terça-feira, 22 de setembro de 2015

David Gilmour - "In Any Tongue"



Rattle That Broken Fout Tour Journal

Tomo II - Um Fariseu em Pula, três contactos

Conta o Novo Testamento que quando os Fariseus conheceram Jesus, não ficaram muito impressionados. Os Fariseus sabiam de estórias de um Rei cujo reino "não fazia parte deste mundo", um Rei dos Reis, mas quando lhes apareceu, Jesus era "apenas" um homem mal vestido que falava de maneira diferente. "O quê? É isto?! É este gajo? Este gajo está vestido pior que nós!", terão protestado os Fariseus, num qualquer dialecto hebraico.

Quando eu tive o David Gilmour à distância da minha canadiana na Arena de Pula, por três ocasiões diferentes, lembrei-me deste episódio bíblico. Durante toda a minha vida, tive Gilmour como um ser divino, criador de sons que me definiram, autor de obras que engrandeceram a minha existência, um ser perfeito. Mas agora, este ser divino estava ali, tão perto de mim, mais perto do que eu poderia imaginar quando aos 5 anos de idade, o meu Pai me submetia repetidamente ao concerto de Veneza até eu decorar a arquitectura da Praça de São Marcos. Pude-lhe ver as rugas, o medo de ser engolido pela multidão, a insegurança de quem já não tocava ao vivo há 10 anos, a preocupação de quem pelejava para que nada falhasse, o ar frágil de quem borrou a pintura numa série de solos e o alívio de quem chegou ao fim da primeira noite deixando tudo o que podia em palco. Vi tudo como um qualquer Fariseu que teve o acaso de se cruzar com aquele a quem chamavam o Rei dos Reis.

E assim pude ver que David Gilmour é "apenas" um homem vestido com uma t-shirt preta. Um homem com fragilidades, medos e dúvidas. David é, afinal, humano.

Mas vamos ao princípio. Recuemos 24 horas.

Chego a Pula no dia anterior ao concerto e vou directo para a Arena. Estão a montar o palco e pasme-se, as visitas turísticas ainda estão abertas!
Entro.
WOWOWOW!!! O que é isto? Caixas dos Pink Floyd?!


Ando no meio do equipamento do David Gilmour, a maioria ainda remonta aos tempos dos Pink Floyd. Quase todas as caixas têm a inscrição PINK FLOYD WORLD TOUR. Nem acredito que me deixam andar ali.
Depois de uma hora estarrecido em frente ao equipamento com um estranho sentimento de "foda-se, estou mesmo aqui", dou uma volta ao recinto e deparo-me com o camarim de David Gilmour. Amanhã à noite estará ocupado.



Ao fim da tarde, enquanto virava canecas de cerveja croata num bar com vista panorâmica para a Arena (a foto fala por si) e trocava histórias de vidas Floydianas com um fã turco, David aparece para o soundcheck. Sem mais, começa a despejar temas do novo álbum, um depois do outro, seis no total, quatro deles ouço pela primeiríssima vez (só conhecia "Today" e Rattle That Lock"). Incrível, um concerto de borla! Dois destes temas conquistam-me desde logo, com solos directamente saídos do Olimpo (saberia mais tarde que dão pelo nome de "Faces Of Stone" e "In Any Tongue". Ouçam este último no vídeo em cima, é uma bomba.).
Depois vem "Wish You Were Here". Esta todos conhecem, é vê-los de telemóvel em punho, a gravar o momento. Cena normal nos nossos dias. Mas David ainda tem mais uma na manga. Pam... Pam... Pam... Pam... "High Hopes"! A minha reacção neste momento não deveria ser descrita aqui, sob pena de perder a imagem máscula perante as meninas. Mas que se foda. Mal ouvi o sino, desatei a chorar descontroladamente, cara escondida no braço da canadiana. "High Hopes" é a minha música, o meu elixir. Naquele momento, tudo valera a pena. O pé partido, o risco da viagem solitária para a Croácia, o frio que rapei em Zagreb, tudo fora compensado. O sentimento era um misto de deslumbramento e de "o que raio está a acontecer?!".
Para quem não acredita, o próprio David partilhou no Youtube um vídeo do ambiente na esplanada com vista para a Arena.



À saída da Arena, a carrinha que levava David e a sua mulher Polly Samson passa mesmo à minha frente. Primeiro contacto. Estive a uma janela de David! Comigo, carregava um LP do meu álbum preferido ("The Division Bell", para quem não sabe) na esperança que David pudesse parar para assinar. Nos olhos dele, o medo de ser engolido pela multidão. Já visualizava a capa do melhor álbum de todos os tempos assinada, mas havia muita gente. Não é desta.
Ainda assim, levo uma recordação da minha visita à Arena de Pula. É o que dá deixarem os fãs andarem pelo backstage antes dos concertos. Agora quero ver como é que a banda se orienta para fazer chichi durante o solo de 10 minutos do "Comfortably Numb".


Dia de concerto. Porra, já não era sem tempo, a expectativa já estava a dar cabo de mim. Na camarata do hostel, acumulam-se rapazes de todo o mundo, ali de propósito para o concerto: um uruguaio, um argentino, um russo, um espanhol, um inglês e um português. Nações Unidas Floydianas. Com todos abaixo dos 25 anos, sou o mais velho ali. Conto histórias do meu concerto em Paris de 2006, do Roger Waters em Wembley e ganho logo a admiração da plateia. Fossem todas as plateias assim tão fáceis.
À tarde, aproveito para um mergulho no Adriático de canadianas, para espanto dos transeuntes na praia. O mergulho de canadianas até foi fácil, a grande aventura foi chegar ao mar. Falaram-me maravilhas das praias na Croácia, mas esqueceram-se de me avisar que as praias eram de calhaus, óptimas para um pé partido. Adiante.

Hora do concerto. Já conhecendo os cantos à casa, finto a segurança e consigo entrar com uma garrafa de Jameson. Ouvir Pink Floyd sóbrio também é fixe, é verdade, mas para que é que eu haveria de fazer uma coisa dessas?
Vou directo com o meu LP para junto do camarim do David. Poucos minutos depois, aí está ele. David sai do camarim. Segundo contacto.
"DAAAAVID!", grito em súplica. David vira-se e vem na minha direção. Quase a chegar, a um metro apenas, David repara que naqueles parcos segundos se haviam juntado dezenas atrás de mim. David pára. Vira-se. Vai-se embora.
"FODA-SE! Estive tão TÃO perto! FODA-SE!", gritei num português que pareceu aos demais um qualquer dialecto hebraico. Ainda não é desta.

Procuro o meu lugar. Que maravilha: segunda fila, ainda a inspirar o fumo saído do palco. E logo chega David. Com todas as rugas à minha frente, juntando o ar frágil de um homem de 69 anos, com a robustez de quem teve que aturar o Roger Waters durante quase duas décadas. Terceiro contacto.
Porque o som e as imagens são, como sabemos, louder than words, deixo-vos com alguns dos momentos em Pula (desculpem-me, não consegui carregar os vídeos do Facebook aqui. Se me puderem ajudar, agradecia).


