terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Guns N' Roses - "Don't Cry" (Versão original de 1985)

"I know how you feel inside, I've been there before"


Numa altura em que se fala com insistência ensurdecedora (mas ainda sem grande fundamento) do regresso de Slash e Duff aos Guns N' Roses, hoje mostro um exemplo da magia criada quando os microfones se ligavam numa sala com o gangue original.

De certeza que já ouviram "Don't Cry". Estão com certeza familiarizados com a versão que passa nas rádios desde 1991, incluída no primeiro volume do álbum tudo-à-bruta "Use Your Illusion I", devidamente acompanhada por um videoclip épico realizado por Andy Morahan (cujos trabalhos à data incluíam clips de Wham!, Pet Shop Boys e The Human League):




Esta conhecem, certo? Se viveram no planeta Terra nos últimos 25 anos, não há maneira de não reconhecerem isto.
O que talvez não sabem é que "Don't Cry" remonta aos primórdios dos Guns N' Roses, quando Tracii Guns e Rob Gardner ainda faziam parte da banda, antes de serem substituídos por Slash e Steven Adler, respectivamente. Se não vejamos: o primeiro concerto dos Guns conforme nós conhecemos e amamos foi a 6 de Junho de 1985 (ainda nem eu era nascido) no Troubadour, West Hollywood, após apenas um dia de ensaios (!!!) com Slash e Steven. Foi assim:



Flyer do primeiro concerto dos Guns N' Roses com a formação clássica: Axl, Izzy, Duff, Slash, Steven;
Nas fotos ainda estão Tracii Guns e Rob Gardner

Segundo o livro "Reckless Road: Guns N' Roses and the Making of Appetite for Destruction" (e já agora, o setlist.com), os Guns tocaram "Don't Cry" no seu primeiro concerto. Este vídeo afirma ser dessa noite (mas eu não ponho as minhas mãos no fogo por isso):




Já o "Watch You Bleed: The Saga of Guns N' Roses" (só grandes títulos de livros) confirma que "Don't Cry" foi um dos primeiros temas que Axl e Izzy escreveram. O tema era um habitué na setlist durante 1985 e 1986 (aqui em versão acústica em 1985) e no entanto, nós só ouvimos a versão de estúdio 6 anos mais tarde. Mas porquê o hiato?
Simples.
Quando os Guns assinaram finalmente com a Geffen Records em 1986 (o que foi uma decisão arriscadíssima da editora, uma vez que eram conhecidos em Hollywood por serem um camião-cisterna descontrolado numa cidade a arder), "Don't Cry" foi gravado em estúdio para o álbum "Appetite For Destruction". Esta é a versão que podemos ouvir em cima. Mas depois apareceu "Sweet Child O' Mine" e a banda decidiu incluir apenas uma balada no álbum, de forma a representar fidedignamente o estilo de vida vicioso que levavam na época. O resto é História. O camião-cisterna ainda durou uns anos, mas eventualmente explodiu a meio dos anos 90.

A versão original de "Don't Cry", gravada em 1985, foi esquecida na gaveta e apenas recuperada num CD single, rotulada como Demo. Mas é muito mais que isso. É mais e é mais até que aquela versão limpinha e sanitizada que conhecem desde 1991. Hoje recupero-a, suja, crua e dura. Se fecharem os olhos, quase conseguem sentir o cheiro a látex e Jack Daniels.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

David Bowie - "Speed Of Life"



Cinco anos. Parece impossível, mas o blog faz cinco anos. São cinco anos desde que comecei a escrever sobre música com alguma regularidade. São cinco anos em que tudo mudou, desde a minha vida, à minha escrita. São cinco anos que concorreram com a fase mais louca da minha vida. As histórias são imensas, algumas foram aqui relatadas, outras apenas insinuadas e muitas deliberadamente escondidas, com risco de perder emprego e namorada. Ui, dessas então, perdi inúmeras nestes cinco anos, mais do que um mero blog de fundo de rua na blogosfera poderia comportar. Mas deixemos essas epopeias de lado por hoje. Mais que histórias que não podem ser contadas, este blog foi um receptáculo de sentimentos e de emoções, porque são esses os impulsos neurológicos associados à música - a força motriz do meu blog e da minha vida. Em muitas ocasiões, ao longo destes cinco anos, ambos se confundiram.

São cinco anos a amaldiçoar a escolha do nome do blog. Escolha musical do dia? A sério? Poderia dizer em minha defesa que simplesmente não estava inspirado naquele dia; que mandei ao ar o primeiro nome que me veio à cabeça, como aquele e-mail que criámos quando tínhamos 14 anos e fomos buscar a um título de uma música, anexando a idade ou o ano de nascimento em sufixo. Mas não. Eu pensei mesmo nesta merda. Porque na verdade, o blog não faz cinco anos, mas sim SEIS ANOS. Tchi, que golpe de teatro! Pois é, foi exactamente HOJE, há seis anos que criei o (também genialmente baptizado) Rock na prateleira. O conceito desse blog era ligeiramente diferente do Escolha musical e bem mais ambicioso: desafiei-me a dissecar a fundo a criação, edição e reedições de todos os álbuns que já ouvira, classificando-os no fim. Foi um desafio que a mim próprio me recusei. Demasiado trabalho associado.

Rock na prateleira ficou na prateleira indefinidamente e durante um ano ruminei conceitos diferentes para um blog. Estávamos em 2010 e começava entretanto o advento do Facebook. Como a maior parte da população ocidental, deixei-me de hipsterices e também eu me alistei na rede social por esta altura. E como seria de esperar, comecei a expressar-me no Facebook através... de música. No meu grupo de amigos do Facebook (que na altura se limitavam mesmo aos amigos / conhecidos com quem me cruzava com frequência na vida real), era eu quem percebia mais do assunto e achava que tinha que partilhar com eles o meu conhecimento. Fazia-o todos os dias e por isso comecei a chamar-lhe Escolha musical do dia. Mas o interesse dentro do grupo era diminuto, pelo que regressei à ideia do blog para tentar encontrar quem me entendesse do lado de fora.

E foi assim que em 2010 refundei o blog, desta feita com o (genial...) nome de Escolha musical do dia. Qual não foi a minha surpresa quando percebi que afinal, do lado de fora da redoma onde vivia, estava uma multidão. Uma multidão de maluquinhos como eu, que amam a música como eu amo e sentem o que eu sinto. E nunca mais me senti sozinho.
A minha dívida para com o blog é enorme, o sentimento de pertença foi só uma das muitas coisas que ele me deu. De cabeça, o Escolha musical do dia deu-me um divã de confissão, deu-me uma coluna numa revista, deu-me amigos para a vida e até me deu uma namorada. Foi das melhores coisas que aconteceu na minha vida. Pena o nome. O nome que o blog devia ter foi mais tarde dado à minha coluna na NiT e depois ao blog onde publico os artigos que lá escrevo - Rapsódia Boémia. Curiosamente, criei o Rapsódia Boémia dias depois de ter fundado o Escolha musical do dia, mas como rapidamente ganhei aqui a notável média de um visitante por dia (que, ou vinham enganados, ou eram a minha mãe), achei que não podia defraudar os leitores e por isso nunca mudei o nome ao tasco. Enfim.

Pensei bastante no tema para acompanhar este post comemorativo. Primeiro considerei "Five Years" do David Bowie, mas esse é um tema que lamenta a tragédia de que a Humanidade só tem mais cinco anos de vida e eu espero que blog viva bem mais que isso. Em oposição a esse conceito, pensei em "Long May You Run" de Neil Young, mas esse é um tema demasiado luminoso para a escuridão que foram os últimos cinco anos. Voltei a Bowie. Se há artista que representa bem o que foram estes 5 anos, esse artista é David Bowie. Pensei então num álbum que assume um significado muito pessoal. Pensei no labirinto emocional de "Low", o álbum que, na sua loucura, na sua intensidade e na sua incongruência, melhor resume os últimos cinco anos. Amo os anos que passaram tanto como amo este álbum. Não os trocava por nada.


Este post vem acompanhado, como não poderia deixar de ser, de uma edição remasterizada do banner do blog.


Edit: E não é que Bowie desvendou hoje o seu novo single do álbum "Blackstar" a ser lançado em Janeiro? Coincidências.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

John Lennon - "How?"

"How can I give love when I don't know what it is I'm giving?"


Hoje o John Lennon faria 75 anos. O meu John. Sim, meu. Não que eu tenha especial orgulho nisso, porque toda a vida eu quis ser Paul. Mas não é Paul quem quer, é Paul quem pode. E eu não sou Paul, sou John. Temperamental, apaixonado, obstinado, conduzindo o dia-a-dia com o sangue a ferver nas veias. Não é fácil ser assim, acreditem. E também não deve ser fácil para quem me rodeia. Preferia a constância, o método e a segurança do Paul. Ou pelo menos acho que preferia. Mas talvez assim perdesse a piada.

Vejam aqui quem vocês são. O meu resultado foi (expectavelmente):


Para celebrar o John, deixo-vos "How?", do álbum "Imagine" (1971) -  um dos seus temas mais confessionais. Isto se for possível sequer fazer uma consideração deste tipo, já que todos os temas de John (pelo menos na sua carreira a solo) são confessionais. Os seus álbuns a solo são como que actas de várias sessões de terapia psicanalítica ao longo dos anos. Talvez por isso sejam tão inconsistentes e talvez por isso a sua carreira a solo seja tão ignorada. Ninguém quer olhar para John como ele é, preferimos manter a imagem estereotipada de um puto rebelde, de um excêntrico a lutar pela paz numa cama com uma chinesa, ou de um mártir que caiu aos pés de um louco. Mas John é muitíssimo mais complexo que isso. Ouçam, se conseguirem, a discografia a solo de John (álbuns avant-garde incluídos). É um desafio de mind games.

