terça-feira, 8 de janeiro de 2013

David Bowie - "Where Are We Now?"

"You never knew that... That I could do that"


Bowie voltou.
Já poucos esperavam o seu regresso. Mas no dia em que fez 66 anos, David resolveu quebrar o lago gelado em que se encontrava a sua carreira e lançar o primeiro calhau.
Um tema novo - "Where Are We Now?" - já está aqui para todos ouvirmos. Um álbum novo - "The Next Day" - chegará no dia 11 de Março e é o seu primeiro em 10 anos (o último tinha sido "Reality", de 2003).
David Bowie esteve de fora muito tempo, demasiado tempo. No anúncio oficial, o seu site deu conta desta prolongada ausência:
"In recent years radio silence has been broken only by endless speculation, rumour and wishful thinking... a new record...who would have ever thought it, who'd have ever dreamed it! After all David is the kind of artist who writes and performs what he wants when he wants...when he has something to say as opposed to something to sell.
Today he definitely has something to say."

Então, afinal, o que é que Bowie tem para dizer?
Na minha opinião, "Where Are We Now?" é um bom tema... que não compromete. Não é extraordinário, mas também não corre grandes riscos.

O tema evoca a era de Berlim de Bowie (isto é, o período que compreende os álbuns "Low", ""Heroes"" e "Lodger"), uma época de grande revolução na sua música, cujo impacto na música de outros artistas (nomeadamente no seu país) é hoje já bastante reconhecido. Mas a verdade é que "Where Are We Now?" se assemelha mais ao período neo-clássico Bowie, dos anos 00, do que ao período de Berlim (para o qual eu tenho programado um post, a sair muito brevemente), do final dos anos 70. 



A aproximação ao período (hoje) mais cool da carreira de Bowie é perceptível (até a capa da edição de luxo do álbum é um makeover da capa de ""Heroes""), mas não é materializada nesta primeira amostra de "The Next Day".
Note-se que colocar "The Next Day" ao lado de um álbum como "Heathen" (de 2002), em vez de ""Heroes"" (de 1977), em nada o desqualifica; é apenas uma comparação mais realista, para um artista que já leva uma carreira a entrar na 5ª (!!) década.

Julgando pela sua primeira amostra, não me parece que "The Next Day" seja o álbum do grande comeback de David Bowie. Parece-me, sim, o álbum do seu "adeus".
Bowie não procura aqui uma revolução na sua sonoridade, como fez tantas vezes ao longo da sua carreira; como fez quando foi para Berlim em 1976. Nessa altura, Bowie impregnou na sua música as influências vigentes na cidade - a Electronica e o Krautrock - e obteve os resultados brilhantes que hoje conhecemos.
Hoje, as influências vigentes em Berlim continuam dentro da Electronica, mas agora em estilos mais focados como o Dubstep ou o House. Aos 66 anos, duvido que David Bowie tenha grande interesse em enveredar por esse caminho. E eu duvido que isso fosse, sequer, boa ideia...

Mais... mais, para já, não sabemos. Da minha parte, já estou a fazer figas com dedos das mãos e dos pés, para que David Bowie volte à estrada em 2013 e eu possa finalmente ver o Thin White Duke ao vivo. Nem que, para tal, tenha que voltar a Londres.

Para já, o que fica é que "Where Are We Now?" é bom e é Bowie... e isso é óptimo.
Para já, isso basta para nos encher o coração. 
Para já, o importante é que... Bowie voltou.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

George Harrison - "Hear Me Lord"

"Now, won't you please... Please... Hear me, Lord"



Hoje volto a "All Things Must Pass" para fechar 2012 e vos falar na categoria que falta: o Tema do Ano. A minha escolha é o divinal "Hear Me Lord".
Em Agosto, já aqui falei da grande obra-prima de George Harrison; o albatroz da sua discografia; o álbum onde o Quiet Beatle almejou alcançar, sozinho, as alturas babilónicas dos The Beatles. Na minha modesta opinião, subiu alto, muito muito alto.
"All Things Must Pass" foi o meu álbum preferido de 2011 e foi, quase, quase, quase... o meu preferido de 2012. O volume de material que encontramos aqui é tão vasto, tão imenso, que a longevidade que este álbum teve comigo foi enorme.



