domingo, 9 de fevereiro de 2014

Bruce Springsteen - "Because The Night" (Live at Agora)

Na minha interminável busca pelo concerto perfeito de Bruce Springsteen, há meses que andava à procura da versão perfeita de "Because The Night".

A versão perfeita de "Because The Night" chegou-me originalmente num mp3 de qualidade duvidosa, há mais de 10 anos, via Kazaa - um programa de p2p, que se usava antes do advento das torrents e que serviu para eu construir a minha primeira discografia extensiva.
Na altura, não era ainda hábito "sacar" álbuns inteiros, a velocidade da ligação de internet não o permitia. Começava então por fazer o download das minhas faixas preferidas (normalmente aquelas que ouvia na rádio) e, caso gostasse, mais se seguiriam. A honra máxima para o artista seria levar-me à loja comprar o álbum para ouvir em qualidade decente, passível de levantar o volume ao máximo. Devo relembrar, a qualidade dos mp3 na altura era bastante duvidosa (não costumava ir além dos 128kbs). O dinheiro também não abundava no bolso de um estudante do liceu, por isso a escolha tinha que der criteriosa.

Mas tal era impossível com "Because The Night (Live)". Sacado por entre um molho de temas avulsos de Bruce, esta faixa vinha órfã, que é como quem diz, na linguagem nerdi-musical, sem tags.
Sem identificação, não podia comprar o álbum, porque não sabia de onde vinha. Na altura, presumi que esta era a versão usada no álbum ao vivo mais conhecido - "Live 1975-85".
Uns anos mais tarde, já com dinheiro em caixa para transformar toda aquela discografia digital construída ao longo dos anos em discos palpáveis, comprei o álbum. E choque: não, não era aquela versão.
Qual seria, então?
Anos passaram-se e nunca dei com ela. Ouvi os bootlegs dos concertos mais conhecidos e nunca lá estava. A "versão perfeita" de "Because The Night" parecia jogar às escondidas comigo. Até hoje.

Hoje à noite, vagueando pelo Youtube e pelo espólio aparentemente infindável que lá se pode encontrar, dei sem querer com ela.
Às vezes é assim que funciona a nossa vida: procuramos em vão algo durante muito tempo e depois, sem saber como, ela vem-nos parar às mãos. No caso, aos ouvidos.


Esqueçam a versão da Patti Smith. Esqueçam a versão polida de "The Promise", com a nova faixa vocal. Esqueçam a versão condensada de "Live 1975-85".
Se querem ouvir a verdadeira, a versão perfeita de "Because The Night", ela foi gravada ao vivo a 9 de Agosto de 1978 no Agora, em Cleveland, no lendário "Darkness Tour" e está aqui:



Puxem até ao segundo 17:12 et voilá.


Notem que, à hora que Bruce Springsteen arrancou para a versão perfeita de "Because The Night, ele já levava 3 horas e meia de concerto na garganta. Impressionante.
Que o diga o jornalista de Cleveland que fez a cobertura do concerto:


sábado, 4 de janeiro de 2014

Anathema - "Empty"

"..."




Foi assim que 2013 teve início e assim começa também 2014.
Muito haveria para dizer, mas as palavras estão sufocadas pelo vazio. Hora de criar.

Bom ano para vocês.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Bruce Springsteen - "The Ties That Bind: The Story Of The River"

"Into the river we dive"




Na sequência do último post, em que dei conta da intenção de Bruce Springsteen de lançar uma edição de luxo alusiva a "The River", resolvi perder umas parcas 8 horas da minha vida (mais hora, menos hora) e ajudar Bruce na árdua tarefa de compilar uma caixa completa e satisfatória para os fãs.

Fica assim já feito o meu pedido para o Pai Natal, mesmo sabendo que ele só pode trazer para o ano.
Minhas Senhoras e Meus Senhores, mergulhem no rio comigo, num derradeiro olhar sobre "The River", com:

Bruce Springsteen - "The Ties That Bind: The Story Of The River" [5CD+4DVD] (2014) 