"Wish You Were Here"

"Money"

"High Hopes"


Astronomy Domine
Posted by Nuno Bento on Segunda-feira, 14 de Setembro de 2015

"Fat Old Sun"


"Sorrow"

"Run Like Hell"




"Time"

Pula foi especial. Não sabia nada da setlist e tinha feito um aviso de excomunhão a quem ousasse quebrar-me esse segredo. Mesmo assim, a setlist foi mais ou menos aquilo que eu estava à espera. Mas quando David arrancou com o BRRRRRUMMMM de "Sorrow", saltei da cadeira, num grito que deve ter sido audível no outro lado do Adriático (na verdade são dois gritos e são bem audíveis no vídeo em cima). Foi o meu momento da noite.
O concerto não foi perfeito, mas foi memorável. O David fartou-se de meter água, mas foi humano. Pula foi especial porque estive mesmo ali, ao pé de David, vi que ele é "apenas" um homem. E passei a amá-lo ainda mais por isso. Porque David Gilmour não é um homem qualquer, é um homem que cria coisas divinas.

Fui à Croácia e à Itália à caça de momentos. Este foi o primeiro.




segunda-feira, 21 de setembro de 2015

David Gilmour - "5 A.M."



Rattle That Broken Foot Tour Journal

Tomo I - Três Prólogos

O início da história desta viagem remonta a Março. Não, pensando melhor, o primeiro prólogo remonta a 2006. Foi a 15 de Março desse ano que eu vi David Gilmour e Richard Wright ao vivo no Grand Rex, em Paris. Foi a melhor noite da minha vida. Foi uma noite para a eternidade, com "Echoes", "High Hopes", "Time" e "Comfortably Numb" a duas vozes, num lugar mágico e em circunstâncias irrepetíveis.
Mas o que é vida, se não a perseguição de um momento irrepetível? Foi por isso sem grandes dúvidas que, quando David Gilmour anunciou em Março a sua primeira digressão desde 2006 (segundo prólogo), eu comprei o número máximo de bilhetes possível. No total, três concertos em quatro dias: Pula na Croácia e Verona e Florença em Itália. Venham de lá esses momentos.

O terceiro prólogo desta história aconteceria em Julho, no concerto dos The Prodigy no Alive. Olvidando a minha idade, dissolvi-me num mosh pit cheio de miúdos com mais horas de ginásio que de livros e que, se eu fosse de outra etnia, já podiam ser meus filhos. Ao segundo tema, um destes jovens caiu em cima de mim e partiu-me o pé. "Ainda faltam dois meses para a Croácia", pensei eu. Os médicos profetizaram uma recuperação rápida que nunca se deu, mediante um descanso que nunca houve. E assim chego à semana da viagem em pânico, ainda a precisar de canadianas como o Dr. House precisa da sua muleta.

Vou ao médico. De certeza que o optimismo que ele demonstrou no passado me vai validar a viagem.
"E então doutor, acha que que estou em condições de fazer esta viagem?", pergunto.
"Não.", responde ele secamente. "Pode e deve ir de férias, para descansar; mas se a sua ideia de férias é cruzar a região do Adriático em 10 dias, o meu aviso é que não o faça. Se quiser, passo-lhe os papéis para as companhias aéreas".
"O doutor não está a perceber. Fazer a viagem não está em causa."
"Então o que quer que lhe diga?"
"Quero a sua aprovação."
"... Não posso fazer isso. Você está a arriscar. Tem mesmo que ir? É trabalho?"
"Não, é muito mais que isso. É o David Gilmour."
"Quem?!", pergunta o doutor, genuinamente confuso.
"O guitarrista dos Pink Floyd!"
"Ah, ok", suspira o médico, de semblante baralhado. "Nesse caso, se tem mesmo que ir, vá. Só lhe desejo boa sorte".

E assim lá fui para a Croácia, canadiana em riste, na perseguição de mais um momento.

domingo, 19 de abril de 2015

Queen - "We Will Rock You"

"I like it, sing it again!"


Os melhores 20 minutos da história da humanidade. Ou quase.

A memória mais antiga que tenho de um sonho remonta aos meus 6 anos de idade. O sonho foi tão vívido e tão marcante, que ainda hoje me recordo dele com exactidão.
Estádio do Wembley. Eu estou num concerto, mesmo à frente do palco. Em cima do palco, os Queen. Lá atrás, o símbolo do Live Aid e um relógio gigante. Os Queen tocam o seu set, mas no fim de um estrondoso "We Will Rock You", Freddie Mercury cai no chão, inanimado. O Estádio do Wembley tem um momento de silêncio aterrador, como se tivesse mergulhado no oceano. De repente, começam a ouvir-se gritos histéricos de horror, eu olho para o palco e o Freddie desapareceu. Sumiu-se.
Acordo em pânico.

Foi só um pesadelo, mas Freddie Mercury estava mesmo morto. Só não teve um final tão teatral e espectacular como o que sonhara. O sonho foi o resultado do impacto profundo na mente de um miúdo de 6 anos, após a perda do seu maior ídolo. A cobertura mediática do acontecimento e o documentário da BBC que passou na RTP no dia da sua morte, com a performance dos Queen no Live Aid, ficaram coladas no subconsciente daquele miúdo, que reagiu assim àquela tragédia. Foi como se a tivesse presenciado com os seus próprios olhos.

Foi assim que eu vi os Queen no Live Aid na altura. O mundo viu-o como "os 20 minutos que mudaram a música":



Fast-forward até hoje e já vejo as coisas de forma diferente. Agora, eu vejo os Queen no Live Aid como os melhores 20 minutos da história da humanidade. Ou quase. À frente, só as 2 horas do concerto dos Queen no mesmo local, um ano mais tarde. Independentemente da minha opinião, uma coisa é certa: durante aqueles 20 minutos, os Queen reinaram o Mundo.

Quando Freddie Mercury conduzia a audiência em "We Will Rock You" com um grito de "I like it, sing it again!", já milhares de milhões de espectadores em todo o Mundo moravam na palma da sua mão. O Wembley, esse já era seu, desde que "Radio Ga Ga" pusera as 74 mil pessoas que enchiam o estádio a bater palmas, com a coordenação de um comício nazi. E aqui reside a magnitude do seu feito: aquele não era sequer o público dos Queen.

No Wembley havia U2, Elton John, David Bowie, reunião dos The Who e Paul McCartney a cantar temas dos Beatles. No JFK, em Filadélfia, havia reunião dos Black Sabbath, reunião dos Led Zeppelin, Neil Young, Madonna, Duran Duran e Simple Minds. Todos os grandes nomes da Pop e do Rock estavam no Live Aid, incluindo os líderes das tabelas da época. A maioria da audiência em Wembley, pelo menos a falange mais nova, estava lá para ver os U2 (basta olhar para os cartazes à frente do palco). Aquele não era o público dos Queen, mas aquela era a noite de Freddie Mercury.

