"Leaving is a better way to find my way home to your smile"
Adeus, David Gilmour (outra vez)
Esta é mesmo a última vez, agora é que é, a sério
Estive no primeiro (Pula), no segundo (Verona) e no terceiro (Firenze). Depois fui ao primeiro americano (Hollywood #1) e ao segundo americano (Hollywood #2). Depois presenciei o mais importante de todos (Pompeii) na primeira fila e prometi que seria o último. Menti.
Sou de impulsos, é certo. Mas isto é mais do que só um impulso. Sabem quando se vêem subjugados pelo peso da vida e sentem que têm que fazer alguma coisa? Pois, nessas situações, eu tenho duas coisas que nunca falham: Londres e David Gilmour. Quando as duas se juntam e cai no colo a oportunidade de ficar num lugar de luxo, numa sala lendária, numa ocasião irrepetível (the very last date of the tour), numa altura em que é exactamente disto que eu preciso, como recusar?
Chocada com a notícia, a minha mãe já me perguntou por que eu não me caso com o David Gilmour. Eu disse-lhe que apesar do amor não escolher idades, até ele é demasiado velhinho para mim. Bem sei que lhe disse adeus em Pompeia, mas depois de ter estado em todos os concertos importantes da Rattle That Lock Tour, não podia faltar ao último dos últimos. É um fecho de ciclo perfeito.
Agora sim, pela última vez, adeus David Gilmour. E obrigado por tudo. I love you.
P.S.: Para celebrar este momento, fiquem com "Smile" que, qual coincidência, acabei de encontrar, imaginem, numa mixtape velhinha.
P.P.S.: A minha mãe já está descansada. Depois de dizer que ia a Londres, disse-lhe que a escolha era isto, ou apanhar um avião para Denver (🎶é um dinossauro🎶) e ver os Tears For Fears em Red Rocks. Ficou logo mais aliviada.
"I took a heavenly ride through our silence, I knew the moment had arrived for killing the past and coming back to life"
Rattle That Broken Fout Tour Journal
Tomo IV - Siga para Florença
Toda a vida ouvi maravilhas de Florença. Quando era pequeno, foi para lá o Rui Costa - o meu primeiro ídolo do futebol - e fiquei com o sonho de vestir aquela bela camisola patrocinada pela Nintendo. Não a vesti.
Falaram-me dos jardins (ao crescer em Castelo Branco, ouvia que o Jardim do Paço era uma miniatura dos alegadamente magníficos jardins de Florença). Não fui lá.
Falaram-me das praças, das catedrais, dos museus, das estátuas, da Galleria degli Uffizi, do Batistério de São João, da Ponte Vecchio. Tudo coisas que eu não vi, lugares onde eu não estive.
Falaram-me que ia ser uma viagem mágica, que Florença ia ficar comigo para sempre. Isso, vai. Porque a minha viagem a Florença não teve nada do que me falaram, mas teve mais um concerto de David Gilmour. O terceiro.
Chegado à estação de Santa Maria Novella, sigo directamente para o Ippodromo del Visarno.
Junto ao hipódromo, quase a bater nas seis da tarde, ouço sons de instrumentos vindos do palco. Estão a fazer o soundcheck! Começam com alguns temas do novo álbum. Nesta altura, dois concertos e outros tantos soundchecks depois, os temas já não constituem grande novidade. Até aqui, a setlist dos concertos fora sempre a mesma e não esperava grandes alterações para esta noite. Mas fico por ali. Para quê ver as maravilhas de Florença quando se tem a maior das maravilhas sonoras mesmo ao pé de nós?
Ouve-se um som grave. "É a introdução de "Sorrow"", penso. Confirma-se: David pratica o choro da sua Stratocaster. Ainda não ficou bem no "ponto", mas está quase.
Pausa.
Conversa-se no palco. Volta a ouvir-se o mesmo som grave. toum-toum... tãe-tãe... "Coming Back To Life"!!! Quatro notas chegam para identificar novo elixir da alma retirado de "The Division Bell". É a novidade da noite, espero.