"All Things Must Pass" é um álbum onde George Harrison abre o coração e despeja tudo o que lhe vai na alma. E como seria de esperar de George (principalmente nesta fase da sua vida), o que vai na sua alma é essencialmente fé.
A fé aqui exposta não está necessariamente ligada a uma religião específica, como deixa entender em "Awaiting On You All" ("By chanting the nameS of the Lord, you'll be free"); George nunca fala em Deus ("God"), mas refere-se repetidamente ao Senhor ("Lord"). O que George quer transmitir é que qualquer que seja a crença (e ele também tem a dele), o que é preciso é ter fé. Porque a fé é a luz que nos previne da escuridão ("Beware Of Darkness").

Ora bem, eu não me considero, de todo, uma pessoa religiosa. A invocação contínua do Senhor por parte de George, como figura religiosa da Salvação, não é uma acção com a qual eu me identifique directamente.
Mas tenho fé, pois claro. Tenho fé na verdade de valores (muitos deles cultivei com a aprendizagem religiosa que tive), fé na verdade de sentimentos, fé na verdade de pessoas que me rodeiam. Porque a fé é muito mais do que religião.

"Help me, Lord, please, to rise a little higher, hmmm-hmmm
Help me, Lord, please, to burn out this desire, hmmm-hmmm"

Por isso, a forma como George se entrega em "Hear Me Lord" deixou-me completamente rendido ao tema. George canta em desespero, despe o seu íntimo, revela as suas fraquezas, pede força para o ajudarem a ultrapassá-las e assim usa a fé como uma arma... para ser uma melhor pessoa. E se não é isso que todos queremos, é de certeza o que todos deveríamos querer.

"Hear Me Lord" é um dos temas mais pessoais que George Harrison escreveu em toda a sua carreira. George escava até ao ponto mais profundo do seu íntimo para sacar o que ouvimos. A sua inclusão no final do 2º disco de "All Things Must Pass" serve como uma chave de ouro, para fechar a sua obra-prima (não conto aqui com o 3º disco - Apple Jams).

Desde a explosiva introdução de bateria, que "Hear Me Lord" é um tema que me consegue, invariavelmente, arrancar arrepios na espinha. A beleza dos arranjos, da interpretação vocal de George e das harmonias, daquela slide guitar que se ouve a chorar lá ao fundo, do piano caótico a carpir as suas mágoas... é uma beleza que me esmaga. É tudo perfeito.

Em alternativa, ouvir George Harrison aqui, em modo solo, a cantar "Hear Me Lord" acompanhado apenas da sua guitarra eléctrica, despido de toda a produção de Phil Spector, pode ser ainda mais arrepiante. Decidam vocês.



Depois do post de Agosto e desta introdução, acho que já praticamente esgotei os elogios que poderia fazer a este álbum. O impacto que esta obra teve em mim está à vista e o que me resta agora é desafiar-vos a deixarem-se submergir nela, de mente livre e coração aberto, tal como eu o fiz, desde que o descobri no último terço de 2011.

sábado, 29 de dezembro de 2012

New Order - "True Faith"

"I feel so extraordinary, something's got a hold on me"



"Who is the laziest member of the band?
Ian Curtis. I've never seen him do anything for years!"
Peter Hook - baixista dos New Order e dos Joy Division - por volta de 1993


Não deve ter sido fácil. Perder um amigo, um amigo que era também o vocalista da banda, que era o principal autor das letras e figura de proa do grupo... Perdê-lo quando, finalmente, a banda começara a ganhar alguma notoriedade...
Não deve, não pode ter sido fácil.

Contudo, os restantes Joy Division queriam continuar a fazer música. Nem fazia sentido ser de outra forma.
A perda de Ian Curtis significava que a identidade carregadamente urbano-depressiva da banda ia também cair. As temáticas do isolamento, da alienação, ou da depressão, trazidas pela mente perturbada de Ian, dissipar-se-iam com a sua saída. Mas a música, essa, estava lá intacta.

