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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

George Harrison - "What Is Life"

"Tell me, what is my life without your love?"



"The album grabs you up by the neck and holds you in a cathartic state for such a long time that it really wears you down - this is not listening for relaxation, this is listening for purification, plain and simple.
80 minutes worth of musical orgasm."

Já o referi diversas vezes: não ligo muito a críticos musicais. Pelo menos não os tenho como oráculos do que é bom ou não, ou do que devo ou não devo ouvir. Contudo, gosto de ler algumas opiniões, principalmente daqueles que têm ideias fortes e vincadas (como eu) e verificar se a minha opinião coincide com a deles. Quando isso acontece, acho engraçado; quando não acontece, é-me igual, por vezes até me rio com a disparidade de visões.

Vezes outras existem, que lemos uma opinião que espelha na totalidade o que pensamos e o que sentimos acerca de um determinado assunto. A citação que coloquei em cima é de George Starostin, um crítico musical que "leio" há mais de 10 anos e uma das inspirações para escrever este blog. Inspiração da ideia, note-se. Sou obrigado a sublinhar que Starostin abomina os Queen, pelo que discordo em larga escala de algumas das suas opiniões, mas não deixam de me entreter.
No caso de "All Things Must Pass", estamos em sintonia.



Ontem falei aqui acerca do White Album ("The Beatles"), de como este álbum era "o castelo de pedra, em cima do monte majestoso que é a discografia" dos The Beatles. Verdade. Mas... e se eu disser que a nível de majestuosidade, de imponência, nada, NADA mesmo, chega a "All Things Must Pass"?
Se a palavra-chave do White Album era diversidade, em "All Things Must Pass", a palavra-chave é majestuosidade. (partindo do princípio que a palavra existe mesmo)
Se o White Album é um castelo, então o álbum de estreia de George Harrison é uma catedral, imponente e majestosa; uma obra épica, de uma grandiosidade que nos esmaga os sentidos e ao mesmo tempo os acolhe.
Como diz Starostin, é um álbum que nos "agarra pelo pescoço" e nos "deixa num estado catártico durante tanto tempo, que chegamos ao fim cansados". E acrescenta:"Isto não é ouvir para relaxamento, isto é ouvir para purificação, pura e simples."

Eu sei, já me estou a exceder outra vez. É o costume: quando falamos de "All Things Must Pass", desdobro-me no uso dos superlativos, ainda mais do que o habitual.
"All Things Must Pass" é de longe o álbum que mais ouvi nos últimos 2 anos. Curiosamente, essa relação de quasi-dependência da obra-prima de George Harrison começou em Londres, numa viagem que fiz por esta altura, há sensivelmente 2 anos.
Volvidos 2 anos, numa altura em que regresso a Londres, com a possibilidade de ficar, "All Things Must Pass" também regressou à minha playlist. Desta feita, principalmente pela mão de "What Is Life", o tema mais optimista do magnum opus de George Harrison. Tempos felizes.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

George Harrison - "Hear Me Lord"

"Now, won't you please... Please... Hear me, Lord"



Hoje volto a "All Things Must Pass" para fechar 2012 e vos falar na categoria que falta: o Tema do Ano. A minha escolha é o divinal "Hear Me Lord".
Em Agosto, já aqui falei da grande obra-prima de George Harrison; o albatroz da sua discografia; o álbum onde o Quiet Beatle almejou alcançar, sozinho, as alturas babilónicas dos The Beatles. Na minha modesta opinião, subiu alto, muito muito alto.
"All Things Must Pass" foi o meu álbum preferido de 2011 e foi, quase, quase, quase... o meu preferido de 2012. O volume de material que encontramos aqui é tão vasto, tão imenso, que a longevidade que este álbum teve comigo foi enorme.



"All Things Must Pass" é um álbum onde George Harrison abre o coração e despeja tudo o que lhe vai na alma. E como seria de esperar de George (principalmente nesta fase da sua vida), o que vai na sua alma é essencialmente fé.
A fé aqui exposta não está necessariamente ligada a uma religião específica, como deixa entender em "Awaiting On You All" ("By chanting the nameS of the Lord, you'll be free"); George nunca fala em Deus ("God"), mas refere-se repetidamente ao Senhor ("Lord"). O que George quer transmitir é que qualquer que seja a crença (e ele também tem a dele), o que é preciso é ter fé. Porque a fé é a luz que nos previne da escuridão ("Beware Of Darkness").