Na foto não dá para ver, mas por trás daquelas árvores vem o som de "Coming Back To Life".
Ao contrário do concerto de Verona, em Florença há lugares marcados, por isso a entrada é feita de forma ordeira e lá dentro, salvo alguns grupos demasiado entusiastas, está um ambiente relativamente pacífico. Pelo menos até eu ter a brilhante ideia de comprar um Tour Program. Vendo o motim à frente da barraca do merchandising, hesito. Mas "estou de canadianas", penso. "O que é que pode correr mal?". Mal sabia eu.
Aproximo-me da multidão junto ao merch e não passa muito tempo até que se dê início ao empurranço... Que poucos minutos depois, dá lugar ao esmagamento. Canadianas? Who cares? Os italianos de certeza que não. Ao meu lado está um senhor com os seus 50 anos, aspecto fino de latifundiário da Toscana, que me põe a mão na cara e me empurra para trás para ganhar posição, num gesto que na grande área daria lugar a penalty. Siga para bingo.
O concerto (o terceiro) foi, musicalmente, o melhor de todos. Depois da insegurança de Pula e da tensão de Verona, em Florença, a banda já estava coordenada e saiu tudo quase ao milímetro. E tivemos, claro, a grande novidade: "Coming Back To Life". Faltou a mística das arenas romanas, a virgindade de Pula e a electricidade de Verona. Lados diferentes das mesmas moedas. Florença foi mais polido, mas também mais previsível.
Fiquem com "High Hopes":
David Gilmour - "High Hopes" live at Ippodromo del Visarno, Firenze
No fim do terceiro concerto em apenas quatro dias, já estava habituado a isto. Tirar-me esse hábito foi como se me privassem da minha heroína (não que eu já tenha passado por essa experiência, ok Mãe? Eu sei que lês isto), mas já não dava mesmo para seguir David para Orange, demasiado fora de mão. A Oberhausen, foi o "Miguel" (esse mesmo) e a Londres, só se fosse doido, tendo em conta os preços dos bilhetes para o Royal Albert Hall. Era preferível ir aos EUA, ao outro lado do Mundo, na légua de 2016 da digressão, do que ir a Londres. Por isso, olhem, vou mesmo (por esta é que não estavas à espera, não é Mãe?).
Em 2016, lá estarei em Los Angeles, no histórico Hollywood Bowl, casa de noites lendárias de Beatles, Elton John e tantos outros, para mais duas doses de David (com possibilidade de uma terceira, no Forum de Inglewood). Siga para bingo.
Tomo III - Gilmour e Gladiadores no Arena di Verona
As lutas de gladiadores que animavam o Império Romano tinham quatro desfechos possíveis para os intervenientes: ou ganhavam; ou perdiam e morriam em combate; ou perdiam e o público ordenava-lhes a morte apontando o polegar para baixo; ou perdiam e o público poupava-os por bravura ou misericórdia. De todos os desfechos, o quarto era o mais raro. Ao sentar-me nas bancadas de pedra do Arena di Verona para um espectáculo expectavelmente menos sanguinário, percebi porquê.
O concerto de David Gilmour no Arena di Verona foi uma experiência surreal, para contar aos filhos e netos. Foi um regresso aos tempos de glória do Império, das lutas de gladiadores, quando havia uma contagem de baixas do público no fim do espectáculo. Muito álcool, muita droga à minha volta e nem sequer faltou a cena de porrada para animar. Surreal, mesmo.
Mas comecemos pelo início. Sair de Pula a um Domingo (o concerto fora no Sábado) e chegar a Verona para o segundo concerto não foi fácil. Desde logo porque não havia transportes. Autocarros para o estrangeiro, ao Domingo, nem vê-los. Aviões, só acima dos 1 000€. A alternativa eram os barcos. Mas como estávamos em Setembro — época baixa — só havia um ferry a sair da Croácia para Veneza nesse dia e era em Porec, a quase 100 kms de Pula. Ah e era às 7 da manhã. A minha única hipótese era assim apanhar um autocarro que saía de Pula às 5 da manhã e rezar para que ele não se atrasasse.
