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terça-feira, 4 de julho de 2017

Phil Collins - "Invisible Touch" (Live in Hyde Park 2017)

"And though SHE WILL FUCK UP YOUR LIFE, you want her just the same"


Não tenho muitos amigos. Nem quero. Os amigos dão muito trabalho e são uma grande responsabilidade. É preciso estar presente (mesmo quando distante), saber da vida deles e mimá-los. A amizade não é, aliás, uma coisa que eu dê como garantida. Tomo-a como uma distinção e tento estar à altura dela, provar dia após dia o merecimento de tal galardão. Em contrapartida, são os meus amigos que me enchem o coração e estão lá quando eu mais preciso.
Não conheço o Phil Collins pessoalmente, mas tenho-o como um amigo porque ele esteve lá sempre que eu precisei dele. Ele agora precisou de mim e eu fui para Londres a correr para o acudir.

Esta crónica é o último capítulo de uma trilogia que contou o regresso de Phil Collins à música e que começou a ser escrita na NiT em Janeiro de 2016. A primeira parte, por altura da reedição da sua obra a solo, centrou-se na absurda percepção plástica da sua obra. A segunda, aquando do anúncio da sua digressão –, sarcasticamente baptizada de 'Not Dead Yet Tour' – focou-se na queda de Phil que quase o levou ao suicídio. O capítulo final, este, conta a história do último concerto desta digressão terapêutica para Phil.


A 'Not Dead Yet Tour' terminou na última sexta-feira num Hyde Park esgotado com 65 mil pessoas, curiosamente o maior concerto da carreira a solo de Phil Collins. Foi muito estranho ver o Phil entrar lentamente em palco de bengala, aparentando uma fragilidade mais parecida com o Sr. Zé da Casa de Repouso das Sarnadas de Ródão (tratem bem da minha avó!!), do que o alegre e vivaço baterista que eu conheci. Os anos não foram meigos para com o tio Phil. Mas em boa hora os filhos o obrigaram a mexer o rabo e a sair de casa para voltar a ser recebido pelos seus amigos.

"Eu sei que prometi não voltar a fazer isto. Mas a verdade é que tive saudades vossas", começou Phil –  aludindo ao facto de se ter retirado da música há 10 anos –,  antes do seu filho Nicholas arrancar com a inconfundível batida para "Another Day In Paradise". Nicholas acabou de fazer 16 anos, mas já mostra uma habilidade e constância surpreendentes na bateria. Foi a grande surpresa do espectáculo. "Filho de peixe", já diz o povo.

Seguiu-se um set – demasiado curto – de hora e meia carregada de êxitos como "You Can't Hurry Love", "Easy Lover" e, obviamente, "In The Air Tonight"; 14 temas no total. Não sei se por cansaço do Phil (ainda há umas semanas voltou a cair na casa de banho do hotel e a magoar-se à séria), se por limitações de horário do festival (os vizinhos do Hyde Park são milionários e muito chatos com o barulho, não é senhor Sting?), mas de fora ficou 1/3 do set normal da digressão, incluindo alguns dos temas que mais queria ouvir, como o pujante "I Don't Care Anymore" e o comovente "You Know What I Mean", com Nicholas ao piano e Phil na voz – um dueto de pai e filho.

Confesso que me soube a muito pouco, especialmente considerando as 95 libras que custava um bilhete para a zona da Plateia Geral que, atrás do Golden Circle e do Diamond Circle (onde é que isto parar?), começava a 120 metros do palco (confirmei pelo Google Earth). Mas o pior não foi isso. A grande desilusão foi o som vindo das colunas, que mal se ouvia. Já levo uns anitos de concertos (este foi o meu 178º) e confesso que nunca na minha vida estive num concerto Rock ao ar livre com o volume tão baixo. Eu estava à frente da zona da Plateia Geral, centrado com o palco e tinha imensas dificuldades em ouvir as guitarras e até a voz do Phil. Àquela distância, só o baixo e a bateria se salvavam.


