sábado, 7 de setembro de 2019

Bruce Springsteen — "The Promised Land" (Live at Passaic '78)

"There's a dark cloud rising from the desert floor, I packed my bags and I'm heading straight into the storm"


1. PIÈCE DE RÉSISTANCE

Já devem ter ouvido muitos contos e lendas acerca dos concertos de Bruce Springsteen. São todos verdade. Mas de todos os concertos, há um acima de todos os outros. E pluribus unum, como diz o emblema do Benfica; o unum aconteceu a 19 de Setembro de 1978 no Capitol Theater em Passaic, New Jersey e foi o primeiro de três concertos de "regresso a casa" para Bruce. Ele aparece na melhor forma de toda a sua carreira e com o melhor lote de canções, a promover o álbum "Darkness On The Edge Of Town".

A melhor noite de toda a carreira de Bruce Springsteen e uma das melhores gravações ao vivo de toda a história do Rock, que é finalmente editada oficialmente pelo Boss. O concerto foi transmitido nas rádios americanas, sendo mais tarde editado profusamente, mas em forma de bootleg, com o nome "Pièce de Résistance". "Pièce de Résistance" vem do francês e significa "obra-prima maior do artista" e não poderia haver nome melhor para esta gravação que resume todas as lendas já alguma vez contadas sobre os concertos de Bruce Springsteen. Ainda que tenha sido originalmente lançada em zona cinzenta da legalidade, a gravação ganhou tanta reputação, que se tornou num dos bootlegs mais vendidos de sempre e com ela Bruce ganhou fama de ser um animal de palco. 41 anos depois, Bruce decide recuperar as mastertapes e tirar o melhor desta lendária gravação. Tempo por isso de recordar como este bootleg mudou a minha vida há 10 anos e como deixou uma marca indelével para tudo o que se passaria a seguir.

2. THINGS THAT CAN ONLY BE FOUND IN THE DARKNESS ON THE EDGE OF TOWN

No final de 2008, a minha vida dava uma cambalhota completa. Ao mesmo tempo que acabava o curso no Técnico e começava uma vida rotineira de trabalho, estava prestes a sair da relação mais sólida e duradoura da minha vida, um amor que durou os 5 anos da minha estadia no Técnico. É um período que hoje relembro com enorme carinho e um passado com o qual estou em perfeita paz. Mas nem sempre foi assim. Nos meses que se seguiram àquele rompimento, vivi a agonia da dúvida se tinha feito o que era certo para mim. Não era uma agonia aguda, um sentimento que me fizesse disparar a marcação de um número de telefone. Era sim um ruído que se arrastava no dia-a-dia, uma interferência no sinal da minha rádio, um grão na imagem que persistia e teimava em não sair. Estava confuso, perdido e à procura de respostas sobre as grandes questões da vida. Nesse período, descobri Bruce Springsteen.

Já me conhecem, não sou de deixar os superlativos caídos no chão. Por isso vou ser directo: Bruce Springsteen salvou a minha vida entre 2008 e 2009, num exorcismo que começou em Dezembro de 2008 e culminou no dia 2 de Agosto de 2009, num Monte do Gozo a rebentar pelas costuras em Santiago de Compostela. Foi a primeira vez que vi Bruce Springsteen ao vivo e uma noite que definiu a minha vida e tudo o que eu queria dela daí em diante. Emoção. Honestidade. Seja ela em beleza, ou em bruteza. É isso que Bruce dá ao público nos seus concertos, porque é exactamente aquilo por que as pessoas estão esfomeadas.

Durante este período de exorcismo, havia um CD que rodava em loop no meu carro. Era a gravação do primeiro set do primeiro concerto de Passaic. Tudo o que eu tinha que ouvir de Bruce naquele momento estava condensado ali. Bruce tinha todas as respostas que eu procurava para as grandes questões da vida. Foi ele que me fez perceber porque é que eu tinha saído. E o que é que me esperava a seguir.
Saí, porque quis ver o que havia na escuridão da orla da cidade. E como Bruce avisou, tive que pagar o preço de querer coisas que só podem ser encontradas na escuridão da orla da cidade. Leiam aqui o que entenderem.

3. A LIGHT IN THE DARKNESS

Naquela gravação ao vivo de Passaic, Bruce enquadrou tudo o que eu sentia naquela altura. Deu nomes aos lugares metafóricos que existiam na minha cabeça ("the edge of town"). Deu nomes aos sentimentos de culpa que me assolavam ("When the night's quiet and you don't care anymore / Your eyes are tired and someone at your door / And you realize... you wanna let go") e resumiu o espírito da minha viagem de redenção, quando introduziu "Darkness On The Edge Of Town" em jeito de pregador: "At one time or another, everybody's gotta drive through the darkness on the edge of town".

Mas o conteúdo era apenas uma parte e não a parte fundamental desta gravação catártica. A forma, aqui, é tudo. A paixão que Bruce imprime nesta actuação é arrepiante. Desde a contagem para "Badlands" que entramos numa auto-estrada sensorial, onde nos agarram pelos colarinhos e somos submetidos a chuveiro de emoções que tão depressa nos imprimem excitação ("Badlands"), raiva ("Streets Of Fire"), alegria ("Spirit In The Night"), ambição ("Thunder Road", "The Promised Land"), desespero ("Meeting Across The River") e arrepios, quando Bruce Springsteen pergunta à audiência "New Jersey, are you ready to prove it all night?" e depois abre a guitarra. Tudo num espaço de 80 minutos.

4. MEETING ACROSS THE RIVER


O tempo passou e eu procurei refazer a minha vida, sempre carregando a tocha do Bruce no meu dia-a-dia. Foram os anos áureos do blog "Escolha Musical do Dia", que na altura escrevia quase diariamente (como era suposto) e que, não por acaso, tinha uma avalanche de posts de Bruce Springsteen. Para meu gáudio, em 2012 Bruce vem a Portugal, ao Rock In Rio, e eu tenho a oportunidade de o voltar a ver.

Nesta altura, uma "ex" que tinha sido uma má ideia desde o início (não é a do segundo capítulo, obviamente), tenta uma reaproximação com o pretexto de que queria também ver o Bruce Springsteen no Rock In Rio e como tal, pediu-me para eu a ajudar a preparar o concerto. Eu gravei-lhe o CD do Passaic e acordámos um encontro à beira rio, que eventualmente iria reatar a má ideia inicial.

Na semana seguinte, escrevi o mail:
"De: Nuno Bento
Enviado: 25 de maio de 2012 19:22
Para: (...)
Assunto: "Stuff this in your pocket, it will look like you're carrying a friend" 
Olá! Conforme te tinha prometido, aí está o alinhamento do CD que te gravei do tio Bruce, uma das minhas gravações ao vivo preferidas de sempre (só atrás do Live At Wembley '86 dos Queen): 
1. Intro (0:31)
2. Badlands (5:00)
3. Streets Of Fire (4:47)
4. Spirit In The Night (6:50)
5. Darkness On The Edge Of Town (4:14)
6. Independence Day (5:29)
7. The Promised Land (5:23)
8. Prove It All Night (9:30)
9. Racing In The Street (8:09)
10. Thunder Road (5:28)
11. Meeting Across The River (3:17)
12. Jungleland (9:39) 
Como podes ver pelo site, este CD é apenas o 1º set de um concerto de quase 4 horas que o Bruce deu na sua terra Natal (New Jersey) em 1978. Na altura, ele dava dois "sets" de hora e meia e depois voltava para mais meia-hora/uma hora de encores. Aquilo nunca mais acabava! 
No sábado não acabei de te contar a minha "história" sobre este concerto: há mais ou menos 4 anos fiquei apanhadinho pela música do tio Bruce e por acaso dei com este concerto. Foi daquelas coisas que mudou a minha vida. Durante 2 anos, esteve em constante repeat no meu carro e arrisco dizer que foi o álbum que mais ouvi (de sempre) no meu carro! Ok, eu tenho um uso muito fácil de superlativos, mas é verdade! Mudou a minha vida! Por isso, quando te gravei o CD, foi como se de uma "entrega" de algo importante e pessoal se tratasse. Agora que já foste apanhada também pela mística do tio Bruce, achei que estavas preparada para ouvir isto! 
E pronto, já tens aí tudo o que precisas para saber tudo do tio Bruce. O trabalho não me deixou enviar isto mais cedo, mas ainda vais bem a tempo!
Desejo-te um bom concerto e, uma vez que vais incentivada por mim, espero que gostes! 
Beijinhos,
Nuno"
Ai, ai, ai, Nuno. Que tontinho. O concerto do Bruce foi espectacular, como é óbvio. O retomar da má ideia é que foi um desastre. O que vale foi que a seguir a uma série de desastres, que culminaram num acidente de automóvel em Setembro desse ano, deu-se início à caminhada que me iria levar para a terra prometida.

5. THE PROMISED LAND


A continuação da história está contada aqui (por escrito) e aqui (na rádio). O caminho para a terra prometida continua. Sempre ao som do Bruce.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Freddie Mercury — "Love Me Like There's No Tomorrow" (2019 Remix)

"Anything can happen but we only have one more day together"


Mesmo a tempo dos festejos do seu aniversário, foi anunciada a nova colectânea de Freddie Mercury — "Never Boring" —, a qual vai ser lançada em duas versões: uma compilação que reúne os temas mais conhecidos da carreira a solo (incluindo a recente remistura de "Time") e uma caixa que junta esta compilação, às versões revisitadas dos dois álbuns que perfazem a sua discografia a solo ("Mr. Bad Guy" de 1985 e "Barcelona" de 1988), mais um DVD e um Blu-Ray com vídeos. O nome do projecto é retirado do famoso pedido que Freddie Mercury fez a Jim Beach, manager dos Queen, quando o nomeou o seu executor testamentário e representante legal na banda: "Do whatever you want with my music, just never make me boring". Foi um pedido que nem sempre foi satisfeito, mas certamente que tal não foi por falta de vontade do Jim Beach.

Os Queen, os verdadeiros, foram votados ao esquecimento pelo Dr. Brian May e pelo Sr. Roger Taylor, uma vez que estão demasiado ocupados a viver o sonho Americano com o Adam Lambert, nas asas do sucesso do filme "Bohemian Rhapsody". Já vamos assim para o segundo ano consecutivo sem um lançamento de arquivo dos Queen. O cenário é ainda mais desanimador, se pensarmos que o último produto verdadeiramente interessante já remonta a 2014 — as caixas do "Live At The Rainbow" — e que este ano tinha sido cogitado o lançamento da caixa de "Live Killers", que iria reunir vários concertos em audio / video da segunda metade dos anos 70.

Se no ano passado havia a desculpa do filme, que estava a canalizar todas as atenções da máquina dos Queen — a Queen Productions Limited (QPL) —, este ano a única explicação é mesmo o completo desinteresse de Brian e Roger pela sua própria banda. O Conselho de Estado da QPL é neste momento formado por Brian May, Roger Taylor, John Deacon e Jim Beach, que representa Freddie Mercury. O voto do John é favorável por defeito; ele tem poder de veto, mas raramente se opõe às decisões dos colegas (até porque continua a receber). O voto do Roger é, por defeito, o que quer que o Brian quiser. E o voto do Jim é, por respeito, também favorável à decisão do Brian.