Bem dito, bem feito: o autocarro chega a Pula às 5:30 da manhã. meia hora de atraso. Foda-se. Furioso, dirijo-me ao condutor, explicando-lhe que preciso de estar em Porec às 7:00, misturando discurso em inglês com vernáculo em português. Imaginem um "I need to be there at seven, caralho!", à boa tradição benfiquista do Toni no Irão.
Talvez motivado pelo vernáculo que ele não entendia, o condutor arranca numa corrida desenfreada rumo a Porec, tirando vantagem do parco trânsito matutino, mas numa velocidade claramente desaconselhada para a segurança do veículo e dos seus ocupantes. Pouco antes da paragem em Rovinj... PA-PAUM!! ...o autocarro tropeça num buraco que deixa a suspensão num perceptível mau estado. Resultado: paramos em Rovinj, esvazia-se o autocarro e espera-se pelo seguinte. O tempo que o condutor recuperou no caminho, esfuma-se novamente. Mas ele tranquiliza-me que chegaremos a Porec a tempo, mesmo contra as leis da Matemática e do Google Maps, com o ar assustadoramente assertivo de quem relativiza as regras de trânsito. Mas chegamos mesmo: às 6:55, estou a Porec... para descobrir que o ferry vinha uma hora atrasado.
Chegado a Veneza, regresso à Praça de São Marcos para recordar o concerto que me introduziu aos Pink Floyd aos 5 anos. Mas não sem antes virar um pequeno almoço à campeão: uma caneca de litro.
Sigo para Verona. Segundo concerto do David Gilmour e logo num dos recintos que sempre quis visitar: a Arena di Verona, onde os Simple Minds gravaram um vídeo histórico nos late 80s. Depois da Arena de Pula, é mais um concerto num anfiteatro romano.
Fast-forward para o concerto. À chegada à Arena di Verona, não há lugar para me sentar. Ou o tráfico de bilhetes esteve ao rubro, ou os italianos venderam mais um terço da capacidade da Arena, na esperança que "cabe sempre mais um". Ando eu de canadianas, a mancar exageradamente para chamar a pena de algum bom samaritano, mas ninguém se oferece sequer para se desviar um bocadinho (não há cadeiras, o cu ia mesmo na pedra). É cada um por si. Depois lá me consigo sentar numas escadas onde nem sequer posso ver o David, que está tapado pelas colunas. É como os lugares da ACAPO no estádio do Alvalade. Isto está bonito.
Penso em protestar, mas como? Não há ninguém indignado com a organização, todos agem como se fosse tudo normal. E protestar com quem? Seguranças? Stewards? Nem vê-los. Se houvesse problemas à séria, isto era um festival de pancadaria à antiga, com corpos a rebolar pelas bancadas de pedra até lá abaixo e cânticos em latim de sacrifícios divinos, como nos bons velhos tempos do Império. Há uma equipa da cruz vermelha, sim. Mas passam o concerto a filmar o palco, sentadinhos em lugares de honra. Maravilha.
O que não falta são tipos a vender cerveja. É vê-los a subir aquelas bancadas de pedra íngremes sem qualquer protecção ou preocupação. Não pode faltar cerveja com fartura, para satisfazer este público dos gladiadores, que bebe como se a bexiga não tivesse limite.
Se nas bancadas há gente a mais, lá à frente não há gente nenhuma. Ou as primeiras filas faltaram ou o David tem medo destes italianos, porque nunca vi um espaço tão grande entre a primeira fila e o palco.
Neste cenário reminiscente do Século I, penso que só falta mesmo uma boa cena da pancada. E ela aí está! Mesmo na minha fila. O que vale é que a porrada se dá entre um tipo que é um cruzamento entre o Totti e o Michael Scofield e um que parece o Fernando Mendes do Preço Certo em Euros. O Fernando Mendes viu à partida que não tinha grande hipótese, mas ainda assim levou três tabefes de mão fechada, mesmo ao lado da mulher e dos filhos. Não contente, o Totti Scofield ainda lhe arrancou os óculos, atirou-os para o chão e pisou-os repetidamente. Só visto.
