"Non è ancora il momento di entrare. Non è ancora il momento di..."
Antes de mais, uma constatação: a capa do novo álbum dos New Order é uma das melhores artworks que vi nos últimos anos. É uma ideia tão simples e tão enigmática. Será que estão lá um M e um C, das iniciais do álbum? Ou estão lá um N e um O, das iniciais da banda? Será que é uma mensagem subliminar que eu não consigo ler? Fuck knows.Passo dezenas de minutos a olhar para aquilo e não faço a mínima ideia do que é. Mas é espectacular. Se consegue pôr a imaginação a trabalhar, não se pode pedir mais.
Para além da capa, o que dizer então deste "Music Complete" - o primeiro álbum dos New Order desde a saída do meu elemento preferido da banda, Peter Hook? Cuidado. Muito cuidado. Ou "foda-se!", também podemos dizer isso. No meu livro, "Music Complete" é somente o melhor álbum dançável desde que o "Invaders Must Die" dos The Prodigy invadiu os meus ouvidos em 2009 e é somente o melhor dos New Order desde 1989, ano de "Technique". Chega para vos chamar a atenção? Boa.
O arranque de "Music Complete" é feito com "Restless", um típico single dos New Order. Bernard Sumner põe-nos logo à partida em casa, confortáveis, quando nos pergunta "how does it feel?". Onde é que já ouvimos isto? Numa segunda-feira azul, talvez? Pois. O tema poderia vir dos anos 80, mas também poderia vir dos 90s, ou dos 00s, de tão New Order que é. Instant classic. É a música mais amigável do álbum e o single óbvio.
As coisas ficam mais interessantes quando passamos para o segundo tema. "Singularity" começa como um tema dos Joy Division, mas por volta da marca dos 50 segundos salta para território dos New Order. Fica marcado o antagonismo entre a música downer dos JD e a música upper dos NO e como elas podem funcionar na mesma personalidade densa que é a banda de Manchester.
Falando em Manchester, é para lá que vamos logo a seguir em "Plastic". Logo no início levamos com Acid House e BUM, estamos na Haçienda. Fookin' Madchester all over again. É possível ter saudades de um tempo que nunca vivi, num lugar onde nunca estive? Não interessa. Que saudades da Haçienda, onde estão agora aqueles apartamentos trendy (mas ofensivos) e um dia foi o sítio mais cool mancuniano. O álbum, esse, continua a ganhar passada.
Hook já não está lá, mas os hooks não faltam em "Music Complete" (haha, viram o que eu fiz? ya, brutal). A cavalgada do refrão de "Tutti Frutti" (You've got me where it hurts / but I don't really care / cause I know I'm OK / whenever you are there) é mais um clássico Pop. Mas o toque de Midas vem a seguir, quando entra a voz de um narrador de um qualquer filme soft porn italiano de Tinto Brass (julgava que nunca ia mostrar a minha sabedoria nesta matéria), a atirar "TUTTI FRUTTIIIIII". Eishhh... E ainda só vamos no quarto tema.
Depois chega o funk. Porra, que os velhotes de Manchester querem mesmo bater em todas as portas da dança. O riff de piano de "People On The High Line" é das maiores pérolas deste álbum, a lembrar aqueles doces Pop deliciosos dos early 90s, quando George Michael e Madonna davam masterclasses de como fazer um single Pop.
O resto do álbum? Sei lá! Hei-de ouvi-lo brevemente. Para já, estou em audição repetida e obsessiva da primeira metade. As primeiras 5 faixas são do melhor que tenho ouvido no panorama da música dançável. Que maravilha de álbum. Agora que a música de dança está tão em voga e é tão popular (tomando conta até dos festivais, como sabemos), os velhotes voltam a mostrar quem é que sabe disto.
"Music Complete" entronca um árduo desafio para mim. Numa altura em que ainda estou a recuperar de um pé partido e não posso dar azo à grande motivação deste álbum - DANÇAR - como é que eu consigo ouvir isto sem, no mínimo, bater o pé? Não me fazem a vida fácil, estes senhores dos New Order.
