sábado, 9 de junho de 2018

Peter Gabriel - "Big Time"

"The place where I come from is a small town, they think so small, they use small words"

Castelo Branco

Sempre tive uma relação muito difícil com a minha cidade natal. Bem, chamar ao meu sentimento por Castelo Branco uma "relação difícil" é obviamente um eufemismo somente dado ao facto do texto ser público. Deixemo-nos de palavras pequenas. Na verdade, sempre odiei o sítio de onde vim. E o tempo não melhorou o meu desdém.

"I've been stretching my mouth, to let those big words come right out"

"So" foi o álbum onde Peter Gabriel quis ser grande. Depois de se libertar das amarras dos Genesis em 1975, Peter embarcou numa carreira a solo onde pôde fazer uso da liberdade que a caixa dos Genesis (que é como quem diz, o Tony Banks) não lhe permitiam gozar.

O próprio Peter não negou a sua vontade em disparar para outras alturas. Em 1985, quando gravou "So", já dez anos tinham passado desde a sua separação dos Genesis. Nesse espaço de tempo, viu a banda alcançar mais sucesso do que alguma vez havia conseguido com ele, ou do que ele conseguira a solo. E claro, viu o seu amigo Philip, o insuspeito baterista da banda, o homem atarracado da sombra a quem poucos davam crédito, a tornar-se uma superestrela internacional com milhões de discos vendidos, muitos mais do que ele ou a banda já tinham vendido. Era altura de ripostar.

"Big Time" é o espelho do que PG estava à procura naquela altura. É sátira. Foi o auto-retrato satírico que Peter Gabriel fez a si mesmo, no álbum que usou para, conscientemente, atingir o sucesso: "This drive for success is a basic part of human nature and my nature". Genial. Como não poderia deixar de ser, Peter foi acusado pelos puristas de fazer um sell out com este álbum (fucking Genesis fans), mas ele sabia exactamente o que estava a fazer. E é aqui que devemos atentar.

Peter é um homem muito inteligente. Não sei de níveis de QI, mas pela complexidade que sempre exigiu na sua música e no seu significado, Peter Gabriel será muito provavelmente o homem mais inteligente da história do Rock. É fácil alguém se identificar com os conflitos de Roger Waters. Não é de todo tão fácil identificar-se com os traumas de um homem que desenvolve uma obsessão por alfaces.

"I worked it out"

No plano estritamente teórico, de certa forma entendo o encanto bucólico do campo, ou no caso de Castelo Branco, de uma cidade sem trânsito nem correrias, em que se demora 5 minutos a chegar a qualquer lado e em que hora de ponta significa adicionar 15 minutos aos 5 habituais.
Tenho a perfeita noção que o problema não é de Castelo Branco, é meu. Não que eu goste de entrar em lugares comuns, mas este é o caso proverbial de "It's not you, it's me". Não sou dali. Nunca pertenci ali. Nunca na minha vida estive em Castelo Branco e me passou pela cabeça algo como "este é o meu lugar", ou "é aqui que eu pertenço". Não senti isso nos 17 anos que eu lá vivi. Não senti isso nos 16 anos seguintes que vivi em Lisboa e visitava a cidade esporadicamente. Não senti isso agora que emigrei e regressei à terra onde nasci. Posso entender o fascínio teórico, mas não é para mim.

Nada disto tem a ver com patriotismo. A viver no estrangeiro, cada vez mais me me sinto português e cada vez menos albicastrense. É estranho, mas é o que é.

Sempre odiei a calmaria. Aliás, não há nada que me deixe mais nervoso do que quando me dizem "tem calma, Nuno". Até fico com suores frios. Quando a minha mãe me diz para "ver isso com calma", até tremo. Não, mãe. Não, não, não. Seguir os impulsos sempre foi a minha forma de viver. Sempre me alimentei do barulho e das multidões. Sempre me ferveu o sangue. Para mim, Castelo Branco era a antítese de tudo o que eu era. É um lugar estranho para mim.

"I've had enough, I'm getting out to the city, the big big city"

Sentia-me sufocado em Castelo Branco. Contava os dias para sair de lá. Mas contava mesmo. Literalmente. Era uma ansiedade indizível de sair, de me ir embora dali e ir em busca do meu próprio "Big Time". Tinha uma folha quadriculada onde fazia ticks diariamente no dia de ontem — menos um, menos um, já falta pouco. Estava lá marcado o dia 29 de setembro de 2003, o dia em que começava o ano lectivo no Instituto Superior Técnico. Sabia que a partir daquele dia, tudo seria diferente. E assim foi. Na manhã de domingo, 28, arrumei a minha colecção de CDs numa caixinha (na altura ainda cabia ali) e acondicionei-a ao meu lado no carro do meu Pai. Meti-me dentro do veículo e nunca mais olhei para trás.