Dito isto, por mais incrível que pareça, Verona foi uma experiência interessante. O concerto perdeu obviamente para Pula, mas só porque depois de chegar ao Olimpo, só se pode descer. A performance da banda até foi melhor: David já não borrou a pintura tantas vezes (só o solo de "The Blue" é que foi destruído pela distorção nos agudos) e até tivemos um "Comfortably Numb" para a história. Mas as distracções à minha volta eram tantas, que o espectáculo no palco era apenas um dos factores de interesse.
Mais que interessante, Verona foi uma experiência surreal. A Arena é uma sala de espectáculos lindíssima, um anfiteatro romano clinicamente preservado, que nos leva até aos tempos dos gladiadores. Não há guardas, não há cadeiras, não há protecções, nada. É tudo como dantes. E se mais alguma coisa faltasse, a negligência da organização e do público transporta-nos até à época do Império. É uma viagem no tempo, como se Caligula ainda ditasse leis na Lusitânia.
Se alguém disse que o Rock está morto, tem que vir a Itália. Onde haviam combates de gladiadores, há hoje concertos Rock. A sede de sangue é a mesma.
Conta o Novo Testamento que quando os Fariseus conheceram Jesus, não ficaram muito impressionados. Os Fariseus sabiam de estórias de um Rei cujo reino "não fazia parte deste mundo", um Rei dos Reis, mas quando lhes apareceu, Jesus era "apenas" um homem mal vestido que falava de maneira diferente. "O quê? É isto?! É este gajo? Este gajo está vestido pior que nós!", terão protestado os Fariseus, num qualquer dialecto hebraico.
Quando eu tive o David Gilmour à distância da minha canadiana na Arena de Pula, por três ocasiões diferentes, lembrei-me deste episódio bíblico. Durante toda a minha vida, tive Gilmour como um ser divino, criador de sons que me definiram, autor de obras que engrandeceram a minha existência, um ser perfeito. Mas agora, este ser divino estava ali, tão perto de mim, mais perto do que eu poderia imaginar quando aos 5 anos de idade, o meu Pai me submetia repetidamente ao concerto de Veneza até eu decorar a arquitectura da Praça de São Marcos. Pude-lhe ver as rugas, o medo de ser engolido pela multidão, a insegurança de quem já não tocava ao vivo há 10 anos, a preocupação de quem pelejava para que nada falhasse, o ar frágil de quem borrou a pintura numa série de solos e o alívio de quem chegou ao fim da primeira noite deixando tudo o que podia em palco. Vi tudo como um qualquer Fariseu que teve o acaso de se cruzar com aquele a quem chamavam o Rei dos Reis.
E assim pude ver que David Gilmour é "apenas" um homem vestido com uma t-shirt preta. Um homem com fragilidades, medos e dúvidas. David é, afinal, humano.
Mas vamos ao princípio. Recuemos 24 horas.
Chego a Pula no dia anterior ao concerto e vou directo para a Arena. Estão a montar o palco e pasme-se, as visitas turísticas ainda estão abertas!
Entro.
WOWOWOW!!! O que é isto? Caixas dos Pink Floyd?!
Ando no meio do equipamento do David Gilmour, a maioria ainda remonta aos tempos dos Pink Floyd. Quase todas as caixas têm a inscrição PINK FLOYD WORLD TOUR. Nem acredito que me deixam andar ali.
Depois de uma hora estarrecido em frente ao equipamento com um estranho sentimento de "foda-se, estou mesmo aqui", dou uma volta ao recinto e deparo-me com o camarim de David Gilmour. Amanhã à noite estará ocupado.
Ao fim da tarde, enquanto virava canecas de cerveja croata num bar com vista panorâmica para a Arena (a foto fala por si) e trocava histórias de vidas Floydianas com um fã turco, David aparece para o soundcheck. Sem mais, começa a despejar temas do novo álbum, um depois do outro, seis no total, quatro deles ouço pela primeiríssima vez (só conhecia "Today" e Rattle That Lock"). Incrível, um concerto de borla! Dois destes temas conquistam-me desde logo, com solos directamente saídos do Olimpo (saberia mais tarde que dão pelo nome de "Faces Of Stone" e "In Any Tongue". Ouçam este último no vídeo em cima, é uma bomba.).