Naquela noite, Freddie queria mais do que o Wembley, Freddie queria o Mundo. E agarrou-o, ao dançar com o cameraman em "Hammer To Fall", como se desse a mão às 1.9 mil milhões de pessoas (um terço da humanidade) que o viam em casa. E foi assim, que na noite de 13 de Julho de 1985, o Mundo acordou para um facto que estivera o tempo todo à sua frente: não havia (não voltou a haver) um showman como Freddie Mercury, com uma capacidade sem paralelo para captar a audiência. O Wembley parecia uma pequena chávena, para o brilho da estrela que explodia em palco.

Assim foi a vida de Freddie Mercury: como uma estrela que brilhou muito, muito rápido, muito intensamente e explodiu, porque o universo não aguentava com tanto brilho.
O sonho daquele rapaz de 6 anos não fez mais do que captar esta metáfora na perfeição.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Capitão Fausto - "Interstellar Overdrive"



O Lux-Frágil vai ter que ser ressarcido depois do que os Capitão Fausto fizeram no concerto da última Sexta-feira. Alguém vai ter que pagar pelos estragos. Porque os Capitão Fausto mandaram aquilo tudo abaixo.

Talvez devido ao facto de estar sob o efeito simultâneo de antibióticos e de uma garrafa de vinho italiano (não ia ouvir a música do Syd Barrett sóbrio, não é?), ou talvez devido ao facto de ter sido um concertão, daqueles que são alvo de lendas que se contam a filhos e netos, saí do Lux com a sensação de ter visto a melhor actuação de uma banda portuguesa em toda a minha vida. E já vi muitas, acreditem.
São palavras fortes, bem sei. Mas do lado dos Capitão Fausto estava um leque de canções invencível. Foram essas canções - as canções de Syd - que chamaram o público que encheu o piso de baixo do Lux. Houve temas de "The Piper At the Gates Of Dawn", "A Saucerful Of Secrets" e também alguns temas a solo do ícone britânico. Mas a partir desses temas invencíveis, havia tanto por onde errar; tantas armadilhas onde tantas vezes vezes caem as bandas que arriscam covers de temas tão sagrados como os dos Pink Floyd. Os Fausto não só evitaram todos os alçapões, como deram à música o seu cunho e tiveram no Lux uma noite épica for the ages. Para ser perfeito, só faltavam as projecções.

Como é que lograram esta efeméride? Os Capitão Fausto não se limitaram a tocar de forma absolutamente fidedigna, nota-por-nota, as versões que ouvimos nos álbuns. Nem faria sentido, este era um live show. Por outro lado, também não caíram na tentação de inventar versões alienadas do cerne Sydiano. Para alcançar um equilíbrio, a banda tocou os temas de Syd, da forma como esperaríamos que Syd os tocasse ao vivo: pincelando um solo de guitarra aqui, estendendo um solo de teclas ali, fiéis ao álbum quando tinham que o ser e carregando no ruído psicadélico sempre que o tema chamava por isso.

O momento da noite? Está no vídeo lá em cima: "Interstellar Overdrive". Os Fausto não se fizeram rogados e tocaram uma versão de 10 minutos do tema que nos pôs a viajar pelas estrelas. Honestamente, na altura não percebi se foram 10 minutos, 20 minutos, ou 3 horas. Mas foi longo, foi mind-tripping e foi tudo aquilo que eu poderia desejar. Eu e não só. A audiência foi ao rubro em "Overdrive", a electricidade no ar era tal, que houve mosh junto ao palco (sim, leram bem) e houve crowdsurfing do Tomás Wallenstein - vocalista dos Capitão Fausto - enquanto tocava guitarra. Épico.

O público foi outro dos factores que elevou este concerto para o patamar de lendário. Do alto dos meus 29 anos, acho que era um dos mais velhos na sala. Olhei à minha volta e o que vi foram miúdos que gostam de Pink Floyd, conhecem os temas todos do Syd Barrett e cantam-nos de peito cheio. E fazem mosh quando a música pede uns encontrões.
Apesar do estrato etário novo, não houve telemóveis no ar, nem idiotas a tapar a vista com smartphones ou tablets. O público estava lá pela música. Foi um dos ambientes mais puramente Rock N' Roll que já presenciei.

No fim, a banda lamentou-se que nunca mais iria repetir esta noite, nunca mais iria tocar temas dos Pink Floyd e de Syd Barrett. Para eles, uma mensagem: conhecem aquele episódio do "Seinfeld", em que o Jerry e o George montam um estratagema para ele trocar a namorada pela amiga, através da sugestão de uma ménage a trois? E depois elas aceitam? Lembram-se do que o George diz? "This is like discovering plutonium by accident!". Eu acho que vocês também descobriram o vosso plutónio. Não estou com isto a sugerir que se tornem numa banda de covers, mas podem repetir a experiência, porque certamente terão procura. Mas acima de tudo, bebam daqui muita inspiração, porque vi-vos a nadar na vossa praia. 

Quando a banda voltou para o encore, estava eu convencido que iam sacar de "Astronomy Domine" (o tema mais óbvio, até por ser o tema da era de Syd mais tocado pelas incarnações posteriores dos Pink Floyd) e eis que a banda sobe ao palco com "PA PUM TE, TCH TCH; PA PUM TE, TCH TCH". E metade da audiência respondeu audivelmente, para faces de estupefacção da outra metade: "ÓI ÓI, ÓI ÓI". Mágico. "Pow R. Toc H.". Confesso que por esta não estava à espera.

Na verdade, toda a noite foi de surpresas. Enquanto gritava a plenos pulmões no segundo tema do set "AAAAAAPPLES AND ORANGEEEEEEES!" comentei que nunca pensei ver estes temas ao vivo. E não. E foi a melhor merda de sempre. Pelo menos desde a semana passada. A sério, foi de um nível de brutalidade que só o Mike Tyson nos poderia explicar. Malta, vá lá, não me tirem isto agora, fiquei viciado.
Se os Fausto cumprirem a ameaça e esta noite não se repetir, então pelo menos posso dizer que estive lá. Estive no Lux na noite em que a casa foi teleportada para a outra dimensão; aquela dimensão onde o Syd foi muitas vezes; tantas vezes, que certo dia por lá ficou.

Não tomei notas, por isso perdoem-me qualquer falha na setlist, mas de cabeça, os Fausto tocaram o seguinte:
"Arnold Layne"
"Apples And Oranges"
"Lucifer Sam"
"Matilda Mother"
"Scarecrow"
"Take Up Thy Stethoscope And Walk"
"Interstellar Overdrive"
"Octopus"
"Terrapin"
"See Emily Play"
"Dominoes"
"Jugband Blues" 
ENCORE:
"Pow R. Toc H."
"Bike"


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Noel Gallagher - "Riverman"

"The rain that comes..."


"Ram On"  UK Spring Tour Journal 
(Part 3)

Continuando daqui e daqui, ficam hoje com a terceira e última parte do meu diário de bordo, escrito a partir da minha segunda cidade preferida do Mundo – Londres (se quiserem saber, a primeira é Lisboa; se não queriam saber, paciência, agora já sabem).

