelmente mais longa, para quem é impaciente.
A insuportabilidade da espera é uma das temáticas fulcrais da discografia dos The Smiths. E é também uma das temáticas fulcrais da minha vida. Esperar é por demais insuportável.

Eu aprendi isso quando ficava horas à espera que a minha mãe surgisse através das portas brancas envidraçadas do infantário, para me salvar das malhas da monotonia, da solidão e das empregadas de limpeza - as únicas sobreviventes daquele espaço após as 5 da tarde.

Eu aprendi isso quando ficava horas à espera que a carrinha branca de caixa aberta do meu avô aparecesse ao fundo da avenida da escola; ansiando por aquele barulho inconfundível da caixa aberta a chocalhar no irregular piso empedrado; ansiando com o desespero de quem tem uma corda atada ao peito, que teima em atirar-me sucessivamente em direcção ao lancil, sozinho, enquanto passam casais de adolescentes agarrados como ímanes em juras de amor eterno, que durariam até ao fim do 3º período.
"And you leave on your own, and you go home, and you cry and you want to die"
Eu aprendi isso quando ficava horas a olhar para a pasta do inbox, a fazer refresh de 2 em 2 minutos, à espera da resposta dela - ela que era a mulher da minha vida (tinha eu a certeza na altura) - uma resposta àquele mail, que era o mais importante que eu alguma vez escrevera. E a porra da resposta nunca mais chegava... Acho que carreguei 10 mil vezes no F5 e nada. E depois, quando finalmente veio, umas insuportáveis 8 horas e 43 minutos depois... Eram só 2 parágrafos. E eu que tinha escrito o equivalente a 5 folhas A4, frente e verso... Tanto que eu tinha para dizer e tão pouco que me era dado em troca.
"I am Human and I need to be loved, just like everybody else does"
Eu aprendi isso quando ficava horas a olhar para ela - ela que era a mulher da minha vida (tinha eu a certeza na altura) - a vê-la dançar graciosamente na pista com a amiga feia, como se o planeta rodasse em torno do eixo do seu torso, ali ao fundo dos degraus em cima dos quais eu me situava, na ânsia de chamar a sua atenção. E esperava sempre por aquele tema mais electrizante dos U2, ou dos Simple Minds, para ganhar coragem e ir lá puxar a sua mão esquerda. Mas o momento certo, aquele momento em que ela olhava para mim e eu olhava para ela, num bingo de olhares, nunca mais chegava.
"You shut your mouth. How can you say I go about things the wrong way?"
Aprendi também que não estava sozinho no Mundo, quando ouvi a música dos The Smiths.
Poucas vezes me senti tão próximo das palavras escritas por outrem, como das de Morrissey. Ele sabe, tão bem como eu, como é insuportável esperar.
Dizem-me que a espera já não é longa, que vai acontecer "agora". Mas quando exactamente é que é "agora"?!

domingo, 13 de julho de 2014

Nick Mason & Rick Fenn featuring David Gilmour - "Lie For A Lie"

"Give me a lie for a lie"


Na ressaca do anúncio do novo álbum dos Pink Floyd, em que David Gilmour tem estado a trabalhar, falei nos últimos dias dos projectos a solo dos outros membros da banda: Richard Wright e Roger Waters. Quem é que resta? Nick Mason - o baterista.
E porque é que resta? Porque Nick Mason não tem, na verdade, projectos a solo.

Nick Mason é bom rapaz,  é  foi um baterista competente e escreveu o livro mais revelador dos Pink Floyd que já li - "Inside Out: A Personal History of Pink Floyd", que recomendo vivamente. Mas é pouco mais que isso. (Ah e percebe muito de carros também. Eu confesso que não percebo nada.)
Hoje em dia, para além de fazer as partes de bateria do novo álbum dos Pink Floyd (será que são dele?), pouco mais Nick Mason poderá acrescentar à banda. E se é assim hoje, no passado pouco diferia.
Musicalmente, em estúdio, Nick nunca acrescentou nada aos Pink Floyd (embora tenha alguns créditos de autoria nas composições conjuntas). Ao vivo, desde a digressão The Wall Live que Mason tem outro baterista para o ajudar a completar as suas próprias partes.
A propósito, fiquei muito contente quando o vi no Live 8 com os Pink Floyd a tocar bateria sozinho, mesmo tendo em conta os vários pregos que deu. Esse é que é o apelo da música ao vivo.