Depois vem "Wish You Were Here". Esta todos conhecem, é vê-los de telemóvel em punho, a gravar o momento. Cena normal nos nossos dias. Mas David ainda tem mais uma na manga. Pam... Pam... Pam... Pam... "High Hopes"! A minha reacção neste momento não deveria ser descrita aqui, sob pena de perder a imagem máscula perante as meninas. Mas que se foda. Mal ouvi o sino, desatei a chorar descontroladamente, cara escondida no braço da canadiana. "High Hopes" é a minha música, o meu elixir. Naquele momento, tudo valera a pena. O pé partido, o risco da viagem solitária para a Croácia, o frio que rapei em Zagreb, tudo fora compensado. O sentimento era um misto de deslumbramento e de "o que raio está a acontecer?!".
Para quem não acredita, o próprio David partilhou no Youtube um vídeo do ambiente na esplanada com vista para a Arena.
À saída da Arena, a carrinha que levava David e a sua mulher Polly Samson passa mesmo à minha frente. Primeiro contacto. Estive a uma janela de David! Comigo, carregava um LP do meu álbum preferido ("The Division Bell", para quem não sabe) na esperança que David pudesse parar para assinar. Nos olhos dele, o medo de ser engolido pela multidão. Já visualizava a capa do melhor álbum de todos os tempos assinada, mas havia muita gente. Não é desta.
Ainda assim, levo uma recordação da minha visita à Arena de Pula. É o que dá deixarem os fãs andarem pelo backstage antes dos concertos. Agora quero ver como é que a banda se orienta para fazer chichi durante o solo de 10 minutos do "Comfortably Numb".
Dia de concerto. Porra, já não era sem tempo, a expectativa já estava a dar cabo de mim. Na camarata do hostel, acumulam-se rapazes de todo o mundo, ali de propósito para o concerto: um uruguaio, um argentino, um russo, um espanhol, um inglês e um português. Nações Unidas Floydianas. Com todos abaixo dos 25 anos, sou o mais velho ali. Conto histórias do meu concerto em Paris de 2006, do Roger Waters em Wembley e ganho logo a admiração da plateia. Fossem todas as plateias assim tão fáceis. À tarde, aproveito para um mergulho no Adriático de canadianas, para espanto dos transeuntes na praia. O mergulho de canadianas até foi fácil, a grande aventura foi chegar ao mar. Falaram-me maravilhas das praias na Croácia, mas esqueceram-se de me avisar que as praias eram de calhaus, óptimas para um pé partido. Adiante.
Hora do concerto. Já conhecendo os cantos à casa, finto a segurança e consigo entrar com uma garrafa de Jameson. Ouvir Pink Floyd sóbrio também é fixe, é verdade, mas para que é que eu haveria de fazer uma coisa dessas?
Vou directo com o meu LP para junto do camarim do David. Poucos minutos depois, aí está ele. David sai do camarim. Segundo contacto. "DAAAAVID!", grito em súplica. David vira-se e vem na minha direção. Quase a chegar, a um metro apenas, David repara que naqueles parcos segundos se haviam juntado dezenas atrás de mim. David pára. Vira-se. Vai-se embora. "FODA-SE! Estive tão TÃO perto! FODA-SE!", gritei num português que pareceu aos demais um qualquer dialecto hebraico. Ainda não é desta.
Procuro o meu lugar. Que maravilha: segunda fila, ainda a inspirar o fumo saído do palco. E logo chega David. Com todas as rugas à minha frente, juntando o ar frágil de um homem de 69 anos, com a robustez de quem teve que aturar o Roger Waters durante quase duas décadas. Terceiro contacto.
Porque o som e as imagens são, como sabemos, louder than words, deixo-vos com alguns dos momentos em Pula (desculpem-me, não consegui carregar os vídeos do Facebook aqui. Se me puderem ajudar, agradecia).
