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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Queens Of The Stone Age - "I Appear Missing"

"A spitting image of me, except for the heart-shaped hole where the hope runs out"

Foi preciso chegar o 2º mês de 2014 para eu descobrir o melhor álbum de... 2013. Dizia-me um amigo que eu tenho andado a dormir. Tinha razão. Para deixar escapar "...Like Clockwork", só podia mesmo andar a dormir.
Honra seja feita à Rita - a amiga em quem eu mais confio para me apresentar música nova (recente, ou não). Ela raramente falha e aqui, acertou em cheio.



Faz agora uma semana, desde que ela introduziu o tema "I Appear Missing" na minha órbita e desde aí, fiquei agarrado.
Para terem uma ideia da dimensão do impacto sobre mim, segundo os registos do iTunes, já ouvi o tema mais de 30 vezes, isto sem contar com as visualizações no Youtube. Mas não ficamos por aqui: o meu mergulho no álbum mais recente dos Queens Of The Stone Age foi total e segundo os referidos registos, já foi ouvido na íntegra pelo menos 15 vezes. O frenesim absoluto, portanto.
Já não tinha um entusiasmo tão grande por um álbum novo desde 2011 e "Noel Gallagher's High Flying Birds".

Para Josh Homme - o vocalista, letrista e força motriz dos Queens Of The Stone Age - "...Like Clockwork" foi o produto de um processo de gestação muito complicado.
Para percebermos melhor a génese deste álbum, um pouco de História (esta foi também uma semana de estudo): desde 1998 até 2009, entre os QotSA, os Eagles Of Death Metal (que me foram apresentados como Pigeons Of Shit Metal através de um dos famosos rants de Axl Rose), os Them Crooked Vultures (que juntou Josh a Dave Grohl, dos Foo Fighters e John Paul Jones, dos Led Zeppelin) e os The Desert Sessions (que juntou Josh a um sem número de artistas, num projecto experimental), Josh lançou pelo menos um álbum por ano. Este ritmo de trabalho alucinante é inusitado nos dias de hoje e só comparável aos históricos artistas Rock nos anos 60 e 70. Porém, desde 2009, só se tem ouvido silêncio do músico californiano.
Em 2010, complicações durante uma operação ao joelho deixaram Josh Homme agarrado à cama durante 3 meses, atirando-o para uma depressão profunda. Consta que Josh terá até ponderado retirar-se da música.

O que se passou entre 2010 e Agosto de 2012 - quando os Queens Of The Stone Age regressaram ao estúdio para gravar este álbum - ninguém sabe ao certo. Mas terá sido esse o tempo que levou Josh Homme a marinar um audaz lote de canções, do mais catártico, profundo, honesto e revelador que já ouvi. Falo em audácia, porque contrariando a postura alfa que o caracteriza, Josh abre o livro neste álbum e mostra-nos os capítulos mais obscuros da sua vida.

"...Like Clockwork"  documenta a dobra de Josh Homme. Isto não é Rock pelo Rock, é Rock pela redenção, é Rock pela salvação da sanidade mental.
É aqui que "...Like Clockwork" fala fundo e bate forte no coração do ouvinte. No meu bateu com certeza e bateu com toda a força.
"Where are you hiding, my love? Cast off like a stone.
Feelings, raw and exposed when I'm out of control."

Também não sei o que se terá passado entre Josh e a sua mulher nesta época, mas boa coisa não pode ter sido. Se em "I Appear Missing", Josh descreve as suas lutas internas e os seus problemas de identidade, o que se ouve em "I Sat By The Ocean" parece induzir que a depressão que caía sobre Josh terá cavado uma distância entre ele e a sua mulher.
"Boy if you want love, you’ll have to go find it with someone new.
Do you know who you really are? Are you sure it’s really you?
Lies are a funny thing.
(...)
Silence is closer"
Quem escreve assim não anda na música para brincadeiras.
Este ângulo mais pessoal imprimido por Josh Homme foi acompanhado por uma abordagem mais melódica à música dos Queens Of The Stone Age. Certamente mais melódica do que aquela que os fãs estavam habituados, pelo que "...Like Clockwork" não foi recebido com o entusiasmo que merecia.