Porém, sem Ian Curtis, os Joy Division não faziam mais sentido. Assim, Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris decidiram adoptar um novo nome e recrutar um novo elemento para as teclas - Gillian Gilbert; nasciam então os New Order.

Os primeiros singles e o primeiro álbum dos New Order, lançados entre 1981 e 1982, cheiravam ainda a Joy Division. Por vezes, isso era bom, como em "Ceremony", "Everything's Gone Green", ou "Dreams Never End", por outras nem por isso. Em todo o caso, era impossível esconder que a banda dos subúrbios de Manchester estava a passar uma fase de transição.

"I can't tell you where we're going, I guess there's just no way of knowing"

Porém, quando em 1983 rebentou "Blue Monday" e se tornou no single de 12'' mais vendido de sempre (ainda hoje detém esse título), era evidente que os New Order já tinham passado para a outra margem. Já não eram uma referência do Post-punk, eram agora um porta-estandarte do Synthpop e do New Wave. Passaram do registo urbano-depressivo para um registo "dançável".

Confesso: não sou, em geral, um apreciador de música de dança; nem sequer, num conceito mais abrangente, de música "dançável". Nunca fui.
Nunca fui... até chegar aos New Order. Talvez pelo facto de misturarem as guitarras e as influências Punk, com as influências electrónicas germânicas (Kraftwerk, etc.), como David Bowie tinha feito 6 anos antes, os New Order arrebataram-me de imediato. Primeiro, com o inevitável "Blue Monday" e depois, com este superlativo "True Faith".

"True Faith" é o meu tema preferido dos New Order, mas é mais que isso: é o meu tema preferido de toda a "música dançável"; e mais ainda: é o meu tema de 2011.

Já devo um post aos New Order há muito tempo. Pelo menos desde há um ano quando, por esta altura, deveria ter feito o balanço de 2011. Porque a escolher o Tema do ano de 2011, seria "True Faith", na sua versão de 12''. O tema que simboliza uma das melhores coisas que me aconteceu nos últimos anos.

O papel dos New Order em 2102 foi diferente, não tão centrado num tema, como em 2011, mas mais abrangente.
Se ontem falei da banda Revelação do ano - os The Smiths - hoje é tempo para a Banda do ano - a banda que mais marcou o meu quotidiano, em 2012. Como já terão percebido por esta altura, trata-se dos New Order. Curiosamente, foi uma banda que explodiu no Reino Unido, mais ou menos na mesma altura que os The Smiths.

Já a minha explosão de New Order deu-se no último trimestre de 2012, quando descobri esta pequena maravilha:


"Substance" (ou "Substance 1987", para os puristas) deixou-me cabalmente agarrado aos New Order. A partir do dia em que ouvi a versão de 12'' "The Perfect Kiss" (WTF is that?!), o resto veio de arrasto, qual enxurrada: "State of the Nation", "Everything's Gone Green",  "Ceremony", "Touched By The Hand Of God" e mais.... muito mais.

Fiquei de tal forma agarrado aos New Order, que 2012 viu a minha única interpretação de um tema em público, num karaoke de um bar. Nem mais nem menos que... "True Faith".

Depois, respeitando a minha pancada coleccionista (a partir do momento que gosto de alguma banda, tenho que ter tudo dessa banda), prima directa da minha pancada de romântico (se gosto de algo ou alguém, gosto mesmo muito), fui "obrigado" a comprar este lote:



Exacto. Falo de edições de coleccionador, expandidas, dos 4 primeiros álbuns dos New Order. Isto resultou, como já referi, num verdadeira enxurrada de New Order na fase final de 2012, o suficiente para ganharem o meu prémio de Banda do ano. E tenho para mim que isto ainda não acabou...

Nota: a versão 12'' de "The Perfect Kiss" - o meu ex libris dos New Order em 2012 - só não leva as honras deste tópico porque... Bem, porque já devia um post ao "True Faith"!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

The Smiths - "What Difference Does It Make?"

"So, what difference does it ma-a-ake?
It makes none."



