terça-feira, 14 de maio de 2013

Queen - "In The Lap Of The Gods" / "In The Lap Of The Gods... Revisited"

"I live my life for you. Think all my thoughts with you, and only you.
Anything you ask I do, for you..."



Estou de partida para Amesterdão, onde acompanharei a grande jornada do Benfica na rota dos Deuses. Como escreveu Freddie Mercury em 1974, "In The Lap Of The Gods".

Parto, ainda com feridas bem abertas, a sangrar, e um coração despedaçado, depois da catástrofe que se abateu sobre nós na última semana. Sinto que parte de mim morreu nestes dias.  O Universo, na sua cruel ordem caótica, resolveu castigar o glorioso Sport Lisboa e Benfica com a mais inglória, dolorosa e injusta das derrotas. Não merecíamos tal destino.

Mas isto do benfiquismo tem muito que se lhe diga e mesmo depois de uma devastação sem precedentes, ainda resta fé no meu coração. É essa fé que me move e me faz viajar 2000 kms em busca da redenção. Da redenção de mim para com o Benfica, por quem tive a minha fé abalada e, claro, do Benfica para comigo, para que me mantenha acesa a chama imensa. A chama que aquece esta paixão de sempre pelo Benfica.

As feridas abertas no último Sábado foram muito profundas e Amesterdão é o local onde, todos juntos, podemos fazer as pazes com o Benfica e reacender esta paixão de sempre. Ainda é possível salvar esta época.

Vou com o coração hasteado e espero trazer de volta a Taça.

Numa rara ocasião, vou juntar as duas plataformas da blogosfera onde me costumo expressar, ora sobre música, ora sobre o Benfica. Deixo com a simbiose perfeita das minhas duas grandes paixões: a música dos Queen.

Em 1974, obcecadamente à procura do sucesso que tanto ambicionava, Freddie Mercury também queria colocar os Queen na rota dos Deuses. Para além de "In The Lap Of The Gods", escreveu para o álbum "Sheer Heart Attack" o tema"In The Lap Of The Gods... Revisited". A intenção de Freddie era clara e ele gritava-a a plenos pulmões. Antes do aparecimento dos hinos "We Will Rock You" e "We Are The Champions", que fechariam todos os concertos a partir de 1977, era com "In The Lap Of The Gods... Revisited" que os Queen se despediam dos palcos todas as noites.

Deve ser este o mote para o Benfica amanhã.
Faço minhas as palavras de Freddie Mercury e deixo aqui a minha declaração de intenções para este dia histórico para o nosso clube.



Para o Benfica, revisitar a glória do passado é preciso. Que os nossos jogadores sejam bravos e que voltem a colocar o Benfica na rota dos Deuses.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Queen - "Tavaszi Szél Vizet Áraszt"

"Tavaszi szél vizet áraszt, virágom, virágom"




«Rapsódia Húngara - Um fã dos Queen em Budapeste»


Capítulo I - A magia dos Queen

Esta história tem início a 27 de Julho de 1986, data em que os Queen actuaram no Népstadion, em Budapeste.  O concerto fez parte da última e maior digressão dos Queen - a Magic Tour - que terminaria poucos dias depois no Knebworth Park, para um triunfante final, perante 120 mil fãs.

Mas o concerto do Népstadion era especial: marcava a primeira vez que uma banda Rock ocidental organizava um concerto para lá da Cortina de Ferro. O evento era de tal ordem significativo para a Hungria, que os Queen foram recebidos com honras de Estado e o concerto foi gravado em filme (e não em vídeo, como por exemplo, o famoso concerto no Estádio do Wembley) por 17 câmaras de 35 mm, utilizando TODO o equipamento disponível no país.

A 3 anos da queda do Muro de Berlim, o Mundo era um lugar bem diferente na época. Para o público residente no (então denominado) Bloco de Leste, ver os Queen ao vivo era uma oportunidade única. Gente de todo o Bloco comunista, desde a Checoslováquia, à Polónia, ou à URSS, foi a Budapeste para ver aquele que ainda hoje é o maior concerto realizado no Népstadion, onde os Queen tocaram para 80 mil pessoas.

Os Queen já tinham tentado tocar na URSS durante a The Works Tour - a mais "global" de todas as digressões da banda - mas tinham sido negados. Numa entrevista em 1985, Freddie referiu-se ao falhanço, alegando que as autoridades russas achavam que os Queen "iriam corromper a sua juventude". Para a Magic Tour, os Queen tentaram marcar datas na Checoslováquia e na URSS, mas acabaram por ir apenas à Hungria. E já não foi pêra doce.