Mas antes de continuar o diário, uma reflexão. Eu tenho uma teoria sob sustentação científica inatacável: a de que 2015 vai ser (e está a ser) o melhor ano de sempre. Esta teoria é baseada em três fundamentos:
–  vou ver o David Gilmour ao vivo três vezes este ano (ele actua com a mesma frequência da aproximação terrestre do cometa Halley), entre muitos outros concertos;
– a absurda e idiotamente optimista convicção de que o dia de amanhã vai ser do caralhão;
– o irritante hábito que eu tenho em afirmar taxativamente que isto e aquilo e tudo é o "melhor de sempre" numa qualquer categoria que eu invente na altura.
Este último levava uma colega minha a recorrentes suspiros de olhos semi-cerrados: "Nuno, nem tudo pode ser o melhor de sempre!" (agora isso já não acontece; eu não melhorei, ela é que deixou de trabalhar comigo). Então não pode, claro que pode. A minha ida "por acaso" a Liverpool já confirmara isso mesmo. Agora havia a (remota) possibilidade de uma jornada dupla de Noel Gallagher. Mas a verdade é que nem sempre as coisas correm como planeamos, especialmente quando temos todas as probabilidades contra nós...

Dia 7 – Brockley
O concerto "secreto" do Noel Gallagher começava às 8:30PM (estamos em Inglaterra, por isso vamos tratar de horas locais), mas às 3:00PM já estou à porta do Rivoli Ballroom, uma sala de bailes (é mesmo para isso que é utilizada) perdida algures em Brockley – um bairro que está para Londres como Famões está para Lisboa. Fica longe como a merda.
Mal chego ao local, vejo logo o caso mal parado. Os seguranças do Noel já cá estão e tratam logo de me avisar que a entrada é só por guest list; e sublinham que eu não tenho a mínima hipótese.
Não vacilo. Acabei de chegar e demorei mais de uma hora a dar com isto, agora não vou a lado nenhum.
Estão a ver o mapa de Londres? O Rivoli Ballroom fica ali no canto inferior direito, nem o metro lá chega.

Também já cá estão alguns dos fãs do Noel, daqueles que o seguem para todo o lado como os No Name Boys seguem o Benfica. Aliás, os No Name são uns meninos. É que uma coisa é ir a Paços de Ferreira atrás do Benfica; outra coisa é ir atrás do Noel para a Coreia do Sul. Hardcore stuff.
A maioria é malta muito mal encarada. Estranho. A excepção é o Brian, um texano que no ano passado viu 23 concertos e este ano ainda "só" viu 2, mas já tem bilhetes para todas as datas da digressão americana do Noel. O Brian está triste, porque não são assim tantas quanto isso. O drama do Brian é que o Noel "só" vai dar 17 concertos nos EUA, mas ele ainda tem esperança que marque mais. Isto é o que eu chamo um doido de chancela internacional. Julgava que eu era um ganda maluco, porque vou ver os 3 primeiros concertos da digressão do David Gilmour, mas isto é a Liga dos Campeões.

Às 4:00PM, começa a notar-se grande alvoroço entre os seguranças. Vem aí o homem por quem esperamos. Ou não. Chegam várias carrinhas com vidros fumados e Noel, nem vê-lo. Entretanto fico a conversar 10 minutos com um tipo chamado Mike, que parece ser da organização, a quem conto a minha história. Ele diz que não pode fazer nada, mas deseja-me boa sorte.
Nota-se um nervoso miudinho por entre os fãs, mas todos já estiveram ao lado do Noel várias vezes. Eu, nervoso miudinho? Nada disso. Estou mais em taquicardia de nível avião a jacto.
Enquanto os olhos estavam postos ao fundo da rua, do outro lado da estrada...
...Noel aparece vindo da estação de comboios à frente do Rivoli Ballroom. Palavras para quê, é um homem do povo. Mas um homem que vem visivelmente mal disposto. Noel ainda pára para uns autógrafos, mas quando a segurança aperta, ele vira costas e vai para dentro da sala, onde vai fazer o soundcheck.
Boa, conheci o Noel Gallagher! Bem, "conhecer" aqui é um hipérbole. Foi mais conhecer no sentido em que se conhece sushi quando se passa ao lado do Sushi Corner no Colombo, a caminho de um Big Mac no McDonalds.
A minha "situação" é que ficou ainda mais complicada, uma vez que tive uma pequena altercação com o Kevin (o segurança pessoal do Noel), que não me deixou sequer aproximar do Noel. O gajo com quem eu precisava de fazer amizade tomou-me de ponta. Isto está a correr bem.

As horas vão passando, o frio vai apertando e o ambiente também vai ficando mais gélido. A segurança fecha a porta interior da sala, o que nos impede de ver o soundcheck. Até o Brian (o fã do Texas) comenta que nunca viu um ambiente tão mau antes de um concerto do Noel. E ele já viu muitos, sabemos bem. Parece que ninguém quer estar ali e não é (só) devido ao concerto ser em Brockley. Começa-me a cheirar que o Noel foi enganado e comprometeu-se a dar um concerto de borla (lembro que não há bilhetes, só há mesmo guest list) sem saber.

Pouco depois, Noel volta a sair da sala e aqui já o consigo apanhar para uma foto. Quer dizer, "apanhar" aqui volta a ser uma hipérbole. A meio da foto, o Noel caga na cena e vai-se embora, deixando-me com esta cara de parvo. Noel, gosto muito de ti, mas essa merda não se faz. Not cool, man. Not cool. Se fosse o Liam, de certeza que não faria isto.
Às 6:00PM, chega o "Miguel" ao Rivoli Ballroom. Ele não conhece nenhum tema a solo do Noel, mas como apropriadamente refere: "de borla, até injecções na testa". Assim é que é falar.
Ao olhar para os fãs que rondavam a entrada da sala, o "Miguel" comenta assertivamente: "Nunca vi tantos cabelos à Gallagher juntos. Cuidado, estes gajos levam isto a sério." Mas quando lhe conto o ponto de situação, noto-o apreensivo. Toda aquela confiança de ontem pareceu gelar no frio londrino.

As portas abrem às 6:30PM e começam a ser distribuídas pulseiras a quem tem o nome na guest list. Falamos com umas miúdas da organização, munidas de uma lista em A3 com os nomes dos sortidos, mas não conseguimos nada. Que raio se passa hoje, que nem o charme lusitano nos vale?

Às 7:00PM, o frio implacável da noite londrina (ou brockliana, como quiserem) começa a dar de si: o "Miguel" começa a tentar seduzir-me com a ideia de umas pints no quentinho de um pub. Ao fim de 1 hora, já está a vacilar. E com razão, isto é de loucos.
Mas eu estou mais numa de seduzir as miúdas da organização.
Identifico a minha única hipótese: a miúda do gorro. É ela que nos vai pôr lá dentro. Já tinha tentado a minha sorte com ela, mas vou lá insistir, dar o meu charme mais uma vez.
Está difícil, ela continua a abanar a cabeça. Faço a minha melhor cara de cachorrinho abandonado. Nada.

