terça-feira, 26 de março de 2013

Tears For Fears - "The Hurting"

"Is it an horrific dream? Am I sinking fast?"


Um rapaz descalço, a chorar, no vazio. Foi assim que os Tears For Fears se deram a conhecer ao Mundo em 1983:


"Could you understand a child, when he cries in pain?"

É esta a capa de "The Hurting", o 1º álbum dos Tears For Fears. Uma imagem que assenta na perfeição ao nome da banda (Tears For Fears - lágrimas para medos), ao título do álbum ("The Hurting" - a mágoa) e, mais que tudo, ao conteúdo do álbum.

"The Hurting" é um dos álbuns mais depressivos que já ouvi. Corrijo: é o álbum mais maravilhosamente depressivo que já ouvi. É um mergulho na escuridão da psique de 2 recém-adultos (tanto Roland Orzabal como Curt Smith tinham 21 anos, à data de lançamento de "The Hurting"), a carpir mágoas de infâncias dolorosas.

Roland e Curt inspiraram-se largamente na terapia de Arthur Janov (psicólogo/psicoterapeuta), cujo livro "The Primal Scream" ("A terapia primal") deu, inclusivamente, o nome à banda. Em "The Primal Scream", Janov defende que os traumas de infância deveriam ser tratados, incitando o paciente a expressar, sentir, e relembrar as dores outrora reprimidas.
O álbum "The Hurting" é isto. Terapia primal, em música.

"Learn to cry like a baby, then the hurting won't come back"

A componente da psicologia e a influência de Arthur Janov é tão forte e tão ampla por todo o álbum, que "The Hurting" aproxima-se do modelo clássico do "álbum conceptual". Neste caso, um álbum conceptual sobre depressão.

A roupa que veste este difícil conceito é sui generis. Em vez dos trejeitos góticos, mais apoiados no Rock, do Post-Punk / Urbano-depressivo em voga na altura (para as bandas que abordavam estas temáticas), os Tears For Fears preferiram experimentar com os sintetizadores, numa produção mais New Wave.

Mas estabeleça-se agora um paralelismo entre "The Hurting" e, por exemplo, o que faziam os Duran Duran ou os Simple Minds, duas bandas referência do New Wave na época, no UK. Em ambos casos, este tipo de produção é utilizada para conferir um estilo atraente e upbeat. Já em "The Hurting", os sintetizadores são aplicados para sugerir ao ouvinte uma ambiente de drama e angústia. E nem assim deixa de ser lindíssimo, nem assim deixa de dar prazer ao ouvinte.

Ouçam "The Hurting" e experimentem mergulhar na sua essência. Prestem atenção às letras e aos arranjos sonoros, numa rara simbiose entre a electrónica e a guitarra acústica. É um álbum maravilhosamente depressivo.

"Could you see my pain? Could you please explain the hurting?"

"The Hurting" fez este mês 30 anos. Para comemorar a data, os Tears For Fears lançaram (finalmente!) o seu website e a sua página no Facebook, onde deixaram o seguinte anúncio:

"Thanks for an amazing 30 years. This year is gonna be a big one. Get ready!"
Curt Smith e Roland Orzabal


O que é que Curt e Roland querem dizer com isto? Não faço a mínima ideia. Uma coisa parece certa: terá algo a ver com "The Hurting".
Será uma digressão mundial para relembrar o álbum de 1983? Ou será uma edição especial, daquelas que eu adoro, cheia de extras e coisas boas, para comemorar a data?

O excelente site The Second Disc já fez uma previsão do que poderia sair numa edição especial de "The Hurting". Eu pego na sugestão do site, mas se é para pedir, eu vou mais longe:

Tears For Fears - "The Hurting [30th Anniversary Edition]" (2013)

Disco 1: Álbum original (1983) + Lados B
1. "The Hurting" (4:20)
2. "Mad World" (3:55)
3. "Pale Shelter" (4:34)
4. "Ideas As Opiates" (3:46)
5. "Memories Fade" (5:08)
6. "Suffer the Children" (3:53)
7. "Watch Me Bleed" (4:18)
8. "Change" (4:15)
9. "The Prisoner" (2:55)
10. "Start of the Breakdown" (5:00)
11. "Wino" [Lado B de “Suffer the Children”] (2:17)
12. "Saxophones As Opiates" [Lado B de “Mad World”] (3:54)
13. "The Conflict" [Lado B de “Change”] (4:02)
14. "We Are Broken" [Lado B de  "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love)"] (4:03)

Disco 2: Singles (1981-1983)
1. "Suffer the Children" [Single Version] (3:36)
2. "Change (New Version)" (4:33)
3. "Suffer the Children [Remix]" (4:15)
4. "Suffer the Children [Instrumental]" (4:26)
5. "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love)" [Single Version] (3:55)
6. "The Prisoner [Single Version]" (2:40)
7. "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love) [Extended Version]"  (6:25)
8. "Change [Extended Version]" (5:54)
9. "Mad World [World Remix]" [Lado B de  "Pale Shelter"] (3:30)
10. "Ideas As Opiates [Single Version]" [Lado B de  "Pale Shelter"] (3:54)
11. "Pale Shelter [New Extended Version]" (6:41)
12. "Change [Live in Oxford]" (4:36)
13. "Start of the Breakdown [Live in Oxford]" (5:53)
14. "The Way You Are [Extended Version]" (7:33)