Como é possível perceber no filme "Live In Budapest" (em 2012 relançado nos cinemas e em Blu-Ray/DVD como "Hungarian Rhapsody: Queen Live In Budapest"), o concerto de Budapeste foi uma espécie de "caixa negra" para os Queen. A banda foi lá sem saber para quantas pessoas iria actuar, como iriam ser distribuídos os bilhetes e até a perder dinheiro.
Para Roger Taylor, o que levou os Queen a Budapeste foi um "tremendo sentimento de satisfação profissional":




27 anos depois do concerto dos Queen no Népstadion, um grande fã da banda agarra num amigo e decide ir ao local onde um dia a magia dos Queen (pun intended) aconteceu.
Escusado será dizer que o protagonista desta história sou eu.


Capítulo II - The Népstadion Epic

A viagem a Budapeste foi planeada com vários atractivos em mente, visuais e sentimentais. O ponto de intersecção destas duas funções e ponto de interesse máximo da cidade era, para mim, a visita ao Népstadion.
Na marcação da viagem, desde logo avisei o meu amigo que aquele seria um local obrigatório de passagem. Esse e obviamente, o cruzeiro no Danúbio, onde Freddie Mercury alvitrou a ideia de comprar o edifício do Parlamento (a partir do segundo 1:11), perguntando quantos quartos tinha:




Domingo.
De manhã, tínhamos ido fazer o referido cruzeiro no Danúbio, ao som de "Tavaszi Szél Vizet Áraszt" - tema popular húngaro que os Queen tocaram no Népstadion - e que eu tocava em repeat no iPhone.
À tarde, apanhámos a linha vermelha de metro e fomos em direcção ao Népstadion (hoje rebaptizado de Puskás Ferenc Stadion).

Tudo o que eu queria era entrar no estádio e tirar umas fotografias junto ao local onde os Queen haviam tocado 27 anos antes. Mas não fazia a mínima ideia como. Sabia que entrar no estádio seria muito difícil, a não ser que...

Aparentemente, era o nosso dia de sorte. Noutro dia qualquer, o estádio estaria fechado, mas nesta tarde de Domingo, sem sabermos, havia futebol no estádio e havia jogo grande: o Ferencváros recebia o Videoton, num jogo para disputa dos lugares cimeiros da liga húngara.

O jogo já estava no fim e a equipa da casa (Ferencváros) estava a perder. Nós não sabíamos disto, só sabíamos que as pessoas que víamos junto ao estádio não estavam satisfeitas. E sabíamos que queríamos entrar. Tínhamos de entrar.

À chegada aos portões de entrada, perguntei aos seguranças se poderia entrar durante alguns minutos para tirar umas fotografias (lembro que o jogo estava já nos minutos finais), mas ninguém falava inglês.
Depois veio alguém que me percebia e que aceitou levar-nos lá dentro por alguns minutos, mas... Afinal, NÃO. Afinal não podíamos entrar.
Apontando para o meu amigo, com um olhar triste mas contundente, o segurança disse em inglês arcaico: "Desculpem, mas não podem entrar. White Power lá dentro. Desculpem..."

Importa referir que o meu amigo é de descendência indiana e eu, sendo português, também não sou assim tão branco quanto isso. Basicamente, fomos barrados porque não éramos brancos, ou tão brancos como eles gostariam que fôssemos. Foi como se nos teleportassem para um tempo e um espaço onde o Apartheid vigorava. De uma forma quase mórbida, até estava a ser uma experiência sociologicamente interessante.


Virei-me então para o meu amigo e disse:
"Olha, afinal não podemos entrar"
E ele, que tinha percebido a ideia da conversa, com ar de estupefacção:
"Porquê? Por causa de mim?!"

Entretanto, um dos amigos White Power's, visivelmente embriagado e enfurecido, aproximou-se por trás de nós, gritando a plenos pulmões algo semelhante a "KURVA!! KURVA!!!".
Ora bem, eu estou longe de ser um especialista no Magyar, mas reconheci imediatamente aquela palavra das minhas visitas à Polónia, uns anos antes. Também aí tinha tido o "prazer" de me cruzar com os amigos White Power's. Percebi imediatamente que aquela era a nossa deixa para bater em retirada.