Por outro lado, Phil cantou "Invisible Touch" e "Follow You, Follow Me", o que muito provavelmente será o mais perto que eu estarei de ver os Genesis ao vivo. Quase perdi a voz no "Invisible Touch" e julgando pelo volume do som vindo das colunas e o volume da minha voz, aposto que num raio de 5 metros à minha volta ouviram mais a minha voz que a do Phil. Pelo menos quando eu gritei "and though SHE WILL FUCK UP YOUR LIFE, you want her just the same!!!" a plenos pulmões, toda a gente se virou para mim. Mas o que importa é que deu para lavar a alma.

Do que me foi possível ouvir, a voz de Phil já não está em condições para estas andanças. Mas o propósito desta digressão era outro. O concerto não foi mais que a maior sessão de terapia alguma vez organizada. À minha volta, gente de todo o mundo que veio para, como eu, voltar a ver o Phil sorrir. Os mais velhos vieram matar saudades e os mais novos para o ver pela primeira (e última?) vez. É notável a paixão da geração mais nova pela música do Phil, depois de tantos anos de injustificado escárnio; e é engraçado perceber que os millennials se estão a encarregar de voltar a pôr as coisas no seu devido lugar. Grupos enormes de miúdos entre os 15 e os 25 anos que, quando acabou o concerto e começou a debandada geral, ficaram a cantar as músicas que faltaram na setlist. E foram muitas, como já vimos.

Sabe bem ver o Phil finalmente reconhecido pelo grande músico que é e pela minha parte, tenho que dizer que estou um pouco orgulhoso por fazer parte dessa mudança de mentalidade.  Phil merece todo o amor que estes 65 mil amigos que não o conhecem de lado nenhum lhe vieram mostrar. Para alguém que teve tanto sucesso e fez tanta gente feliz com o seu toque invisível, não faz sentido nenhum sentir-se tão mal com o seu passado. Espero que esta noite o tenha ajudado. No fim, Phil despediu-se com um "Obrigado por terem vindo, amo-vos a todos". Soltei uma lágrima e sussurrei baixinho: "I love you too, Phil. Always have, always will".

P.S.: Trouxe um souvenir do concerto para me motivar a (finalmente!) começar as minhas aulas de bateria. Mesmo manco, o Phil ainda é capaz de me ajudar a mexer. Se isto não é um amigo...


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Genesis - "Harold The Barrel"

"You must be joking! Take a running jump..."



Hoje vou falar de suicídio. Não do meu, obviamente, que gosto demasiado de mim para fazer tal coisa. Venho, sim, falar do Harold, o Barril.
Julgando pela alcunha, Harold era um homem gordo, ou bêbado. Ou ambos. Não sabemos. Aliás, pela informação que nos é dada, pouco sabemos acerca de Harold, a não ser que ele é dono de um restaurante em Bognor (cidade no sul de Inglaterra), que tem uma mãe com 67 anos e que já não pode aguentar mais.
Com uma mãe com 67 anos, Harold deveria ser um homem de meia idade, com os seus 40 anos. Provavelmente a passar uma crise de meia idade, o exame que fez à sua vida revelou que a saída seria um choque frontal com a Velha Senhora. Sem mais família para o amparar, Harold decidiu tomar a fuga para a frente.

 News:
    A well-known Bognor restaurant-owner disappeared
    early this morning.
    Last seen in a mouse-brown overcoat,
    suitably camouflaged,
    they saw him catch a train.

Man-in-the-street:
    "Father of three its disgusting"
    "Such a horrible thing to do"

Harold the Barrel cut off his toes and he served them all for tea.

    "Can't go far""He can't go far".
    "Hasn't got a leg to stand on"
    "He can't go far".

Man-on-the-spot:
    I'm standing in a doorway on the main square
    tension is mounting
    There's a restless crowd of angry people

Man-on-the-council:
    "More than we've ever seen.
    - had to tighten up security"

Over to the scene at the town hall
The Lord Mayor's ready to speak

Lord Mayor:
    "Man of suspicion, you can't last long, the British Public is on our side"

British Public:
    "Can't last long""You can't last long".
    "Said you couldn't trust him, his brother was just the same"
    "You can't last long".

Harold:
    If I was many miles from here,
    I'd be sailing in an open boat on the sea
    Instead I'm on this window ledge,
    With the whole world below

Up at the window
Look at the window...