Como já perceberam, esta estrutura significa que, na prática, quem manda nos Queen é o Dr. Brian May. Por isso, sempre que ele tem uma ideia para um novo lançamento dos Queen, essa ideia é executada se e só se for à sua maneira. Às vezes isto resulta bem ("Made In Heaven", "Live At The Rainbow"), outras vezes nem por isso ("News Of The World 40th", "Queen Forever"). Se ele não tem ideia nenhuma, nada se pode fazer com o nome dos Queen na habitual janela de lançamentos do Natal. O problema é que a editora paga à Queen Productions Limited a peso de ouro para lançar os seus produtos e se não há produtos, há um problema. E é aqui que Jim Beach levanta a mão para falar no Conselho de Estado dos Queen — "Então e se voltássemos a lançar os álbuns a solo do Freddie?". E é assim que nasce "Never Boring". O Jim Beach faz o que pode para carregar, agora sozinho, a tocha do Freddie.



O catálogo a solo de Freddie Mercury já foi revisitado e largamente explorado desde a sua morte. A caixa de 12 discos "The Solo Collection", lançada em 2000, é um documento exaustivo da sua carreira que, na prática, contou apenas com 2 álbuns. Nesta caixa, os álbuns aparecem nas suas versões originais.
Desde então, "Barcelona" foi revisitado em 2012 e totalmente regravado com uma orquestra real, uma vez que o álbum original tinha usado sintetizadores para recriar as orquestrações.
Se viram o filme "Bohemian Rhapsody", reconhecerão "Mr. Bad Guy" como o álbum a solo de Freddie que separou os Queen e correu muito mal. Se a parte dramática da separação da banda foi largamente inventada no filme, o álbum correu mesmo muito mal. É de longe a pior coisa que o Freddie fez em toda a sua carreira. Desde a sua morte, a maior parte das faixas deste álbum já foram revisitadas: para a compilação "The Freddie Mercury Album" (1992) foram remisturados "Foolin' Around" e "Your Kind Of Lover" por Steve Brown, "Let's Turn It On" e "My Love Is Dangerous" por Jeff Lord-Alge, "Mr. Bad Guy" por Brian Malouf e "Living on My Own" por Julian Raymond; "Made in Heaven" e "I Was Born to Love You" foram regravados pelos Queen para o álbum "Made In Heaven" em 1995; "There Must Be More to Life Than This", que originalmente havia sido gravado em dueto com Michael Jackson, foi (mal) reconstruído para a compilação "Queen Forever" em 2014. Tirando este último, surpreendentemente mal executado pelos Queen, todas as remisturas e regravações são superiores aos originais.

O álbum "Mr. Bad Guy" é de facto a ovelha negra do portfolio de Freddie Mercury. Nisto, é preciso dar razão ao Dr. Brian May, quando este pintou o disco como um enorme falhanço comercial e artístico no filme do ano passado. Não há nenhum problema com a composição de Freddie e muito menos com a sua voz, mas há sim um enorme problema com os arranjos, instrumentação e produção. O Freddie precisava mesmo de uma voz que lhe dissesse que "não". Ok Brian, tinhas razão.

É por isso com agrado que vejo que finalmente "Mr. Bad Guy" será totalmente revisitado em 2019 para inclusão na caixa de "Never Boring" (e será lançado em separado também como "Special Edition"). Juntando a versão de 2019 de "Mr. Bad Guy" e a versão de 2012 de "Barcelona", a caixa "Never Boring" torna-se assim complementar à já referida "The Solo Collection" de 2000, o que vai obrigar os fãs (onde me incluo, obviamente) a levá-la para a sua colecção.

Ouvindo a nova versão "Love Me Like There's No Tomorrow", um dos temas que ainda não tinha sido revisitado antes (o outro é "Man Made Paradise"), parece que se levanta um véu na paisagem sonora e agora a voz de Freddie é muito mais clara. O piano foi puxado para a frente da mistura e pela primeira vez, não parece que Freddie está a cantar noutra sala.

É curioso que ninguém se tivesse lembrado de pegar ainda em "Love Me Like There's No Tomorrow", um dos seus temas mais sinceros, profundos e ultra-pessoais. Freddie disse um dia que gostava de escrever canções sobre o que sentia e o que sentia com muita muita força eram as emoções e o amor. Este é dos casos mais flagrantes disso mesmo. Freddie canta sobre o drama da última noite, da noite de despedida, antes da inevitável separação. É uma separação cuja força ele sente ser maior que ele, mas que não inviabiliza o o despejo do depósito das emoções e dos amor, enquanto há tempo. Como se não houvesse amanhã.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

George Michael & Elton John - "This Kind Of Love" (Bento Mix)

"You just have to believe in this kind of love"
"THIS KIND OF LOVE" - O DUETO PERDIDO DE GEORGE MICHAEL E ELTON JOHN



Em 1993, depois do cancelamento do projecto "Listen Without Prejudice Vol. 2" e em pleno conflito com a Sony, George decidiu que queria escrever para outros artistas para não dar dinheiro à sua editora. Fez então um acordo com a Warner Bros e conseguiu 1 milhão de dólares para a sua nova ideia. O projecto, de nome "The Trojan Souls", evoluiu para um álbum de duetos com artistas de nomeada como Elton John, Sade, Seal, Janet Jackson, Stevie Wonder, Aretha Franklin e Bryan Ferry.

O álbum prometia ser um instant hit, mas a morte do seu namorado Anselmo Feleppa devastou o nosso George de tal forma, que o projecto foi abandonado por completo. Pelo meio, ficaram algumas faixas quase completas, outras em versão instrumental, mas nenhuma terminada e misturada para lançamento.

Nos anos mais recentes, estas faixas inacabadas apareceram na internet e David Austin, amigo de George, já explicou que isto se deve ao facto das masters terem desaparecido, o que inviabiliza que este projecto alguma vez se materialize. Por exemplo, a faixa "This Kind Of Love" era suposto ser um dueto com Elton John, mas o que existe na net são dois takes vocais separados, um de George e um de Elton.

Uma vez que o próximo London Calling dará pelo nome de "Something To Save - As canções perdidas de George Michael" e como o próprio nome indica, terá como objectivo dar a conhecer ao mundo algumas das canções menos conhecidas de George, fui a caça do que restava de "The Trojan Souls". Sabendo da existência destas preciosidades, procurei na net uma versão do dueto que combinasse os dois take vocais de George e Elton e que alguém já tivesse remisturado, para incluir no programa. Não encontrei.

Decidi então que eu próprio tinha que pôr as mãos à obra e dar ao mundo o dueto nunca ouvido entre George Michael e Elton John. E eis que com os meus limitados skills de mixer e ainda mais limitada disponibilidade, em duas horas fiz aquilo que podem ver como uma amostra do que poderia ter sido "The Trojan Souls".

Senhoras e senhores, pela primeira vez na história, eis "This Kind Of Love" (Bento Mix), o dueto de George Michael e Elton John.

Legenda:
George Michael
Elton John
George & Elton


George Michael & Elton John - "This Kind Of Love" (Bento Mix)

You don't have to think about it
You don't have to do without it
Just have to believe
In this kind of love

You don't have to be so scared
You don't have to hide that you care
You just have to believe
In this kind of love

Everybody's telling me that these are dangerous times
But you and me, can't you see baby?
Maybe we have better take a little care with this love

Oh I know
Cause I can't be happy without you
Then I'll be the one

Now that I've found you
Now that I've found you
Now that I've found you

I don't have to hold you down
I don't need to push you around 
I just want you to be
This kind of love

And if someone hurt you before
Can't you see, all that I wanna give you much more
Just have faith in me  
This kind of love   

Everybody's telling me that these are dangerous times
For you and me, can't you see baby?
People got to take a little bit of care when they got doubt
Don't let it go, no, never, no

And all I know
I have no reason to doubt you
Don't you think it's time to believe in someone?
So I'm telling you

Now that I've found you
Now that I've found you
I can't let you go
Found you

Nobody's perfect, we all have a past
When you look at me
How can you ask if I love you?
Is it so hard to see?
Now everyone has to get older I know
But this empty house seems to get colder and colder
So, won't you stay here with me?

And all I know is
I have no reason to doubt you
Don't you think it's time to believe in someone?
So I'm telling you

Now that I've found you
Now that I've found you I can't let you go
Found you


Escusado será dizer que é muito difícil conter o meu entusiasmo com o programa que aí vem.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Queen - "Bohemian Rhapsody"

"Anyway the wind blows"


Sim, a banda sonora do "Bohemian Rhapsody" entrou no meu telemóvel às 6 da manhã, mas na boa demência que é isto de ser um fanático dos Queen, já aqui vos trago a primeira review do que vamos ouvir no filme da vida do Freddie.

O álbum começa com o jingle da 20th Century Fox interpretado pelo Brian e pelo Roger e OMG, OMG, OMG. Impossível não ficar logo aos saltos na cadeira. Depois da versão do hino britânico que apareceu no álbum "A Night At The Opera" (1975) e da marcha nupcial no "Flash Gordon" (1980), os rapazes não podem ficar por aqui e sugiro já a reinterpretação do hino nacional, do hino do Benfica e do hino do Jardim Escola João de Deus. Desta forma todos os hinos da minha vida ficam covered pela guitarra do Dr Brian.

Aparentemente não havia gravações de arquivo dos Smile - a banda de Brian, Roger e Tim Staffel que deu origem aos Queen  - que se pudessem salvar e por isso os rapazes foram para estúdio com o Tim passados quase 50 anos e regravaram "Doin' All Right" (é sem o "g", ó Brian!). É bem, Bri. É bem. Aprovo.

Uma das grandes novidades da banda sonora é a versão ao vivo de "Fat Bottomed Girls" gravada em Fevereiro de 1978 em Paris e lamentavelmente excluída do subsequente álbum ao vivo "Live Killers". Ora, o que acontecia neste segmento do louco show dos Queen nesta tour é que entravam em palco dezenas de miúdas nuas em bicicletas enquanto a banda tocava (é audível o entusiasmo de Freddie na gravação). Isto deixa antever que vamos ter alguma ousadia (e alguma nudez!) no filme. Será que o Dr. Bri deixou?

Não consigo ainda acreditar que o filme tem o atrevimento de mostrar o Brian a compor o "We Will Rock You" com o Freddie de bigode. Para quem não sabe, o Freddie deixou crescer o bigode em Março de 1980 (a primeira aparição num disco foi no single de "Play The Game" em Maio desse ano) e "We Will Rock You" foi gravado no verão de 1977 para o álbum "News Of The World", quase TRÊS ANOS ANTES!!! What the fuck, Brian? Eu sei que os fãs dos Queen mamam tudo o que lhes pões à frente (começando por mim), mas não somos assim tão tapadinhos.

Espero bem que o moustachegate (tinha que cunhar algum nome para este verdadeiro escândalo) seja o único grande major issue temporal do filme. Mas espera aí. Na banda sonora o "Bohemian Rhapsody" (de 1975) aparece DEPOIS de "Fat Bottomed Girls" (de 1978)! Tu queres ver?

Um dos pontos altos da banda sonora é a versão absolutamente breathtaking de "Love of My Life" gravada no primeiro Rock In Rio em 1985 e cantada em plenos pulmões por 250 mil pessoas. É um dos pontos altos da história dos Queen, que aparece aqui pela primeira vez em disco. E eu estou felicíssimo, uma vez vou poder usar isto para o "London Calling" da próxima semana sobre os Queen ao vivo nos anos 80.

Outro ponto alto é a também estreia em disco da aparição dos Queen no Live Aid em 1985. São 23 minutos que para algumas pessoas representam o pináculo de toda a existência humana. Para mim, por exemplo. É com esta cena que o filme (alegadamente) termina e eu espero que sim. Não vejo melhor final para um filme dos Queen que a coroação de Freddie.

All in all, bela banda sonora, muito mais-do-mesmo como era esperado, mas com novidades mais que suficientes para os fãs dos Queen comprarem o disco. Eu vou já daqui a bocado à Pop Up Shop do Bohemian Rhapsody na Carnaby Street para tratar disso.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Roger Waters – "It's A Miracle"

"Miraculous you call it babe, you ain't seen nothing yet"


Faz um mês que tive uma inundação trágica. Não acredito em Deus nem no Diabo, mas a desgraça teve tais requintes de malvadez, que mais parecia ter sido obra do Demo.

Apesar de ter os meus discos de vinil devidamente arrumados nas prateleiras com rigor bibliotecário, uma vez que tenho que aceder às prateleiras de escadote (eles chegam ao tecto e o pé direito tem 4 metros de altura), tenho os que estão em rotação corrente cá em baixo, cuidadosamente guardados num banco; banco esse onde figura também o poster do "The Division Bell" assinado pelo David, Nick e Rick (já devia estar na parede, eu sei). Ora, alguns destes discos têm enorme valor sentimental e coleccionista, caso da primeira prensagem do "The Wall" que vêem na imagem. E do poster assinado, enfim, nem preciso dizer nada.


Pois que há um mês tive uma inundação vinda do apartamento de cima e de todos os sítios do apartamento onde a água podia ter caído, foi escolher precisamente o centímetro onde os meus discos preferidos estão encostados ao poster do meu álbum preferido.

Para tornar a situação mais dramática, isto aconteceu na hora em que estava na cozinha a fazer o jantar, pelo que demorei uns bons 10 ou 15 minutos até me aperceber da tragédia que se abatia sobre mim.

Quando cheguei ao local da catástrofe, gelei. Nem queria acreditar no que estava a acontecer. Aflito, tentei salvar os discos da maneira que pude e corri a buscar toalhas e um secador. Mas parecia que não havia nada a fazer. Imaginem água suja de infiltração a cair sobre papel com 40 anos de idade, mais velho que eu. As capas dos discos ficaram todas engelhadas. Uma tragédia, portanto.

Como não sou de ficar derrotado tão facilmente, passei horas a minimizar os estragos e para tentar restaurar as capas, meti-as debaixo de uma pilha de discos.

Um mês passou e o milagre aconteceu. Como o autocolante da Flashback mostrar, a água passou por ali, mas a cama do meu The Wall está agora lisinha, como nova há 40 anos. Como diria o Roger himself, it's a fucking miracle.

P.S.: A causa da inundação? Facilmente identificável. Era sábado à noite e os meus vizinhos de cima, um casal germânico-coreano, estavam na brincadeira na banheira e a água transbordou para o chão em quantidades que sabe-se lá. Como é que eu sei? Em primeiro lugar porque eles ouvem-se. Muito. E muito alto. Especialmente ela. E porque fui lá em cima e estavam os dois meio molhados e enrolados em toalhas. Não é preciso ser o Einstein para perceber o que se estava ali a passar.

P.P.S.: Hoje é dia de Roger no Hyde Park. E' o meu 6º concerto do Roger e o 15º Floyd related:

Roger 2002/05/04 Lisboa
David & Rick 2006/03/15 Paris
Roger 2006/06/02 Lisboa
Roger 2012/03/21 Lisboa
Roger 2013/09/13 Wembley Stadium
David 2015/09/12 Pula
David 2015/09/14 Verona
David 2015/09/15 Firenze
David 2016/03/24 Hollywood
David 2016/03/25 Hollywood
David 2016/07/08 Pompeii (front row!)
David 2016/09/30 Royal Albert Hall
Roger 2018/05/20 Lisboa
Nick 2018/05/24 Putney
Roger 2018/07/06 Hyde Park

O melhor do concerto de hoje? Pensar que vou ver o Roger no Hyde Park e vou a pé para casa. What a life.

sábado, 9 de junho de 2018

Peter Gabriel - "Big Time"

"The place where I come from is a small town, they think so small, they use small words"

Castelo Branco

Sempre tive uma relação muito difícil com a minha cidade natal. Bem, chamar ao meu sentimento por Castelo Branco uma "relação difícil" é obviamente um eufemismo somente dado ao facto do texto ser público. Deixemo-nos de palavras pequenas. Na verdade, sempre odiei o sítio de onde vim. E o tempo não melhorou o meu desdém.

"I've been stretching my mouth, to let those big words come right out"

"So" foi o álbum onde Peter Gabriel quis ser grande. Depois de se libertar das amarras dos Genesis em 1975, Peter embarcou numa carreira a solo onde pôde fazer uso da liberdade que a caixa dos Genesis (que é como quem diz, o Tony Banks) não lhe permitiam gozar.

O próprio Peter não negou a sua vontade em disparar para outras alturas. Em 1985, quando gravou "So", já dez anos tinham passado desde a sua separação dos Genesis. Nesse espaço de tempo, viu a banda alcançar mais sucesso do que alguma vez havia conseguido com ele, ou do que ele conseguira a solo. E claro, viu o seu amigo Philip, o insuspeito baterista da banda, o homem atarracado da sombra a quem poucos davam crédito, a tornar-se uma superestrela internacional com milhões de discos vendidos, muitos mais do que ele ou a banda já tinham vendido. Era altura de ripostar.

"Big Time" é o espelho do que PG estava à procura naquela altura. É sátira. Foi o auto-retrato satírico que Peter Gabriel fez a si mesmo, no álbum que usou para, conscientemente, atingir o sucesso: "This drive for success is a basic part of human nature and my nature". Genial. Como não poderia deixar de ser, Peter foi acusado pelos puristas de fazer um sell out com este álbum (fucking Genesis fans), mas ele sabia exactamente o que estava a fazer. E é aqui que devemos atentar.

Peter é um homem muito inteligente. Não sei de níveis de QI, mas pela complexidade que sempre exigiu da sua música e respectivo significado, Peter Gabriel será muito provavelmente o homem mais inteligente da história do Rock. É fácil alguém se identificar com os conflitos de Roger Waters. Não é de todo tão fácil identificar-se com os traumas de um homem que desenvolve uma obsessão por alfaces.

"I worked it out"

No plano estritamente teórico, de certa forma entendo o encanto bucólico do campo, ou no caso de Castelo Branco, de uma cidade sem trânsito nem correrias, em que se demora 5 minutos a chegar a qualquer lado e em que hora de ponta significa adicionar 15 minutos aos 5 habituais.
Tenho a perfeita noção que o problema não é de Castelo Branco, é meu. Não que eu goste de entrar em lugares comuns, mas este é o caso proverbial de "It's not you, it's me". Não sou dali. Nunca pertenci ali. Nunca na minha vida estive em Castelo Branco e me passou pela cabeça um raciocínio como "este é o meu lugar", ou "é aqui que eu pertenço". Não senti isso nos 17 anos que eu lá vivi. Não senti isso nos 16 anos seguintes que vivi em Lisboa e visitava a cidade esporadicamente. Não senti isso agora que emigrei e regressei à terra onde nasci. Posso entender o fascínio teórico, mas não é para mim.

Nada disto tem a ver com patriotismo. A viver no estrangeiro, cada vez mais me me sinto português e cada vez menos albicastrense. É estranho, mas é o que é.

Sempre odiei a calmaria. Aliás, não há nada que me deixe mais nervoso do que quando me dizem "tem calma, Nuno". Até fico com suores frios. Quando a minha mãe me diz para "ver isso com calma", até tremo. Não, mãe. Não, não, não. Seguir os impulsos sempre foi a minha forma de viver. Sempre me alimentei do barulho e das multidões. Sempre me ferveu o sangue. Para mim, Castelo Branco era a antítese de tudo o que eu era. É um lugar estranho para mim.

"I've had enough, I'm getting out to the city, the big big city"

Sentia-me sufocado em Castelo Branco. Contava os dias para sair de lá. Mas contava mesmo. Literalmente. Era uma ansiedade indizível de sair, de me ir embora dali e ir em busca do meu próprio "Big Time". Tinha uma folha quadriculada onde fazia ticks diariamente no dia de ontem — menos um, menos um, já falta pouco. Estava lá marcado o dia 29 de setembro de 2003, o dia em que começava o ano lectivo no Instituto Superior Técnico. Sabia que a partir daquele dia, tudo seria diferente. E assim foi. Na manhã de domingo, 28, arrumei a minha colecção de CDs numa caixinha (na altura ainda cabia ali) e acondicionei-a ao meu lado no carro do meu Pai. Meti-me dentro do automóvel e nunca mais olhei para trás.

A partir daí, foi sempre a trabalhar em busca do "Big Time". Ou de todos os big times que tinha na cabeça. Dizem-me que já alcancei alguns, mas nunca deixei de sentir aquela ansiedade indizível. Nunca senti que cheguei ao "Big Time". E por isso aquela ansiedade permanece, lingering, a perseguir-me dia após dia.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Crowded House – "Hole In The River"

"There's a hole in the river where my auntie lies"

Barreiro 

Sendo filho da irmã mais nova de cinco do lado da minha Mãe e do segundo mais novo de quatro irmãos do lado do meu Pai, cresci num imaginário carregado de tios, tias e primos por quem tinha um enorme fascínio, especialmente os meus primos mais velhos e particularmente os que estavam mais longe – os meus primos do Barreiro.

É preciso perceber que nesta altura ir de Castelo Branco a Lisboa era uma epopeia que durava 5 horas de estradas nacionais e paragens à beira estrada para fazer chichi. Para um miúdo de 5 anos eram 5 horas que pareciam 5 eternidades. A viagem para ver os meus primos era penosa, mas a recompensa saborosa.

Adorava a minha prima Patrícia. Como não? Ela tratava-me como um príncipe. Pegava em mim e passeava-me ao colo pelas ruas do Barreiro, enquanto me cantava ao ouvido as suas músicas preferidas do George Michael e do Rick Astley. "Bagaquétchu", repetia eu, quando ela me ensinava a dizer "Never gonna give you up". Adorava, adorava, adorava. Best fucking days of my life. Tudo era diferente, desconhecido e misterioso, um mundo de ruas, edifícios e cores diferentes das que conhecia em Castelo Branco. O deslumbramento era total.

Mas por muito que adorasse a minha prima Patrícia, o meu grande ídolo era o irmão mais novo dela, o meu primo Marco.

O Marco era para mim o exemplo máximo de coolness no mundo. Mas não era só eu. Toda a família venerava o Marco. Ele era visto como um deus grego que irradiava simpatia, era outgoing e ajudava nas tarefas e tudo vestindo sempre um sorriso. Era impossível não gostar dele. Mas o Marco parecia ter um fascínio por mim inversamente proporcional ao que eu tinha por ele. Eu venerava-o e ele parecia desprezar-me com veemência. Sabia lá eu. Ele devia achar que eu era só um puto estúpido e não me ligava nenhuma.

Um dia, o Marco comprou uma mota. Nada de mais, poder-se-ia pensar. Só que ter uma mota no Barreiro trouxe-lhe amigos e um estilo de vida que acabou com a vida dele. Perdeu-se nos caminhos por onde escolheu andar. Nunca mais se encontrou. Uma pena. Tanta esperança depositada no rapaz, para nada.

Elusivo e com um discurso cada vez mais desconexo, caiu em desgraça na família e também eu rapidamente deixei de o achar cool. Como lhe tomei o lugar de mais cool da família, o desprezo dele por mim pareceu ficar ainda mais vincado. Como nos fomos afastando como pessoas, nunca partilhámos grande coisa ao longo dos anos.

Até que um dia fui viver para a casa dele no Barreiro.

As voltas que a vida dá. Eu tinha sido expulso de todas as casas onde vivera em Lisboa (uma delas acabara numa épica cena de pancadaria) e a minha tia Maria José tomou-me em casa dela – onde o Marco ainda vivia – e tratou-me como um príncipe. Lamentavelmente, um príncipe vegetariano (a minha tia não permitia que entrasse carne lá em casa), mas um príncipe nevertheless. Ela fazia tudo o que podia para me agradar e um dia até fez uns bifinhos de peru só para mim. Tenho com ela uma dívida de gratidão que temo nunca conseguir pagar na mesma magnitude.

Estes meses coincidiram de forma bizarra com o único período em que o Marco viveu uma vida adulta, digamos, normal. Que é como quem diz, levantar-se cedo todos os dias e ir trabalhar. Para nós algo tão prosaico, para ele uma penitência que lhe parecia sugar a alma. Saíamos todos os dias às 7 da manhã de carro e ele deixava-me na estação de barcos para eu apanhar o Catamaran para o Terreiro do Paço e depois seguir para o Técnico. Aquela rotina foi a única coisa que realmente partilhámos em 30 anos. Aproximou-nos. Finalmente, éramos sort of amigos. Mais ou menos, mas éramos qualquer coisa. Ele confessava-me o quão penoso era aquele ordálio de levantar cedo e eu via-lhe nos olhos que aquilo não ia dar. Não por muito tempo.

Os três meses que vivi no Barreiro passaram num instante.Via a situação como algo temporário e por isso nunca criei laços com aquele lugar. Na minha última noite no Barreiro, eu e o Marco fomos jantar a casa da minha tia Maria – irmã mais mais velha da minha Mãe e da minha tia Maria José. Nessa noite cumpriu-se família.

A minha tia Maria irradiava felicidade por nos ter a jantar lá em casa. De facto, aquela mesa apresentava uma concentração de coolness no ramo familiar em níveis estratosféricos. A ocasião era solene e ela não fez por menos: deu-nos luz verde para assaltarmos o armário de licores  e assim o fizemos. A minha tia adorava um copozito, principalmente desde a morte do marido. Eu e o Marco também, desde sempre. Deve ser de família. Embebedámo-nos todos como os velhos amigos que nunca fomos, três gerações diferentes a cruzar estórias de vida por entre copos de Drambuie. E o desejo do pequeno eu foi finalmente cumprido, ainda que apenas por uma noite. A noite do último jantar.

"There's a hole in the river where a memory lies"

"Hole In The River" é um tema do álbum de estreia dos Crowded House que conta uma história verídica. Em "There's a hole in the river where my auntie lies", Neil Finn está mesmo a cantar sobre a sua tia: "That actually was a rare occasion where I sat down and had a story to tell. I'd just been told over the phone by my father that his sister had committed suicide. I was playing the tune on the piano before he rang me, and then he rang me and I just repeated it, basically, to the melody.".

O tema é apenas mais um dos exemplos da twisted sweetness que é a música dos Crowded House. Canções sujas com roupagens cândidas. Lobos com pele de cordeiro. Niilismo colorido. E é precisamente isso que me apaixona nos Crowded House. Depois de ler sobre a origem desta canção, experimentem atentar nas backing vocals caóticas na coda do tema. A mulher a gritar la muito atrás. Até aperta o peito.

"We were touched by a cold wind"

De forma trágica e quase-profética, quando finalmente saí do Barreiro e fui para a minha casa em Lisboa (onde viveria durante os 13 anos seguintes), o Marco despediu-se do único emprego estável que alguma vez teve e voltou para a sua vida errática e sem rumo.

A minha tia também se perdeu pouco depois para uma relação geriátrica (nada contra o amor tardio, desde que saudável) com um velho que lhe deu o que ela queria, mas não o que ela precisava. Durante anos, falou da noite do último jantar com o orgulho de quem recebe o Rei em casa, gabando-se de ter sido a anfitriã de tão solene momento.

Ao contrário da minha avó (que fica para outro episódio), a minha tia era fraca e quando a relação geriátrica acabou, ela quebrou e não sobreviveu ao lar de idosos onde foi despejada. Quando se sentiu abandonada, a minha tia morreu. Sem mais. Sem avisos. Semanas depois. De tristeza, como um cão abandonado pelo dono. E eu nem sequer lhe pude dizer adeus, ou dizer-lhe apenas "sonhos cor-de-rosa", como ela me dizia quando me deitava quando tinha 5 anos. Que miséria.

O tempo mata tudo. Tudo. E por isso não há, nem pode haver, tempo a perder. É aproveitar o tempo que temos e atar laços com os que amamos. Atar essa merda com toda a força possível. A sério. É não ter medo de nos darmos a quem gostamos, porque são esses momentos, aparentemente pequenos e insignificantes, que uns anos mais tarde vão estar a recordar e a escrever furiosamente no telemóvel durante uma viagem de regresso a casa, a primeira como emigrante, enquanto lêem uma biografia do Johnny Marr. Momentos como o jantar da última noite no Barreiro.

O laço que formámos naquela noite ficou ate ao fim. Poucas semanas antes de morrer, já sob delírios de insanidade, ela clamava por um perfume que eu um dia casualmente lhe disse que cheirava bem – um comentário sem importância nenhuma para mim, mas que ela guardou como um tesouro para si. Porra. Quando me contaram a história até fiquei com o coração apertado.

Desde aquela noite, nunca mais voltei ao Barreiro.
Minto. Voltei uma vez. Para enterrar a minha tia.

"There is no return"

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Nirvana - "Sliver"




Vi o "Supernanny". Não fiquei assim tão chocado


Quem já me leu mais que uma vez, especialmente quando trato de assuntos sociais, sabe que eu sou um libertário por natureza. Creio piamente nas liberdades individuais e apoio qualquer decisão de um indivíduo, seja ela gostar do mesmo sexo, mudar de sexo, recusar sexo, seja ela qual for, desde que venha de um adulto e que não prejudique directamente terceiros. Este princípio serve para tudo e elimina a esmagadora maioria dos argumentos em favor da censura, invariavelmente frutos de insegurança, medo e ignorância. A educação é a chave de tudo, não a censura. Só há uma restrição a este princípio libertário: é que serve unicamente e como refiro em cima, para os adultos.

Só os adultos têm bases comportamentais e cognitivas para tomar decisões responsáveis, ou pelo menos para serem responsabilizados por isso. As crianças, por seu turno, devem ser protegidas e devidamente educadas, de forma a poderem chegar a adultos informados, capazes de tomar decisões com pleno conhecimento do mundo que os rodeia, ou pelo menos para não votarem no Trump ou outras parvoíces como impedir a vacinação dos filhos.

Serve esta longa introdução para contextualizar a polémica do novo programa da SIC. O "Supernanny" é muito basicamente um spinoff o "Pesadelo na Cozinha" com crianças, em que o Stanisic é uma milf. E começo por dizer que na televisão, como no resto, sou igualmente defensor da liberdade total. Acho que todos os conteúdos televisivos devem ser permitidos, desde que, mais uma vez, seja salvaguardada a protecção das crianças.
Exemplo concreto: a pornografia deve ser transmitida em televisão? Deve. (não pode). Mas só a partir da meia-noite. Ao garantir isto, a TV está a zelar pelos interesses da criança. Se houver uma criança a ver TV a partir da meia-noite, a responsabilidade já é dos pais, que já deviam ter posto a criança na caminha àquela hora.
See? Simples.

O caso da "Supernanny" cai numa área cinzenta muito interessante, uma vez que é um programa para adultos (dá às 21:40, 40 minutos depois da hora de lavar os dentes e a 20 minutos da hora em que já eu já me arriscava a uma palmada se não estivesse na caminha), não devendo por isso ser sujeito ao mesmo critério que a programação do Canal Panda. Por outro lado, é um programa com crianças e tem como conteúdo a exploração da sua imagem. Estamos aqui a salvaguardar o superior interesse da protecção das crianças? Nem por isso. Volto ao exemplo de há pouco: a pornografia deve ser transmitida em televisão? Deve. A pornografia infantil deve ser transmitida em televisão? NÃO. Nem o Senhor Televisão se lembrou de uma dessas.

Portanto, a "Supernanny" explora a imagem das crianças? Explora. Isso é condenável? É. Mas não é mais condenável que todos os outros reality shows que também exploram a imagem de crianças. Todos os programas que põem os miúdos a cantar, dançar, ou cozinhar perante um júri, tantas vezes cruel e impiedoso para com as crianças são tão ou mais nocivos e traumáticos que o "Supernanny". E os miúdos na publicidade, com os paizinhos a encher o bolso? E já nem falo nos child actors, que em tantos casos descendem para uma adolescência de drogas e comportamentos desviantes. Mas esse é o preço de vermos o "Sozinho em Casa" no Natal (a propósito, não deixem de ler o artigo "Kevin McCallister is a sexist pig"; a sério, googlem) e de termos aqueles filmes com animais que falam no Domingo à tarde, não é?

Tanto alarido porquê, então? Porque os pais reconhecem muitas das figuras tristes que têm em casa? Provavelmente. As imagens incomodam? Claro que sim. É essa a ideia. Eu não sou pai, por isso talvez não incomode tanto. Mas faz-me muita confusão ver tanto moralista, tão chocado com o "Supernanny" e tão oblívio ao Masterchef Junior e programas derivados. Se é para discutirmos a exploração da imagem das crianças, então discutamos o essencial e proibimos tudo e deixemos o acessório.