No entanto, eu fiquei tão revoltado com aquela merda que lhe disse:
"Co*** ma fo***, mas nós VAMOS entrar lá dentro! Escreve o que eu te digo!"

A história não poderia acabar ali. Já estávamos em Budapeste há uns dias e até então o povo húngaro não tinham sido nada se não caloroso e hospitaleiro para connosco. Aquilo não fazia sentido nenhum.
Os amigos White Power's podiam ser mais fortes e em maior número que nós, mas nunca poderiam ser mais espertos. Afinal, estavam a lidar com tugas.

Depois de atravessar a estrada, demos então uma volta em redor do (enorme) quarteirão onde se situava o Complexo do estádio. Encontrámos uma 2ª porta, onde ainda se podia ler o nome antigo do estádio: Népstadion. Hora para mais uma fotografia.
No entanto, esta porta era vedada ao público, por isso não foi desta que conseguimos entrar.


Continuámos a andar.

Entretanto o jogo terminou e começámos a ver os adeptos a sair do estádio. Nesta altura, encontrámos um 3º portão, por onde saíam os adeptos mais "normais" do Ferencváros, com aquelas horríveis camisolas às listas verticais, verdes e brancas.
Estava ali a nossa oportunidade.

Enquanto os adeptos saíam pelos portões, nós fizemos o caminho inverso. Passámos por entre os seguranças e a polícia, subimos as escadas aparentemente intermináveis e voilá: estávamos dentro do Népstadion, apenas a alguns metros de distância de onde os Queen tocaram há 27 anos.


E esta é a vossa lição de hoje: o ódio não vos leva a nenhum lado; a inteligência vai sempre ganhar.



Capítulo III - Virágom, Virágom

"Tavaszi szél vizet áraszt, virágom, virágom*.
Minden madár társat választ virágom, virágom.
Hát én immár kit válasszak? Virágom, virágom.
Te engemet, én tégedet, virágom, virágom."

Como expliquei em cima, a data do concerto de Budapeste teve enorme importância para os Queen. De tal forma, que a banda ofereceu ao público um presente muito especial, interpretando o tema "Tavaszi Szél Vizet Áraszt" - uma canção popular húngara - algo único na concertografia dos Queen.
Aqui vemos Freddie e Brian a ensaiarem o tema no terraço do hotel (arrisco que seja o Marriott), junto ao Danúbio:


Desde os 6 anos de idade, quando vi pela primeira vez no documentário "Freddie Mercury - A Tribute" (um programa apressadamente compilado pela BBC, para transmissão no próprio dia da sua morte), a interpretação dos Queen de "Tavaszi Szél Vizet Áraszt", que me apaixonei pelo tema. Mesmo tendo em conta que a língua húngara era completamente indecifrável para mim (na época a língua inglesa também era), o tema ficou para sempre na minha cabeça.
Para os curiosos, a tradução da letra não deve fugir muito disto:
"O vento da primavera derrete o gelo, minha flor, minha flor.
Todos os pássaros procuram um parceiro, minha flor, minha flor.
E eu, quem hei-de escolher, minha flor, minha flor.
Escolho-te a ti e tu escolhes-me a mim, minha flor, minha flor."

Uns anos mais tarde, vi o filme "Live In Budapest", com todas estas imagens que coloquei ao longo do tópico. Sempre na minha cabeça, ficou também a ida a Budapeste, para visitar os maravilhosos locais que via naquelas imagens.
Se aos 6 anos me apaixonei por "Tavaszi Szél Vizet Áraszt", aos 27 apaixonei-me por Budapeste. Budapest, virágom, virágom.

terça-feira, 23 de abril de 2013

The Smiths - "That Joke Isn't Funny Anymore"

"That joke isn't funny anymore
It's too close to home and it's too near the bone, more than you'll ever know"



Porque a vida às vezes não faz sentido nenhum e uma enxurrada de merda põe tudo em perspectiva. Este post é inteiramente dedicado a uma amiga minha, que merece tudo de bom, mas que está a passar por uma provação absurda.
Que tenha a força suficiente para caminhar no vendaval que se instalou na sua vida.

Gosto de pensar que ao longo da vida, o bem que fazemos nos é devolvido em doses equivalentes. Mas é difícil perceber que sentido "isto" tem, quando nos damos conta do caos por que é regido o Universo. É difícil perceber e é medonho sequer pensar nisso.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Pink Floyd - "Learning To Fly"

"Can't keep my eyes from the circling skies...
Tongue-tied and twisted, just an earth-bound misfit, I"




O lendário Storm Thorgerson morreu ontem, aos 69 anos de idade.