Mr.Plod:
    "We can help you"

Plod's Chorus:
    "We can help you"

Mr. Plod:
    "We're all your friends, if you come on down and talk to us son"

Harold:
    You must be joking!
    Take a running jump...

The crowd was getting stronger and our Harold getting weaker;
Forwards, backwards, swaying side to side
Fearing the very worst
They called his mother to the sight
Upon the ledge beside him
His mother made a last request.

67-year-old Mrs. Barrel:
    "Come off the ledge, if your father were alive he'd be very, very, very upset."
    "Just can't jump, you just can't jump"
    "Your shirt's all dirty, there's a man here from the B.B.C."
    "You just can't jump"

Mr. Plod:
    "We can help you"

Plod's Chorus:
    "We can help you"

Mr. Plod:
    "We're all your friends, if you come on down and talk to us Harry"

Harold:
    You must be joking!
    Take a running jump...

Não, este texto não pretende ser uma dissertação sobre o suicídio. Mas já que estamos nisso, lembrem-se que por mais escuro que seja o buraco, há sempre uma saída.

Este texto pretende ser uma dissertação sobre o acaso de quando ouvimos um tema que já conhecemos há anos, prestamos atenção ao que ele diz e nos deparamos com um animal completamente diferente. É o caso de "Harold The Barrel". Estou fascinado com este curto tema dos Genesis, do álbum de estreia da sua formação clássica (Gabriel/Collins/Hackett/Rutherford/Banks) "Nursery Cryme".


"Harold The Barrel" tem 3 minutos, não é o melhor tema dos Genesis, não é o melhor tema de "Nursery Cryme" e nem sequer é o melhor tema do 2º lado do álbum (já agora, essas honras poderiam ser atribuídas a "The Carpet Crawlers", "The Musical Box" e "The Fountain Of Salmacis", respectivamente). Mas "Harold The Barrel" é um tema que, em 3 minutos, condensa uma série de virtudes dos Genesis daquela época.

Em 3 minutos, os Genesis contam um conto. Introduzem uma série de personagens (que falam!), fazem uma descrição detalhada de um acontecimento trágico e da perspectiva decidida do personagem principal. A música, as mudanças de andamento, as pinceladas da guitarra de Steve Hackett, tudo serve para compor a pintura de uma história, como só os Genesis conseguem contar.
Não sei se há mais bandas que conseguem realizar uma peça teatral num tema de 3 minutos, se há, não conheço.

Note-se que aquando da gravação original de "Harold The Barrel", Hackett ainda não fazia parte da banda (foi o último a entrar da formação clássica), pelo que as suas partes foram adicionadas a posteriori. E logo ali deu para perceber que o seu input na banda seria valiosíssimo.

O fim da história conta o esperado desfecho. Enquanto Tony Banks toca as notas finais ao piano, a voz de Phil Collins desvanece ao ritmo da queda de Harold. O fim do tema marca o fim da vida do nosso fugaz herói.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Genesis - "The Lamia"

"The lights are dimmed and once again the stage is set for you"



"As luzes estão apagadas e mais uma vez, o palco está à tua espera."


Já uma estrela de culto, figura de proa do Rock Progressivo, foi no dia 22 de Maio de 1975, que Peter Gabriel entrou em palco pela última vez com os Genesis. A ocasião foi a última noite da "The Lamb Lies Down On Broadway Tour" - um espectáculo teatral alucinante, na época revolucionário no Rock.
O palco esperava-o no Palais des Sports, em Besançon, muito longe de casa. Gabriel estava farto. Até esta noite, um longo caminho com os Genesis ficara para trás. Com 5 álbuns em 4 anos e uma agenda de espectáculos intensa, Peter Gabriel decidiu sair dos Genesis e dedicar-se à sua família, orientando a sua carreira segundo o seu próprio ritmo, sem a pressão associada ao monstro que ele acabara de ajudar a criar. Uma banda de virtuosos, com um instinto melódico ímpar e guiada por uma força conceptual pioneira, os Genesis sobressaíam na cena do Rock Progressivo. Não que os Genesis tivessem a força e o sucesso, por exemplo, dos Pink Floyd, na mesma época. Mas mesmo assim era demais para Gabriel.
Peter Gabriel foi-se embora e nunca mais voltou.

