sexta-feira, 11 de julho de 2014

Roger Waters - "Amused To Death"

"No tears to cry, no feelings left. This species has amused itself to death."


Depois de falar nos Pink Floyd de David Gilmour (na prática, é isto) e de Richard Wright, chega a vez de Roger Waters.

Eu sei, nos últimos tempos tenho batido muito no tio Roger aqui no blog e ainda não dei a devida atenção à sua obra a solo. Mas isso não quer dizer que não goste dele.
Falar em Roger Waters é falar num dos maiores génios da história do Rock, criador dos álbuns conceptuais mais superlativos algumas vez gravados. É da cabeça deste génio criativo que saíram as ideias (não necessariamente toda a música) que resultariam em "The Dark Side Of The Moon", "Animals" e "The Wall". Não é de somenos.

Roger Waters é, de facto, um génio criativo. O problema de Roger é que o título de génio criativo lhe foi atribuído... por ele próprio. Reza a História que esta auto-indulgência pode ser extrapolada toda a sua personalidade.
Para ser friamente honesto, Roger era - pelo menos até há bem pouco tempo - o tipo de pessoa com quem nenhum de nós gostaria de se cruzar.
Se há um adjectivo que vemos repetidamente atribuído a Roger, esse será o de Prick (tradução livre: anormal/idiota/cabrão). "Roger is a prick", disse um dia David Gilmour, para explicar porque é que não falava com ele há 15 anos. "Just another prick in the wall" (esta tem piada), chamou-lhe recentemente este colunista, devido às suas posições anti-Israel.
Eu sou mais simpático e chamar-lhe-ia o maior egomaníaco da história do Rock, com tanto de mérito, como de idiota. Não poderá ter sido fácil trabalhar com ele, especialmente na sua fase mais obnóxia, durante a 2ª metade da década de 70 e 1ª da década de 80.

Foram precisos muitos anos para amansar a fera. Só recentemente parece ter enterrado o machado de guerra com David, tendo até marcado presença num evento de caridade promovido por Gilmour, favor que este retribuiu ao aparecer num concerto de Roger, para uma lendária rendição de "Comfortably Numb".

Mas o facto de eu o criticar e de até me pôr ao lado dos seus companheiros dos Pink Floyd devido à sua personalidade detestável, nada disso significa que eu não me identifique com o que escreveu Roger. Porra, se há alguém que conseguiu pôr em disco os meus medos, os meus dilemas e as minhas lutas internas, esse alguém é Roger Waters (e Bruce Springsteen, obviamente).

E ainda assim, nunca dediquei grande atenção à obra a solo de Roger Waters aqui no blog. Poderia ser obra do acaso, mas não é. O problema é que a obra a solo de Roger não é assim tão boa quanto isso.

Em meados dos anos 80, Waters estava deserto por se ver livre dos restantes membros dos Pink Floyd, por achar que eles já não contribuíam nada para as suas criações. Saiu assim dos Pink Floyd em 1984, alegando que estes eram já uma "força esgotada" (estou a citar) e ingenuamente presumiu que a banda tinha terminado, por não fazer sentido sem a sua presença. A vaidade sair-lhe-ia cara, uma vez que o futuro provaria que não poderia estar mais enganado e os Pink Floyd lançariam mais 2 3 álbuns de grande sucesso.

Se houve alguém que sofreu com a separação dos Pink Floyd, esse alguém foi Roger Waters. Sem David Gilmour, sem Richard Wright, músicos que ele considerou dispensáveis e esgotados, as ideias de Roger nunca mais puderam ser materializadas em música que o público quisesse ouvir.
Roger foi buscar Eric Clapton, Jeff Beck e Andy Fairweather Low para fazer de David Gilmour, mas nenhum deles tapou os buracos que ele próprio abrira com o seu ego. Uma pena. E por que não, uma lição para a vida de todos nós.

Nesta matéria eu falo à vontade, uma vez que a discografia de Roger Waters foi a primeira que eu conheci a fundo, de todos os membros dos Pink Floyd a solo.
No meu top de álbuns a solo dos Pink Floyd (vá lá, não façam essa cara, é óbvio que eu tenho isto categorizado e ordenado), em primeiro vêm "On An Island" de David e "Wet Dream" de Rick, quase ex aequo e só depois surge "Amused To Death" de Roger.



"Amused To Death" é o 3º álbum a solo de Roger Waters (o 4º, se contarmos com a colaboração com Ron Geesin em 1970) e o último a ser lançado até hoje; já remonta a 1992, já lá vão 22 anos.