Para quem não sabe, Storm foi o criador das icónicas capas dos álbuns dos Pink Floyd (bem como de outros artistas, como as capas de "Houses Of The Holy" dos Led Zeppelin, ou dos primeiros álbuns de Peter Gabriel).

A obra de Storm é extraordinária. A nível visual, NENHUM outro artista teve tanta importância para mim como Storm, especialmente nos meus anos de infância.

As capas de "The Dark Side Of The Moon", "Wish You Were Here", "The Division Bell", "Animals", "Meddle" intrigavam-me, davam asas à minha imaginação. Ficava a olhar para aquilo durante horas, enquanto ouvia a música (não menos intrigante) dos Pink Floyd.
Hoje, algumas dessas imagens servem de decoração na minha casa, penduradas na parede.


Legenda (da esquerda para a direita e de cima para baixo):
 "A Saucerful of Secrets" (1968); "Ummagumma" (1969);
"Atom Heart Mother" (1970); "Meddle" 
(1971);
"Obscured by Clouds" (1972); "The Dark Side of the Moon" (1973); 
"Wish You Were Here" (1975); "Animals" (1977); 
"A Momentary Lapse of Reason" (1987); "The Division Bell" (1994);

Ninguém pensa na música de "The Dark Side Of The Moon", sem se lembrar do prisma.
Ninguém pensa na música de "Animals", sem se lembrar da Battersea Power Station.
Ninguém pensa na música de "Wish You Were Here", sem se lembrar do homem que ficou "a arder com o negócio".
Ninguém pensa na música de "Atom Heart Mother", sem se lembrar da vaquinha.
...e por aí fora.

Fica aqui a minha homenagem, com um vídeo (o único que conheço) realizado pelo próprio: "Learning To Fly", do álbum "A Momentary Lapse Of Reason", dos Pink Floyd.

A obra de Storm é eterna, vai acompanhar para sempre a música dos Pink Floyd e estará sempre comigo, a puxar pela minha imaginação.

Que descanse em paz.

sábado, 13 de abril de 2013

Beady Eye - "Flick of the Finger"

"The future gets written today."


Liam Gallagher está de volta e desta vez, chega ao som das trompetes. "Flick Of The Finger" é a primeira amostra de "BE" - o novo álbum dos Beady Eye, que chegará às lojas no dia 10 de Junho.

Eu ouvi e gostei. "Flick Of The Finger" é diferente do que os Beady Eye mostraram em "Different Gear, Still Speeding". No 1º álbum, os Beady Eye trouxeram-nos um Rock muito straight-forward, revivalista dos primeiros anos dos The Who, dos Stones e claro, dos The Beatles.
Para além disso, também senti que "Gear" era muito pouco consistente. Se a 1ª parte do álbum era muito forte ("Four Letter Word", "Millionaire", "Beatles And Stones" e "Wind Up Dream" são faixas que poderiam figurar num bom álbum dos Oasis), chegado à 2ª parte (depois de "Standing On The Edge Of The Noise"), já tinha perdido o interesse por completo.

Veremos então o que nos traz "BE". Para já, a impressão que tiro da sua primeira amostra é que o álbum vai ser diferente, mais psicadélico, na linha do que os Oasis fizeram no seu último álbum "Dig Out Your Soul", que eu adorei.



Parece que Liam cumpriu o que tinha prometido a dois rapazes que o conheceram à porta de um estúdio em Brockenhurst:
"It's like rock 'n' roll fired out into space. If you're into drugs you'll like it.
It's pretty druggy."


Liam fez também questão de reiterar a sua vontade em fazer as coisas "como deve ser" desta vez:
"We'll be out in a few months. We're playing festivals, bar mitzvahs.
We've got to make it right this time, last time was a bit fucking stupid."
Um aparte: notem a simpatia do Liam para com os rapazes; notem a falta do pretensiosimo que lhe é imputado, quando é interpelado na rua por dois fãs, em vez de papparazis esfomeados de escândalos.
O maior.

Voltando à música.
A vontade de Liam mudar o paradigma dos Beady Eye é evidente. Para isso, recrutou o produtor David Sitek, que também já classificou o álbum de "trippy". É música para os meus ouvidos.