"What came first? Music or the misery?
People worry about kids playing with guns or watching violent videos; that some sort of culture of violence will take them over...
Nobody worries about kids listening to thousands - literally thousands - of songs about heartbreak... rejection... pain... misery... and loss.
Did I listen to pop music because I was miserable? Or was I miserable because I listened to pop music?"
 John Cusack, como Rob Gordon, no filme "High Fidelity"




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Há uns dias atrás, um amigo confessava-me a sua convicção que "Se não fosse a música, os psicólogos e os psiquiatras teriam muito mais trabalho." Eu próprio já aqui defendi essa visão terapêutica da música várias vezes e ainda ontem, no post alusivo à importância da música de Bruce Springsteen, no desenrolar da minha vida em 2012, fiz questão de o fazer novamente.
No filme "High Fidelity" (que eu recomendo vivamente, que mais não seja porque parece contar um pouco da minha História no grande ecrã), a personagem interpretada por John Cusack - como eu, um daqueles amantes de música - levanta uma questão pertinente: ouvimos música porque nos sentimos miseráveis? Ou sentimo-nos miseráveis porque ouvimos música?
Será que a música nos tira da miséria? Ou será que prolonga o nosso sofrimento?

Excelente questão. Eu, confesso, não sei a resposta. Dependerá de pessoa para pessoa e a verdade andará algures no meio dos dois conceitos. Mas façamos uma reflexão sobre o assunto.
O que eu sei é que não vou deixar de ouvir música, por pensar que esta me pode por num lugar pior do que aquele em que estou. A História, a minha História, já me deu provas mais que suficientes em sentido contrário.

O Mundo é um lugar não raras vezes difícil. A música tem o condão de nos transportar para um lugar seguro, onde quer que estejamos, seja em que situação for. Ao ouvirmos os acordes daquele tema que gostamos, ou o som da voz terapêutica daquele artista, somos automaticamente levados para um abrigo, sãos, salvos e em segurança de todos os danos que nos possam infligir.

"I'm feeling very sick and ill today, but I'm still fond of you, oh-ho-oh"

Mas porquê, afinal, todo este discurso sobre a bondade da música e o que é que isso tem a ver com os The Smiths?
Bem, digamos que o papel dos The Smiths em 2012 foi, no mínimo, sui generis. Pode ser que no final do post, esta relação já seja perceptível.

Começo por declarar que os The Smiths levam o epíteto de Revelação do ano em 2012 e é por isso mesmo que lhes dedico este post. Claro que antes deste ano já tinha ouvido algumas coisas aqui e ali, mas ainda não estava familiarizado com o legado e a lenda da banda de Manchester.
2012 mudou tudo isso e com grande impacto. Literalmente.

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Há uns meses atrás, um certo acontecimento dramático desencadeou uma série de transformações na minha vida.
O acontecimento? Um violento choque de automóvel. A relação com os The Smiths? No exacto momento do choque, ouvia "There Is A Light That Never Goes Out", no caso pela voz de Noel Gallagher.
Esta mórbida coincidência levou-me a explorar mais a fundo a música dos The Smiths e a retirar, da sua música, uma experiência terapêutica. Terapia sobre o acidente, terapia sobre as coisas que estavam mal na minha vida e uma decisão sobre o que tinha que mudar. A subsequente revolução.
Outras bandas tiveram um papel importante nesta revolução (falarei numa delas amanhã), mas nenhuma teve uma relação tão situacional, diria até metafísica, como os The Smiths. Foram eles que me apontaram o caminho.

Tony Fletcher - autor da biografia da banda "A Light That Never Goes Out: The Enduring Saga of The Smiths" - acredita que "nenhuma outra banda conseguiu retratar a alma atormentada de um jovem como os The Smiths". Eu não arrisco nenhum epíteto deste tipo (até porque sou relativamente novo ao fenómeno), mas a verdade é que deles veio a música que melhor caracterizava a minha própria atormentada alma, num tempo de revolução.

Um dos temas chave desse meu conflito interno, que marcou os últimos meses deste ano, foi "What Difference Does It Make?".
Este tema foi o 3º single dos The Smiths, lançado em Janeiro de 1984, como aperitivo do 1º álbum da banda - o homónimo "The Smiths" - que veria a luz do dia um mês mais tarde. Acabaria por ser o único single retirado do álbum, com relativo sucesso (atingiu o nº 12 das tabelas britânicas), sendo hoje um dos temas mais reconhecidos da banda.

