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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Pink Floyd - "Louder Than Words"

"It's louder than words, this thing that we do.
Louder than words, the way it unfurls.
It's louder than words, the sum of our parts.
The beat of our hearts is louder than words."

Se me dissessem há uns meses que hoje, 9 de Outubro de 2014, eu me levantaria mais cedo da cama, só para ligar a emissão online da BBC Radio e ouvir um tema novo dos Pink Floyd, eu abanaria a cabeça em descrença, olhando para o chão enquanto pensava nas parcas possibilidades para que tal pudesse acontecer. Mas às vezes a vida guarda-nos surpresas onde menos esperamos.

"Louder Than Words" está aí e é o tema de avanço do álbum "The Endless River", que junta 4 diferentes peças musicais, cada uma ocupando um lado do duplo LP. Estas peças foram gravadas em 1993, nas sessões de "The Division Bell", as quais produziram 5 a 6 horas de música (segundo Richard Wright referiu numa entrevista em 1994).
Ao contrário do que eu especulei aqui, não vão aparecer as sessões instrumentais que Richard Wright gravou nos seus últimos anos (essas ficarão guardadas para o próximo álbum a solo de David Gilmour, ou até, quem sabe, para um álbum em nome próprio); não vão aparecer elementos da montagem "Soundscape"; e aparecerão alguns segundos apenas da peça "The Big Spliff", originalmente criada por Andy Jackson.
O que teremos em "The Endless River" é algo totalmente novo, inaudito.


"The Endless River" será - David Gilmour já o garantiu - o capítulo final da História dos Pink Floyd. É um duplo álbum quase integralmente instrumental do trio Gilmour-Wright-Mason. Quase, porque David Gilmour quis fechar a discografia dos Pink Floyd com um olhar para o passado.


"Well, Rick is gone. This is the last thing that’ll be out from us. I’m pretty certain there will not be any follow up to this. And Polly, my wife, thought that would be a very good lyrical idea to go out on. A way of describing the symbiosis that we have. Or had… I didn’t necessarily always give [Wright] his proper due. People have very different attitudes to the way they work and we can become very judgmental and think someone is not quite pulling his weight enough, without realising that theirs is a different weight to pull."
David Gilmour
É isso que ouvimos em "Louder Than Words".



Agora impõe-se a pergunta: será que as expectativas geradas por um novo tema dos Pink Floyd foram correspondidas? A resposta é não. Era praticamente impossível.

Não me interpretem mal, eu adorei "Louder Than Words". Mesmo. A voz de David continua divinal, a sua guitarra está no ponto e o Hammond de Richard conseguiu puxar-me as lágrimas diversas vezes em 4 minutos e meio. Só que "The Division Bell" é o meu álbum preferido de todos os tempos. É o álbum que o meu Pai punha a tocar todos os Domingos de manhã, durante anos a fio. Está na minha cabeça colado com a mesma força que a face da minha mãe e o caminho para a minha casa. É injusto comparar o que quer que seja ao melhor de sempre.

Posto isto, confesso que fiquei um pouco desapontado com o solo de guitarra do David Gilmour, para aquele que ficará para sempre como o último tema da discografia dos Pink Floyd. É demasiado curto. Mas depois lembrei-me que o que ouvi hoje é apenas um radio edit(uma versão curta para passar na rádio), por isso é possível que haja mais 2 minutos de solo no disco.
Mais uma vez, note-se que David é o meu guitarrista preferido de todos os tempos, por isso the bar was set very high para ele também.

Nesta paixão pela música, como em qualquer outra paixão, quando as expectativas são tão altas... É previsível haver dissabores e alguém acabar magoado.
Assim, sem querer ser um desmancha prazeres, vou pôr um pouco de água na fervura (também na minha).
Sejamos realistas, é muito difícil (para não dizer virtualmente impossível) que "The Endless River" supere "The Division Bell". Logo à partida, por 2 motivos: em primeiro lugar, porque TER é o que sobra das sessões de gravação de TDB, TER está para TDB como a Liga Europa está para a Liga dos Campeões; depois, porque o que vamos ouvir é material inacabado e daí ser revelado em forma instrumental.

Reitero que não quero com isto decretar o funeral a "The Endless River". Eu estou em pulgas para ouvir o resto do álbum. Estou convicto que vai ser fenomenal (olha para mim de volta aos superlativos), que vou adorá-lo e que vou ouvi-lo 100 vezes, só contando com o pouco que resta de 2014. Mas tenho que resfriar os ânimos desta paixão, especialmente para mim.

Honestamente, "The Endless River" é uma incógnita para mim. É um álbum duplo com 45 minutos instrumentais. Não sei o que esperar.

Se os Pink Floyd tivessem terminado em "High Hopes", teria sido um final perfeito. Mas se me derem a escolher entre ter ou não ter mais um álbum dos Pink Floyd, ainda que imperfeito, ainda que inacabado, a minha resposta será sempre: "SIM! CLARO QUE SIM! 'tás parvo ou quê, para me fazeres uma pergunta dessas?!".

Às vezes, a vida guarda-nos surpresas onde menos esperamos. E essas são as mais saborosas.
Foi o que me ensinou 2014.
"Let's go with the flow, wherever it goes. We're more than alive."