Vacilo. Mas não há saída agora. Já estou aqui há 4 horas e sinto que neste momento não podemos desistir. É para ir até ao fim.
Neste ponto, já dei conversa a toda a gente da organização, já implorei a todos e nada. O mais revoltante é que todos os No Name que chegaram sem bilhete e sem guest já conseguiram entrar. Só para os tugas é que não há nada.

Vou à miúda do gorro mais uma vez ainda. Nada... Isto com as mancunianas era limpinho, mas aqui não está fácil.

O Miguel lembra-me o ridículo que será quando me perguntarem o que eu vi nas minhas férias em Londres e eu responder "Vi Brockley". Se não acham isto suficientemente ridículo, então refaçam esta analogia, mas com um turista que vem a Lisboa para ver Famões. Haha, que idiota.

São 8:00PM. Já não sinto os pés, nem cartilagens acima do pescoço. O "Miguel" já só abana a cabeça.
As tropas estão desmoralizadas.
Eu próprio começo a vacilar.


E eis que do nada, chega a miúda do gorro: "Já não aguento mais ver-vos aqui à espera, ao frio!" e dá-nos a desejada pulseira.
Venci-a pelo cansaço. Em engenharia, chamamos a isto rotura por fadiga.

Et voilá, 5 horas depois, estou dentro do Rivoli Ballroom.

Vejam bem estas caras de felicidade juvenil. Até os pés já estão mais quentinhos.
O concerto? Bem, o concerto foi bem melhor que injecções na testa.
Noel Gallagher tocou um alinhamento curto (13 temas), quase inteiramente composto por temas a solo (a excepção foi "The Masterplan", que fechou a setlist). O "Miguel" não conhecia nenhum tema a solo, mas não se importou muito com isso, uma vez que no 2º refrão de cada tema, já o cantava a plenos pulmões com um sorriso rasgado. Noel é mesmo um mestre dos singalongs.

Sentado nas teclas, está uma cara que me é familar. Olha, é o Mike! Afinal, o Mike com quem falara durante a tarde era o Mike Rowe, teclista do Noel.
A meio do set, Noel volta a mostrar a sua rabugice e justifica assim a ausência de temas dos Oasis:

"Não vou tocar temas dos Oasis porque: A) Vocês não pagaram; B) Tenho um novo álbum para vender; C) Vocês não pagaram e por isso, se depender de mim, podem-se foder". 

Se dúvidas houvessem, Noel confirmou o mau humor que já lhe tinha topado. Será que era por estar em Brockley? Não sei. A verdade é que no fim do primeiro tema, Noel perguntou com o mesmo ar enojado que o "Miguel" fizera no dia anterior: "What the fuck are you doing in Brockley?!". Só mesmo para te ver, Noel.

Acabamos a noite em Marble Arch, a comer o melhor kebab de todos os tempos. Pelo menos sabe-me ao melhor kebab de todos os tempos, depois de estar 12 horas sem comer. Que dia glorioso. Que noite épica. E amanhã há mais Noel.


Dia 8 – Londres
O dia começa com uma feira de discos no Old Spitalfield Market, perto da estação de Liverpool Street.

Saio daqui com uma cópia selada do "The Queen Is Dead" dos The Smiths. Depois da minha visita ao Salford Lads Club, vem mesmo a calhar.
Umas barracas ao lado, num vinil usado dos anos 70, um aviso curioso: "HOME TAPING IS KILLING MUSIC. AND IT'S ILLEGAL". Olha, isto soa-me familiar. Afinal a história dos downloads e a perseguição das editoras ao público já é uma cantiga com muitos anos, desde os tempos áureos do vinil. É uma cantiga que tresanda a naftalina, fede a bolor.
Compras feitas, passo por casa para deixar a mercadoria e sigo para o Royal Albert Hall.

É a minha estreia no RAH e posso dizê-lo sem exageros (até porque, como sabem, eu não sou um indivíduo de exageros): é a sala de espectáculos mais espectacular onde já entrei, de uma grandiosidade e magnificência que só é compreensível, estando lá.



Há aqui um grande senão. É que a vista do meu lugar é esta:

Brutal. Dei 50£ por um lugar onde vejo meio palco, o qual ainda está tapado por grades. Como a lotação está esgotada, nem sequer tenho hipótese de mudar de lugar. Ainda tento dar a banhada a um casal que se sentou ao meu lado, mas não tenho sorte. Os bifes perceberam que foram ludibriados e mandam o português sentar-se no seu lugar. Um pouco de História no RAH, mapa cor de rosa all over again.
O melhor é focar-me na música.

Às 7:30, entram os Future Islands. Desde que os vi tomarem de assalto o palco do David Letterman que fiquei maluco com eles. Este não é o seu público, mas os Islands não desapontam. O RAH começa com aplausos tímidos no fim do primeiro tema, mas o ruído cresce com o avanço do concerto e com o preenchimento da sala, principalmente quando Sam Herring começa a dançar. Ah pois, aquela dança.

Sam Herring prepara-se para fazer "a dança"; na foto dá também para ver que fiquei longe como a merda


Chega "Seasons (Waiting On You)", Sam faz a sua dança e o público responde audivelmente. Já fervem as bancadas do RAH. Sentado à minha frente, aparentemente alheio ao entusiasmo à sua volta, um snob londrino manda uma mensagem no telemóvel. Curioso como sou, dou uma olhada indiscreta (sim, eu sei que o que fiz é terrível e não se deve fazer):

"This dude on stage is quite probably the worst dancer I've ever seen, babe. Worse than me. 
Quite good band but lmao."

O pior dançarino do Mundo? Porque dança de forma diferente e despreocupada? Malta, não liguem a este snob (nem aos outros), o Sam Herring é awesome! Dancem como queiram, dancem como ninguém estivesse a ver!
#rant

O set dos Future Islands é curto (7 temas) e eles rapidamente saem de cena. Daqui a pouco temos (novamente) Noel Gallagher.

O ambiente à volta do concerto de hoje não tem nada a ver com o de ontem. Hoje respira-se electricidade positiva. Nos corredores do Royal Albert Hall, vêem-se fãs na casa dos 20, 30 e 40 (todo o espectro atingido pelos Oasis) a beber pints, contando estórias de concertos passados e partilhando expectativas para hoje. Sente-se o entusiasmo na sala.
Noel finalmente chega e TODA a gente se levanta. Yeah! O problema do lugar sem visão, afinal, não é problema nenhum. O meu lugar até é o melhor de todos, porque fica na ponta e dá para eu dançar à vontade. Hehe espectáculo.

O público veio para ver Noel and he delivers. Muito mais bem disposto que ontem em Brockley, toca na íntegra o seu alinhamento normal desta digressão, desta vez com direito a vários temas dos Oasis e a um coro lá atrás. Soberbo. Muito melhor que Brockley.