Resumindo, Nick Mason como músico é muito fraco (ou nulo) e como baterista é muito limitado.

E no entanto, Mason apresenta na sua discografia 2 álbuns a solo. Pois. Como é óbvio, o input de Nick em ambos os álbuns é proporcional ao seu talento para a composição: muito limitado.
Se o 1º álbum ("Fictitious Sports" de 1981) foi essencialmente o trabalho solitário da artista jazz Carla Bley (que nem sequer aparece na capa do álbum), o 2º álbum ("Profiles" de 1985) é obra do guitarrista dos 10CC - Rick Fenn.


Mas então porquê é que eles querem dividir os louros com Nick Mason? É fácil: porque podem pôr na capa o nome de um membro dos Pink Floyd e assim as vendas e o interesse na sua música disparam em 1000% (número meigo).
"I've certainly enjoyed working with Rick... I think it's useful and important to change the people you work with. You get so stuck in certain patterns.
You know: Roger will do this and Dave will do that and... well, you can go and make the tea, Nick!"
Nick Mason

Pois. Com os Pink Floyd, Nick já estava relegado a fazer o chá, ficamos sem saber se fez muito mais com Rick Fenn.
Em "Lie For A Lie" - single de avanço de "Profiles" - Rick Fenn ainda teve um bónus: quem canta é nem mais nem menos o vocalista dos Pink Floyd - David Gilmour. Ainda por cima, David aparece no vídeo promocional do tema, que está em cima. O áudio nesse vídeo é muito manhoso, por isso se quiserem ouvir o tema com maior fidelidade, façam-no aqui.



Como estávamos nos anos 80, as versões estendidas para os singles de 12'' eram costumeiras. Se gostaram do tema, fica aqui também a versão mais comprida:



O resto do álbum "Profiles" é quase inteiramente instrumental (excepto a faixa "Israel") e, para ser sincero, de muito pouco interesse. Confesso que nunca consegui ouvi-lo na íntegra, porque vou passando de faixa sucessivamente ao fim de 1 ou 2 minutos até que chego ao fim.
Em suma, é uma audição quase penosa. Salva-se "Lie For A Lie", que é um tema Pop agradável, mas pouco mais que isso.

Ah e a capa do álbum, com aquele homem vestido com um maillot e uma máscara de corvo pretos... Perturba-me.

terça-feira, 23 de abril de 2013

The Smiths - "That Joke Isn't Funny Anymore"

"That joke isn't funny anymore
It's too close to home and it's too near the bone, more than you'll ever know"



Porque a vida às vezes não faz sentido nenhum e uma enxurrada de merda põe tudo em perspectiva. Este post é inteiramente dedicado a uma amiga minha, que merece tudo de bom, mas que está a passar por uma provação absurda.
Que tenha a força suficiente para caminhar no vendaval que se instalou na sua vida.

Gosto de pensar que ao longo da vida, o bem que fazemos nos é devolvido em doses equivalentes. Mas é difícil perceber que sentido "isto" tem, quando nos damos conta do caos por que é regido o Universo. É difícil perceber e é medonho sequer pensar nisso.

domingo, 4 de novembro de 2012

Queen - "One Vision"

"syaw suoiretsym ni skrow doG"



Hoje. Faz hoje exactamente 27 anos que os Queen lançaram "One Vision" em single no Reino Unido. Um dos meus temas preferidos dos Queen.

O tema foi inspirado na experiência que a banda viveu no "Live Aid", poucos meses antes, no Estádio de Wembley e no famoso discurso de Martin Luther King Jr.. Esta onda de solidariedade que os Queen viviam na época, depois dos turbulentos anos vividos na primeira metade dos anos 80, levou a que banda esquecesse as disputas internas e se unisse em torno de um tema.

Uma composição original de Roger Taylor, desenvolvida em conjunto com Freddie Mercury e Brian May nos estúdios Musicland em Munique (John Deacon estava de férias e só mais tarde juntaria as suas partes de baixo), "One Vision" foi a primeira faixa a ser creditada a todos os membros dos Queen.