Esqueçam as melodias. Em "Amused To Death", elas são inexistentes, ou estão tão difusas na quantidade torrencial de efeitos sonoros (explosões, comentadores, telefones, entrevistas, etc etc), que são praticamente imperceptíveis. Valham-nos um Jeff Beck e um Patrick Leonard em grande forma, que nos vão dando alguns laivos de musicalidade aqui e ali.

Na maior parte do tempo, o tio Roger tem coisas para dizer e quer que vocês ouçam. Estamos no início dos anos 90 e a televisão assume um papel mais importante que nunca na sociedade.
A Guerra do Golfo é transmitida em directo para grandes audiências, Roger Waters não concorda e, como não poderia deixar de ser, quer falar sobre isto. Mais uma vez, muita política.

"Amused To Death" marca o culminar de um ciclo que começou em "The Wall", continuou em "The Final Cut" e prolongou-se pela discografia a solo de Waters ("The Pros And Cons Of Hitchicking" e "Radio K.A.O.S."), ciclo esse que eu chamo de purificação de Waters (grande trocadilho). À medida que Roger foi ganhando poder, a sua música foi ficando cada vez mais insípida, com cada vez mais foco nas palavras e menos (ou nenhum) na melodia.

Faltam as melodias, mas isso não significa que este álbum não seja capaz de nos tocar. E mais: que este não seja um grande álbum; que é. Mas poderia ser muito melhor e esse é que é o problema.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Richard Wright - "Mediterranean C"



Parece que é desta: o Verão está aí em força. Já não era sem tempo.
Como tal, hoje vou falar de um dos meus álbuns de Verão preferidos. O álbum dá pelo nome de "Wet Dream" e é o álbum de estreia de Richard Wright - esse mesmo, o teclista dos Pink Floyd.

Fazendo um trocadilho com a língua inglesa, diria que "Wet Dream" shows the Wright way; isto é, o álbum mostra a forma de fazer música segundo Richard Wright. Aqui não há espaço para poesia profunda e confessional, ou histórias de vida e de sofrimento. Pode-se dizer que é o antagonismo do que é a música, por exemplo, segundo Roger Waters. Pode-se dizer também que estes dois estilos são, no fundo, complementares; e que por isso é que a música dos Pink Floyd resulta tão bem. Mas isso é outra discussão.


"Wet Dream" é um álbum num registo mais Jazz-Rock, com forte carga instrumental: dos 10 temas, 6 são instrumentais e 4 têm (lindíssimas) faixas vocais de Rick. Aqui, tudo é melodia, tudo é ambiance, tudo nos sugere a calma e o azul do céu e o azul do mar (ui, daqui a pouco temos aqui o André Sardet).
"Wet Dream" é o típico álbum de música ambiente, que nos permite desligar o cérebro da música, concentrar a nossa atenção na paisagem (ou no meu caso - no trabalho) e desfrutar das pinturas melódicas que nos entram pelo ouvido.

É verdade: Richard vai cantando umas coisas de vez em quando e a sua voz soa lindamente. "I don't want to fight no more tonight.", suspira Wright em "Agaisnt The Odds" (não confundir com a balada de Phil Collins). Ok, é um tema que ele terá escrito quando estava chateado com a mulher, mas dificilmente se qualifica como poesia confessional como a que estamos habituados a ouvir com os Pink Floyd (escrita por Waters, naturalmente). Mas nada disso importa; na verdade, pouca é a atenção que damos ao que Richard canta. Imediatamente somos absorvidos pelos longos solos de guitarra, de saxofone, de teclado, ou de flauta. Como disse em cima, aqui, o ambiance é tudo.

A história de "Wet Dream" é simples e sem especial interesse. Depois da digressão de "Animals" (In The Flesh Tour de 1977) e dos seus percalços, os sumos criativos dos membros Pink Floyd estavam em alta. Enquanto Roger Waters pensava e criava o conceito do próximo álbum da banda ("The Wall"), David Gilmour concentrou-se no seu primeiro álbum a solo (o homónimo "David Gilmour" sairia em 1978) e poucos meses depois, Richard Wright lançaria também o seu primeiro trabalho em nome próprio - "Wet Dream".
O problema desta dispersão de atenções foi que (como o próprio Roger se queixou - e com razão), os sumos de David e Rick secaram e quando chegou a altura de gravarem "The Wall", era muito pouco o material que tinham para trazer para cima da mesa dos Pink Floyd. Mas isso é outra discussão ainda.