John está longe de ser perfeito (alguns idiotas formatados da internet descobriram agora isso), mas não é por isso que não o devemos amar por aquilo que ele é. Quem de nós é perfeito, anyway? Que direito temos de julgar quem se deu todo à sua arte e fez tudo o que podia para mudar o mundo que odiava onde vivia?

"How can I have feeling when I don't know if it's a feeling?"

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

David Gilmour - "Coming Back To Life" (live)

"I took a heavenly ride through our silence, I knew the moment had arrived for killing the past and coming back to life"



Rattle That Broken Fout Tour Journal

Tomo IV - Siga para Florença

Toda a vida ouvi maravilhas de Florença. Quando era pequeno, foi para lá o Rui Costa - o meu primeiro ídolo do futebol - e fiquei com o sonho de vestir aquela bela camisola patrocinada pela Nintendo. Não a vesti.
Falaram-me dos jardins (ao crescer em Castelo Branco, ouvia que o Jardim do Paço era uma miniatura dos alegadamente magníficos jardins de Florença). Não fui lá.
Falaram-me das praças, das catedrais, dos museus, das estátuas, da Galleria degli Uffizi, do Batistério de São João, da Ponte Vecchio. Tudo coisas que eu não vi, lugares onde eu não estive.
Falaram-me que ia ser uma viagem mágica, que Florença ia ficar comigo para sempre. Isso, vai. Porque a minha viagem a Florença não teve nada do que me falaram, mas teve mais um concerto de David Gilmour. O terceiro.

Recordo que na noite anterior tinha visto o segundo concerto da digressão, na Arena de gladiadores de Verona. Por isso não houve tempo para tretas de turismo. Na manhã seguinte, foi levantar e apanhar o Frecciarossa em direcção a Florença. Siga para bingo.

Chegado à estação de Santa Maria Novella, sigo directamente para o Ippodromo del Visarno.
Junto ao hipódromo, quase a bater nas seis da tarde, ouço sons de instrumentos vindos do palco. Estão a fazer o soundcheck! Começam com alguns temas do novo álbum. Nesta altura, dois concertos e outros tantos soundchecks depois, os temas já não constituem grande novidade. Até aqui, a setlist dos concertos fora sempre a mesma e não esperava grandes alterações para esta noite. Mas fico por ali. Para quê ver as maravilhas de Florença quando se tem a maior das maravilhas sonoras mesmo ao pé de nós?

Ouve-se um som grave. "É a introdução de "Sorrow"", penso. Confirma-se: David pratica o choro da sua Stratocaster. Ainda não ficou bem no "ponto", mas está quase.
Pausa.
Conversa-se no palco. Volta a ouvir-se o mesmo som grave. toum-toum... tãe-tãe... "Coming Back To Life"!!! Quatro notas chegam para identificar novo elixir da alma retirado de "The Division Bell". É a novidade da noite, espero.

Na foto não dá para ver, mas por trás daquelas árvores vem o som de "Coming Back To Life".

Ao contrário do concerto de Verona, em Florença há lugares marcados, por isso a entrada é feita de forma ordeira e lá dentro, salvo alguns grupos demasiado entusiastas, está um ambiente relativamente pacífico. Pelo menos até eu ter a brilhante ideia de comprar um Tour Program. Vendo o motim à frente da barraca do merchandising, hesito. Mas "estou de canadianas", penso. "O que é que pode correr mal?". Mal sabia eu.
Aproximo-me da multidão junto ao merch e não passa muito tempo até que se dê início ao empurranço... Que poucos minutos depois, dá lugar ao esmagamento. Canadianas? Who cares? Os italianos de certeza que não. Ao meu lado está um senhor com os seus 50 anos, aspecto fino de latifundiário da Toscana, que me põe a mão na cara e me empurra para trás para ganhar posição, num gesto que na grande área daria lugar a penalty. Siga para bingo.

O concerto (o terceiro) foi, musicalmente, o melhor de todos. Depois da insegurança de Pula e da tensão de Verona, em Florença, a banda já estava coordenada e saiu tudo quase ao milímetro. E tivemos, claro, a grande novidade: "Coming Back To Life". Faltou a mística das arenas romanas, a virgindade de Pula e a electricidade de Verona. Lados diferentes das mesmas moedas. Florença foi mais polido, mas também mais previsível.

Fiquem com "High Hopes":

David Gilmour - "High Hopes" live at Ippodromo del Visarno, Firenze

Posted by Nuno Bento on Quarta-feira, 16 de Setembro de 2015


No fim do terceiro concerto em apenas quatro dias, já estava habituado a isto. Tirar-me esse hábito foi como se me privassem da minha heroína (não que eu já tenha passado por essa experiência, ok Mãe? Eu sei que lês isto), mas já não dava mesmo para seguir David para Orange, demasiado fora de mão. A Oberhausen, foi o "Miguel" (esse mesmo) e a Londres, só se fosse doido, tendo em conta os preços dos bilhetes para o Royal Albert Hall. Era preferível ir aos EUA, ao outro lado do Mundo, na légua de 2016 da digressão, do que ir a Londres. Por isso, olhem, vou mesmo (por esta é que não estavas à espera, não é Mãe?).

Em 2016, lá estarei em Los Angeles, no histórico Hollywood Bowl, casa de noites lendárias de Beatles, Elton John e tantos outros, para mais duas doses de David (com possibilidade de uma terceira, no Forum de Inglewood). Siga para bingo.



terça-feira, 6 de outubro de 2015

Paul McCartney & Michael Jackson - "Say Say Say" (2015 Remix)

Dizem que a Segunda-Feira é o pior dia da semana, mas não para mim. Para mim, é a Terça-Feira que devia ser despejada numa sala às escuras com o Pedro Guerra e o Bruno Carvalho. Terça-Feira é o dia em que a ressaca do último fim-de-semana já desvaneceu e ainda estou demasiado longe de Sexta-Feira para pensar em abrir o Jameson. Terça-Feira é o dia em que passo a hora de almoço na aula de francês (desculpa lá, Gorete) - fala-se muito nas vítimas do holocausto, mas só fala nisso quem nunca teve aulas de francês quando devia estar a comer um bom bitoque.
A Terça-Feira é uma merda, ponto.
Serve este raciocínio para inferir que o que a minha Terça-Feira precisava era disto:

"Say, say, say what you want, but don't play games with my affection"

Paul McCartney and Michael Jackson 'Say Say Say [2015 Remix]'

Paul McCartney and Michael Jackson - '#SaySaySay [2015 Remix]'Song taken from 'Pipes of Peace 2015 Remaster' - in stores nowVideo directed by Ryan Heffington#PaulMcCartney #MichaelJackson #PipesOfPeace

Posted by Paul McCartney on Terça-feira, 6 de Outubro de 2015


aqui dissera que no fim da década de 70 e início da década de 80, Michael Jackson e Freddie Mercury eram bons amigos. Mas o verdadeiro mate de Michael nesta altura era mesmo Paul McCartney. Talvez o Cute Beatle se revisse na dureza da fama precoce de Michael e o quisesse ajudar, ajudando-se também a si mesmo, ao navegar na onda da maior superestrela mundial da época.
Paul já tinha sofrido com a Beatlemania e era de facto, a pessoa indicada para aconselhar Michael. E aconselhou-o bem: Paul persuadiu Michael a investir bem o seu dinheiro, aplicando-o em direitos de autor. Michael foi bem mandando e em 1985 investiu muitos milhões em direitos de autor de músicas... dos The Beatles (aproximadamente 47.5 milhões de dólares por 160 a 260 temas, incluindo "Yesterday" e "Let It Be"). E assim a amizade terminou abruptamente.
Paul só recuperaria os direitos das suas próprias canções em 2013, já depois da morte de Michael.

Mas voltemos aos tempos em que Mack and Jack eram best mates.
Uma amizade entre duas estrelas nos anos 80 significava a palavra mágica dueto (onde é que andam os duetos hoje em dia? Eram uma coisa tão boa nos 80s. Mas onde é que andam as estrelas, anyway?). Macca e Michael juntaram-se várias vezes em estúdio entre 1981 e 1982 e dessa colaboração nasceram dois temas: "Say Say Say" (1981) e "The Girl Is Mine" (1982). O primeiro tema a ver a luz do dia até seria o segundo a ser gravado - "The Girl Is Mine" - como o primeiro single do álbum megaseller "Thriller". "Say Say Say" só seria lançado em 1983, como single de avanço do álbum "Pipes Of Peace", de Paul McCartney.


"Pipes Of Peace" foi esta semana lançado em formato de luxo, conjuntamente com "Tug Of War" - o álbum que juntou Paul e Chris Martin (o produtor dos Beatles) novamente. E que grande álbum.
É nessa campanha que agora surge a nova remistura de "Say Say Say", com honras de novo vídeo. E que grande remistura foi feita aqui. O conceito foi simples, mas eficaz: pegaram nas faixas vocais originais de Michael e de Paul e trocaram as linhas que cada um cantava, relativamente à versão original. Podemos assim praticamente afirmar que as versões de 2015 e 1983 são complementares.
Eis o original:



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

New Order - "Tutti Frutti"

"Non è ancora il momento di entrare. Non è ancora il momento di..."


Antes de mais, uma constatação: a capa do novo álbum dos New Order é uma das melhores artworks que vi nos últimos anos. É uma ideia tão simples e tão enigmática. Será que estão lá um M e um C, das iniciais do álbum? Ou estão lá um N e um O, das iniciais da banda? Será que é uma mensagem subliminar que eu não consigo ler? Fuck knows. Passo dezenas de minutos a olhar para aquilo e não faço a mínima ideia do que é. Mas é espectacular. Se consegue pôr a imaginação a trabalhar, não se pode pedir mais.




Para além da capa, o que dizer então deste "Music Complete" - o primeiro álbum dos New Order desde a saída do meu elemento preferido da banda, Peter Hook? Cuidado. Muito cuidado. Ou "foda-se!", também podemos dizer isso. No meu livro, "Music Complete" é somente o melhor álbum dançável desde que o "Invaders Must Die" dos The Prodigy invadiu os meus ouvidos em 2009 e é somente o melhor dos New Order desde 1989, ano de "Technique". Chega para vos chamar a atenção? Boa.