Discos 1 e 2 (2CD): "The River" (1983)
CD1 (LP 1 original):
1. "The Ties That Bind" (3:34)
2. "Sherry Darling" (4:03)
3. "Jackson Cage" (3:04)
4. "Two Hearts" (2:45)
5. "Independence Day" (4:50)
6. "Hungry Heart" (3:19)
7. "Out in the Street" (4:17)
8. "Crush on You" (3:10)
9. "You Can Look (But You Better Not Touch)" (2:37)
10. "I Wanna Marry You" (3:30)
11. "The River" (5:01)
CD2 (LP 2 original):
1. "Point Blank" (6:06)
2. "Cadillac Ranch" (3:03)
3. "I'm a Rocker" (3:36)
4. "Fade Away" (4:46)
5. "Stolen Car" (3:54)
6. "Ramrod" (4:05)
7. "The Price You Pay" (5:29)
8. "Drive All Night" (8:33)
9. "Wreck on the Highway" (3:54) 
Disco 3 (CD): "Deep Inside The River Vol. 1 - The River Tracks" (2014)
1. "Mary Lou" (3:24) - Gravado em 1979.05.30 - “Tracks”
2. "I Wanna Be With You" (3:25) - Gravado em 1979.05.31 - “Tracks”
3. "Bring On the Night" (2:42) - Gravado em 1979.06.13 - “Tracks”
4. "Ricky Wants a Man of Her Own" (2:49) - Gravado em 1979.07.16 - “Tracks”
5. "Dollhouse" (3:36) - Gravado em 1979.08.21 - “Tracks”
6. "From Small Things (Big Things One Day Come)" (2:42) - Gravado em 1979.09.02 - "The Essential"
7. "Where the Bands Are" (3:47) - Gravado em 1979.10.09 - “Tracks”
8. "Living on the Edge of the World" (4:21) - Gravado em 1979.12.07 - “Tracks”
9. "Take 'em as They Come" (4:32) - Gravado em 1980.04.10 - “Tracks”
10. "Restless Nights" (3:49) - Gravado em 1980.04.11 - “Tracks”
11. "Help Up Without A Gun (Live)" (1:21) - Gravado ao vivo em 1980.12.31 no Nassau Coliseum - "The Essential" 
Disco 4 (CD): "Deep Inside The River Vol. 2 - Loose Ends: The Ties That Bind Sessions" (2014)
1. "Roulette" (Rock Mix) (3:57) - Gravado 1979.04.03 - Lado B de "One Step Up"
2. "Point Blank" (Fast) (5:24) - Gravado em 1979.05.29-30 - Inédito
3. "Little White Lies" (2:42) - Gravado em 1979.06.01 - Inédito
4. "The Man Who Got Away" - Gravado em 1979.06.13 / 1979.07.05 - Inédito
5. "Night Fire" - Gravado em 1979.06.13 - Inédito
6. "Under The Gun" - Gravado em 1979.06.14 - Inédito
7. "Do You Want Me To Say Alright" - Gravado em 1979.06.14 - Inédito
8. "Stolen Car" (alternate lyrics) (4:48) - Gravado em 1979.06 - Inédito
9. "The Price You Pay" (additional verse) (5.54) - Gravado em 1979.06 - Previsto para “The Ties That Bind”
10. "Cindy" (2:18) - Gravado em 1979.07.16-17 - Previsto para “The Ties That Bind”
11. "Loose Ends" (4:05) - Gravado em 1979.07.18 - Previsto para “The Ties That Bind”
12. "To Be True" (3:43) - Gravado em 1979.07.21 - Previsto para “The Ties That Bind”
13. "You Can Look (But You Better Not Touch)" (Rockabilly)" (2:12) - Gravado em 1979.08.24-15 - Previsto para “The Ties That Bind” 
Disco 5 (CD): "Deep Inside The River Vol. 3 - Party Lights: The River Sessions" (2014)
1. "Party Lights" - Gravado em 1979.10.08 - Inédito
2. "Dedication" - Gravado em 1979.12.04/06 - Inédito
3. "A Thousand Tears (William Davis)" - Gravado em 1980.01.31-02.01 - Inédito
4. "Angelyne" - Gravado em 1980.02.01 - Inédito
5. "I Will Be The One" - Gravado em 1980.02.16/26 - Inédito
6. "Chain Lightning" - Gravado em 1980.01.17 - Inédito
7. "Help Up Without A Gun" (1:20) - Gravado em 1980.04 - Lado B de "Hungry Heart"