O lançamento de "One Vision" serviria também de primeira amostra do álbum "A Kind Of Magic", que só veria a luz do dia em Junho de 1986. Até lá, "One Vision" seria ainda incluído na banda sonora do (de resto desinteressante) filme "Iron Eagle".
O single contou com o bizarro "Blurred Vision" como Lado B, tanto na versão de 7'', como de 12''. Este último teve direito a versões "Extended" de ambos os temas.


 




Na época, os Queen abriram uma excepção (única) ao longo da carreira da banda e deixaram as câmaras entrar nos Musicland Studios, para filmarem um pouco do seu processo criativo. As filmagens resultariam no vídeo promocional de "One Vision" e num documentário muito interessante, onde se vê a banda a trabalhar no tema, com algumas palhaçadas à mistura:



O meu momento preferido deste documentário, surge no fim, quando ouvimos Freddie Mercury a brincar às palavras, enquanto a lírica do tema ainda não estava definida:
"One man, one goal, one true religion.
One dump, one turd, two tits, John Deacon!
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah! Ckicken feed, babe!
One heart, one soul, one sex position!
One flesh, one night!
One dog, that one religion!
One shrimp, one bra, one clam, one chicken!
One Man, one goal!
One vi-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-vision!"


Hoje. Faz hoje exactamente 27 anos que os Queen lançaram "One Vision" em single no Reino Unido.
Quis o destino que a milhares de quilómetros, nesse mesmo dia, nascesse um enorme fã da banda...

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Simple Minds - "Once Upon A Time"

"Well, that's a question down to time"



Um pouco à imagem do que acontece com os Scorpions, os escoceses Simple Minds vivem hoje com o estigma dos dinossauros do Rock, que com o passar dos anos foram rotulados com os trabalhos mais comerciais e de menor qualidade que fizeram.

Ainda que a fase mais inventiva dos Simple Minds tenha, efectivamente, ocorrido no período de 1979 a 1982  (com apogeu no álbum New Gold Dream (81/82/83/84)"), aquele que é, para mim, o grande trabalho da banda surgiria em 1985, com o nome de "Once Upon A Time".

"Once Upon A Time" capitalizou o sucesso do single "Don't You (Forget About Me)", da banda sonora do filme de culto "The Breakfast Club", que no ano anterior tinha chegado ao topo das tabelas em todo o Mundo (incluindo os EUA). O single de avanço do álbum seria "Alive And Kicking" e este projectou, em definitivo, os Simple Minds para a linha da frente do mainstream Pop/Rock internacional.
O álbum atingiria o nº 1 no Reino Unido, vendendo 4 milhões de cópias em todo o Mundo.

Agora fica a questão que é sempre levantada sempre que certas bandas de culto, mestres num determinado registo (como eram os Simple Minds no New Wave), atingem o sucesso mainstream: a que preço é que veio o sucesso? Será que sucumbiram às regras da indústria em detrimento da sua arte?
A resposta não pode ser generalizada. Neste caso concreto, do álbum "Once Upon A Time", esse conceito certamente que não se aplica.
Apesar de terem, inequivocamente, adoptado um registo mais comercial, tal não significa que os Simple Minds perderam qualidade na sua música. Não aqui, não ainda. Bem pelo contrário.

"Once Upon A Time" mostra uma banda madura, sincronizada e com a perfeita noção das suas qualidades e limitações. Mostra uns Simple Minds inspiradíssimos, com 8 temas muitos fortes, ao mais alto nível na sua escrita.
Por outro lado, são também uns Simple Minds mais calculistas, atentos ao pormenor, com menos espaço para as divagações próprias do New Wave mais puro, que marcou os seus primeiros álbuns. Esta atenção ao detalhe não tem que ser algo necessariamente mau, quando o resultado é algo tão bem produzido e ao mesmo tempo, com tanta vida, como "Once Upon A Time".
Talvez se tenha perdido um pouco do "rasgo" nos Simple Minds. Mas o que se perdeu num lado, ganhou-se no outro.