P.S.: Relativamente ao último programa. Então a mãe, coitada, não lhe chegava ter que fazer tudo em casa, ainda tem a responsabilidade de educar e disciplinar sozinha os filhos? Depois de uma sessão de insultos e pontapés do fedelho à mãe, o pai chega a casa e ainda tira autoridade à mãe? É só festinhas? Que coninhas de primeira.

P.P.S.: Dispensa-se a perseguição mediática à psicóloga do programa. Que merda de hábito é este de nos focarmos no acessório, em vez do conteúdo. O que é que interessa a vida a vida pessoal da senhora?

P.P.P.S.: A música do post é uma birra de um puto. Foi obviamente escolhida à pressão, por isso não me fodam a cabeça.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

António Variações - "Estou Além"

"Tenho pressa de sair / Quero sentir ao chegar / Vontade de partir / P’ra outro lugar / Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar / Porque até aqui eu só / Estou bem / Aonde não estou / Porque eu só quero ir / Aonde eu não vou / Porque eu só estou bem / Aonde não estou"

O António Variações é que a sabia toda. O sentimento de inadequação que descreve no seu hit "Estou Além" ("Anjo da Guarda", 1982) é algo que me acompanha desde sempre, uma armadilha da condição humana directamente ligada àquela tentação inócua de pensar n'o que podia ter sido. Todos o fazemos. Eu talvez abuse mais um bocadinho, porque remoer tudo até à infinita iteração é o modo de funcionamento automático do meu cérebro. Não tenho culpa que a minha cabeça me fustigue incessantemente com universos paralelos d'o que podia ter sido, caso tivesse feito as coisas de outra forma.

Pensar n'o que podia ter sido não é mais que uma forma de auto-ressabiamento, mas mais do que ressabiar o que fiz, a minha regra é só me arrepender do que ficou por fazer. É por isso que de todos os que podia ter sido da minha vida, o que sempre me bateu com mais força foi aquela vez em que estive a uma assinatura de cumprir o meu destino de viver em Londres. As estrelas estavam todas alinhadas: havia dinheiro em cima da mesa; havia a promessa de uma carreira; havia interesse de todas as partes. Havia tudo. Então por que raio eu não fui?!

Sempre me imaginei a viver em Londres. Londres é o centro do (meu) universo, a capital do país que deu à luz quase todos os meus ídolos, onde todos eles viveram (alguns ainda vivem) e que a todos consagrou em espaços sagrados como o Estádio de Wembley, Earl's Court, Hammersmith Odeon, Rainbow Theatre, Marquee e por aí fora. Por isso sempre me fez todo o sentido mudar para lá e viver as mesmas experiências que os meu ídolos viveram. Claro que a realidade não funciona bem assim, uma vez que só na minha cabeça é que sou uma "Rock 'n' Roll Star", mas pelo menos poderia estar no sítio onde tudo acontece primeiro e assim poder testemunhar ao vivo o nascimento do meu próximo ídolo.

Notem que em lado nenhum me referi a Londres como um "sonho". Não é bem disso que se trata. Lá em cima utilizei a expressão "cumprir o meu destino" porque na verdade, sempre achei que Londres era onde eu ia parar, era ali que eu pertencia. Como se a minha mudança fosse uma inevitabilidade. Não é um sonho na medida de, por exemplo, ver o Benfica campeão europeu, ou dar um abraço ao David Gilmour. É sim algo que eu sempre senti que tinha que fazer. Se é que esta dicotomia vos faz algum sentido.

Há cerca de cinco anos, a viver naquela agitação permanente (tão bem descrita pelo António Variações) de nunca estar satisfeito com o que tinha, achei que estava na hora de mandar tudo ao ar e ir atrás do meu destino londrino. Comecei a mandar currículos em Agosto e a resposta foi overwhelming. Estava de férias e na praia o telefone não parava de tocar com propostas para entrevistas. London was calling, literalmente. Para fazer o bingo de coincidências, tinha um concerto do Roger Waters no Estádio de Wembley marcado para Setembro, daí a poucas semanas. Uau. Parecia que o destino queria mesmo que eu fosse para Londres.

Mas já diz o ditado: Careful with what you wish for. Sem que eu tivesse tempo para reflectir, eles meteram-me um contrato à frente. Bastava assinar o papel et voilá, cumpria-se o destino de viver Londres. Não assinei. De regresso a Lisboa, poucos dias depois da entrevista, voltam a ligar-me com uma proposta mais alta. Voltei a rejeitar. Porquê? Fuck knows. De todos os que podia ter sido, este sempre foi aquele que mais dificuldade tive em encaixar. Foi uma decisão que tomei e que nunca soube se foi a mais correcta. Será que Londres não era, afinal, o meu destino? Ou será que simplesmente ainda não tinha chegado a hora de assinar o papel?

Importa agora chamar a atenção que os parágrafos em cima foram adaptados de um texto que escrevi no Verão passado, onde reflectia sobre o meu destino nunca cumprido de Londres. Mal eu sabia que, poucos meses volvidos, chegaria a hora de assinar o papel.

Vou finalmente cumprir o meu destino londrino e para que não falte nada para completar a experiência, vou viver em Earl's Court, outrora palco que coroou todos os meus ídolos: os Queen em 1977 na digressão da obra-prima da banda "A Day At Races"; os Pink Floyd em 1973 na digressão de "The Dark Side Of The Moon", em 1980 1981 com o espectáculo megalómano de "The Wall" e em 1994 com catorze concertos (um recorde na altura) que fecharam a digressão de "The Division Bell"; os Oasis em 1995 com a digressão de "(What's the Story) Morning Glory?". Percebem a ideia. Agora que o Earl's Court Exhibition Centre foi abaixo, serei eu "Live at Earl's Court".



Mas há mais. Vou também viver ao pé da casa onde viveu o Rei. A meros 500 metros do Garden Lodge de Freddie Mercury estarei protegido; posso sentir-me em casa. Porque esteja onde estiver, não há para mim sentimento igual ao de casa. Talvez por isso desde o concerto da Passagem de Ano que só ouço música portuguesa. Wait, what? Ainda nem fui e já estou com saudades disto. Et voilá, vejam lá o Variações a acertar outra vez. Agora não há volta atrás. Citando outro clássico do Rock português, agora é "carga pronta e metida nos contentores" e "adeus aos meus amores que me vou para outro mundo". Espero trazer-vos novidades de lá.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Elton John – "Sixty Years On"

"I've no wish to be living sixty years on"



"The next song we're gonna do holds a great deal to the arrangement by Paul Buckmaster. This is called 'Sixty years On'"
Elton John live at the BBC


Reavivo o blog para uma homenagem que me obrigo a fazer.

Hoje perdemos mais uma lenda – o grande Paul Buckmaster. "Quem?", perguntarão os mais incautos.
Paul foi o responsável pelos arranjos orquestrais dos primeiros álbuns de Elton John e um dos principais obreiros da superlativa discografia do seu início de carreira e até, por que não, do big break do próprio Elton John.

Elton nunca se coibiu de sublinhar a importância de Paul na sua música (como podemos ouvir em cima numa performance para a a BBC), ao ponto de vermos Paul listado como membro da banda nos primeiros álbuns. Pela minha parte, que amo com toda a força "Elton John" e "Tumbleweed Connection" – álbuns que me fizeram companhia quando morria de saudades de casa quando vivia na Polónia –, tenho a perfeita noção que se não fosse por Paul, a música que eu amo não teria sido a mesma.

"Space Oddity" foi a primeira vez que Paul Buckmaster apareceu num grande hit. Ganhou nome e daí saltou para os discos de Elton John (que já era grande fã de Bowie, ainda antes de ele ter sucesso). Depois ganhou reconhecimento tal, que lhe permitiu fazer música com centenas de artistas nas décadas seguintes, entre eles os Rolling Stones, os Guns N' Roses e mais recentemente, os Tears For Fears, no magnífico "Secret World". A ele se deve muito do feeling épico do tema.

Mas ainda não ouvimos tudo da obra de Paul Buckmaster. Ficou a faltar ouvir a banda sonora original que Paul produziu com Bowie para o filme "The Man Who Fell to Earth", cancelada à última hora por falta de tempo de Bowie. Só posso imaginar a obra prima que ali pode estar.

Fica a minha homenagem ao eterno Paul Buckmaster, sem o qual a minha vida teria sido um bocadinho menos feliz.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Peter Gabriel - "Sky Blue"

"I keep moving to be stable"


Uma das armadilhas da condição humana é aquela tentação inócua de pensar n'o que podia ter sido. Todos o fazemos. Eu talvez o faça um bocadinho mais que a média, porque remoer tudo até à infinita iteração é o modo de funcionamento automático do meu cérebro. E é por isso que letting go sempre foi o meu maior martírio, algo que eu simplesmente não controlo. Não tenho culpa que a minha cabeça trabalhe a mil e as minhas memórias me fustiguem incessantemente com universos paralelos d'o que podia ter sido se eu tivesse feito as coisas de outra forma.

Não estou aqui para vos leccionar sobre se devem ou não remoer o passado. Só quero apontar o facto que isso acontece e que não podem fugir dessa fatalidade. Fora isso, de moral, não aprendem nada aqui. Nem eu a tenho para vos ensinar, nem isto é um livro de auto-ajuda. If anything, o que escrevo pretende ser exactamente o oposto de um livro de auto-ajuda. Tenho aversão ao cenário fantasioso pintado nessa literatura, onde a negação da realidade só serve para afundar ainda mais o leitor num estado de alienação (e para encher os bolsos do escritor). A realidade pode ser podre, mas é tudo o que temos. Fugir dela é negar a vida na sua essência.

O meu problema com os livros de auto-ajuda é que todos negam a própria condição humana. Todos advogam a repressão de quaisquer sentimentos de tristeza, amargura, ou ressabiamento. Mas esses sentimentos fazem parte de nós, são do nosso dia-a-dia. Temos que lidar com eles inexoravelmente. São reais. E porque são reais, merecem ser celebrados — não literalmente, isso seria deprimente — mas como a prova legítima que estamos vivos. No grande quadro da vida, são esses momentos viscerais de contacto intenso com a realidade que compõem what this shit is all about. Somos humanos e não há mal nenhum nisso. Quando cai a máscara e o sangue ferve, é aí que a vida acontece.

Ui, onde é que eu já vou. Como é hábito, comecei a divagar e já misturei aqui dois ou três posts que queria escrever.

Pensar n'o que podia ter sido não é mais do que uma forma de auto-ressabiamento, um ressentimento para com a merda que fizemos. E tanta merda que eu já fiz. O mais curioso é que apesar de a remoer até ao infinito, acabo por nunca me arrepender de nada. Tenho o meu juízo em boa conta, parece-me. Por outro lado, arrependo-me muitas vezes do que não faço. Aliás, a minha regra é que só me arrependo do que ficou por fazer. É por isso que de todos os que podia ter sido da minha vida, o que me bate com mais frequência talvez seja aquela vez em que estive a uma assinatura de cumprir o meu destino de viver em Londres. As estrelas estavam todas alinhadas: havia dinheiro em cima da mesa; havia a promessa de uma carreira; havia interesse de todas as partes. Havia tudo. Então por que raio eu não fui?!