8. "Time That Never Was" - Gravado em 1980.04.16 - Inédito
9. "Down In White Town" - Gravado em 1980.04.16 - Inédito
10. "Your Love" - Gravado em 1980.07-08 durante as sessões com Gary US Bonds - Inédito
11. "This Little Girl" - Gravado em 1980.06-08 durante as sessões com Gary US Bonds - Inédito 
Disco 6 (DVD/Blu-Ray): "Nassau Year's Eve" (2014)
1980.12.31 Nassau Coliseum, Uniondale, NY, USA (audio)
1. "Night"
2. "Prove It All Night"
3. "Spirit In The Night"
4. "Darkness On The Edge Of Town"
5. "Independence Day"
6. "Who'll Stop The Rain"
7. "This Land Is Your Land"
8. "The Promised Land"
9. "Out In The Street"
10. "Racing In The Street"
11. "The River"
12. "Badlands"
13. "Thunder Road"
14. "Cadillac Ranch"
15. "Sherry Darling"
16. "Hungry Heart"
17. "Merry Christmas Baby"
18. "Fire"
19. "Candy's Room"
20. "Because The Night"
21. "4th Of July, Asbury Park (Sandy)"
22. "Rendezvous"
23. "Fade Away"
24. "The Price You Pay"
25. "Wreck On The Highway"
26. "Two Hearts"
27. "Ramrod"
28. "You Can Look (But You Better Not Touch)"
29. "Held Up Without A Gun"
30. "In The Midnight Hour"
31. "Rosalita (Come Out Tonight)"
32. "Santa Claus Is Coming To Town"
33. "Jungleland"
34. "Born To Run"
35. "Detroit Medley"
36. "I Hear A Train"
37. "Twist And Shout"
38. "Raise Your Hand"
Disco 7 (DVD/Blu-Ray): "Into The River We Dive - The River Live '09" (2014)
2009.11.08 Madison Square Garden, New York, NY, USA (audio)
1. "Wrecking Ball" (com Curt Ramm)
2. "The Ties That Bind"
3. "Sherry Darling"
4. "Jackson Cage"
5. "Two Hearts" / "It Takes Two"
6. "Independence Day"
7. "Hungry Heart"
8. "Out In The Street"
9. "Crush On You"
10. "You Can Look (But You Better Not Touch)"
11. "I Wanna Marry You"
12. "The River"
13. "Point Blank"
14. "Cadillac Ranch"
15. "I'm A Rocker" (com Curt Ramm)
16. "Fade Away"
17. "Stolen Car"
18. "Ramrod"
19. "The Price You Pay"
20. "Drive All Night"
21. "Wreck On The Highway"
22. "Waitin' On A Sunny Day"
23. "Atlantic City"
24. "Badlands"
25. "Born To Run"
26. "Seven Nights To Rock"
27. "Sweet Soul Music "(com Curt Ramm)
28. "No Surrender"
29. "American Land" (com Curt Ramm)
30. "Dancing In The Dark"
31. "Can't Help Falling In Love"
32. "(Your Love Keeps Lifting Me) Higher And Higher" 
Disco 8 (DVD/Blu-Ray): "Thrill Hill Vault - The River Video Extras" (2014)
"No Nukes concert" - 1979.09.21/22 Madison Square Garden, New York, NY, USA
1. "The River"
2. "Thunder Road"
3. "Quarter To Three"
"The River Tour rehearsals" - 1980.09 Claire Brothers Audio, Lititz, PA, USA (Parte 1, Parte 2, Parte 3)
1. "Born To Run"
2. "Prove It All Night"
3. "Tenth Avenue Freeze-Out"
4. "Out in the Street"
5. "The River"
6. "Darkness on the Edge of Town"
7. "Wreck on the Highway"
8. "The Ties That Bind"
9. "The Promised Land"
10. "Thunder Road"
11. "Racing in the Street"
12. "Cadillac Ranch"
13. "Fire"
"Survival Sunday concert" - 1981.06.14 Hollywood Bowl, Los Angeles, CA, USA
1. "This Land Is Your Land"
2. "The Promised Land" (com Jackson Browne)
3. "Jole Blon" (com Gary US Bonds)
4. "Hungry Heart"
5. "Brother John Is Gone" (com todos os artistas)