E de que melhor forma Gabriel se poderia despedir dos Genesis, do que com um álbum absolutamente pivotal na História do Rock Progressivo, um marco que seria recordado e admirado durante décadas? Falo obviamente de "The Lamb Lies Down On Broadway", o 6º álbum dos Genesis e o último que contou com o seu histórico vocalista.


A vontade de abordar este álbum vem desde há muito tempo e matéria prima para escrever não falta. Diria mesmo que desde o início do blogue que venho acumulando pequenas ideias sobre "Lamb". Então porquê a demora? A razão é muito simples: por onde começar? Há tanto, TANTO para dizer... "Lamb" é uma obra tão complexa que não é fácil estruturar uma análise global satisfatória. Por isso mesmo, essa abordagem ficará para outro dia.
Para desatar este novelo, hoje resolvi começar por um dos fios: "The Lamia". Será que, ao puxar este fio, conseguimos desenlaçar parte do novelo de "Lamb"? Veremos.

"The Lamb Lies Down On Broadway" é um álbum duplo e extremamente diverso. O álbum conta a história surreal de Rael (um anagrama de "Real" e "Gabriel") - um jovem delinquente de ascendência Porto-Riquenha, perdido no subsolo de Nova Iorque.
"The Lamia" aparece a meio do 2º disco e é um dos temas de maior beleza do álbum. Segundo a wikipedia (adaptado a português legível):

"De acordo com a versão mais corrente, Lâmia era uma belíssima rainha da Líbia, filha de Poseidon e amante de Zeus, de quem concebeu muitos filhos, entre os quais a ninfa Líbia. Hera (mulher de Zeus), corroída pelos ciúmes, matava os filhos de Lâmia ao nascer. Desesperada, Lâmia escondeu-se numa caverna isolada e devido ao seu próprio desespero, transformou-se num monstro. Por fim, para torturá-la ainda mais, Lâmia foi condenada por Hera a não poder fechar os olhos, para que ficasse para sempre obcecada com a imagem dos filhos mortos. Por piedade, Zeus deu-lhe o dom de poder extrair os olhos de vez em quando, para descansar."

Repito o bold: "Desesperada, Lâmia escondeu-se numa caverna isolada e devido ao seu próprio desespero, transformou-se num monstro.". É isto. Para mim, esta explicação é uma das chaves do significado de "The Lamb Lies Down On Broadway". O isolamento, o desespero e a transformação. A transformação que se dá sempre que nos damos de caras com uma das anteriores.

Mas antes de avançar, vou tecer algumas considerações sobre o que significa falar de "The Lamb Lies Down On Broadway".

Em "The Lamb Lies Down On Broadway", os Genesis tratam um conflito interno, como os Pink Floyd fizeram em "The Wall". O ciclo crise/conflito/resolução/crise/... está lá, a descida à loucura na fase de conflito também, mas "Lamb" é infinitamente mais denso, complexo e multi-layered que "The Wall". Impenetrável.

É muito mais fácil identificarmo-nos com "The Wall", do que com "Lamb", da mesma maneira que, em geral, é muito mais fácil identificarmo-nos com Roger Waters do que com Peter Gabriel. Ambos têm uma compulsiva necessidade de auto-procura e auto-resolução, que os leva em busca de respostas aos dilemas pessoais mais profundos. Mais que isso, ambos sofrem de um determinado grau de demência e genialidade ("De génio e de louco..."), que lhes permite criar estas fascinantes obras sobre a condição humana. Porém, são graus de demência diferentes. Não sou psicólogo, nem aspiro a tal, mas a demência de Gabriel é diferente, porque ele também é diferente. Único.
Peter Gabriel tem uma qualidade impenetrável que o distingue de os demais vocalistas Rock. Ele é mais erudito, mais culto, mais eloquente e mais perturbado que o clássico artista Rock. E essa junção bizarra de características torna o seu trabalho nos Genesis e o seu trabalho a solo numa ilha, isolada. Impenetrável.

Eu posso dissertar parágrafos e parágrafos sobre o que ele quer dizer com esta ou aquela linha, mas tudo não passam de interpretações. Interpretações pessoais de uma obra que pode ser lida de muitas formas, porque de tão metaforicamente rica, se torna opaca. Impenetrável.

