quarta-feira, 4 de junho de 2014

Tears For Fears - "Standing On The Corner Of The Third World"

"Man I never slept so hard... I never dreamt so well"


Volvidos 3 meses, eis que mais uma vez me deparo com a tarefa da ressurreição do blog; e motivos para isso não me faltam.
Contudo, contra todas as incidências que se têm passado na minha vida nos últimos dias e que me permitiriam regressar à escrita (ver ao vivo Queens Of The Stone Age, ver ao vivo The Rolling Stones, ver ao vivo The Rolling Stones com Bruce Springsteen, conhecer Bruce Springsteen - sim, leram bem), hoje não vou falar de nada disso.
Hoje vou falar do álbum "The Seeds Of Love" dos Tears For Fears. E falar de "The Seeds Of Love" é falar de um dos melhores álbuns de sempre - o 21º para ser mais preciso (as of 2014/06/03 e sim, eu tenho uma lista).

"The Seeds Of Love" está para a Pop Rock do final dos anos 80, como os filmes de Krzysztof Kieslowski estavam para o cinema da mesma época. Na era do advento dos filmes da acção, fartos festivais de balas e explosões, os filmes do realizador polaco destacavam-se pela sua beleza sem paralelo (façam um favor a vocês mesmos e pesquisem pela obra deste génio, em particular a série "Dekalog", de 1988).
Na música, enquanto todos à volta dos TFF gravitavam em torno da preocupação em ser cool e surfavam na onda dos excessos dos 80's, dos sintetizadores, ou da nova vaga do Hair Metal que então rebentava, os Tears For Fears estavam obcecados com a procura pela beleza. Dessa obsessão, nasceu "The Seeds Of Love".

"As a band, we came from the programmed pop era of the early '80s and we had inherited a sense of structure that permeated almost all our music. The way we were working was becoming too sterile.
We wanted to do something more colourful, something that sounded big and warm. You cannot get that from machines. You only get that with real musicians and real players."
Curt Smith (Tears For Fears)

O processo de gravação do álbum "The Seeds Of Love" foi, eufemisticamente falando, um processo penoso.
Quando o álbum viu finalmente a luz do dia em Setembro de 1989, o frenesim gerado à sua volta já era enorme e não necessariamente pelas melhores razões. As razões eram semelhantes às que elevariam "Chinese Democracy" dos Guns N' Roses ao estatuto de elefante branco do Rock, uns anos mais tarde.

"A lot of it was programmed on synthesisers and drum machines. There was no fluidity or expression.
After two or three months it was driving me mad because I was waking up to the limits of our own music - it had become a straight jacket."
Roland Orzabal (Tears For Fears)

A gestação de "The Seeds Of Love" demorou 3 anos, passou pelas mãos de 4 produtores, em 9 estúdios de gravação e custou mais de 1 milhão de libras. Estes números eram absolutamente inauditos na época, tornando este o álbum mais caro de sempre no UK até então e demorando um período nunca antes visto para a gravação de um só disco.
O frenesim era, de facto, justificado; mas não só pelas piores razões. Se é verdade que "The Seeds Of Love" tivera um parto difícil, não é menos verdade que o que dali saiu foi o mais belo ser alguma vez parido por Roland Orzabal e Curt Smith.

"[After we recorded "Songs From The Big Chair"], all around us there was a desire to recreate it.
Everybody, except me and Curt, felt we were on to a good thing. I couldn't see it that way. I believe that, to create, you have to destroy. 
It's painful and it's difficult, but it's the only way I can work."
Roland Orzabal, em entrevista à revista Q 
"Para se criar, tens que destruir.", diz Roland, acrescentando que é um processo "difícil e doloroso". De facto, é uma situação pela qual a vida nos obriga a passar a todos: para construir um novo futuro, temos que cortar com o passado.

"One night in Kansas City, we played the concert, thousands of people, the lights, the huge PA, and it felt vacuous. After we showered we went down to the hotel bar, a dollar-fifty to get in because there was a band on.
There was a woman called Oleta Adams singing and playing piano, with bass and drums. It wasn't like a normal bar, there were families there, people in suits. You didn't feel you could talk, you had to listen. And it was incredible. I was in tears. Phenomenal atmosphere.
And I thought: "I'm doing something wrong. I've got to get back to basics.""
Roland Orzabal

O corte com o passado em "The Seeds Of Love" é evidente e o processo deixou marcas em Roland e Curt. Foi este o álbum que marcou a clivagem entre os dois.
Enquanto Roland desenvolvia uma obsessão com o detalhe (nada saudável, nem para ele, nem para as pessoas que o rodeavam), em busca de um perfeccionismo que só parecia existir na sua mente; Curt parecia deixar-se levar pelos excessos da vida de uma estrela Pop (pelo menos era o que Roland achava), talvez como auto-defesa para lidar com os pedaços do seu próprio casamento, que se desintegrava com a criação do novo álbum da banda.
O resultado foi o progressivo afastamento de Curt do processo criativo e, obviamente, da banda. Daí para a frente, Roland assumiria a maioria das partes vocais e muitas das restantes seriam entregues à sua nova protegée - Oleta Adams.




Na realidade, "The Seeds Of Love" é essencialmente um trabalho de Roland Orzabal. Retirando números efectivamente conjuntos como "Sowing The Seeds Of Love" (até hoje o tema dos TFF preferido de Curt Smith), este é um álbum de Roland. Não por acaso referi aqui diversas vezes a palavra obsessão. Há na produção meticulosa deste álbum, uma clara obsessão de Roland com a pureza.

"The Seeds Of Love" é um álbum mais adulto que "The Hurting" e "Songs From The Big Chair", é o disco que marca a transição de Roland para a maturidade como artista e como homem. Mais que isso, o álbum é, todo ele, um processo de purificação interior.

O tema que aqui deixo é um perfeito exemplo da maravilhosa produção a que o álbum foi sujeito.
"Standing On The Corner Of The Third World" é a brisa que entra pela janela no fim de uma tarde de verão abrasadora, é a chuva que cai na janela da sala quentinha, é o momento em que boiamos na água de uma praia deserta numa manhã de Agosto, é... bem, percebem a ideia. "Standing" é paz, é tranquilidade e é talvez o exemplo mais sucedido da sonoridade orgânica que os TFF almejavam para este álbum.

""Standing On The Corner Of The Third World" is the thing about womb-like containment, the oceanic realm of the imagination and picking up things in a subconscious manner.
The vibe is one of containment and safety and peace and solitude. "Rolling and controlling all the basements and the backroads of our lives", is a reference to how you get rid of all the shit and the dirt of life - it's swept under the carpet, or, at the very least, out of sight."
Roland Orzabal

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