O arranque de "Music Complete" é feito com "Restless", um típico single dos New Order. Bernard Sumner põe-nos logo à partida em casa, confortáveis, quando nos pergunta "how does it feel?". Onde é que já ouvimos isto? Numa segunda-feira azul, talvez? Pois. O tema poderia vir dos anos 80, mas também poderia vir dos 90s, ou dos 00s, de tão New Order que é. Instant classic. É a música mais amigável do álbum e o single óbvio.

As coisas ficam mais interessantes quando passamos para o segundo tema. "Singularity" começa como um tema dos Joy Division, mas por volta da marca dos 50 segundos salta para território dos New Order. Fica marcado o antagonismo entre a música downer dos JD e a música upper dos NO e como elas podem funcionar na mesma personalidade densa que é a banda de Manchester.

Falando em Manchester, é para lá que vamos logo a seguir em "Plastic". Logo no início levamos com Acid House e BUM, estamos na Haçienda. Fookin' Madchester all over again. É possível ter saudades de um tempo que nunca vivi, num lugar onde nunca estive? Não interessa. Que saudades da Haçienda, onde estão agora aqueles apartamentos trendy (mas ofensivos) e um dia foi o sítio mais cool mancuniano. O álbum, esse, continua a ganhar passada. 

Hook já não está lá, mas os hooks não faltam em "Music Complete" (haha, viram o que eu fiz? ya, brutal). A cavalgada do refrão de "Tutti Frutti" (You've got me where it hurts / but I don't really care / cause I know I'm OK / whenever you are there) é mais um clássico Pop. Mas o toque de Midas vem a seguir, quando entra a voz de um narrador de um qualquer filme soft porn italiano de Tinto Brass (julgava que nunca ia mostrar a minha sabedoria nesta matéria), a atirar "TUTTI FRUTTIIIIII". Eishhh... E ainda só vamos no quarto tema.

Depois chega o funk. Porra, que os velhotes de Manchester querem mesmo bater em todas as portas da dança. O riff de piano de "People On The High Line" é das maiores pérolas deste álbum, a lembrar aqueles doces Pop deliciosos dos early 90s, quando George Michael e Madonna davam masterclasses de como fazer um single Pop.

O resto do álbum? Sei lá! Hei-de ouvi-lo brevemente. Para já, estou em audição repetida e obsessiva da primeira metade. As primeiras 5 faixas são do melhor que tenho ouvido no panorama da música dançável. Que maravilha de álbum. Agora que a música de dança está tão em voga e é tão popular (tomando conta até dos festivais, como sabemos), os velhotes voltam a mostrar quem é que sabe disto.

"Music Complete" entronca um árduo desafio para mim. Numa altura em que ainda estou a recuperar de um pé partido e não posso dar azo à grande motivação deste álbum - DANÇAR - como é que eu consigo ouvir isto sem, no mínimo, bater o pé? Não me fazem a vida fácil, estes senhores dos New Order.

Nota: Falta-me fechar a saga do Rattle That Broken Foot Tour, eu sei. Mas tive que fazer um interlúdio para os New Order, não conseguia aguentar mais calado sobre este álbum. Este tema é parcialmente em italiano, por isso estamos enquadrados.

sábado, 26 de setembro de 2015

Papa Francisco - "Wake Up! Go! Go! Forward!"



Depois de David Gilmour​, também o Papa Chico tem um novo álbum na manga para este ano, subindo para dois o número de divindades com novos trabalhos em 2015.

As promotoras portuguesas já estão no terreno para trazer o Papa Chico a Portugal, mas consta que o sumo pontífice já recusou o Sudoeste devido ao cartaz ridículo, vetou o Alive devido à barraca da Control e não quis o Rock In Rio em protesto pela saída da Roberta dos Ídolos.

Nas cogitações estão agora duas datas, uma no Estádio Nacional e outra no Santuário de Fátima. Consta que o Papa Chico vai trazer o espectáculo completo, com ecrãs gigantes, lasers e insufláveis. Espera-se uma setlist com os grandes êxitos, mas o Papa já avisou que não toca o "Comfortably Numb" no encore, a não ser que o David Gilmour e o Roger Waters​ se juntem em palco novamente.

A abrir estará o Bispo de Portalegre, que também traz um novo álbum de covers de Bruce Springsteen​ em Death Metal, contando com faixas como "Jesus Was An Only Son", "Adam Raised A Cain" e "Born In Portalegre".

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

David Gilmour - "Faces Of Stone"



Rattle That Broken Fout Tour Journal

Tomo III - Gilmour e Gladiadores no Arena di Verona

As lutas de gladiadores que animavam o Império Romano tinham quatro desfechos possíveis para os intervenientes: ou ganhavam; ou perdiam e morriam em combate; ou perdiam e o público ordenava-lhes a morte apontando o polegar para baixo; ou perdiam e o público poupava-os por bravura ou misericórdia. De todos os desfechos, o quarto era o mais raro. Ao sentar-me nas bancadas de pedra do Arena di Verona para um espectáculo expectavelmente menos sanguinário, percebi porquê.

O concerto de David Gilmour no Arena di Verona foi uma experiência surreal, para contar aos filhos e netos. Foi um regresso aos tempos de glória do Império, das lutas de gladiadores, quando havia uma contagem de baixas do público no fim do espectáculo. Muito álcool, muita droga à minha volta e nem sequer faltou a cena de porrada para animar. Surreal, mesmo.

Mas comecemos pelo início. Sair de Pula a um Domingo (o concerto fora no Sábado) e chegar a Verona para o segundo concerto não foi fácil. Desde logo porque não havia transportes. Autocarros para o estrangeiro, ao Domingo, nem vê-los. Aviões, só acima dos 1 000€. A alternativa eram os barcos. Mas como estávamos em Setembro — época baixa — só havia um ferry a sair da Croácia para Veneza nesse dia e era em Porec, a quase 100 kms de Pula. Ah e era às 7 da manhã. A minha única hipótese era assim apanhar um autocarro que saía de Pula às 5 da manhã e rezar para que ele não se atrasasse.
Bem dito, bem feito: o autocarro chega a Pula às 5:30 da manhã. meia hora de atraso. Foda-se. Furioso, dirijo-me ao condutor, explicando-lhe que preciso de estar em Porec às 7:00, misturando discurso em inglês com vernáculo em português. Imaginem um "I need to be there at seven, caralho!", à boa tradição benfiquista do Toni no Irão.

Talvez motivado pelo vernáculo que ele não entendia, o condutor arranca numa corrida desenfreada rumo a Porec, tirando vantagem do parco trânsito matutino, mas numa velocidade claramente desaconselhada para a segurança do veículo e dos seus ocupantes. Pouco antes da paragem em Rovinj... PA-PAUM!! ...o autocarro tropeça num buraco que deixa a suspensão num perceptível mau estado. Resultado: paramos em Rovinj, esvazia-se o autocarro e espera-se pelo seguinte. O tempo que o condutor recuperou no caminho, esfuma-se novamente. Mas ele tranquiliza-me que chegaremos a Porec a tempo, mesmo contra as leis da Matemática e do Google Maps, com o ar assustadoramente assertivo de quem relativiza as regras de trânsito. Mas chegamos mesmo: às 6:55, estou a Porec... para descobrir que o ferry vinha uma hora atrasado.

Chegado a Veneza, regresso à Praça de São Marcos para recordar o concerto que me introduziu aos Pink Floyd aos 5 anos. Mas não sem antes virar um pequeno almoço à campeão: uma caneca de litro.



Sigo para Verona. Segundo concerto do David Gilmour e logo num dos recintos que sempre quis visitar: a Arena di Verona, onde os Simple Minds gravaram um vídeo histórico nos late 80s. Depois da Arena de Pula, é mais um concerto num anfiteatro romano.


Fast-forward para o concerto. À chegada à Arena di Verona, não há lugar para me sentar. Ou o tráfico de bilhetes esteve ao rubro, ou os italianos venderam mais um terço da capacidade da Arena, na esperança que "cabe sempre mais um". Ando eu de canadianas, a mancar exageradamente para chamar a pena de algum bom samaritano, mas ninguém se oferece sequer para se desviar um bocadinho (não há cadeiras, o cu ia mesmo na pedra). É cada um por si. Depois lá me consigo sentar numas escadas onde nem sequer posso ver o David, que está tapado pelas colunas. É como os lugares da ACAPO no estádio do Alvalade. Isto está bonito.

  
Penso em protestar, mas como? Não há ninguém indignado com a organização, todos agem como se fosse tudo normal. E protestar com quem? Seguranças? Stewards? Nem vê-los. Se houvesse problemas à séria, isto era um festival de pancadaria à antiga, com corpos a rebolar pelas bancadas de pedra até lá abaixo e cânticos em latim de sacrifícios divinos, como nos bons velhos tempos do Império. Há uma equipa da cruz vermelha, sim. Mas passam o concerto a filmar o palco, sentadinhos em lugares de honra. Maravilha.
O que não falta são tipos a vender cerveja. É vê-los a subir aquelas bancadas de pedra íngremes sem qualquer protecção ou preocupação. Não pode faltar cerveja com fartura, para satisfazer este público dos gladiadores, que bebe como se a bexiga não tivesse limite.
Se nas bancadas há gente a mais, lá à frente não há gente nenhuma. Ou as primeiras filas faltaram ou o David tem medo destes italianos, porque nunca vi um espaço tão grande entre a primeira fila e o palco. 