Nota: Falta-me fechar a saga do Rattle That Broken Foot Tour, eu sei. Mas tive que fazer um interlúdio para os New Order, não conseguia aguentar mais calado sobre este álbum. Este tema é parcialmente em italiano, por isso estamos enquadrados.
Depois de David Gilmour, também o Papa Chico tem um novo álbum na manga para este ano, subindo para dois o número de divindades com novos trabalhos em 2015.
As promotoras portuguesas já estão no terreno para trazer o Papa Chico a Portugal, mas consta que o sumo pontífice já recusou o Sudoeste devido ao cartaz ridículo, vetou o Alive devido à barraca da Control e não quis o Rock In Rio em protesto pela saída da Roberta dos Ídolos.
Nas cogitações estão agora duas datas, uma no Estádio Nacional e outra no Santuário de Fátima. Consta que o Papa Chico vai trazer o espectáculo completo, com ecrãs gigantes, lasers e insufláveis. Espera-se uma setlist com os grandes êxitos, mas o Papa já avisou que não toca o "Comfortably Numb" no encore, a não ser que o David Gilmour e o Roger Waters se juntem em palco novamente.
A abrir estará o Bispo de Portalegre, que também traz um novo álbum de covers de Bruce Springsteen em Death Metal, contando com faixas como "Jesus Was An Only Son", "Adam Raised A Cain" e "Born In Portalegre".
Tomo III - Gilmour e Gladiadores no Arena di Verona
As lutas de gladiadores que animavam o Império Romano tinham quatro desfechos possíveis para os intervenientes: ou ganhavam; ou perdiam e morriam em combate; ou perdiam e o público ordenava-lhes a morte apontando o polegar para baixo; ou perdiam e o público poupava-os por bravura ou misericórdia. De todos os desfechos, o quarto era o mais raro. Ao sentar-me nas bancadas de pedra do Arena di Verona para um espectáculo expectavelmente menos sanguinário, percebi porquê.
O concerto de David Gilmour no Arena di Verona foi uma experiência surreal, para contar aos filhos e netos. Foi um regresso aos tempos de glória do Império, das lutas de gladiadores, quando havia uma contagem de baixas do público no fim do espectáculo. Muito álcool, muita droga à minha volta e nem sequer faltou a cena de porrada para animar. Surreal, mesmo.
Mas comecemos pelo início. Sair de Pula a um Domingo (o concerto fora no Sábado) e chegar a Verona para o segundo concerto não foi fácil. Desde logo porque não havia transportes. Autocarros para o estrangeiro, ao Domingo, nem vê-los. Aviões, só acima dos 1 000€. A alternativa eram os barcos. Mas como estávamos em Setembro — época baixa — só havia um ferry a sair da Croácia para Veneza nesse dia e era em Porec, a quase 100 kms de Pula. Ah e era às 7 da manhã. A minha única hipótese era assim apanhar um autocarro que saía de Pula às 5 da manhã e rezar para que ele não se atrasasse.
Bem dito, bem feito: o autocarro chega a Pula às 5:30 da manhã. meia hora de atraso. Foda-se. Furioso, dirijo-me ao condutor, explicando-lhe que preciso de estar em Porec às 7:00, misturando discurso em inglês com vernáculo em português. Imaginem um "I need to be there at seven, caralho!", à boa tradição benfiquista do Toni no Irão.
Talvez motivado pelo vernáculo que ele não entendia, o condutor arranca numa corrida desenfreada rumo a Porec, tirando vantagem do parco trânsito matutino, mas numa velocidade claramente desaconselhada para a segurança do veículo e dos seus ocupantes. Pouco antes da paragem em Rovinj... PA-PAUM!! ...o autocarro tropeça num buraco que deixa a suspensão num perceptível mau estado. Resultado: paramos em Rovinj, esvazia-se o autocarro e espera-se pelo seguinte. O tempo que o condutor recuperou no caminho, esfuma-se novamente. Mas ele tranquiliza-me que chegaremos a Porec a tempo, mesmo contra as leis da Matemática e do Google Maps, com o ar assustadoramente assertivo de quem relativiza as regras de trânsito. Mas chegamos mesmo: às 6:55, estou a Porec... para descobrir que o ferry vinha uma hora atrasado.