A partir daí, foi sempre a trabalhar em busca do "Big Time". Ou de todos os big times que tinha na cabeça. Dizem-me que já alcancei alguns, mas nunca deixei de sentir aquela ansiedade indizível. Nunca senti que cheguei ao "Big Time". E por isso aquela ansiedade permanece, lingering, a perseguir-me dia após dia.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Crowded House – "Hole In The River"

"There's a hole in the river where my auntie lies"

A última noite no Barreiro 

Sendo filho da irmã mais nova de cinco do lado da minha Mãe e do segundo mais novo de quatro irmãos do lado do meu Pai, cresci num imaginário carregado de tios, tias e primos por quem tinha um enorme fascínio, especialmente os meus primos mais velhos e particularmente os que estavam mais longe – os meus primos do Barreiro.

É preciso perceber que nesta altura ir de Castelo Branco a Lisboa era uma epopeia que durava 5 horas de estradas nacionais e paragens à beira estrada para fazer chichi. Para um miúdo de 5 anos eram 5 horas que pareciam 5 eternidades. A viagem para ver os meus primos era penosa, mas a recompensa saborosa.

Adorava a minha prima Patrícia. Como não? Ela tratava-me como um príncipe. Pegava em mim e passeava-me ao colo pelas ruas do Barreiro, enquanto me cantava ao ouvido as suas músicas preferidas do George Michael e do Rick Astley. "Bagaquétchu", repetia eu, quando ela me ensinava a dizer "Never gonna give you up". Adorava, adorava, adorava. Best fucking days of my life. Tudo era diferente, desconhecido e misterioso, um mundo de ruas, edifícios e cores diferentes das que conhecia em Castelo Branco. O deslumbramento era total.

Mas por muito que adorasse a minha prima Patrícia, o meu grande ídolo era o irmão mais novo dela, o meu primo Marco.

O Marco era para mim o exemplo máximo de coolness no mundo. Mas não era só eu. Toda a família venerava o Marco. Ele era visto como um deus grego que irradiava simpatia, era outgoing e ajudava nas tarefas e tudo vestindo sempre um sorriso. Era impossível não gostar dele. Mas o Marco parecia ter um fascínio por mim inversamente proporcional ao que eu tinha por ele. Eu venerava-o e ele parecia desprezar-me com veemência. Sabia lá eu. Ele devia achar que eu era só um puto estúpido e não me ligava nenhuma.

Um dia, o Marco comprou uma mota. Nada de mais, poder-se-ia pensar. Só que ter uma mota no Barreiro trouxe-lhe amigos e um estilo de vida que acabou com a vida dele. Perdeu-se nos caminhos por onde escolheu andar e nunca mais se encontrou. Uma pena. Tanta esperança depositada no rapaz, para nada.

Elusivo e com um discurso cada vez mais desconexo, caiu em desgraça na família e também eu rapidamente deixei de o achar cool. Como lhe tomei o lugar de mais cool da família, o desprezo dele por mim pareceu ficar ainda mais vincado. Como nos fomos afastando como pessoas, nunca partilhámos grande coisa ao longo dos anos. Até que um dia fui viver para a casa dele no Barreiro.

As voltas que a vida dá. Eu tinha sido expulso de todas as casas onde vivera em Lisboa (uma delas acabara numa épica cena de pancadaria) e a minha tia Maria José tomou-me em casa dela – onde o Marco ainda vivia – e tratou-me como um príncipe. Lamentavelmente, um príncipe vegetariano (a minha tia não permitia que entrasse carne lá em casa), mas um príncipe nevertheless. Ela fazia tudo o que podia para me agradar e um dia até fez uns bifinhos de peru só para mim. Tenho com ela uma dívida de gratidão que temo nunca conseguir pagar na mesma magnitude.

Estes meses coincidiram de forma bizarra com o único período em que o Marco viveu uma vida adulta, digamos, normal. Que é como quem diz, levantar-se cedo todos os dias e ir trabalhar. Para nós algo tão prosaico, para ele uma penitência que lhe parecia sugar a alma. Saíamos todos os dias às 7 da manhã de carro e ele deixava-me na estação de barcos para eu apanhar o Catamaran para o Terreiro do Paço e depois seguir para o Técnico. Aquela rotina foi a única coisa que realmente partilhámos em 30 anos. Aproximou-nos. Finalmente, éramos sort of amigos. Mais ou menos, mas éramos qualquer coisa. Ele confessava-me o quão penoso era aquele ordálio de levantar cedo e eu via-lhe nos olhos que aquilo não ia dar. Não por muito tempo.

Os três meses que vivi no Barreiro passaram num instante.Via a situação como algo temporário e por isso nunca criei laços com aquele lugar. Na minha última noite no Barreiro, eu e o Marco fomos jantar a casa da minha tia Maria – irmã mais mais velha da minha Mãe e da minha tia Maria José. Nessa noite cumpriu-se família.

A minha tia Maria irradiava felicidade por nos ter a jantar lá em casa. De facto, aquela mesa apresentava uma concentração de coolness no ramo familiar em níveis estratosféricos. A ocasião era solene e ela não fez por menos: deu-nos luz verde para assaltarmos o armário de licores  e assim o fizemos. A minha tia adorava um copozito, principalmente desde a morte do marido. Eu e o Marco também, desde sempre. Deve ser de família. Embebedámo-nos todos como os velhos amigos que nunca fomos, três gerações diferentes a cruzar estórias de vida por entre copos de Drambuie. E o desejo do pequeno eu foi finalmente cumprido, ainda que apenas por uma noite. A noite do último jantar.