Neste cenário reminiscente do Século I, penso que só falta mesmo uma boa cena da pancada. E ela aí está! Mesmo na minha fila. O que vale é que a porrada se dá entre um tipo que é um cruzamento entre o Totti e o Michael Scofield e um que parece o Fernando Mendes do Preço Certo em Euros. O Fernando Mendes viu à partida que não tinha grande hipótese, mas ainda assim levou três tabefes de mão fechada, mesmo ao lado da mulher e dos filhos. Não contente, o Totti Scofield ainda lhe arrancou os óculos, atirou-os para o chão e pisou-os repetidamente. Só visto.

Dito isto, por mais incrível que pareça, Verona foi uma experiência interessante. O concerto perdeu obviamente para Pula, mas só porque depois de chegar ao Olimpo, só se pode descer. A performance da banda até foi melhor: David já não borrou a pintura tantas vezes (só o solo de "The Blue" é que foi destruído pela distorção nos agudos) e até tivemos um "Comfortably Numb" para a história. Mas as distracções à minha volta eram tantas, que o espectáculo no palco era apenas um dos factores de interesse.


Mais que interessante, Verona foi uma experiência surreal. A Arena é uma sala de espectáculos lindíssima, um anfiteatro romano clinicamente preservado, que nos leva até aos tempos dos gladiadores. Não há guardas, não há cadeiras, não há protecções, nada. É tudo como dantes. E se mais alguma coisa faltasse, a negligência da organização e do público transporta-nos até à época do Império. É uma viagem no tempo, como se Caligula ainda ditasse leis na Lusitânia.

Se alguém disse que o Rock está morto, tem que vir a Itália. Onde haviam combates de gladiadores, há hoje concertos Rock. A sede de sangue é a mesma.

Próxima paragem: Florença.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

David Gilmour - "In Any Tongue"



Rattle That Broken Fout Tour Journal

Tomo II - Um Fariseu em Pula, três contactos

Conta o Novo Testamento que quando os Fariseus conheceram Jesus, não ficaram muito impressionados. Os Fariseus sabiam de estórias de um Rei cujo reino "não fazia parte deste mundo", um Rei dos Reis, mas quando lhes apareceu, Jesus era "apenas" um homem mal vestido que falava de maneira diferente. "O quê? É isto?! É este gajo? Este gajo está vestido pior que nós!", terão protestado os Fariseus, num qualquer dialecto hebraico.

Quando eu tive o David Gilmour à distância da minha canadiana na Arena de Pula, por três ocasiões diferentes, lembrei-me deste episódio bíblico. Durante toda a minha vida, tive Gilmour como um ser divino, criador de sons que me definiram, autor de obras que engrandeceram a minha existência, um ser perfeito. Mas agora, este ser divino estava ali, tão perto de mim, mais perto do que eu poderia imaginar quando aos 5 anos de idade, o meu Pai me submetia repetidamente ao concerto de Veneza até eu decorar a arquitectura da Praça de São Marcos. Pude-lhe ver as rugas, o medo de ser engolido pela multidão, a insegurança de quem já não tocava ao vivo há 10 anos, a preocupação de quem pelejava para que nada falhasse, o ar frágil de quem borrou a pintura numa série de solos e o alívio de quem chegou ao fim da primeira noite deixando tudo o que podia em palco. Vi tudo como um qualquer Fariseu que teve o acaso de se cruzar com aquele a quem chamavam o Rei dos Reis.

E assim pude ver que David Gilmour é "apenas" um homem vestido com uma t-shirt preta. Um homem com fragilidades, medos e dúvidas. David é, afinal, humano.

Mas vamos ao princípio. Recuemos 24 horas.

Chego a Pula no dia anterior ao concerto e vou directo para a Arena. Estão a montar o palco e pasme-se, as visitas turísticas ainda estão abertas!
Entro.
WOWOWOW!!! O que é isto? Caixas dos Pink Floyd?!


Ando no meio do equipamento do David Gilmour, a maioria ainda remonta aos tempos dos Pink Floyd. Quase todas as caixas têm a inscrição PINK FLOYD WORLD TOUR. Nem acredito que me deixam andar ali.
Depois de uma hora estarrecido em frente ao equipamento com um estranho sentimento de "foda-se, estou mesmo aqui", dou uma volta ao recinto e deparo-me com o camarim de David Gilmour. Amanhã à noite estará ocupado.



Ao fim da tarde, enquanto virava canecas de cerveja croata num bar com vista panorâmica para a Arena (a foto fala por si) e trocava histórias de vidas Floydianas com um fã turco, David aparece para o soundcheck. Sem mais, começa a despejar temas do novo álbum, um depois do outro, seis no total, quatro deles ouço pela primeiríssima vez (só conhecia "Today" e Rattle That Lock"). Incrível, um concerto de borla! Dois destes temas conquistam-me desde logo, com solos directamente saídos do Olimpo (saberia mais tarde que dão pelo nome de "Faces Of Stone" e "In Any Tongue". Ouçam este último no vídeo em cima, é uma bomba.).
Depois vem "Wish You Were Here". Esta todos conhecem, é vê-los de telemóvel em punho, a gravar o momento. Cena normal nos nossos dias. Mas David ainda tem mais uma na manga. Pam... Pam... Pam... Pam... "High Hopes"! A minha reacção neste momento não deveria ser descrita aqui, sob pena de perder a imagem máscula perante as meninas. Mas que se foda. Mal ouvi o sino, desatei a chorar descontroladamente, cara escondida no braço da canadiana. "High Hopes" é a minha música, o meu elixir. Naquele momento, tudo valera a pena. O pé partido, o risco da viagem solitária para a Croácia, o frio que rapei em Zagreb, tudo fora compensado. O sentimento era um misto de deslumbramento e de "o que raio está a acontecer?!".
Para quem não acredita, o próprio David partilhou no Youtube um vídeo do ambiente na esplanada com vista para a Arena.



À saída da Arena, a carrinha que levava David e a sua mulher Polly Samson passa mesmo à minha frente. Primeiro contacto. Estive a uma janela de David! Comigo, carregava um LP do meu álbum preferido ("The Division Bell", para quem não sabe) na esperança que David pudesse parar para assinar. Nos olhos dele, o medo de ser engolido pela multidão. Já visualizava a capa do melhor álbum de todos os tempos assinada, mas havia muita gente. Não é desta.
Ainda assim, levo uma recordação da minha visita à Arena de Pula. É o que dá deixarem os fãs andarem pelo backstage antes dos concertos. Agora quero ver como é que a banda se orienta para fazer chichi durante o solo de 10 minutos do "Comfortably Numb".


Dia de concerto. Porra, já não era sem tempo, a expectativa já estava a dar cabo de mim. Na camarata do hostel, acumulam-se rapazes de todo o mundo, ali de propósito para o concerto: um uruguaio, um argentino, um russo, um espanhol, um inglês e um português. Nações Unidas Floydianas. Com todos abaixo dos 25 anos, sou o mais velho ali. Conto histórias do meu concerto em Paris de 2006, do Roger Waters em Wembley e ganho logo a admiração da plateia. Fossem todas as plateias assim tão fáceis.
À tarde, aproveito para um mergulho no Adriático de canadianas, para espanto dos transeuntes na praia. O mergulho de canadianas até foi fácil, a grande aventura foi chegar ao mar. Falaram-me maravilhas das praias na Croácia, mas esqueceram-se de me avisar que as praias eram de calhaus, óptimas para um pé partido. Adiante.

Hora do concerto. Já conhecendo os cantos à casa, finto a segurança e consigo entrar com uma garrafa de Jameson. Ouvir Pink Floyd sóbrio também é fixe, é verdade, mas para que é que eu haveria de fazer uma coisa dessas?
Vou directo com o meu LP para junto do camarim do David. Poucos minutos depois, aí está ele. David sai do camarim. Segundo contacto.
"DAAAAVID!", grito em súplica. David vira-se e vem na minha direção. Quase a chegar, a um metro apenas, David repara que naqueles parcos segundos se haviam juntado dezenas atrás de mim. David pára. Vira-se. Vai-se embora.
"FODA-SE! Estive tão TÃO perto! FODA-SE!", gritei num português que pareceu aos demais um qualquer dialecto hebraico. Ainda não é desta.

Procuro o meu lugar. Que maravilha: segunda fila, ainda a inspirar o fumo saído do palco. E logo chega David. Com todas as rugas à minha frente, juntando o ar frágil de um homem de 69 anos, com a robustez de quem teve que aturar o Roger Waters durante quase duas décadas. Terceiro contacto.
Porque o som e as imagens são, como sabemos, louder than words, deixo-vos com alguns dos momentos em Pula (desculpem-me, não consegui carregar os vídeos do Facebook aqui. Se me puderem ajudar, agradecia).


"Wish You Were Here"

"Money"

"High Hopes"


Astronomy Domine
Posted by Nuno Bento on Segunda-feira, 14 de Setembro de 2015

"Fat Old Sun"


"Sorrow"

"Run Like Hell"




"Time"

Pula foi especial. Não sabia nada da setlist e tinha feito um aviso de excomunhão a quem ousasse quebrar-me esse segredo. Mesmo assim, a setlist foi mais ou menos aquilo que eu estava à espera. Mas quando David arrancou com o BRRRRRUMMMM de "Sorrow", saltei da cadeira, num grito que deve ter sido audível no outro lado do Adriático (na verdade são dois gritos e são bem audíveis no vídeo em cima). Foi o meu momento da noite.
O concerto não foi perfeito, mas foi memorável. O David fartou-se de meter água, mas foi humano. Pula foi especial porque estive mesmo ali, ao pé de David, vi que ele é "apenas" um homem. E passei a amá-lo ainda mais por isso. Porque David Gilmour não é um homem qualquer, é um homem que cria coisas divinas.

Fui à Croácia e à Itália à caça de momentos. Este foi o primeiro.




segunda-feira, 21 de setembro de 2015

David Gilmour - "5 A.M."