Disco 9 (DVD/Blu-Ray): "The Ties That Bind: The Story Of The River" (2014)
Documentário

São assim um total de 9 discos - 5 de áudio e 4 de vídeo - que podem mostrar finalmente a verdadeira dimensão do material que Bruce acumulou, nos 2 anos de gravações contínuas (1979 e 1980) que culminaram em "The River".
Na parte áudio, a juntar ao álbum duplo remasterizado, estão 3 discos de temas finalizados, que não couberam no álbum. Exacto. Ao contrário do que aconteceu com as faixas gravadas nas sessões de "Darkness On The Edge Of Town" (muitas delas tiveram que ser completadas para a sua inclusão em "The Promise"), todos os temas que estão nos discos 3, 4 e 5 (que baptizei de "Deep Inside The River") foram gravados nos estúdios The Power Station e estão terminados, ou em estado final de acabamento.

O Disco 3 ("Deep Inside The River Vol. 1 - The River Tracks") é uma espécie de "revisão da matéria dada", compilando os temas que já foram lançados das sessões de gravação de "The River" e que já são conhecidos na sua "versão definitiva". Estes temas apareceram na caixa "Tracks", de 1998 e na compilação "The Essential", de 2003.

O Disco 4 ("Deep Inside The River Vol. 2 - Loose Ends: The Ties That Bind Sessions") refere-se à 1ª fase de sessões de gravação, que decorreu entre Março e Setembro de 1979 e que produziram o álbum "The Ties That Bind". A 21 e 22 de Setembro, Bruce Springsteen deu 2 concertos com a E Street Band no Madison Square Garden, para apoiar os Musicians United for Safe Energy (mais conhecido por No Nukes) e por alguma razão, mudou de ideias. O álbum foi cancelado e a banda voltaria a estúdio para mais um ano de gravações.
A 2ª metade deste disco é composta, na prática, pelas faixas que não puderam ver a luz do dia em 1979.  Elas estão disponíveis em qualidade imaculada (basta carregar nos links para ouvir) e muitas delas representam as "versões definitivas"destes temas.
Pela quantidade de posts que já escrevi sobre a temática, é fácil perceber que o álbum "The Ties That Bind" tem reservado um cantinho no coração muito especial para mim.

O Disco 5 ("Deep Inside The River Vol. 3 - Party Lights: The River Sessions") refere-se à 2ª fase de sessões de gravação, que decorreu entre Outubro de 1979 e Maio de 1980 e que resultaram em "The River".  A maior parte destes temas são inéditos e desconhecidos do público, embora se saiba da sua existência pelos registos presentes nos estúdios The Power Station.

O Disco 6 ("Nassau Year's Eve") é um dos principais atractivos da caixa: um concerto completo em vídeo, da The River Tour. Para aqui escolhi a lendária noite de fim de ano (1980.12.31), ao vivo no Nassau Colisseum, onde Bruce tocou 38 (!!!) temas, num dos concertos mais longos de sempre. O áudio (pelo menos) foi gravado profissionalmente para o lançamento de um álbum ao vivo, sendo que alguns dos temas foram incluídos mais tarde na caixa "Live/1975-85" e outros apareceram noutras compilações. Se não houver vídeo desta noite e não for pedir muito, podem incluir o concerto de fim de ano nos discos 10, 11 e 12.
O único vídeo filmado profissionalmente que se conhece é de 1980.11.24 (Capital Centre, Landover, MD, USA), embora o áudio seja gravado na audiência e por isso de fraca qualidade. Espero uma agrádavel surpresa de Bruce neste capítulo.

O Disco 7 ("Into The River We Dive - The River Live '09") documenta a noite em que Bruce Springsteen tocou - pela primeira e única vez - o álbum "The River" completo e na sequência original, no Madison Square Garden, em 2009. Vale mais como registo histórico, do que outra coisa. Seria seguramente o item menos interessante da caixa.

O Disco 8 ("Thrill Hill Vault - The River Video Extras") resgata todo o vídeo "avulso" que Bruce tenha nos seus cofres. Está aqui o que sabe que existe do concerto de "No Nukes" (embora mais possa existir, quem sabe...), a sua aparição no Hollywood Bowl, para o concerto de beneficência Survival Sunday e ainda a filmagem dos ensaios para a The River Tour. Espero que Bruce nos reserve algumas surpresas para aqui também.

O Disco 9 ("The Ties That Bind: The Story Of The River") é o documentário, à imagem do que já tivemos com "Wings For Wheels" e "The Promise". Que Bruce nos conte a História, pelas suas palavras, de "The River".

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Bruce Springsteen - "The Ties That Bind"

"Now you can't break the ties that bind"



A Rolling Stone anda em polvorosa com a notícia do novo álbum de Bruce Springsteen - o seu artista fétiche. Eu sei que é irónico que eu me refira nestes termos à Rolling Stone, quando mais de 10% dos posts deste blog são dedicados a Bruce Springsteen; mas estamos a falar da malta que deu 5 estrelas a "Working On A Dream", num texto cheio de superlativos que compara o álbum a "Born To Run" e o classifica como o "mais rico da década". Ora, "Working On A Dream" é para mim (e, atrevo-me a dizer, para a maioria dos fãs) o mais fraco de todos os álbuns de Bruce com a E Street Band. Quando posto ao lado de "The Rising", ou mesmo de "Magic", "Dream" só pode corar de vergonha. Na minha opinião, é o álbum que (infelizmente) marca o declínio criativo de Bruce, que continuou com "Wrecking Ball" e se deverá prorrogar no próximo "High Hopes", a ser lançado em Janeiro (e que levará 4 1/2 estrelas da RS).
Mas voltarei a esse assunto mais tarde.