Chegado a Veneza, regresso à Praça de São Marcos para recordar o concerto que me introduziu aos Pink Floyd aos 5 anos. Mas não sem antes virar um pequeno almoço à campeão: uma caneca de litro.
Sigo para Verona. Segundo concerto do David Gilmour e logo num dos recintos que sempre quis visitar: a Arena di Verona, onde os Simple Minds gravaram um vídeo histórico nos late 80s. Depois da Arena de Pula, é mais um concerto num anfiteatro romano.
Fast-forward para o concerto. À chegada à Arena di Verona, não há lugar para me sentar. Ou o tráfico de bilhetes esteve ao rubro, ou os italianos venderam mais um terço da capacidade da Arena, na esperança que "cabe sempre mais um". Ando eu de canadianas, a mancar exageradamente para chamar a pena de algum bom samaritano, mas ninguém se oferece sequer para se desviar um bocadinho (não há cadeiras, o cu ia mesmo na pedra). É cada um por si. Depois lá me consigo sentar numas escadas onde nem sequer posso ver o David, que está tapado pelas colunas. É como os lugares da ACAPO no estádio do Alvalade. Isto está bonito.
Penso em protestar, mas como? Não há ninguém indignado com a organização, todos agem como se fosse tudo normal. E protestar com quem? Seguranças? Stewards? Nem vê-los. Se houvesse problemas à séria, isto era um festival de pancadaria à antiga, com corpos a rebolar pelas bancadas de pedra até lá abaixo e cânticos em latim de sacrifícios divinos, como nos bons velhos tempos do Império. Há uma equipa da cruz vermelha, sim. Mas passam o concerto a filmar o palco, sentadinhos em lugares de honra. Maravilha.
O que não falta são tipos a vender cerveja. É vê-los a subir aquelas bancadas de pedra íngremes sem qualquer protecção ou preocupação. Não pode faltar cerveja com fartura, para satisfazer este público dos gladiadores, que bebe como se a bexiga não tivesse limite.
Se nas bancadas há gente a mais, lá à frente não há gente nenhuma. Ou as primeiras filas faltaram ou o David tem medo destes italianos, porque nunca vi um espaço tão grande entre a primeira fila e o palco.
Neste cenário reminiscente do Século I, penso que só falta mesmo uma boa cena da pancada. E ela aí está! Mesmo na minha fila. O que vale é que a porrada se dá entre um tipo que é um cruzamento entre o Totti e o Michael Scofield e um que parece o Fernando Mendes do Preço Certo em Euros. O Fernando Mendes viu à partida que não tinha grande hipótese, mas ainda assim levou três tabefes de mão fechada, mesmo ao lado da mulher e dos filhos. Não contente, o Totti Scofield ainda lhe arrancou os óculos, atirou-os para o chão e pisou-os repetidamente. Só visto.
Dito isto, por mais incrível que pareça, Verona foi uma experiência interessante. O concerto perdeu obviamente para Pula, mas só porque depois de chegar ao Olimpo, só se pode descer. A performance da banda até foi melhor: David já não borrou a pintura tantas vezes (só o solo de "The Blue" é que foi destruído pela distorção nos agudos) e até tivemos um "Comfortably Numb" para a história. Mas as distracções à minha volta eram tantas, que o espectáculo no palco era apenas um dos factores de interesse.
Mais que interessante, Verona foi uma experiência surreal. A Arena é uma sala de espectáculos lindíssima, um anfiteatro romano clinicamente preservado, que nos leva até aos tempos dos gladiadores. Não há guardas, não há cadeiras, não há protecções, nada. É tudo como dantes. E se mais alguma coisa faltasse, a negligência da organização e do público transporta-nos até à época do Império. É uma viagem no tempo, como se Caligula ainda ditasse leis na Lusitânia.