No fundo, "Wet Dream" foi um esforço solitário de Wright, que escreveu música e letra (quando aplicável) para todas as composições, menos para "Against The Odds", que escreveu em conjunto com (adivinhe-se) a sua mulher.
O álbum foi virtualmente ignorado na altura, não entrando sequer nas tabelas dos mais vendidos. Com o tempo, ganharia alguma reputação nos círculos dos fãs dos Pink Floyd, sendo hoje bastante difícil de encontrar (eu que o diga, que só tenho a versão em CD), uma vez que está há muito descontinuado.

Richard Wright tem estado na ordem do dia, devido ao novo álbum dos Pink Floyd que aí vem e que conta com as suas últimas gravações. Tal como "Wet Dream", espera-se que "The Endless River" tenha forte carga melódica e seja essencialmente instrumental. Assim, se queremos antecipar como poderá ser o álbum que nos chegará no final do ano, a melhor aposta deverá ser ouvir "Wet Dream" e este "Mediterranean C".

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Pink Floyd - "Coming Back To Life"

"I took a heavenly ride through our silence
I knew the moment had arrived
For killing the past and coming back to life"
Hoje era para vos vir aqui falar de um fim-de-semana épico, onde tive o privilégio de presenciar um serão de concertos com Soundgarden e Black Sabbath, no Hyde Park em Londres, que entrou directamente para as noites mais gloriosas da minha vida.

Mas não.

Tudo o que se passou em Hyde Park foi pulverizado pela notícia que recebi quando estava a caminho de casa, sentado no piso superior de um qualquer autocarro londrino, às 3 e 40 da manhã de Sábado:

Os Pink Floyd vão lançar um novo álbum!!!

Repito:

OS PINK FLOYD VÃO LANÇAR 
UM NOVO ÁLBUM!!!

É verdade. Isto deve ser a melhor notícia de sempre, desde que Rui Costa foi apresentado no Benfica no Verão de 2006.
Quem diria? Eu não poderia imaginar uma coisa destas, de certeza.
Bem, na verdade, até já tinha pensado que seria possível fazer este álbum, mas nunca pensei que se concretizasse. Mas já lá vamos.

Antes de mais, vamos aos factos que já conhecemos.
Tudo começou com um tweet de Polly Samson, esposa de David Gilmour e co-letrista da banda no (fabuloso) álbum "The Division Bell":

Estava assim confirmado o regresso à vida dos Pink Floyd.



E estava também desvendado o mistério desta fotografia, que apareceu na internet no início deste ano pela mão de Durga McBroom (que faz backing vocals nos Pink Floyd desde a segunda metade dos anos 80) e que fazia adivinhar um novo álbum a solo de David Gilmour. Esse álbum a solo vai chegar mas, na melhor das hipóteses, só lá para 2015.


De repente, a internet entrou em histeria. E não era para menos.
20 anos depois de "The Division Bell", numa altura em que todos os fãs já davam como certo o fim da banda, aparece este oásis. Aliás, não é um oásis, mas sim um rio - um rio sem fim.
A história de "The Endless River" é contada em vários actos, em diferentes períodos temporais. Fica então aqui a história, conforme vista por mim.

O 1º Acto de "The Endless River" remonta às sessões de gravação de "The Division Bell", em 1993/1994. Na altura, Nick Mason confessou que a banda tinha gravado material suficiente para 2 álbuns, sendo que o primeiro lote fora lançado em "The Division Bell" e o segundo consistia em material instrumental, nascido de improvisações dos Pink Floyd no estúdio, o qual baptizou de "The Big Spliff". Algumas dessas improvisações devem aparecer na compilação de outtakes em baixo:



Nick revelou que a banda tinha intenção de lançar "The Big Spliff", mas o projecto nunca foi para a frente e desde então que os fãs dos Pink Floyd viveram aguados com este lote de instrumentais.
A única fracção que se pensa fazer parte deste projecto e que viu a luz do dia foi uma colagem de sons com mais de 20 minutos de duração, que os Pink Floyd usavam para abrir os seus concertos na digressão de "The Division Bell".
"Soundscape" - como foi adequadamente baptizado - seria mais tarde incluído na versão cassette do álbum ao vivo "PULSE", lançado em 1995. Para vossa curiosidade, fica também aqui:



Entretanto, foi recentemente anunciada uma caixa de luxo de "The Division Bell" (que me chegou hoje às mãos - oh happy days!) e parecia ser a oportunidade perfeita para "The Big Spliff" ser finalmente libertado. Mas para desgosto dos fãs dos Pink Floyd (e meu, obviamente), that was not to be*.
*gosto sempre de citar Take That num post.