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Trent Reznor and Atticus Ross - "What Have We Done To Each Other?" (Gone Girl Soundtrack)



Acabo de sair da sala de cinema, onde fui exposto a "Gone Girl" - o filme que supostamente será o melhor do ano. E é mesmo.
Não me vou alongar sobre como David Fincher já deve reclamar para si um lugar de proa no panteão dos melhores contadores de histórias da História de Hollywood. Outros especialistas em cinema tratarão disso.

Vou antes falar da banda sonora. Porque da mesma maneira que o povo diz que "por trás de um grande homem, está sempre uma grande mulher", também por trás de um grande filme, está sempre uma grande banda sonora. E não raras vezes, por trás de um grande realizador, está um grande músico. Foi assim com David Lynch e Angelo Badalamenti, foi assim com Béla Tarr e Mihály Vig, foi assim com Krzysztof Kieślowski e Zbigniew Preisner.

Fincher encontrou o seu Badalamenti em Trent Reznor e no seu fiel escudeiro Atticus Ross. Juntos, deram voz a "The Social Network" de 2010 (que ganharia o Oscar de melhor banda sonora), "The Girl with the Dragon Tattoo" de 2011 (que ganharia o equivalente Grammy) e agora trazem-nos a banda sonora de "Gone Girl", acabadinho de chegar aos cinemas.
Se as 2 anteriores foram muito boas, esta é de cortar a respiração; causa ansiedade, provoca arritmia. É o perfeito casamento com o filme que sonoriza.

David Fincher pode continuar a confiar em Trent Reznor e Atticus Ross. Foi muito à custa deles que eu passei as últimas 2 horas e meia com os rins colados ao fundo do banco do cinema. Fica o aviso: não bebam café antes de "Gone Girl".


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Queen - "Let Me In Your Heart Again"

"You took my heart and soul away with you, but now I stand alone and dream I'm in your heart again"


Muito se tem passado nos últimos dias, sem que eu tivesse tempo para actualizar devidamente este espaço com todas as boas novas. Mas o blog não corre ao mesmo ritmo do mundo lá fora, "aqui o tempo não é tempo, é só um chão que ninguém pisou" (já dizia o Pedro Abrunhosa) e como tal, nunca houve grande preocupação em seguir as tendências. Mas agora há muito chão para pisar.

Uma das grandes notícias dos últimos dias foi a revelação de 3 novas faixas dos Queen com Freddie Mercury na voz, para inclusão em  "Queen Forever" - compilação que pretende recolher algumas das melhores baladas dos Queen e assim dar a conhecer esse lado do grupo à geração mais nova.
Espera aí, faixas novas dos Queen, com Freddie Mercury na voz?! Então mas esse barril não tinha já sido esvaziado com o "Made In Heaven" em 1995? Parece que não.

Há cerca de um ano, Brian May fez uma revelação avassaladora para os fãs dos Queen (para mim, pelo menos, foi com certeza): havia mais faixas vocais de Freddie Mercury, inauditas, passíveis de serem utilizadas para um novo álbum dos Queen, à imagem de "Made In Heaven". Um Made In Heaven II, portanto. Êxtase completo.

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Deixem-me enquadrar-vos na matéria: "Made In Heaven" foi o único álbum que eu vivi dos Queen.
Houve outros que foram lançados no meu tempo de vida ("One Vision" foi lançado no dia em que vim ao Mundo), mas era demasiado novo na altura. Apesar do meu Pai me contar que eu já vibrava com a música dos Queen desde os 2 anos - altura em que comprou o álbum "Live Magic" e gravou o concerto dos Queen no Wembley e eu não queria ver outra coisa senão a cassete VHS com aquelas 2 horas mágicas - eu era muito novo para ter noção do que era aquilo.

Só quando o Freddie Mercury morreu a 24 de Novembro de 1991 - tinha eu acabado de fazer 6 anos - é que eu me apercebi: isto não era como os desenhados animados das outras cassetes que eu via; isto era um ser humano, real, que desaparecera naquele dia.
Com o choque com que a notícia foi dada na televisão, chorei.
Chorei, como se de um tio se tratasse. Não um tio afastado; mas sim um tio que vivia ali ao lado e que eu via e ouvia todos os dias; que falava comigo numa língua estranha que eu não entendia, mas de alguma forma percebia o que ele me queria dizer.
Chorei, sem perceber bem o impacto que teria o desaparecimento de uma pessoa.

Quando 4 anos mais tarde, já com 10 anos de idade e totalmente seguro do meu know-how dos Queen, é anunciado o lançamento de "Made In Heaven" - o álbum com as últimas gravações de Freddie Mercury, rejubilei.
A promoção ao álbum foi forte e eu sabia bem o que queria para os meus anos, em 1995. No dia em que chegou à loja de discos de Castelo Branco, o meu Pai foi lá e trouxe o CD mágico para casa.

Devorei positivamente o álbum naquele Inverno e no Verão seguinte e no Inverno seguinte e no Verão posterior. Era como se não existisse mais nada.
Apesar do soslaio com que é olhado por alguma crítica (sempre os mesmos idiotas), eu grito-o sem reservas: eu amo o "Made In Heaven". Sem ses, nem mas, nem apesares.
"Made In Heaven" é um álbum muito especial para mim e tem lugar no meu Top 5 de álbuns de sempre.