O que mais interessa nesta onda de entusiasmo da Rolling Stone, é que (para um dos artigos) entrevistaram Jon Landau - o manager de Bruce. E ele, talvez sem querer, desvendou o que aí vem para o que nesta altura realmente importa: o colossal filão de material que Bruce Springsteen tem guardado nos seus cofres. Neste artigo, Jon Landau faz a revelação:
"This year also marks the 30th anniversary of Springsteen’s smash Born in the U.S.A., but his manager, Jon Landau, says there are no plans to celebrate that with a deluxe reissue – at least not yet. "There's ongoing work on a River box set," says Landau. "Maybe we’ll do that first".

Ou seja, depois de "Darkness On The Edge Of Town", segue-se "The River" como objecto de um tratamento exaustivo para uma edição de luxo. Esta é a melhor notícia relacionada com Bruce Springsteen, desde que há exactamente 2 anos anunciou o concerto em Lisboa.

Recordo que em 2010, Bruce mostrou ao Mundo como é que se faz uma edição de luxo e lançou "The Promise: The Darkness on the Edge of Town Story" - um set composto por 3CD + 3Blu-Ray, que parou em (quase) todos os apeadeiros.
A caixa de "Darkness" é para mim um dos maiores (o maior?) triunfos artísticos de TODA a carreira do Bruce. A quantidade (e qualidade) do material audio e vídeo ali presentes são a prova da força e criatividade no pico da sua carreira.
Só faltou mesmo um álbum ao vivo, de preferência com o concerto de Passaic, em 1978/09/19, que é "só" uma das minhas performances ao vivo preferidas de sempre. Mas já estou a divagar.
Com a caixa de "Darkness", Bruce elevou a fasquia de tal forma, que será difícil competir com isso no álbum "The River".

Interessa agora pensar e cogitar o que nos espera nesta edição expandida do "The River". Com base no que tivemos em "Darkness", façamos então esse exercício:

- Álbum "The River" remasterizado:
Já não era sem tempo. A discografia do Bruce deixa bastante a desejar ao nível sónico, mas "The River" é de longe o pior exemplo.
Para além de parecer que é a música é transmitida em ondas AM, há um desequilíbrio de equalização que não se compreende. Talvez se deva ao facto do álbum ter sido gravado em 2 fases e de parte dos temas ter sido terminado e masterizado para o cancelado "The Ties That Bind", mas isso teria que ser corrigido na masterização da 2ª leva de temas. O álbum soa a uma compilação e isso é estranho.

- Documentário:
Se fizerem outro documentário para contar a história do álbum, já não vai poder contar com as imagens de estúdio, como tivemos no "The Promise". Infelizmente, o Bruce e o Steven disseram que essas filmagens só foram feitas na gravação do "Darkness".
Mesmo assim, se intercalarem as novas entrevistas com imagens de arquivo de concertos, penso que dá para fazer algo de muito bom.

- Concerto em vídeo:
É a "centerpiece" da caixa para a maioria dos fãs (eu incluído). Esta era a grande dúvida na caixa de "Darkness" e na altura falava-se dos vídeos de concertos que se conheciam (Roxy, Passaic, Phoenix), mas acabou por calhar Houston, que ninguém tinha ouvido falar. Foi uma agradável surpresa.
Na "The River Tour", o único concerto completo, filmado profissionalmente, que eu conheço é o de Landover em 1980.11.24. É este que tem maior probabilidade de calhar na caixa, mas quem sabe, que surpresas o Bruce tem reservadas no Thrill Hill? Como disse, prefiro algo de completamente novo e surpreendente.

- Extras vídeo:
Deve haver "n" filmagens avulsas nesta digressão - uma música aqui, outra ali - que devem facilmente fazer um DVD/BD de bónus. Imediatamente à cabeça vem-me os concertos de beneficência no Hollywood Bowl e no MSG (o tal que fez o Bruce mudar de ideias e cancelar o "The Ties That Bind"), todos filmados profissionalmente.

- Outtakes / Faixas que ficaram de fora do álbum:
Ui... Aqui de certeza que não haverá falta de material. "Darkness On The Edge Of Town" deu origem a um álbum duplo de outtakes ("The Promise") e este pode facilmente dar origem a outro. Já houve vários temas que foram parar ao "Tracks", mas há muito, muito, MUITO material que sobra.
Com a ajuda do Brucebase (a minha bíblia das sessões de gravação de Bruce Springsteen), reuni imediatamente 30 (!!!) temas que poderiam figurar aqui:
“Held Up Without A Gun”
“Cindy”
“Little White Lies”
“Janey Needs A Shooter”
“The Man Who Got Away”
“Chain Lightning”
“Find It Where You Can”
“Break My Heart”
“Out On The Run (Looking For Love) ”
“Love And Kisses”
“Night Fire”
“In The City Tonight”
“Under The Gun”
“I Don’t Wanna Be”
“Chevrolet Deluxe”
“Slow Fade”
“Jole Blon”
“Party Lights”
“Do You Want Me To Say Alright”
“Time That Never Was”
“Down In White Town”
“Angelyne”
“A Thousand Tears (William Davis)”
“I Will Be The One”
“Stray Bullet”
“Tonight”
“I’m Gonna Treat You Right”
“Dedication”
“Your Love”
“This Little Girl”

O nome da caixa? Obviamente:

"The Ties That Bind: The Story Of The River"



Digam lá se não soa maravilhosamente bem? E ainda se prestaria a devida homenagem ao álbum que nunca viu a luz do dia em 1979. Venha de lá essa caixa!


P.S.: Jon Landau não se ficou por aqui no campo das revelações:
"And we're doing some remastering work on his first two albums [1973's Greetings From Asbury Park, N.J. and The Wild, the Innocent & the E Street Shuffle] as we speak. Those will be forthcoming.""
Ou seja, temos à nossa espera novas remasterizações para "Greetings From Asbury Park, N.J. e "The Wild, The Innocent & The E Street Shuffle", abrindo a esperança para a abertura do gigantesco cofre de temas dos primeiros anos de carreira de Bruce. Sweet.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Arcade Fire - "Reflektor"

"It’s just a reflection of a reflection, of a reflection of a reflection."



E eis que após 3 meses de ausência (interrompidos apenas por Lou Reed), regresso hoje às lides do blog. Muito haveria para contar, mas o tempo é curto e a escrita preciosa.
Como tal, que melhor maneira de dar o pontapé de saída para o final de 2013 (que terá a inevitável revisão anual da matéria dada), que o álbum por que todos esperaram este ano? O álbum que foi feito em 2013 e que "fez" 2013? O álbum que epitomiza toda a cultura alternativa, exclusiva (cough... hipster), pseudo-intelectual, lustroso-por-fora/vazio-por-dentro dos anos 10's?
Falo, obviamente, de "Reflektor" - o 4º álbum de estúdio dos Arcade Fire.


Antes de mais, vou directamente à minha opinião sobre o álbum: "Reflektor" é um rochedo; um rochedo dançável. É um álbum duplo, com 13 temas e 75 minutos, fácil de degustar, mas difícil de digerir. É um álbum variado no estilo, rico nos ambientes, polido na produção.

Não era fácil suceder ao premiado "The Suburbs" (Grammy 2011), mas os Arcade Fire inspiraram-se nas memórias de acesso aleatório vindas de França e jogaram a sua sorte com um álbum que ambiciona conquistar as pistas de dança e manter a rodagem nos círculos alternativos.

Por outro lado, "Reflektor" é um álbum que vem carimbado com o selo da ironia, do sarcasmo, do cinismo e de todas as outras formas de retórica que devem masturbar a mente do mais orgulhoso hipster.

E é aqui que entramos na discussão que eu apimentei em cima. Já aqui falei dos hipsters e na acefalia da cultura da exclusividade. Note-se que os Arcade Fire não são impulsionares deste lustroso-por-fora/vazio-por-dentro característico desta década; mas no final de contas, são os hipsters o público-base da banda.
Era complicado aos Arcade Fire jogar com isto, mas eles fizeram-no e com mestria.

"Reflektor" é, acima de tudo, um álbum muito inteligente. Inteligente na forma e inteligente no conteúdo.
É inteligente no conteúdo porque é bom; aborda vários estilos (sem ser propriamente "inventivo") e arrisca, ainda que calculadamente, numa nova sonoridade.
É inteligente na forma, porque dispara em todas as direcções.
Com "Reflektor", os Arcade Fire querem fazer um disco maior que a banda, maior que a vida, maior que o Mundo; muito maior que o selo de Indie Rock hipster com o qual andam colados.
Mas por outro lado, os AF querem esse selo. Eles sabem que a sua base de fãs - sim, falo dos hipsters - querem ainda usufruir do prestígio da exclusividade, querem sentir-se especiais. Então os AF tentam ser irónicos, de modo a passar a mensagem: "Embora nos tenhas que partilhar com muitos outros, este álbum é para ti. Só tu é que nos entendes."

Diz a Pitchfork (publicação sempre simpática para com os AF) acerca de "Reflektor", enquanto invoca nomes de álbuns como "Low" (Bowie), "Exile on Main Street" (Stones), "The White Album" (Beatles), ou "Achtung Baby" (U2):
"The only way to make a Big Rock Record in 2013 is to make one that is skeptical of what it means to be a Big Rock Record in 2013."

Ah, pois, a ironia. 

"Reflektor", de irónico, tem muito pouco. Senão vejamos: "Reflektor" é um álbum Disco, num ano em que o Disco voltou; é um álbum grande (duplo), quando pretende ser um grande álbum; é um álbum que pretende lançar os AF aos grandes palcos e que lança os AF aos grandes palcos.
Os AF auto-proclamam-se irónicos, mas depois param em todos os apeadeiros do mainstream.
Eles vão "só" encabeçar o cartaz do Rock In Rio, ao lado de nomes como Justin Timberlake e Robbie Williams.

Ironia? BULLSHIT

O Noel Gallagher é que lhes tirou a pinta. (Leiam esta entrevista à Rolling Stone, onde Noel faz uma revisão de 2013, que é a melhor que eu já li nos últimos anos. A sério, pela vossa vida, leiam a entrevista!)

RS: Did you see that they've asked people to wear formal wear or costumes at their shows?[Arcade Fire has clarified that this dress code is "super not mandatory."]
Noel: [Sighs] Well, what's the point of that? Do you know what the point of that is? That is to take away from the shit disco that's coming out of the speakers. Because everybody's dressed as one of the Three Musketeers on acid. "What was the gig like?" "I don't know, everyone was dressed as a teddy bear in the Seventies." "Yeah, but what was the gig like?" "Ah, fuck knows, man, I have no idea. I was dressed as a flying saucer." "Yeah, but what was the gig like?" "Fuck knows. I don't know. Seen Cheech and Chong, there, though." Not for me.

A sério, que raio de ideia foi aquela de imporem um "dress code" nos concertos? Quem é que foi o idiota que se lembrou disto?
Não sei, mas foi um idiota... muito inteligente. Com este pedido bizarro (que depois foi moderado), os Arcade Fire mostram ao que vêm e a quem querem agradar - sim, falo dos hipsters. Colocam cá fora um disco (pun intended) para ser consumido pelo quasi-mainstream (não exageremos, também não são a Rihanna), mas querem seleccionar o público que aparece nos concertos e, mais importante que isso, querem perpetuar a imagem de banda alternativa. Querem vender tanto como os U2, mas manter a aura de reclusos da indústria.

"Reflektor" é reluzente (basta olhar para a capa) e pretensioso e ainda bem. Nada contra tenho contra o pretensiosismo na música, ou não fosse eu fã de Rock Progressivo, ou de Glam Rock.
Com este álbum, os Arcade Fire querem o bolo de noiva e querem os cupcakes; querem tudo. E têm todo o direito de o fazer; são precisas mais bandas que reclamem o ceptro da indústria musical.
Mas não me venham com balões e confettis de ironia, apoiados em loas da Pitchfork e da restante comunidade hipster.
"Reflektor" é uma declaração de take over dos Arcade Fire, uma OPA hostil do panorama musical.

Ironia, my ass. Irónico é o facto de eu estar a condenar a bajulação da crítica para com "Reflektor", quando todo este blog é um exercício de bajulação a música. Isso sim, é ironia.


domingo, 27 de outubro de 2013

Lou Reed - "Metal Machine Music"

Antes de mais, assinalo que não sou fã de Lou Reed, nem nunca tive curiosidade de mergulhar mais profundamente na sua obra.
Dito isto, sempre admirei Lou Reed por ser um artista na mais ampla asserção da palavra, por ter vivido a sua arte com uma honestidade e pureza que são muito raras na música popular.
Ou era à maneira de Lou, ou então não era de maneira nenhuma. Os outros que se f**essem.



Em 1975, Lou estava no pico comercial da sua carreira, depois de 3 álbuns sucessivamente mais bem sucedidos ("Transfomer", "Berlin" e "Sally Can't Dance") e vivia debaixo de uma grande pressão por parte da editora, para lançar um novo trabalho à altura.
O que é que Lou fez? O maior pirete à "indústria" na História da música: lançou o infame "Metal Machine Music" - um álbum duplo, que consistia unicamente de 4 lados de feedback.



Em 2011, todos esperariam que Lou vivesse apenas das glórias do passado, reciclando o seu material em compilações, ou em digressões nostálgicas.
O que é que Lou fez? Voltou a molhar a sopa: chamou os Metallica e gravou um dos álbuns mais criticamente trucidados da História - "Lulu" - uma mistura de Thrash Metal, com textos declamados por Lou Reed (frequentemente fora do tempo da música).
"Lulu" foi de tal forma pulverizado, que provocou comentários em como era pior ainda que "Metal Machine Music".



Com Lou Reed, sempre se podia esperar o inesperado.
Ou era à maneira de Lou, ou então não era de maneira nenhuma. Os outros que se f**essem.

RIP Lou Reed (1942-2013) - Um dos grandes.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Supertramp - "School"

"I can see you in the morning when you go to school"



Foi na 6ª feira passada - já faz quase uma semana - mas ainda não me saiu da cabeça o concerto de Roger Hodgson no Hipódromo de Cascais.

Para quem o nome é estranho, Roger Hodgson foi um dos elementos fundamentais dos Supertramp, durante os seus anos dourados, entre 1974 e 1983. Roger e Rick Davies formaram uma parceria de compositores (ala Lennon-McCartney ou Jagger-Richards) que deu à banda 3 álbuns de luxo ("Crime Of The Century", "Even In The Quietest Moments..." e "Breakfast In America") e uma série de êxitos que levaram os Supertramp a um sucesso estratosférico em 1979, fazendo de "Breakfast In America" o álbum mais vendido do Mundo naquele ano.

Mais do que o sucesso, o que fica do legado de Roger Hodgson e Rick Davies é uma sonoridade única, inconfundível, nos álbuns clássicos dos Supertramp. A harmónica, o piano eléctrico Wurlitzer, bem como a restante bateria de instrumentos de teclas e todos os outros subtis adornos da paisagem sonora que os Supertramp tão bem sabiam utilizar. À custa desta identidade sonora muito própria, ao ouvirmos um qualquer trecho de um álbum dos Supertramp entre 1974 e 1983, imediatamente reconhecemos quem está a tocar.

"It's always up to you if you want to be that, want to see that way"

Como em quase todas as parcerias de sucesso na música (tirando Elton John/Bernie Taupin, não me lembro de outra que tenha prevalecido no tempo), Roger e Rick viraram costas um ao outro em 1983 e seguiram caminhos separados. Roger aventurou-se a solo e Rick continuou com os Supertramp.
Em 2010, tive a oportunidade de ver os Supertramp no Pavilhão Atlântico, na sua digressão de reunião "'70-10", que comemorava os 40 anos da banda. Reunião, mais ou menos, uma vez que um dos membros-chave - Roger Hodgson - não estava presente. O concerto foi muito bom, muito polido e profissional.
Foi bom, mas foi "só" isso, não andei com aquela noite a ressoar na minha cabeça durante uma semana.

Com Roger Hodgson foi bem diferente, incrível. Incrível, mesmo.
A noite foi memorável; já tinha começado da melhor maneira com os Level 42 e o slapping bass de Mark King - um baixista dotado de uma técnica ímpar.
Mas o melhor veio depois. Apresentando uma setlist com 90% de material dos Supertramp, o concerto de Roger Hodgson foi tão bom, tão belo, tão harmonioso, que em partes chegava a doer, de tão bom que estava a ser. Partes houve, em que a linha que separa o deleite do sofrimento ficava esbatida, com a ultra-estimulação dos sentidos. O concerto valeu-me uns quantos arrepios na espinha.

Enquanto eu ia cuspindo umas interjeições do tipo "Brutal!", ou "Espectáculo!", nos intervalos entre temas, ou entre secções da mesma música (não esquecer que os Supertramp fizeram muito Rock Progressivo), o amigo que me acompanhava estava sem palavras, limitava-se a sorrir. Esse amigo é de uma geração à frente da minha, com poucos anos de diferença do meu Pai, é alguém que viveu os Supertramp in loco. Ele nada dizia, trazia apenas consigo um sorriso aberto, inocente, idiota, qual miúdo de 10 anos a abrir os presentes na noite de Consoada.

Quanto a mim, o efeito do concerto de 6ª feira foi tal que, desde então, ainda não consegui parar de ouvir Supertramp.
Para celebrar esta semana inundada de Supertramp deixo aqui "School", tema que Roger Hodgson foi buscar logo no início do concerto. "School" abriu o álbum "Crime Of The Century" de 1974, com aquela inconfundível harmónica e à semelhança do tema-título "Crime of the Century" foi uma composição de facto conjunta de Roger e Rick.



A poucos dias de embarcar para Londres, para aquele que espero que seja um dos concertos do ano - Roger Waters ao vivo no Estádio do Wembley, com o álbum "The Wall" - outro Roger já elevou a fasquia, e de que maneira.