"There's a hole in the river where a memory lies"

"Hole In The River" é um tema do álbum de estreia dos Crowded House que conta uma história verídica. Em "There's a hole in the river where my auntie lies", Neil Finn está mesmo a cantar sobre a sua tia: "That actually was a rare occasion where I sat down and had a story to tell. I'd just been told over the phone by my father that his sister had committed suicide. I was playing the tune on the piano before he rang me, and then he rang me and I just repeated it, basically, to the melody.".

O tema é apenas mais um dos exemplos da twisted sweetness que é a música dos Crowded House. Canções sujas com roupagens cândidas. Lobos com pele de cordeiro. Niilismo colorido. E é precisamente isso que me apaixona nos Crowded House. Depois de ler sobre a origem desta canção, experimentem atentar nas backing vocals caóticas na coda do tema. A mulher a gritar la muito atrás. Até aperta o peito.

"We were touched by a cold wind"

De forma trágica e quase-profética, quando finalmente saí do Barreiro e fui para a minha casa em Lisboa (onde viveria durante os 13 anos seguintes), o Marco despediu-se do único emprego estável que alguma vez teve e voltou para a sua vida errática e sem rumo.

A minha tia também se perdeu pouco depois, para uma relação geriátrica (nada contra o amor tardio, desde que saudável) com um velho que lhe deu o que ela queria, mas não o que ela precisava. Durante anos, falou da noite do último jantar com o orgulho de quem recebe o Rei em casa, gabando-se de ter sido a anfitriã de tão solene momento.

Ao contrário da minha avó (que fica para outro episódio), a minha tia era fraca quando a relação geriátrica acabou, ela quebrou e não sobreviveu ao lar de idosos onde a filha a despejou. Quando se sentiu abandonada pela pessoa que mais amava, a pessoa que era a sua razão de viver, a minha tia morreu. Sem mais. Sem avisos. Semanas depois. De tristeza, como um cão abandonado pelo dono. E eu nem sequer lhe pude dizer adeus, ou dizer-lhe apenas "sonhos cor-de-rosa", como ela me dizia quando me deitava quando tinha 5 anos. Que miséria.

O tempo mata tudo. Tudo. E por isso não há, nem pode haver, tempo a perder. É aproveitar o tempo que temos e atar laços com os que amamos. Atar essa merda com toda a força possível. A sério. É não ter medo de nos darmos a quem gostamos, porque são esses momentos, aparentemente pequenos e insignificantes, que uns anos mais tarde vão estar a recordar e a escrever furiosamente no telemóvel durante uma viagem de regresso a casa, a primeira como emigrante, enquanto lêem uma biografia do Johnny Marr. Momentos como o jantar da última noite no Barreiro.

O laço que formámos naquela noite ficou ate ao fim. Poucas semanas antes de morrer, já sob delírios de insanidade, ela clamava por um perfume que eu um dia casualmente lhe disse que cheirava bem – um comentário sem importância nenhuma para mim, mas que ela guardou como um tesouro para si. Porra. Quando me contaram a história até fiquei com o coração apertado.

Desde aquela noite, nunca mais voltei ao Barreiro. Minto. Voltei uma vez. Para enterrar a minha tia.

"There is no return"

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Nirvana - "Sliver"




Vi o "Supernanny". Não fiquei assim tão chocado


Quem já me leu mais que uma vez, especialmente quando trato de assuntos sociais, sabe que eu sou um libertário por natureza. Creio piamente nas liberdades individuais e apoio qualquer decisão de um indivíduo, seja ela gostar do mesmo sexo, mudar de sexo, recusar sexo, seja ela qual for, desde que venha de um adulto e que não prejudique directamente terceiros. Este princípio serve para tudo e elimina a esmagadora maioria dos argumentos em favor da censura, invariavelmente frutos de insegurança, medo e ignorância. A educação é a chave de tudo, não a censura. Só há uma restrição a este princípio libertário: é que serve unicamente e como refiro em cima, para os adultos.

Só os adultos têm bases comportamentais e cognitivas para tomar decisões responsáveis, ou pelo menos para serem responsabilizados por isso. As crianças, por seu turno, devem ser protegidas e devidamente educadas, de forma a poderem chegar a adultos informados, capazes de tomar decisões com pleno conhecimento do mundo que os rodeia, ou pelo menos para não votarem no Trump ou outras parvoíces como impedir a vacinação dos filhos.

Serve esta longa introdução para contextualizar a polémica do novo programa da SIC. O "Supernanny" é muito basicamente um spinoff o "Pesadelo na Cozinha" com crianças, em que o Stanisic é uma milf. E começo por dizer que na televisão, como no resto, sou igualmente defensor da liberdade total. Acho que todos os conteúdos televisivos devem ser permitidos, desde que, mais uma vez, seja salvaguardada a protecção das crianças.
Exemplo concreto: a pornografia deve ser transmitida em televisão? Deve. (não pode). Mas só a partir da meia-noite. Ao garantir isto, a TV está a zelar pelos interesses da criança. Se houver uma criança a ver TV a partir da meia-noite, a responsabilidade já é dos pais, que já deviam ter posto a criança na caminha àquela hora.
See? Simples.