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Agora que já vos enquadrei na matéria, podem imaginar a excitação que me induziu a revelação de Brian May. Só me restava esperar para ver o que daí vinha.

Não é que eu não imaginasse que temas poderiam vir aí. O Freddie já cá não está desde 1991 e depois de "Made In Heaven", o poço da água que ele nos deixou para beber já estaria com certeza quase seco. Mas sabia que havia ainda algumas faixas no arquivo dos Queen que poderiam levar o mesmo toque de Midas que acontecera no álbum "Made In Heaven".

A Wikipedia tem um levantamento bastante abrangente e assertivo do que se sabia haver nos arquivos dos Queen.
Aprofundarei o assunto dos arquivos mais tarde, mas já no último post dos Queen referi que "se há uma banda que ao longo da história inexplicavelmente ignorou os seus arquivos - tanto em áudio, como em vídeo - essa banda são os Queen.".
É verdade. Esperava-se então que este pecado fosse parcialmente corrigido com Made In Heaven II. Contava ver neste álbum, numa forma completa e renovada, as faixas vocais gravadas para temas como:

"Man On Fire" (deixado à última hora de fora de "The Works" e depois lançado a solo por Roger)
"I Guess We're Falling Out" (das sessões de "The Miracle")
"Dog With A Bone" (das sessões de "The Miracle")
"Face It Alone" (das sessões de "The Miracle" e "Innuendo")

Note-se que o que se ouve em cima são apenas demos, são pedras sem acabamento e o produto polido não teria nada a ver com isto. Contava para isso com o tal toque de Midas dos Queen.

Havia ainda o espólio a solo de Freddie que poderia ser aproveitado: desde as faixas inutilizadas do seu álbum a solo "Mr. Bad Guy" ("I Was Born To Love You" e "Made In Heaven" já tinham aparecido em "Made In Heaven"), as lindíssimas faixas do musical "Time" ("Time" e "In My Defense") e claro, os infames duetos com Michael Jackson, desde há 30 anos à espera para ver a luz do dia.


Resumindo a história, Freddie e Michael juntaram-se entre 1982 e 1983 e gravaram o esqueleto de 3 temas: "There Must Be More To Life Than This", "State Of Shock" e "Victory". As faixas nunca seriam terminadas porque Freddie perdeu a paciência com Michael - que levava um lama (sim, um lama) para o estúdio todos os dias - e teriam assim gestações distintas.
"State Of Shock" foi regravado com Mick Jagger e lançado no álbum dos The Jacksons "Victory" (faixa que deu nome ao álbum, mas que nunca foi lançada oficialmente).
Freddie, por seu lado, gravou "There Must Be More To Life Than This" a solo e incluiu-a no seu álbum "Mr. Bad Guy".

Uns anos mais tarde, a parte vocal de Michael Jackson em "There Must Be More To Life Than This" apareceu na internet e um fã fez o magnífico trabalho de juntar as duas vozes, criando esta maravilha.
Só de pensar no que os Queen tinham feito em "Made In Heaven", eu ficava aguado a imaginar o que poderia fazer o toque de Midas de Brian May e Roger Taylor a este tema.

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Bem me enganei.
5ª feira à noite chegou a grande revelação: vem aí novo álbum dos Queen, mas não é bem aquilo que estavam à espera. Afinal, o novo álbum é uma compilação e as novas faixas são apenas 3. É melhor que nada, é verdade. Mas não deixa de ficar um amargo na boca, sabendo do que poderia aí vir.



Mas o pior de tudo foi perceber que talvez o tal toque de Midas dos Queen já se tenha desvanecido.
A nova versão de "There Must Be More To Life Than This" - que agora aparecerá creditada a Queen + Michael Jackson - é inferior à versão maravilhosa criada por um mero fã, há mais de 10 anos.
A nova versão de "Love Kills" - que agora se apresenta com o subtítulo The Ballad - também fica a quilómetros de distância da assombrosa versão original de Freddie Mercury, que entrou na banda sonora de "Metropolis" de Giorgio Moroder.

Tanto os Queen quiseram polir as suas pedras, que elas ficaram sem nenhum edge.
(Esta observação resulta muito melhor em inglês: "Queen wanted so much to polish their rock, that they lost their edge" - veem? Muito melhor.)
Que pena...
Mas nem tudo está perdido.

Em contrapartida, os Queen desvendam em "Queen Forever" aquela que poderá ser a última pérola saída dos seus arquivos: "Let Me In Your Heart Again".
O tema foi gravado durante o ano de 1983, em Los Angeles, para o álbum "The Works" e emula exactamente aquilo que eu mais ansiava ouvir num Made In Heaven II. É um final de ciclo perfeito.
Naquela que pode ser a última vez que fala connosco, Freddie pede para entrar novamente no nosso coração.
Claro que sim, Freddie. Ele esteve sempre aqui para ti.

"Let Me In Your Heart Again" é mais um triunfo dos Queen. Possivelmente o último.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Queen - "White Queen (As It Began)" (Live At the Rainbow Theatre '74)

"The White Queen walks and the night grows pale"


Se há uma banda que ao longo da história inexplicavelmente ignorou os seus arquivos - tanto em áudio, como em vídeo - essa banda são os Queen.

