quarta-feira, 4 de junho de 2014

Tears For Fears - "Standing On The Corner Of The Third World"

"Man I never slept so hard... I never dreamt so well"


Volvidos 3 meses, eis que mais uma vez me deparo com a tarefa da ressurreição do blog; e motivos para isso não me faltam.
Contudo, contra todas as incidências que se têm passado na minha vida nos últimos dias e que me permitiriam regressar à escrita (ver ao vivo Queens Of The Stone Age, ver ao vivo The Rolling Stones, ver ao vivo The Rolling Stones com Bruce Springsteen, conhecer Bruce Springsteen - sim, leram bem), hoje não vou falar de nada disso.
Hoje vou falar do álbum "The Seeds Of Love" dos Tears For Fears. E falar de "The Seeds Of Love" é falar de um dos melhores álbuns de sempre - o 21º para ser mais preciso (as of 2014/06/03 e sim, eu tenho uma lista).

"The Seeds Of Love" está para a Pop Rock do final dos anos 80, como os filmes de Krzysztof Kieslowski estavam para o cinema da mesma época. Na era do advento dos filmes da acção, fartos festivais de balas e explosões, os filmes do realizador polaco destacavam-se pela sua beleza sem paralelo (façam um favor a vocês mesmos e pesquisem pela obra deste génio, em particular a série "Dekalog", de 1988).
Na música, enquanto todos à volta dos TFF gravitavam em torno da preocupação em ser cool e surfavam na onda dos excessos dos 80's, dos sintetizadores, ou da nova vaga do Hair Metal que então rebentava, os Tears For Fears estavam obcecados com a procura pela beleza. Dessa obsessão, nasceu "The Seeds Of Love".

"As a band, we came from the programmed pop era of the early '80s and we had inherited a sense of structure that permeated almost all our music. The way we were working was becoming too sterile.
We wanted to do something more colourful, something that sounded big and warm. You cannot get that from machines. You only get that with real musicians and real players."
Curt Smith (Tears For Fears)

O processo de gravação do álbum "The Seeds Of Love" foi, eufemisticamente falando, um processo penoso.
Quando o álbum viu finalmente a luz do dia em Setembro de 1989, o frenesim gerado à sua volta já era enorme e não necessariamente pelas melhores razões. As razões eram semelhantes às que elevariam "Chinese Democracy" dos Guns N' Roses ao estatuto de elefante branco do Rock, uns anos mais tarde.

"A lot of it was programmed on synthesisers and drum machines. There was no fluidity or expression.
After two or three months it was driving me mad because I was waking up to the limits of our own music - it had become a straight jacket."
Roland Orzabal (Tears For Fears)

A gestação de "The Seeds Of Love" demorou 3 anos, passou pelas mãos de 4 produtores, em 9 estúdios de gravação e custou mais de 1 milhão de libras. Estes números eram absolutamente inauditos na época, tornando este o álbum mais caro de sempre no UK até então e demorando um período nunca antes visto para a gravação de um só disco.
O frenesim era, de facto, justificado; mas não só pelas piores razões. Se é verdade que "The Seeds Of Love" tivera um parto difícil, não é menos verdade que o que dali saiu foi o mais belo ser alguma vez parido por Roland Orzabal e Curt Smith.

"[After we recorded "Songs From The Big Chair"], all around us there was a desire to recreate it.
Everybody, except me and Curt, felt we were on to a good thing. I couldn't see it that way. I believe that, to create, you have to destroy. 
It's painful and it's difficult, but it's the only way I can work."
Roland Orzabal, em entrevista à revista Q 
"Para se criar, tens que destruir.", diz Roland, acrescentando que é um processo "difícil e doloroso". De facto, é uma situação pela qual a vida nos obriga a passar a todos: para construir um novo futuro, temos que cortar com o passado.