Rattle That Broken Foot Tour Journal

Tomo I - Três Prólogos

O início da história desta viagem remonta a Março. Não, pensando melhor, o primeiro prólogo remonta a 2006. Foi a 15 de Março desse ano que eu vi David Gilmour e Richard Wright ao vivo no Grand Rex, em Paris. Foi a melhor noite da minha vida. Foi uma noite para a eternidade, com "Echoes", "High Hopes", "Time" e "Comfortably Numb" a duas vozes, num lugar mágico e em circunstâncias irrepetíveis.
Mas o que é vida, se não a perseguição de um momento irrepetível? Foi por isso sem grandes dúvidas que, quando David Gilmour anunciou em Março a sua primeira digressão desde 2006 (segundo prólogo), eu comprei o número máximo de bilhetes possível. No total, três concertos em quatro dias: Pula na Croácia e Verona e Florença em Itália. Venham de lá esses momentos.

O terceiro prólogo desta história aconteceria em Julho, no concerto dos The Prodigy no Alive. Olvidando a minha idade, dissolvi-me num mosh pit cheio de miúdos com mais horas de ginásio que de livros e que, se eu fosse de outra etnia, já podiam ser meus filhos. Ao segundo tema, um destes jovens caiu em cima de mim e partiu-me o pé. "Ainda faltam dois meses para a Croácia", pensei eu. Os médicos profetizaram uma recuperação rápida que nunca se deu, mediante um descanso que nunca houve. E assim chego à semana da viagem em pânico, ainda a precisar de canadianas como o Dr. House precisa da sua muleta.

Vou ao médico. De certeza que o optimismo que ele demonstrou no passado me vai validar a viagem.
"E então doutor, acha que que estou em condições de fazer esta viagem?", pergunto.
"Não.", responde ele secamente. "Pode e deve ir de férias, para descansar; mas se a sua ideia de férias é cruzar a região do Adriático em 10 dias, o meu aviso é que não o faça. Se quiser, passo-lhe os papéis para as companhias aéreas".
"O doutor não está a perceber. Fazer a viagem não está em causa."
"Então o que quer que lhe diga?"
"Quero a sua aprovação."
"... Não posso fazer isso. Você está a arriscar. Tem mesmo que ir? É trabalho?"
"Não, é muito mais que isso. É o David Gilmour."
"Quem?!", pergunta o doutor, genuinamente confuso.
"O guitarrista dos Pink Floyd!"
"Ah, ok", suspira o médico, de semblante baralhado. "Nesse caso, se tem mesmo que ir, vá. Só lhe desejo boa sorte".

E assim lá fui para a Croácia, canadiana em riste, na perseguição de mais um momento.

domingo, 19 de abril de 2015

Queen - "We Will Rock You"

"I like it, sing it again!"


Os melhores 20 minutos da história da humanidade. Ou quase.

A memória mais antiga que tenho de um sonho remonta aos meus 6 anos de idade. O sonho foi tão vívido e tão marcante, que ainda hoje me recordo dele com exactidão.
Estádio do Wembley. Eu estou num concerto, mesmo à frente do palco. Em cima do palco, os Queen. Lá atrás, o símbolo do Live Aid e um relógio gigante. Os Queen tocam o seu set, mas no fim de um estrondoso "We Will Rock You", Freddie Mercury cai no chão, inanimado. O Estádio do Wembley tem um momento de silêncio aterrador, como se tivesse mergulhado no oceano. De repente, começam a ouvir-se gritos histéricos de horror, eu olho para o palco e o Freddie desapareceu. Sumiu-se.
Acordo em pânico.

Foi só um pesadelo, mas Freddie Mercury estava mesmo morto. Só não teve um final tão teatral e espectacular como o que sonhara. O sonho foi o resultado do impacto profundo na mente de um miúdo de 6 anos, após a perda do seu maior ídolo. A cobertura mediática do acontecimento e o documentário da BBC que passou na RTP no dia da sua morte, com a performance dos Queen no Live Aid, ficaram coladas no subconsciente daquele miúdo, que reagiu assim àquela tragédia. Foi como se a tivesse presenciado com os seus próprios olhos.

Foi assim que eu vi os Queen no Live Aid na altura. O mundo viu-o como "os 20 minutos que mudaram a música":



Fast-forward até hoje e já vejo as coisas de forma diferente. Agora, eu vejo os Queen no Live Aid como os melhores 20 minutos da história da humanidade. Ou quase. À frente, só as 2 horas do concerto dos Queen no mesmo local, um ano mais tarde. Independentemente da minha opinião, uma coisa é certa: durante aqueles 20 minutos, os Queen reinaram o Mundo.

Quando Freddie Mercury conduzia a audiência em "We Will Rock You" com um grito de "I like it, sing it again!", já milhares de milhões de espectadores em todo o Mundo moravam na palma da sua mão. O Wembley, esse já era seu, desde que "Radio Ga Ga" pusera as 74 mil pessoas que enchiam o estádio a bater palmas, com a coordenação de um comício nazi. E aqui reside a magnitude do seu feito: aquele não era sequer o público dos Queen.

No Wembley havia U2, Elton John, David Bowie, reunião dos The Who e Paul McCartney a cantar temas dos Beatles. No JFK, em Filadélfia, havia reunião dos Black Sabbath, reunião dos Led Zeppelin, Neil Young, Madonna, Duran Duran e Simple Minds. Todos os grandes nomes da Pop e do Rock estavam no Live Aid, incluindo os líderes das tabelas da época. A maioria da audiência em Wembley, pelo menos a falange mais nova, estava lá para ver os U2 (basta olhar para os cartazes à frente do palco). Aquele não era o público dos Queen, mas aquela era a noite de Freddie Mercury.

Naquela noite, Freddie queria mais do que o Wembley, Freddie queria o Mundo. E agarrou-o, ao dançar com o cameraman em "Hammer To Fall", como se desse a mão às 1.9 mil milhões de pessoas (um terço da humanidade) que o viam em casa. E foi assim, que na noite de 13 de Julho de 1985, o Mundo acordou para um facto que estivera o tempo todo à sua frente: não havia (não voltou a haver) um showman como Freddie Mercury, com uma capacidade sem paralelo para captar a audiência. O Wembley parecia uma pequena chávena, para o brilho da estrela que explodia em palco.

Assim foi a vida de Freddie Mercury: como uma estrela que brilhou muito, muito rápido, muito intensamente e explodiu, porque o universo não aguentava com tanto brilho.
O sonho daquele rapaz de 6 anos não fez mais do que captar esta metáfora na perfeição.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Capitão Fausto - "Interstellar Overdrive"



O Lux-Frágil vai ter que ser ressarcido depois do que os Capitão Fausto fizeram no concerto da última Sexta-feira. Alguém vai ter que pagar pelos estragos. Porque os Capitão Fausto mandaram aquilo tudo abaixo.

Talvez devido ao facto de estar sob o efeito simultâneo de antibióticos e de uma garrafa de vinho italiano (não ia ouvir a música do Syd Barrett sóbrio, não é?), ou talvez devido ao facto de ter sido um concertão, daqueles que são alvo de lendas que se contam a filhos e netos, saí do Lux com a sensação de ter visto a melhor actuação de uma banda portuguesa em toda a minha vida. E já vi muitas, acreditem.
São palavras fortes, bem sei. Mas do lado dos Capitão Fausto estava um leque de canções invencível. Foram essas canções - as canções de Syd - que chamaram o público que encheu o piso de baixo do Lux. Houve temas de "The Piper At the Gates Of Dawn", "A Saucerful Of Secrets" e também alguns temas a solo do ícone britânico. Mas a partir desses temas invencíveis, havia tanto por onde errar; tantas armadilhas onde tantas vezes vezes caem as bandas que arriscam covers de temas tão sagrados como os dos Pink Floyd. Os Fausto não só evitaram todos os alçapões, como deram à música o seu cunho e tiveram no Lux uma noite épica for the ages. Para ser perfeito, só faltavam as projecções.

Como é que lograram esta efeméride? Os Capitão Fausto não se limitaram a tocar de forma absolutamente fidedigna, nota-por-nota, as versões que ouvimos nos álbuns. Nem faria sentido, este era um live show. Por outro lado, também não caíram na tentação de inventar versões alienadas do cerne Sydiano. Para alcançar um equilíbrio, a banda tocou os temas de Syd, da forma como esperaríamos que Syd os tocasse ao vivo: pincelando um solo de guitarra aqui, estendendo um solo de teclas ali, fiéis ao álbum quando tinham que o ser e carregando no ruído psicadélico sempre que o tema chamava por isso.

O momento da noite? Está no vídeo lá em cima: "Interstellar Overdrive". Os Fausto não se fizeram rogados e tocaram uma versão de 10 minutos do tema que nos pôs a viajar pelas estrelas. Honestamente, na altura não percebi se foram 10 minutos, 20 minutos, ou 3 horas. Mas foi longo, foi mind-tripping e foi tudo aquilo que eu poderia desejar. Eu e não só. A audiência foi ao rubro em "Overdrive", a electricidade no ar era tal, que houve mosh junto ao palco (sim, leram bem) e houve crowdsurfing do Tomás Wallenstein - vocalista dos Capitão Fausto - enquanto tocava guitarra. Épico.

O público foi outro dos factores que elevou este concerto para o patamar de lendário. Do alto dos meus 29 anos, acho que era um dos mais velhos na sala. Olhei à minha volta e o que vi foram miúdos que gostam de Pink Floyd, conhecem os temas todos do Syd Barrett e cantam-nos de peito cheio. E fazem mosh quando a música pede uns encontrões.
Apesar do estrato etário novo, não houve telemóveis no ar, nem idiotas a tapar a vista com smartphones ou tablets. O público estava lá pela música. Foi um dos ambientes mais puramente Rock N' Roll que já presenciei.

No fim, a banda lamentou-se que nunca mais iria repetir esta noite, nunca mais iria tocar temas dos Pink Floyd e de Syd Barrett. Para eles, uma mensagem: conhecem aquele episódio do "Seinfeld", em que o Jerry e o George montam um estratagema para ele trocar a namorada pela amiga, através da sugestão de uma ménage a trois? E depois elas aceitam? Lembram-se do que o George diz? "This is like discovering plutonium by accident!". Eu acho que vocês também descobriram o vosso plutónio. Não estou com isto a sugerir que se tornem numa banda de covers, mas podem repetir a experiência, porque certamente terão procura. Mas acima de tudo, bebam daqui muita inspiração, porque vi-vos a nadar na vossa praia. 

Quando a banda voltou para o encore, estava eu convencido que iam sacar de "Astronomy Domine" (o tema mais óbvio, até por ser o tema da era de Syd mais tocado pelas incarnações posteriores dos Pink Floyd) e eis que a banda sobe ao palco com "PA PUM TE, TCH TCH; PA PUM TE, TCH TCH". E metade da audiência respondeu audivelmente, para faces de estupefacção da outra metade: "ÓI ÓI, ÓI ÓI". Mágico. "Pow R. Toc H.". Confesso que por esta não estava à espera.

Na verdade, toda a noite foi de surpresas. Enquanto gritava a plenos pulmões no segundo tema do set "AAAAAAPPLES AND ORANGEEEEEEES!" comentei que nunca pensei ver estes temas ao vivo. E não. E foi a melhor merda de sempre. Pelo menos desde a semana passada. A sério, foi de um nível de brutalidade que só o Mike Tyson nos poderia explicar. Malta, vá lá, não me tirem isto agora, fiquei viciado.
Se os Fausto cumprirem a ameaça e esta noite não se repetir, então pelo menos posso dizer que estive lá. Estive no Lux na noite em que a casa foi teleportada para a outra dimensão; aquela dimensão onde o Syd foi muitas vezes; tantas vezes, que certo dia por lá ficou.

Não tomei notas, por isso perdoem-me qualquer falha na setlist, mas de cabeça, os Fausto tocaram o seguinte:
"Arnold Layne"
"Apples And Oranges"
"Lucifer Sam"
"Matilda Mother"
"Scarecrow"
"Take Up Thy Stethoscope And Walk"
"Interstellar Overdrive"
"Octopus"
"Terrapin"
"See Emily Play"
"Dominoes"
"Jugband Blues" 
ENCORE:
"Pow R. Toc H."
"Bike"


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Noel Gallagher - "Riverman"

"The rain that comes..."


"Ram On"  UK Spring Tour Journal 
(Part 3)

Continuando daqui e daqui, ficam hoje com a terceira e última parte do meu diário de bordo, escrito a partir da minha segunda cidade preferida do Mundo – Londres (se quiserem saber, a primeira é Lisboa; se não queriam saber, paciência, agora já sabem).

Mas antes de continuar o diário, uma reflexão. Eu tenho uma teoria sob sustentação científica inatacável: a de que 2015 vai ser (e está a ser) o melhor ano de sempre. Esta teoria é baseada em três fundamentos:
–  vou ver o David Gilmour ao vivo três vezes este ano (ele actua com a mesma frequência da aproximação terrestre do cometa Halley), entre muitos outros concertos;
– a absurda e idiotamente optimista convicção de que o dia de amanhã vai ser do caralhão;
– o irritante hábito que eu tenho em afirmar taxativamente que isto e aquilo e tudo é o "melhor de sempre" numa qualquer categoria que eu invente na altura.
Este último levava uma colega minha a recorrentes suspiros de olhos semi-cerrados: "Nuno, nem tudo pode ser o melhor de sempre!" (agora isso já não acontece; eu não melhorei, ela é que deixou de trabalhar comigo). Então não pode, claro que pode. A minha ida "por acaso" a Liverpool já confirmara isso mesmo. Agora havia a (remota) possibilidade de uma jornada dupla de Noel Gallagher. Mas a verdade é que nem sempre as coisas correm como planeamos, especialmente quando temos todas as probabilidades contra nós...

Dia 7 – Brockley
O concerto "secreto" do Noel Gallagher começava às 8:30PM (estamos em Inglaterra, por isso vamos tratar de horas locais), mas às 3:00PM já estou à porta do Rivoli Ballroom, uma sala de bailes (é mesmo para isso que é utilizada) perdida algures em Brockley – um bairro que está para Londres como Famões está para Lisboa. Fica longe como a merda.
Mal chego ao local, vejo logo o caso mal parado. Os seguranças do Noel já cá estão e tratam logo de me avisar que a entrada é só por guest list; e sublinham que eu não tenho a mínima hipótese.
Não vacilo. Acabei de chegar e demorei mais de uma hora a dar com isto, agora não vou a lado nenhum.
Estão a ver o mapa de Londres? O Rivoli Ballroom fica ali no canto inferior direito, nem o metro lá chega.

Também já cá estão alguns dos fãs do Noel, daqueles que o seguem para todo o lado como os No Name Boys seguem o Benfica. Aliás, os No Name são uns meninos. É que uma coisa é ir a Paços de Ferreira atrás do Benfica; outra coisa é ir atrás do Noel para a Coreia do Sul. Hardcore stuff.
A maioria é malta muito mal encarada. Estranho. A excepção é o Brian, um texano que no ano passado viu 23 concertos e este ano ainda "só" viu 2, mas já tem bilhetes para todas as datas da digressão americana do Noel. O Brian está triste, porque não são assim tantas quanto isso. O drama do Brian é que o Noel "só" vai dar 17 concertos nos EUA, mas ele ainda tem esperança que marque mais. Isto é o que eu chamo um doido de chancela internacional. Julgava que eu era um ganda maluco, porque vou ver os 3 primeiros concertos da digressão do David Gilmour, mas isto é a Liga dos Campeões.

Às 4:00PM, começa a notar-se grande alvoroço entre os seguranças. Vem aí o homem por quem esperamos. Ou não. Chegam várias carrinhas com vidros fumados e Noel, nem vê-lo. Entretanto fico a conversar 10 minutos com um tipo chamado Mike, que parece ser da organização, a quem conto a minha história. Ele diz que não pode fazer nada, mas deseja-me boa sorte.
Nota-se um nervoso miudinho por entre os fãs, mas todos já estiveram ao lado do Noel várias vezes. Eu, nervoso miudinho? Nada disso. Estou mais em taquicardia de nível avião a jacto.
Enquanto os olhos estavam postos ao fundo da rua, do outro lado da estrada...
...Noel aparece vindo da estação de comboios à frente do Rivoli Ballroom. Palavras para quê, é um homem do povo. Mas um homem que vem visivelmente mal disposto. Noel ainda pára para uns autógrafos, mas quando a segurança aperta, ele vira costas e vai para dentro da sala, onde vai fazer o soundcheck.
Boa, conheci o Noel Gallagher! Bem, "conhecer" aqui é um hipérbole. Foi mais conhecer no sentido em que se conhece sushi quando se passa ao lado do Sushi Corner no Colombo, a caminho de um Big Mac no McDonalds.
A minha "situação" é que ficou ainda mais complicada, uma vez que tive uma pequena altercação com o Kevin (o segurança pessoal do Noel), que não me deixou sequer aproximar do Noel. O gajo com quem eu precisava de fazer amizade tomou-me de ponta. Isto está a correr bem.

As horas vão passando, o frio vai apertando e o ambiente também vai ficando mais gélido. A segurança fecha a porta interior da sala, o que nos impede de ver o soundcheck. Até o Brian (o fã do Texas) comenta que nunca viu um ambiente tão mau antes de um concerto do Noel. E ele já viu muitos, sabemos bem. Parece que ninguém quer estar ali e não é (só) devido ao concerto ser em Brockley. Começa-me a cheirar que o Noel foi enganado e comprometeu-se a dar um concerto de borla (lembro que não há bilhetes, só há mesmo guest list) sem saber.

Pouco depois, Noel volta a sair da sala e aqui já o consigo apanhar para uma foto. Quer dizer, "apanhar" aqui volta a ser uma hipérbole. A meio da foto, o Noel caga na cena e vai-se embora, deixando-me com esta cara de parvo. Noel, gosto muito de ti, mas essa merda não se faz. Not cool, man. Not cool. Se fosse o Liam, de certeza que não faria isto.
Às 6:00PM, chega o "Miguel" ao Rivoli Ballroom. Ele não conhece nenhum tema a solo do Noel, mas como apropriadamente refere: "de borla, até injecções na testa". Assim é que é falar.
Ao olhar para os fãs que rondavam a entrada da sala, o "Miguel" comenta assertivamente: "Nunca vi tantos cabelos à Gallagher juntos. Cuidado, estes gajos levam isto a sério." Mas quando lhe conto o ponto de situação, noto-o apreensivo. Toda aquela confiança de ontem pareceu gelar no frio londrino.

As portas abrem às 6:30PM e começam a ser distribuídas pulseiras a quem tem o nome na guest list. Falamos com umas miúdas da organização, munidas de uma lista em A3 com os nomes dos sortidos, mas não conseguimos nada. Que raio se passa hoje, que nem o charme lusitano nos vale?

Às 7:00PM, o frio implacável da noite londrina (ou brockliana, como quiserem) começa a dar de si: o "Miguel" começa a tentar seduzir-me com a ideia de umas pints no quentinho de um pub. Ao fim de 1 hora, já está a vacilar. E com razão, isto é de loucos.
Mas eu estou mais numa de seduzir as miúdas da organização.
Identifico a minha única hipótese: a miúda do gorro. É ela que nos vai pôr lá dentro. Já tinha tentado a minha sorte com ela, mas vou lá insistir, dar o meu charme mais uma vez.
Está difícil, ela continua a abanar a cabeça. Faço a minha melhor cara de cachorrinho abandonado. Nada.

Vacilo. Mas não há saída agora. Já estou aqui há 4 horas e sinto que neste momento não podemos desistir. É para ir até ao fim.
Neste ponto, já dei conversa a toda a gente da organização, já implorei a todos e nada. O mais revoltante é que todos os No Name que chegaram sem bilhete e sem guest já conseguiram entrar. Só para os tugas é que não há nada.