Sitek também elogiou a voz de Liam Gallagher e a sua facilidade em cantar, referindo que "basta ligar o microfone e pronto! Não é preciso processar a faixa vocal de maneira nenhuma, aquilo soa como um disco".
Percebem agora a diferença entre um cantor a sério e os "artistas" que precisam de passar a sua voz por filtros, auto-tunes e vocoders, para gravarem um disco? Ouçam aqui a faixa vocal de Liam. Poderoso.

Por seu lado, Liam também elogiou Sitek, afirmando que ele é "o melhor produtor com quem já trabalhei, um verdadeiro fora-da-lei!". Acrescentando que o álbum "não tem nenhuma das tretas dos 90's", curiosamente a época dourada de Liam nos Oasis. Liam quer mesmo um corte com o passado.

De facto, "Flick Of The Finger" é diferente. E é diferente, em bom.
O tema rejeita a estrutura corrente dos temas dos Oasis, não tendo um refrão que possamos entoar de peito cheio e braço de volta do nosso melhor amigo. Em vez disso, os Beady Eye foram buscar uma recitação radiofónica de um revolucionário francês do Século XVIII, para rematar o tema:
"Don't be deceived when our revolution has been finally stamped out and they pat you eternally on the shoulder and say that there's no inequality worth speaking of and no more reason for fighting.
Because, if you believe them, they will be completely in charge, in their marble homes and granite banks, from which they rob the people of the world, under the pretense of bringing them culture.
WATCH OUT, for as soon as it pleases them, they'll send you out to protect their gold in wars whose weapons, rapidly developed by servile scientists, will become more and more deadly... until they can, with a FLICK OF THE FINGER, tear a million of you to pieces."
Jean-Paul Marat (filósofo, jornalista, político e cientista do Século XVIII)

Brutal. "Flick Of The Finger" está a tocar aqui em repeat há 3 dias e ainda não me cansei.
Venha de lá esse "BE".

terça-feira, 26 de março de 2013

Tears For Fears - "The Hurting"

"Is it an horrific dream? Am I sinking fast?"


Um rapaz descalço, a chorar, no vazio. Foi assim que os Tears For Fears se deram a conhecer ao Mundo em 1983:


"Could you understand a child, when he cries in pain?"

É esta a capa de "The Hurting", o 1º álbum dos Tears For Fears. Uma imagem que assenta na perfeição ao nome da banda (Tears For Fears - lágrimas para medos), ao título do álbum ("The Hurting" - a mágoa) e, mais que tudo, ao conteúdo do álbum.

"The Hurting" é um dos álbuns mais depressivos que já ouvi. Corrijo: é o álbum mais maravilhosamente depressivo que já ouvi. É um mergulho na escuridão da psique de 2 recém-adultos (tanto Roland Orzabal como Curt Smith tinham 21 anos, à data de lançamento de "The Hurting"), a carpir mágoas de infâncias dolorosas.

Roland e Curt inspiraram-se largamente na terapia de Arthur Janov (psicólogo/psicoterapeuta), cujo livro "The Primal Scream" ("A terapia primal") deu, inclusivamente, o nome à banda. Em "The Primal Scream", Janov defende que os traumas de infância deveriam ser tratados, incitando o paciente a expressar, sentir, e relembrar as dores outrora reprimidas.
O álbum "The Hurting" é isto. Terapia primal, em música.

"Learn to cry like a baby, then the hurting won't come back"

A componente da psicologia e a influência de Arthur Janov é tão forte e tão ampla por todo o álbum, que "The Hurting" aproxima-se do modelo clássico do "álbum conceptual". Neste caso, um álbum conceptual sobre depressão.

A roupa que veste este difícil conceito é sui generis. Em vez dos trejeitos góticos, mais apoiados no Rock, do Post-Punk / Urbano-depressivo em voga na altura (para as bandas que abordavam estas temáticas), os Tears For Fears preferiram experimentar com os sintetizadores, numa produção mais New Wave.

Mas estabeleça-se agora um paralelismo entre "The Hurting" e, por exemplo, o que faziam os Duran Duran ou os Simple Minds, duas bandas referência do New Wave na época, no UK. Em ambos casos, este tipo de produção é utilizada para conferir um estilo atraente e upbeat. Já em "The Hurting", os sintetizadores são aplicados para sugerir ao ouvinte uma ambiente de drama e angústia. E nem assim deixa de ser lindíssimo, nem assim deixa de dar prazer ao ouvinte.