"One night in Kansas City, we played the concert, thousands of people, the lights, the huge PA, and it felt vacuous. After we showered we went down to the hotel bar, a dollar-fifty to get in because there was a band on.
There was a woman called Oleta Adams singing and playing piano, with bass and drums. It wasn't like a normal bar, there were families there, people in suits. You didn't feel you could talk, you had to listen. And it was incredible. I was in tears. Phenomenal atmosphere.
And I thought: "I'm doing something wrong. I've got to get back to basics.""
Roland Orzabal

O corte com o passado em "The Seeds Of Love" é evidente e o processo deixou marcas em Roland e Curt. Foi este o álbum que marcou a clivagem entre os dois.
Enquanto Roland desenvolvia uma obsessão com o detalhe (nada saudável, nem para ele, nem para as pessoas que o rodeavam), em busca de um perfeccionismo que só parecia existir na sua mente; Curt parecia deixar-se levar pelos excessos da vida de uma estrela Pop (pelo menos era o que Roland achava), talvez como auto-defesa para lidar com os pedaços do seu próprio casamento, que se desintegrava com a criação do novo álbum da banda.
O resultado foi o progressivo afastamento de Curt do processo criativo e, obviamente, da banda. Daí para a frente, Roland assumiria a maioria das partes vocais e muitas das restantes seriam entregues à sua nova protegée - Oleta Adams.




Na realidade, "The Seeds Of Love" é essencialmente um trabalho de Roland Orzabal. Retirando números efectivamente conjuntos como "Sowing The Seeds Of Love" (até hoje o tema dos TFF preferido de Curt Smith), este é um álbum de Roland. Não por acaso referi aqui diversas vezes a palavra obsessão. Há na produção meticulosa deste álbum, uma clara obsessão de Roland com a pureza.

"The Seeds Of Love" é um álbum mais adulto que "The Hurting" e "Songs From The Big Chair", é o disco que marca a transição de Roland para a maturidade como artista e como homem. Mais que isso, o álbum é, todo ele, um processo de purificação interior.

O tema que aqui deixo é um perfeito exemplo da maravilhosa produção a que o álbum foi sujeito.
"Standing On The Corner Of The Third World" é a brisa que entra pela janela no fim de uma tarde de verão abrasadora, é a chuva que cai na janela da sala quentinha, é o momento em que boiamos na água de uma praia deserta numa manhã de Agosto, é... bem, percebem a ideia. "Standing" é paz, é tranquilidade e é talvez o exemplo mais sucedido da sonoridade orgânica que os TFF almejavam para este álbum.

""Standing On The Corner Of The Third World" is the thing about womb-like containment, the oceanic realm of the imagination and picking up things in a subconscious manner.
The vibe is one of containment and safety and peace and solitude. "Rolling and controlling all the basements and the backroads of our lives", is a reference to how you get rid of all the shit and the dirt of life - it's swept under the carpet, or, at the very least, out of sight."
Roland Orzabal

terça-feira, 18 de março de 2014

Alanis Morissette - "You Oughta Know"

"I'm here to remind you of the mess you left when you went away"



É uma pergunta que me fazem frequentemente (leia-se muito raramente, a tender para o nunca): porque é que dou tão pouca atenção à música cantada por vozes femininas?
A resposta a esta pergunta é muito simples: entre outras motivações, uma das principais razões pelas quais eu ouço música é porque me identifico com ela (a música). Isto implica que seja estabelecida uma ligação não só com o conteúdo lírico de um tema, mas também com a voz que o canta. Nesse sentido, é muito mais fácil identificar-me com a voz de homem, do que com a de uma mulher.

Posto isto, de facto, em 4 anos de blog, não me lembro de ter escrito muitos posts sobre temas cantados por uma voz feminina. Mas parece-me apropriado que o faça agora. Especificamente este tema.

"You Oughta Know" foi a mola que catapultou a então quase desconhecida Alanis Morissette para o estrelato em 1995. Nesta altura, Alanis já contava com 2 álbuns na sua discografia, mas só este tema - incluído no seu 3º álbum "Jagged Little Pill" - conseguiu chamar a atenção do mundo para a sua voz.