Em todo o caso, a caixa de "The Division Bell" é um filão de tesouros e é para mim o produto musical mais perfeito desde o duplo DVD "Queen Live At Wembley Stadium", lançado em 2003 (um dia falarei disso).
Deixo-vos aqui algumas imagens desta maravilha:




Passemos então para o 2º Acto de "The Endless River".
Quando Richard Wright morreu em 2008, sabendo da sua importância para a sonoridade dos Pink Floyd e da sua forte amizade com o líder da banda - David Gilmour, ficou claro para mim que os Pink Floyd tinham acabado oficiosamente naquele dia.
No entanto, houve uma revelação no dia da sua morte que me despertou o interesse: Wright passara os últimos meses da sua vida a gravar material novo, para um álbum instrumental. Neste cenário, seria expectável que este material fosse entregue a David - amigo e companheiro musical de sempre de Rick.
Mas o que poderia fazer David com este material? Terminar, sozinho, um álbum "a solo" de Richard Wright? Incorporar o material de Richard no seu próprio disco a solo? Não fazia muito sentido. E restaurar os Pink Floyd, para uma última homenagem a Rick? Isso já fazia mais sentido. Mas não, não podia ser; afinal, David fazia sempre questão de ser peremptório na resposta negativa à questão do regresso dos Pink Floyd.
Entretanto, fez-se silêncio.

O 3º Acto desta história teve lugar desde há um ano para cá, no estúdio particular de David Gilmour, quando este decidiu finalmente pegar no material de "The Big Spliff" e (presumo eu) nas restantes gravações deixadas por Richard Wright e dar-lhe forma, para um álbum de despedida, agora sim, dos Pink Floyd.

Originalmente, "The Endless River" estava para ser um álbum instrumental de música ambiente, seguindo a linha temática de "The Big Spliff". No entanto, desde há um ano que David Gilmour e Nick Mason têm feito overdubs nas gravações originais, acrescentando faixas vocais em pelo menos um dos temas (o que está a ser gravado na foto de estúdio em cima).

Como seria de esperar, Roger Waters não estará presente em "The Endless River". E não é porque Roger não queira, mas sim porque David não está interessado.
É pena, mas é melhor assim. Senão vejamos: o último laivo de musicalidade de Roger Waters já remonta a 1979 ("The Wall") e o seu último álbum data de 1992 ("Amused To Death" foi lançado há 22 anos). Por muito que eu goste dele e admire o seu trabalho passado, ele dá mostras de estar criativamente terminado (embora adorasse ser provado do contrário, com aquele álbum a solo de Roger que nunca mais aparece).
Desde então, Roger deixou-se inebriar pela política, mas especializou-se na recriação de grande obras suas do passado. Nisso, faça-se justiça, ele é mestre.

Por outro lado, embora muito menos profícuo que no seu auge, David Gilmour vai fazendo uma gestão inteligente da sua carreira e lançando álbuns muito bons (como o "On An Island", a solo, em 2006), ou excelentes (como "The Division Bell" em 1994).
Isto não significa que eu não gostasse de os ver juntos novamente, mas a verdade é que é extremamente improvável.

Nesta altura, não se sabem ainda mais detalhes, mas o álbum já foi confirmado oficialmente para Outubro deste ano, esperando-se mais novidades no fim do Verão, provavelmente no que diz respeito à capa e aos formatos em que será lançado.
A minha aposta, a avaliar por aquilo que ouvi em "The Division Bell" e "On An Island", é que "The Endless River" vai ser um álbum do caralhão.

Para já, o tempo é de alegria. Venha então daí "The Endless River", que eu entretanto vou me entretendo com a edição de luxo do meu álbum preferido dos Pink Floyd de sempre. "Ah, mas como é que podes dizer isso? O Roger Waters nem está nesse álbum!" Olhem para a minha cara de preocupado:


"I took a heavenly ride through our silence
I knew the waiting had begun
And headed straight...into the shining sun"

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Black Sabbath - "Sweet Leaf"

"ALRIGHT NOW! Won't you listen?"