O momento da noite? "Fade Away", um lado B dos Oasis. Esse foi o meu momento, porque na verdade, todos os temas da antiga banda de Noel são recebidos em delírio pelo público, claramente com fome dos Oasis.
Por muito que a audiência adore o Noel (e adoram, pelo menos pagaram bem caro para estar ali), ela recorda-lhe várias vezes que ainda ama o seu irmão. Ao longo da noite, são vários os interlúdios que o público aproveita para gritar "Liam! Liam! Liam!". É impossível Noel não ouvir. Ouve de certeza. De tal forma, que às tantas franze o olho e diz qualquer coisa como:
"What?! Thought so...". 
Ignora. Mas continua: "This next song is for my brother, cos he needs it now. This is called Champagne Supernova.". 
Loucura na audiência. Acho que nunca vi nada assim.
Toda a gente canta de pulmões cheios aquela letra maravilhosa sem sentido nenhum ("Slowly wlaking down the hall, faster than a cannonball"?!). O homem que está ao meu lado chuta a namorada para o lado e põe o braço à volta do meu pescoço, enquanto grita aos meus ouvidos "Where were you while we were getting high?". E de repente, os Oasis quase estão ali outra vez. Só falta o Liam. Todos queremos o Liam. E o Noel sabe. Resta saber se vai continuar a ignorar.

No fim do concerto, o mate que insistia em agarrar-me – suspirando que a namorada não sabe o que um concerto do Noel significa, mas com a certeza que eu sei – revela que viu o Noel no O2 há 3 semanas, mas que a noite de hoje foi incomparavelmente melhor: "This night had energy, this night had heart", confessa.

No caminho para casa, sentado à frente de um double decker bus (onde é que eu já ouvi isto?!), miro o bilhete. As férias acabam aqui, mas poderia haver melhor final que este?


Dia 9 – Epílogo / Regresso a Lisboa
Já de regresso a Lisboa, em Heathrow lembrei-me de uma ex-namorada que estava sempre com o período atrasado. Não era nada de preocupante, ela trabalhava na TAP.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Paul McCartney - "Ram On"

"Ram on"


"Ram On"  UK Spring Tour Journal 
(Part 2)

Continuando daqui, hoje deixo-vos a segunda parte do meu diário de bordo, em plena Disneylan... Liverpool.
Antes disso, uma explicação: porquê "Ram On" ali no título? Riam-se à vontade, "Ram On" é o nome da viagem. Sim, do alto da minha nerdice, baptizo a todas as viagens que faço. O nome é invariavelmente escolhido em função da música que ouço nessa altura (todas as viagens têm uma banda sonora, que depois fica para sempre colada àqueles lugares) e nesta viagem, a predominância foi do 2º álbum a solo de Paul McCartney – "Ram". "Ram" é cozy e homey, como a maioria da música do Paul; e talvez por isso me tenha sentido em casa no UK. Há qualquer coisa de heartwarming na música do Paul – ela é caseira, quentinha e deliciosa. But I digress. Voltando à viagem.
Estava eu a planear as minhas férias em cima do joelho (como sempre faço), dois dias antes da partida e deparo-me com um tempo morto entre York e Londres. O que fazer? Regresso a Manchester? Boa ideia. E por que não dar um saltinho a Liverpool? Genial. Marquei hotel no minuto seguinte. E assim cheguei à Liverpool Lime Station, quase por acaso. Mal eu sabia que aquela fora uma das melhores decisões da minha vida.

Dia 4 – Liverpool
Chegado a Liverpool, vou directo ao Cavern na Mathew Street – o mítico bar onde despontaram uns tais de The Beatles. No caminho, levo nos ouvidos "Ram". "Ram" sabe especificamente a morangos fresquinhos e doces, acabadinhos de colher. Mas talvez isso seja de eu estar a comer morangos neste preciso momento. Adiante.

Hoje, o Cavern está dividido em dois: o Cavern Pub e o Cavern Club. Como seria de esperar, Beatles por todo o lado. Ao lado, uma estátua do John Lennon, a imitar a pose na capa do álbum "Rock ‘N’ Roll". Vou já meter-me com estas italianas para me tirarem uma foto ali.
Ok, afinal eram inglesas; bem que podia ter guardado o italiano que aprendi com o Trappatoni e poupava-me a vergonha. Isto com as miúdas corria melhor em Manchester.
No topo da rua está o A Hard Day’s Night Hotel (sim, existe mesmo), com uma megastore dos Beatles. Imaginem a Fnac, mas de dois andares, só com Beatles: t-shirts, camisolas, pijamas, bonés, aventais, posters, quadros, bancos, porta-chaves, almofadas, bonecos, canecas, pratos, copos, livros, discos, sei lá, tudo o que possam imaginar. Estão a ver a loja no fim da Disneylândia, que é o terror dos pais, porque os miúdos querem tudo? É isso, mas aqui sou eu o miúdo. Com a carteira dos pais.
A Hard Day's Night Hotel, com a loja dos Beatles virada para a Mathew Street

Fico de tal forma esmagado com tudo o que vejo à minha volta na loja, que a minha cabeça entra em tilt. No fim de contas, acabo por trazer "só" um porta-chaves do Sgt. Pepper. Isso e um coração partido, porque vi o hoodie (nome muito mais fixe para "camisola com capuz") mais cool de sempre e não havia o meu número. Damn. Mas isto não fica assim, acreditem.

Agora sim, o momento por que tanto esperava. Chego ao museu dos Beatles.

À entrada do The Beatles Story, dizem-me que tenho duas horas para ver dois museus, mas é tranquilo: mesmo que eu seja um daqueles nerds que gosta de ver e ouvir tudo, duas horas chegam perfeitamente. Bora.
Começamos com o Casbah (onde os Beatles se estrearam), o Kaiserkeller, o Star-Club (Hamburgo) e claro, o Cavern, aqui brilhantemente reproduzido:


Depois, chegamos a Abbey Road, onde os Beatles gravaram quase toda a sua discografia. Passamos na porta de entrada dos estúdios e temos os instrumentos todos ali: o baixo do Paul, as guitarras do John e do George, a bateria do Ringo. A bateria do Ringo é hands down a minha peça preferida do museu. Temos também o Mellotron com que os Beatles gravaram o "Sgt.Pepper" e o "Magical Mystery Tour". The real thing. Isto é muito melhor do que ir à Eurodisney com 10 anos.

As duas horas passam e nem a meio do primeiro museu eu consigo chegar. Estava tranquilamente a estudar o concerto no Shea Stadium, quando sou convidado a sair pelo impaciente staff, numa altura em que já as senhoras da limpeza varriam o chão. Nem ao Sgt. Pepper cheguei! O que vale é que posso voltar amanhã.
De regresso ao hotel, tinha no quarto à minha espera uma chaleira eléctrica, chávenas de porcelana e chá – o kit completo. Adoro Inglaterra.

Dia 5 – Liverpool / Londres
Começo o dia bem cedinho, às 7:30 (houvesse vontade para me levantar tão cedo para trabalhar e a minha vida seria bem diferente), para um glorioso English Breakfast no hotel.
Bacon, salsicha, ovos estrelados, feijão, torradas com muita manteiga e sumo de laranja. No fim, um chazinho. Adoro Inglaterra.