"You Oughta Know" é um cometa na carreira de Alanis Morrissette - uma cantautora (detesto esta expressão) de musiquinhas light rock, formatadas para a reprodução nas rádios mainstream dos anos 90.
Contudo, de musiquinha leve, "You Oughta Know" não tem nada.
Embora escrito por Alanis, o tema foi entregue apenas com a faixa vocal aos membros dos Red Hot Chili Peppers - Flea (no baixo) e Dave Navarro (que na época substituía John Frusciante na guitarra) - que o tornaram num monstro do Rock alternativo. O tema ganharia os Grammys para Melhor Tema Rock e Melhor Performance Feminina, superando o favorito Michael Jackson (no Álbum do Ano, entenda-se).
Depois disto, a carreira de Alanis não mais deixaria o rótulo do rock alternativo, mas esse epíteto não mais voltaria a ter grande significado.

A ferocidade que Alanis despeja aqui é justamente acompanhada pelo pulsante baixo de Flea e a guitarra berbequim de Navarro.
Na prática, quase se pode dizer que "You Oughta Know" é um tema com a música dos Red Hot Chili Peppers, que conta com a voz e a alma de Alanis Morissette. A alma, justiça seja feita, é dela.
A raiva, o motivo, o dolo, é inteiramente de Alanis. Ela foi fodida, está fodida e isso ouve-se.

"I'm not gonna fade as soon as you close your eyes, and you know it"

Alanis queria atacar o homem que rasgou o seu coração e fê-lo da forma mais nobre e aplaudível com que tal se pode fazer: com a sua arte.
Será que é possível transformar uma horrenda traição numa coisa bonita? Com a ajuda de Flea e Navarro, Alanis prova que sim.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Pink Floyd - "Marooned"



Não são precisas palavras para descrever a solidão. Até faz todo o sentido que assim seja.

A descrição mais completa deste conceito foi feita por David Gilmour em 1994, no álbum de despedida dos Pink Floyd e o meu preferido - "The Division Bell". Em "Marooned", David usou a guitarra para expressar, com sons e silêncios que gritam mais alto que palavras, o que é, afinal, a solidão.

No álbum que aborda a importância da comunicação, este é o tema que fala sobre o que acontece quando se dá o corte abrupto do canal. Se a comunicação é a ponte que liga as ilhas de todos nós, quando a ponte é destruída, somos vetados ao isolamento. Somos atirados numa ilha deserta e não, não há nada de romântico acerca disso.

Traduzido para português (recorrendo ao Merriam-Webster), "Marooned" significa "abandonado", "isolado", "sem esperança ou meios de escape". Nenhuma destas expressões é utilizada no tema.
Na verdade, nenhuma palavra é dita aqui. Mas não é preciso. O choro que ouvimos da guitarra de David é suficiente para sabermos tudo o que precisamos sobre a solidão da nossa ilha. Quando deserta.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Oasis - "Rock 'n' Roll Star"

"Tonaaaaaaaaaaaaaaaa-a-ait, I'm a rock n' roll staaaaar"



"I've pretty much summed up everything I wanted to say in "Rock 'n' Roll Star", "Live Forever" and "Cigarettes & Alcohol", after that I'm repeating myself". 
Noel Gallagher

Hoje vou contar a história de um rapaz. Era uma vez um rapaz que, sem o querer, entrava na adolescência. Contudo, não sabia bem lidar com isso; não estava preparado para todas aquelas mudanças. E assim vivia no medo: num medo pueril de não ser fixe; medo de não ser aceite por aquilo que era; medo de que as miúdas não gostassem dele.

Esse rapaz era diferente dos outros. Enquanto os outros se esforçavam para ser iguais aos demais e crescer o mais rapidamente possível, ele não se importava muito com isso. Enquanto os outros ouviam as merdas techno que lhes era impostas pelos idiotas que se achavam rebeldes (mas eram apenas idiotas), ele ouvia a música do seu Pai. Era disso que ele gostava, era isso que o fazia sentir bem, protegido.
Nada do que os amigos lhe garantiam ser buédafixe fazia sentido, nada ressoava na sua cabeça.