Se alguém disse que o Rock está morto, tem que vir a Itália. Onde haviam combates de gladiadores, há hoje concertos Rock. A sede de sangue é a mesma.
Conta o Novo Testamento que quando os Fariseus conheceram Jesus, não ficaram muito impressionados. Os Fariseus sabiam de estórias de um Rei cujo reino "não fazia parte deste mundo", um Rei dos Reis, mas quando lhes apareceu, Jesus era "apenas" um homem mal vestido que falava de maneira diferente. "O quê? É isto?! É este gajo? Este gajo está vestido pior que nós!", terão protestado os Fariseus, num qualquer dialecto hebraico.
Quando eu tive o David Gilmour à distância da minha canadiana na Arena de Pula, por três ocasiões diferentes, lembrei-me deste episódio bíblico. Durante toda a minha vida, tive Gilmour como um ser divino, criador de sons que me definiram, autor de obras que engrandeceram a minha existência, um ser perfeito. Mas agora, este ser divino estava ali, tão perto de mim, mais perto do que eu poderia imaginar quando aos 5 anos de idade, o meu Pai me submetia repetidamente ao concerto de Veneza até eu decorar a arquitectura da Praça de São Marcos. Pude-lhe ver as rugas, o medo de ser engolido pela multidão, a insegurança de quem já não tocava ao vivo há 10 anos, a preocupação de quem pelejava para que nada falhasse, o ar frágil de quem borrou a pintura numa série de solos e o alívio de quem chegou ao fim da primeira noite deixando tudo o que podia em palco. Vi tudo como um qualquer Fariseu que teve o acaso de se cruzar com aquele a quem chamavam o Rei dos Reis.
E assim pude ver que David Gilmour é "apenas" um homem vestido com uma t-shirt preta. Um homem com fragilidades, medos e dúvidas. David é, afinal, humano.
Mas vamos ao princípio. Recuemos 24 horas.
Chego a Pula no dia anterior ao concerto e vou directo para a Arena. Estão a montar o palco e pasme-se, as visitas turísticas ainda estão abertas!
Entro.
WOWOWOW!!! O que é isto? Caixas dos Pink Floyd?!
Ando no meio do equipamento do David Gilmour, a maioria ainda remonta aos tempos dos Pink Floyd. Quase todas as caixas têm a inscrição PINK FLOYD WORLD TOUR. Nem acredito que me deixam andar ali.
Depois de uma hora estarrecido em frente ao equipamento com um estranho sentimento de "foda-se, estou mesmo aqui", dou uma volta ao recinto e deparo-me com o camarim de David Gilmour. Amanhã à noite estará ocupado.
Ao fim da tarde, enquanto virava canecas de cerveja croata num bar com vista panorâmica para a Arena (a foto fala por si) e trocava histórias de vidas Floydianas com um fã turco, David aparece para o soundcheck. Sem mais, começa a despejar temas do novo álbum, um depois do outro, seis no total, quatro deles ouço pela primeiríssima vez (só conhecia "Today" e Rattle That Lock"). Incrível, um concerto de borla! Dois destes temas conquistam-me desde logo, com solos directamente saídos do Olimpo (saberia mais tarde que dão pelo nome de "Faces Of Stone" e "In Any Tongue". Ouçam este último no vídeo em cima, é uma bomba.).
Depois vem "Wish You Were Here". Esta todos conhecem, é vê-los de telemóvel em punho, a gravar o momento. Cena normal nos nossos dias. Mas David ainda tem mais uma na manga. Pam... Pam... Pam... Pam... "High Hopes"! A minha reacção neste momento não deveria ser descrita aqui, sob pena de perder a imagem máscula perante as meninas. Mas que se foda. Mal ouvi o sino, desatei a chorar descontroladamente, cara escondida no braço da canadiana. "High Hopes" é a minha música, o meu elixir. Naquele momento, tudo valera a pena. O pé partido, o risco da viagem solitária para a Croácia, o frio que rapei em Zagreb, tudo fora compensado. O sentimento era um misto de deslumbramento e de "o que raio está a acontecer?!".