Vou à miúda do gorro mais uma vez ainda. Nada... Isto com as mancunianas era limpinho, mas aqui não está fácil.

O Miguel lembra-me o ridículo que será quando me perguntarem o que eu vi nas minhas férias em Londres e eu responder "Vi Brockley". Se não acham isto suficientemente ridículo, então refaçam esta analogia, mas com um turista que vem a Lisboa para ver Famões. Haha, que idiota.

São 8:00PM. Já não sinto os pés, nem cartilagens acima do pescoço. O "Miguel" já só abana a cabeça.
As tropas estão desmoralizadas.
Eu próprio começo a vacilar.


E eis que do nada, chega a miúda do gorro: "Já não aguento mais ver-vos aqui à espera, ao frio!" e dá-nos a desejada pulseira.
Venci-a pelo cansaço. Em engenharia, chamamos a isto rotura por fadiga.

Et voilá, 5 horas depois, estou dentro do Rivoli Ballroom.

Vejam bem estas caras de felicidade juvenil. Até os pés já estão mais quentinhos.
O concerto? Bem, o concerto foi bem melhor que injecções na testa.
Noel Gallagher tocou um alinhamento curto (13 temas), quase inteiramente composto por temas a solo (a excepção foi "The Masterplan", que fechou a setlist). O "Miguel" não conhecia nenhum tema a solo, mas não se importou muito com isso, uma vez que no 2º refrão de cada tema, já o cantava a plenos pulmões com um sorriso rasgado. Noel é mesmo um mestre dos singalongs.

Sentado nas teclas, está uma cara que me é familar. Olha, é o Mike! Afinal, o Mike com quem falara durante a tarde era o Mike Rowe, teclista do Noel.
A meio do set, Noel volta a mostrar a sua rabugice e justifica assim a ausência de temas dos Oasis:

"Não vou tocar temas dos Oasis porque: A) Vocês não pagaram; B) Tenho um novo álbum para vender; C) Vocês não pagaram e por isso, se depender de mim, podem-se foder". 

Se dúvidas houvessem, Noel confirmou o mau humor que já lhe tinha topado. Será que era por estar em Brockley? Não sei. A verdade é que no fim do primeiro tema, Noel perguntou com o mesmo ar enojado que o "Miguel" fizera no dia anterior: "What the fuck are you doing in Brockley?!". Só mesmo para te ver, Noel.

Acabamos a noite em Marble Arch, a comer o melhor kebab de todos os tempos. Pelo menos sabe-me ao melhor kebab de todos os tempos, depois de estar 12 horas sem comer. Que dia glorioso. Que noite épica. E amanhã há mais Noel.


Dia 8 – Londres
O dia começa com uma feira de discos no Old Spitalfield Market, perto da estação de Liverpool Street.

Saio daqui com uma cópia selada do "The Queen Is Dead" dos The Smiths. Depois da minha visita ao Salford Lads Club, vem mesmo a calhar.
Umas barracas ao lado, num vinil usado dos anos 70, um aviso curioso: "HOME TAPING IS KILLING MUSIC. AND IT'S ILLEGAL". Olha, isto soa-me familiar. Afinal a história dos downloads e a perseguição das editoras ao público já é uma cantiga com muitos anos, desde os tempos áureos do vinil. É uma cantiga que tresanda a naftalina, fede a bolor.
Compras feitas, passo por casa para deixar a mercadoria e sigo para o Royal Albert Hall.

É a minha estreia no RAH e posso dizê-lo sem exageros (até porque, como sabem, eu não sou um indivíduo de exageros): é a sala de espectáculos mais espectacular onde já entrei, de uma grandiosidade e magnificência que só é compreensível, estando lá.



Há aqui um grande senão. É que a vista do meu lugar é esta:

Brutal. Dei 50£ por um lugar onde vejo meio palco, o qual ainda está tapado por grades. Como a lotação está esgotada, nem sequer tenho hipótese de mudar de lugar. Ainda tento dar a banhada a um casal que se sentou ao meu lado, mas não tenho sorte. Os bifes perceberam que foram ludibriados e mandam o português sentar-se no seu lugar. Um pouco de História no RAH, mapa cor de rosa all over again.
O melhor é focar-me na música.

Às 7:30, entram os Future Islands. Desde que os vi tomarem de assalto o palco do David Letterman que fiquei maluco com eles. Este não é o seu público, mas os Islands não desapontam. O RAH começa com aplausos tímidos no fim do primeiro tema, mas o ruído cresce com o avanço do concerto e com o preenchimento da sala, principalmente quando Sam Herring começa a dançar. Ah pois, aquela dança.

Sam Herring prepara-se para fazer "a dança"; na foto dá também para ver que fiquei longe como a merda


Chega "Seasons (Waiting On You)", Sam faz a sua dança e o público responde audivelmente. Já fervem as bancadas do RAH. Sentado à minha frente, aparentemente alheio ao entusiasmo à sua volta, um snob londrino manda uma mensagem no telemóvel. Curioso como sou, dou uma olhada indiscreta (sim, eu sei que o que fiz é terrível e não se deve fazer):

"This dude on stage is quite probably the worst dancer I've ever seen, babe. Worse than me. 
Quite good band but lmao."

O pior dançarino do Mundo? Porque dança de forma diferente e despreocupada? Malta, não liguem a este snob (nem aos outros), o Sam Herring é awesome! Dancem como queiram, dancem como ninguém estivesse a ver!
#rant

O set dos Future Islands é curto (7 temas) e eles rapidamente saem de cena. Daqui a pouco temos (novamente) Noel Gallagher.

O ambiente à volta do concerto de hoje não tem nada a ver com o de ontem. Hoje respira-se electricidade positiva. Nos corredores do Royal Albert Hall, vêem-se fãs na casa dos 20, 30 e 40 (todo o espectro atingido pelos Oasis) a beber pints, contando estórias de concertos passados e partilhando expectativas para hoje. Sente-se o entusiasmo na sala.
Noel finalmente chega e TODA a gente se levanta. Yeah! O problema do lugar sem visão, afinal, não é problema nenhum. O meu lugar até é o melhor de todos, porque fica na ponta e dá para eu dançar à vontade. Hehe espectáculo.

O público veio para ver Noel and he delivers. Muito mais bem disposto que ontem em Brockley, toca na íntegra o seu alinhamento normal desta digressão, desta vez com direito a vários temas dos Oasis e a um coro lá atrás. Soberbo. Muito melhor que Brockley.

O momento da noite? "Fade Away", um lado B dos Oasis. Esse foi o meu momento, porque na verdade, todos os temas da antiga banda de Noel são recebidos em delírio pelo público, claramente com fome dos Oasis.
Por muito que a audiência adore o Noel (e adoram, pelo menos pagaram bem caro para estar ali), ela recorda-lhe várias vezes que ainda ama o seu irmão. Ao longo da noite, são vários os interlúdios que o público aproveita para gritar "Liam! Liam! Liam!". É impossível Noel não ouvir. Ouve de certeza. De tal forma, que às tantas franze o olho e diz qualquer coisa como:
"What?! Thought so...". 
Ignora. Mas continua: "This next song is for my brother, cos he needs it now. This is called Champagne Supernova.". 
Loucura na audiência. Acho que nunca vi nada assim.
Toda a gente canta de pulmões cheios aquela letra maravilhosa sem sentido nenhum ("Slowly wlaking down the hall, faster than a cannonball"?!). O homem que está ao meu lado chuta a namorada para o lado e põe o braço à volta do meu pescoço, enquanto grita aos meus ouvidos "Where were you while we were getting high?". E de repente, os Oasis quase estão ali outra vez. Só falta o Liam. Todos queremos o Liam. E o Noel sabe. Resta saber se vai continuar a ignorar.

No fim do concerto, o mate que insistia em agarrar-me – suspirando que a namorada não sabe o que um concerto do Noel significa, mas com a certeza que eu sei – revela que viu o Noel no O2 há 3 semanas, mas que a noite de hoje foi incomparavelmente melhor: "This night had energy, this night had heart", confessa.

No caminho para casa, sentado à frente de um double decker bus (onde é que eu já ouvi isto?!), miro o bilhete. As férias acabam aqui, mas poderia haver melhor final que este?


Dia 9 – Epílogo / Regresso a Lisboa
Já de regresso a Lisboa, em Heathrow lembrei-me de uma ex-namorada que estava sempre com o período atrasado. Não era nada de preocupante, ela trabalhava na TAP.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Paul McCartney - "Ram On"

"Ram on"


"Ram On"  UK Spring Tour Journal 
(Part 2)

Continuando daqui, hoje deixo-vos a segunda parte do meu diário de bordo, em plena Disneylan... Liverpool.
Antes disso, uma explicação: porquê "Ram On" ali no título? Riam-se à vontade, "Ram On" é o nome da viagem. Sim, do alto da minha nerdice, baptizo a todas as viagens que faço. O nome é invariavelmente escolhido em função da música que ouço nessa altura (todas as viagens têm uma banda sonora, que depois fica para sempre colada àqueles lugares) e nesta viagem, a predominância foi do 2º álbum a solo de Paul McCartney – "Ram". "Ram" é cozy e homey, como a maioria da música do Paul; e talvez por isso me tenha sentido em casa no UK. Há qualquer coisa de heartwarming na música do Paul – ela é caseira, quentinha e deliciosa. But I digress. Voltando à viagem.
Estava eu a planear as minhas férias em cima do joelho (como sempre faço), dois dias antes da partida e deparo-me com um tempo morto entre York e Londres. O que fazer? Regresso a Manchester? Boa ideia. E por que não dar um saltinho a Liverpool? Genial. Marquei hotel no minuto seguinte. E assim cheguei à Liverpool Lime Station, quase por acaso. Mal eu sabia que aquela fora uma das melhores decisões da minha vida.