Pula foi especial. Não sabia nada da setlist e tinha feito um aviso de excomunhão a quem ousasse quebrar-me esse segredo. Mesmo assim, a setlist foi mais ou menos aquilo que eu estava à espera. Mas quando David arrancou com o BRRRRRUMMMM de "Sorrow", saltei da cadeira, num grito que deve ter sido audível no outro lado do Adriático (na verdade são dois gritos e são bem audíveis no vídeo em cima). Foi o meu momento da noite.
O concerto não foi perfeito, mas foi memorável. O David fartou-se de meter água, mas foi humano. Pula foi especial porque estive mesmo ali, ao pé de David, vi que ele é "apenas" um homem. E passei a amá-lo ainda mais por isso. Porque David Gilmour não é um homem qualquer, é um homem que cria coisas divinas.
Fui à Croácia e à Itália à caça de momentos. Este foi o primeiro.
O início da história desta viagem remonta a Março. Não, pensando melhor, o primeiro prólogo remonta a 2006. Foi a 15 de Março desse ano que eu vi David Gilmour e Richard Wright ao vivo no Grand Rex, em Paris. Foi a melhor noite da minha vida. Foi uma noite para a eternidade, com "Echoes", "High Hopes", "Time" e "Comfortably Numb" a duas vozes, num lugar mágico e em circunstâncias irrepetíveis. Mas o que é vida, se não a perseguição de um momento irrepetível? Foi por isso sem grandes dúvidas que, quando David Gilmour anunciou em Março a sua primeira digressão desde 2006 (segundo prólogo), eu comprei o número máximo de bilhetes possível. No total, três concertos em quatro dias: Pula na Croácia e Verona e Florença em Itália. Venham de lá esses momentos.
O terceiro prólogo desta história aconteceria em Julho, no concerto dos The Prodigy no Alive. Olvidando a minha idade, dissolvi-me num mosh pit cheio de miúdos com mais horas de ginásio que de livros e que, se eu fosse de outra etnia, já podiam ser meus filhos. Ao segundo tema, um destes jovens caiu em cima de mim e partiu-me o pé. "Ainda faltam dois meses para a Croácia", pensei eu. Os médicos profetizaram uma recuperação rápida que nunca se deu, mediante um descanso que nunca houve. E assim chego à semana da viagem em pânico, ainda a precisar de canadianas como o Dr. House precisa da sua muleta.
Vou ao médico. De certeza que o optimismo que ele demonstrou no passado me vai validar a viagem. "E então doutor, acha que que estou em condições de fazer esta viagem?", pergunto. "Não.", responde ele secamente. "Pode e deve ir de férias, para descansar; mas se a sua ideia de férias é cruzar a região do Adriático em 10 dias, o meu aviso é que não o faça. Se quiser, passo-lhe os papéis para as companhias aéreas". "O doutor não está a perceber. Fazer a viagem não está em causa." "Então o que quer que lhe diga?" "Quero a sua aprovação." "... Não posso fazer isso. Você está a arriscar. Tem mesmo que ir? É trabalho?"
"Não, é muito mais que isso. É o David Gilmour." "Quem?!", pergunta o doutor, genuinamente confuso. "O guitarrista dos Pink Floyd!" "Ah, ok", suspira o médico, de semblante baralhado. "Nesse caso, se tem mesmo que ir, vá. Só lhe desejo boa sorte".
E assim lá fui para a Croácia, canadiana em riste, na perseguição de mais um momento.
Já se passaram algumas horas, mas os meus dedos ainda tremem, o meu coração ainda bate a ritmos BlueMondayanos e a minha pulsação ainda está em nível de minutos-finais-de-segunda-mão-da-meia-final-da-Liga-Europa. O que é isto? Estou nas nuvens, os pés flutuam dois palmos acima do chão. Mas estou de rastos, aquelas horas de stress deram cabo de mim. Suores frios. Dói-me a cabeça, dói-me o corpo todo. E de repente, sentimentos de dúvida assolam-me. A cabeça trabalha a mil. Será que isto me está mesmo a acontecer? Não, isto não me pode estar a acontecer. É bom demais para ser verdade. Foi o dia todo nisto. Calma, Nuno, já passou.