Às 9:30, já estou na The Beatles Shop na Mathew Street, que ontem me escapou. O motivo? O hoodie, obviamente. Não tenho sorte. Siga para o museu, que o tempo está contado até ao comboio para Londres, às 12:47.
O museu dos Beatles abre às 10:00 e às 10:00, eu estou à porta. Pontualidade britânica (deve ser a primeira vez na vida). Estou eu e está uma excursão sénior de chineses (ou coreanos; ou japoneses; não perguntei, mas isso não interessa para o caso). Que se lixe, vou passar à frente destes Miyagis todos, que não há tempo a perder. Começo onde fiquei ontem: "Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band". Dou com isto. Nice.

Depois, vem o "Magical Mystery Tour" (temos mesmo os bancos do autocarro, para nos sentarmos), o "Yellow Submarine" (entramos mesmo num submarino amarelo), o White Album e de repente, já estamos no fim. Ou sou eu que estou com pressa, ou eles claramente se desleixaram com os anos 1968, 1969 e 1970 – anos que os Beatles passaram em estúdio. Havia tanto para dizer... Enfim, na verdade também já não tenho muito tempo.

No fim, temos uma sala de design minimalista dedicada à memória de Lennon, onde ouvimos "Imagine". (então e o George, malta?!)

... e uma última sala dedicada aos Beatles a solo:
John:
Paul:
George:


Rin...:
...ora porra, ia jurar que tirei uma foto à secção do Ringo, mas não dou com ela. Queria ter um registo do melhor baterista dos Beatles, mas apareceu-me outra foto do Paul.
Haha, desculpa lá Ringo, eu adoro-te, a sério.

Contas feitas, o museu dos Beatles é dos melhores lugares que pisei em toda a minha vida. Confesso-vos que é difícil descrever o entusiasmo em estar aqui, mesmo em contra-relógio. Sinto-me como o miúdo de 10 anos que vê o Mickey pela primeira vez, ou aquele pastor de Pitões que foi a Lisboa ver o mar de helicóptero e conhecer o Mantorras. Qual Louvre, qual Smithsonian, qual Tate, o melhor museu do mundo fica em Liverpool e chama-se The Beatles Story (pelo menos até eu ir a Montreux e ver o museu dos Queen; ou ver aquele dos Pink Floyd que ia abrir em Milão, mas foi cancelado). Recomendo sem reservas, marquem a vossa viagem ainda hoje.

Com os minutos que me restam antes do comboio, ainda vou ao museu sobre a British Invasion (invasão cultural britânica dos EUA) e aproveito a oportunidade para me sentar pela primeira vez numa bateria, numa aula em vídeo do Ringo Starr. Acho que tive uma epifania: tenho que repetir isto.
Ringo, desculpa lá aquilo há bocado. Adoro-te, mesmo.

Não há tempo para mais, siga para Londres.











Mal chego à estação de Euston, tenho a brilhante ideia de ir para Camden com uma mala de 20 kg atrás. Malta, não tentem isto. O conceito de "aproveitar o tempo" não é válido quando tens que carregar uma mala de 20 kg ao longo de uma escada com 96 degraus [sim, as escadas rolantes estavam avariadas; e sim, estava lá escrito o número de degraus]. Isto não é aproveitar o tempo, é só estúpido.
Como ainda não estava preenchido no capítulo do exercício físico, ainda vou à London Beatles Store em Baker Street. O motivo?  Adivinharam, o hoodie. Mais uma vez, tão tenho sorte.
[Como sempre acontece nestes casos, fiquei obstinado pelo hoodie e nunca mais deixei de o perseguir. À hora que publico este texto, já deve vir a caminho de uma loja online dos States... que me cobrou a camisola duas vezes. A saga do hoodie ainda parece longe de terminar...]

Dia 6 - Londres
O primeiro dia em Londres é para compras. E compras em Londres significa discos, discos e mais discos. Ah e umas t-shirts também. Há uma loja em Notting Hill — Backstage Originals — que só vende merch de bandas Rock e é uma das lojas mais cool onde já entrei, uma das minhas paragens obrigatórias, sempre que vou a Londres.

Trago (mais) uma t-shirt dos Beatles, com desconto à pala de uma longa conversa com a miúda italiana (esta era mesmo) que lá trabalhava e que me prometeu uma visita a Sesimbra. O atendimento nesta loja é mesmo personalizado. Adoro Inglaterra, não sei se já disse.

A seguir, passo na Rough Trade ali ao lado e menciono ao Nigel (espero que o Nigel não se importe que eu use o nome dele) um concerto "secreto" que o Noel Gallagher ia dar em Londres no dia a seguir. O Nigel não sabe do que eu estou a falar, mas promete averiguar. Diz-me para lhe deixar o meu mail; se ele souber mais qualquer coisa, avisa-me. Deixo-lhe o mail, mas sem grandes esperanças. Nem um vinil levei, o que é que o Nigel se vai importar com um tuga?
Notting Hill, Soho, Camden e uma porradona de discos depois, está cumprido mais um objectivo da viagem. 15 discos na mala. Venham agora os concertos.

À noite, vou beber umas pints com um amigo que vive em Londres. Chamemos a este amigo "Miguel". O "Miguel" esqueceu-se das chaves dentro de casa (onde vive com a namorada) e por isso a noite prolonga-se. As pints multiplicam-se.
Vou ver o mail. Não acredito, o Nigel respondeu! O concerto secreto é no Rivoli Ballroom, em Brockley. Haha, lindo! Ganda Nigel. Esta viagem está cada vez melhor. "Brockley?! Ninguém vai a Brockley!", diz o "Miguel" com ar enojado. "Mas não interessa, vamos lá na mesma! Aliás, é como se já tivéssemos entrado!", profetiza o "Miguel". E assim brindamos a um concerto para o qual não temos bilhete e onde não fazemos a mínima ideia de como entrar. Sabemos apenas que temos que entrar. Típica chico-espertice tuga.

Se querem saber se conseguimos entrar no concerto secreto do Noel Gallagher, não percam a última parte do diário de bordo. Se não quiserem saber, leiam na mesma. Sempre se podem rir à nossa custa.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

The Stone Roses - " I Wanna Be Adored"

"I wanna, I wanna, I wanna be adored"


"Ram On"  UK Spring Tour Journal 
(Part 1)

Eu sei que vos tenho andado a falhar, mas foi por uma boa causa. Com o pretexto inicial de visitar um amigo que se mudou para York (chamemos-lhe "Rui"), andei uma semana em digressão pelo UK, mas na verdade, andei mesmo atrás de música (foi fácil encontrá-la, respira-se música ali). Como todas as outras viagens que faço, acabou por se tornar num Rock Film, cheio de sexo, álcool e Rock N’ Roll. Mas sem a parte do sexo. A parte das drogas também foi omitida, que elas são caras e o dinheiro é preciso para comprar discos. Aliás, esse era o segundo propósito da viagem. O terceiro era o concerto do Noel Gallagher no Royal Albert Hall, em Londres. E quem sabe, a perspectiva de um concerto "secreto" do Noel no dia anterior. Mas lá chegaremos. Comecemos pelo início, em Manchester.