Ouçam "The Hurting" e experimentem mergulhar na sua essência. Prestem atenção às letras e aos arranjos sonoros, numa rara simbiose entre a electrónica e a guitarra acústica. É um álbum maravilhosamente depressivo.

"Could you see my pain? Could you please explain the hurting?"

"The Hurting" fez este mês 30 anos. Para comemorar a data, os Tears For Fears lançaram (finalmente!) o seu website e a sua página no Facebook, onde deixaram o seguinte anúncio:

"Thanks for an amazing 30 years. This year is gonna be a big one. Get ready!"
Curt Smith e Roland Orzabal


O que é que Curt e Roland querem dizer com isto? Não faço a mínima ideia. Uma coisa parece certa: terá algo a ver com "The Hurting".
Será uma digressão mundial para relembrar o álbum de 1983? Ou será uma edição especial, daquelas que eu adoro, cheia de extras e coisas boas, para comemorar a data?

O excelente site The Second Disc já fez uma previsão do que poderia sair numa edição especial de "The Hurting". Eu pego na sugestão do site, mas se é para pedir, eu vou mais longe:

Tears For Fears - "The Hurting [30th Anniversary Edition]" (2013)

Disco 1: Álbum original (1983) + Lados B
1. "The Hurting" (4:20)
2. "Mad World" (3:55)
3. "Pale Shelter" (4:34)
4. "Ideas As Opiates" (3:46)
5. "Memories Fade" (5:08)
6. "Suffer the Children" (3:53)
7. "Watch Me Bleed" (4:18)
8. "Change" (4:15)
9. "The Prisoner" (2:55)
10. "Start of the Breakdown" (5:00)
11. "Wino" [Lado B de “Suffer the Children”] (2:17)
12. "Saxophones As Opiates" [Lado B de “Mad World”] (3:54)
13. "The Conflict" [Lado B de “Change”] (4:02)
14. "We Are Broken" [Lado B de  "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love)"] (4:03)

Disco 2: Singles (1981-1983)
1. "Suffer the Children" [Single Version] (3:36)
2. "Change (New Version)" (4:33)
3. "Suffer the Children [Remix]" (4:15)
4. "Suffer the Children [Instrumental]" (4:26)
5. "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love)" [Single Version] (3:55)
6. "The Prisoner [Single Version]" (2:40)
7. "Pale Shelter (You Don’t Give Me Love) [Extended Version]"  (6:25)
8. "Change [Extended Version]" (5:54)
9. "Mad World [World Remix]" [Lado B de  "Pale Shelter"] (3:30)
10. "Ideas As Opiates [Single Version]" [Lado B de  "Pale Shelter"] (3:54)
11. "Pale Shelter [New Extended Version]" (6:41)
12. "Change [Live in Oxford]" (4:36)
13. "Start of the Breakdown [Live in Oxford]" (5:53)
14. "The Way You Are [Extended Version]" (7:33)

Disco 3: Live
"BBC In Concert":
1. "Memories Fade" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (6:01)
2. "The Way You Are" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (5:21)
3. "Suffer the Children" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (4:53)
4. "Pale Shelter" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (6:47)
5. "Ideas As Opiates" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (3:46)
6. "Mad World" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (3:42)
7. "Watch Me Bleed" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (4:14)
8. "Change" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (4:43)
9. "Start of the Breakdown" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (6:28)
10. "The Hurting" [BBC In Concert - Live at Hammersmith Palais] (4:09)
Kid Jensen Sessions:
11. "Start Of The Breakdown" [Jensen Session] (3:45)
12. "The Hurting" [Jensen Session] (3:47)
13. "Memories Fade" [Jensen Session] (4:21)
John Peel Sessions:
14. "Ideas As Opiates" [14/08/1982 Peel Session] (3:51)
15. "The Hurting" [14/08/1982 Peel Session] (3:51)
16. "Suffer The Children" [14/08/1982 Peel Session] (4:00)
17. "The Prisoner" [14/08/1982 Peel Session]