"Sky Blue" é um dos temas-chave do (ainda) mais recente álbum de originais de Peter Gabriel — "Up" de 2002. Foi escrito originalmente para a banda sonora do (grande) filme "Rabbit Proof Fence", lançado no mesmo ano (obrigado Rita!). O filme conta a história de três meninas aborígenes que são raptadas na Austrália dos anos 30 para servir famílias brancas e por isso são levadas para o outro extremo do país. A única esperança que as meninas têm para regressar a casa é seguir o trilho de uma vedação de 2400 quilómetros que atravessa o deserto australiano, colocada para impedir a migração de coelhos (daí o nome do filme).

"Long Walk Home" é o nome da banda sonora de "Rabbit Proof Fence", um álbum que junta duas versões de "Sky Blue" — "Ngankarrparni (Sky Blue - Reprise)" e "Cloudless" —, ambas sem a lírica de Peter Gabriel, que é aqui substituída por cantos aborígenes, mais adequados ao filme. O nome da banda sonora é um perfeito retrato da inspiração de Peter Gabriel na criação da música para um filme que, mais que tudo, ilustra a força de vontade que pode vir do simples (mas tão poderoso) desejo de voltar a casa. Salvaguardadas as devidas proporções, é algo que só podemos sentir no aeroporto quando o voo atrasa mais uma hora, a roupa já se pega ao corpo e a vontade de chegar a casa ganha contornos de desespero. Abrir a porta e sentir o nosso cheiro. Comer a nossa comidinha e finalmente deitar na nossa caminha. Nada é melhor que isto.

Não há para mim sentimento igual ao de casa. É por isso que sempre que viajo (e felizmente posso fazê-lo muitas vezes), onde quer que esteja, crio um pequeno cantinho, normalmente ao lado da cama, onde ponho os meus óculos, telemóvel e gotas para os olhos. Aquele cantinho é casa. Olho para ali e sinto-me em segurança. It feels like home.
E casa pode ser em qualquer lado. Londres, por exemplo.

"I keep moving to be stable, free to wander, free to roam"

Sempre me imaginei a viver em Londres. Londres é a capital do país de onde vieram quase todos os meus ídolos e foi a cidade que os consagrou a todos: no Wembley Stadium, no Hammersmith Odeon, no Earls Court, no Rainbow Theatre... Por isso sempre me fez todo o sentido mudar para lá e viver as mesmas experiências que os meu ídolos viveram. Claro que na realidade isto não funciona bem assim, mas pelo menos poderia estar no sítio onde tudo acontece primeiro e assim poder testemunhar ao vivo o nascimento do meu próximo ídolo.

Notem que em lado nenhum me referi a Londres como um "sonho". Não é bem disso que se trata. Lá em cima utilizei a expressão "cumprir o meu destino" porque na verdade eu sempre achei que Londres era onde eu ia parar; que era ali que eu pertencia. Quase como se a minha mudança fosse uma inevitabilidade. Não é propriamente um sonho na medida de, por exemplo, ver o Benfica campeão europeu, ou apertar a mão ao David Gilmour (será que ganhava imortalidade?!). É sim algo que sempre senti que tinha que fazer. Se é que esta dicotomia vos faz algum sentido.

"I can hear the same voice calling, crying out from my heart"

Há cerca de cinco anos, a viver numa agitação permanente de nunca estar satisfeito com o que tinha (não que isso tenha mudado muito, mas já melhorei), talvez por ver os "vintes" a fechar-se, achei que estava na hora de mandar tudo ao ar e ir atrás do meu destino londrino. Comecei a mandar currículos em Agosto e a resposta foi overwhelming. Estava de férias e na praia o telefone não parava de tocar com propostas para entrevistas. Para fazer o bingo de coincidências, tinha um concerto do Roger Waters no Wembley marcado para Setembro, daí a poucas semanas. Uau. Parecia que o destino queria mesmo que eu fosse para Londres. It was really happenin'.

Na plataforma de comboios de Victoria Station, a estudar o Google Maps, percebi que afinal o trabalho não era bem em Londres. Era em Croydon, uma espécie de Amadora lá do sítio, a sul da cidade. Mas e depois? A caminho da empresa, o comboio passou ao lado da Battersea Power Station, essa mesmo, que aparece na capa do "Animals" dos Pink Floyd e que podem ver lá em cima, no banner do blog. Que cenário mais idílico poderia eu pedir? À chegada ao edifício, ajeitei a minha gravata e fui para cima deles.

Subi o elevador sem saber o que esperar. Não tive que esperar muito. Passado meia hora de entrevista, meteram-me um contrato à frente. De repente, tudo aquilo que eu queria, tudo aquilo que eu precisava estava ali, como se o meu desejo mais íntimo me tivesse caído no colo, sem que eu realmente o desejasse. Careful with what you wish for, não é? Bastava assinar o papel et voilá, cumpria-se o destino de viver Londres. Não assinei.

"So tired of all this traveling, so many miles away from home"

De regresso a Lisboa, poucos dias depois da entrevista, voltam a ligar-me. Parece que o meu caso foi ao CEO do grupo (e acreditem, era enorme) e eles abriam uma excepção para mim. Tinham gostado tanto de mim (eu tendo a despoletar reacções extremas nas pessoas e às vezes até acontece gostarem de mim), que estavam dispostos a oferecer-me um contrato superior a todos os que entravam para a minha posição. Voltei a rejeitar.

Porquê? Fuck knows. De todos os que podia ter sido, este é aquele mais dificuldade tenho em encaixar. Foi uma decisão que tomei e que, embora não me arrependa, ainda hoje não sei se foi a mais correcta. As perspectivas eram excelentes, não tinha nada a perder e nem sequer deixava cá ninguém. Às vezes penso, what the hell was I thinking?! Será que Londres não é, afinal, o meu destino? Ou será que simplesmente ainda não tinha chegado a hora de assinar o papel?

"Back on the road, alone with the sky"

"Sky Blue" leva-me para um universo paralelo onde eu finalmente me decidi a assinar o papel. O tema puxa pelas saudades de quem está há demasiado tempo fora de casa e sonha regressar, pelo que me põe já dois passos à frente da realidade. A canção invoca uma nostalgia reversiva d'o que podia ter sido, saudades de casa se eu me tivesse mudado para Londres. É um sentimento que na escala da autocomiseração, deixa para trás o clássico sofrimento por antecipação. Este é mais o sofrimento por imaginação, algo que só é possível graças ao poder da música.

Naquele momento de imersão na música de Peter Gabriel, o meu coração aperta com saudades de casa e ali desespero por voltar ao céu azul de Lisboa, ao peixe de Sesimbra e aos lençóis lavados pela minha mãe. Depois olho à minha volta e vejo que afinal estou a conduzir na A5, apenas a 20 minutos de cumprir o sonho de chegar a casa.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Radiohead - "Man Of War"

"Drunken confessions and hijacked affairs just make you more alone"


Um dos maiores elogios que recebi em toda a minha vida foi de uma paixão que durou apenas 3 dias em Londres. Há amores que são assim — só existem numa determinada janela de espaço e tempo. Passadas as portas da Martini na Portela, o turbilhão desvaneceu tão rapidamente como aparecera; mas naquelas 72 horas, parecia que não havia mais nada do mundo. Eram todas as cores e todos os sonhos ao mesmo tempo, condensados numa só tempestade adamastora que lavrava tudo à sua passagem.
Encostados ao muro junto ao rio, a olhar para a Tower Bridge depois de um beijo apaixonado, ela virou-se para mim com um olhar encantado e disse-me que o que mais a impressionava em mim é que eu parecia não ter medo de nada. Sem perceber a tragédia do verdadeiro alcance das suas palavras, sorri e por um momento senti-me o James Bond.

Toda a minha vida fantasiei em ser duas coisas: uma estrela de Rock n Roll e o James Bond. Talvez por isso tenha sempre sentido esta atracção irresistível pelo perigo e pelo erro iminente. Para mim, as palavras dela foram um enorme elogio, mas nem por isso tirei quaisquer dividendos deste destemor. A verdade é que o medo não é mais que uma consequência — às vezes nefasta, às vezes salvadora — das experiências negativas que acumulamos. É um sinal de inteligência emocional. Esta minha estúpida falta de medo deve-se ao facto de ter sido abençoado com a maldição de não aprender com as experiências anteriores e por isso não ter medo de cair nos mesmos erros uma e outra vez. E como tal, não tenho medo de nada.

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"Man-o-war is very melodramatic. Too melodramatic. When we started out, it was just a homage to Bond themes really. I like it. It's pretty much the opposite to everything we're writing."
Thom Yorke



Segundo a minha fiel fonte dos Radiohead e maior especialista da banda que conheço — o Filipe (leiam a review dele da reedição do "OK Computer") —, "Man Of War" foi o tema sugerido à EoN (produtora dos filmes do James Bond) quando os abordaram para a banda sonora de "Spectre". O tema foi escrito por alturas do "The Bends" como uma homenagem aos Bond themes, na expectativa de um dia os Radiohead serem chamados à prova (em cima, num clip retirado do documentário "Meeting People Is Easy", podemos ver a banda no estúdio a gravar o tema). Não foram e "Man Of War" ficou na gaveta durante 20 anos, até hoje, que finalmente viu a luz do dia na reedição de "OK Computer".
A chamada chegou finalmente em 2015, mas a EoN perversamente  não aceitou o "Man Of War" por ser um tema antigo. Como tal, os Radiohead gravaram "Spectre", que foi igualmente rejeitado por ser demasiado dark e em última instância foi chamado Sam Smith, que acabaria por gravar o deveras underwhelming "Writing On The Wall".
Não consegui verificar se foi exactamente assim que se passou, mas como gosto da história, vou adoptá-la como a minha versão, até porque como dizia o Mark Twain, "never let the truth get in the way of a good story".

Na verdade, "Man Of War" talvez fosse demasiado complexo para o portrayal que a EON quer fazer do James Bond nos seus filmes. Na visão original de Ian Fleming, James Bond é um assassino. Plain and simple. É um homem com mais morte e menos swing que a série de filmes quer fazer crer. Mas acima de tudo, é um homem. Um homem igual aos outros, com medos, desejos e anseios. A morte dos outros é a forma que Bond encontrou para compensar a sua própria morte interior. E é assim que os Radiohead se atrevem a caracterizá-lo.

"Drunken confessions and hijacked affairs just make you more alone"

O que mais me fascina na personagem do James Bond é o que estará por trás do homem infalível que vemos no ecrã. Nas cenas nunca mostradas, quando a câmara desliga e a missão está descomprometida, de certeza que detrás de todas aquelas conquistas há um homem que bebe uns copos a mais e conta os seus segredos a pessoas que conhece há tempo de menos para os saberem; que pega no carro e conduz bezano pelas curvas da Arrábida (ou de Monte Carlo) sem medo, em busca de respostas para os seus tormentos; que anseia pelo momento em que chega a miúda que lhe diz "és a minha Rock 'n' Roll Star".