Disco 3: Live
"BBC In Concert":
1. "Memories Fade" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (6:01)
2. "The Way You Are" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (5:21)
3. "Suffer the Children" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (4:53)
4. "Pale Shelter" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (6:47)
5. "Ideas As Opiates" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (3:46)
6. "Mad World" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (3:42)
7. "Watch Me Bleed" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (4:14)
8. "Change" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (4:43)
9. "Start of the Breakdown" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (6:28)
10. "The Hurting" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (4:09)
Kid Jensen Sessions:
11. "Start Of The Breakdown" [Jensen Session] (3:45)
12. "The Hurting" [Jensen Session] (3:47)
13. "Memories Fade" [Jensen Session] (4:21)
John Peel Sessions:
14. "Ideas As Opiates" [14/08/1982 Peel Session] (3:51)
15. "The Hurting" [14/08/1982 Peel Session] (3:51)
16. "Suffer The Children" [14/08/1982 Peel Session] (4:00)
17. "The Prisoner" [14/08/1982 Peel Session]

Disco 4: DVD - "In My Mind’s Eye" + Videoclips
"In My Mind's Eye":
1. "Start of the Breakdown"
2. "Mothers Talk"
3. "Pale Shelter"
4. "The Working Hour"
5. "The Prisoner"
6. "Ideas As Opiates"
7. "Mad World"
8. "We Are Broken"
9. "Head Over Heels"
10. "Suffer the Children"
11. "The Hurting"
12. "Memories Fade"
13. "Change"
Videoclips:
1. "Mad World"
2. "Change"
3. "Pale Shelter"
4. "Mad World" (Top of the Pops, 1982)
5. "Pale Shelter" (Top of the Pops, 1983)
Disco 5: DVD - Rockpalast (Sartory-Säle Köln 12.05.1983)
1. "Memories Fade"
2. "The Way You Are"
3. "Suffer the Children"
4. "Pale Shelter"
5. "The Prisoner"
6. "Ideas As Opiates"
7. "The Hurting"
8. "Mad World"
9. "Watch Me Bleed"
10. "Change"
11. "Start of the Breakdown"
12. "Mad World"
13. "Pale Shelter"

Sonhar não custa, pois não?

segunda-feira, 25 de março de 2013

Blur - "Tender"

"Love's the greatest thing that we have"


"I hate that Alex [James] and Damon [Albarn]. I hope they catch AIDS and die."
Noel Gallagher - guitarrista dos Oasis, em entrevista para o The Observer (1995)


"I can't make up with Noel. Britpop would be over!"
Damon Albarn - vocalista dos Blur (2007)

O dia em que a Britpop morreu? Foi no último Sábado, 23 de Março de 2013, que se enterrou definitivamente o machado entre os Oasis e os Blur, em pleno Royal Albert Hall - sala emblemática de Londres, cidade onde a rivalidade entre as bandas foi alimentada nos últimos 20 anos, dentro das redacções da NME e outras publicações musicais do género.

A rivalidade entre os Oasis e os Blur está já bem documentada (inclusivamente aqui no blog), atingindo o seu pináculo em Agosto de 1995, com a "Batalha do Britpop". Acusações e insultos foram trocados; jornais, revistas e muitos, muitos discos foram vendidos. Milhões deles. O fenómeno foi brilhantemente capitalizado pela "indústria" discográfica britânica e a febre foi transmitida para (quase) todo o Mundo. (menos os EUA, que estavam ainda a levar com doses industriais de Grunge e depois passaram directamente para o fenómeno das Boysband / Girlsband dos late 90's e assim saltaram o melhor dos anos 90... o Britpop)

A relação entre Damon e Noel foi amenizando com os anos e terá sido alegadamente sanada depois de um encontro fortuito num bar, onde terão trocado piadas sobre o fenómeno que os juntou e terão chegado à conclusão de que o que os une é muito maior do que os separa.

A reconcialiação não foi fácil, principalmente para Damon Albarn, a parte mais negativamente afectada com o confronto. Veja-se o desconforto de Damon no documentário "Live Forever", de 2003, a falar sobre a rivalidade com os Oasis e sobre as diferenças sociais que ambas as bandas representavam (Classe operária - Oasis / classe média - Blur).

Em 2007, apesar das reticências de Damon relativamente a uma reconciliação (leia-se a citação no início do texto), Noel já mostrava um discurso substancialmente diferente dos anos 90:
"I've got a lot of respect for Damon, I really do mean it. Because I'm indifferent to Damon, he thinks that I think he's a cunt.
Our Liam will talk to him, I won't because he's just another singer in a band to me, but I don't think he's a cunt.
Good luck to him!"
Noel Gallagher, em entrevista para a NME (2007)

A parte em que Liam Gallagher (vocalista dos Oasis e irmão de Noel) iria falar com Damon Albarn para fumar o cachimbo da paz é obviamente fantasiosa (quiçá sarcástica...), mas a intenção parecia estar lá.

Foi assim em estado de (meio) choque que Noel deixou o Mundo, quando em Dezembro anunciou a presença de Damon Albarn e Graham Coxon (vocalista e guitarrista dos Blur, respectivamente) no evento promovido pelo próprio: o Teenage Cancer Trust 2013. Recorde-se que a actuação de Noel nesse evento, em 2007, fora documentada no álbum "The Dreams We Have As Children - Live At The Royal Albert Hall", lançado em 2009.
Mais do que anunciar a presença de Damon e Graham, Noel chocou o Mundo ao revelar que tencionava tocar com eles e que até já aprendera "Tender", tema que tocava em casa.



"They’ll be playing Blur songs, I would think. I’ll be playing mine. Will we share the stage together? I hope so. I’m up for it. It’s always good to have a little jam.


10 years ago, who’d have thought it?"
Noel Gallagher, em promoção do Teenage Cancer Trust 2013 (2012)

De facto, há 10 anos atrás, quem ousaria pensar tal coisa?
Mais em choque ficou o Mundo, quando viu os 2 históricos arqui-rivais abraçados na cerimónia dos Brit Awards 2012, no mês passado. Depois de partilhar uma mesa com Damon, Noel revelou o seu desencanto pela falta de bandas Rock no evento (sentimento que terá aproximado ainda mais ambas as partes), adiantando que até poderiam tocar juntos na cerimónia do próximo ano.


"Tender is the day the demons go away"
O momento por que todos esperavam chegou no Sábado passado.
Noel Gallagher, Damon Albarn, Graham Coxon e Paul Weller (outra lenda da música britânica, de bandas como The Jam, conhecido como "The Modfather") juntaram-se em palco e tocaram "Tender" dos Blur, enterrando, em público, de uma vez por todas, o machado da Britpop.
Vejam com os vossos próprios olhos, porque palavras não chegariam para descrever isto:



O machado estava finalmente enterrado. Alívio é o que se vê nas caras de Damon, Noel e Graham.

A escolha do tema foi perfeita. À falta de Liam para cantar um tema dos Oasis, a escolha deveria cair num tema dos Blur. E qual é o tema dos Blur que melhor materializa a alegria da amizade, do amor e, no caso, da reconciliação? "Tender", pois claro. O tal tema que Noel até já tocava em casa.
Na minha opinião, a melhor alternativa seria "Don't Look Back In Anger" dos Oasis, originalmente cantada por Noel e cujo título assenta que nem uma luva à ocasião. Mas nem esse tema teria o impacto do Gospel de "Tender".



"Tender" é o grande sing-along dos Blur. Historicamente, é o tema da reconciliação. Senão vejamos:
Em 1999, "Tender" foi o tema que reconciliou Graham e Damon, na altura em clivagem criativa, na composição do tema mais ecuménico da banda, incluído no álbum "13".
Aquando da reunião dos Blur em 2009, "Tender" foi o tema que pôs Glastonbury a cantar a plenos pulmões a parte escrita por Graham ("Oh my baby, oh my baby! Oh why! Oh my!"), naquele que foi o momento de reconciliação definitiva entre os Blur e entre os Blur e a sua audiência.
Reconciliação, portanto. Aqui:




Nota importante: Na guerra entre os Oasis e os Blur, eu sempre favoreci os Oasis.
Não porque fossem a banda da classe operária, mas porque em adolescente me identificava mais com a sua música e com a sua atitude. Para um adolescente , cantar "Tonaaaaaaaaiiiiiiiiiite I'm rock n' roll star!!!" ("Rock N' Roll Star" dos Oasis) fazia mais sentido do que "Girls who want boys, who like boys, to be girls..." ("Girls And Boys", dos Blur). Foram duas bandas que me marcaram, mas a marca dos Oasis foi muito mais carregada.
Mas o que é que isto interessa? Será que estive pelos Oasis e a favor da dissolução dos Blur, na "Batalha do Britpop"? Obviamente que não. Arrisco dizer que hoje em dia, ninguém está. Quem gosta de um, normalmente gosta do outro.
A excepção é obviamente feita a... Liam Gallagher.
Liam já reagiu à reunião do irmão com os membros dos Blur e, como se esperaria, não se mostrou muito contente:
"Don’t know what’s worse RKID [Noel Gallagher] sipping champagne with a war criminal or them backing vocals you’ve just done for BLUE!"
Liam Gallagher, no Twitter (25 de Março de 2013)

...sendo que "BLUE" é obviamente uma dupla referência aos Blur e à Boysband britânica Blue, com o intuito de rebaixar os Blur. O que dizer? Liam Gallagher no seu melhor.

Será que a Britpop morreu mesmo? Não sei, mas se morreu, de certeza que não foi com este episódio.
Infelizmente, o movimento musical mais profícuo dos últimos 20 anos parece já estar morto há muito tempo.
Quanto muito, o histórico evento de Sábado serviu para lembrar as pessoas que, nos anos 90, surgiram no Reino Unido duas bandas que fizeram música que preencheu a vida de milhões de pessoas (eu incluído). E quem sabe, fizeram ver essas pessoas que o ódio deve ser dissolvido e como é dito em "Tender":
"Love's the greatest thing that we have"

Edit: Adicionado um vídeo pro-shot da actuação, cortesia do The Sun e uma reportagem do evento:

quinta-feira, 21 de março de 2013

Wham! - "Club Tropicana"

"Club Tropicana, drinks are free!"


Agora que o blog parecia ter ganho alguma reputação como um espaço de antologia do Rock Alternativo, chega a altura de voltar a baixar os níveis de snobismo e distinção. Chega a altura de voltar a puxar pela minha banda fetiche dos anos 80 e aquela que é, na minha opinião, a melhor banda Pop de sempre: os Wham!.

"Melhor banda Pop de sempre? Que heresia!"... já estou a ouvir. Calma, eu explico.
Os Wham! foram um duo britânico formado por George Michael e Andrew Ridgeley, um duo de vida curta, mas meteórica, brilhando incandescentemente na sua passagem. Como já referi aqui, de 1982 a 1986, os Wham! lançaram 9 singles no Reino Unido e TODOS, entraram para o Top 10 das tabelas, sendo que 4 deles chegaram ao 1º lugar.
É um registo avassalador, que ilustra o impacto das músicas de George Michael no Mundo de então.

Perguntem a qualquer "quarentona" de hoje, como é que era com as meninas na escola e os Wham! (principalmente o George Michael), na primeira metade dos anos 80. Era a loucura. Justin Bieber, Tokio Hotel e quejandos não têm paralelo com o fenómeno da época. Basta fazer um exercício simples de observação das tabelas para o confirmar.

Mas eu sei que agora toquei num assunto delicado: será que a popularidade e a qualidade são duas variáveis directamente relacionáveis? Claro que não.
Os Wham! foram um fenómeno de popularidade, é um facto; mas foram muito mais do que isso. Artistas Pop de hoje como a Rihanna, ou o já referido Justin Bieber, são puros produtos de venda ao público, de mérito artístico ínfimo. São "artistas" (as aspas são devido ao abuso linguístico da derivação da palavra "arte") cujas carreiras são milimetricamente projectadas ao detalhe, desde a escolha dos grooves, passando pelas letras, pela produção, pela imagem e claro, pela promoção. É como o fabrico de um carro, ou de um qualquer produto de produção em série: tudo resulta de decisões de um conjunto "executivos", com propósito puramente comercial. No fim de contas, "arte" é coisa que ali não mora e o "artista" pouco tem a ver com o processo, a não ser dar a cara para o público.

E quanto aos Wham!? Não eram eles também um produto comercial, com forte componente de imagem? Em parte, claro que sim. Também os The Beatles tinham sido nos anos 60, no auge da Beatlemania. Mas ao invés de serem um produto concebido por "executivos" da editora, sentados num escritório, os Wham! eram um produto saído somente da cabeça de George Michael. Parecendo que não, é diferente: chama-se criatividade.
George era o cantor, o compositor e o produtor da banda; e ainda tocava vários instrumentos nos discos. Tudo isto quando tinha ainda 18 anos.
Andrew Ridgeley, o outro membro do duo, estava lá basicamente a "fazer número", servindo para atrair uma faixa etária mais velha. Ainda hoje se pergunta exactamente o que é que Andrew fez, ou contribuiu realmente pelos Wham!.
Em suma, o George Michael era os Wham!.

Na primeira metade dos anos 80, os Wham! disputavam o trono de maior banda Pop do UK com os Duran Duran e os Culture Club (de Boy George). Mas enquanto os Culture Club (nunca consegui apreciar esta banda) se apoiavam mais no Reggae e os Duran Duran eram uma banda da onda New Wave e Synthpop, com um travo de Rock, os Wham! trouxeram outro prato para a mesa: o Soul e a Disco.
Os Wham! foram uma espécie de Motown britânica dos anos 80. Música negra americana, para jovens brancos britânicos.
Ainda arrisco mais: George Michael, sozinho, foi a Motown britânica dos anos 80. Com a histórica editora Soul em fase de declínio (Lionel Richie e o seu "Can't Slow Down" foi um caso raro, que manteve a Motown no topo no UK), George Michael assumia o papel principal de voz do Soul no Reino Unido. O prémio pessoal viria em 1987, quando foi "galardoado" com um dueto com uma das suas referências: Aretha Franklin, em "I Knew You Were Waiting (For Me)".

Mas já me estou a afastar do assunto.
Tudo o que está em cima serve apenas para reiterar que os Wham! tinham muito mais sumo do que vos possam fazer querer. Gostar dos Wham! pode ser visto como foleiro, mas não gostar deles por causa disso só pode ser visto como estúpido.

O tema que aqui deixo é "Club Tropicana", 3º single retirado de "Fantastic" - o álbum de estreia dos Wham!. O tema chegou ao 4º lugar e foi o último antes da grande explosão dos Wham! com o lançamento de "Wake Me Up Before You Go-Go".


Mas se é verdade que eu não nutro grande simpatia por "Wake Me Up", já sou um grande apreciador de "Club Tropicana". Afinal, no "Club Tropicana", as bebidas são à borla ("drinks are free!") e não há como não gostar disso.

O vídeo, filmado em Ibiza, prova que os Wham! eram imbatíveis também no kitsch. Nesta pérola da boa disposição, temos um pouco de tudo.

George e Andrew a tocar trompete:

George a beber cocktails na piscina:

George de tanga na praia:

George no chuveiro:



(Este espaço foi propositadamente deixado em branco,
uma vez que até este blog tem limites no kitsch)





Mas acima de tudo, temos este Senhor com um espectacular bigode:



Conhecem a expressão "é tão mau que é bom?" A origem dela pode ter vindo do vídeo de "Club Tropicana". Aqui, o "mau" é "bom" e é tão bom, que é óptimo.
Não tenham medo de gostar dos Wham!. A sério, vão ver que é fantastico e vão ver que não dói nada.

segunda-feira, 4 de março de 2013

The Smiths - "Heaven Knows I'm Miserable Now"

"I was happy in the haze of a drunken hour, but heaven knows I'm miserable now"


Ainda os The Smiths e ainda o imbatível legado musical britânico. Hoje para um pequeno paralelismo entre duas bandas britânicas pivotais, nos anos 80 e 90: os The Smiths e os Oasis, respectivamente. E também para um mais que merecido reconhecimento da indústria musical, para com um dos ícones da música do Reino Unido.

A influência dos The Smiths na música britânica é imensa. Todo o Rock alternativo que apareceu a partir de meados dos anos 80 na Grande Ilha tem qualquer coisa de Smiths. Na música e no estilo. Basta olhar para Noel Gallagher, guitarrista dos Oasis - banda britânica "chave" dos anos 90 - para se perceber a analogia.


Desde o penteado até à escolha da guitarra - a Gibson ES-355 - Noel Gallagher fez questão de imitar Johnny Marr, um dos seus heróis:


Noel começou a utilizá-la em 2002, na digressão de promoção ao álbum "Heathen Chemistry" e desde então que se tornou na sua guitarra de eleição.
Já antes disso, Johnny Marr tinha servido como uma espécie de mentor dos Oasis, oferecendo uma Gibson Les Paul Sunburst a Noel, antes da gravação de "Definitely Maybe", bem como estadia livre num dos seus apartamento em Londres. Os tempos eram outros, na altura Noel estava à procura de sucesso e não tinha dinheiro para usufruir de luxos como uma Les Paul. Johnny teve fé em Noel e apostou nele.

O problema é que o mau feitio de Noel foi descarregado na lindíssima Les Paul, quando um fã dos Oasis invadiu o palco em Newcastle, em 1994, e Noel o "aviou" com a guitarra, destruindo-a. Sem a guitarra de Noel, a digressão dos Oasis estava em risco e foi aí que Johnny interveio novamente, oferecendo mais uma Gibson a Noel.


A propósito da sua nomeação, este mês, para o prémio Godlike Genius da revista NME (prémio que, curiosamente, foi entregue a Noel Gallagher no ano passado por... Johnny Marr), Marr pegou na lendária guitarra Gibson ES-355 e contou a história de como ela foi parar originalmente às suas mãos:



No vídeo, Johnny Marr conta a história do dia 2 de Janeiro de 1984 - o dia em que lhe chegou às mãos a icónica Gibson ES-355 e em que escreveu o êxito dos The Smiths "Heaven Knows I'm Miserable Now".
Umas semanas antes, quando os The Smiths iam assinar com a Sire Records, para a distribuição dos seus discos nos EUA, Seymour Stein (presidente da editora) levou a banda a jantar. No meio de uma série de histórias do meio musical, Seymour contou que uma dia tinha comprado uma guitarra a Brian Jones dos Rolling Stones, em Nova Iorque. Johnny viu aí uma oportunidade de lucrar com isso e disse que se o levasse também a Nova Iorque para comprar uma guitarra, como fizera a Brian Jones, que os The Smiths assinavam com a sua editora. Num momento de fraqueza, Seymour concordou e no dia 2 de Janeiro de 1984, Johnny e Seymour foram à Rua 48, em Nova Iorque, para cumprir a promessa. Já cansado de esperar e com medo da hora tardia, mesmo antes do fecho das lojas, Johnny Marr escolheu a icónica guitarra vermelha Gibson ES-355. A mesma guitarra vermelha onde escreveria, nessa mesma noite, no hotel, "Heaven Knows I'm Miserable Now" e "Girl Afraid".

"Heaven Knows I'm Miserable Now" foi lançado em single em Maio de 1984 e atingiu o 10º posto nas tabelas de singles britânicas - a posição mais alta durante o tempo de vida dos The Smiths. O tema seria mais tarde incluído na compilação "Hatful Of Hollow".



No vídeo em cima, Johnny pega na Gibson ES-355 e toca os acordes de "Heaven Knows I'm Miserable Now", tema que já não tocava há 25 anos. Muito tempo passou, mas a música dos The Smiths (principalmente dos primeiros anos) continua fresca, parece nada ter envelhecido.
Enquanto houver um adolescente deprimido, trancado no seu quarto, com necessidade de carpir as suas mágoas, a música dos The Smiths será sempre actual.

sexta-feira, 1 de março de 2013

The Smiths - "Hand In Glove"

"And if the people stare, then the people stare...
Oh I really don't know, I really don't care!"



Há uns anos atrás, tive uma namorada que dizia não compreender a minha atracção "por tudo o que fosse Brit". Confesso que eu também nunca lhe consegui explicar, sabia apenas que ela tinha razão.
De facto, o meu gosto musical tinha sido, ao longo dos anos, adubado por tudo o que fosse oriundo do UK e o resultado foi isto. Basta olharem para a barra lateral do blog para terem uma ideia.

Esta tendência começou cedo, devido à influência do meu Pai. As suas bandas preferidas sempre foram os Queen e os Pink Floyd, curiosamente, ou não, também as minhas bandas preferidas de sempre. Foi (principalmente) a música deles que compôs a banda sonora da minha infância. Tratou-se de uma transmissão por osmose, portanto.

Como se tal não bastasse, na última metade dos anos 90, vivia eu a pivotal entrada na adolescência - fase fundamental na modelação do "gosto musical independente" (chamemos-lhe assim) - fui alimentado por toda a onda Britpop / Britrock, que na época dominava as playlists das rádios. Stereophonics, The Verve, Travis, Pulp, Blur, Oasis, Suede, Radiohead... Devorava praticamente tudo.

Os anos passaram e a tendência manteve-se: a fome pela descoberta de mais e mais música britânica. Desde a fornada psicadélica dos anos 60 (The Beatles, The Rolling Stones, The Who...), passando pelo Heavy-Glam-Prog Rock dos anos 70 (Led Zeppelin, Deep Purple, Genesis, Bowie...), o Post-Punk e o New Wave dos anos 80 (Joy Division/New Order, Simple Minds, Tears For Fears, Pet Shop Boys...) e claro, a Britpop dos anos 90. Com o tempo, bati todos os géneros Pop/Rock da Grande Ilha, de uma ponta à outra.
Enfim, como dizia a minha ex-namorada: "tudo o que fosse Brit".

Viram a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres? Repararam no infindável desfile luxuoso de música britânica que eles tinham para apresentar? Dá para ter uma ideia do que estou a falar.



Mas então porque é que fui buscar aquela história da namorada antiga e da sua dúvida acerca da minha atracção compulsiva pela música britânica? Porque acho que a resposta para essa dúvida reside algures aqui, na música dos The Smiths.

Na altura, ainda não conhecia os The Smiths, estes só chegaram mais tarde (no ano passado para ser mais preciso). Mas estou convencido que se eu lhe desse a conhecer os The Smiths, uma dúzia de temas que fosse, ela, de alguma forma, me perceberia finalmente.
Porquê? Não sei, continuo sem conseguir explicar exactamente esta atracção pela música Brit. Mas estou convicto que a resposta está algures nas melodias saídas da guitarra de Johny Marr, ou nas letras traumatizadas de Morrissey.

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Tive imensa dificuldade em optar por um tema dos The Smiths para ilustrar este texto. Decidi-me por "Hand In Glove", o primeiro single da carreira dos The Smiths, lançado em Maio de 1983. Foi um dos primeiros temas dos The Smiths que eu conheci e que despertou o meu interesse na banda.




A primeira aparição da versão single de "Hand In Glove" num álbum dos The Smiths foi em "Hatful Of Hollow" (Novembro de 1984), compilação que reuniu temas gravados ao vivo para a BBC (as BBC Sessions) e 3 singles que não apareceram no 1º álbum da banda ("The Smiths"): "Hand In Glove" , "Heaven Knows I'm Miserable Now", e "William, It Was Really Nothing", com os respectivos Lados B "Girl Afraid", "How Soon Is Now?" e "Please, Please, Please Let Me Get What I Want".
"Hand In Glove" fora incluído no álbum "The Smiths", mas numa versão diferente, na minha opinião mais plástica, mais estéril, à imagem do que havia sido feito com "What Difference Does It Make?".



O tema não conseguiu entrar nas tabelas de singles britânicas, mas atingiu o nº 3 na tabela Indie, vendendo consistentemente durante o ano e meio seguinte, época de ascensão da banda. Este sucesso em "banho-maria" valeu aos The Smiths um registo no livro do Guinness em Janeiro de 1984, quando "Hand In Glove", "This Charming Man" e "What Difference Does It Make?" ocuparam os 3 primeiros lugares da tabela Indie britânica.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Queen - "The Show Must Go On"

"Inside my heart is breaking, my make-up may be flaking, but my smile still stays on."


"You probably already know that I am suffering and what my problem is.
But I don't want to talk about it...
I just want to keep making music 'til the day I f***ing die."
Freddie Mercury, revelando aos membros dos Queen que estava infectado com o vírus da SIDA
(reconstituição de Brian May no documentário "Days Of Our Lives")

Freddie sabia que lhe restava pouco tempo. Ainda o álbum "The Miracle" aguardava ordens de lançamento nas lojas e já os Queen estavam de volta aos estúdios para a gravação do álbum seguinte. Estávamos na Primavera de 1989, altura em que se iniciava a gestação de "Innuendo" - o álbum que a banda temia ser o seu último.

Desde as gravações de "The Miracle" que, no restrito círculo da banda, todos já tinham percebido que Freddie estava gravemente doente, mas ninguém sabia ao certo o que se passava. Só Jim Beach - o manager dos Queen - sabia exactamente o que era: Freddie recebera a notícia que estava infectado com o vírus da SIDA na Páscoa de 1987 e sabia que estava com os dias contados.
Note-se que, naquele tempo, o diagnóstico de SIDA era como que de uma sentença de morte se tratasse.

"On and on, does anybody know what we are looking for?"

A partir daí, Freddie Mercury nunca mais parou. Em primeiro lugar, realizou o seu sonho de trabalhar com a sua voz preferida: a cantora lírica catalã Montserrat Caballé. Desse projecto nasceu a fabuloso álbum "Barcelona", cujo tema-título seria utilizado, uns anos mais tarde, como hino dos Jogos Olímpicos de Barcelona.

Depois de "Barcelona", Freddie reuniu os seus fiéis escudeiros para um sprint final. Os últimos anos da sua vida seriam passados entre as camas de sua casa e dos hospitais e os estúdios de gravação, com os Queen.

Entretanto, multiplicavam-se as histórias nos jornais sobre o estado de saúde de Freddie. Os restantes membros dos Queen negavam tudo. "Freddie está bem de saúde e a trabalhar como nunca!", disse uma vez Roger Taylor aos tablóides. Mas só a parte de "trabalhar como nunca" era verdade.

"The sicker Freddie got, the more he seemed to need to record.
It was really a period of fairly intense work."
Roger Taylor - baterista dos Queen


Certo dia, Freddie teve que confessar aos seus colegas de banda que, afinal, as histórias dos tablóides eram verdade. Ele estava realmente doente e já lhe restava pouco tempo. Todo o tempo era precioso e todo o tempo teria que ser investido a fazer música.
Até ao fim.

A notícia da doença de Freddie tinha atingido a esfera dos Queen como uma tempestade feroz, mas o assunto era tabu. A ordem era para ignorar a doença e continuar a fazer música. Quanto muito, canalizar aquele drama para a música.
Os Queen continuaram a negar os rumores e a imprensa não soube de nada até à véspera da morte de Freddie.

Os sumos criativos dos Queen estavam ao rubro. Neste período de intensa criatividade, a partir de uma sequência de acordes de Roger Taylor e John Deacon, da cabeça de Brian May saiu o corpo de "The Show Must Go On" - um tema que descrevia com precisão o estado de alma vigente da banda. Era preciso continuar, custasse o que custasse.

"We spent our days in the studio waiting for Freddie.
Whenever he was feeling better, he would come, throw a couple of vodkas down and... go for it.
It was some of our best studio times."
Brian May - guitarrista dos Queen


Brian May temia o pior. Brian tinha desenvolvido "The Show Must Go On" e projectara um tema com uma faixa vocal poderosa e proeminente, estupidamente exigente, ao nível do "melhor" Freddie Mercury. Algumas notas eram tão altas, que na gravação demo do tema, Brian fora obrigado a cantar várias partes em falsetto.

O problema é que a doença de Freddie não parava de avançar e por isso, reticente, Brian mostrou a demo a Freddie, com medo que este não conseguisse atingir as notas mais altas.
Segundo reza a lenda, para surpresa de todos, Freddie consumiu então uma considerável quantidade de vodka e gravou, em apenas um take, a impressionante faixa vocal de "The Show Must Go On".

"Dêem-me alguma coisa para cantar e eu canto. Qualquer coisa.", terá suspirado Freddie para os seus colegas de banda. Mesmo que a sua condição física, cada vez mais frágil, parecesse servir de obstáculo, esse handicap não é, de todo, audível no álbum.

"I'll top the bill! I'll overkill! I have to find the will to carry on! On with the show!"

Ao longo de todo o álbum "Innuendo", parece que Freddie tenta, sozinho, travar uma luta hercúlea contra a sua doença, usando como arma apenas o poder catártico das suas cordas vocais.
Durante os 4 minutos de "The Show Must Go On", parece até que Freddie está em vantagem.

"I'll face it with a grin! I'm never giving in!  On with the show!"

Ouçam Freddie a cantar em "The Show Must Go On". Mas ouçam com atenção. Prestem atenção às nuances expressivas, à força, à dinâmica, à emoção.
É o mais preciso, concentrado, afinado, grito de desespero que jamais ouvirão.

Freddie está preso num beco sem saída, à procura da sobrevivência. Se alguma forma de escapar existe, ela será de certeza a cantar. E quem pode dizer que Freddie não escapou? Volvidos mais de 20 anos, a sua música continua aí, mais forte que nunca.