Os Queen são sobejamente conhecidos pela sua imagem dos anos 80: Freddie Mercury de bigode, John Deacon e Roger Taylor com um look 80's Pop digno dos Duran Duran e Brian May com a sua farta cabeleira encaracolada.
O que nem todos sabem, é que antes dos grandes estádios e das grandes multidões dos 80's, na escuridão das arenas dos anos 70, tocavam uns Queen bem diferentes.

Nessa época, os Queen eram uma banda estandarte do movimento Glam Rock britânico e como era apanágio da banda, os seus membros levavam tudo ao limite: vestiam roupas femininas, pintavam as unhas, usavam maquilhagem e mostravam cabelos compridos e arranjados em palco.
Senhoras e senhores, isto são os clássicos Queen, uma banda de senhores que pareciam senhoras:


10 anos mais tarde, Freddie Mercury recordou esses tempos com algum humor, a propósito do sucesso de Boy George nos anos 80 (segundo 3:31) e de algum revivalismo dos tempos do Glam, que se vivia na altura. Vale a pena ver o vídeo, nem que seja para ver e ouvir a gargalhada musical de Freddie.

"At this point in time I think if I had long hair and fingernails and wearing those things, I would look ridiculous...I mean, I looked ridiculous then, but it worked!"



Se não conhecemos mais dos clássicos Queen - e o ouvinte mais casual pode mesmo desconhecer por completo - isso é porque estivemos sempre limitados ao espólio dos Queen ao vivo nos 80. Dos anos 70, fomos remetidos apenas às compilações de videoclips (e mesmo o DVD "Greatest Video Hits 1" já remonta a 2002, já lá vão 12 anos). Nesses vídeos, podíamos ver a banda a fazer playback dos seus maiores êxitos, mas nunca pudemos viver a experiência de um concerto dos Queen nos anos 70.

Esta experiência foi capturada na perfeição no filme "Live At The Rainbow", lançado em VHS em 1992, numa caixa de edição extremamente limitada, distribuída apenas pelo clube de fãs dos Queen.
Ainda que fortemente editado, o filme oferecido na caixa já dava um cheirinho do que eram os Queen nos early days.
A caixa dava pelo nome de "Box Of Tricks" e não, não consta da minha colecção. Apesar do esforço que tive em convencer os meus pais para me financiarem uma licitação de 100 euros no eBay em 2001, eles não foram na cantiga.


Durante anos, os fãs dos Queen desesperaram por um registo digno da banda ao vivo nos anos 70, mas ele nunca apareceu.
Até agora.

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Após longos anos de espera, Brian e Roger decidiram olhar para os arquivos e este mês chegou finalmente o superlativo "Live At The Rainbow" - um álbum ao vivo que reúne os 2 concertos que os Queen deram no Rainbow Theatre, em Londres, no ano de 1974. Nesse ano, os Queen foram ao Rainbow Theatre por 2 ocasiões diferentes - uma em Março e outra em Novembro.


Em Março, os Queen estavam a promover o seu 2º álbum, lançado nesse mesmo mês e apropriadamente batizado de "Queen II" - uma maravilha sónica, que é também um dos melhores álbuns de sempre (considerado por mim, obviamente).
Naquela altura, para uma banda que ainda não tinha alcançado um único êxito ("Seven Seas Of Rhye" estava somente a começar a ganhar alguma notoriedade), parecia uma loucura uma banda como esses tais de "Queen" ir ao Rainbow - uma das salas mais prestigiadas de Londres na época. Mas foram e... esgotaram os mais de 3 mil lugares, provando que eram uma banda que tinha vindo para ficar.

O concerto juntou algumas das melhores faixas de "Queen" e "Queen II" e foi gravado profissionalmente em áudio e em vídeo (embora a maior parte das fitas de vídeo tenham desaparecido e por isso apenas 10 minutos dessa noite estão presentes no DVD/Blu-Ray).  O que muito pouca gente sabe, é que os Queen se deram ao trabalho de documentar este concerto porque foram ao Rainbow gravar o seu 3º álbum ("Queen III - Live At The Rainbow" soa tão bem...). Só que o motor dos Queen estava em alta rotação e obviamente, esse álbum nunca veria a luz do dia (até agora).
Mesmo depois de Brian May ter caído na cama do hospital por exaustão, após 6 noites consecutivas de concertos em Nova York e de lhe ser diagnosticada hepatite, os Queen enfiaram-se em estúdio, escreveram novas canções para um novo álbum de originais e o programado álbum ao vivo foi posto na gaveta.

Em Novembro, os Queen voltaram então ao Rainbow Theatre para promover o tal novo álbum - "Sheer Heart Attack" de seu nome - um álbum menos polido que o anterior, mas mais pesado e com mais potencial comercial. Na semana do concerto, o single de promoção do álbum "Killer Queen" / Flick Of The Wrist" chegou a nº2 das tabelas, falhando por uma unha negra o posto mais alto. Brian May faria referência a essa frustração durante o concerto. Mal sabia ele que aquilo seria apenas o início de uma longa caminhada real dos Queen.

O concerto de Novembro foi mais uma vez gravado profissionalmente em áudio e em vídeo e os registos desta mantiveram-se intactos ao longo dos anos, como se pode observar tanto no CD, como no DVD de "Live At The Rainbow". Este fora o concerto parcialmente incluído na "Box Of Tricks" e aparece aqui, completo, em toda a sua glória.


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É preciso alguma perspectiva para olhar para estes concertos, principalmente para quem só conhece os Queen dos anos 80, conforme falei no início do post.
Em 1974 os Queen eram ainda uma banda em ascensão, esfomeada pelo sucesso, com tudo para provar ao público. E isso nota-se em "Live At The Rainbow", isso ouve-se.
Tanto no concerto de Março, como no de Novembro, podemos ouvir os Queen a esforçarem-se, a darem o litro.

Nesta altura, Freddie Mercury já se mostrava um predestinado a lidar com a plateia, mas ainda não era o showman que conhecemos dos estádios dos anos 80. Em sua defesa, ele não teve nenhum modelo para se basear, uma vez que foi ele, em grande parte, que inventou o seu próprio conceito. Freddie Mercury inventou-se a si próprio: inventou o seu nome, inventou a sua persona no palco, inventou a banda que os Queen se tornariam.


Mas quem ouvimos a brilhar mais intensamente em "Live At The Rainbow" e que eu não posso de maneira nenhuma esquecer é o Dr. Brian May. Munido da sua guitarra Red Special e do seu impressionante sistema de som Echoplex, Brian dispara lasers sonoros por toda a sala e desenha as linhas de um rendilhado que ornamenta os meus sonhos e me afaga a alma. Meu Deus, que paraíso.
Se o meu cérebro tem um estimulador, é aquele som que vem da guitarra de Brian. Um som vindo ao mesmo tempo do Céu e do Inferno.

E depois há as harmonias... Ai as harmonias. Que delícia.
Harmonias pode mesmo ser a palavra chave de "Live At The Rainbow". Freddie Mercury, Roger Taylor e Brian May, os 3 com um registo vocal bem diferente, juntos completam o espectro sonoro quando gritam em uníssono ao microfone. O efeito é arrepiante.
Infelizmente, por volta de 1976 / 1977, à medida que o espectáculo visual dos Queen crescia, o espectáculo das harmonias foi desaparecendo. Mas nos early days dos Queen, eles eram imbatíveis nas harmonias.

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O tema que aqui deixo para mostrar "Live At The Rainbow" é "White Queen (As It Began)" -  tema composto por Brian May e incluído no Side White (ou 1º lado) do álbum "Queen II". "White Queen" é um dos meus temas preferidos dos Queen e esta versão em específico, ao vivo no concerto de Novembro no Rainbow Theatre, é a minha preferida de sempre.
Isto é Queen em estado cru: 4 senhores apenas, vestidos de senhoras, a fazerem Rock.


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

U2 - "The Miracle (Of Joey Ramone)"

"I woke up at the moment when the miracle had come"

Aviso prévio: Esta não é (mais) uma crítica ao novo álbum dos U2. Se quiserem categorizar este texto, chamem-lhe uma crítica às críticas ao novo álbum dos U2.

O assunto desta semana no mundo da música foi o lançamento do novo álbum de originais dos U2 - "Songs Of Innocence". Sempre (desesperadamente) polémicos, sempre (desesperadamente) revolucionários, sempre (desesperadamente) preocupados em não deixar ninguém indiferente, os U2 atiraram mais uma pedra no charco com o lançamento do seu novo álbum. Uma pedrada no charco resulta num efeito fixe, dá boas fotografias, mas o problema é que molha quem está à volta e quem fica de calças molhadas pode não achar piada.

A Apple (lê-se Apple e não EIpal; deixem-se disso, por favor) pagou (e bem) aos U2 e no dia 9 de Setembro ofereceu aos seus utilizadores o novo trabalho da banda irlandesa. A oferta do novo álbum não é uma estratégia original - já em 2007 os Radiohead o fizeram para promover "In Rainbows" - mas quem tinha a opção de downloads automáticos activada, acordou naquele dia com o álbum dos U2 na sua playlist. Mais que uma oferta, o álbum passou assim a ser uma imposição.
Numa época em que os melómanos podem gerar a sua própria rádio, o novo álbum dos U2 foi enfiado pela garganta abaixo de um público com cada vez menos paciência para estratégias de marketing intrusivas. Não foi a ideia mais brilhante.

De repente, o foco de atenção deslocou-se do novo trabalho dos U2, para o marketing utilizado para o promover e o assunto da ordem do dia deixou de ser aquilo que realmente importava - a música.
Todos querem falar, todos têm algo a dizer: uns atiram odes à genialidade de tal campanha, outros varrem o objecto indesejado que lhes foi posto em casa durante a noite, muitos aproveitam para vomitar todo o ódio que transpiram contra os U2, centrando a mira no seu alvo de eleição - Bono Vox.

Quando Bono se afirmou como um investidor e como um homem de negócios, comprou uma guerra com os puristas. Embora a música seja um negócio de milhões, os puristas ficam com a consciência mais tranquila quando se convencem que a arte não envolve dinheiro e que os artistas não se movem em função do seu trabalho, neste caso a música. Hipócritas.
E já nem falo nas ligações políticas de Bono, que também não lhe fizeram valer novos fãs e que é coisa que eu, pessoalmente, dispenso. Não é que eu não goste de ouvir músicos advogarem pela solidariedade social. Mas o que eu gosto mesmo é que falem sobre a condição humana. E os U2 fazem isso tão bem.

O problema dos U2 é a sua ânsia pela revolução, pela transformação, pela reinvenção. Ainda inebriados pela (brilhante) reinvenção que fizeram em "Acthung Baby" - já lá vão quase 25 anos - os U2 passaram o resto da sua carreira a tentar repetir o feito.
Embora os anos passem diabólicos por eles (e por todos nós), os U2 continuam a recusar o estatuto de dinossauros do rock e querem desesperadamente continuar a ser fixes, a ser relevantes. E isso pode ter tanto de aplaudível, como de irritante.

O facto que é que tornou-se moda bater nos U2. É fixe bater nos U2. (eu gosto mais de bater nos hipsters, nos puristas e nos outros hipócritas)
Como já vi escrito na net, o dia lançamento do novo álbum dos U2 foi "A Beautiful Day" for haters.

A popularidade dos U2 torna-os num alvo fácil. Se esta estratégia viesse do motor dos Radiohead, talvez fosse ultra-pioneiro-genial. Como são os U2, é ofensivo-intrusivo.
Desde que os U2 se tornaram um fenómeno de popularidade, não só musical (desde "The Joshua Tree"), como também cultural (desde "Achtung Baby"), que assim é. Os U2 mexem com muitos números - com muito público, com muitos discos, mas acima de tudo, com muito, muito dinheiro. E quem mexe com dinheiro é sempre olhado de lado, mesmo que nos dêem obras primas que nos engrandecem o quotidiano (deixem-se de merdas e de alternativismos; não me venham dizer que não há um único tema do (vasto) catálogo dos U2 que nunca tenha melhorado um dia das vossas vidas).

No meio disto tudo, o que me deixa irritado é que não se fale da música e que quando se fale, se remeta a uma referência em tom jocoso e irónico, anexada à análise da estratégia de marketing dos U2, essa sim, a notícia que interessa dissecar.
Porra, eu próprio já vou no 8º parágrafo e ainda não falei na música.

Falando na música... não vou falar ainda sobre "Songs Of Innocence". Pelo menos não em definitivo.
Só consigo fazer um crítica apropriada a um álbum após múltiplas audições e semanas, sei lá, meses de maturação. É preciso perspectiva.
Só depois do amadurecimento da música na alma é que eu consigo saber se ela deixa marca e se deixa, se a marca é doce, amarga ou insonsa.

Sim, eu sei: há álbuns que entram à primeira, ouvimo-lo uma vez e ficamos apaixonados. Mas nem todos são assim.
Eu adoro o "The Lamb Lies Down On Broadway", mas quem me disser que se perdeu por amores por Lamb à primeira audição, das duas, uma: ou é um grande aldrabão, ou é um tipo muito estranho.

Mas talvez por isso eu nunca serei um crítico musical.
Impressionam-me sempre as críticas definitivas ("tudo o que precisa saber sobre o álbum x está aqui!!!", assim, com vários pontos de exclamação) que saem umas horas depois do lançamento de um álbum e que as publicações estampam eternamente nos álbuns, após o crítico - esse ser suprassumístico da análise sonora - ouvir um trabalho uma única vez. Alguém teve que enterrar a cabeça na areia depois das 5 estrelas a "Be Here Now" dos Oasis, ou (no pólo oposto) do assassinato ao 1º e 2º álbuns dos Led Zeppelin, mas estes estão longe de ser dos piores exemplos. Até "Abbey Road" (sim, esse mesmo) dos The Beatles foi arrasado pela Rolling Stone.

Aliás, voltando aos U2, "Songs Of Innocence", o álbum foi 5 estrelas para a Rolling Stone, 3 estrelas para a Blitz e 4.6 (em 10) para a Pitchfork. Viva a subjectividade. E viva o hype. E já agora, viva a política.
Sim, política. Porque nisto das reviews, ter uma linha editorial para agradar ao target da revista é tudo.

Claro que 1 ou 2 audições já servem para dizer qualquer coisa sobre um trabalho, mas fazer uma avaliação definitiva? A música não é um sistema de equações. Adoro matemática, mas se a música fosse números, este blog não existiria.



Ah, sobre o álbum... Tenho que o ouvir mais vezes (quão irónico seria, se depois deste texto todo fizesse uma crítica ao álbum?). Não, não é o melhor álbum dos U2, não é um "The Joshua Tree", tão pouco um "Achtung Baby", mas também não será o pior. Há lá bom material.
E no fim do dia, o que é que preferem: um novo álbum dos U2, ou um novo álbum da Rihanna?

terça-feira, 22 de julho de 2014

George Michael - "Let Her Down Easy"

"She still remembers you, the first boy that she gave it to. And she laughs at how little then she knew"


Nos últimos anos, George Michael tem-se dedicado a destruir a sua carreira e a sua vida, com argolada atrás de argolada. Na sua vida, houve várias detenções por posse de droga e condução sobre o efeito de álcool e drogas (George confessou que fumava 25 charros por dia), hábitos que culminaram na sua prisão, durante 4 semanas em 2010.
Na sua carreira, já há muito que não lança um álbum novo e a pouca música que temos ouvido é uma caricatura do artista que em tempos fora.
Desde quando é que se admite que um cantor com uma das melhores vozes do Mundo queira imitar a Rihanna e lance um tema em que a sua voz é praticamente imperceptível no meio de tanto tratamento electrónico (vulgo vocoder)? E ainda por cima fazendo uso de "True Faith" dos New Order - um dos melhores temas Synthpop dos anos 80? Eu digo: não é admissível.
Como classificou o jornal The Guardian, este terá sido "o pior single de caridade não-cómico de sempre". Ou então foi tudo a gozar, não sei.

Finalmente, parece que George Michael se deixou de merdas e (como diziam no Dragonball) decidiu passar a coisas sérias. Em Março de 2014, George decidiu lançar o álbum "Symphonica", gravado ao vivo entre 2011 e 2012, durante a sua Symphonica Tour - que eu tive o privilégio de presenciar em Madrid.


Se não contarmos com as compilações, "Symphonica" é o primeiro álbum de George Michael desde "Patience", lançado em 2004. Ainda assim, trata-se de um álbum ao vivo, pelo que já lá vão 10 anos desde o último álbum de originais e ainda não vimos nada nesse campo.
Em "Symphonica", George assume o seu lado crooner - papel que ele desempenha com mestria. Aliás, para mim, nem há outro como ele. Se compararmos com outros cantores em voga nesse género - como por exemplo, Michael Bublé - a conclusão a que chegamos é que George não só é o maior nesse campo, como ainda joga em muitos outros campos. Sendo mais concreto, para além de intérprete, também compõe. E tanto canta baladas, como temas Pop mais mexidos, ou até Rock. O maior.

Ao apostar nesta faceta, "Symphonica" mostra-nos uma das maiores paixões de George: cantar temas dos outros. Esta paixão foi sendo revelada ao longo dos anos, pelos vários covers que nos foi presenteando na sua carreira - em 1990 fez a Cover 2 Cover Tour, onde praticamente só cantava covers. Em "Symphonica" podemos ouvir nem mais nem menos 10 covers, num total de 17 temas (na versão física mais completa). É mais de metade do álbum.

George Michael dá voz a temas dos repertórios de Elton John ("Idol", do álbum "Blue Moves", de 1976), The Police ("Roxanne", do álbum "Outlandos d'Amour", de 1978), Nina Simone ("My Baby Just Cares For Me"), Rufus Wainwright ("Going To A Town", de 2007), Roberta Flack ("The First Time Ever I Saw Your Face", canção de Evan MacColl, lançada por Peggy Seeger em 1957), Terence Trent D'Arby ("Let Her Down Easy", do álbum "Symphony or Damn" de 1993), entre outros.

O primeiro single do álbum foi precisamente este "Let Her Down Easy", do norte-americano Terence Trent D'Arby (que agora quer ser conhecido como Sananda Maitreya). A faixa do vídeo em cima é diferente da que ouvimos no álbum, uma vez que, segundo George, a rádio se recusava a passar o tema se não fosse totalmente removido o ruído do público, defendendo que a faixa vocal foi gravada ao vivo e está intacta. Se assim é - e o eco que ouvimos no tema deixa escapar que foi mesmo gravada numa sala ampla e não em estúdio - então aqui está a prova que George Michael ainda está em grande forma.
Pena que seja apenas uma amostra. Quero tanto ouvir mais de ti, George. Sem merdas.

"Let her down easy and you'll grow up in time"

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Pink Floyd - "Coming Back To Life"

"I took a heavenly ride through our silence
I knew the moment had arrived
For killing the past and coming back to life"
Hoje era para vos vir aqui falar de um fim-de-semana épico, onde tive o privilégio de presenciar um serão de concertos com Soundgarden e Black Sabbath, no Hyde Park em Londres, que entrou directamente para as noites mais gloriosas da minha vida.

Mas não.

Tudo o que se passou em Hyde Park foi pulverizado pela notícia que recebi quando estava a caminho de casa, sentado no piso superior de um qualquer autocarro londrino, às 3 e 40 da manhã de Sábado:

Os Pink Floyd vão lançar um novo álbum!!!

Repito:

OS PINK FLOYD VÃO LANÇAR 
UM NOVO ÁLBUM!!!

É verdade. Isto deve ser a melhor notícia de sempre, desde que Rui Costa foi apresentado no Benfica no Verão de 2006.
Quem diria? Eu não poderia imaginar uma coisa destas, de certeza.
Bem, na verdade, até já tinha pensado que seria possível fazer este álbum, mas nunca pensei que se concretizasse. Mas já lá vamos.

Antes de mais, vamos aos factos que já conhecemos.
Tudo começou com um tweet de Polly Samson, esposa de David Gilmour e co-letrista da banda no (fabuloso) álbum "The Division Bell":

Estava assim confirmado o regresso à vida dos Pink Floyd.



E estava também desvendado o mistério desta fotografia, que apareceu na internet no início deste ano pela mão de Durga McBroom (que faz backing vocals nos Pink Floyd desde a segunda metade dos anos 80) e que fazia adivinhar um novo álbum a solo de David Gilmour. Esse álbum a solo vai chegar mas, na melhor das hipóteses, só lá para 2015.


De repente, a internet entrou em histeria. E não era para menos.
20 anos depois de "The Division Bell", numa altura em que todos os fãs já davam como certo o fim da banda, aparece este oásis. Aliás, não é um oásis, mas sim um rio - um rio sem fim.
A história de "The Endless River" é contada em vários actos, em diferentes períodos temporais. Fica então aqui a história, conforme vista por mim.