Que cavalgada de emoções.
Expira.
Inspira.
Já se passaram algumas horas desde que comprei bilhetes para dois (dois!!) concertos de David Gilmour e ainda não acredito que é verdade. Chovem-me flashes daquela noite mágica de 2006, em Paris, a melhor noite da minha vida. São flashes que me apertam o coração e o empurram contra a omoplata. São flashes de uma noite perfeita, da noite em que vi David Gilmour ao vivo no Grand Rex, acompanhado de Richard Wright, a tocar temas como "Echoes", "High Hopes", "Time", ou "Comfortably Numb". Subi ao céu.
Agora o céu espera-me novamente em Itália, em dose dupla, na belíssima Arena di Verona e no Ippodromo Le Mulina, em Firenze. É um sonho tornado realidade. Quem disse que a felicidade não é possível?
Já sei que não vou pregar olho hoje, o êxtase não me vai deixar. Mas que se lixe, não preciso de sonhar. Eu vou viver o meu sonho.
Na ressaca do anúncio do novo álbum dos Pink Floyd, em que David Gilmour tem estado a trabalhar, falei nos últimos dias dos projectos a solo dos outros membros da banda: Richard Wright e Roger Waters. Quem é que resta? Nick Mason - o baterista.
E porque é que resta? Porque Nick Mason não tem, na verdade, projectos a solo.
Nick Mason é bom rapaz, é foi um baterista competente e escreveu o livro mais revelador dos Pink Floyd que já li - "Inside Out: A Personal History of Pink Floyd", que recomendo vivamente. Mas é pouco mais que isso. (Ah e percebe muito de carros também. Eu confesso que não percebo nada.)
Hoje em dia, para além de fazer as partes de bateria do novo álbum dos Pink Floyd (será que são dele?), pouco mais Nick Mason poderá acrescentar à banda. E se é assim hoje, no passado pouco diferia.
Musicalmente, em estúdio, Nick nunca acrescentou nada aos Pink Floyd (embora tenha alguns créditos de autoria nas composições conjuntas). Ao vivo, desde a digressão The Wall Live que Mason tem outro baterista para o ajudar a completar as suas próprias partes.
A propósito, fiquei muito contente quando o vi no Live 8 com os Pink Floyd a tocar bateria sozinho, mesmo tendo em conta os vários pregos que deu. Esse é que é o apelo da música ao vivo.
Resumindo, Nick Mason como músico é muito fraco (ou nulo) e como baterista é muito limitado.
E no entanto, Mason apresenta na sua discografia 2 álbuns a solo. Pois. Como é óbvio, o input de Nick em ambos os álbuns é proporcional ao seu talento para a composição: muito limitado.
Se o 1º álbum ("Fictitious Sports" de 1981) foi essencialmente o trabalho solitário da artista jazz Carla Bley (que nem sequer aparece na capa do álbum), o 2º álbum ("Profiles" de 1985) é obra do guitarrista dos 10CC - Rick Fenn.
Mas então porquê é que eles querem dividir os louros com Nick Mason? É fácil: porque podem pôr na capa o nome de um membro dos Pink Floyd e assim as vendas e o interesse na sua música disparam em 1000% (número meigo).
"I've certainly enjoyed working with Rick... I think it's useful and important to change the people you work with. You get so stuck in certain patterns. You know: Roger will do this and Dave will do that and... well, you can go and make the tea, Nick!"
Nick Mason
Pois. Com os Pink Floyd, Nick já estava relegado a fazer o chá, ficamos sem saber se fez muito mais com Rick Fenn.
Em "Lie For A Lie" - single de avanço de "Profiles" - Rick Fenn ainda teve um bónus: quem canta é nem mais nem menos o vocalista dos Pink Floyd - David Gilmour. Ainda por cima, David aparece no vídeo promocional do tema, que está em cima. O áudio nesse vídeo é muito manhoso, por isso se quiserem ouvir o tema com maior fidelidade, façam-no aqui.