Na época, o single de "The Show Must Go On" chegou apenas ao 16º lugar nas tabelas britânicas - uma posição modesta, explicável tendo em conta que já era o 4º single de um até aí muito bem sucedido álbum "Innuendo".
Com a notícia da morte do Rei, desencadeou-se uma febre pela música dos Queen, que duraria anos.


"The Show Must Go On" serviu como canto do cisne da discografia dos Queen, "aprovada" por Freddie Mercury. Lançado a pouco mais de 1 mês da sua morte, foi o último single e o último tema do último álbum dos Queen, em tempo de vida de Freddie.
Se há algum sentido na expressão "fechar com chave de ouro", ela tem que ser aplicada a "The Show Must Go On".

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Crowded House - "Private Universe"

"It's a pleasure that I have known and it's a treasure that I have gained..."





Ainda o ano de 2012. Já estamos no final de Janeiro e aqui no blog ainda se faz o balanço do ano que passou, num ritmo bem demonstrativo da velocidade de caracol em que o blog tem corrido.
No outro dia, deixei uma menção honrosa aos Tame Impala - uma das grandes revelações do ano passado - e hoje falo de outra grande banda da Oceânia, mais precisamente da Nova Zelândia, desta feita num registo bem diferente: os Crowded House.

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‎"He was in the throes of a nervous breakdown.
Alone in bed and crying uncontrollably, he noticed his baby daughter walking towards his bed, her arms outstretched.
In her hand was a glass of water. She wanted to give something. Something to make it alright.
This was all she could find."
Peter Paphides - radialista britânico, sobre a música dos Crowded House


É possivelmente a mais triste e, ao mesmo tempo, a mais edificante das histórias.
A história é verídica. Terá acontecido ao falecido humorista britânico Spike Milligan, a contas com uma depressão. A sua filha queria ajudá-lo e, sem saber como, levou-lhe um copo de água. Mal, o copo não faria; ao menos mataria a sede e reporia os níveis de água no corpo, esgotados de tanto choro.

O radialista Peter Paphides desenrolou esta metáfora para explicar a valência da música dos Crowded House e na minha opinião, acertou em cheio.
A música dos Crowded House não é a panaceia do mal de ninguém, mas alivia. Não cura as doenças, mas retira dor. Não é vacina, mas sim analgésico.

Se há algum sentido no rótulo de "Easy Listening", ele tem que ser aplicado à música dos Crowded House. A sonoridade é tão suave e acolhedora, que tem o dom de me transmitir tranquilidade.

Não deverá ser segredo para ninguém que tenha um rádio desde 1986, que os Crowded House são mestres no registo do Soft Rock, desde que invadiram as ondas FM com o seu grande êxito "Don't Dream It's Over". Este registo de banda de sótão, que seria explorado ao longo dos anos por bandas como os Coldplay, ou os Keane é o estilo Rock de mais fácil audição, apoiado na melodia e sem grandes espaços para distorções.

A voz dos Crowded House e sua principal força criativa é Neil Finn. À falta de rasgos musicias dilacerantes, Neil é um tipo que sabe escrever uma melodia, sabe colar-lhe uma lírica e sabe produzir tudo de forma a que caia no ouvido de forma macia e agradável, sem nunca perder a mensagem.

Neil Finn é um poeta. São várias as passagens ao longo da sua lírica que me abanam. Frases simples, mas de uma profundidade, sinceridade e, acima de tudo, realidade, comoventes:

 "You opened up your door, I couldn't believe my luck..."
in "Into Temptation" - Álbum "Temple Of Low Men" (1988)


"I don't pretend to know what you want, but I offer love."
in "Distant Sun" -  Álbum "Together Alone" (1993)


"Não finjo saber o que queres, mas eu ofereço amor." 
Sem comentários... É isto.

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"It feels like nothing matters in our private universe."

O tema que aqui fica é um dos meus preferidos dos Crowded House, apenas um dos grandes temas que podemos ouvir em "Recurring Dream". Originalmente, "Private Universe" foi lançado no álbum "Together Alone", em Outubro de 1993 e serviria, exactamente um ano mais tarde, de 6º (!!!) single de promoção ao álbum. 
Sim, leram bem; para tentar capitalizar o álbum nos vários mercados onde tentavam penetrar, os Crowded House lançaram um total de 7 singles de "Together Alone", nenhum deles com especial sucesso.



"You said the chance wasn't getting any better, labour of love is ours to endure"

"Private Universe" puxa algumas sonoridades da world music para criar uma atmosfera mística, muito própria do que se ouvia na rádio em meados dos anos 90. Estávamos na era dos Enigma ("Return To Innocence"), dos Era, da Enya, dos Sacred Spirit, do canto gregoriano, ou dos (hediondos) pan pipes (Deus me livre...). Um dia destes voltarei ao asssunto.

2012 foi o ano da confirmação dos Crowded House no meu reportório. Foi o ano em que passei a olhar para a sua discografia com um espectro mais alargado, para além dos êxitos mais conhecidos. De tal forma que a compilação "Recurring Dream - The Very Best Of Crowded House" foi um dos álbuns mais tocados do ano transacto.