Disco 4: DVD - "In My Mind’s Eye" + Videoclips
"In My Mind's Eye":
1. "Start of the Breakdown"
2. "Mothers Talk"
3. "Pale Shelter"
4. "The Working Hour"
5. "The Prisoner"
6. "Ideas As Opiates"
7. "Mad World"
8. "We Are Broken"
9. "Head Over Heels"
10. "Suffer the Children"
11. "The Hurting"
12. "Memories Fade"
13. "Change"
Videoclips:
1. "Mad World"
2. "Change"
3. "Pale Shelter"
4. "Mad World" (Top of the Pops, 1982)
5. "Pale Shelter" (Top of the Pops, 1983)
Disco 5: DVD - Rockpalast (Sartory-Säle Köln 12.05.1983)
1. "Memories Fade"
2. "The Way You Are"
3. "Suffer the Children"
4. "Pale Shelter"
5. "The Prisoner"
6. "Ideas As Opiates"
7. "The Hurting"
8. "Mad World"
9. "Watch Me Bleed"
10. "Change"
11. "Start of the Breakdown"
12. "Mad World"
13. "Pale Shelter"

Sonhar não custa, pois não?

segunda-feira, 25 de março de 2013

Blur - "Tender"

"Love's the greatest thing that we have"


"I hate that Alex [James] and Damon [Albarn]. I hope they catch AIDS and die."
Noel Gallagher - guitarrista dos Oasis, em entrevista para o The Observer (1995)


"I can't make up with Noel. Britpop would be over!"
Damon Albarn - vocalista dos Blur (2007)

O dia em que a Britpop morreu? Foi no último Sábado, 23 de Março de 2013, que se enterrou definitivamente o machado entre os Oasis e os Blur, em pleno Royal Albert Hall - sala emblemática de Londres, cidade onde a rivalidade entre as bandas foi alimentada nos últimos 20 anos, dentro das redacções da NME e outras publicações musicais do género.

A rivalidade entre os Oasis e os Blur está já bem documentada (inclusivamente aqui no blog), atingindo o seu pináculo em Agosto de 1995, com a "Batalha do Britpop". Acusações e insultos foram trocados; jornais, revistas e muitos, muitos discos foram vendidos. Milhões deles. O fenómeno foi brilhantemente capitalizado pela "indústria" discográfica britânica e a febre foi transmitida para (quase) todo o Mundo. (menos os EUA, que estavam ainda a levar com doses industriais de Grunge e depois passaram directamente para o fenómeno das Boysband / Girlsband dos late 90's e assim saltaram o melhor dos anos 90... o Britpop)

A relação entre Damon e Noel foi amenizando com os anos e terá sido alegadamente sanada depois de um encontro fortuito num bar, onde terão trocado piadas sobre o fenómeno que os juntou e terão chegado à conclusão de que o que os une é muito maior do que os separa.

A reconcialiação não foi fácil, principalmente para Damon Albarn, a parte mais negativamente afectada com o confronto. Veja-se o desconforto de Damon no documentário "Live Forever", de 2003, a falar sobre a rivalidade com os Oasis e sobre as diferenças sociais que ambas as bandas representavam (Classe operária - Oasis / classe média - Blur).

Em 2007, apesar das reticências de Damon relativamente a uma reconciliação (leia-se a citação no início do texto), Noel já mostrava um discurso substancialmente diferente dos anos 90:
"I've got a lot of respect for Damon, I really do mean it. Because I'm indifferent to Damon, he thinks that I think he's a cunt.
Our Liam will talk to him, I won't because he's just another singer in a band to me, but I don't think he's a cunt.
Good luck to him!"
Noel Gallagher, em entrevista para a NME (2007)

A parte em que Liam Gallagher (vocalista dos Oasis e irmão de Noel) iria falar com Damon Albarn para fumar o cachimbo da paz é obviamente fantasiosa (quiçá sarcástica...), mas a intenção parecia estar lá.

Foi assim em estado de (meio) choque que Noel deixou o Mundo, quando em Dezembro anunciou a presença de Damon Albarn e Graham Coxon (vocalista e guitarrista dos Blur, respectivamente) no evento promovido pelo próprio: o Teenage Cancer Trust 2013. Recorde-se que a actuação de Noel nesse evento, em 2007, fora documentada no álbum "The Dreams We Have As Children - Live At The Royal Albert Hall", lançado em 2009.
Mais do que anunciar a presença de Damon e Graham, Noel chocou o Mundo ao revelar que tencionava tocar com eles e que até já aprendera "Tender", tema que tocava em casa.



"They’ll be playing Blur songs, I would think. I’ll be playing mine. Will we share the stage together? I hope so. I’m up for it. It’s always good to have a little jam.