Tendo tudo isto em conta, quero esclarecer que tudo o que está aqui exposto é apenas a minha visão da história. "The Lamb Lies Down On Broadway" é um mistério cuja resolução cabe a cada ouvinte que se proponha a desvendar a história de Rael.

Talvez para nos elucidar, talvez para nos confundir ainda mais, Peter Gabriel conta mais uma parte da história de Rael (a que não entrou nas letras dos temas) no livrete do álbum (ou no gatefold do LP original). Esta serve de complemento explicativo para a acção que ocorre durante a música.
Em baixo fica a parte de "The Lamia":

"Rael touches his face to confirm that he is still alive. He writes Death off as an illusion, but notices a thick musky scent hanging in the air. He moves to the corner where the scent is stronger, discovering a crack in the rubble through which it is entering. He tries to shift the stones and eventually clears a hole large enough to crawl out of. The perfume is even stronger on the other side and he sets off to find its source, with a new-found energy.

The scent grows richer, he knows he must be near,
He finds a long passageway lit by chandelier.
Each step he takes, the perfumes change
From familiar fragrance to flavours strange.
A magnificent chamber meets his eye.

He finally reaches a very ornate pink-water pool. It is lavishly decorated with gold fittings. The walls around the pool are covered with a maroon velvet up which honeysuckle is growing. From out of the mist on the water comes a series of ripples.

Inside, a long rose-water pool is shrouded by fine mist.
Stepping in the moist silence, with a warm breeze he's gently kissed.

Thinking he is quite alone,
He enters the room, as if it were his own
But ripples on the sweet pink water
Reveal some company unthought of

Three snakelike creatures are swimming towards Rael. Each reptilian creature has the diminutive head and breasts of a beautiful woman. His horror gives way to infatuation as their soft green eyes show their welcome. The Lamia invite him to taste the sweet water and he is quick to enter the pool. As soon as he swallows some liquid, a pale blue luminescence drips off from his skin. The Lamia lick the liquid; very gently as they begin, with each new touch, he feels the need to give more and more.

Rael stands astonished doubting his sight,
Struck by beauty, gripped in fright;
Three vermilion snakes of female face
The smallest motion, filled with grace.
Muted melodies fill the echoing hall,
But there is no sign of warning in the siren's call:
"Rael welcome, we are the Lamia of the pool.
We have been waiting for our waters to bring you cool."

Putting fear beside him, he trusts in beauty blind,
He slips into the nectar, leaving his shredded clothes behind.
"With their tongues, they test, taste and judge all that is mine.
They move in a series of caresses
That glide up and down my spine.

They knead his flesh until his bones appear to melt, and at a point at which he feels he cannot go beyond, they nibble at his body. Taking in the first drops of his blood, their eyes blacken and their bodies are shaken. Distraught with helpless passion he watches as his lovers die. In a desperate attempt to bring what is left of them into his being, he takes and eats their bodies, and struggles to leave his lovers' nest.

As they nibble the fruit of my flesh, I feel no pain,
Only a magic that a name would stain.
With the first drop of my blood in their veins
Their faces are convulsed in mortal pains.
The fairest cries, 'We all have loved you Rael'.

Each empty snakelike body floats,
Silent sorrow in empty boats.
A sickly sourness fills the room,
The bitter harvest of a dying bloom.
Looking for motion I know I will not find,
I stroke the curls now turning pale, in which I'd lain entwined
"O Lamia, your flesh that remains I will take as my food"
It is the scent of garlic that lingers on my chocolate fingers.

Looking behind me, the water turns icy blue,
The lights are dimmed and once again the stage is set for you.
"


...e depois arranca Steve Hackett, com um dos solos mais arrepiantes que alguma vez registou nos Genesis. Um dos momentos altos do álbum. Fabuloso.

"The Lamia" era também um dos pontos altos do espetáculo ao vivo de "Lamb". Peter Gabriel cantava este tema dentro de um cone translúcido, com imagens de cobras, que rodava à sua volta. No fim do tema, o cone caía e Peter surgia envergando um body branco que brilhava no escuro.