O caso da "Supernanny" cai numa área cinzenta muito interessante, uma vez que é um programa para adultos (dá às 21:40, 40 minutos depois da hora de lavar os dentes e a 20 minutos da hora em que já eu já me arriscava a uma palmada se não estivesse na caminha), não devendo por isso ser sujeito ao mesmo critério que a programação do Canal Panda. Por outro lado, é um programa com crianças e tem como conteúdo a exploração da sua imagem. Estamos aqui a salvaguardar o superior interesse da protecção das crianças? Nem por isso. Volto ao exemplo de há pouco: a pornografia deve ser transmitida em televisão? Deve. A pornografia infantil deve ser transmitida em televisão? NÃO. Nem o Senhor Televisão se lembrou de uma dessas.

Portanto, a "Supernanny" explora a imagem das crianças? Explora. Isso é condenável? É. Mas não é mais condenável que todos os outros reality shows que também exploram a imagem de crianças. Todos os programas que põem os miúdos a cantar, dançar, ou cozinhar perante um júri, tantas vezes cruel e impiedoso para com as crianças são tão ou mais nocivos e traumáticos que o "Supernanny". E os miúdos na publicidade, com os paizinhos a encher o bolso? E já nem falo nos child actors, que em tantos casos descendem para uma adolescência de drogas e comportamentos desviantes. Mas esse é o preço de vermos o "Sozinho em Casa" no Natal (a propósito, não deixem de ler o artigo "Kevin McCallister is a sexist pig"; a sério, googlem) e de termos aqueles filmes com animais que falam no Domingo à tarde, não é?

Tanto alarido porquê, então? Porque os pais reconhecem muitas das figuras tristes que têm em casa? Provavelmente. As imagens incomodam? Claro que sim. É essa a ideia. Eu não sou pai, por isso talvez não incomode tanto. Mas faz-me muita confusão ver tanto moralista, tão chocado com o "Supernanny" e tão oblívio ao Masterchef Junior e programas derivados. Se é para discutirmos a exploração da imagem das crianças, então discutamos o essencial e proibimos tudo e deixemos o acessório.

P.S.: Relativamente ao último programa. Então a mãe, coitada, não lhe chegava ter que fazer tudo em casa, ainda tem a responsabilidade de educar e disciplinar sozinha os filhos? Depois de uma sessão de insultos e pontapés do fedelho à mãe, o pai chega a casa e ainda tira autoridade à mãe? É só festinhas? Que coninhas de primeira.

P.P.S.: Dispensa-se a perseguição mediática à psicóloga do programa. Que merda de hábito é este de nos focarmos no acessório, em vez do conteúdo. O que é que interessa a vida a vida pessoal da senhora?

P.P.P.S.: A música do post é uma birra de um puto. Foi obviamente escolhida à pressão, por isso não me fodam a cabeça.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

António Variações - "Estou Além"

"Tenho pressa de sair / Quero sentir ao chegar / Vontade de partir / P’ra outro lugar / Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar / Porque até aqui eu só / Estou bem / Aonde não estou / Porque eu só quero ir / Aonde eu não vou / Porque eu só estou bem / Aonde não estou"

O António Variações é que a sabia toda. O sentimento de inadequação que descreve no seu hit "Estou Além" ("Anjo da Guarda", 1982) é algo que me acompanha desde sempre, uma armadilha da condição humana directamente ligada àquela tentação inócua de pensar n'o que podia ter sido. Todos o fazemos. Eu talvez abuse mais um bocadinho, porque remoer tudo até à infinita iteração é o modo de funcionamento automático do meu cérebro. Não tenho culpa que a minha cabeça me fustigue incessantemente com universos paralelos d'o que podia ter sido, caso tivesse feito as coisas de outra forma.

Pensar n'o que podia ter sido não é mais que uma forma de auto-ressabiamento, mas mais do que ressabiar o que fiz, a minha regra é só me arrepender do que ficou por fazer. É por isso que de todos os que podia ter sido da minha vida, o que sempre me bateu com mais força foi aquela vez em que estive a uma assinatura de cumprir o meu destino de viver em Londres. As estrelas estavam todas alinhadas: havia dinheiro em cima da mesa; havia a promessa de uma carreira; havia interesse de todas as partes. Havia tudo. Então por que raio eu não fui?!

Sempre me imaginei a viver em Londres. Londres é o centro do (meu) universo, a capital do país que deu à luz quase todos os meus ídolos, onde todos eles viveram (alguns ainda vivem) e que a todos consagrou em espaços sagrados como o Estádio de Wembley, Earl's Court, Hammersmith Odeon, Rainbow Theatre, Marquee e por aí fora. Por isso sempre me fez todo o sentido mudar para lá e viver as mesmas experiências que os meu ídolos viveram. Claro que a realidade não funciona bem assim, uma vez que só na minha cabeça é que sou uma "Rock 'n' Roll Star", mas pelo menos poderia estar no sítio onde tudo acontece primeiro e assim poder testemunhar ao vivo o nascimento do meu próximo ídolo.