Há um ditado popular que refere que "as pessoas entram na nossa vida por uma razão". Pela minha experiência, aprendi duas coisas sobre os ditados populares: batem sempre certo e há sempre um segundo ditado que contradiz o primeiro.
Não sei se as pessoas entram na nossa vida por alguma razão ou não, até porque (cada vez mais) acredito na ordem caótica das coisas e dos acontecimentos que sucedem no nosso quotidiano; mas sei que há música que entra na minha vida em determinados momentos e que... me salva.
"When I first met you, I didn't realize I can't forget you, for your surprise.
You introduced me to my mind and left me wanting, you and your kind"
Estes versos que compõem a introdução de "Sweet Leaf" poder-se-iam referir à entrada da música dos Black Sabbath na minha vida. Contudo, como o nome pode deixar escapar, refere-se à entrada da erva na vida dos membros dos Black Sabbath. Close enough.



"Sweet Leaf" é o tema de abertura do álbum "Master Of Reality" - o 3º álbum dos Black Sabbath e o mais pesado da sua discografia. Foi o álbum que cimentou a posição da banda como a banda mais pesada da sua geração.
“I remember saying to Tony [Iommi]:
"Did you hear how heavy that Led Zeppelin album sounded?" 
Without missing a beat, he replied:
"We’ll be heavier."”
Ozzy Osbourne em "I Am Ozzy"

A música dos Sabbath tem algo de único. A aura mística, pesada e sombria que a banda carrega trouxe-lhes tanto de sucesso como de problemas.
No início dos anos 70, uma enfermeira foi encontrada morta nos seu quarto, com o álbum "Paranoid" (o 2º da banda) ainda a tocar no gira-discos. Estalou a polémica.
A banda foi acusada de ser responsável pelo suicídio, devido ao conteúdo satânico da sua música e o caso foi mesmo para tribunal. A banda foi absolvida, mas a nuvem das trevas satânicas nunca deixaria de pairar sobre os Sabbath.

Mas que raio. Poderão então ser os Black Sabbath - esses vis mandatários satânicos - uma banda curandeira? Como pode então esta banda pesada e (presumivelmente) satânica servir de bálsamo para alguém? Pode, se esse alguém estiver de costas voltadas para o Mundo.
Os Black Sabbath são a banda sonora perfeita para quem está a percorrer a sua própria via sacra. A música dos Sabbath alivia o peso nos ombros do ouvinte, atira a sua bagagem borda fora.

A falecida lenda do saxofone da E Street Band - Clarece The Big Man Clemons - refere no documentário "Wings For Wheels", que quando um fã lhe disse que o solo de saxofone de "Jungleland" lhe tinha salvo a vida, Clarence achou que o seu trabalho estava feito.
Tony: pela minha parte, considera o teu trabalho feito.

Não deixa de ser apropriado que os Black Sabbath tenham entrado na minha vida neste ano e que neste ano me tenha sido dada a oportunidade de os ver ao vivo em Londres, no Hyde Park, num cartaz de sonho, com os Soundgarden a abrir.


Lá estarei, já na 6ª feira. Para atirar a minha bagagem borda fora.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Guns N’ Roses - “Estranged”

"When you're talkin' to yourself and nobody's home, 
You can fool yourself, you came in this world alone."

"This is something off Use Your Illusion II, this is my baby. This is called 'Estranged'." 
Axl, Los Angeles - July 29th, 1991

"Estranged" marca o capítulo final da trilogia de vídeos formulada por Axl Rose sobre as ligações afectivas, os conflitos que as envolvem (tanto mútuos, como internos) e a relação destes conflitos com a loucura. Por outras palavras, o desafio da sanidade mental na procura do amor.
"'November Rain' is a song about not wanting to be in a state of having to deal with unrequited love.
'Estranged' is acknowledging it, and being there and having to figure out what the fuck to do.
It's like being catapulted out into the universe and having no choice about it and having to figure out what the fuck are you gonna do, because the things you wanted and worked for just cannot happen and there's nothing you can fucking do about it."
 
Axl Rose, in "The Making of 'Estranged' - Part IV of the Trilogy", 1994

"Don’t Cry" e "November Rain" foram os primeiros capítulos desta trilogia. Dos três, "Estranged" é de longe o menos popular, mas nem por isso o menos interessante.
A história da trilogia é baseada no livro "Without You" de Del James – um amigo de Axl. Embora nos vídeos seja difícil perceber um sentido lógico de continuidade, dando azo a inúmeras interpretações diferentes, eu vou tentar deixar aqui a minha.