Este foi um dos pontos altos da reconstrução que os The Musical Box - a banda de covers mais reconhecida dos Genesis - fizeram no Drámatico de Cascais na noite de 10 de Março deste ano, revivendo a lendária dupla jornada de 6 e 7 de Março de 1975. Mas isso é assunto para outro dia.


O que me resta dizer é que muito devido a este concerto, Fevereiro e Março de 2012 só deram "Lamb", fazendo "The Lamb Lies On Broadway", até ver, o meu álbum do ano. Para além disso, está também (já estava) na minha lista de 10/20 álbuns preferidos de sempre e isso não é dizer pouco. Já andava a dever este post aos Genesis. Mais sobre "Lamb" brevemente.

domingo, 23 de outubro de 2011

Daryl Stuermer - "Urbanista" (Live)



Já foi há mais de uma semana, mas só hoje tive tempo para escrever umas linhas sobre o concerto de Daryl Stuermer na Sexta-Feira, dia 14 de Outubro, na Aula Magna.

Muitos perguntarão quem é, afinal, este Daryl Stuermer?
Muito sucintamente, Daryl Stuermer é um músico americano, que ficou famoso por tocar guitarra e baixo ao vivo com os Genesis e por ser o guitarrista principal que acompanhou Phil Collins, ao longo da sua carreira a solo.
Um sideman, portanto.
O próprio reconhece este desconhecimento geral acerca da sua pessoa, uma vez que a sua digressão foi promovida como "Daryl Stuermer of Genesis".


Foi assim, naturalmente, uma plateia de fãs de Genesis e Phil Collins que acorreu à Aula Magna, para ver a estreia de Daryl Stuermer a solo, fora dos Estados Unidos. Não contando com os concertos em que Daryl Stuermer tocou com os Genesis, nunca ninguém na sua banda tinha tocado ao vivo fora de portas, o que tornou esta noite muito especial para os artistas no palco.
Infelizmente, a crise, a falta de promoção do espectáculo, ou simplesmente a falta de apelo para ver um sideman dos Genesis, fez com que a plateia estivesse a apenas 1/3 da lotação esgotada.
Não deixa de ser surpreendente para quem, como eu, foi há 2 anos à Aula Magna ver os The Musical Box - uma banda de covers dos Genesis - para uma sala a rebentar pelas costuras.

Aparentemente, a falta de adesão do público não afectou a prestação, nem o bom humor, de Daryl Stuemer, que esteve bem disposto e comunicativo ao longo de todo o espectáculo.
Quanto à música, foi Genesis e foi por isso fabuloso.

A setlist completa foi a seguinte:

- "Duke's Intro" ("Behind the Lines" / "Duke's End") [Instrumental] (Genesis - Album: "Duke")
- "Just A Job To Do" [Instrumental] (Genesis - Album: "Genesis")
- "Throwing It All Away" (Genesis - Album: "Invisible Touch")
- "No Son of Mine" (Genesis - Album: "We Can't Dance")
- "Land of Confusion" [Instrumental] (Genesis - Album: "Invisible Touch")
- "Heavy Heart" (Daryl Stuermer - Album: "Go")
- "Deep In The Motherlode" (Genesis - Album: "…And Then There Were Three…")
- "Your Own Special Way" (Genesis - Album: "Wind And Wuthering")
- "...In That Quiet Earth" / "Ripples" [Instrumental] (Genesis - Album: "Wind And Wuthering" / "A - Trick Of The Tail")
- "Urbanista" (Daryl Stuermer - Album: "Go")
- "Squonk" (Genesis - Album: "A Trick Of The Tail")
- Drum Solo
- "Los Endos" / "The Cinema Show" / "Firth of Fifth" / "Squonk" (reprise) / "Los Endos" (reprise) [Instrumental] (Genesis - Album: "A Trick Of The Tail" / "Selling England By The Pound")
- "Something Happened On The Way To Heaven" (Phil Collins - Album: "…But Seriously")
- "Invisible Touch" (Genesis - Album: "Invisible Touch")

Encore:
- "I Can't Dance" (Genesis - Album: "We Can't Dance")
- "Turn It on Again" (Genesis - Album: "Duke")

Como se pode verificar, com a excepção de dois temas a solo, um tema de Phil Collins (que Daryl escreveu com Phil e que, segundo o que ele disse no concerto, lhe permitiu comprar uma casa nova), só deu Genesis na Aula Magna!