Notem que em lado nenhum me referi a Londres como um "sonho". Não é bem disso que se trata. Lá em cima utilizei a expressão "cumprir o meu destino" porque na verdade, sempre achei que Londres era onde eu ia parar, era ali que eu pertencia. Como se a minha mudança fosse uma inevitabilidade. Não é um sonho na medida de, por exemplo, ver o Benfica campeão europeu, ou dar um abraço ao David Gilmour. É sim algo que eu sempre senti que tinha que fazer. Se é que esta dicotomia vos faz algum sentido.

Há cerca de cinco anos, a viver naquela agitação permanente (tão bem descrita pelo António Variações) de nunca estar satisfeito com o que tinha, achei que estava na hora de mandar tudo ao ar e ir atrás do meu destino londrino. Comecei a mandar currículos em Agosto e a resposta foi overwhelming. Estava de férias e na praia o telefone não parava de tocar com propostas para entrevistas. London was calling, literalmente. Para fazer o bingo de coincidências, tinha um concerto do Roger Waters no Estádio de Wembley marcado para Setembro, daí a poucas semanas. Uau. Parecia que o destino queria mesmo que eu fosse para Londres.

Mas já diz o ditado: Careful with what you wish for. Sem que eu tivesse tempo para reflectir, eles meteram-me um contrato à frente. Bastava assinar o papel et voilá, cumpria-se o destino de viver Londres. Não assinei. De regresso a Lisboa, poucos dias depois da entrevista, voltam a ligar-me com uma proposta mais alta. Voltei a rejeitar. Porquê? Fuck knows. De todos os que podia ter sido, este sempre foi aquele que mais dificuldade tive em encaixar. Foi uma decisão que tomei e que nunca soube se foi a mais correcta. Será que Londres não era, afinal, o meu destino? Ou será que simplesmente ainda não tinha chegado a hora de assinar o papel?

Importa agora chamar a atenção que os parágrafos em cima foram adaptados de um texto que escrevi no Verão passado, onde reflectia sobre o meu destino nunca cumprido de Londres. Mal eu sabia que, poucos meses volvidos, chegaria a hora de assinar o papel.

Vou finalmente cumprir o meu destino londrino e para que não falte nada para completar a experiência, vou viver em Earl's Court, outrora palco que coroou todos os meus ídolos: os Queen em 1977 na digressão da obra-prima da banda "A Day At Races"; os Pink Floyd em 1973 na digressão de "The Dark Side Of The Moon", em 1980 1981 com o espectáculo megalómano de "The Wall" e em 1994 com catorze concertos (um recorde na altura) que fecharam a digressão de "The Division Bell"; os Oasis em 1995 com a digressão de "(What's the Story) Morning Glory?". Percebem a ideia. Agora que o Earl's Court Exhibition Centre foi abaixo, serei eu "Live at Earl's Court".



Mas há mais. Vou também viver ao pé da casa onde viveu o Rei. A meros 500 metros do Garden Lodge de Freddie Mercury estarei protegido; posso sentir-me em casa. Porque esteja onde estiver, não há para mim sentimento igual ao de casa. Talvez por isso desde o concerto da Passagem de Ano que só ouço música portuguesa. Wait, what? Ainda nem fui e já estou com saudades disto. Et voilá, vejam lá o Variações a acertar outra vez. Agora não há volta atrás. Citando outro clássico do Rock português, agora é "carga pronta e metida nos contentores" e "adeus aos meus amores que me vou para outro mundo". Espero trazer-vos novidades de lá.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Elton John – "Sixty Years On"

"I've no wish to be living sixty years on"



"The next song we're gonna do holds a great deal to the arrangement by Paul Buckmaster. This is called 'Sixty years On'"
Elton John live at the BBC


Reavivo o blog para uma homenagem que me obrigo a fazer.

Hoje perdemos mais uma lenda – o grande Paul Buckmaster. "Quem?", perguntarão os mais incautos.
Paul foi o responsável pelos arranjos orquestrais dos primeiros álbuns de Elton John e um dos principais obreiros da superlativa discografia do seu início de carreira e até, por que não, do big break do próprio Elton John.

Elton nunca se coibiu de sublinhar a importância de Paul na sua música (como podemos ouvir em cima numa performance para a a BBC), ao ponto de vermos Paul listado como membro da banda nos primeiros álbuns. Pela minha parte, que amo com toda a força "Elton John" e "Tumbleweed Connection" – álbuns que me fizeram companhia quando morria de saudades de casa quando vivia na Polónia –, tenho a perfeita noção que se não fosse por Paul, a música que eu amo não teria sido a mesma.

"Space Oddity" foi a primeira vez que Paul Buckmaster apareceu num grande hit. Ganhou nome e daí saltou para os discos de Elton John (que já era grande fã de Bowie, ainda antes de ele ter sucesso). Depois ganhou reconhecimento tal, que lhe permitiu fazer música com centenas de artistas nas décadas seguintes, entre eles os Rolling Stones, os Guns N' Roses e mais recentemente, os Tears For Fears, no magnífico "Secret World". A ele se deve muito do feeling épico do tema.

Mas ainda não ouvimos tudo da obra de Paul Buckmaster. Ficou a faltar ouvir a banda sonora original que Paul produziu com Bowie para o filme "The Man Who Fell to Earth", cancelada à última hora por falta de tempo de Bowie. Só posso imaginar a obra prima que ali pode estar.

Fica a minha homenagem ao eterno Paul Buckmaster, sem o qual a minha vida teria sido um bocadinho menos feliz.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Peter Gabriel - "Sky Blue"

"I keep moving to be stable"


Uma das armadilhas da condição humana é aquela tentação inócua de pensar n'o que podia ter sido. Todos o fazemos. Eu talvez o faça um bocadinho mais que a média, porque remoer tudo até à infinita iteração é o modo de funcionamento automático do meu cérebro. E é por isso que letting go sempre foi o meu maior martírio, algo que eu simplesmente não controlo. Não tenho culpa que a minha cabeça trabalhe a mil e as minhas memórias me fustiguem incessantemente com universos paralelos d'o que podia ter sido se eu tivesse feito as coisas de outra forma.

Não estou aqui para vos leccionar sobre se devem ou não remoer o passado. Só quero apontar o facto que isso acontece e que não podem fugir dessa fatalidade. Fora isso, de moral, não aprendem nada aqui. Nem eu a tenho para vos ensinar, nem isto é um livro de auto-ajuda. If anything, o que escrevo pretende ser exactamente o oposto de um livro de auto-ajuda. Tenho aversão ao cenário fantasioso pintado nessa literatura, onde a negação da realidade só serve para afundar ainda mais o leitor num estado de alienação (e para encher os bolsos do escritor). A realidade pode ser podre, mas é tudo o que temos. Fugir dela é negar a vida na sua essência.

O meu problema com os livros de auto-ajuda é que todos negam a própria condição humana. Todos advogam a repressão de quaisquer sentimentos de tristeza, amargura, ou ressabiamento. Mas esses sentimentos fazem parte de nós, são do nosso dia-a-dia. Temos que lidar com eles inexoravelmente. São reais. E porque são reais, merecem ser celebrados — não literalmente, isso seria deprimente — mas como a prova legítima que estamos vivos. No grande quadro da vida, são esses momentos viscerais de contacto intenso com a realidade que compõem what this shit is all about. Somos humanos e não há mal nenhum nisso. Quando cai a máscara e o sangue ferve, é aí que a vida acontece.

Ui, onde é que eu já vou. Como é hábito, comecei a divagar e já misturei aqui dois ou três posts que queria escrever.

Pensar n'o que podia ter sido não é mais do que uma forma de auto-ressabiamento, um ressentimento para com a merda que fizemos. E tanta merda que eu já fiz. O mais curioso é que apesar de a remoer até ao infinito, acabo por nunca me arrepender de nada. Tenho o meu juízo em boa conta, parece-me. Por outro lado, arrependo-me muitas vezes do que não faço. Aliás, a minha regra é que só me arrependo do que ficou por fazer. É por isso que de todos os que podia ter sido da minha vida, o que me bate com mais frequência talvez seja aquela vez em que estive a uma assinatura de cumprir o meu destino de viver em Londres. As estrelas estavam todas alinhadas: havia dinheiro em cima da mesa; havia a promessa de uma carreira; havia interesse de todas as partes. Havia tudo. Então por que raio eu não fui?!


"Sky Blue" é um dos temas-chave do (ainda) mais recente álbum de originais de Peter Gabriel — "Up" de 2002. Foi escrito originalmente para a banda sonora do (grande) filme "Rabbit Proof Fence", lançado no mesmo ano (obrigado Rita!). O filme conta a história de três meninas aborígenes que são raptadas na Austrália dos anos 30 para servir famílias brancas e por isso são levadas para o outro extremo do país. A única esperança que as meninas têm para regressar a casa é seguir o trilho de uma vedação de 2400 quilómetros que atravessa o deserto australiano, colocada para impedir a migração de coelhos (daí o nome do filme).

"Long Walk Home" é o nome da banda sonora de "Rabbit Proof Fence", um álbum que junta duas versões de "Sky Blue" — "Ngankarrparni (Sky Blue - Reprise)" e "Cloudless" —, ambas sem a lírica de Peter Gabriel, que é aqui substituída por cantos aborígenes, mais adequados ao filme. O nome da banda sonora é um perfeito retrato da inspiração de Peter Gabriel na criação da música para um filme que, mais que tudo, ilustra a força de vontade que pode vir do simples (mas tão poderoso) desejo de voltar a casa. Salvaguardadas as devidas proporções, é algo que só podemos sentir no aeroporto quando o voo atrasa mais uma hora, a roupa já se pega ao corpo e a vontade de chegar a casa ganha contornos de desespero. Abrir a porta e sentir o nosso cheiro. Comer a nossa comidinha e finalmente deitar na nossa caminha. Nada é melhor que isto.