Dia 4 – Liverpool
Chegado a Liverpool, vou directo ao Cavern na Mathew Street – o mítico bar onde despontaram uns tais de The Beatles. No caminho, levo nos ouvidos "Ram". "Ram" sabe especificamente a morangos fresquinhos e doces, acabadinhos de colher. Mas talvez isso seja de eu estar a comer morangos neste preciso momento. Adiante.

Hoje, o Cavern está dividido em dois: o Cavern Pub e o Cavern Club. Como seria de esperar, Beatles por todo o lado. Ao lado, uma estátua do John Lennon, a imitar a pose na capa do álbum "Rock ‘N’ Roll". Vou já meter-me com estas italianas para me tirarem uma foto ali.
Ok, afinal eram inglesas; bem que podia ter guardado o italiano que aprendi com o Trappatoni e poupava-me a vergonha. Isto com as miúdas corria melhor em Manchester.
No topo da rua está o A Hard Day’s Night Hotel (sim, existe mesmo), com uma megastore dos Beatles. Imaginem a Fnac, mas de dois andares, só com Beatles: t-shirts, camisolas, pijamas, bonés, aventais, posters, quadros, bancos, porta-chaves, almofadas, bonecos, canecas, pratos, copos, livros, discos, sei lá, tudo o que possam imaginar. Estão a ver a loja no fim da Disneylândia, que é o terror dos pais, porque os miúdos querem tudo? É isso, mas aqui sou eu o miúdo. Com a carteira dos pais.
A Hard Day's Night Hotel, com a loja dos Beatles virada para a Mathew Street

Fico de tal forma esmagado com tudo o que vejo à minha volta na loja, que a minha cabeça entra em tilt. No fim de contas, acabo por trazer "só" um porta-chaves do Sgt. Pepper. Isso e um coração partido, porque vi o hoodie (nome muito mais fixe para "camisola com capuz") mais cool de sempre e não havia o meu número. Damn. Mas isto não fica assim, acreditem.

Agora sim, o momento por que tanto esperava. Chego ao museu dos Beatles.

À entrada do The Beatles Story, dizem-me que tenho duas horas para ver dois museus, mas é tranquilo: mesmo que eu seja um daqueles nerds que gosta de ver e ouvir tudo, duas horas chegam perfeitamente. Bora.
Começamos com o Casbah (onde os Beatles se estrearam), o Kaiserkeller, o Star-Club (Hamburgo) e claro, o Cavern, aqui brilhantemente reproduzido:


Depois, chegamos a Abbey Road, onde os Beatles gravaram quase toda a sua discografia. Passamos na porta de entrada dos estúdios e temos os instrumentos todos ali: o baixo do Paul, as guitarras do John e do George, a bateria do Ringo. A bateria do Ringo é hands down a minha peça preferida do museu. Temos também o Mellotron com que os Beatles gravaram o "Sgt.Pepper" e o "Magical Mystery Tour". The real thing. Isto é muito melhor do que ir à Eurodisney com 10 anos.

As duas horas passam e nem a meio do primeiro museu eu consigo chegar. Estava tranquilamente a estudar o concerto no Shea Stadium, quando sou convidado a sair pelo impaciente staff, numa altura em que já as senhoras da limpeza varriam o chão. Nem ao Sgt. Pepper cheguei! O que vale é que posso voltar amanhã.
De regresso ao hotel, tinha no quarto à minha espera uma chaleira eléctrica, chávenas de porcelana e chá – o kit completo. Adoro Inglaterra.

Dia 5 – Liverpool / Londres
Começo o dia bem cedinho, às 7:30 (houvesse vontade para me levantar tão cedo para trabalhar e a minha vida seria bem diferente), para um glorioso English Breakfast no hotel.
Bacon, salsicha, ovos estrelados, feijão, torradas com muita manteiga e sumo de laranja. No fim, um chazinho. Adoro Inglaterra.

Às 9:30, já estou na The Beatles Shop na Mathew Street, que ontem me escapou. O motivo? O hoodie, obviamente. Não tenho sorte. Siga para o museu, que o tempo está contado até ao comboio para Londres, às 12:47.
O museu dos Beatles abre às 10:00 e às 10:00, eu estou à porta. Pontualidade britânica (deve ser a primeira vez na vida). Estou eu e está uma excursão sénior de chineses (ou coreanos; ou japoneses; não perguntei, mas isso não interessa para o caso). Que se lixe, vou passar à frente destes Miyagis todos, que não há tempo a perder. Começo onde fiquei ontem: "Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band". Dou com isto. Nice.

Depois, vem o "Magical Mystery Tour" (temos mesmo os bancos do autocarro, para nos sentarmos), o "Yellow Submarine" (entramos mesmo num submarino amarelo), o White Album e de repente, já estamos no fim. Ou sou eu que estou com pressa, ou eles claramente se desleixaram com os anos 1968, 1969 e 1970 – anos que os Beatles passaram em estúdio. Havia tanto para dizer... Enfim, na verdade também já não tenho muito tempo.

No fim, temos uma sala de design minimalista dedicada à memória de Lennon, onde ouvimos "Imagine". (então e o George, malta?!)

... e uma última sala dedicada aos Beatles a solo:
John:
Paul:
George:


Rin...:
...ora porra, ia jurar que tirei uma foto à secção do Ringo, mas não dou com ela. Queria ter um registo do melhor baterista dos Beatles, mas apareceu-me outra foto do Paul.
Haha, desculpa lá Ringo, eu adoro-te, a sério.

Contas feitas, o museu dos Beatles é dos melhores lugares que pisei em toda a minha vida. Confesso-vos que é difícil descrever o entusiasmo em estar aqui, mesmo em contra-relógio. Sinto-me como o miúdo de 10 anos que vê o Mickey pela primeira vez, ou aquele pastor de Pitões que foi a Lisboa ver o mar de helicóptero e conhecer o Mantorras. Qual Louvre, qual Smithsonian, qual Tate, o melhor museu do mundo fica em Liverpool e chama-se The Beatles Story (pelo menos até eu ir a Montreux e ver o museu dos Queen; ou ver aquele dos Pink Floyd que ia abrir em Milão, mas foi cancelado). Recomendo sem reservas, marquem a vossa viagem ainda hoje.

Com os minutos que me restam antes do comboio, ainda vou ao museu sobre a British Invasion (invasão cultural britânica dos EUA) e aproveito a oportunidade para me sentar pela primeira vez numa bateria, numa aula em vídeo do Ringo Starr. Acho que tive uma epifania: tenho que repetir isto.
Ringo, desculpa lá aquilo há bocado. Adoro-te, mesmo.

Não há tempo para mais, siga para Londres.











Mal chego à estação de Euston, tenho a brilhante ideia de ir para Camden com uma mala de 20 kg atrás. Malta, não tentem isto. O conceito de "aproveitar o tempo" não é válido quando tens que carregar uma mala de 20 kg ao longo de uma escada com 96 degraus [sim, as escadas rolantes estavam avariadas; e sim, estava lá escrito o número de degraus]. Isto não é aproveitar o tempo, é só estúpido.
Como ainda não estava preenchido no capítulo do exercício físico, ainda vou à London Beatles Store em Baker Street. O motivo?  Adivinharam, o hoodie. Mais uma vez, tão tenho sorte.
[Como sempre acontece nestes casos, fiquei obstinado pelo hoodie e nunca mais deixei de o perseguir. À hora que publico este texto, já deve vir a caminho de uma loja online dos States... que me cobrou a camisola duas vezes. A saga do hoodie ainda parece longe de terminar...]

Dia 6 - Londres
O primeiro dia em Londres é para compras. E compras em Londres significa discos, discos e mais discos. Ah e umas t-shirts também. Há uma loja em Notting Hill — Backstage Originals — que só vende merch de bandas Rock e é uma das lojas mais cool onde já entrei, uma das minhas paragens obrigatórias, sempre que vou a Londres.

Trago (mais) uma t-shirt dos Beatles, com desconto à pala de uma longa conversa com a miúda italiana (esta era mesmo) que lá trabalhava e que me prometeu uma visita a Sesimbra. O atendimento nesta loja é mesmo personalizado. Adoro Inglaterra, não sei se já disse.

A seguir, passo na Rough Trade ali ao lado e menciono ao Nigel (espero que o Nigel não se importe que eu use o nome dele) um concerto "secreto" que o Noel Gallagher ia dar em Londres no dia a seguir. O Nigel não sabe do que eu estou a falar, mas promete averiguar. Diz-me para lhe deixar o meu mail; se ele souber mais qualquer coisa, avisa-me. Deixo-lhe o mail, mas sem grandes esperanças. Nem um vinil levei, o que é que o Nigel se vai importar com um tuga?
Notting Hill, Soho, Camden e uma porradona de discos depois, está cumprido mais um objectivo da viagem. 15 discos na mala. Venham agora os concertos.

À noite, vou beber umas pints com um amigo que vive em Londres. Chamemos a este amigo "Miguel". O "Miguel" esqueceu-se das chaves dentro de casa (onde vive com a namorada) e por isso a noite prolonga-se. As pints multiplicam-se.
Vou ver o mail. Não acredito, o Nigel respondeu! O concerto secreto é no Rivoli Ballroom, em Brockley. Haha, lindo! Ganda Nigel. Esta viagem está cada vez melhor. "Brockley?! Ninguém vai a Brockley!", diz o "Miguel" com ar enojado. "Mas não interessa, vamos lá na mesma! Aliás, é como se já tivéssemos entrado!", profetiza o "Miguel". E assim brindamos a um concerto para o qual não temos bilhete e onde não fazemos a mínima ideia de como entrar. Sabemos apenas que temos que entrar. Típica chico-espertice tuga.

Se querem saber se conseguimos entrar no concerto secreto do Noel Gallagher, não percam a última parte do diário de bordo. Se não quiserem saber, leiam na mesma. Sempre se podem rir à nossa custa.