Como o próprio Daryl confessou, habituado a tocar o baixo com os Genesis (Michael Rutherford fica, na maioria das vezes, com a guitarra principal), esta foi uma oportunidade para ser ele a tocar as partes de lead dos Genesis, a música que ele mais admira e mais gosta.

O vídeo que aqui fica é de um dos temas a solo que Daryl Stuermer tocou: "Urbanista", retirado do álbum "Go" de 2007, o qual Daryl ainda está a tentar promover e vender nos stands das salas de espectáculos onde actua.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Genesis - "Duchess"

"Yes times were hard, too much thinking about the future and what people might want"



"Times were good, she never thought about the future, she just did what she would"

A saída de Peter Gabriel dos Genesis, em 1975, obrigou a banda a procurar um novo rumo. Inicialmente, a ideia era procurar um novo vocalista, mas a maioria dos que se apresentaram para audição pareciam aspirantes a cópias de Peter Gabriel, tentando a todo o custo mostrar a sua excentricidade. Mal eles sabiam que era exactamente isso que os restantes membros dos Genesis queriam evitar.

Quem dava as indicações de como cantar as músicas nestas audições era Phil Collins, até então baterista e backing vocals dos Genesis. Com o álbum seguinte praticamente pronto, faltando apenas acrescentar as faixas vocais, a banda decidiria desistir das audições e aproveitar os inegáveis dotes vocais de Phil.
E foi assim que Phil Collins saltou para a frente do palco dos Genesis e nasceria uma carreira brilhante no Rock e Pop das décadas seguintes.

O álbum "A Trick Of The Tail" - o primeiro dos Genesis com o quarteto Banks/Rutherford/Collins/Hackett - foi um sucesso de vendas, superando todos os trabalhos anteriores dos Genesis, incluindo "Selling England By The Pound". No entanto, Steve Hackett e a restante banda pareciam estar a mover-se em direcções diferentes e após a digressão de "Wind And Wuthering", Steve deixaria a banda.
Estava então completa a formação mais duradoura dos Genesis: o trio Banks/Rutherford/Collins. O álbum seguinte chamar-se-ia, apropriadamente, "...And Then We Were Three".

"And she dreamed that every time that she performed, everyone would cry for more"

Porém, "...And Then We Were Three" foi um tiro ao lado, um álbum onde se notava que o trio Banks/Rutherford/Collins já não estava muito à vontade com o Prog. Para além disso, em 1978 a banda estava exausta depois de uma década de constantes gravações em estúdio e digressões.
Naquele cenário, o trio não iria longe e à chamada de aviso de Phil Collins, que queria voltar a casa para salvar o seu casamento, Banks e Rutherford responderam-lhe com uma proposta irrecusável: 1979 seria um ano de férias para os Genesis.

"She battled through, against the others in her world, and the sleep, and the odds"

Mas as coisas não correram bem para a vida pessoal de Phil Collins.
Enquanto o seu casamento desmoronava, Phil vivia nesta altura uma das fases mais prolíficas da sua carreira. Durante o aftermath do casamento, Phil escreveu "Face Value" - o seu primeiro álbum a solo e ainda hoje o mais aclamado da sua discografia a solo - e ainda emprestou aos Genesis dois temas para o novo álbum: "Misunderstanding" e "Please Don't Ask". Tudo isto no mesmo ano.

Em 1980, depois de um ano de hiato, os Genesis voltaram ao estúdio e assim nasceu o superlativo "Duke".

"Duke" representa o ponto alto da formação em trio dos Genesis. É a fusão perfeita entre o Rock Progressivo que ficara para trás em "...And Then We Were Three" e o Pop Rock que viria a seguir, mais influenciado por Phil Collins e cristalizado no álbum "Invisible Touch" de 1986. Em "Duke", os Genesis juntaram peças longas reminiscentes dos seus anos progressivos, mas também usaram Drum Machines, um instrumento proibitivo do Rock Progressivo.