"Man Of War" retrata este herói solitário e perturbado, um homem sozinho que vive com o peso d'a missão nos seus ombros. É o melhor tema de James Bond que nunca o foi. A recusa da EoN faz com que "Man Of War" deixe de ser necessariamente sobre Bond e passe a ser sobre quem quer que viva oblívio do medo e do perigo que espreita a cada esquina. Até finalmente perceber que não há finais felizes.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Phil Collins - "Invisible Touch" (Live in Hyde Park 2017)

"And though SHE WILL FUCK UP YOUR LIFE, you want her just the same"


Não tenho muitos amigos. Nem quero. Os amigos dão muito trabalho e são uma grande responsabilidade. É preciso estar presente (mesmo quando distante), saber da vida deles e mimá-los. A amizade não é, aliás, uma coisa que eu dê como garantida. Tomo-a como uma distinção e tento estar à altura dela, provar dia após dia o merecimento de tal galardão. Em contrapartida, são os meus amigos que me enchem o coração e estão lá quando eu mais preciso.
Não conheço o Phil Collins pessoalmente, mas tenho-o como um amigo porque ele esteve lá sempre que eu precisei dele. Ele agora precisou de mim e eu fui para Londres a correr para o acudir.

Esta crónica é o último capítulo de uma trilogia que contou o regresso de Phil Collins à música e que começou a ser escrita na NiT em Janeiro de 2016. A primeira parte, por altura da reedição da sua obra a solo, centrou-se na absurda percepção plástica da sua obra. A segunda, aquando do anúncio da sua digressão –, sarcasticamente baptizada de 'Not Dead Yet Tour' – focou-se na queda de Phil que quase o levou ao suicídio. O capítulo final, este, conta a história do último concerto desta digressão terapêutica para Phil.


A 'Not Dead Yet Tour' terminou na última sexta-feira num Hyde Park esgotado com 65 mil pessoas, curiosamente o maior concerto da carreira a solo de Phil Collins. Foi muito estranho ver o Phil entrar lentamente em palco de bengala, aparentando uma fragilidade mais parecida com o Sr. Zé da Casa de Repouso das Sarnadas de Ródão (tratem bem da minha avó!!), do que o alegre e vivaço baterista que eu conheci. Os anos não foram meigos para com o tio Phil. Mas em boa hora os filhos o obrigaram a mexer o rabo e a sair de casa para voltar a ser recebido pelos seus amigos.

"Eu sei que prometi não voltar a fazer isto. Mas a verdade é que tive saudades vossas", começou Phil –  aludindo ao facto de se ter retirado da música há 10 anos –,  antes do seu filho Nicholas arrancar com a inconfundível batida para "Another Day In Paradise". Nicholas acabou de fazer 16 anos, mas já mostra uma habilidade e constância surpreendentes na bateria. Foi a grande surpresa do espectáculo. "Filho de peixe", já diz o povo.

Seguiu-se um set – demasiado curto – de hora e meia carregada de êxitos como "You Can't Hurry Love", "Easy Lover" e, obviamente, "In The Air Tonight"; 14 temas no total. Não sei se por cansaço do Phil (ainda há umas semanas voltou a cair na casa de banho do hotel e a magoar-se à séria), se por limitações de horário do festival (os vizinhos do Hyde Park são milionários e muito chatos com o barulho, não é senhor Sting?), mas de fora ficou 1/3 do set normal da digressão, incluindo alguns dos temas que mais queria ouvir, como o pujante "I Don't Care Anymore" e o comovente "You Know What I Mean", com Nicholas ao piano e Phil na voz – um dueto de pai e filho.

Confesso que me soube a muito pouco, especialmente considerando as 95 libras que custava um bilhete para a zona da Plateia Geral que, atrás do Golden Circle e do Diamond Circle (onde é que isto parar?), começava a 120 metros do palco (confirmei pelo Google Earth). Mas o pior não foi isso. A grande desilusão foi o som vindo das colunas, que mal se ouvia. Já levo uns anitos de concertos (este foi o meu 178º) e confesso que nunca na minha vida estive num concerto Rock ao ar livre com o volume tão baixo. Eu estava à frente da zona da Plateia Geral, centrado com o palco e tinha imensas dificuldades em ouvir as guitarras e até a voz do Phil. Àquela distância, só o baixo e a bateria se salvavam.


Por outro lado, Phil cantou "Invisible Touch" e "Follow You, Follow Me", o que muito provavelmente será o mais perto que eu estarei de ver os Genesis ao vivo. Quase perdi a voz no "Invisible Touch" e julgando pelo volume do som vindo das colunas e o volume da minha voz, aposto que num raio de 5 metros à minha volta ouviram mais a minha voz que a do Phil. Pelo menos quando eu gritei "and though SHE WILL FUCK UP YOUR LIFE, you want her just the same!!!" a plenos pulmões, toda a gente se virou para mim. Mas o que importa é que deu para lavar a alma.

Do que me foi possível ouvir, a voz de Phil já não está em condições para estas andanças. Mas o propósito desta digressão era outro. O concerto não foi mais que a maior sessão de terapia alguma vez organizada. À minha volta, gente de todo o mundo que veio para, como eu, voltar a ver o Phil sorrir. Os mais velhos vieram matar saudades e os mais novos para o ver pela primeira (e última?) vez. É notável a paixão da geração mais nova pela música do Phil, depois de tantos anos de injustificado escárnio; e é engraçado perceber que os millennials se estão a encarregar de voltar a pôr as coisas no seu devido lugar. Grupos enormes de miúdos entre os 15 e os 25 anos que, quando acabou o concerto e começou a debandada geral, ficaram a cantar as músicas que faltaram na setlist. E foram muitas, como já vimos.

Sabe bem ver o Phil finalmente reconhecido pelo grande músico que é e pela minha parte, tenho que dizer que estou um pouco orgulhoso por fazer parte dessa mudança de mentalidade.  Phil merece todo o amor que estes 65 mil amigos que não o conhecem de lado nenhum lhe vieram mostrar. Para alguém que teve tanto sucesso e fez tanta gente feliz com o seu toque invisível, não faz sentido nenhum sentir-se tão mal com o seu passado. Espero que esta noite o tenha ajudado. No fim, Phil despediu-se com um "Obrigado por terem vindo, amo-vos a todos". Soltei uma lágrima e sussurrei baixinho: "I love you too, Phil. Always have, always will".

P.S.: Trouxe um souvenir do concerto para me motivar a (finalmente!) começar as minhas aulas de bateria. Mesmo manco, o Phil ainda é capaz de me ajudar a mexer. Se isto não é um amigo...


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Roger Waters - "Wait For Her" / "Oceans Apart" / "Part Of Me Died"

"When I laid eyes on her, a part of me died"


Ainda o novo álbum do Roger Waters. Confesso que tenho andado completamente vidrado em "Is This The Life We Really Want?". Para terem uma ideia da dimensão da obsessão, confidencio-vos o meu Top 10 dos mais ouvidos da última semana no Spotify:



... e isto obviamente não conta com o número de audições do vinil, que já levou umas valentes esfregas. Já agora, se usam o Spotify, aconselho-vos vivamente a fazerem a sincronização com a conta no Last.fm (e se não a têm, criem). Analisar estas estatísticas is half the fun da listening experience. É a banda sonora da nossa vida, right there, ali exposta. Mas voltemos ao Roger.

Tenho grande estima pelos álbuns a solo do Roger. Todos os três anteriores ("The Pros And Cons Of Hitch Hiking", "Radio KAOS" e "Amused To Death") fizeram parte da minha vida de uma forma ou de outra, mas "Is This The Life We Really Want?" aterrou aqui como um pára-quedas humanitário numa zona de catástrofe. Nenhum álbum me moveu assim nos últimos anos, talvez desde que descobri "All Things Must Pass" em 2011. Por isso este é especial. Este sim, é o melhor álbum de sempre do Roger; e nesta segunda parte da minha review vou continuar a explicar-vos porquê.

Hoje vou falar do outro lado do novo álbum de Roger Waters. Para lá da visão niilista da vida e do mundo, "Is This The Life We Really Want?" é um exercício de introspecção implacável. Roger despe-se por completo, olha para dentro e escava a fundo em si mesmo. Nu e cru. Sem medos. E desta vez, não é só a interminável saga do pai que morreu na guerra; é o Roger himself, que morreu por dentro, bocadinho a bocadinho e quer falar sobre isso. Este é o álbum mais pessoal de toda a sua carreira. E se eu tivesse que apostar, diria que este álbum confessional só chegou agora, porque só agora é que Roger aprendeu a olhar para dentro.

Roger Waters tem 73 anos e por esta altura já está ciente do que é. Após 4 casamentos e outros tantos divórcios, Roger já percebeu loud and clear que é unloveable — melhor, sabe que pode até chegar alguém que o ame, mas nunca quererá partilhar a sua vida com ele; nunca ninguém o vai aturar. Já o Freddie se queixava do mesmo.
Roger é um homem muito intenso e não é fácil encontrar alguém que saiba (e queira) lidar com alguém assim (eu também sei um bocadinho do que é isso e talvez por isso me tenha identificado tanto com o Roger ao longo dos anos). Mas aquilo que falta ao Roger em inteligência emocional, sobra-lhe no domínio com as palavras (e às vezes com a música). O novo álbum foi a forma que ele encontrou para expressar o que lhe ia na alma e quiçá estabelecer comunicação com alguém importante.

Como a sua personalidade, "Is This The Life We Really Want?" é uma audição extenuante. É o perfeito espelho da intensidade de Roger, tanto quando fala de política, como quando fala de amor. Atentemos, pois, na intensa trilogia que fecha o álbum: "Wait For Her" / "Oceans Apart" / "Part Of Me Died". Esta sequência é de partir o coração, tão pessoal que chega a ser desconfortável.

"Wait For Her" é baseado num poema do autor palestiniano Mahmoud Darwish e fala de como o "verdadeiro amor espera" (e o produtor Nigel Godrich sabe acerca disso): "And if she comes soon, wait for her / And if she comes late, wait". "Oceans Apart" fala sobre o momento mágico do primeiro encontro e serve de introdução para a declaração de amor que vem a seguir.