Para quem não acredita, o próprio David partilhou no Youtube um vídeo do ambiente na esplanada com vista para a Arena.
À saída da Arena, a carrinha que levava David e a sua mulher Polly Samson passa mesmo à minha frente. Primeiro contacto. Estive a uma janela de David! Comigo, carregava um LP do meu álbum preferido ("The Division Bell", para quem não sabe) na esperança que David pudesse parar para assinar. Nos olhos dele, o medo de ser engolido pela multidão. Já visualizava a capa do melhor álbum de todos os tempos assinada, mas havia muita gente. Não é desta.
Ainda assim, levo uma recordação da minha visita à Arena de Pula. É o que dá deixarem os fãs andarem pelo backstage antes dos concertos. Agora quero ver como é que a banda se orienta para fazer chichi durante o solo de 10 minutos do "Comfortably Numb".
Dia de concerto. Porra, já não era sem tempo, a expectativa já estava a dar cabo de mim. Na camarata do hostel, acumulam-se rapazes de todo o mundo, ali de propósito para o concerto: um uruguaio, um argentino, um russo, um espanhol, um inglês e um português. Nações Unidas Floydianas. Com todos abaixo dos 25 anos, sou o mais velho ali. Conto histórias do meu concerto em Paris de 2006, do Roger Waters em Wembley e ganho logo a admiração da plateia. Fossem todas as plateias assim tão fáceis. À tarde, aproveito para um mergulho no Adriático de canadianas, para espanto dos transeuntes na praia. O mergulho de canadianas até foi fácil, a grande aventura foi chegar ao mar. Falaram-me maravilhas das praias na Croácia, mas esqueceram-se de me avisar que as praias eram de calhaus, óptimas para um pé partido. Adiante.
Hora do concerto. Já conhecendo os cantos à casa, finto a segurança e consigo entrar com uma garrafa de Jameson. Ouvir Pink Floyd sóbrio também é fixe, é verdade, mas para que é que eu haveria de fazer uma coisa dessas?
Vou directo com o meu LP para junto do camarim do David. Poucos minutos depois, aí está ele. David sai do camarim. Segundo contacto. "DAAAAVID!", grito em súplica. David vira-se e vem na minha direção. Quase a chegar, a um metro apenas, David repara que naqueles parcos segundos se haviam juntado dezenas atrás de mim. David pára. Vira-se. Vai-se embora. "FODA-SE! Estive tão TÃO perto! FODA-SE!", gritei num português que pareceu aos demais um qualquer dialecto hebraico. Ainda não é desta.
Procuro o meu lugar. Que maravilha: segunda fila, ainda a inspirar o fumo saído do palco. E logo chega David. Com todas as rugas à minha frente, juntando o ar frágil de um homem de 69 anos, com a robustez de quem teve que aturar o Roger Waters durante quase duas décadas. Terceiro contacto.
Porque o som e as imagens são, como sabemos, louder than words, deixo-vos com alguns dos momentos em Pula (desculpem-me, não consegui carregar os vídeos do Facebook aqui. Se me puderem ajudar, agradecia).
Pula foi especial. Não sabia nada da setlist e tinha feito um aviso de excomunhão a quem ousasse quebrar-me esse segredo. Mesmo assim, a setlist foi mais ou menos aquilo que eu estava à espera. Mas quando David arrancou com o BRRRRRUMMMM de "Sorrow", saltei da cadeira, num grito que deve ter sido audível no outro lado do Adriático (na verdade são dois gritos e são bem audíveis no vídeo em cima). Foi o meu momento da noite.
O concerto não foi perfeito, mas foi memorável. O David fartou-se de meter água, mas foi humano. Pula foi especial porque estive mesmo ali, ao pé de David, vi que ele é "apenas" um homem. E passei a amá-lo ainda mais por isso. Porque David Gilmour não é um homem qualquer, é um homem que cria coisas divinas.
Fui à Croácia e à Itália à caça de momentos. Este foi o primeiro.