Como estávamos nos anos 80, as versões estendidas para os singles de 12'' eram costumeiras. Se gostaram do tema, fica aqui também a versão mais comprida:
O resto do álbum "Profiles" é quase inteiramente instrumental (excepto a faixa "Israel") e, para ser sincero, de muito pouco interesse. Confesso que nunca consegui ouvi-lo na íntegra, porque vou passando de faixa sucessivamente ao fim de 1 ou 2 minutos até que chego ao fim.
Em suma, é uma audição quase penosa. Salva-se "Lie For A Lie", que é um tema Pop agradável, mas pouco mais que isso.
Ah e a capa do álbum, com aquele homem vestido com um maillot e uma máscara de corvo pretos... Perturba-me.
"By HATING more, you're FEELING more and that's how you get caught"
De todas carreiras a solo, de todos os membros Pink Floyd, o meu tema preferido é de... Richard Wright.
Para quem desconhece o nome (shame on you!), Richard Wright foi o brilhante teclista de sempre dos Pink Floyd. Em toda a carreira dos Pink Floyd, Wright só não participou no álbum "The Final Cut", uma vez que tinha sido despedido por Waters durante a gravação de "The Wall", por não estar a "contribuir musicalmente" para a banda segundo os padrões de Waters. Obviamente que a isto não terão ajudado os problemas com droga que o começavam a atormentar nesta altura... Até à sua saída, Wright ainda acompanharia a lendária digressão de promoção a "The Wall".
Como o próprio Wright confirmaria uns anos mais tarde, a sua falta de ideias durante as sessões de "The Wall" deveu-se também, em grande parte, à gravação do seu primeiro álbum a solo "Wet Dream" em 1978, um ano antes.
O ex-teclista dos Pink Floyd teve uma carreira a solo muito curta, com apenas dois álbuns em nome próprio: em 1978, depois do animicamente arrasador "Animals" e respectiva digressão (brevemente falarei disto), Wright escreveu, gravou e produziu o superlativo "Wet Dream", um álbum fabuloso de forte carga instrumental; em 1996, depois da regeneração artística de Wright em "The Division Bell" (Wright andara perdido nos anos 80 com problemas familiares e lutas com problemas de droga), este lançou o seu 2º e último álbum "Broken China".
É precisamente de "Broken China" que é retirado este fantástico "Breakthrough".
Este tema foi considerado para inclusão em "The Division Bell", mas segundo David Gilmour não foi fechado a tempo. Ao ser rejeitado para os Pink Floyd (eventualmente em favor do também genial "Wearing The Inside Out"), Richard Wright usou-o para o seu álbum "Broken China".
Para a gravação em disco de "Breakthrough", Wright chamou o guitarrista de digressão dos Pink Floyd Tim Renwick e convidou Sinéad O'Connor para a voz. O resultado é bom mas, na minha opinião, muito pouco satisfatório quando comparado com a versão que aqui apresento.
Esta versão foi gravada ao vivo no Royal Festival Hall em 2002, num concerto de David Gilmour inserido numa mini-digressão semi-acústica a solo. Wright apareceu como convidado especial para este tema e ambos tocaram aquele que poderá ter sido o arranjo preparado nas sessões de "The Division Bell" para "Breakthrough", alguns anos antes. As imagens desta reunião podem ser vistas no DVD "David Gilmour in Concert", que eu recomendo vivamente!
Voltando ao princípio, reitero que "Breakthrough" é o meu tema preferido das carreiras a solo de todos os Floyd.
Este é um tema que fala sobre a redenção, sobre a procura infrutífera de um lugar seguro, ao abrigo da dor e da desilusão... Só derrubando o muro, retirando o capacete emocional e expondo-nos às contingências da dor é que podemos viver em pleno.
É uma visão que subscrevo.
"Breakthrough" pretende desta forma ser um tema psicologicamente revigorante, uma vez que todos os que andam na vida de coração aberto sabem que, após várias quedas no vazio, não é fácil manter o queixo levantado...
"You die more times than anyone, but there's still no place to fall"