segunda-feira, 6 de abril de 2015

The Stone Roses - " I Wanna Be Adored"

"I wanna, I wanna, I wanna be adored"


"Ram On"  UK Spring Tour Journal 
(Part 1)

Eu sei que vos tenho andado a falhar, mas foi por uma boa causa. Com o pretexto inicial de visitar um amigo que se mudou para York (chamemos-lhe "Rui"), andei uma semana em digressão pelo UK, mas na verdade, andei mesmo atrás de música (foi fácil encontrá-la, respira-se música ali). Como todas as outras viagens que faço, acabou por se tornar num Rock Film, cheio de sexo, álcool e Rock N’ Roll. Mas sem a parte do sexo. A parte das drogas também foi omitida, que elas são caras e o dinheiro é preciso para comprar discos. Aliás, esse era o segundo propósito da viagem. O terceiro era o concerto do Noel Gallagher no Royal Albert Hall, em Londres. E quem sabe, a perspectiva de um concerto "secreto" do Noel no dia anterior. Mas lá chegaremos. Comecemos pelo início, em Manchester.

Dia 1 – Manchester / York
Chegado a Manchester, o frio. Muito frio. Nos ouvidos, o álbum de estreia dos Stone Roses. Que albão, uma banda sonora perfeita para dias de glória; mas dias de Verão. Como é que raio eles conseguiram fazer música tão quente, num clima tão gélido? Ah ok, os The Smiths também são daqui; e os Joy Division. Pensando bem, mesmo os Stone Roses pareciam estar sempre com frio:

Apanho o free bus de Manchester (autocarro de borla? Já estou a adorar isto) e vou para o Northern Quarter (a vermelho no mapa). