segunda-feira, 10 de junho de 2013

Genesis - "Harold The Barrel"

"You must be joking! Take a running jump..."



Hoje vou falar de suicídio. Não do meu, obviamente, que gosto demasiado de mim para fazer tal coisa. Venho, sim, falar do Harold, o Barril.
Julgando pela alcunha, Harold era um homem gordo, ou bêbado. Ou ambos. Não sabemos. Aliás, pela informação que nos é dada, pouco sabemos acerca de Harold, a não ser que ele é dono de um restaurante em Bognor (cidade no sul de Inglaterra), que tem uma mãe com 67 anos e que já não pode aguentar mais.
Com uma mãe com 67 anos, Harold deveria ser um homem de meia idade, com os seus 40 anos. Provavelmente a passar uma crise de meia idade, o exame que fez à sua vida revelou que a saída seria um choque frontal com a Velha Senhora. Sem mais família para o amparar, Harold decidiu tomar a fuga para a frente.

 News:
    A well-known Bognor restaurant-owner disappeared
    early this morning.
    Last seen in a mouse-brown overcoat,
    suitably camouflaged,
    they saw him catch a train.

Man-in-the-street:
    "Father of three its disgusting"
    "Such a horrible thing to do"

Harold the Barrel cut off his toes and he served them all for tea.

    "Can't go far""He can't go far".
    "Hasn't got a leg to stand on"
    "He can't go far".

Man-on-the-spot:
    I'm standing in a doorway on the main square
    tension is mounting
    There's a restless crowd of angry people

Man-on-the-council:
    "More than we've ever seen.
    - had to tighten up security"

Over to the scene at the town hall
The Lord Mayor's ready to speak

Lord Mayor:
    "Man of suspicion, you can't last long, the British Public is on our side"

British Public:
    "Can't last long""You can't last long".
    "Said you couldn't trust him, his brother was just the same"
    "You can't last long".

Harold:
    If I was many miles from here,
    I'd be sailing in an open boat on the sea
    Instead I'm on this window ledge,
    With the whole world below

Up at the window
Look at the window...

Mr.Plod:
    "We can help you"

Plod's Chorus:
    "We can help you"

Mr. Plod:
    "We're all your friends, if you come on down and talk to us son"

Harold:
    You must be joking!
    Take a running jump...

The crowd was getting stronger and our Harold getting weaker;
Forwards, backwards, swaying side to side
Fearing the very worst
They called his mother to the sight
Upon the ledge beside him
His mother made a last request.

67-year-old Mrs. Barrel:
    "Come off the ledge, if your father were alive he'd be very, very, very upset."
    "Just can't jump, you just can't jump"
    "Your shirt's all dirty, there's a man here from the B.B.C."
    "You just can't jump"

Mr. Plod:
    "We can help you"

Plod's Chorus:
    "We can help you"

Mr. Plod:
    "We're all your friends, if you come on down and talk to us Harry"

Harold:
    You must be joking!
    Take a running jump...

Não, este texto não pretende ser uma dissertação sobre o suicídio. Mas já que estamos nisso, lembrem-se que por mais escuro que seja o buraco, há sempre uma saída.

Este texto pretende ser uma dissertação sobre o acaso de quando ouvimos um tema que já conhecemos há anos, prestamos atenção ao que ele diz e nos deparamos com um animal completamente diferente. É o caso de "Harold The Barrel". Estou fascinado com este curto tema dos Genesis, do álbum de estreia da sua formação clássica (Gabriel/Collins/Hackett/Rutherford/Banks) "Nursery Cryme".


"Harold The Barrel" tem 3 minutos, não é o melhor tema dos Genesis, não é o melhor tema de "Nursery Cryme" e nem sequer é o melhor tema do 2º lado do álbum (já agora, essas honras poderiam ser atribuídas a "The Carpet Crawlers", "The Musical Box" e "The Fountain Of Salmacis", respectivamente). Mas "Harold The Barrel" é um tema que, em 3 minutos, condensa uma série de virtudes dos Genesis daquela época.

Em 3 minutos, os Genesis contam um conto. Introduzem uma série de personagens (que falam!), fazem uma descrição detalhada de um acontecimento trágico e da perspectiva decidida do personagem principal. A música, as mudanças de andamento, as pinceladas da guitarra de Steve Hackett, tudo serve para compor a pintura de uma história, como só os Genesis conseguem contar.
Não sei se há mais bandas que conseguem realizar uma peça teatral num tema de 3 minutos, se há, não conheço.

Note-se que aquando da gravação original de "Harold The Barrel", Hackett ainda não fazia parte da banda (foi o último a entrar da formação clássica), pelo que as suas partes foram adicionadas a posteriori. E logo ali deu para perceber que o seu input na banda seria valiosíssimo.

O fim da história conta o esperado desfecho. Enquanto Tony Banks toca as notas finais ao piano, a voz de Phil Collins desvanece ao ritmo da queda de Harold. O fim do tema marca o fim da vida do nosso fugaz herói.

sábado, 1 de junho de 2013

Blur - "For Tomorrow"

"Modern life is rubbish, I'm holding up for tomorrow"


Épico. Fabuloso. Inesquecível.
Já passou uma semana, mas ainda estou a digerir o que se passou naquela memorável noite.
A madrugada de Sexta para Sábado viveu, no Parc del Fòrum, em Barcelona, o momento do regresso dos Blur aos palcos europeus. O ambiente fervia. Para muitos, era a estreia absoluta em concertos dos Blur. A espera tinha sido longa e longo tinha sido o caminho até ali.
Para mim, foram mais de 1000 quilómetros desde Lisboa e quase 18 anos de espera, desde que ouvi pela primeira vez "Country House", numa qualquer rádio durante o Verão de 1995.


Os Blur foram uma banda da minha adolescência, mas nem sequer foram a mais marcante. Os seus arqui-rivais Oasis (rivais à conta dos irmãos Gallagher, porque parece-me que por Damon e Graham, tinham sido todos amigos) foram uma banda muito mais importante para mim. Mas em vez de pôr uns contra os outros como a "indústria" queria, preferi desfrutar da música de todos.

Volvidos 18 anos, depois de ver os Oasis 2 vezes (Sudoeste em 2005 e Pavilhão Atlântico em 2009), finalmente, a vez dos Blur.
E que dizer? O concerto não poderia ter corrido melhor. Os Blur proporcionaram-me uma das melhores noites dos últimos anos. Uma experiência. Algo a um nível só comparável ao concerto de Bruce Springsteen no ano passado, no Rock In Rio Lisboa.


Mais: durante "Country House", estive "a um bocadinho assim" do Damon Albarn. Vi-o rir-se para o público, num sorriso malandro que gritava "noite triunfal" e que deixava esacapar o seu dente dourado.
Tive mais uma vez a sensação que estava no fecho de um ciclo.
"Mais uma vez"? Pois. Para além de tudo o que descrevi em cima, o concerto dos Blur encerrou ainda outra efeméride: a companhia.

Naquela madrugada desloquei-me ao Parc del Fòrum com uma pessoa especial, alguém com quem partilhei a paixão pela Britpop no final dos anos 90. Na altura, éramos um oásis (pun intended) no deserto cultural que se vivia na escola. Enquanto os outros andavam entretidos com as Spice Girls, ou os Backstreet Boys, a discutir qual deles o mais bonito, ou qual delas a mais "boa", nós sentávamos lado-a-lado nas carteiras da escola a discutir música. Antes, durante e depois das aulas. Blur e Oasis à cabeça.
Partilhávamos experiências do que ouvíamos, trocávamos CD's, gravávamos cassetes, víamos em casa religiosamente a MTV e o VH1 (quando ainda eram canais de música)... era esta a nossa vida para além da escola. Foi uma amizade que se construiu e se fortificou à volta da música. Foi uma amizade (das muito poucas) que se manteve desde então, até hoje.
Por ironia do destino, essa amiga vive hoje em Barcelona. E também ela está a fechar um ciclo na sua vida pessoal e profissional.
Com a nossa reunião, ali, naquele momento, o concerto dos Blur foi como de um alinhamento planetário se tratasse.

Do lado de cá, os corações estavam abertos para deixar entrar a música dos Blur. Do lado de lá, a banda deixou tudo o que tinha em palco.
A banda estava tecnicamente "no ponto" e o Damon é um animal de palco tal, que nos fez sentir como se estivesse a cantar para cada um de nós.
"He's a twentieth century boy, with his hands on the rails. Trying not to be sick again..."
"She's a twentieth century girl, with her hands on the wheel. Trying not to make him sick again..."
O momento alto? "For Tomorrow".
Não é habitual que eu faça este tipo de balanços nesta altura, mas decorridos 6 meses deste ano, eu já estou em condições de eleger o meu tema da primeira metade de 2013. E é este. Para mim, foi este o ponto alto, foi aqui que o festival terminou, foi este o meu fecho de ciclo.
"For Tomorrow" é o tema que sintetiza, em poucas palavras, o lugar seguro onde eu estive neste ano.

Capa do single de "For Tomorrow", lançado em Abril de 1993

"For Tomorrow" é um tema sobre Londres, que mostra aquele que é, para mim, o epítome de toda a discografia dos Blur. No vídeo abaixo está a minha versão preferida deste tema: Visit To Primrose Hill Extended Version. É uma versão alargada que não estava presente no álbum original, mas que foi lançada em single em 1993 e foi mais tarde incluída na compilação "Best Of" de 2000, onde eu o ouvi pela primeira vez.
Do segundo 2:08, ao segundo 2:30, eis os melhores 22 segundos de toda a obra dos Blur. 22 segundos que mexem brutalmente comigo. Numa palavra: harmonias.




terça-feira, 14 de maio de 2013

Queen - "In The Lap Of The Gods" / "In The Lap Of The Gods... Revisited"

"I live my life for you. Think all my thoughts with you, and only you.
Anything you ask I do, for you..."



Estou de partida para Amesterdão, onde acompanharei a grande jornada do Benfica na rota dos Deuses. Como escreveu Freddie Mercury em 1974, "In The Lap Of The Gods".

Parto, ainda com feridas bem abertas, a sangrar, e um coração despedaçado, depois da catástrofe que se abateu sobre nós na última semana. Sinto que parte de mim morreu nestes dias.  O Universo, na sua cruel ordem caótica, resolveu castigar o glorioso Sport Lisboa e Benfica com a mais inglória, dolorosa e injusta das derrotas. Não merecíamos tal destino.

Mas isto do benfiquismo tem muito que se lhe diga e mesmo depois de uma devastação sem precedentes, ainda resta fé no meu coração. É essa fé que me move e me faz viajar 2000 kms em busca da redenção. Da redenção de mim para com o Benfica, por quem tive a minha fé abalada e, claro, do Benfica para comigo, para que me mantenha acesa a chama imensa. A chama que aquece esta paixão de sempre pelo Benfica.

As feridas abertas no último Sábado foram muito profundas e Amesterdão é o local onde, todos juntos, podemos fazer as pazes com o Benfica e reacender esta paixão de sempre. Ainda é possível salvar esta época.

Vou com o coração hasteado e espero trazer de volta a Taça.

Numa rara ocasião, vou juntar as duas plataformas da blogosfera onde me costumo expressar, ora sobre música, ora sobre o Benfica. Deixo com a simbiose perfeita das minhas duas grandes paixões: a música dos Queen.

Em 1974, obcecadamente à procura do sucesso que tanto ambicionava, Freddie Mercury também queria colocar os Queen na rota dos Deuses. Para além de "In The Lap Of The Gods", escreveu para o álbum "Sheer Heart Attack" o tema"In The Lap Of The Gods... Revisited". A intenção de Freddie era clara e ele gritava-a a plenos pulmões. Antes do aparecimento dos hinos "We Will Rock You" e "We Are The Champions", que fechariam todos os concertos a partir de 1977, era com "In The Lap Of The Gods... Revisited" que os Queen se despediam dos palcos todas as noites.

Deve ser este o mote para o Benfica amanhã.
Faço minhas as palavras de Freddie Mercury e deixo aqui a minha declaração de intenções para este dia histórico para o nosso clube.



Para o Benfica, revisitar a glória do passado é preciso. Que os nossos jogadores sejam bravos e que voltem a colocar o Benfica na rota dos Deuses.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Queen - "Tavaszi Szél Vizet Áraszt"

"Tavaszi szél vizet áraszt, virágom, virágom"




«Rapsódia Húngara - Um fã dos Queen em Budapeste»


Capítulo I - A magia dos Queen

Esta história tem início a 27 de Julho de 1986, data em que os Queen actuaram no Népstadion, em Budapeste.  O concerto fez parte da última e maior digressão dos Queen - a Magic Tour - que terminaria poucos dias depois no Knebworth Park, para um triunfante final, perante 120 mil fãs.

Mas o concerto do Népstadion era especial: marcava a primeira vez que uma banda Rock ocidental organizava um concerto para lá da Cortina de Ferro. O evento era de tal ordem significativo para a Hungria, que os Queen foram recebidos com honras de Estado e o concerto foi gravado em filme (e não em vídeo, como por exemplo, o famoso concerto no Estádio do Wembley) por 17 câmaras de 35 mm, utilizando TODO o equipamento disponível no país.

A 3 anos da queda do Muro de Berlim, o Mundo era um lugar bem diferente na época. Para o público residente no (então denominado) Bloco de Leste, ver os Queen ao vivo era uma oportunidade única. Gente de todo o Bloco comunista, desde a Checoslováquia, à Polónia, ou à URSS, foi a Budapeste para ver aquele que ainda hoje é o maior concerto realizado no Népstadion, onde os Queen tocaram para 80 mil pessoas.

Os Queen já tinham tentado tocar na URSS durante a The Works Tour - a mais "global" de todas as digressões da banda - mas tinham sido negados. Numa entrevista em 1985, Freddie referiu-se ao falhanço, alegando que as autoridades russas achavam que os Queen "iriam corromper a sua juventude". Para a Magic Tour, os Queen tentaram marcar datas na Checoslováquia e na URSS, mas acabaram por ir apenas à Hungria. E já não foi pêra doce.

Como é possível perceber no filme "Live In Budapest" (em 2012 relançado nos cinemas e em Blu-Ray/DVD como "Hungarian Rhapsody: Queen Live In Budapest"), o concerto de Budapeste foi uma espécie de "caixa negra" para os Queen. A banda foi lá sem saber para quantas pessoas iria actuar, como iriam ser distribuídos os bilhetes e até a perder dinheiro.
Para Roger Taylor, o que levou os Queen a Budapeste foi um "tremendo sentimento de satisfação profissional":




27 anos depois do concerto dos Queen no Népstadion, um grande fã da banda agarra num amigo e decide ir ao local onde um dia a magia dos Queen (pun intended) aconteceu.
Escusado será dizer que o protagonista desta história sou eu.


Capítulo II - The Népstadion Epic

A viagem a Budapeste foi planeada com vários atractivos em mente, visuais e sentimentais. O ponto de intersecção destas duas funções e ponto de interesse máximo da cidade era, para mim, a visita ao Népstadion.
Na marcação da viagem, desde logo avisei o meu amigo que aquele seria um local obrigatório de passagem. Esse e obviamente, o cruzeiro no Danúbio, onde Freddie Mercury alvitrou a ideia de comprar o edifício do Parlamento (a partir do segundo 1:11), perguntando quantos quartos tinha:




Domingo.
De manhã, tínhamos ido fazer o referido cruzeiro no Danúbio, ao som de "Tavaszi Szél Vizet Áraszt" - tema popular húngaro que os Queen tocaram no Népstadion - e que eu tocava em repeat no iPhone.
À tarde, apanhámos a linha vermelha de metro e fomos em direcção ao Népstadion (hoje rebaptizado de Puskás Ferenc Stadion).

Tudo o que eu queria era entrar no estádio e tirar umas fotografias junto ao local onde os Queen haviam tocado 27 anos antes. Mas não fazia a mínima ideia como. Sabia que entrar no estádio seria muito difícil, a não ser que...

Aparentemente, era o nosso dia de sorte. Noutro dia qualquer, o estádio estaria fechado, mas nesta tarde de Domingo, sem sabermos, havia futebol no estádio e havia jogo grande: o Ferencváros recebia o Videoton, num jogo para disputa dos lugares cimeiros da liga húngara.

O jogo já estava no fim e a equipa da casa (Ferencváros) estava a perder. Nós não sabíamos disto, só sabíamos que as pessoas que víamos junto ao estádio não estavam satisfeitas. E sabíamos que queríamos entrar. Tínhamos de entrar.

À chegada aos portões de entrada, perguntei aos seguranças se poderia entrar durante alguns minutos para tirar umas fotografias (lembro que o jogo estava já nos minutos finais), mas ninguém falava inglês.
Depois veio alguém que me percebia e que aceitou levar-nos lá dentro por alguns minutos, mas... Afinal, NÃO. Afinal não podíamos entrar.
Apontando para o meu amigo, com um olhar triste mas contundente, o segurança disse em inglês arcaico: "Desculpem, mas não podem entrar. White Power lá dentro. Desculpem..."

Importa referir que o meu amigo é de descendência indiana e eu, sendo português, também não sou assim tão branco quanto isso. Basicamente, fomos barrados porque não éramos brancos, ou tão brancos como eles gostariam que fôssemos. Foi como se nos teleportassem para um tempo e um espaço onde o Apartheid vigorava. De uma forma quase mórbida, até estava a ser uma experiência sociologicamente interessante.


Virei-me então para o meu amigo e disse:
"Olha, afinal não podemos entrar"
E ele, que tinha percebido a ideia da conversa, com ar de estupefacção:
"Porquê? Por causa de mim?!"

Entretanto, um dos amigos White Power's, visivelmente embriagado e enfurecido, aproximou-se por trás de nós, gritando a plenos pulmões algo semelhante a "KURVA!! KURVA!!!".
Ora bem, eu estou longe de ser um especialista no Magyar, mas reconheci imediatamente aquela palavra das minhas visitas à Polónia, uns anos antes. Também aí tinha tido o "prazer" de me cruzar com os amigos White Power's. Percebi imediatamente que aquela era a nossa deixa para bater em retirada.


No entanto, eu fiquei tão revoltado com aquela merda que lhe disse:
"Co*** ma fo***, mas nós VAMOS entrar lá dentro! Escreve o que eu te digo!"

A história não poderia acabar ali. Já estávamos em Budapeste há uns dias e até então o povo húngaro não tinham sido nada se não caloroso e hospitaleiro para connosco. Aquilo não fazia sentido nenhum.
Os amigos White Power's podiam ser mais fortes e em maior número que nós, mas nunca poderiam ser mais espertos. Afinal, estavam a lidar com tugas.

Depois de atravessar a estrada, demos então uma volta em redor do (enorme) quarteirão onde se situava o Complexo do estádio. Encontrámos uma 2ª porta, onde ainda se podia ler o nome antigo do estádio: Népstadion. Hora para mais uma fotografia.
No entanto, esta porta era vedada ao público, por isso não foi desta que conseguimos entrar.


Continuámos a andar.

Entretanto o jogo terminou e começámos a ver os adeptos a sair do estádio. Nesta altura, encontrámos um 3º portão, por onde saíam os adeptos mais "normais" do Ferencváros, com aquelas horríveis camisolas às listas verticais, verdes e brancas.
Estava ali a nossa oportunidade.

Enquanto os adeptos saíam pelos portões, nós fizemos o caminho inverso. Passámos por entre os seguranças e a polícia, subimos as escadas aparentemente intermináveis e voilá: estávamos dentro do Népstadion, apenas a alguns metros de distância de onde os Queen tocaram há 27 anos.


E esta é a vossa lição de hoje: o ódio não vos leva a nenhum lado; a inteligência vai sempre ganhar.



Capítulo III - Virágom, Virágom

"Tavaszi szél vizet áraszt, virágom, virágom*.
Minden madár társat választ virágom, virágom.
Hát én immár kit válasszak? Virágom, virágom.
Te engemet, én tégedet, virágom, virágom."

Como expliquei em cima, a data do concerto de Budapeste teve enorme importância para os Queen. De tal forma, que a banda ofereceu ao público um presente muito especial, interpretando o tema "Tavaszi Szél Vizet Áraszt" - uma canção popular húngara - algo único na concertografia dos Queen.
Aqui vemos Freddie e Brian a ensaiarem o tema no terraço do hotel (arrisco que seja o Marriott), junto ao Danúbio:


Desde os 6 anos de idade, quando vi pela primeira vez no documentário "Freddie Mercury - A Tribute" (um programa apressadamente compilado pela BBC, para transmissão no próprio dia da sua morte), a interpretação dos Queen de "Tavaszi Szél Vizet Áraszt", que me apaixonei pelo tema. Mesmo tendo em conta que a língua húngara era completamente indecifrável para mim (na época a língua inglesa também era), o tema ficou para sempre na minha cabeça.
Para os curiosos, a tradução da letra não deve fugir muito disto:
"O vento da primavera derrete o gelo, minha flor, minha flor.
Todos os pássaros procuram um parceiro, minha flor, minha flor.
E eu, quem hei-de escolher, minha flor, minha flor.
Escolho-te a ti e tu escolhes-me a mim, minha flor, minha flor."

Uns anos mais tarde, vi o filme "Live In Budapest", com todas estas imagens que coloquei ao longo do tópico. Sempre na minha cabeça, ficou também a ida a Budapeste, para visitar os maravilhosos locais que via naquelas imagens.
Se aos 6 anos me apaixonei por "Tavaszi Szél Vizet Áraszt", aos 27 apaixonei-me por Budapeste. Budapest, virágom, virágom.

terça-feira, 23 de abril de 2013

The Smiths - "That Joke Isn't Funny Anymore"

"That joke isn't funny anymore
It's too close to home and it's too near the bone, more than you'll ever know"



Porque a vida às vezes não faz sentido nenhum e uma enxurrada de merda põe tudo em perspectiva. Este post é inteiramente dedicado a uma amiga minha, que merece tudo de bom, mas que está a passar por uma provação absurda.
Que tenha a força suficiente para caminhar no vendaval que se instalou na sua vida.

Gosto de pensar que ao longo da vida, o bem que fazemos nos é devolvido em doses equivalentes. Mas é difícil perceber que sentido "isto" tem, quando nos damos conta do caos por que é regido o Universo. É difícil perceber e é medonho sequer pensar nisso.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Pink Floyd - "Learning To Fly"

"Can't keep my eyes from the circling skies...
Tongue-tied and twisted, just an earth-bound misfit, I"




O lendário Storm Thorgerson morreu ontem, aos 69 anos de idade.

Para quem não sabe, Storm foi o criador das icónicas capas dos álbuns dos Pink Floyd (bem como de outros artistas, como as capas de "Houses Of The Holy" dos Led Zeppelin, ou dos primeiros álbuns de Peter Gabriel).

A obra de Storm é extraordinária. A nível visual, NENHUM outro artista teve tanta importância para mim como Storm, especialmente nos meus anos de infância.

As capas de "The Dark Side Of The Moon", "Wish You Were Here", "The Division Bell", "Animals", "Meddle" intrigavam-me, davam asas à minha imaginação. Ficava a olhar para aquilo durante horas, enquanto ouvia a música (não menos intrigante) dos Pink Floyd.
Hoje, algumas dessas imagens servem de decoração na minha casa, penduradas na parede.


Legenda (da esquerda para a direita e de cima para baixo):
 "A Saucerful of Secrets" (1968); "Ummagumma" (1969);
"Atom Heart Mother" (1970); "Meddle" 
(1971);
"Obscured by Clouds" (1972); "The Dark Side of the Moon" (1973); 
"Wish You Were Here" (1975); "Animals" (1977); 
"A Momentary Lapse of Reason" (1987); "The Division Bell" (1994);

Ninguém pensa na música de "The Dark Side Of The Moon", sem se lembrar do prisma.
Ninguém pensa na música de "Animals", sem se lembrar da Battersea Power Station.
Ninguém pensa na música de "Wish You Were Here", sem se lembrar do homem que ficou "a arder com o negócio".
Ninguém pensa na música de "Atom Heart Mother", sem se lembrar da vaquinha.
...e por aí fora.

Fica aqui a minha homenagem, com um vídeo (o único que conheço) realizado pelo próprio: "Learning To Fly", do álbum "A Momentary Lapse Of Reason", dos Pink Floyd.

A obra de Storm é eterna, vai acompanhar para sempre a música dos Pink Floyd e estará sempre comigo, a puxar pela minha imaginação.

Que descanse em paz.

sábado, 13 de abril de 2013

Beady Eye - "Flick of the Finger"

"The future gets written today."


Liam Gallagher está de volta e desta vez, chega ao som das trompetes. "Flick Of The Finger" é a primeira amostra de "BE" - o novo álbum dos Beady Eye, que chegará às lojas no dia 10 de Junho.

Eu ouvi e gostei. "Flick Of The Finger" é diferente do que os Beady Eye mostraram em "Different Gear, Still Speeding". No 1º álbum, os Beady Eye trouxeram-nos um Rock muito straight-forward, revivalista dos primeiros anos dos The Who, dos Stones e claro, dos The Beatles.
Para além disso, também senti que "Gear" era muito pouco consistente. Se a 1ª parte do álbum era muito forte ("Four Letter Word", "Millionaire", "Beatles And Stones" e "Wind Up Dream" são faixas que poderiam figurar num bom álbum dos Oasis), chegado à 2ª parte (depois de "Standing On The Edge Of The Noise"), já tinha perdido o interesse por completo.

Veremos então o que nos traz "BE". Para já, a impressão que tiro da sua primeira amostra é que o álbum vai ser diferente, mais psicadélico, na linha do que os Oasis fizeram no seu último álbum "Dig Out Your Soul", que eu adorei.



Parece que Liam cumpriu o que tinha prometido a dois rapazes que o conheceram à porta de um estúdio em Brockenhurst:
"It's like rock 'n' roll fired out into space. If you're into drugs you'll like it.
It's pretty druggy."


Liam fez também questão de reiterar a sua vontade em fazer as coisas "como deve ser" desta vez:
"We'll be out in a few months. We're playing festivals, bar mitzvahs.
We've got to make it right this time, last time was a bit fucking stupid."
Um aparte: notem a simpatia do Liam para com os rapazes; notem a falta do pretensiosimo que lhe é imputado, quando é interpelado na rua por dois fãs, em vez de papparazis esfomeados de escândalos.
O maior.

Voltando à música.
A vontade de Liam mudar o paradigma dos Beady Eye é evidente. Para isso, recrutou o produtor David Sitek, que também já classificou o álbum de "trippy". É música para os meus ouvidos.

Sitek também elogiou a voz de Liam Gallagher e a sua facilidade em cantar, referindo que "basta ligar o microfone e pronto! Não é preciso processar a faixa vocal de maneira nenhuma, aquilo soa como um disco".
Percebem agora a diferença entre um cantor a sério e os "artistas" que precisam de passar a sua voz por filtros, auto-tunes e vocoders, para gravarem um disco? Ouçam aqui a faixa vocal de Liam. Poderoso.

Por seu lado, Liam também elogiou Sitek, afirmando que ele é "o melhor produtor com quem já trabalhei, um verdadeiro fora-da-lei!". Acrescentando que o álbum "não tem nenhuma das tretas dos 90's", curiosamente a época dourada de Liam nos Oasis. Liam quer mesmo um corte com o passado.

De facto, "Flick Of The Finger" é diferente. E é diferente, em bom.
O tema rejeita a estrutura corrente dos temas dos Oasis, não tendo um refrão que possamos entoar de peito cheio e braço de volta do nosso melhor amigo. Em vez disso, os Beady Eye foram buscar uma recitação radiofónica de um revolucionário francês do Século XVIII, para rematar o tema:
"Don't be deceived when our revolution has been finally stamped out and they pat you eternally on the shoulder and say that there's no inequality worth speaking of and no more reason for fighting.
Because, if you believe them, they will be completely in charge, in their marble homes and granite banks, from which they rob the people of the world, under the pretense of bringing them culture.
WATCH OUT, for as soon as it pleases them, they'll send you out to protect their gold in wars whose weapons, rapidly developed by servile scientists, will become more and more deadly... until they can, with a FLICK OF THE FINGER, tear a million of you to pieces."
Jean-Paul Marat (filósofo, jornalista, político e cientista do Século XVIII)

Brutal. "Flick Of The Finger" está a tocar aqui em repeat há 3 dias e ainda não me cansei.
Venha de lá esse "BE".