O processo de gravação do álbum foi, também ele, muito atribulado, com o baterista da banda Joey Castillo a ser despedido e substituído em metade das faixas por Dave Grohl. Para além de Grohl, o álbum conta ainda com as paticipações especiais de Trent Reznor (Nine Inch Nails), Alex Turner (Arctic Monkeys) e... Elton John. Exactamente, the legend himself, o enorme Elton John também está aqui e definiu "...Like Clockwork" como um dos melhores álbuns Indie Rock (o que quer que isso signifique) de todos os tempos.

Pela minha parte, enquanto tento evitar os superlativos absolutos (defini para mim próprio limitações nesse sentido, à falta de programas de reabilitação para o efeito), sem rodeios vos digo que estamos na presença de um álbum fenomenal, que condensa várias dimensões, musicais e emocionais, do melhor que o Rock nos pode proporcionar. Obrigatório.
Bastou-me uma audição para ficar completamente rendido a "...Like Clockwork". Imediatamente percebi que este foi, hands down, o melhor álbum de 2013 (vá, os superlativos absolutos ainda valem). Essa é uma característica das grandes obras-primas: é fácil reconhecê-las.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Arcade Fire - "Reflektor"

"It’s just a reflection of a reflection, of a reflection of a reflection."



E eis que após 3 meses de ausência (interrompidos apenas por Lou Reed), regresso hoje às lides do blog. Muito haveria para contar, mas o tempo é curto e a escrita preciosa.
Como tal, que melhor maneira de dar o pontapé de saída para o final de 2013 (que terá a inevitável revisão anual da matéria dada), que o álbum por que todos esperaram este ano? O álbum que foi feito em 2013 e que "fez" 2013? O álbum que epitomiza toda a cultura alternativa, exclusiva (cough... hipster), pseudo-intelectual, lustroso-por-fora/vazio-por-dentro dos anos 10's?
Falo, obviamente, de "Reflektor" - o 4º álbum de estúdio dos Arcade Fire.


Antes de mais, vou directamente à minha opinião sobre o álbum: "Reflektor" é um rochedo; um rochedo dançável. É um álbum duplo, com 13 temas e 75 minutos, fácil de degustar, mas difícil de digerir. É um álbum variado no estilo, rico nos ambientes, polido na produção.

Não era fácil suceder ao premiado "The Suburbs" (Grammy 2011), mas os Arcade Fire inspiraram-se nas memórias de acesso aleatório vindas de França e jogaram a sua sorte com um álbum que ambiciona conquistar as pistas de dança e manter a rodagem nos círculos alternativos.

Por outro lado, "Reflektor" é um álbum que vem carimbado com o selo da ironia, do sarcasmo, do cinismo e de todas as outras formas de retórica que devem masturbar a mente do mais orgulhoso hipster.

E é aqui que entramos na discussão que eu apimentei em cima. Já aqui falei dos hipsters e na acefalia da cultura da exclusividade. Note-se que os Arcade Fire não são impulsionares deste lustroso-por-fora/vazio-por-dentro característico desta década; mas no final de contas, são os hipsters o público-base da banda.
Era complicado aos Arcade Fire jogar com isto, mas eles fizeram-no e com mestria.

"Reflektor" é, acima de tudo, um álbum muito inteligente. Inteligente na forma e inteligente no conteúdo.
É inteligente no conteúdo porque é bom; aborda vários estilos (sem ser propriamente "inventivo") e arrisca, ainda que calculadamente, numa nova sonoridade.
É inteligente na forma, porque dispara em todas as direcções.
Com "Reflektor", os Arcade Fire querem fazer um disco maior que a banda, maior que a vida, maior que o Mundo; muito maior que o selo de Indie Rock hipster com o qual andam colados.
Mas por outro lado, os AF querem esse selo. Eles sabem que a sua base de fãs - sim, falo dos hipsters - querem ainda usufruir do prestígio da exclusividade, querem sentir-se especiais. Então os AF tentam ser irónicos, de modo a passar a mensagem: "Embora nos tenhas que partilhar com muitos outros, este álbum é para ti. Só tu é que nos entendes."

Diz a Pitchfork (publicação sempre simpática para com os AF) acerca de "Reflektor", enquanto invoca nomes de álbuns como "Low" (Bowie), "Exile on Main Street" (Stones), "The White Album" (Beatles), ou "Achtung Baby" (U2):
"The only way to make a Big Rock Record in 2013 is to make one that is skeptical of what it means to be a Big Rock Record in 2013."

Ah, pois, a ironia. 

"Reflektor", de irónico, tem muito pouco. Senão vejamos: "Reflektor" é um álbum Disco, num ano em que o Disco voltou; é um álbum grande (duplo), quando pretende ser um grande álbum; é um álbum que pretende lançar os AF aos grandes palcos e que lança os AF aos grandes palcos.
Os AF auto-proclamam-se irónicos, mas depois param em todos os apeadeiros do mainstream.
Eles vão "só" encabeçar o cartaz do Rock In Rio, ao lado de nomes como Justin Timberlake e Robbie Williams.

Ironia? BULLSHIT

O Noel Gallagher é que lhes tirou a pinta. (Leiam esta entrevista à Rolling Stone, onde Noel faz uma revisão de 2013, que é a melhor que eu já li nos últimos anos. A sério, pela vossa vida, leiam a entrevista!)

RS: Did you see that they've asked people to wear formal wear or costumes at their shows?[Arcade Fire has clarified that this dress code is "super not mandatory."]
Noel: [Sighs] Well, what's the point of that? Do you know what the point of that is? That is to take away from the shit disco that's coming out of the speakers. Because everybody's dressed as one of the Three Musketeers on acid. "What was the gig like?" "I don't know, everyone was dressed as a teddy bear in the Seventies." "Yeah, but what was the gig like?" "Ah, fuck knows, man, I have no idea. I was dressed as a flying saucer." "Yeah, but what was the gig like?" "Fuck knows. I don't know. Seen Cheech and Chong, there, though." Not for me.

A sério, que raio de ideia foi aquela de imporem um "dress code" nos concertos? Quem é que foi o idiota que se lembrou disto?
Não sei, mas foi um idiota... muito inteligente. Com este pedido bizarro (que depois foi moderado), os Arcade Fire mostram ao que vêm e a quem querem agradar - sim, falo dos hipsters. Colocam cá fora um disco (pun intended) para ser consumido pelo quasi-mainstream (não exageremos, também não são a Rihanna), mas querem seleccionar o público que aparece nos concertos e, mais importante que isso, querem perpetuar a imagem de banda alternativa. Querem vender tanto como os U2, mas manter a aura de reclusos da indústria.

"Reflektor" é reluzente (basta olhar para a capa) e pretensioso e ainda bem. Nada contra tenho contra o pretensiosismo na música, ou não fosse eu fã de Rock Progressivo, ou de Glam Rock.
Com este álbum, os Arcade Fire querem o bolo de noiva e querem os cupcakes; querem tudo. E têm todo o direito de o fazer; são precisas mais bandas que reclamem o ceptro da indústria musical.
Mas não me venham com balões e confettis de ironia, apoiados em loas da Pitchfork e da restante comunidade hipster.
"Reflektor" é uma declaração de take over dos Arcade Fire, uma OPA hostil do panorama musical.

Ironia, my ass. Irónico é o facto de eu estar a condenar a bajulação da crítica para com "Reflektor", quando todo este blog é um exercício de bajulação a música. Isso sim, é ironia.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Tears For Fears - "Ready To Start"

"If I was yours, but I'm not... Now I'm ready to start."

Já tinha aqui avisado em Março: os Tears For Fears estão de volta.
Pelo aparato, parecia ser algo em grande e os últimos meses confirmaram: vem aí um novo álbum, o regresso da banda às grandes digressões (nomeadamente à Europa) e uma edição especial de "The Hurting" - o 1º álbum dos TFF.

Estas revelações foram surgindo na internet, muito pela mão de Curt Smith, mas nada de oficial tinha sido anunciado ainda. Até hoje.
Aproximadamente às 00:00, o Facebook oficial dos Tears For Fears repetiu uma imagem enigmática que já tinha sido sido partilhada a semana passada:



Os Tears For Fears estão de volta com... um cover dos Arcade Fire.
Apropriadamente, para dar início às hostilidades, "Ready To Start":





O cover vinha com uma dedicatória especial, onde Curt e Roland parecem querer piscar o olho à geração mais nova, homenageando os artistas que ao longo dos anos foram interpretando temas dos TFF:
Having appreciated artists like Kanye West, Katy Perry, Kimbra, Nas, Gary Jules/Michael Andrews, Adam Lambert & Dizzee Rascal covering and sampling our songs over the past years, we agreed that some reciprocal cross-generational love was in order. We decided to give Arcade Fire a twist of TFF. Enjoy.
Curt Smith e Roland Orzabal

[Aparte: Apreciaram o Kanye West e a Katy Perry? Medo!]

"Ready To Start" é um original dos Arcade Fire, incluído no álbum (muito bom) "The Suburbs" de 2010 e lançado em single na época.
Fica aqui a versão original dos Arcade Fire:



Curiosa, esta escolha de um tema dos Arcade Fire, a banda hipster mais mainstream da actualidade (ou será que é a banda mainstream mais hipster?).
Em qualquer dos casos, é seguramente uma das bandas que mais acende o paradoxo hipster / popular da cultura ocidental. Muito os hipsters devem coçar as cabeças debaixo daqueles chapéus, para decidir se podem gostar ou não dos Arcade Fire.

Mas isto é assunto para todo um outro tópico.
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Voltando ao cover dos Tears For Fears, em primeiro lugar, tenho que rejubilar com a alegria de voltar a ouvir a voz do Roland Orzabal. Que saudades!
Desde "Floating Down The River (Once Again)", lançada em 2006, como faixa bónus no álbum ao vivo "Secret World Live in Paris", que não ouvíamos a voz de Roland Orzabal. Já lá vão mais de 7 anos!

Relativamente ao arranjo desta versão de "Ready To Start", parece que os TFF querem fazer um tributo à época de "The Hurting", ao regressarem em força aos sintetizadores. Acho que falta guitarra neste cover, instrumento que Roland sabe tão bem usar.
Deixo-lhe aqui um repto, que espero que ele siga para o que falta gravar do novo álbum:

More guitar please, Roland! Thank you.

sábado, 13 de abril de 2013

Beady Eye - "Flick of the Finger"

"The future gets written today."


Liam Gallagher está de volta e desta vez, chega ao som das trompetes. "Flick Of The Finger" é a primeira amostra de "BE" - o novo álbum dos Beady Eye, que chegará às lojas no dia 10 de Junho.

Eu ouvi e gostei. "Flick Of The Finger" é diferente do que os Beady Eye mostraram em "Different Gear, Still Speeding". No 1º álbum, os Beady Eye trouxeram-nos um Rock muito straight-forward, revivalista dos primeiros anos dos The Who, dos Stones e claro, dos The Beatles.
Para além disso, também senti que "Gear" era muito pouco consistente. Se a 1ª parte do álbum era muito forte ("Four Letter Word", "Millionaire", "Beatles And Stones" e "Wind Up Dream" são faixas que poderiam figurar num bom álbum dos Oasis), chegado à 2ª parte (depois de "Standing On The Edge Of The Noise"), já tinha perdido o interesse por completo.

Veremos então o que nos traz "BE". Para já, a impressão que tiro da sua primeira amostra é que o álbum vai ser diferente, mais psicadélico, na linha do que os Oasis fizeram no seu último álbum "Dig Out Your Soul", que eu adorei.



Parece que Liam cumpriu o que tinha prometido a dois rapazes que o conheceram à porta de um estúdio em Brockenhurst:
"It's like rock 'n' roll fired out into space. If you're into drugs you'll like it.
It's pretty druggy."


Liam fez também questão de reiterar a sua vontade em fazer as coisas "como deve ser" desta vez:
"We'll be out in a few months. We're playing festivals, bar mitzvahs.
We've got to make it right this time, last time was a bit fucking stupid."
Um aparte: notem a simpatia do Liam para com os rapazes; notem a falta do pretensiosimo que lhe é imputado, quando é interpelado na rua por dois fãs, em vez de papparazis esfomeados de escândalos.
O maior.

Voltando à música.
A vontade de Liam mudar o paradigma dos Beady Eye é evidente. Para isso, recrutou o produtor David Sitek, que também já classificou o álbum de "trippy". É música para os meus ouvidos.

Sitek também elogiou a voz de Liam Gallagher e a sua facilidade em cantar, referindo que "basta ligar o microfone e pronto! Não é preciso processar a faixa vocal de maneira nenhuma, aquilo soa como um disco".
Percebem agora a diferença entre um cantor a sério e os "artistas" que precisam de passar a sua voz por filtros, auto-tunes e vocoders, para gravarem um disco? Ouçam aqui a faixa vocal de Liam. Poderoso.

Por seu lado, Liam também elogiou Sitek, afirmando que ele é "o melhor produtor com quem já trabalhei, um verdadeiro fora-da-lei!". Acrescentando que o álbum "não tem nenhuma das tretas dos 90's", curiosamente a época dourada de Liam nos Oasis. Liam quer mesmo um corte com o passado.

De facto, "Flick Of The Finger" é diferente. E é diferente, em bom.
O tema rejeita a estrutura corrente dos temas dos Oasis, não tendo um refrão que possamos entoar de peito cheio e braço de volta do nosso melhor amigo. Em vez disso, os Beady Eye foram buscar uma recitação radiofónica de um revolucionário francês do Século XVIII, para rematar o tema:
"Don't be deceived when our revolution has been finally stamped out and they pat you eternally on the shoulder and say that there's no inequality worth speaking of and no more reason for fighting.
Because, if you believe them, they will be completely in charge, in their marble homes and granite banks, from which they rob the people of the world, under the pretense of bringing them culture.
WATCH OUT, for as soon as it pleases them, they'll send you out to protect their gold in wars whose weapons, rapidly developed by servile scientists, will become more and more deadly... until they can, with a FLICK OF THE FINGER, tear a million of you to pieces."
Jean-Paul Marat (filósofo, jornalista, político e cientista do Século XVIII)

Brutal. "Flick Of The Finger" está a tocar aqui em repeat há 3 dias e ainda não me cansei.
Venha de lá esse "BE".

segunda-feira, 25 de março de 2013

Blur - "Tender"

"Love's the greatest thing that we have"


"I hate that Alex [James] and Damon [Albarn]. I hope they catch AIDS and die."
Noel Gallagher - guitarrista dos Oasis, em entrevista para o The Observer (1995)


"I can't make up with Noel. Britpop would be over!"
Damon Albarn - vocalista dos Blur (2007)

O dia em que a Britpop morreu? Foi no último Sábado, 23 de Março de 2013, que se enterrou definitivamente o machado entre os Oasis e os Blur, em pleno Royal Albert Hall - sala emblemática de Londres, cidade onde a rivalidade entre as bandas foi alimentada nos últimos 20 anos, dentro das redacções da NME e outras publicações musicais do género.

A rivalidade entre os Oasis e os Blur está já bem documentada (inclusivamente aqui no blog), atingindo o seu pináculo em Agosto de 1995, com a "Batalha do Britpop". Acusações e insultos foram trocados; jornais, revistas e muitos, muitos discos foram vendidos. Milhões deles. O fenómeno foi brilhantemente capitalizado pela "indústria" discográfica britânica e a febre foi transmitida para (quase) todo o Mundo. (menos os EUA, que estavam ainda a levar com doses industriais de Grunge e depois passaram directamente para o fenómeno das Boysband / Girlsband dos late 90's e assim saltaram o melhor dos anos 90... o Britpop)

A relação entre Damon e Noel foi amenizando com os anos e terá sido alegadamente sanada depois de um encontro fortuito num bar, onde terão trocado piadas sobre o fenómeno que os juntou e terão chegado à conclusão de que o que os une é muito maior do que os separa.

A reconcialiação não foi fácil, principalmente para Damon Albarn, a parte mais negativamente afectada com o confronto. Veja-se o desconforto de Damon no documentário "Live Forever", de 2003, a falar sobre a rivalidade com os Oasis e sobre as diferenças sociais que ambas as bandas representavam (Classe operária - Oasis / classe média - Blur).

Em 2007, apesar das reticências de Damon relativamente a uma reconciliação (leia-se a citação no início do texto), Noel já mostrava um discurso substancialmente diferente dos anos 90:
"I've got a lot of respect for Damon, I really do mean it. Because I'm indifferent to Damon, he thinks that I think he's a cunt.
Our Liam will talk to him, I won't because he's just another singer in a band to me, but I don't think he's a cunt.
Good luck to him!"
Noel Gallagher, em entrevista para a NME (2007)

A parte em que Liam Gallagher (vocalista dos Oasis e irmão de Noel) iria falar com Damon Albarn para fumar o cachimbo da paz é obviamente fantasiosa (quiçá sarcástica...), mas a intenção parecia estar lá.

Foi assim em estado de (meio) choque que Noel deixou o Mundo, quando em Dezembro anunciou a presença de Damon Albarn e Graham Coxon (vocalista e guitarrista dos Blur, respectivamente) no evento promovido pelo próprio: o Teenage Cancer Trust 2013. Recorde-se que a actuação de Noel nesse evento, em 2007, fora documentada no álbum "The Dreams We Have As Children - Live At The Royal Albert Hall", lançado em 2009.
Mais do que anunciar a presença de Damon e Graham, Noel chocou o Mundo ao revelar que tencionava tocar com eles e que até já aprendera "Tender", tema que tocava em casa.



"They’ll be playing Blur songs, I would think. I’ll be playing mine. Will we share the stage together? I hope so. I’m up for it. It’s always good to have a little jam.


10 years ago, who’d have thought it?"
Noel Gallagher, em promoção do Teenage Cancer Trust 2013 (2012)

De facto, há 10 anos atrás, quem ousaria pensar tal coisa?
Mais em choque ficou o Mundo, quando viu os 2 históricos arqui-rivais abraçados na cerimónia dos Brit Awards 2012, no mês passado. Depois de partilhar uma mesa com Damon, Noel revelou o seu desencanto pela falta de bandas Rock no evento (sentimento que terá aproximado ainda mais ambas as partes), adiantando que até poderiam tocar juntos na cerimónia do próximo ano.


"Tender is the day the demons go away"
O momento por que todos esperavam chegou no Sábado passado.
Noel Gallagher, Damon Albarn, Graham Coxon e Paul Weller (outra lenda da música britânica, de bandas como The Jam, conhecido como "The Modfather") juntaram-se em palco e tocaram "Tender" dos Blur, enterrando, em público, de uma vez por todas, o machado da Britpop.
Vejam com os vossos próprios olhos, porque palavras não chegariam para descrever isto:



O machado estava finalmente enterrado. Alívio é o que se vê nas caras de Damon, Noel e Graham.

A escolha do tema foi perfeita. À falta de Liam para cantar um tema dos Oasis, a escolha deveria cair num tema dos Blur. E qual é o tema dos Blur que melhor materializa a alegria da amizade, do amor e, no caso, da reconciliação? "Tender", pois claro. O tal tema que Noel até já tocava em casa.
Na minha opinião, a melhor alternativa seria "Don't Look Back In Anger" dos Oasis, originalmente cantada por Noel e cujo título assenta que nem uma luva à ocasião. Mas nem esse tema teria o impacto do Gospel de "Tender".



"Tender" é o grande sing-along dos Blur. Historicamente, é o tema da reconciliação. Senão vejamos:
Em 1999, "Tender" foi o tema que reconciliou Graham e Damon, na altura em clivagem criativa, na composição do tema mais ecuménico da banda, incluído no álbum "13".
Aquando da reunião dos Blur em 2009, "Tender" foi o tema que pôs Glastonbury a cantar a plenos pulmões a parte escrita por Graham ("Oh my baby, oh my baby! Oh why! Oh my!"), naquele que foi o momento de reconciliação definitiva entre os Blur e entre os Blur e a sua audiência.
Reconciliação, portanto. Aqui:




Nota importante: Na guerra entre os Oasis e os Blur, eu sempre favoreci os Oasis.
Não porque fossem a banda da classe operária, mas porque em adolescente me identificava mais com a sua música e com a sua atitude. Para um adolescente , cantar "Tonaaaaaaaaiiiiiiiiiite I'm rock n' roll star!!!" ("Rock N' Roll Star" dos Oasis) fazia mais sentido do que "Girls who want boys, who like boys, to be girls..." ("Girls And Boys", dos Blur). Foram duas bandas que me marcaram, mas a marca dos Oasis foi muito mais carregada.
Mas o que é que isto interessa? Será que estive pelos Oasis e a favor da dissolução dos Blur, na "Batalha do Britpop"? Obviamente que não. Arrisco dizer que hoje em dia, ninguém está. Quem gosta de um, normalmente gosta do outro.
A excepção é obviamente feita a... Liam Gallagher.
Liam já reagiu à reunião do irmão com os membros dos Blur e, como se esperaria, não se mostrou muito contente:
"Don’t know what’s worse RKID [Noel Gallagher] sipping champagne with a war criminal or them backing vocals you’ve just done for BLUE!"
Liam Gallagher, no Twitter (25 de Março de 2013)

...sendo que "BLUE" é obviamente uma dupla referência aos Blur e à Boysband britânica Blue, com o intuito de rebaixar os Blur. O que dizer? Liam Gallagher no seu melhor.

Será que a Britpop morreu mesmo? Não sei, mas se morreu, de certeza que não foi com este episódio.
Infelizmente, o movimento musical mais profícuo dos últimos 20 anos parece já estar morto há muito tempo.
Quanto muito, o histórico evento de Sábado serviu para lembrar as pessoas que, nos anos 90, surgiram no Reino Unido duas bandas que fizeram música que preencheu a vida de milhões de pessoas (eu incluído). E quem sabe, fizeram ver essas pessoas que o ódio deve ser dissolvido e como é dito em "Tender":
"Love's the greatest thing that we have"

Edit: Adicionado um vídeo pro-shot da actuação, cortesia do The Sun e uma reportagem do evento:

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

David Bowie - "Where Are We Now?"

"You never knew that... That I could do that"


Bowie voltou.
Já poucos esperavam o seu regresso. Mas no dia em que fez 66 anos, David resolveu quebrar o lago gelado em que se encontrava a sua carreira e lançar o primeiro calhau.
Um tema novo - "Where Are We Now?" - já está aqui para todos ouvirmos. Um álbum novo - "The Next Day" - chegará no dia 11 de Março e é o seu primeiro em 10 anos (o último tinha sido "Reality", de 2003).
David Bowie esteve de fora muito tempo, demasiado tempo. No anúncio oficial, o seu site deu conta desta prolongada ausência:
"In recent years radio silence has been broken only by endless speculation, rumour and wishful thinking... a new record...who would have ever thought it, who'd have ever dreamed it! After all David is the kind of artist who writes and performs what he wants when he wants...when he has something to say as opposed to something to sell.
Today he definitely has something to say."

Então, afinal, o que é que Bowie tem para dizer?
Na minha opinião, "Where Are We Now?" é um bom tema... que não compromete. Não é extraordinário, mas também não corre grandes riscos.

O tema evoca a era de Berlim de Bowie (isto é, o período que compreende os álbuns "Low", ""Heroes"" e "Lodger"), uma época de grande revolução na sua música, cujo impacto na música de outros artistas (nomeadamente no seu país) é hoje já bastante reconhecido. Mas a verdade é que "Where Are We Now?" se assemelha mais ao período neo-clássico Bowie, dos anos 00, do que ao período de Berlim (para o qual eu tenho programado um post, a sair muito brevemente), do final dos anos 70. 



A aproximação ao período (hoje) mais cool da carreira de Bowie é perceptível (até a capa da edição de luxo do álbum é um makeover da capa de ""Heroes""), mas não é materializada nesta primeira amostra de "The Next Day".
Note-se que colocar "The Next Day" ao lado de um álbum como "Heathen" (de 2002), em vez de ""Heroes"" (de 1977), em nada o desqualifica; é apenas uma comparação mais realista, para um artista que já leva uma carreira a entrar na 5ª (!!) década.

Julgando pela sua primeira amostra, não me parece que "The Next Day" seja o álbum do grande comeback de David Bowie. Parece-me, sim, o álbum do seu "adeus".
Bowie não procura aqui uma revolução na sua sonoridade, como fez tantas vezes ao longo da sua carreira; como fez quando foi para Berlim em 1976. Nessa altura, Bowie impregnou na sua música as influências vigentes na cidade - a Electronica e o Krautrock - e obteve os resultados brilhantes que hoje conhecemos.
Hoje, as influências vigentes em Berlim continuam dentro da Electronica, mas agora em estilos mais focados como o Dubstep ou o House. Aos 66 anos, duvido que David Bowie tenha grande interesse em enveredar por esse caminho. E eu duvido que isso fosse, sequer, boa ideia...

Mais... mais, para já, não sabemos. Da minha parte, já estou a fazer figas com dedos das mãos e dos pés, para que David Bowie volte à estrada em 2013 e eu possa finalmente ver o Thin White Duke ao vivo. Nem que, para tal, tenha que voltar a Londres.

Para já, o que fica é que "Where Are We Now?" é bom e é Bowie... e isso é óptimo.
Para já, isso basta para nos encher o coração. 
Para já, o importante é que... Bowie voltou.