O denominador comum dos três vídeos são as perturbações emocionais por que vemos Axl passar. A excepção terá sido nas célebres cenas do casamento com Stephanie Seymour em "November Rain", onde temos a oportunidade de ver raras imagens de um Axl Rose feliz.
Tal felicidade seria sol de pouca dura. Ainda no vídeo de "November Rain", Axl fica viúvo e vemo-lo a chorar a morte de Stephanie num cemitério, debaixo de uma chuva copiosa. A chuva de Novembro, talvez.

Recorde-se que Axl namorou mesmo com Stephanie durante 2 anos, entre 1991 e 1993 - um tempo que deixaria uma marca indelével na sua vida e no seu trabalho, uma vez que nunca terá recuperado totalmente desta separação.
"This I Love", do álbum/lenda "Chinese Democracy", finalmente lançado em 2008, seria uma continuação da temática de "Estranged" (vale a pena ouvir). 15 anos depois da separação, Axl ainda não tinha recuperado.
Estranged indeed, Axl.

"I'll never find anyone to replace you
Guess I'll have to make it through, this time
Without you"
Ironia do destino, aquando da gravação do vídeo para "Estranged", Axl e Stephanie já estavam separados. Afinal, os acontecimentos da vida real pareciam acompanhar os eventos da trilogia formulada por Axl.
Sozinho com as suas tormentas, no vídeo de "Estranged" Axl chega ao seu ponto de ebulição e tenta suicidar-se, saltando de um petroleiro sem qualquer protecção.
Note-se que isto aconteceu mesmo, sem duplos, tal como foi filmado. A única bóia de salvação de Axl foi, precisamente, uma bóia de salvação que lhe foi atirada por Gilby.
Seria seguramente uma morte poética. Estúpida, mas poética.
"Well I jumped into the river, too many times to make it home
I'm out here on my own, drifting all alone"

Já sem Stephanie para representar a sua redenção, Axl é salvo do afogamento por golfinhos, sendo resgatado por Slash num barco a remos.
Slash aproveita o momento cénico e oportunamente resolver fazer um solo ao pôr-do-sol. Um pôr-do-solo, talvez. (Desculpem, não se repetirá...)


"I see the storm getting closer and the waves they get so high"

É fácil perceber que Axl Rose estava num lugar muito escuro quando escreveu "Estranged" - um uivo de 10 minutos de pura agonia a amargura sobre um amor perdido. É um tema longo e estruturalmente complexo, que conta com uma das mais gloriosas simbioses entre a escrita de Axl e a guitarra de Slash.
"Old at heart, but I'm only 28. And I'm much too young to let love break my heart."
Talvez pela mágoa causada pela sua relação anterior com Erin Everly (a primeira mulher de Axl e a musa inspiradora de "Sweet Child O' Mine"), Axl já sentia o peso da idade nos seus ombros, aos 28 anos. Coração velho demais para a sua idade, mas novo demais para fechar o coração. Axl descobriu que ninguém o podia ajudar na sua tormenta, que estava sozinho naquela luta.
"Young at heart and it gets so hard to wait
When no one I know can seem to help me now
Old at heart but I mustn't hesitate
If I'm to find my own way out"
"Estranged" é um épico que aborda os enganos e as ilusões criadas pelo amor, especificamente por uma relação e as expectativas goradas que provoca.
É esta a moral de "Estranged": a idade faz-nos perder as ilusões. Invariavelmente da forma mais dolorosa. Para o bem e para o mal, estamos nisto sozinhos.

Lose your illusions.


"Slash, thanks for the killer guitar melodies"
Axl, no livrete de "Use Your Illusion II"

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Tears For Fears - "Standing On The Corner Of The Third World"

"Man I never slept so hard... I never dreamt so well"


Volvidos 3 meses, eis que mais uma vez me deparo com a tarefa da ressurreição do blog; e motivos para isso não me faltam.
Contudo, contra todas as incidências que se têm passado na minha vida nos últimos dias e que me permitiriam regressar à escrita (ver ao vivo Queens Of The Stone Age, ver ao vivo The Rolling Stones, ver ao vivo The Rolling Stones com Bruce Springsteen, conhecer Bruce Springsteen - sim, leram bem), hoje não vou falar de nada disso.
Hoje vou falar do álbum "The Seeds Of Love" dos Tears For Fears. E falar de "The Seeds Of Love" é falar de um dos melhores álbuns de sempre - o 21º para ser mais preciso (as of 2014/06/03 e sim, eu tenho uma lista).

"The Seeds Of Love" está para a Pop Rock do final dos anos 80, como os filmes de Krzysztof Kieslowski estavam para o cinema da mesma época. Na era do advento dos filmes da acção, fartos festivais de balas e explosões, os filmes do realizador polaco destacavam-se pela sua beleza sem paralelo (façam um favor a vocês mesmos e pesquisem pela obra deste génio, em particular a série "Dekalog", de 1988).
Na música, enquanto todos à volta dos TFF gravitavam em torno da preocupação em ser cool e surfavam na onda dos excessos dos 80's, dos sintetizadores, ou da nova vaga do Hair Metal que então rebentava, os Tears For Fears estavam obcecados com a procura pela beleza. Dessa obsessão, nasceu "The Seeds Of Love".

"As a band, we came from the programmed pop era of the early '80s and we had inherited a sense of structure that permeated almost all our music. The way we were working was becoming too sterile.
We wanted to do something more colourful, something that sounded big and warm. You cannot get that from machines. You only get that with real musicians and real players."
Curt Smith (Tears For Fears)

O processo de gravação do álbum "The Seeds Of Love" foi, eufemisticamente falando, um processo penoso.
Quando o álbum viu finalmente a luz do dia em Setembro de 1989, o frenesim gerado à sua volta já era enorme e não necessariamente pelas melhores razões. As razões eram semelhantes às que elevariam "Chinese Democracy" dos Guns N' Roses ao estatuto de elefante branco do Rock, uns anos mais tarde.

"A lot of it was programmed on synthesisers and drum machines. There was no fluidity or expression.
After two or three months it was driving me mad because I was waking up to the limits of our own music - it had become a straight jacket."
Roland Orzabal (Tears For Fears)

A gestação de "The Seeds Of Love" demorou 3 anos, passou pelas mãos de 4 produtores, em 9 estúdios de gravação e custou mais de 1 milhão de libras. Estes números eram absolutamente inauditos na época, tornando este o álbum mais caro de sempre no UK até então e demorando um período nunca antes visto para a gravação de um só disco.
O frenesim era, de facto, justificado; mas não só pelas piores razões. Se é verdade que "The Seeds Of Love" tivera um parto difícil, não é menos verdade que o que dali saiu foi o mais belo ser alguma vez parido por Roland Orzabal e Curt Smith.

"[After we recorded "Songs From The Big Chair"], all around us there was a desire to recreate it.
Everybody, except me and Curt, felt we were on to a good thing. I couldn't see it that way. I believe that, to create, you have to destroy. 
It's painful and it's difficult, but it's the only way I can work."
Roland Orzabal, em entrevista à revista Q 
"Para se criar, tens que destruir.", diz Roland, acrescentando que é um processo "difícil e doloroso". De facto, é uma situação pela qual a vida nos obriga a passar a todos: para construir um novo futuro, temos que cortar com o passado.

"One night in Kansas City, we played the concert, thousands of people, the lights, the huge PA, and it felt vacuous. After we showered we went down to the hotel bar, a dollar-fifty to get in because there was a band on.
There was a woman called Oleta Adams singing and playing piano, with bass and drums. It wasn't like a normal bar, there were families there, people in suits. You didn't feel you could talk, you had to listen. And it was incredible. I was in tears. Phenomenal atmosphere.
And I thought: "I'm doing something wrong. I've got to get back to basics.""
Roland Orzabal

O corte com o passado em "The Seeds Of Love" é evidente e o processo deixou marcas em Roland e Curt. Foi este o álbum que marcou a clivagem entre os dois.
Enquanto Roland desenvolvia uma obsessão com o detalhe (nada saudável, nem para ele, nem para as pessoas que o rodeavam), em busca de um perfeccionismo que só parecia existir na sua mente; Curt parecia deixar-se levar pelos excessos da vida de uma estrela Pop (pelo menos era o que Roland achava), talvez como auto-defesa para lidar com os pedaços do seu próprio casamento, que se desintegrava com a criação do novo álbum da banda.
O resultado foi o progressivo afastamento de Curt do processo criativo e, obviamente, da banda. Daí para a frente, Roland assumiria a maioria das partes vocais e muitas das restantes seriam entregues à sua nova protegée - Oleta Adams.