A última parte é "Part Of Me Died", que parece tudo menos o título de uma canção de amor (um pouco como o "If I Had A Gun" do Noel Gallagher). É porém tão somente uma das mais bonitas, mais sinceras e mais despidas canções de amor de sempre. Despida é mesmo a palavra. Porque só quando nos despimos (por dentro e por fora, obviamente) é que o amor pode funcionar. Roger abre o coração e confessa todos os seus pecados, um por um:
The part that is envious; Cold hearted and devious; Greedy, mischievous; Global, colonial; Bloodthirsty, blind; Mindless and cheap; Focused on borders; And slaughter and sheep; Burning of books; Bulldozing of homes; Giving to targeted killing with drones; Lethal injections; Arrest without trial; Monocular vision; Gangrene and slime; Unction, sarcasm; Common assault; Self-satisfied heroic killers; Lifted on high: Piracy adverts; Acid attacks on women by bullies and perverts and hacks; The rigging of ballots and the buying of power; Lies from the pulpit; Rape in the shower; Mute, indifferent; Feeling no shame; Portly, important; Leering, deranged; Sat in the corner; Watching TV; Deaf to the cries of children in pain; Dead to the world, just watching the game Watching endless repeats; Out of sight, out of mind; Silence, indifference; The ultimate crime.
But when I met you, that part of me died
Roger é uma besta e ele sabe disso. E como vemos, já não tem pudor em confessá-lo de todas as maneiras possíveis. Literalmente.
Mas até ele fecha o seu álbum mais niilista com um laivo de esperança:
Bring me a bowl to bathe her feet in, bring me my final cigarette
It would be better by far to die in her arms than to linger in a lifetime of regret

quarta-feira, 21 de junho de 2017

The Kinks - "Shangri-La"

"You've reached your top and you just can't get any higher. You're in your place and you know where you are, in your Shangri-la"

Shangri–la: 
1:  a remote beautiful imaginary place where life approaches perfection
2:  a remote usually idyllic hideaway


"Agora que encontraste o teu paraíso, este é o teu reino para comandar". O cinismo cheira-se à distância nas primeiras linhas de "Shangri-la", o mais fascinante tema dos The Kinks. Complexo e multiparte, erudito e quasi-progressivo (pelo menos na mesma medida de "Happiness Is A Warm Gun" — outro tema cínico de um tal de John), "Shangri-La" mostra o lado mais intelectual da banda em detrimento do apelo proto-punk de temas carregados de testosterona como "You Really Got Me" e "All Day And All Of The Night". Onde antes havia desejo, agora há cinismo. A minha dúvida é até onde ele vai.


Levado à letra, "Shangri-la" fala sobre as parcas aspirações da classe média, para quem os grandes sonhos se resumem a um carro, uma casa com nome na porta e uma cadeira confortável em frente à lareira para beber chá com os vizinhos. Sonhos de pantufa comedidos, equilibrados e realistas que, quando não acompanhados da loucura do amor, são inexoravelmente medíocres (e que o MEC descreveu aqui tão bem — têm mesmo que ler isto). Sonhos que eu quero longe de mim e da minha vida. Não duvidem, esta teimosia em me dobrar ao cinzentismo da realidade sujeita-me a um carrossel emocional de dissabores, mas talvez seja esse o preço a pagar por uma forma de viver romantizada e, como diria o meu Louis C.K., um pouco estúpida. Mas haverá outra forma de viver?

Na verdade, "Shangri-la" teve origem na visita dos manos Davies (Ray e Dave) à Austrália em 1964, onde foram ver a sua irmã mais velha que se tinha mudado para um condomínio fechado com o marido. Por isso admito que a leitura literal do tema até pode ser historicamente a mais correcta. Contudo, eu tenho uma visão bem mais ampla de "Shangri-la" do que uma mera alfinetada aos sonhos terrenos da classe média. O cinismo vai bem para lá da crítica social.

Para mim, "Shangri-la" é uma revenge song, ou uma break-up song — dependendo do grau de relacionamento com o alvo do tema. O tom jocoso com que Ray Davies entrega linhas como "You've reached your top and you just can't get any higher" ou "You're in your place and you know where you are" leva-me a crer que o alvo era bem mais específico que a classe média. É uma canção de vingança à imagem de "Death On Two Legs" (Queen) e "How Do You Sleep?" (John Lennon), ou uma canção de separação como "Positively 4th Street" (Bob Dylan) e "I Am The The Resurrection" (The Stone Roses).

O caso mais interessante é, obviamente, o da separação amorosa. E o cenário aqui é bem claro: Ray Davies foi abandonado em detrimento do Shangri-la do seu par, a quem ela pode finalmente dar toda a atenção que Ray antes roubava; o mundo dela foi mais forte do que Ray e ele não conseguiu lutar mais contra isso; Ray ficou sozinho e cinicamente lhe diz que "agora que encontraste o teu paraíso, este é o teu reino para comandar". Como quem diz, "fizeste a tua escolha, agora lida com as consequências".

Claramente prefiro a minha interpretação.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Lindsey Buckingham & Christine McVie - "Carnival Begin"

"I'll take it all, I may lose or win, a new merry-go-round. Carnival begin"


Permitam-me que solte isto logo de início: "Carnival Begin" é um dos temas do ano. É lindo, lindo, lindo. Eu sei, certamente não o vão encontrar nas listas dos melhores do ano das publicações mais trendy, mas fuck that, não deixem que isso afecte o vosso sentido de melodia. Só precisei de o ouvir uma vez para ficar agarrado. Amor à primeira audição, podem chamar-lhe. Acontece. E nem de propósito, porque é mesmo de amor que fala o tema; mais especificamente um novo amor, um novo carrossel, um novo carnaval que começa ("I want it all / All the colours and swings / A new merry-go-round / Carnival begin").

Começar de novo. É sempre uma merda. É preciso estômago, depois dos enjoos sofridos na última viagem. Mais que isso, é preciso coragem para vencer o medo de um carrossel desconhecido, sentar no pónei e ter a esperança pueril que desta vez vai correr tudo bem. Mas antes que isto se pareça com um livro do Pedro Chagas Freitas, vou fazer uma ligação ao mundo real e citar o meu filósofo de eleição ainda vivo: "Why the fuck would anything nice ever happen?!".



Ou então sou que tenho ouvido demasiadas vezes o novo álbum do Roger Waters. Também pode ser isso.

Alheios à erma realidade, Lindsey Buckingham e Christine McVie navegam ingenuamente pelas águas do sonho em "Carnival Begin" e isso reconforta-me; nem que seja para também eu me alhear da realidade. O ambiente acolhedor bluesista senta-me imediatamente na velha poltrona do meu Pai na sala da minha casa antiga, à meia luz das persianas quase-fechadas, deixando apenas os orifícios para passar a luz e o barulho da linha de comboio. Desenganem-se se pensam que vos falo de nostalgia. Não. Isto não é saudade da infância e muito menos da casa à beira da linha de comboio (belas madrugadas eram essas). É sim uma ânsia de um sentimento familiar. Saudades de um futuro desejado, talvez. Mas avancemos que isto agora é que se está a tornar num livro do Pedro Chagas Freitas.

"Carnival Begin" só peca por terminar demasiado cedo, interrompendo o coito de um solo de guitarra tão belo e tão raro nestes tempos em que toda a gente se pela de medo por arriscar um solo num disco. Louvo-te a coragem, Lindsey. O solo de guitarra em fade out fecha "Lindsey Buckingham Christine McVie" — um álbum que tem tanto de elusivo, que eu me pergunto se os seus criadores querem mesmo que tenha sucesso.


"Lindsey Buckingham Christine McVie" é, na prática, o novo álbum dos Fleetwood Mac em tudo menos no nome. Senão vejamos: todos os temas são escritos por Lindsey Buckingham e Christine McVie, dois terços do núcleo de compositores da formação clássica dos Fleetwood Mac; a secção rítmica que toca no álbum é composta por Mick Fleetwood na bateria e John McVie no baixo, nomes que acho que são auto-elucidativos; e last, but defintely not least, o álbum soa brutalmente a Fleewood Mac. E como não? Afinal de contas, a equipa é a mesma. Só falta mesmo a Stevie Nicks. Mas quem precisa da Stevie Nicks, anyway? Nada contra a senhora, seria aqui muito bem-vinda com dois ou três temas e uns "Aaaahs" e uns "Oooohs" nas backing vocals, mas será que ela é mesmo precisa? Só se for mesmo para dar direito a usar o nome. Mas se ela não queria ter trabalho, podia ter aparecido para tocar umas maracas num dos temas e resolvia-se a questão.

Não houve Stevie Nicks, não pôde haver Fleetwood Mac e foi aqui que começou um rol de equívocos. Começando logo pelo nome do álbum. Quem conhece as bases da história dos Fleetwood Mac, mais especificamente da sua formação clássica, saberá que Lindsey Buckingham e Stevie Nicks foram recrutados anos depois do vazio deixado pela saída do icónico compositor e guitarrista Peter Green (por este ter, digamos, "fritado" com as drogas) e que o que lhes valeu a entrada na banda foi um álbum que gravaram em 1973, nos tempos em que eram um casal — "Buckingham Nicks", chamava-se o LP. Faria todo o sentido que este álbum, sendo uma colaboração entre Buckingham e McVie se chamasse... "Buckingham McVie". Foi esse o working title do álbum até à última hora e eu adorava que me explicassem a decisão de mudar.

Agora atentem na capa em cima. Será que era possível o Lindsey e a Christine estarem mais separados na foto da capa?! É que eu acho que nem as sombras se tocam. Para um álbum onde o afecto e a intimidade são temáticas recorrentes, não poderia haver capa mais fria. E tantas imagens melhores havia. Como esta foto de promoção, por exemplo:


Ou esta, com ambos sentados no sofá e Lindsey a mostrar todo o seu desconforto por estar ali. Ok, esta talvez não.


E por que não a recuperação de uma imagem clássica, dos velhos tempos dos Fleetwood Mac?


A capa do álbum é uma aberração entre o esquisito e o inexplicável. Não acredito que ninguém fosse capaz de avisar o Lindsey e a Christine que aquilo na melhor das hipóteses era medíocre e na pior passava a mensagem errada ao público (de afastamento). E se eu não conhecesse as capas obscenamente más dos álbuns a solo do Lindsey, ainda era capaz de suspeitar que era auto-sabotagem.

Ainda me resta mais uma queixa relativamente a "Buckingham McVie" (deixem-me ficar com o título antigo): o som. Mas que raio de assassinato sonoro vem a ser este? Para quê tanta compressão? Para quê o volume tão alto? Os álbuns dos Fleetwood Mac soam maravilhosamente bem, por isso sei que o Lindsey e a Christine sabem melhor que isto. Qual é a ideia? Apelar à geração Spotify? Malta, ninguém vai ouvir o vosso álbum porque o apanharam na barra de sugestões do Drake ou da Ariana Grande. Vão ouvir porque conhecem os Fleetwood Mac e estão habituados a essa bitola.

Agora que já ventilei as minhas reclamações, eis o meu veredicto. Nestes dias do Indie Rock perdido, bipolar e esquizofrénico, é sempre bom ouvir um álbum firmemente ancorado na melodia. E na positividade também. Para variar.
Se são fãs da era clássica dos Fleetwood Mac (entre o álbum homónimo "Fleetwood Mac" de 1975 e "Tango In The Night" de 1987), vão adorar "Buckingham McVie"; é um return to form da dupla mais improvável dos Fleetwood Mac e o melhor trabalho desde o longínquo (e a todos os títulos maravilhoso) "Tango In The Night". Se são fãs da era de Peter Green, talvez isto não seja para vocês. Se só conhecem alguns temas avulsos dos Fleetwood Mac (provavelmente "Little Lies", "Go Your Own Way" e "Gypsy"), devem dar uma chance a "Buckingham McVie", mas mais importante que isso, do que é que estão à espera para ouvir esfomeadamente o "Rumours" e o "Tango In The Night"? Ou esta playlist espectacular? Ainda aqui estão? Tudo para o Spotify! O "Buckingham McVie" pode esperar.