Até que um dia esse rapaz descobriu uma banda chamada Oasis. E mais tarde ouviu um álbum chamado "Definitely Maybe". E tudo mudou.


Ao ouvir temas como "Rock 'n' Roll Star", "Cigarettes & Alcohol" e "Live Forever", deu-se uma explosão na sua mente, que definiria aquela que seria a banda mais importante da sua adolescência.
De repente, tudo fazia sentido.
Como um pré-adolescente de classe média, a viver numa remota cidade do interior, o rapaz ouvia Liam cantar sobre tudo o que ele não conhecia, mas ficou com a certeza que queria conhecer.
Gajas, bubadeiras e Rock selvagem. Liam Gallagher falava de tudo aquilo que ele queria ouvir (na verdade era Noel que falava, mas pela voz do irmão). 

A partir desse dia, ele percebeu que não precisava de ser igual aos outros para ser fixe; que não precisava de pertencer ao grupo; que sozinho, poderia enfrentar o Mundo e vencer; que na sua diferença residia o ónus que o poderia tornar mais fixe que os outros todos. Bastaria para tal que ele assumisse... que era mais fixe que os outros todos.
E esse rapaz nunca mais teve medo.

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"Everyday, you get up in the morning, you should live your life like a fookin' rock n' roll star!" 
Liam Gallagher

O impacto que "Definitely Maybe" teve no rapaz que serve de sujeito à história em cima foi bombástico. Não só na forma, como também no conteúdo.
(Acho que já posso revelar que esse rapaz é quem vos escreve)

Depois de ouvir e interiorizar o álbum de estreia dos Oasis, comprei todos os álbuns e os vídeos da banda (não eram muitos) e converti-me. Ouvia os álbuns, via e revia os concertos e os videoclips até à exaustão. Comecei a vestir-me como os irmãos Gallagher e a ostentar alguma (há quem diga que muita) da sua mania.

"In my mind my dreams are real"

Os últimos 2 posts representam as 2 primeiras partes da minha própria Trilogia da Glaciação. O último capítulo desta saga deveria sair agora, mas decidi, adequadamente, não a terminar. E decidi interrompê-la da mesma forma que fiz há mais de 15 anos: com "Definitely Maybe".
(Edit: se atendermos aos últimos 3 posts ("God"/"I Appear Missing"/"Love Is Blindness"), já temos aqui completa a Trilogia, nem era preciso mais nada)

Se há uma lição que se pode tirar de "Definitely Maybe" (e porque não, de toda a discografia dos Oasis) é que a nossa vida é o que fazemos dela; que andar aqui é do caralhão; que estar vivo é do caralhão. "These could be the best days of our lives", indeed.
Às vezes esquecemo-nos disso.
Ontem, como hoje, "Definitely Maybe" está aqui para nos recordar.
As ondas vão e vêm e a vida de quem vive com o coração hasteado num mastro (no pun intended) é uma árdua sinusoidal, cheia de altos e baixos. Mas chegar ao fim do dia e saber que tudo o que se fez, se fez com o coração, é condição suficiente para querer acordar no dia seguinte e fazer tudo de novo.
Porque estar cá é mesmo do caralhão.

"I live my life for the stars that shine"

"Definitely Maybe" não é hoje o meu álbum preferido dos Oasis. Mas foi, no seu tempo, sem dúvida, o mais importante.
Obrigado Noel. Obrigado Liam. Obrigado Oasis.

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Já me esquecia: os Oasis anunciaram hoje que "Definitely Maybe" vai ser lançado em Maio em edição de luxo, daquelas que eu devoro como o Liam Gallagher bebe whisky (ou eu...). Mas mais sobre isso mais tarde...