É esse o caso deste fabuloso "Duchess".

"Duchess" faz parte da suposta "Duke Suite", uma sequência longa, inicialmente prevista para ocupar um lado inteiro do álbum (à imagem, por exemplo, de "Supper's Ready" do álbum "Foxtrot") e que consistia em:
- "The Duke" (mais tarde baptizado de "Behind the Lines")
- "Duchess"
- "Guide Vocal"
- "Turn It On Again" (alegadamente, mas aqui sou obrigado a pôr as minhas dúvidas, uma vez que não vejo grande relação entre "Turn It On Again" e as restantes partes)
- "Jazz" (faixas mais tarde separadas e baptizadas de "Duke's Travels" e a instrumental "Duke's End")


Deste grupo, sobressaem obviamente "Duchess" e "Turn It On Again", como faixas que se fazem valer por si só.
"Turn It On Again" foi lançado como o single de avanço de "Duke" e tornou-se num dos singles de maior sucesso dos Genesis até à data, fixando-se também como um dos temas obrigatórios em concerto.
"Duchess" seguiu-lhe como o 2º single e, embora não tenha obtido grande sucesso nas tabelas, é visto por Tony Banks como o melhor tema de sempre dos Genesis, eventualmente profetizando a História real da banda, desde o ido passado em 1980, até ao futuro que ainda aí viria.

"And all the people cried, you're the one we've waited for"

O vídeo foi gravado junto ao Liverpool Empire Theatre e mostra Phil Collins num novo visual de barba comprida, na minha opinião, o mais cool de sempre. Visual esse que eu tentei, com sucesso, imitar durante alguns meses nos meus tempos de estudante.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Genesis - "The Musical Box"

"Play me my song! Here it comes again..."



Depois do lançamento do seu 2º álbum - "Trespass" - em 1970, os Genesis eram uma banda ainda à procura da sua identidade. Os álbuns não tinham grande sucesso e a banda não encontrava a sonoridade que procurava. Assim, depois da saída do guitarrista Anthony Phillips e do despedimento do baterista John Mayhew, os restantes membros procuraram quem pudesse inserir na banda os elementos que faltavam.

E encontraram.
Em 1971, foram admitidos nos Genesis Steve Hackett para a guitarra e Phil Collins para a bateria. Steve Hackett diferenciava-se dos outros guitarristas não pela capacidade de debitar múltiplas notas por segundo, mas sim pela sua enorme criatividade e objectividade dos solos. As suas frases eram curtas, tinham uma estrutura premeditada e acima de tudo sabia valorizar e gerir... os silêncios. Sabia quando aparecer e quando se resguardar no espaço do som da banda.

Phil Collins foi escolhido entre dezenas de bateristas e a banda imediatamente sabia que tinha encontrado alguém muito especial. Aos 17 anos, Phil Collins já tinha gravado com George Harrison, no seu 1º álbum pós-Beatles "All Things Must Pass". Tal como Hackett, Phil Collins também se distinguia dos outros bateristas. Ele juntava o virtuosismo à criatividade e assim tornar-se-ia num dos mais influentes bateristas da História do Rock, tanto pelo seu trabalho no rock progressivo com os Genesis, como mais tarde na criação da sonoridade "no cymbals", que usaria (com o sucesso reconhecido) em "In The Air Tonight" e que iria marcar toda a década de 80.

Estava assim encontrada a "formação clássica" dos Genesis. O seu 1º álbum foi "Nursery Cryme" em 1971, de onde saiu este "The Musical Box". Neste álbum foi também revelada
a sonoridade que marcaria os Genesis ao longo dos anos 70.


Na minha opinião, é em "The Musical Box " que os Genesis, como banda de "rock progressivo", atingem o seu apogeu.
"The Musical Box" é um daqueles temas onde todos os elementos da música parecem combinar na perfeição: a melodia, a história contada, a estrutura, os solos, a colocação dos instrumentos... Tudo encaixa no crescendo da música, que relata a história de Henry; da sua curta vida e da sua reencarnação, até ao fabuloso clímax final, onde revela o seu desejo por Cynthia:

Why don't you touch me? Touch me, NOW, NOW, NOW, NOW, NOW!