Não há para mim sentimento igual ao de casa. É por isso que sempre que viajo (e felizmente posso fazê-lo muitas vezes), onde quer que esteja, crio um pequeno cantinho, normalmente ao lado da cama, onde ponho os meus óculos, telemóvel e gotas para os olhos. Aquele cantinho é casa. Olho para ali e sinto-me em segurança. It feels like home.
E casa pode ser em qualquer lado. Londres, por exemplo.

"I keep moving to be stable, free to wander, free to roam"

Sempre me imaginei a viver em Londres. Londres é a capital do país de onde vieram quase todos os meus ídolos e foi a cidade que os consagrou a todos: no Wembley Stadium, no Hammersmith Odeon, no Earls Court, no Rainbow Theatre... Por isso sempre me fez todo o sentido mudar para lá e viver as mesmas experiências que os meu ídolos viveram. Claro que na realidade isto não funciona bem assim, mas pelo menos poderia estar no sítio onde tudo acontece primeiro e assim poder testemunhar ao vivo o nascimento do meu próximo ídolo.

Notem que em lado nenhum me referi a Londres como um "sonho". Não é bem disso que se trata. Lá em cima utilizei a expressão "cumprir o meu destino" porque na verdade eu sempre achei que Londres era onde eu ia parar; que era ali que eu pertencia. Quase como se a minha mudança fosse uma inevitabilidade. Não é propriamente um sonho na medida de, por exemplo, ver o Benfica campeão europeu, ou apertar a mão ao David Gilmour (será que ganhava imortalidade?!). É sim algo que sempre senti que tinha que fazer. Se é que esta dicotomia vos faz algum sentido.

"I can hear the same voice calling, crying out from my heart"

Há cerca de cinco anos, a viver numa agitação permanente de nunca estar satisfeito com o que tinha (não que isso tenha mudado muito, mas já melhorei), talvez por ver os "vintes" a fechar-se, achei que estava na hora de mandar tudo ao ar e ir atrás do meu destino londrino. Comecei a mandar currículos em Agosto e a resposta foi overwhelming. Estava de férias e na praia o telefone não parava de tocar com propostas para entrevistas. Para fazer o bingo de coincidências, tinha um concerto do Roger Waters no Wembley marcado para Setembro, daí a poucas semanas. Uau. Parecia que o destino queria mesmo que eu fosse para Londres. It was really happenin'.

Na plataforma de comboios de Victoria Station, a estudar o Google Maps, percebi que afinal o trabalho não era bem em Londres. Era em Croydon, uma espécie de Amadora lá do sítio, a sul da cidade. Mas e depois? A caminho da empresa, o comboio passou ao lado da Battersea Power Station, essa mesmo, que aparece na capa do "Animals" dos Pink Floyd e que podem ver lá em cima, no banner do blog. Que cenário mais idílico poderia eu pedir? À chegada ao edifício, ajeitei a minha gravata e fui para cima deles.

Subi o elevador sem saber o que esperar. Não tive que esperar muito. Passado meia hora de entrevista, meteram-me um contrato à frente. De repente, tudo aquilo que eu queria, tudo aquilo que eu precisava estava ali, como se o meu desejo mais íntimo me tivesse caído no colo, sem que eu realmente o desejasse. Careful with what you wish for, não é? Bastava assinar o papel et voilá, cumpria-se o destino de viver Londres. Não assinei.

"So tired of all this traveling, so many miles away from home"

De regresso a Lisboa, poucos dias depois da entrevista, voltam a ligar-me. Parece que o meu caso foi ao CEO do grupo (e acreditem, era enorme) e eles abriam uma excepção para mim. Tinham gostado tanto de mim (eu tendo a despoletar reacções extremas nas pessoas e às vezes até acontece gostarem de mim), que estavam dispostos a oferecer-me um contrato superior a todos os que entravam para a minha posição. Voltei a rejeitar.

Porquê? Fuck knows. De todos os que podia ter sido, este é aquele mais dificuldade tenho em encaixar. Foi uma decisão que tomei e que, embora não me arrependa, ainda hoje não sei se foi a mais correcta. As perspectivas eram excelentes, não tinha nada a perder e nem sequer deixava cá ninguém. Às vezes penso, what the hell was I thinking?! Será que Londres não é, afinal, o meu destino? Ou será que simplesmente ainda não tinha chegado a hora de assinar o papel?

"Back on the road, alone with the sky"

"Sky Blue" leva-me para um universo paralelo onde eu finalmente me decidi a assinar o papel. O tema puxa pelas saudades de quem está há demasiado tempo fora de casa e sonha regressar, pelo que me põe já dois passos à frente da realidade. A canção invoca uma nostalgia reversiva d'o que podia ter sido, saudades de casa se eu me tivesse mudado para Londres. É um sentimento que na escala da autocomiseração, deixa para trás o clássico sofrimento por antecipação. Este é mais o sofrimento por imaginação, algo que só é possível graças ao poder da música.