10 years ago, who’d have thought it?"
Noel Gallagher, em promoção do Teenage Cancer Trust 2013 (2012)

De facto, há 10 anos atrás, quem ousaria pensar tal coisa?
Mais em choque ficou o Mundo, quando viu os 2 históricos arqui-rivais abraçados na cerimónia dos Brit Awards 2012, no mês passado. Depois de partilhar uma mesa com Damon, Noel revelou o seu desencanto pela falta de bandas Rock no evento (sentimento que terá aproximado ainda mais ambas as partes), adiantando que até poderiam tocar juntos na cerimónia do próximo ano.


"Tender is the day the demons go away"
O momento por que todos esperavam chegou no Sábado passado.
Noel Gallagher, Damon Albarn, Graham Coxon e Paul Weller (outra lenda da música britânica, de bandas como The Jam, conhecido como "The Modfather") juntaram-se em palco e tocaram "Tender" dos Blur, enterrando, em público, de uma vez por todas, o machado da Britpop.
Vejam com os vossos próprios olhos, porque palavras não chegariam para descrever isto:



O machado estava finalmente enterrado. Alívio é o que se vê nas caras de Damon, Noel e Graham.

A escolha do tema foi perfeita. À falta de Liam para cantar um tema dos Oasis, a escolha deveria cair num tema dos Blur. E qual é o tema dos Blur que melhor materializa a alegria da amizade, do amor e, no caso, da reconciliação? "Tender", pois claro. O tal tema que Noel até já tocava em casa.
Na minha opinião, a melhor alternativa seria "Don't Look Back In Anger" dos Oasis, originalmente cantada por Noel e cujo título assenta que nem uma luva à ocasião. Mas nem esse tema teria o impacto do Gospel de "Tender".



"Tender" é o grande sing-along dos Blur. Historicamente, é o tema da reconciliação. Senão vejamos:
Em 1999, "Tender" foi o tema que reconciliou Graham e Damon, na altura em clivagem criativa, na composição do tema mais ecuménico da banda, incluído no álbum "13".
Aquando da reunião dos Blur em 2009, "Tender" foi o tema que pôs Glastonbury a cantar a plenos pulmões a parte escrita por Graham ("Oh my baby, oh my baby! Oh why! Oh my!"), naquele que foi o momento de reconciliação definitiva entre os Blur e entre os Blur e a sua audiência.
Reconciliação, portanto. Aqui:




Nota importante: Na guerra entre os Oasis e os Blur, eu sempre favoreci os Oasis.
Não porque fossem a banda da classe operária, mas porque em adolescente me identificava mais com a sua música e com a sua atitude. Para um adolescente , cantar "Tonaaaaaaaaiiiiiiiiiite I'm rock n' roll star!!!" ("Rock N' Roll Star" dos Oasis) fazia mais sentido do que "Girls who want boys, who like boys, to be girls..." ("Girls And Boys", dos Blur). Foram duas bandas que me marcaram, mas a marca dos Oasis foi muito mais carregada.
Mas o que é que isto interessa? Será que estive pelos Oasis e a favor da dissolução dos Blur, na "Batalha do Britpop"? Obviamente que não. Arrisco dizer que hoje em dia, ninguém está. Quem gosta de um, normalmente gosta do outro.
A excepção é obviamente feita a... Liam Gallagher.
Liam já reagiu à reunião do irmão com os membros dos Blur e, como se esperaria, não se mostrou muito contente:
"Don’t know what’s worse RKID [Noel Gallagher] sipping champagne with a war criminal or them backing vocals you’ve just done for BLUE!"
Liam Gallagher, no Twitter (25 de Março de 2013)

...sendo que "BLUE" é obviamente uma dupla referência aos Blur e à Boysband britânica Blue, com o intuito de rebaixar os Blur. O que dizer? Liam Gallagher no seu melhor.

Será que a Britpop morreu mesmo? Não sei, mas se morreu, de certeza que não foi com este episódio.
Infelizmente, o movimento musical mais profícuo dos últimos 20 anos parece já estar morto há muito tempo.
Quanto muito, o histórico evento de Sábado serviu para lembrar as pessoas que, nos anos 90, surgiram no Reino Unido duas bandas que fizeram música que preencheu a vida de milhões de pessoas (eu incluído). E quem sabe, fizeram ver essas pessoas que o ódio deve ser dissolvido e como é dito em "Tender":
"Love's the greatest thing that we have"

Edit: Adicionado um vídeo pro-shot da actuação, cortesia do The Sun e uma reportagem do evento: