sábado, 7 de setembro de 2019

Bruce Springsteen — "The Promised Land" (Live at Passaic '78)

"There's a dark cloud rising from the desert floor, I packed my bags and I'm heading straight into the storm"


1. PIÈCE DE RÉSISTANCE

Já devem ter ouvido muitos contos e lendas acerca dos concertos de Bruce Springsteen. São todos verdade. Mas de todos os concertos, há um acima de todos os outros. E pluribus unum, como diz o emblema do Benfica; o unum aconteceu a 19 de Setembro de 1978 no Capitol Theater em Passaic, New Jersey e foi o primeiro de três concertos de "regresso a casa" para Bruce. Ele aparece na melhor forma de toda a sua carreira e com o melhor lote de canções, a promover o álbum "Darkness On The Edge Of Town".

A melhor noite de toda a carreira de Bruce Springsteen e uma das melhores gravações ao vivo de toda a história do Rock, que é finalmente editada oficialmente pelo Boss. O concerto foi transmitido nas rádios americanas, sendo mais tarde editado profusamente, mas em forma de bootleg, com o nome "Pièce de Résistance". "Pièce de Résistance" vem do francês e significa "obra-prima maior do artista" e não poderia haver nome melhor para esta gravação que resume todas as lendas já alguma vez contadas sobre os concertos de Bruce Springsteen. Ainda que tenha sido originalmente lançada em zona cinzenta da legalidade, a gravação ganhou tanta reputação, que se tornou num dos bootlegs mais vendidos de sempre e com ela Bruce ganhou fama de ser um animal de palco. 41 anos depois, Bruce decide recuperar as mastertapes e tirar o melhor desta lendária gravação. Tempo por isso de recordar como este bootleg mudou a minha vida há 10 anos e como deixou uma marca indelével para tudo o que se passaria a seguir.

2. THINGS THAT CAN ONLY BE FOUND IN THE DARKNESS ON THE EDGE OF TOWN

No final de 2008, a minha vida dava uma cambalhota completa. Ao mesmo tempo que acabava o curso no Técnico e começava uma vida rotineira de trabalho, estava prestes a sair da relação mais sólida e duradoura da minha vida, um amor que durou os 5 anos da minha estadia no Técnico. É um período que hoje relembro com enorme carinho e um passado com o qual estou em perfeita paz. Mas nem sempre foi assim. Nos meses que se seguiram àquele rompimento, vivi a agonia da dúvida se tinha feito o que era certo para mim. Não era uma agonia aguda, um sentimento que me fizesse disparar a marcação de um número de telefone. Era sim um ruído que se arrastava no dia-a-dia, uma interferência no sinal da minha rádio, um grão na imagem que persistia e teimava em não sair. Estava confuso, perdido e à procura de respostas sobre as grandes questões da vida. Nesse período, descobri Bruce Springsteen.

Já me conhecem, não sou de deixar os superlativos caídos no chão. Por isso vou ser directo: Bruce Springsteen salvou a minha vida entre 2008 e 2009, num exorcismo que começou em Dezembro de 2008 e culminou no dia 2 de Agosto de 2009, num Monte do Gozo a rebentar pelas costuras em Santiago de Compostela. Foi a primeira vez que vi Bruce Springsteen ao vivo e uma noite que definiu a minha vida e tudo o que eu queria dela daí em diante. Emoção. Honestidade. Seja ela em beleza, ou em bruteza. É isso que Bruce dá ao público nos seus concertos, porque é exactamente aquilo por que as pessoas estão esfomeadas.

Durante este período de exorcismo, havia um CD que rodava em loop no meu carro. Era a gravação do primeiro set do primeiro concerto de Passaic. Tudo o que eu tinha que ouvir de Bruce naquele momento estava condensado ali. Bruce tinha todas as respostas que eu procurava para as grandes questões da vida. Foi ele que me fez perceber porque é que eu tinha saído. E o que é que me esperava a seguir.
Saí, porque quis ver o que havia na escuridão da orla da cidade. E como Bruce avisou, tive que pagar o preço de querer coisas que só podem ser encontradas na escuridão da orla da cidade. Leiam aqui o que entenderem.

3. A LIGHT IN THE DARKNESS

Naquela gravação ao vivo de Passaic, Bruce enquadrou tudo o que eu sentia naquela altura. Deu nomes aos lugares metafóricos que existiam na minha cabeça ("the edge of town"). Deu nomes aos sentimentos de culpa que me assolavam ("When the night's quiet and you don't care anymore / Your eyes are tired and someone at your door / And you realize... you wanna let go") e resumiu o espírito da minha viagem de redenção, quando introduziu "Darkness On The Edge Of Town" em jeito de pregador: "At one time or another, everybody's gotta drive through the darkness on the edge of town".

Mas o conteúdo era apenas uma parte e não a parte fundamental desta gravação catártica. A forma, aqui, é tudo. A paixão que Bruce imprime nesta actuação é arrepiante. Desde a contagem para "Badlands" que entramos numa auto-estrada sensorial, onde nos agarram pelos colarinhos e somos submetidos a chuveiro de emoções que tão depressa nos imprimem excitação ("Badlands"), raiva ("Streets Of Fire"), alegria ("Spirit In The Night"), ambição ("Thunder Road", "The Promised Land"), desespero ("Meeting Across The River") e arrepios, quando Bruce Springsteen pergunta à audiência "New Jersey, are you ready to prove it all night?" e depois abre a guitarra. Tudo num espaço de 80 minutos.

4. MEETING ACROSS THE RIVER


O tempo passou e eu procurei refazer a minha vida, sempre carregando a tocha do Bruce no meu dia-a-dia. Foram os anos áureos do blog "Escolha Musical do Dia", que na altura escrevia quase diariamente (como era suposto) e que, não por acaso, tinha uma avalanche de posts de Bruce Springsteen. Para meu gáudio, em 2012 Bruce vem a Portugal, ao Rock In Rio, e eu tenho a oportunidade de o voltar a ver.

Nesta altura, uma "ex" que tinha sido uma má ideia desde o início (não é a do segundo capítulo, obviamente), tenta uma reaproximação com o pretexto de que queria também ver o Bruce Springsteen no Rock In Rio e como tal, pediu-me para eu a ajudar a preparar o concerto. Eu gravei-lhe o CD do Passaic e acordámos um encontro à beira rio, que eventualmente iria reatar a má ideia inicial.

Na semana seguinte, escrevi o mail:
"De: Nuno Bento
Enviado: 25 de maio de 2012 19:22
Para: (...)
Assunto: "Stuff this in your pocket, it will look like you're carrying a friend" 
Olá! Conforme te tinha prometido, aí está o alinhamento do CD que te gravei do tio Bruce, uma das minhas gravações ao vivo preferidas de sempre (só atrás do Live At Wembley '86 dos Queen): 
1. Intro (0:31)
2. Badlands (5:00)
3. Streets Of Fire (4:47)
4. Spirit In The Night (6:50)
5. Darkness On The Edge Of Town (4:14)
6. Independence Day (5:29)
7. The Promised Land (5:23)
8. Prove It All Night (9:30)
9. Racing In The Street (8:09)
10. Thunder Road (5:28)
11. Meeting Across The River (3:17)
12. Jungleland (9:39) 
Como podes ver pelo site, este CD é apenas o 1º set de um concerto de quase 4 horas que o Bruce deu na sua terra Natal (New Jersey) em 1978. Na altura, ele dava dois "sets" de hora e meia e depois voltava para mais meia-hora/uma hora de encores. Aquilo nunca mais acabava! 
No sábado não acabei de te contar a minha "história" sobre este concerto: há mais ou menos 4 anos fiquei apanhadinho pela música do tio Bruce e por acaso dei com este concerto. Foi daquelas coisas que mudou a minha vida. Durante 2 anos, esteve em constante repeat no meu carro e arrisco dizer que foi o álbum que mais ouvi (de sempre) no meu carro! Ok, eu tenho um uso muito fácil de superlativos, mas é verdade! Mudou a minha vida! Por isso, quando te gravei o CD, foi como se de uma "entrega" de algo importante e pessoal se tratasse. Agora que já foste apanhada também pela mística do tio Bruce, achei que estavas preparada para ouvir isto! 
E pronto, já tens aí tudo o que precisas para saber tudo do tio Bruce. O trabalho não me deixou enviar isto mais cedo, mas ainda vais bem a tempo!
Desejo-te um bom concerto e, uma vez que vais incentivada por mim, espero que gostes! 
Beijinhos,
Nuno"
Ai, ai, ai, Nuno. Que tontinho. O concerto do Bruce foi espectacular, como é óbvio. O retomar da má ideia é que foi um desastre. O que vale foi que a seguir a uma série de desastres, que culminaram num acidente de automóvel em Setembro desse ano, deu-se início à caminhada que me iria levar para a terra prometida.

5. THE PROMISED LAND


A continuação da história está contada aqui (por escrito) e aqui (na rádio). O caminho para a terra prometida continua. Sempre ao som do Bruce.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Freddie Mercury — "Love Me Like There's No Tomorrow" (2019 Remix)

"Anything can happen but we only have one more day together"


Mesmo a tempo dos festejos do seu aniversário, foi anunciada a nova colectânea de Freddie Mercury — "Never Boring" —, a qual vai ser lançada em duas versões: uma compilação que reúne os temas mais conhecidos da carreira a solo (incluindo a recente remistura de "Time") e uma caixa que junta esta compilação, às versões revisitadas dos dois álbuns que perfazem a sua discografia a solo ("Mr. Bad Guy" de 1985 e "Barcelona" de 1988), mais um DVD e um Blu-Ray com vídeos. O nome do projecto é retirado do famoso pedido que Freddie Mercury fez a Jim Beach, manager dos Queen, quando o nomeou o seu executor testamentário e representante legal na banda: "Do whatever you want with my music, just never make me boring". Foi um pedido que nem sempre foi satisfeito, mas certamente que tal não foi por falta de vontade do Jim Beach.

Os Queen, os verdadeiros, foram votados ao esquecimento pelo Dr. Brian May e pelo Sr. Roger Taylor, uma vez que estão demasiado ocupados a viver o sonho Americano com o Adam Lambert, nas asas do sucesso do filme "Bohemian Rhapsody". Já vamos assim para o segundo ano consecutivo sem um lançamento de arquivo dos Queen. O cenário é ainda mais desanimador, se pensarmos que o último produto verdadeiramente interessante já remonta a 2014 — as caixas do "Live At The Rainbow" — e que este ano tinha sido cogitado o lançamento da caixa de "Live Killers", que iria reunir vários concertos em audio / video da segunda metade dos anos 70.

Se no ano passado havia a desculpa do filme, que estava a canalizar todas as atenções da máquina dos Queen — a Queen Productions Limited (QPL) —, este ano a única explicação é mesmo o completo desinteresse de Brian e Roger pela sua própria banda. O Conselho de Estado da QPL é neste momento formado por Brian May, Roger Taylor, John Deacon e Jim Beach, que representa Freddie Mercury. O voto do John é favorável por defeito; ele tem poder de veto, mas raramente se opõe às decisões dos colegas (até porque continua a receber). O voto do Roger é, por defeito, o que quer que o Brian quiser. E o voto do Jim é, por respeito, também favorável à decisão do Brian.

Como já perceberam, esta estrutura significa que, na prática, quem manda nos Queen é o Dr. Brian May. Por isso, sempre que ele tem uma ideia para um novo lançamento dos Queen, essa ideia é executada se e só se for à sua maneira. Às vezes isto resulta bem ("Made In Heaven", "Live At The Rainbow"), outras vezes nem por isso ("News Of The World 40th", "Queen Forever"). Se ele não tem ideia nenhuma, nada se pode fazer com o nome dos Queen na habitual janela de lançamentos do Natal. O problema é que a editora paga à Queen Productions Limited a peso de ouro para lançar os seus produtos e se não há produtos, há um problema. E é aqui que Jim Beach levanta a mão para falar no Conselho de Estado dos Queen — "Então e se voltássemos a lançar os álbuns a solo do Freddie?". E é assim que nasce "Never Boring". O Jim Beach faz o que pode para carregar, agora sozinho, a tocha do Freddie.



O catálogo a solo de Freddie Mercury já foi revisitado e largamente explorado desde a sua morte. A caixa de 12 discos "The Solo Collection", lançada em 2000, é um documento exaustivo da sua carreira que, na prática, contou apenas com 2 álbuns. Nesta caixa, os álbuns aparecem nas suas versões originais.
Desde então, "Barcelona" foi revisitado em 2012 e totalmente regravado com uma orquestra real, uma vez que o álbum original tinha usado sintetizadores para recriar as orquestrações.
Se viram o filme "Bohemian Rhapsody", reconhecerão "Mr. Bad Guy" como o álbum a solo de Freddie que separou os Queen e correu muito mal. Se a parte dramática da separação da banda foi largamente inventada no filme, o álbum correu mesmo muito mal. É de longe a pior coisa que o Freddie fez em toda a sua carreira. Desde a sua morte, a maior parte das faixas deste álbum já foram revisitadas: para a compilação "The Freddie Mercury Album" (1992) foram remisturados "Foolin' Around" e "Your Kind Of Lover" por Steve Brown, "Let's Turn It On" e "My Love Is Dangerous" por Jeff Lord-Alge, "Mr. Bad Guy" por Brian Malouf e "Living on My Own" por Julian Raymond; "Made in Heaven" e "I Was Born to Love You" foram regravados pelos Queen para o álbum "Made In Heaven" em 1995; "There Must Be More to Life Than This", que originalmente havia sido gravado em dueto com Michael Jackson, foi (mal) reconstruído para a compilação "Queen Forever" em 2014. Tirando este último, surpreendentemente mal executado pelos Queen, todas as remisturas e regravações são superiores aos originais.

O álbum "Mr. Bad Guy" é de facto a ovelha negra do portfolio de Freddie Mercury. Nisto, é preciso dar razão ao Dr. Brian May, quando este pintou o disco como um enorme falhanço comercial e artístico no filme do ano passado. Não há nenhum problema com a composição de Freddie e muito menos com a sua voz, mas há sim um enorme problema com os arranjos, instrumentação e produção. O Freddie precisava mesmo de uma voz que lhe dissesse que "não". Ok Brian, tinhas razão.

É por isso com agrado que vejo que finalmente "Mr. Bad Guy" será totalmente revisitado em 2019 para inclusão na caixa de "Never Boring" (e será lançado em separado também como "Special Edition"). Juntando a versão de 2019 de "Mr. Bad Guy" e a versão de 2012 de "Barcelona", a caixa "Never Boring" torna-se assim complementar à já referida "The Solo Collection" de 2000, o que vai obrigar os fãs (onde me incluo, obviamente) a levá-la para a sua colecção.

Ouvindo a nova versão "Love Me Like There's No Tomorrow", um dos temas que ainda não tinha sido revisitado antes (o outro é "Man Made Paradise"), parece que se levanta um véu na paisagem sonora e agora a voz de Freddie é muito mais clara. O piano foi puxado para a frente da mistura e pela primeira vez, não parece que Freddie está a cantar noutra sala.

É curioso que ninguém se tivesse lembrado de pegar ainda em "Love Me Like There's No Tomorrow", um dos seus temas mais sinceros, profundos e ultra-pessoais. Freddie disse um dia que gostava de escrever canções sobre o que sentia e o que sentia com muita muita força eram as emoções e o amor. Este é dos casos mais flagrantes disso mesmo. Freddie canta sobre o drama da última noite, da noite de despedida, antes da inevitável separação. É uma separação cuja força ele sente ser maior que ele, mas que não inviabiliza o o despejo do depósito das emoções e dos amor, enquanto há tempo. Como se não houvesse amanhã.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

George Michael & Elton John - "This Kind Of Love" (Bento Mix)

"You just have to believe in this kind of love"
"THIS KIND OF LOVE" - O DUETO PERDIDO DE GEORGE MICHAEL E ELTON JOHN



Em 1993, depois do cancelamento do projecto "Listen Without Prejudice Vol. 2" e em pleno conflito com a Sony, George decidiu que queria escrever para outros artistas para não dar dinheiro à sua editora. Fez então um acordo com a Warner Bros e conseguiu 1 milhão de dólares para a sua nova ideia. O projecto, de nome "The Trojan Souls", evoluiu para um álbum de duetos com artistas de nomeada como Elton John, Sade, Seal, Janet Jackson, Stevie Wonder, Aretha Franklin e Bryan Ferry.

O álbum prometia ser um instant hit, mas a morte do seu namorado Anselmo Feleppa devastou o nosso George de tal forma, que o projecto foi abandonado por completo. Pelo meio, ficaram algumas faixas quase completas, outras em versão instrumental, mas nenhuma terminada e misturada para lançamento.

Nos anos mais recentes, estas faixas inacabadas apareceram na internet e David Austin, amigo de George, já explicou que isto se deve ao facto das masters terem desaparecido, o que inviabiliza que este projecto alguma vez se materialize. Por exemplo, a faixa "This Kind Of Love" era suposto ser um dueto com Elton John, mas o que existe na net são dois takes vocais separados, um de George e um de Elton.

Uma vez que o próximo London Calling dará pelo nome de "Something To Save - As canções perdidas de George Michael" e como o próprio nome indica, terá como objectivo dar a conhecer ao mundo algumas das canções menos conhecidas de George, fui a caça do que restava de "The Trojan Souls". Sabendo da existência destas preciosidades, procurei na net uma versão do dueto que combinasse os dois take vocais de George e Elton e que alguém já tivesse remisturado, para incluir no programa. Não encontrei.

Decidi então que eu próprio tinha que pôr as mãos à obra e dar ao mundo o dueto nunca ouvido entre George Michael e Elton John. E eis que com os meus limitados skills de mixer e ainda mais limitada disponibilidade, em duas horas fiz aquilo que podem ver como uma amostra do que poderia ter sido "The Trojan Souls".

Senhoras e senhores, pela primeira vez na história, eis "This Kind Of Love" (Bento Mix), o dueto de George Michael e Elton John.

Legenda:
George Michael
Elton John
George & Elton


George Michael & Elton John - "This Kind Of Love" (Bento Mix)

You don't have to think about it
You don't have to do without it
Just have to believe
In this kind of love

You don't have to be so scared
You don't have to hide that you care
You just have to believe
In this kind of love

Everybody's telling me that these are dangerous times
But you and me, can't you see baby?
Maybe we have better take a little care with this love

Oh I know
Cause I can't be happy without you
Then I'll be the one

Now that I've found you
Now that I've found you
Now that I've found you

I don't have to hold you down
I don't need to push you around 
I just want you to be
This kind of love

And if someone hurt you before
Can't you see, all that I wanna give you much more
Just have faith in me  
This kind of love   

Everybody's telling me that these are dangerous times
For you and me, can't you see baby?
People got to take a little bit of care when they got doubt
Don't let it go, no, never, no

And all I know
I have no reason to doubt you
Don't you think it's time to believe in someone?
So I'm telling you

Now that I've found you
Now that I've found you
I can't let you go
Found you

Nobody's perfect, we all have a past
When you look at me
How can you ask if I love you?
Is it so hard to see?
Now everyone has to get older I know
But this empty house seems to get colder and colder
So, won't you stay here with me?

And all I know is
I have no reason to doubt you
Don't you think it's time to believe in someone?
So I'm telling you

Now that I've found you
Now that I've found you I can't let you go
Found you


Escusado será dizer que é muito difícil conter o meu entusiasmo com o programa que aí vem.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Queen - "Bohemian Rhapsody"

"Anyway the wind blows"


Sim, a banda sonora do "Bohemian Rhapsody" entrou no meu telemóvel às 6 da manhã, mas na boa demência que é isto de ser um fanático dos Queen, já aqui vos trago a primeira review do que vamos ouvir no filme da vida do Freddie.

O álbum começa com o jingle da 20th Century Fox interpretado pelo Brian e pelo Roger e OMG, OMG, OMG. Impossível não ficar logo aos saltos na cadeira. Depois da versão do hino britânico que apareceu no álbum "A Night At The Opera" (1975) e da marcha nupcial no "Flash Gordon" (1980), os rapazes não podem ficar por aqui e sugiro já a reinterpretação do hino nacional, do hino do Benfica e do hino do Jardim Escola João de Deus. Desta forma todos os hinos da minha vida ficam covered pela guitarra do Dr Brian.

Aparentemente não havia gravações de arquivo dos Smile - a banda de Brian, Roger e Tim Staffel que deu origem aos Queen  - que se pudessem salvar e por isso os rapazes foram para estúdio com o Tim passados quase 50 anos e regravaram "Doin' All Right" (é sem o "g", ó Brian!). É bem, Bri. É bem. Aprovo.

Uma das grandes novidades da banda sonora é a versão ao vivo de "Fat Bottomed Girls" gravada em Fevereiro de 1978 em Paris e lamentavelmente excluída do subsequente álbum ao vivo "Live Killers". Ora, o que acontecia neste segmento do louco show dos Queen nesta tour é que entravam em palco dezenas de miúdas nuas em bicicletas enquanto a banda tocava (é audível o entusiasmo de Freddie na gravação). Isto deixa antever que vamos ter alguma ousadia (e alguma nudez!) no filme. Será que o Dr. Bri deixou?

Não consigo ainda acreditar que o filme tem o atrevimento de mostrar o Brian a compor o "We Will Rock You" com o Freddie de bigode. Para quem não sabe, o Freddie deixou crescer o bigode em Março de 1980 (a primeira aparição num disco foi no single de "Play The Game" em Maio desse ano) e "We Will Rock You" foi gravado no verão de 1977 para o álbum "News Of The World", quase TRÊS ANOS ANTES!!! What the fuck, Brian? Eu sei que os fãs dos Queen mamam tudo o que lhes pões à frente (começando por mim), mas não somos assim tão tapadinhos.

Espero bem que o moustachegate (tinha que cunhar algum nome para este verdadeiro escândalo) seja o único grande major issue temporal do filme. Mas espera aí. Na banda sonora o "Bohemian Rhapsody" (de 1975) aparece DEPOIS de "Fat Bottomed Girls" (de 1978)! Tu queres ver?

Um dos pontos altos da banda sonora é a versão absolutamente breathtaking de "Love of My Life" gravada no primeiro Rock In Rio em 1985 e cantada em plenos pulmões por 250 mil pessoas. É um dos pontos altos da história dos Queen, que aparece aqui pela primeira vez em disco. E eu estou felicíssimo, uma vez vou poder usar isto para o "London Calling" da próxima semana sobre os Queen ao vivo nos anos 80.

Outro ponto alto é a também estreia em disco da aparição dos Queen no Live Aid em 1985. São 23 minutos que para algumas pessoas representam o pináculo de toda a existência humana. Para mim, por exemplo. É com esta cena que o filme (alegadamente) termina e eu espero que sim. Não vejo melhor final para um filme dos Queen que a coroação de Freddie.

All in all, bela banda sonora, muito mais-do-mesmo como era esperado, mas com novidades mais que suficientes para os fãs dos Queen comprarem o disco. Eu vou já daqui a bocado à Pop Up Shop do Bohemian Rhapsody na Carnaby Street para tratar disso.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Roger Waters – "It's A Miracle"

"Miraculous you call it babe, you ain't seen nothing yet"


Faz um mês que tive uma inundação trágica. Não acredito em Deus nem no Diabo, mas a desgraça teve tais requintes de malvadez, que mais parecia ter sido obra do Demo.

Apesar de ter os meus discos de vinil devidamente arrumados nas prateleiras com rigor bibliotecário, uma vez que tenho que aceder às prateleiras de escadote (eles chegam ao tecto e o pé direito tem 4 metros de altura), tenho os que estão em rotação corrente cá em baixo, cuidadosamente guardados num banco; banco esse onde figura também o poster do "The Division Bell" assinado pelo David, Nick e Rick (já devia estar na parede, eu sei). Ora, alguns destes discos têm enorme valor sentimental e coleccionista, caso da primeira prensagem do "The Wall" que vêem na imagem. E do poster assinado, enfim, nem preciso dizer nada.


Pois que há um mês tive uma inundação vinda do apartamento de cima e de todos os sítios do apartamento onde a água podia ter caído, foi escolher precisamente o centímetro onde os meus discos preferidos estão encostados ao poster do meu álbum preferido.

Para tornar a situação mais dramática, isto aconteceu na hora em que estava na cozinha a fazer o jantar, pelo que demorei uns bons 10 ou 15 minutos até me aperceber da tragédia que se abatia sobre mim.

Quando cheguei ao local da catástrofe, gelei. Nem queria acreditar no que estava a acontecer. Aflito, tentei salvar os discos da maneira que pude e corri a buscar toalhas e um secador. Mas parecia que não havia nada a fazer. Imaginem água suja de infiltração a cair sobre papel com 40 anos de idade, mais velho que eu. As capas dos discos ficaram todas engelhadas. Uma tragédia, portanto.

Como não sou de ficar derrotado tão facilmente, passei horas a minimizar os estragos e para tentar restaurar as capas, meti-as debaixo de uma pilha de discos.

Um mês passou e o milagre aconteceu. Como o autocolante da Flashback mostrar, a água passou por ali, mas a cama do meu The Wall está agora lisinha, como nova há 40 anos. Como diria o Roger himself, it's a fucking miracle.

P.S.: A causa da inundação? Facilmente identificável. Era sábado à noite e os meus vizinhos de cima, um casal germânico-coreano, estavam na brincadeira na banheira e a água transbordou para o chão em quantidades que sabe-se lá. Como é que eu sei? Em primeiro lugar porque eles ouvem-se. Muito. E muito alto. Especialmente ela. E porque fui lá em cima e estavam os dois meio molhados e enrolados em toalhas. Não é preciso ser o Einstein para perceber o que se estava ali a passar.

P.P.S.: Hoje é dia de Roger no Hyde Park. E' o meu 6º concerto do Roger e o 15º Floyd related:

Roger 2002/05/04 Lisboa
David & Rick 2006/03/15 Paris
Roger 2006/06/02 Lisboa
Roger 2012/03/21 Lisboa
Roger 2013/09/13 Wembley Stadium
David 2015/09/12 Pula
David 2015/09/14 Verona
David 2015/09/15 Firenze
David 2016/03/24 Hollywood
David 2016/03/25 Hollywood
David 2016/07/08 Pompeii (front row!)
David 2016/09/30 Royal Albert Hall
Roger 2018/05/20 Lisboa
Nick 2018/05/24 Putney
Roger 2018/07/06 Hyde Park

O melhor do concerto de hoje? Pensar que vou ver o Roger no Hyde Park e vou a pé para casa. What a life.

sábado, 9 de junho de 2018

Peter Gabriel - "Big Time"

"The place where I come from is a small town, they think so small, they use small words"

Castelo Branco

Sempre tive uma relação muito difícil com a minha cidade natal. Bem, chamar ao meu sentimento por Castelo Branco uma "relação difícil" é obviamente um eufemismo somente dado ao facto do texto ser público. Deixemo-nos de palavras pequenas. Na verdade, sempre odiei o sítio de onde vim. E o tempo não melhorou o meu desdém.

"I've been stretching my mouth, to let those big words come right out"

"So" foi o álbum onde Peter Gabriel quis ser grande. Depois de se libertar das amarras dos Genesis em 1975, Peter embarcou numa carreira a solo onde pôde fazer uso da liberdade que a caixa dos Genesis (que é como quem diz, o Tony Banks) não lhe permitiam gozar.

O próprio Peter não negou a sua vontade em disparar para outras alturas. Em 1985, quando gravou "So", já dez anos tinham passado desde a sua separação dos Genesis. Nesse espaço de tempo, viu a banda alcançar mais sucesso do que alguma vez havia conseguido com ele, ou do que ele conseguira a solo. E claro, viu o seu amigo Philip, o insuspeito baterista da banda, o homem atarracado da sombra a quem poucos davam crédito, a tornar-se uma superestrela internacional com milhões de discos vendidos, muitos mais do que ele ou a banda já tinham vendido. Era altura de ripostar.

"Big Time" é o espelho do que PG estava à procura naquela altura. É sátira. Foi o auto-retrato satírico que Peter Gabriel fez a si mesmo, no álbum que usou para, conscientemente, atingir o sucesso: "This drive for success is a basic part of human nature and my nature". Genial. Como não poderia deixar de ser, Peter foi acusado pelos puristas de fazer um sell out com este álbum (fucking Genesis fans), mas ele sabia exactamente o que estava a fazer. E é aqui que devemos atentar.

Peter é um homem muito inteligente. Não sei de níveis de QI, mas pela complexidade que sempre exigiu da sua música e respectivo significado, Peter Gabriel será muito provavelmente o homem mais inteligente da história do Rock. É fácil alguém se identificar com os conflitos de Roger Waters. Não é de todo tão fácil identificar-se com os traumas de um homem que desenvolve uma obsessão por alfaces.

"I worked it out"

No plano estritamente teórico, de certa forma entendo o encanto bucólico do campo, ou no caso de Castelo Branco, de uma cidade sem trânsito nem correrias, em que se demora 5 minutos a chegar a qualquer lado e em que hora de ponta significa adicionar 15 minutos aos 5 habituais.
Tenho a perfeita noção que o problema não é de Castelo Branco, é meu. Não que eu goste de entrar em lugares comuns, mas este é o caso proverbial de "It's not you, it's me". Não sou dali. Nunca pertenci ali. Nunca na minha vida estive em Castelo Branco e me passou pela cabeça um raciocínio como "este é o meu lugar", ou "é aqui que eu pertenço". Não senti isso nos 17 anos que eu lá vivi. Não senti isso nos 16 anos seguintes que vivi em Lisboa e visitava a cidade esporadicamente. Não senti isso agora que emigrei e regressei à terra onde nasci. Posso entender o fascínio teórico, mas não é para mim.

Nada disto tem a ver com patriotismo. A viver no estrangeiro, cada vez mais me me sinto português e cada vez menos albicastrense. É estranho, mas é o que é.

Sempre odiei a calmaria. Aliás, não há nada que me deixe mais nervoso do que quando me dizem "tem calma, Nuno". Até fico com suores frios. Quando a minha mãe me diz para "ver isso com calma", até tremo. Não, mãe. Não, não, não. Seguir os impulsos sempre foi a minha forma de viver. Sempre me alimentei do barulho e das multidões. Sempre me ferveu o sangue. Para mim, Castelo Branco era a antítese de tudo o que eu era. É um lugar estranho para mim.

"I've had enough, I'm getting out to the city, the big big city"

Sentia-me sufocado em Castelo Branco. Contava os dias para sair de lá. Mas contava mesmo. Literalmente. Era uma ansiedade indizível de sair, de me ir embora dali e ir em busca do meu próprio "Big Time". Tinha uma folha quadriculada onde fazia ticks diariamente no dia de ontem — menos um, menos um, já falta pouco. Estava lá marcado o dia 29 de setembro de 2003, o dia em que começava o ano lectivo no Instituto Superior Técnico. Sabia que a partir daquele dia, tudo seria diferente. E assim foi. Na manhã de domingo, 28, arrumei a minha colecção de CDs numa caixinha (na altura ainda cabia ali) e acondicionei-a ao meu lado no carro do meu Pai. Meti-me dentro do automóvel e nunca mais olhei para trás.

A partir daí, foi sempre a trabalhar em busca do "Big Time". Ou de todos os big times que tinha na cabeça. Dizem-me que já alcancei alguns, mas nunca deixei de sentir aquela ansiedade indizível. Nunca senti que cheguei ao "Big Time". E por isso aquela ansiedade permanece, lingering, a perseguir-me dia após dia.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Crowded House – "Hole In The River"

"There's a hole in the river where my auntie lies"

Barreiro 

Sendo filho da irmã mais nova de cinco do lado da minha Mãe e do segundo mais novo de quatro irmãos do lado do meu Pai, cresci num imaginário carregado de tios, tias e primos por quem tinha um enorme fascínio, especialmente os meus primos mais velhos e particularmente os que estavam mais longe – os meus primos do Barreiro.

É preciso perceber que nesta altura ir de Castelo Branco a Lisboa era uma epopeia que durava 5 horas de estradas nacionais e paragens à beira estrada para fazer chichi. Para um miúdo de 5 anos eram 5 horas que pareciam 5 eternidades. A viagem para ver os meus primos era penosa, mas a recompensa saborosa.

Adorava a minha prima Patrícia. Como não? Ela tratava-me como um príncipe. Pegava em mim e passeava-me ao colo pelas ruas do Barreiro, enquanto me cantava ao ouvido as suas músicas preferidas do George Michael e do Rick Astley. "Bagaquétchu", repetia eu, quando ela me ensinava a dizer "Never gonna give you up". Adorava, adorava, adorava. Best fucking days of my life. Tudo era diferente, desconhecido e misterioso, um mundo de ruas, edifícios e cores diferentes das que conhecia em Castelo Branco. O deslumbramento era total.

Mas por muito que adorasse a minha prima Patrícia, o meu grande ídolo era o irmão mais novo dela, o meu primo Marco.

O Marco era para mim o exemplo máximo de coolness no mundo. Mas não era só eu. Toda a família venerava o Marco. Ele era visto como um deus grego que irradiava simpatia, era outgoing e ajudava nas tarefas e tudo vestindo sempre um sorriso. Era impossível não gostar dele. Mas o Marco parecia ter um fascínio por mim inversamente proporcional ao que eu tinha por ele. Eu venerava-o e ele parecia desprezar-me com veemência. Sabia lá eu. Ele devia achar que eu era só um puto estúpido e não me ligava nenhuma.

Um dia, o Marco comprou uma mota. Nada de mais, poder-se-ia pensar. Só que ter uma mota no Barreiro trouxe-lhe amigos e um estilo de vida que acabou com a vida dele. Perdeu-se nos caminhos por onde escolheu andar. Nunca mais se encontrou. Uma pena. Tanta esperança depositada no rapaz, para nada.

Elusivo e com um discurso cada vez mais desconexo, caiu em desgraça na família e também eu rapidamente deixei de o achar cool. Como lhe tomei o lugar de mais cool da família, o desprezo dele por mim pareceu ficar ainda mais vincado. Como nos fomos afastando como pessoas, nunca partilhámos grande coisa ao longo dos anos.

Até que um dia fui viver para a casa dele no Barreiro.

As voltas que a vida dá. Eu tinha sido expulso de todas as casas onde vivera em Lisboa (uma delas acabara numa épica cena de pancadaria) e a minha tia Maria José tomou-me em casa dela – onde o Marco ainda vivia – e tratou-me como um príncipe. Lamentavelmente, um príncipe vegetariano (a minha tia não permitia que entrasse carne lá em casa), mas um príncipe nevertheless. Ela fazia tudo o que podia para me agradar e um dia até fez uns bifinhos de peru só para mim. Tenho com ela uma dívida de gratidão que temo nunca conseguir pagar na mesma magnitude.