O início da história desta viagem remonta a Março. Não, pensando melhor, o primeiro prólogo remonta a 2006. Foi a 15 de Março desse ano que eu vi David Gilmour e Richard Wright ao vivo no Grand Rex, em Paris. Foi a melhor noite da minha vida. Foi uma noite para a eternidade, com "Echoes", "High Hopes", "Time" e "Comfortably Numb" a duas vozes, num lugar mágico e em circunstâncias irrepetíveis. Mas o que é vida, se não a perseguição de um momento irrepetível? Foi por isso sem grandes dúvidas que, quando David Gilmour anunciou em Março a sua primeira digressão desde 2006 (segundo prólogo), eu comprei o número máximo de bilhetes possível. No total, três concertos em quatro dias: Pula na Croácia e Verona e Florença em Itália. Venham de lá esses momentos.
O terceiro prólogo desta história aconteceria em Julho, no concerto dos The Prodigy no Alive. Olvidando a minha idade, dissolvi-me num mosh pit cheio de miúdos com mais horas de ginásio que de livros e que, se eu fosse de outra etnia, já podiam ser meus filhos. Ao segundo tema, um destes jovens caiu em cima de mim e partiu-me o pé. "Ainda faltam dois meses para a Croácia", pensei eu. Os médicos profetizaram uma recuperação rápida que nunca se deu, mediante um descanso que nunca houve. E assim chego à semana da viagem em pânico, ainda a precisar de canadianas como o Dr. House precisa da sua muleta.
Vou ao médico. De certeza que o optimismo que ele demonstrou no passado me vai validar a viagem. "E então doutor, acha que que estou em condições de fazer esta viagem?", pergunto. "Não.", responde ele secamente. "Pode e deve ir de férias, para descansar; mas se a sua ideia de férias é cruzar a região do Adriático em 10 dias, o meu aviso é que não o faça. Se quiser, passo-lhe os papéis para as companhias aéreas". "O doutor não está a perceber. Fazer a viagem não está em causa." "Então o que quer que lhe diga?" "Quero a sua aprovação." "... Não posso fazer isso. Você está a arriscar. Tem mesmo que ir? É trabalho?"
"Não, é muito mais que isso. É o David Gilmour." "Quem?!", pergunta o doutor, genuinamente confuso. "O guitarrista dos Pink Floyd!" "Ah, ok", suspira o médico, de semblante baralhado. "Nesse caso, se tem mesmo que ir, vá. Só lhe desejo boa sorte".
E assim lá fui para a Croácia, canadiana em riste, na perseguição de mais um momento.
Os melhores 20 minutos da história da humanidade. Ou quase.
A memória mais antiga que tenho de um sonho remonta aos meus 6 anos de idade. O sonho foi tão vívido e tão marcante, que ainda hoje me recordo dele com exactidão.
Estádio do Wembley. Eu estou num concerto, mesmo à frente do palco. Em cima do palco, os Queen. Lá atrás, o símbolo do Live Aid e um relógio gigante. Os Queen tocam o seu set, mas no fim de um estrondoso "We Will Rock You", Freddie Mercury cai no chão, inanimado. O Estádio do Wembley tem um momento de silêncio aterrador, como se tivesse mergulhado no oceano. De repente, começam a ouvir-se gritos histéricos de horror, eu olho para o palco e o Freddie desapareceu. Sumiu-se.
Acordo em pânico.
Foi só um pesadelo, mas Freddie Mercury estava mesmo morto. Só não teve um final tão teatral e espectacular como o que sonhara. O sonho foi o resultado do impacto profundo na mente de um miúdo de 6 anos, após a perda do seu maior ídolo. A cobertura mediática do acontecimento e o documentário da BBC que passou na RTP no dia da sua morte, com a performance dos Queen no Live Aid, ficaram coladas no subconsciente daquele miúdo, que reagiu assim àquela tragédia. Foi como se a tivesse presenciado com os seus próprios olhos.