As duas capas do single "What Difference Does It Make?"; à esquerda a capa original, retirada do mercado e substituída pela da direita, com Morrissey; por sua vez retirada e substituída pela primeira novamente;


Em baixo fica a versão que foi lançada em single e incluída no álbum "The Smiths":




Alegadamente, "What Difference Does It Make?" é um dos temas dos The Smiths que Morrissey menos gosta. Pela minha parte, é um dos meus preferidos.

A versão que me conquistou está mais em cima no post e foi gravada ao vivo na BBC - no programa de John Peel (as Peel Sessions) - e incluída na na compilação "Hatful Of Hollow", lançada em Novembro de 1984.
Conquistou-me tanto pelo riff de Johnny Marr, como pela interpretação vocal fa-bu-lo-sa de Morrissey;  pelo desdém com que ele diz "It makes none", depois de perguntar em agonia "What difference does it ma-a-ake?"; pelo falsetto no fim.
Mas conquistou-me principalmente porque capturou um momento. Um momento numa noite feliz, numa noite de libertação, em que um DJ decidiu colocar este tema, nesta versão, a tocar numa das minhas pistas de dança preferidas de Lisboa. Num momento, cristalizou-se a bondade da música dos The Smiths; provou-se, pela enésima vez, a bondade da música na minha vida.
Que diferença é que isso faz? Faz toda.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Bruce Springsteen - "Rocky Ground"

"We've been traveling over rocky ground, rocky ground
There's a new day coming"



A próxima Escolha musical de 2012 é um habitué aqui no blog. Figura marcante da minha vida nos últimos 5 anos e vencedor em várias "categorias" neste ano, falo-vos de Bruce Springsteen que, com este post, soma já 15 entradas no blog.
Mesmo não sendo ouvido com tanta consistência como noutros anos, segundo a minha revisão, em 2012 Bruce foi o Artista no activo do ano; em grande parte devido a ter dado o Concerto do Ano (no Rock In Rio Lisboa) e a ter lançado o Tema original do ano ("Land Of Hopes And Dreams"), no seu álbum "Wrecking Ball".

"Wrecking Ball" pode ter perdido para "Shields" na categoria de Álbum original do ano, mas nem por isso Bruce Springsteen deixou de ter um papel importante no meu quotidiano, em 2012.
Uma vez que já tinha escrito um post sobre "Land Of Hopes And Dreams" (na véspera do concerto no Rock In Rio), hoje deixo aqui aquele que foi "o outro" grande tema do álbum.



"Rocky Ground" é um dos temas mais arriscados da carreira de Bruce Springsteen. Esta ofereceu-nos um filão quase inesgotável de boa música, mas sem grande diversidade. Bruce é muito forte no seu registo, mas arrisca pouco para além das suas incursões mais carregadamente folk.
Com "Rocky Ground", Bruce vai ao hip-hop (que heresia!) buscar uns loops e até põe um rap pelo meio; vai ao gospel buscar as vozes para uma paisagem harmoniosa edificante. No papel, nada disto parece ter a ver com Bruce Springsteen, mas a verdade é que em "Rocky Ground", esta mistura resulta.

Resulta ainda melhor no álbum "Wrecking Ball", com a passagem do fade-out gospel de "Rocky Ground" - tema de lamento em tempos difíceis, para o início a capella de "Land Of Hopes And Dreams" - hino de esperança. Os dois grandes temas de "Wrecking Ball" e dois temas que ilustram, e de que maneira, o meu 2012.

Se pensarmos no assunto, é incrível como a música pode ter um impacto tão grande nas nossas vidas:  conduz o nosso estado de espírito; ajuda-nos a levantar quando estamos no chão.
Mas mais que a ajuda pessoal, a música serve ainda como elo de ligação interpessoal: fortifica as amizades magoadas; dá-nos a conhecer amigos que ainda não o eram.
O concerto de Bruce Springsteen e da E Street Band no Rock In Rio foi um dos pontos mais altos do ano e foi tudo aquilo que referi. Para o bem e para o mal.