Na realidade, "The Seeds Of Love" é essencialmente um trabalho de Roland Orzabal. Retirando números efectivamente conjuntos como "Sowing The Seeds Of Love" (até hoje o tema dos TFF preferido de Curt Smith), este é um álbum de Roland. Não por acaso referi aqui diversas vezes a palavra obsessão. Há na produção meticulosa deste álbum, uma clara obsessão de Roland com a pureza.

"The Seeds Of Love" é um álbum mais adulto que "The Hurting" e "Songs From The Big Chair", é o disco que marca a transição de Roland para a maturidade como artista e como homem. Mais que isso, o álbum é, todo ele, um processo de purificação interior.

O tema que aqui deixo é um perfeito exemplo da maravilhosa produção a que o álbum foi sujeito.
"Standing On The Corner Of The Third World" é a brisa que entra pela janela no fim de uma tarde de verão abrasadora, é a chuva que cai na janela da sala quentinha, é o momento em que boiamos na água de uma praia deserta numa manhã de Agosto, é... bem, percebem a ideia. "Standing" é paz, é tranquilidade e é talvez o exemplo mais sucedido da sonoridade orgânica que os TFF almejavam para este álbum.

""Standing On The Corner Of The Third World" is the thing about womb-like containment, the oceanic realm of the imagination and picking up things in a subconscious manner.
The vibe is one of containment and safety and peace and solitude. "Rolling and controlling all the basements and the backroads of our lives", is a reference to how you get rid of all the shit and the dirt of life - it's swept under the carpet, or, at the very least, out of sight."
Roland Orzabal

terça-feira, 18 de março de 2014

Alanis Morissette - "You Oughta Know"

"I'm here to remind you of the mess you left when you went away"



É uma pergunta que me fazem frequentemente (leia-se muito raramente, a tender para o nunca): porque é que dou tão pouca atenção à música cantada por vozes femininas?
A resposta a esta pergunta é muito simples: entre outras motivações, uma das principais razões pelas quais eu ouço música é porque me identifico com ela (a música). Isto implica que seja estabelecida uma ligação não só com o conteúdo lírico de um tema, mas também com a voz que o canta. Nesse sentido, é muito mais fácil identificar-me com a voz de homem, do que com a de uma mulher.

Posto isto, de facto, em 4 anos de blog, não me lembro de ter escrito muitos posts sobre temas cantados por uma voz feminina. Mas parece-me apropriado que o faça agora. Especificamente este tema.

"You Oughta Know" foi a mola que catapultou a então quase desconhecida Alanis Morissette para o estrelato em 1995. Nesta altura, Alanis já contava com 2 álbuns na sua discografia, mas só este tema - incluído no seu 3º álbum "Jagged Little Pill" - conseguiu chamar a atenção do mundo para a sua voz.


"You Oughta Know" é um cometa na carreira de Alanis Morrissette - uma cantautora (detesto esta expressão) de musiquinhas light rock, formatadas para a reprodução nas rádios mainstream dos anos 90.
Contudo, de musiquinha leve, "You Oughta Know" não tem nada.
Embora escrito por Alanis, o tema foi entregue apenas com a faixa vocal aos membros dos Red Hot Chili Peppers - Flea (no baixo) e Dave Navarro (que na época substituía John Frusciante na guitarra) - que o tornaram num monstro do Rock alternativo. O tema ganharia os Grammys para Melhor Tema Rock e Melhor Performance Feminina, superando o favorito Michael Jackson (no Álbum do Ano, entenda-se).
Depois disto, a carreira de Alanis não mais deixaria o rótulo do rock alternativo, mas esse epíteto não mais voltaria a ter grande significado.

A ferocidade que Alanis despeja aqui é justamente acompanhada pelo pulsante baixo de Flea e a guitarra berbequim de Navarro.
Na prática, quase se pode dizer que "You Oughta Know" é um tema com a música dos Red Hot Chili Peppers, que conta com a voz e a alma de Alanis Morissette. A alma, justiça seja feita, é dela.
A raiva, o motivo, o dolo, é inteiramente de Alanis. Ela foi fodida, está fodida e isso ouve-se.

"I'm not gonna fade as soon as you close your eyes, and you know it"

Alanis queria atacar o homem que rasgou o seu coração e fê-lo da forma mais nobre e aplaudível com que tal se pode fazer: com a sua arte.
Será que é possível transformar uma horrenda traição numa coisa bonita? Com a ajuda de Flea e Navarro, Alanis prova que sim.