Foi assim que eu vi os Queen no Live Aid na altura. O mundo viu-o como "os 20 minutos que mudaram a música":
Fast-forward até hoje e já vejo as coisas de forma diferente. Agora, eu vejo os Queen no Live Aid como os melhores 20 minutos da história da humanidade. Ou quase. À frente, só as 2 horas do concerto dos Queen no mesmo local, um ano mais tarde. Independentemente da minha opinião, uma coisa é certa: durante aqueles 20 minutos, os Queen reinaram o Mundo.
Quando Freddie Mercury conduzia a audiência em "We Will Rock You" com um grito de "I like it, sing it again!", já milhares de milhões de espectadores em todo o Mundo moravam na palma da sua mão. O Wembley, esse já era seu, desde que "Radio Ga Ga" pusera as 74 mil pessoas que enchiam o estádio a bater palmas, com a coordenação de um comício nazi. E aqui reside a magnitude do seu feito: aquele não era sequer o público dos Queen.
No Wembley havia U2, Elton John, David Bowie, reunião dos The Who e Paul McCartney a cantar temas dos Beatles. No JFK, em Filadélfia, havia reunião dos Black Sabbath, reunião dos Led Zeppelin, Neil Young, Madonna, Duran Duran e Simple Minds. Todos os grandes nomes da Pop e do Rock estavam no Live Aid, incluindo os líderes das tabelas da época. A maioria da audiência em Wembley, pelo menos a falange mais nova, estava lá para ver os U2 (basta olhar para os cartazes à frente do palco). Aquele não era o público dos Queen, mas aquela era a noite de Freddie Mercury.
Naquela noite, Freddie queria mais do que o Wembley, Freddie queria o Mundo. E agarrou-o, ao dançar com o cameraman em "Hammer To Fall", como se desse a mão às 1.9 mil milhões de pessoas (um terço da humanidade) que o viam em casa. E foi assim, que na noite de 13 de Julho de 1985, o Mundo acordou para um facto que estivera o tempo todo à sua frente: não havia (não voltou a haver) um showman como Freddie Mercury, com uma capacidade sem paralelo para captar a audiência. O Wembley parecia uma pequena chávena, para o brilho da estrela que explodia em palco.
Assim foi a vida de Freddie Mercury: como uma estrela que brilhou muito, muito rápido, muito intensamente e explodiu, porque o universo não aguentava com tanto brilho.
O sonho daquele rapaz de 6 anos não fez mais do que captar esta metáfora na perfeição.
O Lux-Frágil vai ter que ser ressarcido depois do que os Capitão Fausto fizeram no concerto da última Sexta-feira. Alguém vai ter que pagar pelos estragos. Porque os Capitão Fausto mandaram aquilo tudo abaixo.
Talvez devido ao facto de estar sob o efeito simultâneo de antibióticos e de uma garrafa de vinho italiano (não ia ouvir a música do Syd Barrett sóbrio, não é?), ou talvez devido ao facto de ter sido um concertão, daqueles que são alvo de lendas que se contam a filhos e netos, saí do Lux com a sensação de ter visto a melhor actuação de uma banda portuguesa em toda a minha vida. E já vi muitas, acreditem.
São palavras fortes, bem sei. Mas do lado dos Capitão Fausto estava um leque de canções invencível. Foram essas canções - as canções de Syd - que chamaram o público que encheu o piso de baixo do Lux. Houve temas de "The Piper At the Gates Of Dawn", "A Saucerful Of Secrets" e também alguns temas a solo do ícone britânico. Mas a partir desses temas invencíveis, havia tanto por onde errar; tantas armadilhas onde tantas vezes vezes caem as bandas que arriscam covers de temas tão sagrados como os dos Pink Floyd. Os Fausto não só evitaram todos os alçapões, como deram à música o seu cunho e tiveram no Lux uma noite épica for the ages. Para ser perfeito, só faltavam as projecções.
Como é que lograram esta efeméride? Os Capitão Fausto não se limitaram a tocar de forma absolutamente fidedigna, nota-por-nota, as versões que ouvimos nos álbuns. Nem faria sentido, este era um live show. Por outro lado, também não caíram na tentação de inventar versões alienadas do cerne Sydiano. Para alcançar um equilíbrio, a banda tocou os temas de Syd, da forma como esperaríamos que Syd os tocasse ao vivo: pincelando um solo de guitarra aqui, estendendo um solo de teclas ali, fiéis ao álbum quando tinham que o ser e carregando no ruído psicadélico sempre que o tema chamava por isso.
O momento da noite? Está no vídeo lá em cima: "Interstellar Overdrive". Os Fausto não se fizeram rogados e tocaram uma versão de 10 minutos do tema que nos pôs a viajar pelas estrelas. Honestamente, na altura não percebi se foram 10 minutos, 20 minutos, ou 3 horas. Mas foi longo, foi mind-tripping e foi tudo aquilo que eu poderia desejar. Eu e não só. A audiência foi ao rubro em "Overdrive", a electricidade no ar era tal, que houve mosh junto ao palco (sim, leram bem) e houve crowdsurfing do Tomás Wallenstein - vocalista dos Capitão Fausto - enquanto tocava guitarra. Épico.
O público foi outro dos factores que elevou este concerto para o patamar de lendário. Do alto dos meus 29 anos, acho que era um dos mais velhos na sala. Olhei à minha volta e o que vi foram miúdos que gostam de Pink Floyd, conhecem os temas todos do Syd Barrett e cantam-nos de peito cheio. E fazem mosh quando a música pede uns encontrões.
Apesar do estrato etário novo, não houve telemóveis no ar, nem idiotas a tapar a vista com smartphones ou tablets. O público estava lá pela música. Foi um dos ambientes mais puramente Rock N' Roll que já presenciei.
No fim, a banda lamentou-se que nunca mais iria repetir esta noite, nunca mais iria tocar temas dos Pink Floyd e de Syd Barrett. Para eles, uma mensagem: conhecem aquele episódio do "Seinfeld", em que o Jerry e o George montam um estratagema para ele trocar a namorada pela amiga, através da sugestão de uma ménage a trois? E depois elas aceitam? Lembram-se do que o George diz? "This is like discovering plutonium by accident!". Eu acho que vocês também descobriram o vosso plutónio. Não estou com isto a sugerir que se tornem numa banda de covers, mas podem repetir a experiência, porque certamente terão procura. Mas acima de tudo, bebam daqui muita inspiração, porque vi-vos a nadar na vossa praia.
Quando a banda voltou para o encore, estava eu convencido que iam sacar de "Astronomy Domine" (o tema mais óbvio, até por ser o tema da era de Syd mais tocado pelas incarnações posteriores dos Pink Floyd) e eis que a banda sobe ao palco com "PA PUM TE, TCH TCH; PA PUM TE, TCH TCH". E metade da audiência respondeu audivelmente, para faces de estupefacção da outra metade: "ÓI ÓI, ÓI ÓI". Mágico. "Pow R. Toc H.". Confesso que por esta não estava à espera.
Na verdade, toda a noite foi de surpresas. Enquanto gritava a plenos pulmões no segundo tema do set "AAAAAAPPLES AND ORANGEEEEEEES!" comentei que nunca pensei ver estes temas ao vivo. E não. E foi a melhor merda de sempre. Pelo menos desde a semana passada. A sério, foi de um nível de brutalidade que só o Mike Tyson nos poderia explicar. Malta, vá lá, não me tirem isto agora, fiquei viciado.
Se os Fausto cumprirem a ameaça e esta noite não se repetir, então pelo menos posso dizer que estive lá. Estive no Lux na noite em que a casa foi teleportada para a outra dimensão; aquela dimensão onde o Syd foi muitas vezes; tantas vezes, que certo dia por lá ficou.
Não tomei notas, por isso perdoem-me qualquer falha na setlist, mas de cabeça, os Fausto tocaram o seguinte:
"Arnold Layne"
"Apples And Oranges"
"Lucifer Sam"
"Matilda Mother"
"Scarecrow"
"Take Up Thy Stethoscope And Walk"
"Interstellar Overdrive"
"Octopus"
"Terrapin"
"See Emily Play"
"Dominoes"
"Jugband Blues"