Neste post, já descrevi com bastante rigor aquilo que, para mim, foi ver Bruce Springsteen ao vivo no meu país. Mas não resisto a deixar só mais uma nota acerca da "experiência" que é um concerto da E Street Band e da autenticidade de Bruce.
James Hetfield - vocalista dos Metallica (banda de Thrash Metal, ou seja, longe do estilo de Bruce) - fala sobre a importância de ser verdadeiro na sua música:



"We went to see Bruce Springsteen the other night. I'm not the biggest fan of his music, but I watched him live and..." 
(James arregala os olhos) 
"My God, he means it!
He really means it! It's in his heart, it's in his face, it's in his eyes! 
You see him and you go.. WOW! He could go forever!"

A verdade. É isso que procuro na música de Bruce Springsteen. Não a verdade sobre Bruce, mas a verdade sobre mim. Como disse o Presidente dos EUA - Barack Obama (outro grande fã do Boss) - quando laureou Bruce Springsteen nos Kennedy Center Honors, citando o próprio:
"I’ve always believed that people listen to your music not to find out about you, but to find out about themselves."

Ao longo dos anos que a música de Bruce me acompanhou, muito já descobri sobre mim e 2012 não foi excepção. Para o bem e para o mal.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Grizzly Bear - "Speak In Rounds"

"Step back just once, learn how to be alone"



Depois do longo hiato, o blog regressa hoje para o que eu espero que seja uma ponta final de 2012 e um 2013 em força. Os últimos meses foram de grande azáfama e espero, também nesse sentido, ter novidades em breve. Para já, voltemos ao clássico modelo da Escolha musical do dia.

Estamos no fim do ano e é por isso tempo de balanço. No ano passado (2011) não tive oportunidade para fazer essa analepse aqui no blog, mas na última semana de 2010 fiz nestes posts a revisão do que ouvira nesse ano.
Como na altura referi, raramente a música que eu mais ouço num determinado ano concorre com a música que se fez nesse ano. Claro que há excepções e é nesse sentido que eu, desde os meus 14 anos,  em jeito de revisão, sistematizo os mais ouvidos do ano, dividindo as "escolhas musicais do ano" em várias categorias.
Sem mais demoras, passemos então ao Álbum original do ano (ou seja, o álbum que mais gostei de 2012, em 2012): "Shields" dos Grizzly Bear.


Tinha começado a escrever um texto a tecer loas a "Shields", mal o ouvi pela primeira vez no início de Setembro. Na altura, pensei logo que isto era o melhor que os Grizzly Bear já tinham feito. Seria impossível ouvir algo tão bom como isto até ao final de 2012, tinha instantaneamente ouvido o "álbum do ano".
Isto no ano em que um dos meus artistas preferidos - Bruce Springsteen - lançara um álbum novo, um trabalho que até ganhou o prémio de "álbum do ano" atribuído pela Rolling Stone (publicação que classificou "Shields" no 35º lugar).

Mas "Shields" deixara-me estarrecido com aquela sequência de 4 músicas iniciais ("Sleeping Ute" / "Speak In Rounds" / "Adelma" / "Yet Again") e senti uma urgência de revelar ao mundo o meu êxtase. Porém, acabei por me decidir em esperar uns meses, para deixar o álbum amadurecer em mim e, depois sim, emitir um julgamento.

Ao fim de alguns meses, qual é o meu veredicto? Exactamente o mesmo.
Um dos álbuns mais entusiasmantes do ano, "Shields" é um trabalho fabuloso dos Grizzly Bear, mas merece ser mais que isso: merece o epíteto de álbum do ano.

"Shields" mostrou uns Grizzly Bear inventivos como sempre. Para além de todo o virtuosismo técnico e sónico que lhes é reconhecido e que já fora cristalizado em "Veckatimest" (álbum que eu adorei), em  "Shields", a banda de Brooklyn conseguiu superar as minhas expectativas.
Como? Uma palavra chega, para descrever como: coração.