"It's just rock n' roll!
It's just 
rock n' roll!
It's just 
rock n' roll!
It's just 
rock n' roll!
It's just 
rock n' roll..."

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

U2 - "Love Is Blindness"

"A dangerous idea that almost makes sense."



Do amor.
Porque o amor é uma doença.

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"Love is blindness. I don't want to see."
Da cegueira. 
Porque o amor é a venda que nos tapa os olhos para a realidade que não queremos ver.
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"Won't you wrap the night around me? Take my heart... Love is blindness."
Da rendição. Da mentira.
Porque o amor é a aceitação voluntária de uma ilusão, um ideal que não existe.
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"In a parked car, in a crowded street, you see your love made complete."
Do terrorismo. 
Porque não existe mais cruel forma de terrorismo, do que destroçar um coração.
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"Thread is ripping, the knot is slipping... Love is blindness."
Do descontrolo.
Porque o amor é a corda de sanidade que rompe, a loucura que nos rouba o auto-controlo.
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"Love is clockworks and cold steel. Fingers too numb to feel."
Do desespero. 
Porque o amor é a vida a ferro e fogo, uma bomba-relógio que não sabemos quando vai rebentar.
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"Squeeze the handle, blow out the candle... Love is blindness."
Da escuridão.
Porque o amor é a entrada num quarto escuro de emoções fora do nosso controlo.
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"A little death, without mourning."
Da morte.
Porque morremos um pouco, sempre que o amor não é correspondido.
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"No call and no warning."
Do medo.
Porque o amor não avisa quando ataca.
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"A dangerous idea that almost makes sense."
Do perigo. 
Porque as ideias mais catastróficas são aquelas que quase fazem sentido.
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"Love is drowning in a deep well..."
Do fundo do poço.
Porque o amor nos pode atirar para a mais escura das profundezas.
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"All the secrets, and no one to tell."
Do isolamento.
Porque o amor é uma doença solitária, que mais ninguém pode compreender.
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"Take the money, honey... It's blindness."
Do vazio. 
Porque de nada serve ter os bolsos cheios, quando se tem o coração vazio.

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"Love Is Blindness" é uma canção que fala do amor, mas não de um amor qualquer. 
Fala da cegueira, da rendição, da ilusão, do terrorismo, do descontrolo, do desespero, da escuridão, da morte, do medo, do perigo, do fundo do poço, do isolamento, do vazio, de todos os estilhaços que nos atingem quando o amor rebenta na nossa cara. 
É uma ode ao amor cortante, ao amor atormentado.


Todo o álbum "Achtung Baby" explora a ideia do amor como uma fraqueza, uma deficiência. 
Para trás ficam as visões idílicas do amor que a banda deixara em temas como "All I Want Is You", onde Bono gritava a plenos pulmões que ela era tudo o que queria. Em "Achtung Baby", os U2 afirmam-se como uma banda adulta e retratam o lado escuro do mais complexo conceito da humanidade, da única forma de loucura socialmente aceitável: o amor.

"My heart is where it's always been, my head is something in between"  

"Even Better Than The Real Thing"

Em "Achtung Baby", os U2 mostram a natureza potencialmente destrutiva do amor, como uma força que nos desfigura, nos atemoriza (o medo de voltar a tentar), nos tenta pelo proibido ("Mysterious Ways") e nos leva ao limite do desespero.

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"Love Is Blindness" é uma das mais dilacerantes faixas de toda a carreira dos U2. O tema fecha "Achtung Baby" e resume na perfeição o ambiente escuro e sombrio para onde o álbum nos transporta. Escrito originalmente para Nina Simone, a banda não quis abrir mão do tema e decidiu incluí-lo no seu álbum de transformação. 
The Edge separou-se da sua mulher durante as gravações de "Achtung Baby" e o que ouvimos neste tema é o que o guitarrista dos U2 tinha para dizer sobre o assunto.
Reza a lenda que na gravação do solo presente no álbum, The Edge rebentou várias cordas da sua guitarra. O resultado foi de tal forma estrondoso, que a banda decidiu manter o solo tal como foi gravado.

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Para além de fechar o álbum, "Love Is Blindness" foi também utilizado para fechar os concertos da lendária digressão dos U2 - a ZooTV Tour (amplamente considerada como a melhor da banda, até hoje).


Ao tocar este tema no fim de um espectáculo enérgico como ZooTV, os U2 despediam-se do público da forma mais anti-climática possível. Porém, quando a digressão passou para os estádios, a banda decidiu acrescentar mais uma canção. Mas uma canção especial. Uma canção que fecha o arco de "Achtung Baby" da forma mais mais humana e verdadeira possível:


U2 - "Can't Help Falling In Love"

"Wise men say: 'Only fools rush in'. But I can't help falling in love with you"

Do amor.
Porque por pior doença que o amor seja, não conseguimos viver sem ele.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Queens Of The Stone Age - "I Appear Missing"

"A spitting image of me, except for the heart-shaped hole where the hope runs out"

Foi preciso chegar o 2º mês de 2014 para eu descobrir o melhor álbum de... 2013. Dizia-me um amigo que eu tenho andado a dormir. Tinha razão. Para deixar escapar "...Like Clockwork", só podia mesmo andar a dormir.
Honra seja feita à Rita - a amiga em quem eu mais confio para me apresentar música nova (recente, ou não). Ela raramente falha e aqui, acertou em cheio.



Faz agora uma semana, desde que ela introduziu o tema "I Appear Missing" na minha órbita e desde aí, fiquei agarrado.
Para terem uma ideia da dimensão do impacto sobre mim, segundo os registos do iTunes, já ouvi o tema mais de 30 vezes, isto sem contar com as visualizações no Youtube. Mas não ficamos por aqui: o meu mergulho no álbum mais recente dos Queens Of The Stone Age foi total e segundo os referidos registos, já foi ouvido na íntegra pelo menos 15 vezes. O frenesim absoluto, portanto.
Já não tinha um entusiasmo tão grande por um álbum novo desde 2011 e "Noel Gallagher's High Flying Birds".

Para Josh Homme - o vocalista, letrista e força motriz dos Queens Of The Stone Age - "...Like Clockwork" foi o produto de um processo de gestação muito complicado.
Para percebermos melhor a génese deste álbum, um pouco de História (esta foi também uma semana de estudo): desde 1998 até 2009, entre os QotSA, os Eagles Of Death Metal (que me foram apresentados como Pigeons Of Shit Metal através de um dos famosos rants de Axl Rose), os Them Crooked Vultures (que juntou Josh a Dave Grohl, dos Foo Fighters e John Paul Jones, dos Led Zeppelin) e os The Desert Sessions (que juntou Josh a um sem número de artistas, num projecto experimental), Josh lançou pelo menos um álbum por ano. Este ritmo de trabalho alucinante é inusitado nos dias de hoje e só comparável aos históricos artistas Rock nos anos 60 e 70. Porém, desde 2009, só se tem ouvido silêncio do músico californiano.
Em 2010, complicações durante uma operação ao joelho deixaram Josh Homme agarrado à cama durante 3 meses, atirando-o para uma depressão profunda. Consta que Josh terá até ponderado retirar-se da música.

O que se passou entre 2010 e Agosto de 2012 - quando os Queens Of The Stone Age regressaram ao estúdio para gravar este álbum - ninguém sabe ao certo. Mas terá sido esse o tempo que levou Josh Homme a marinar um audaz lote de canções, do mais catártico, profundo, honesto e revelador que já ouvi. Falo em audácia, porque contrariando a postura alfa que o caracteriza, Josh abre o livro neste álbum e mostra-nos os capítulos mais obscuros da sua vida.

"...Like Clockwork"  documenta a dobra de Josh Homme. Isto não é Rock pelo Rock, é Rock pela redenção, é Rock pela salvação da sanidade mental.
É aqui que "...Like Clockwork" fala fundo e bate forte no coração do ouvinte. No meu bateu com certeza e bateu com toda a força.
"Where are you hiding, my love? Cast off like a stone.
Feelings, raw and exposed when I'm out of control."

Também não sei o que se terá passado entre Josh e a sua mulher nesta época, mas boa coisa não pode ter sido. Se em "I Appear Missing", Josh descreve as suas lutas internas e os seus problemas de identidade, o que se ouve em "I Sat By The Ocean" parece induzir que a depressão que caía sobre Josh terá cavado uma distância entre ele e a sua mulher.
"Boy if you want love, you’ll have to go find it with someone new.
Do you know who you really are? Are you sure it’s really you?
Lies are a funny thing.
(...)
Silence is closer"
Quem escreve assim não anda na música para brincadeiras.
Este ângulo mais pessoal imprimido por Josh Homme foi acompanhado por uma abordagem mais melódica à música dos Queens Of The Stone Age. Certamente mais melódica do que aquela que os fãs estavam habituados, pelo que "...Like Clockwork" não foi recebido com o entusiasmo que merecia.



O processo de gravação do álbum foi, também ele, muito atribulado, com o baterista da banda Joey Castillo a ser despedido e substituído em metade das faixas por Dave Grohl. Para além de Grohl, o álbum conta ainda com as paticipações especiais de Trent Reznor (Nine Inch Nails), Alex Turner (Arctic Monkeys) e... Elton John. Exactamente, the legend himself, o enorme Elton John também está aqui e definiu "...Like Clockwork" como um dos melhores álbuns Indie Rock (o que quer que isso signifique) de todos os tempos.

Pela minha parte, enquanto tento evitar os superlativos absolutos (defini para mim próprio limitações nesse sentido, à falta de programas de reabilitação para o efeito), sem rodeios vos digo que estamos na presença de um álbum fenomenal, que condensa várias dimensões, musicais e emocionais, do melhor que o Rock nos pode proporcionar. Obrigatório.
Bastou-me uma audição para ficar completamente rendido a "...Like Clockwork". Imediatamente percebi que este foi, hands down, o melhor álbum de 2013 (vá, os superlativos absolutos ainda valem). Essa é uma característica das grandes obras-primas: é fácil reconhecê-las.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

John Lennon - "God"

"God is a concept by which we measure our pain"


A propósito do dia de hoje, mundialmente definido como o dia da celebração (comercial) do amor, deixo aqui a minha visão actual do fenómeno. É um desabafo que vai contra tudo aquilo que eu sempre defendi, tudo o que acredito, mas que reflecte o meu actual estado de espírito: a descrença. Espero que por pouco tempo.

Para tal, recordo "God" - o tema que John Lennon usou para negar todos os ídolos, heróis e messias da cultura popular (entre os quais, os The Beatles).
"I don't believe in magic
I don't believe in I-Ching
I don't believe in Bible
I don't believe in tarot
I don't believe in Hitler
I don't believe in Jesus
I don't believe in Kennedy
I don't believe in Buddha
I don't believe in mantra
I don't believe in Gita
I don't believe in yoga
I don't believe in kings
I don't believe in Elvis

I don't believe in Zimmerman
I don't believe in Beatles (demarco-me desta parte, a música, particularmente a música dos Beatles é das poucas coisas em que ainda acredito)
I just believe in me
Yoko and me
 (aqui acho que não preciso dizer nada)
...and that's reality
 
The dream is over"

"God" foi escrito para "Plastic Ono Band" - o álbum-catarse de John Lennon, o pote onde ele despejou todos os seus traumas, com temas como "Isolation", "Mother", "Working Class Hero", ou "My Mummy's Dead". É o primeiro e o grande álbum a solo de John e é de audição obrigatória.



Fim de desabafo.

Para aliviar, fiquem agora com "Woman", do álbum de despedida de John - "Double Fantasy".