Ora bem, eu não me considero, de todo, uma pessoa religiosa. A invocação contínua do Senhor por parte de George, como figura religiosa da Salvação, não é uma acção com a qual eu me identifique directamente.
Mas tenho fé, pois claro. Tenho fé na verdade de valores (muitos deles cultivei com a aprendizagem religiosa que tive), fé na verdade de sentimentos, fé na verdade de pessoas que me rodeiam. Porque a fé é muito mais do que religião.

"Help me, Lord, please, to rise a little higher, hmmm-hmmm
Help me, Lord, please, to burn out this desire, hmmm-hmmm"

Por isso, a forma como George se entrega em "Hear Me Lord" deixou-me completamente rendido ao tema. George canta em desespero, despe o seu íntimo, revela as suas fraquezas, pede força para o ajudarem a ultrapassá-las e assim usa a fé como uma arma... para ser uma melhor pessoa. E se não é isso que todos queremos, é de certeza o que todos deveríamos querer.

"Hear Me Lord" é um dos temas mais pessoais que George Harrison escreveu em toda a sua carreira. George escava até ao ponto mais profundo do seu íntimo para sacar o que ouvimos. A sua inclusão no final do 2º disco de "All Things Must Pass" serve como uma chave de ouro, para fechar a sua obra-prima (não conto aqui com o 3º disco - Apple Jams).

Desde a explosiva introdução de bateria, que "Hear Me Lord" é um tema que me consegue, invariavelmente, arrancar arrepios na espinha. A beleza dos arranjos, da interpretação vocal de George e das harmonias, daquela slide guitar que se ouve a chorar lá ao fundo, do piano caótico a carpir as suas mágoas... é uma beleza que me esmaga. É tudo perfeito.

Em alternativa, ouvir George Harrison aqui, em modo solo, a cantar "Hear Me Lord" acompanhado apenas da sua guitarra eléctrica, despido de toda a produção de Phil Spector, pode ser ainda mais arrepiante. Decidam vocês.



Depois do post de Agosto e desta introdução, acho que já praticamente esgotei os elogios que poderia fazer a este álbum. O impacto que esta obra teve em mim está à vista e o que me resta agora é desafiar-vos a deixarem-se submergir nela, de mente livre e coração aberto, tal como eu o fiz, desde que o descobri no último terço de 2011.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

George Harrison - "All Things Must Pass"

"All things must pass, none of life's strings can last
So I must be on my way and face another day"



Adoro o George Harrison.
Ele pode até ter sido o "Quiet Beatle" - o mais modesto e discreto elemento dos The Beatles. Contudo, ele carrega uma aura que nenhum dos outros alguma vez atingiu. Talvez devido à sua devoção espiritual, ou às influências indianas, há algo em George de único, que lança a sua música para um patamar de apreciação metafísico. Isso é particularmente audível no seu tour de force "All Things Must Pass" - o primeiro álbum a solo de George, lançado em 1970.
"All Things Must Pass" é um álbum fabuloso, mas é mais que isso. É divinal.


"All Things Must Pass" é um álbum duplo, que resulta de uma gigantesca pilha de temas que George Harrison tinha deixado de lado ao longo do seu tempo nos Beatles, onde estava limitado a uma pequena quota de temas por álbum. Dos poucos que George conseguia meter nos álbuns dos Beatles, apenas "Something" chegou a single e só em 1969, ano de despedida da banda.
Temos que ter em conta que os Beatles eram fundamentalmente a banda de Lennon e McCartney... onde Harrison também tocava. Os seus momentos de protagonismo na banda foram muito efémeros e concentrados na fase final, onde a escrita de Harrison melhorou exponencialmente, com temas como "Something", "Here Comes The Sun", ou "While My Guitar Gently Weeps".
Este domínio de Lennon e de McCartney (principalmente de McCartney que, não por acaso, era chamado de "Bossy Beatle") sobre Harrison ficou bem demonstrado no filme "Let It Be" e na discussão com Paul, durante os ensaios para "Maxwell Silver Hammer". Farto de ser subjugado pelos seus colegas, George saiu furioso do estúdio e foi para casa escrever "Wah-Wah", tema que mais tarde seria também incluído em "All Things Must Pass".

Eu disse que "All Things Must Pass" era um álbum duplo? Esqueçam. É sim um álbum triplo, se contarmos com o disco bónus "Apple Jams", incluído na caixa de LP's original:


A quantidade de material que George Harrison tinha guardada para o seu primeiro álbum a solo era tão grande que deixou o produtor do Phil Spector completamente estarrecido, como o próprio conta no (excelente) filme biográfico de George "Living In The Material World" de Martin Scorsese (que recomendo vivamente). George chamou Spector para lhe apresentar o seu material e à medida que sacava de mais e mais temas que tinha empilhados dos tempos dos Beatles, Spector apercebia-se que George tinha em mãos um filão colossal e que a grande dificuldade seria fazer uma triagem daquilo tudo para o seu primeiro álbum a solo. O resultado da triagem acabou por ser um álbum duplo (mais o "Apple Jams"), dos melhores álbuns duplos de sempre, um álbum que rivaliza com o melhor que os The Beatles já fizeram. Uma maravilha musical, um álbum divinal.


Eu não sei se têm a noção do que vos espera em "All Things Must Pass". É um álbum que pode mudar a vossa vida. A minha, mudou um bocadinho com certeza.
Diria que este foi um dos álbuns que teve mais impacto na minha vida, mas um impacto diferente do que teve, por exemplo, "Appetite For Destruction" dos Guns N' Roses na minha adolescência. "All Things Must Pass" é uma mensagem de esperança, uma lufada de ar fresco, uma aterragem suave num colchão de água, forrado com lençóis de seda.



Sempre que ouço este álbum, sinto um arrepio na espinha. É uma sensação estranha... Como que se fosse esmagado, subjugado, overwhelmed pela beleza da música.
Não há vez nenhuma que eu ouça a entrada explosiva de "Awaiting On You All" ou "Let It Down", o riff de "Art Of Dying" (tema que conta com um Phil Collins de 17 aninhos na percussão), ou a introdução de bateria de "Hear Me Lord", que eu não sinta o tal arrepio na espinha.
Não sei se é o do uso contínuo da slide guitar (instrumento que eu adoro), se do preenchimento da paisagem sonora pela densidade de instrumentos resultante da produção "Wall Of Sound" de Phil Spector... Não sei, mas este álbum mexe comigo. Mexe comigo de uma maneira que mais nenhum álbum a solo dos The Beatles faz; mais: que nenhum álbum dos The Beatles faz; mais ainda: como muito poucos álbuns fazem.
Eu sei que tenho um uso fácil dos superlativos (como me diz uma amiga frequentemente: "Nuno, nem tudo pode ser o melhor de sempre!"), mas confiem em mim relativamente a "All Things Must Pass". É um álbum que vos vai atirar para um lugar de paz e tranquilidade.

"Now the darkness only stays the night-time, in the morning it will fade away..."

Pessoalmente, foi o meu álbum de 2011, o álbum que mais me marcou no ano que passou. É um álbum que associo a bons tempos que passei em Londres e todos sabemos como nos sentimos relativamente à música ligada a bons momentos.

Adoro o George Harrison. Já o tinha dito?
Ele pode ter sido o "quiet Beatle", uma figura de segundo plano da banda. Mas na minha opinião, foi ele quem escreveu o melhor tema da banda ("While My Guitar Gently Weeps"), lançou o melhor álbum a solo ("All Things Must Pass") e... last but definitely not least, tinha a mulher mais bonita entre todos os The Beatles: a maravilhosa Pattie Boyd.



Pattie Boyd, que faria com George Harrison e Eric Clapton o triângulo amoroso mais lendário da História do Rock, uma disputa entre dois melhores amigos pela mesma miúda, que resultou nalgumas das baladas mais fantásticas de sempre. Mas isso é assunto para outras núpcias...