O meu problema com algumas bandas art-house / alternativas de hoje, tão veneradas pelas publicações hipster como a Pitchfork, deve-se precisamente à falta de coração; à falta de sentimentos que me conseguem transmitir.
A ânsia de criar algo de diferente leva a que muitas vezes a música perca o que mais tem de importante: o veículo de um sentimento.
"Play with your fu**ing heart!", já dizia o Bill Hicks.

Este é um conflito que não se aplica ao mais recente trabalho dos Grizzly Bear. Se eles me impressionaram com "Veckatimest" em 2009, em 2012 tocaram-me fundo com "Shields".

O meu momento preferido do álbum surge a meio da já referida sequência inicial, com este "Speak In Rounds".

"Shields" é um álbum com coração. É um álbum que na produção mantém o nível meticuloso, qual peça de relojoaria, mas que a isso acrescenta grandes canções. É o apogeu criativo da banda nova-iorquina.
É o meu álbum "original" de 2012.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pink Floyd - "In The Flesh?"

"So ya, thought ya, might like to... go the show!"




Quem conhece os cantos à casa aqui do blog, já decerto terá reparado no makeover a que ele foi submetido. Esta nova (temporária?) face do tasco deve-se à comemoração de uma efeméride deveras importante.

Passo a anunciar:
Acabei de comprar bilhetes para ir a Londres, ao Estádio do Wembley, ver o espectáculo "The Wall Live" de Roger Waters.

É isto. Escusado será dizer que estou nas nuvens! :)



Em primeiro lugar, ir ao estádio do Wembley, ver um concerto, sempre foi um sonho para mim. Se eu sou assim, quem sou e como sou, muito o devo àquele maravilhoso concerto dos Queen no velhinho Wembley - o "Live At Wembley '86" - com o qual eu cresci.
Foi a exposição numa idade tão tenra (segundo o meu Pai, com apenas 3 anos) àquele filme, em incessantes repetições numa (hoje decrépita) cassete de VHS (mais uma vez recorrendo ao meu Pai, a exposição era praticamente diária) que me fez chegar até aqui.
Não fosse aquele filme e hoje, mais que provavelmente não escreveria neste blog. Em vez de torrar dinheiro em música (desde concertos, a CD's, DVD's, Vinyl e por aí fora...), talvez o meu hobby fosse filatelia ou numismática e seria certamente uma pessoa bem mais aborrecida. O meu obrigado ao meu Pai, por me expor àquela maravilhosa cassete.
Mas já estou a divagar.

A verdade é que o Estádio do Wembley sempre fez parte do meu imaginário, desde criança, até aos dias de hoje. Até a minha banda de adolescência - os Oasis - tocaram ali e lançaram um álbum (e correspondente vídeo) ao vivo para marcar a ocasião.



É verdade que já lá não está o velhinho e mítico Estádio do Wembley. Já não é o mesmo edifício onde tocaram os Queen, ou onde o Rei Mercury brilhou no Live Aid. Mas o local é o mesmo e o misticismo mora todo ali. O novo estádio, inaugurado em 2007 por George Michael, é uma infraestrutura moderna, ainda mais megalómana que a anterior (com capacidade até 105 mil (!!) espectadores para concertos) e mais bem preparada para este tipo de eventos.



Agora pensem comigo: partindo do princípio que é impossível eu ver os Queen de volta ao Wembley (e lamento, mas o somatório Brian May + Roger Taylor + um vocalista amigo, não qualifica como Queen), que melhor ocasião poderia haver para cumprir o sonho de ver ali um concerto, que aquele que é provavelmente o espectáculo mais majestoso da História do Rock, como pude comprovar na visita de Roger Waters ao Pavilhão Atlântico no dia 21 de Março de 2011?

Quando é que vou voltar a ter a chance de ver ao vivo, no emblemático Estádio do Wembley, o Roger Waters, a tocar um dos meus álbuns preferidos e (já agora arrisco), com a provável "aparição especial" de David Gilmour para tocar o solo de "Comfortably Numb" (conforme fez no o2 Arena, em Maio do ano passado)?

Só de pensar em toda esta conjugação de factores, já estou com um orgasmo mental!
Venha daí o 14 de Setembro de 2013!!!! :)