Estes meses coincidiram de forma bizarra com o único período em que o Marco viveu uma vida adulta, digamos, normal. Que é como quem diz, levantar-se cedo todos os dias e ir trabalhar. Para nós algo tão prosaico, para ele uma penitência que lhe parecia sugar a alma. Saíamos todos os dias às 7 da manhã de carro e ele deixava-me na estação de barcos para eu apanhar o Catamaran para o Terreiro do Paço e depois seguir para o Técnico. Aquela rotina foi a única coisa que realmente partilhámos em 30 anos. Aproximou-nos. Finalmente, éramos sort of amigos. Mais ou menos, mas éramos qualquer coisa. Ele confessava-me o quão penoso era aquele ordálio de levantar cedo e eu via-lhe nos olhos que aquilo não ia dar. Não por muito tempo.

Os três meses que vivi no Barreiro passaram num instante.Via a situação como algo temporário e por isso nunca criei laços com aquele lugar. Na minha última noite no Barreiro, eu e o Marco fomos jantar a casa da minha tia Maria – irmã mais mais velha da minha Mãe e da minha tia Maria José. Nessa noite cumpriu-se família.

A minha tia Maria irradiava felicidade por nos ter a jantar lá em casa. De facto, aquela mesa apresentava uma concentração de coolness no ramo familiar em níveis estratosféricos. A ocasião era solene e ela não fez por menos: deu-nos luz verde para assaltarmos o armário de licores  e assim o fizemos. A minha tia adorava um copozito, principalmente desde a morte do marido. Eu e o Marco também, desde sempre. Deve ser de família. Embebedámo-nos todos como os velhos amigos que nunca fomos, três gerações diferentes a cruzar estórias de vida por entre copos de Drambuie. E o desejo do pequeno eu foi finalmente cumprido, ainda que apenas por uma noite. A noite do último jantar.

"There's a hole in the river where a memory lies"

"Hole In The River" é um tema do álbum de estreia dos Crowded House que conta uma história verídica. Em "There's a hole in the river where my auntie lies", Neil Finn está mesmo a cantar sobre a sua tia: "That actually was a rare occasion where I sat down and had a story to tell. I'd just been told over the phone by my father that his sister had committed suicide. I was playing the tune on the piano before he rang me, and then he rang me and I just repeated it, basically, to the melody.".

O tema é apenas mais um dos exemplos da twisted sweetness que é a música dos Crowded House. Canções sujas com roupagens cândidas. Lobos com pele de cordeiro. Niilismo colorido. E é precisamente isso que me apaixona nos Crowded House. Depois de ler sobre a origem desta canção, experimentem atentar nas backing vocals caóticas na coda do tema. A mulher a gritar la muito atrás. Até aperta o peito.

"We were touched by a cold wind"

De forma trágica e quase-profética, quando finalmente saí do Barreiro e fui para a minha casa em Lisboa (onde viveria durante os 13 anos seguintes), o Marco despediu-se do único emprego estável que alguma vez teve e voltou para a sua vida errática e sem rumo.

A minha tia também se perdeu pouco depois para uma relação geriátrica (nada contra o amor tardio, desde que saudável) com um velho que lhe deu o que ela queria, mas não o que ela precisava. Durante anos, falou da noite do último jantar com o orgulho de quem recebe o Rei em casa, gabando-se de ter sido a anfitriã de tão solene momento.

Ao contrário da minha avó (que fica para outro episódio), a minha tia era fraca e quando a relação geriátrica acabou, ela quebrou e não sobreviveu ao lar de idosos onde foi despejada. Quando se sentiu abandonada, a minha tia morreu. Sem mais. Sem avisos. Semanas depois. De tristeza, como um cão abandonado pelo dono. E eu nem sequer lhe pude dizer adeus, ou dizer-lhe apenas "sonhos cor-de-rosa", como ela me dizia quando me deitava quando tinha 5 anos. Que miséria.

O tempo mata tudo. Tudo. E por isso não há, nem pode haver, tempo a perder. É aproveitar o tempo que temos e atar laços com os que amamos. Atar essa merda com toda a força possível. A sério. É não ter medo de nos darmos a quem gostamos, porque são esses momentos, aparentemente pequenos e insignificantes, que uns anos mais tarde vão estar a recordar e a escrever furiosamente no telemóvel durante uma viagem de regresso a casa, a primeira como emigrante, enquanto lêem uma biografia do Johnny Marr. Momentos como o jantar da última noite no Barreiro.

O laço que formámos naquela noite ficou ate ao fim. Poucas semanas antes de morrer, já sob delírios de insanidade, ela clamava por um perfume que eu um dia casualmente lhe disse que cheirava bem – um comentário sem importância nenhuma para mim, mas que ela guardou como um tesouro para si. Porra. Quando me contaram a história até fiquei com o coração apertado.

Desde aquela noite, nunca mais voltei ao Barreiro.
Minto. Voltei uma vez. Para enterrar a minha tia.

"There is no return"