Naquele momento de imersão na música de Peter Gabriel, o meu coração aperta com saudades de casa e ali desespero por voltar ao céu azul de Lisboa, ao peixe de Sesimbra e aos lençóis lavados pela minha mãe. Depois olho à minha volta e vejo que afinal estou a conduzir na A5, apenas a 20 minutos de cumprir o sonho de chegar a casa.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Radiohead - "Man Of War"

"Drunken confessions and hijacked affairs just make you more alone"


Um dos maiores elogios que recebi em toda a minha vida foi de uma paixão que durou apenas 3 dias em Londres. Há amores que são assim — só existem numa determinada janela de espaço e tempo. Passadas as portas da Martini na Portela, o turbilhão desvaneceu tão rapidamente como aparecera; mas naquelas 72 horas, parecia que não havia mais nada do mundo. Eram todas as cores e todos os sonhos ao mesmo tempo, condensados numa só tempestade adamastora que lavrava tudo à sua passagem.
Encostados ao muro junto ao rio, a olhar para a Tower Bridge depois de um beijo apaixonado, ela virou-se para mim com um olhar encantado e disse-me que o que mais a impressionava em mim é que eu parecia não ter medo de nada. Sem perceber a tragédia do verdadeiro alcance das suas palavras, sorri e por um momento senti-me o James Bond.

Toda a minha vida fantasiei em ser duas coisas: uma estrela de Rock n Roll e o James Bond. Talvez por isso tenha sempre sentido esta atracção irresistível pelo perigo e pelo erro iminente. Para mim, as palavras dela foram um enorme elogio, mas nem por isso tirei quaisquer dividendos deste destemor. A verdade é que o medo não é mais que uma consequência — às vezes nefasta, às vezes salvadora — das experiências negativas que acumulamos. É um sinal de inteligência emocional. Esta minha estúpida falta de medo deve-se ao facto de ter sido abençoado com a maldição de não aprender com as experiências anteriores e por isso não ter medo de cair nos mesmos erros uma e outra vez. E como tal, não tenho medo de nada.

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"Man-o-war is very melodramatic. Too melodramatic. When we started out, it was just a homage to Bond themes really. I like it. It's pretty much the opposite to everything we're writing."
Thom Yorke



Segundo a minha fiel fonte dos Radiohead e maior especialista da banda que conheço — o Filipe (leiam a review dele da reedição do "OK Computer") —, "Man Of War" foi o tema sugerido à EoN (produtora dos filmes do James Bond) quando os abordaram para a banda sonora de "Spectre". O tema foi escrito por alturas do "The Bends" como uma homenagem aos Bond themes, na expectativa de um dia os Radiohead serem chamados à prova (em cima, num clip retirado do documentário "Meeting People Is Easy", podemos ver a banda no estúdio a gravar o tema). Não foram e "Man Of War" ficou na gaveta durante 20 anos, até hoje, que finalmente viu a luz do dia na reedição de "OK Computer".
A chamada chegou finalmente em 2015, mas a EoN perversamente  não aceitou o "Man Of War" por ser um tema antigo. Como tal, os Radiohead gravaram "Spectre", que foi igualmente rejeitado por ser demasiado dark e em última instância foi chamado Sam Smith, que acabaria por gravar o deveras underwhelming "Writing On The Wall".
Não consegui verificar se foi exactamente assim que se passou, mas como gosto da história, vou adoptá-la como a minha versão, até porque como dizia o Mark Twain, "never let the truth get in the way of a good story".

Na verdade, "Man Of War" talvez fosse demasiado complexo para o portrayal que a EON quer fazer do James Bond nos seus filmes. Na visão original de Ian Fleming, James Bond é um assassino. Plain and simple. É um homem com mais morte e menos swing que a série de filmes quer fazer crer. Mas acima de tudo, é um homem. Um homem igual aos outros, com medos, desejos e anseios. A morte dos outros é a forma que Bond encontrou para compensar a sua própria morte interior. E é assim que os Radiohead se atrevem a caracterizá-lo.

"Drunken confessions and hijacked affairs just make you more alone"

O que mais me fascina na personagem do James Bond é o que estará por trás do homem infalível que vemos no ecrã. Nas cenas nunca mostradas, quando a câmara desliga e a missão está descomprometida, de certeza que detrás de todas aquelas conquistas há um homem que bebe uns copos a mais e conta os seus segredos a pessoas que conhece há tempo de menos para os saberem; que pega no carro e conduz bezano pelas curvas da Arrábida (ou de Monte Carlo) sem medo, em busca de respostas para os seus tormentos; que anseia pelo momento em que chega a miúda que lhe diz "és a minha Rock 'n' Roll Star".

"Man Of War" retrata este herói solitário e perturbado, um homem sozinho que vive com o peso d'a missão nos seus ombros. É o melhor tema de James Bond que nunca o foi. A recusa da EoN faz com que "Man Of War" deixe de ser necessariamente sobre Bond e passe a ser sobre quem quer que viva oblívio do medo e do perigo que espreita a cada esquina. Até finalmente perceber que não há finais felizes.