"Once Upon A Time"  é um álbum fabuloso do princípio ao fim, um casamento perfeito entre as qualidades dos Simple Minds e as premissas do sucesso.
O álbum apresenta uma consistência notável, com o seu ponto alto a aparecer logo no início, no seu tema-título. Sem paragens para baladas, são 8 faixas antémicas de coração aberto e punhos erguidos no ar. Perfeitas para encaixarem que nem uma luva nas ondas da rádio dos anos 80.

Não sei se a intenção era, declaradamente, a de produzir um álbum de sucesso em massa (algo que aconteceu também, no mesmo ano, com o amigo e inspiração da banda Peter Gabriel e o seu álbum "So"), mas a verdade é que em 1985 as estrelas se alinharam na perfeição para os Simple Minds. O sucesso lançou a banda para um patamar de tal ordem estratosférico, que na época vendiam mais discos que, por exemplo, os U2.

Com isto tudo, reafirmo que "Once Upon A Time" é a prova que para produzir música com sucesso, não é preciso comprometer a sua qualidade. Aliás, basta olhar para as carreiras dos The Beatles, ou dos Queen, para termos exemplo disso mesmo.
É claro que esta viragem comercial é um movimento perigoso e tem um preço muito alto a pagar, caso corra mal. Muito poucos são os casos em que uma banda consegue manter a sua matriz base, adaptar-se ao registo da época e manter um sucesso continuado (já dei o exemplo dos Queen). O passar dos anos provou que os Simple Minds não são um desses exemplos.
Depois de "Once Upon A Time", a banda pagou a factura da viragem comercial, vulgarizou-se a pouco e pouco (os álbuns continuaram a ter material interessante, mas cada vez em menos quantidade) e comprometeu a sua música e a sua imagem.
"God only knows, God only knows... That's time!"

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

James Brown - "Living In America"

"You might not be looking for the promised land, but you might find it anyway!"



O post de hoje é integralmente dedicado a um grande amigo meu. Um grande amigo que, tal como profetizou James Brown, inadvertidamente encontrou sua a terra prometida em solo americano, mesmo sem estar à procura.

"When there's no destination, that's too far and somewhere on the way, you might find out who you are"

Por vezes a vida tem disto. Andamos às voltas à procura do nosso destino, até que ele vem ter connosco, ao enviar-nos para uma terra distante e aí nos mostrar a verdade. A nossa verdade, claro está. Porque para cada diferente indivíduo existe um conceito diferente de verdade.
A verdade do meu amigo de que vos falo foi encontrada na América - a sua terra prometida.

"Super highways, coast to coast, easy to get anywhere!"

E como é possível fugir ao charme americano? É tudo em grande: os campos, as cidades, os menus, os edifícios, os casinos, a vida boémia... Enfim, tudo.
Eu próprio pude confirmar este ímpar charme americano com os meus olhos, quando os dois fizemos uma viagem "costa a costa" neste ano e sob o aroma do alcatrão americano nos aventurámos, literalmente, por estradas completamente desconhecidas.

"On the transcontinental overload, just slide behind the wheel! How does it feel?"

O tema que aqui fica visa homenagear o seu regresso (provavelmente fugaz) a terras portuguesas. Celebrando o seu encontro com a terra prometida, haverá tema mais adequado do que "Living in America", da banda sonora do épico filme de 1985 "Rocky IV"?

"Living in America" foi composto em 1985 por Dan Hartman e Charlie Midnight e é, nesta versão, interpretado pelo lendário "avô do Soul" - James Brown. O tema foi lançado como o single de promoção da banda sonora de "Rocky 4" em 1985, mas só chegaria aos lugares cimeiros das tabelas (tanto dos EUA, como do UK) no início de 1986, onde permaneceu durante várias semanas. A versão completa de "Living in America" apareceria no álbum a solo de James Brown "Gravity".

Curiosamente, "Living in America" acabaria mesmo por se tornar no single com mais sucesso da (na época já respeitável) carreira de James Brown. Para além disso, o tema daria ainda a James Brown o Grammy para Melhor Interpretação Masculina R&B, sendo ainda nomeado para o Grammy de Melhor Canção R&B.

"Living in America - I feel good!"

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Tears For Fears - "Broken"

"In my mind's eye, one little boy anger one little man"



1985 foi um ano magnífico. Já em 1973, Paul McCartney tinha antecipado que este seria um ano especial, quando escreveu o fantástico "Nineteen Hundred and Eighty Five" para o maravilhoso álbum "Band On The Run". Mas isso ficará para outro dia.
Não é sobre nada disso que eu vou falar hoje.