Dia 1 – Manchester / York
Chegado a Manchester, o frio. Muito frio. Nos ouvidos, o álbum de estreia dos Stone Roses. Que albão, uma banda sonora perfeita para dias de glória; mas dias de Verão. Como é que raio eles conseguiram fazer música tão quente, num clima tão gélido? Ah ok, os The Smiths também são daqui; e os Joy Division. Pensando bem, mesmo os Stone Roses pareciam estar sempre com frio:

Apanho o free bus de Manchester (autocarro de borla? Já estou a adorar isto) e vou para o Northern Quarter (a vermelho no mapa). Que bairro maravilhoso, tão british, tão charmoso, quem diz que Manchester é feio deve estar doido da cabeça.



Passo a pente fino todas as lojas de discos do bairro: Vinyl Exchange (tudo muito caro), Piccadilly Records (só vinil novo, muito caro também), Vinyl Revival (boa selecção de bandas de Manchester, já estamos a falar melhor), Beatin’ Rhythm (um espantoso espólio de singles 7’’; fixe, mas não é a minha cena), V Revolution (Punk), Eastern Bloc (Electronica), Empire Exchange (boas borlas, mas qualidade duvidosa) e Clampdown Records (melhor loja do Northern Quarter, com tudo o que é essencial). Uff... E tudo com uma mala de 20 kg atrás.

Trazia grandes esperanças, mas saio daqui frustrado. Vi bons discos, mas poucas pechinchas como em Camdem. Siga para York.
Nas palavras do "Rui", York é como Águeda, mas mais frio. Águeda uma porra, isto é mais como a Covilhã. Até já tenho saudades do frio de Manchester. Até o "Rui", que sempre disse que cachecóis eram para meninos, aqui está equipadíssimo com gorro, cachecol e múltiplas camadas de roupa. O que vale é que nos pubs está quente, bora para a noite.
O "Rui" quer mostrar-me todos os bares locais. Local pubs for local people. Em todos os bares por onde passo (e vão três!) toca o "Don’t Stop Me Now" dos Queen, para gáudio absoluto da pista. E eu pareço ser o único que sabe a letra de trás para a frente. Amadores... Mas é incrível, estamos em pleno 2015 e o Rei Freddie continua a dar cartas.
Entramos numa festa de estudantes. Não sei porquê, mas a figura do vestiário à entrada do bar, para um tipo deixar o casaco, aqui, não existe. Deixo o casaco numa cadeira e vou para a pista. Está-se mesmo a ver o que vai acontecer, não é? Pois claro: "Don’t Stop Me Now" passa outra vez e é o delírio da miudagem. Sinto-me quase traído, ao ver tanta gente em êxtase com a música dos Queen. Era suposto aquela música ser minha, só minha. Agora tenho que dividi-la com o Mundo. Mas o que é que estou para aqui a dizer? É muito melhor assim do que andar a levar com o David Guetta.
Ah, pois, e roubam-me o casaco. A noite de Águeda está a ficar perigosa. Sem o único casaco que trouxe na mala, começo a reavaliar se aqueles collants que a minha mãe me obrigava a usar na primária não eram, afinal, uma boa ideia. Acho que esta é a pior noite de sempre.

Dia 2 – York
A noite de ontem não foi assim tão má. Diria até que foi das mais épicas de sempre. Pena a cena do casaco. Mas que se lixe, as bifas do norte de Inglaterra são impecáveis e o filho de mil meretrizes que me levou o casaco, no final de contas, fez-me um favor. Comprei um casaco de pele muito mais cool e fiquei a ganhar com a mudança. Se agora aparecesse o antigo é que era. E já que estamos a pedir, também podia aparecer o outro blusão de pele que me roubaram no Bairro Alto em 2009. E a mala de CDs que me gamaram do carro no Arraial do Técnico em 2008. Ou talvez seja eu que tenho que começar a beber menos. Haha, beber menos, estava a brincar.
Já agora, um aparte: será que chamar as inglesas rosaditas de 'bifas' é racista, se eu gostar da raça? (e gosto) Fica a questão.
#estaroubeiaoSeinfeld

À procura do casaco novo, ainda dou com uma feira de discos, com aqueles preços apetitosos que tanto procurava e saio de braços carregados com uma selecção portentosa do bom vinil britânico; e ainda compro uma t-shirt dos Stone Roses. Mesmo a calhar, "I Wanna Be Adored" tem sido um dos hinos desta viagem. Também já aprendia a fechar a braguilha.
#oldhabitsdiehard
#estouaficarviciadonoshashtags
#omelhorépararcomestamerda






Dia 3 – Manchester
Regresso a Manchester para uma jornada de descoberta. Descubro que a Haçienda (clube histórico da cena Madchester) é agora um complexo de apartamentos. Descubro que o Salford Lads Club (onde os The Smiths posaram para a artwork do "The Queen Is Dead") continua a ser o que sempre foi. Faço uma visita guiada pela mancuniana mais simpática e católica que eu já conheci, que me mostra todos os cantos à casa. O sonho dela é ir a Fátima. Quando lhe digo que já lá fui várias vezes, os seus olhos brilham. Fixe, nunca pensei que ter ido a Fátima me desse um leverage com uma miúda. Estou mesmo a gostar de Inglaterra. Descubro que o Lads Club tem hoje uma sala indescritível – mais parece um altar – dedicada aos The Smiths, com paredes forradas do chão ao tecto com lembranças e post-its deixados por fãs que por ali passaram. Só estando lá é que se tem noção do nível de devoção que uma banda como os The Smiths provoca. Indescritível, mesmo.



No fim, deixo o meu post-it, tiro a clássica foto em frente à entrada do Lads Club e sigo viagem.


De regresso ao centro, faço uma paragem técnica no Manchester Arndale (ao lado do Northern Quarter) para comer e descubro uma das lojas mais cool de sempre, com um nome não menos cool: Pulp  uma loja com tudo para rockers. Carrego uma t-shirt dos Guns e outra dos Stones. Vir ao UK para mim é caro, mas não é pelo preço da viagem; não consigo parar de gastar dinheiro.
Ao fim da noite, descubro ainda que as miúdas do norte de Inglaterra não lidam muito bem com a rejeição: quando tento explicar a uma loirita num bar que estou demasiado cansado para uma noite triunfal de Domingo (não sejam farrombas, já contava com 50 kms nas pernas em 3 dias e não há heróis), levo uma joelhada épica nas partes baixas. Não faz mal, estou a adorar isto e parece que o sentimento é correspondido.
Mas hoje já chega, vou dormir, que amanhã os Beatles esperam-me em Liverpool.

Não percam amanhã a segunda parte do diário de bordo, porque eu também não. Até porque sou eu quem a vai escrever.