O 1º Acto de "The Endless River" remonta às sessões de gravação de "The Division Bell", em 1993/1994. Na altura, Nick Mason confessou que a banda tinha gravado material suficiente para 2 álbuns, sendo que o primeiro lote fora lançado em "The Division Bell" e o segundo consistia em material instrumental, nascido de improvisações dos Pink Floyd no estúdio, o qual baptizou de "The Big Spliff". Algumas dessas improvisações devem aparecer na compilação de outtakes em baixo:



Nick revelou que a banda tinha intenção de lançar "The Big Spliff", mas o projecto nunca foi para a frente e desde então que os fãs dos Pink Floyd viveram aguados com este lote de instrumentais.
A única fracção que se pensa fazer parte deste projecto e que viu a luz do dia foi uma colagem de sons com mais de 20 minutos de duração, que os Pink Floyd usavam para abrir os seus concertos na digressão de "The Division Bell".
"Soundscape" - como foi adequadamente baptizado - seria mais tarde incluído na versão cassette do álbum ao vivo "PULSE", lançado em 1995. Para vossa curiosidade, fica também aqui:



Entretanto, foi recentemente anunciada uma caixa de luxo de "The Division Bell" (que me chegou hoje às mãos - oh happy days!) e parecia ser a oportunidade perfeita para "The Big Spliff" ser finalmente libertado. Mas para desgosto dos fãs dos Pink Floyd (e meu, obviamente), that was not to be*.
*gosto sempre de citar Take That num post.

Em todo o caso, a caixa de "The Division Bell" é um filão de tesouros e é para mim o produto musical mais perfeito desde o duplo DVD "Queen Live At Wembley Stadium", lançado em 2003 (um dia falarei disso).
Deixo-vos aqui algumas imagens desta maravilha:




Passemos então para o 2º Acto de "The Endless River".
Quando Richard Wright morreu em 2008, sabendo da sua importância para a sonoridade dos Pink Floyd e da sua forte amizade com o líder da banda - David Gilmour, ficou claro para mim que os Pink Floyd tinham acabado oficiosamente naquele dia.
No entanto, houve uma revelação no dia da sua morte que me despertou o interesse: Wright passara os últimos meses da sua vida a gravar material novo, para um álbum instrumental. Neste cenário, seria expectável que este material fosse entregue a David - amigo e companheiro musical de sempre de Rick.
Mas o que poderia fazer David com este material? Terminar, sozinho, um álbum "a solo" de Richard Wright? Incorporar o material de Richard no seu próprio disco a solo? Não fazia muito sentido. E restaurar os Pink Floyd, para uma última homenagem a Rick? Isso já fazia mais sentido. Mas não, não podia ser; afinal, David fazia sempre questão de ser peremptório na resposta negativa à questão do regresso dos Pink Floyd.
Entretanto, fez-se silêncio.

O 3º Acto desta história teve lugar desde há um ano para cá, no estúdio particular de David Gilmour, quando este decidiu finalmente pegar no material de "The Big Spliff" e (presumo eu) nas restantes gravações deixadas por Richard Wright e dar-lhe forma, para um álbum de despedida, agora sim, dos Pink Floyd.

Originalmente, "The Endless River" estava para ser um álbum instrumental de música ambiente, seguindo a linha temática de "The Big Spliff". No entanto, desde há um ano que David Gilmour e Nick Mason têm feito overdubs nas gravações originais, acrescentando faixas vocais em pelo menos um dos temas (o que está a ser gravado na foto de estúdio em cima).

Como seria de esperar, Roger Waters não estará presente em "The Endless River". E não é porque Roger não queira, mas sim porque David não está interessado.
É pena, mas é melhor assim. Senão vejamos: o último laivo de musicalidade de Roger Waters já remonta a 1979 ("The Wall") e o seu último álbum data de 1992 ("Amused To Death" foi lançado há 22 anos). Por muito que eu goste dele e admire o seu trabalho passado, ele dá mostras de estar criativamente terminado (embora adorasse ser provado do contrário, com aquele álbum a solo de Roger que nunca mais aparece).
Desde então, Roger deixou-se inebriar pela política, mas especializou-se na recriação de grande obras suas do passado. Nisso, faça-se justiça, ele é mestre.

Por outro lado, embora muito menos profícuo que no seu auge, David Gilmour vai fazendo uma gestão inteligente da sua carreira e lançando álbuns muito bons (como o "On An Island", a solo, em 2006), ou excelentes (como "The Division Bell" em 1994).
Isto não significa que eu não gostasse de os ver juntos novamente, mas a verdade é que é extremamente improvável.

Nesta altura, não se sabem ainda mais detalhes, mas o álbum já foi confirmado oficialmente para Outubro deste ano, esperando-se mais novidades no fim do Verão, provavelmente no que diz respeito à capa e aos formatos em que será lançado.
A minha aposta, a avaliar por aquilo que ouvi em "The Division Bell" e "On An Island", é que "The Endless River" vai ser um álbum do caralhão.

Para já, o tempo é de alegria. Venha então daí "The Endless River", que eu entretanto vou me entretendo com a edição de luxo do meu álbum preferido dos Pink Floyd de sempre. "Ah, mas como é que podes dizer isso? O Roger Waters nem está nesse álbum!" Olhem para a minha cara de preocupado:


"I took a heavenly ride through our silence
I knew the waiting had begun
And headed straight...into the shining sun"