O meu álbum preferido de 1985, que é simultaneamente um dos meus álbuns preferidos de sempre, dá pelo nome de "Songs From The Big Chair" e é de uma das bandas que definiu esse ano: os Tears For Fears.


Originalmente gravado em 1983, "We Are Broken" foi um tema construído à volta de drum machines e sintetizadores, guiado por um áspero riff de guitarra de Roland Orzabal.
Dois anos mais tarde, este tema foi recuperado para "Songs From The Big Chair" e rebaptizado de "Broken", numa gravação com a banda completa. No álbum, "Broken" foi dividido em dois excertos, que apareceriam separados pelo tema "Head Over Heels" (outra grande malha).
A versão original "We Are Broken" ficaria relegada para a obscuridão, apenas lançada como um Lado B no single "Pale Shelter" e no single exclusivo ao Japão de "The Way We Are".

Na verdade, a sequência de acordes de "We Are Broken" deu origem a uma série de diferentes temas dos Tears For Fears. A saber:
- "Broken"
- "Broken (Live)" (ambas as versões fazem parte do álbum "Songs From The Big Chair", intercaladas por "Head Over Heels")
- "Broken Revisited" (uma bizarra versão alternativa de "We Are Broken" com a gravação de vozes invertidas)
- "Head Over Heels" (um tema absolutamente novo com base na sequência de acordes de "We Are Broken")
- "When In Love With A Blind Man" (mais uma vez, um tema completamente novo com base na mesma sequência de acordes)

As faixas "Broken", "Head Over Heels" e "Broken (Live)" foram incluídas no álbum "Songs From the Big Chair". "When in Love with a Blind Man" foi o Lado B de Head Over Heels e "Broken Revisited" foi incluído numa edição limitada em MC de "Songs From the Big Chair".

É interessante perceber que todos estes 5 temas foram editados por diversas vezes ao longo dos anos, tanto em reedições de "Big Chair", como em compilações. Porém, o tema berço "We Are Broken" continuou sem ver a luz do dia até 2007, quando foi incluído na compilação "Famous Last Words - The Collection". E mesmo assim, já li que a introdução não é exactamente igual àquela que estava no single "Pale Shelter" de 1983. Se assim for, ainda estou para ouvir a versão original de "We Are Broken".

"Between the searching and the need to work it out, I stop believing everything will be alright"

"Broken" é a âncora do Lado 2 do álbum "Songs From The Big Chair". É um tema que reflecte o desespero visceral causado pela necessidade de fazer com que as coisas resultem na vida... quando as coisas teimam em não resultar.
Quem nunca sentiu isso?

É também interessante observar a colocação de "Broken" na estrutura do álbum, se pensarmos que "Head Over Heels" é um tema que transmite a pureza e a inocência de uma paixão juvenil. Estando "Head Over Heels" entalado entre dois segmentos de "Broken", esta sequência dá a ideia de full circle... A cada ciclo completo, mantém-se o mesmo estado de espírito:

"Broken, we are broken"

O vídeo que fica aqui documenta uma performance de "Broken" ao vivo em Munique, na digressão de promoção do multi-platinado "Songs From The Big Chair". Este vídeo está incluído no excelente filme "Scenes From The Big Chair", que compila uma série de clips, entrevistas e performances ao vivo dos Tears For Fears, alusivas ao álbum "Big Chair".

"Scenes From The Big Chair" é um documentário que retrata os Tears For Fears no seu auge de popularidade em todo o mundo, capturando o sucesso da banda em locais tão distantes como o Japão, a Alemanha, ou os EUA.

Lançado em vídeo em 1985, "Scenes From The Big Chair" foi recentemente reeditado em DVD, numa edição que eu aconselho sem reservas. Conjuntamente com o documentário, está também incluído neste DVD uma entrevista com o produtor do disco Chris Hughes e ainda o concerto "Going To California", que teve lugar em Santa Barbara, na digressão do álbum "The Seeds Of Love". É pena que o concerto não seja da era de "Big Chair", mas não se pode pedir tudo...


"Funny how... time flies"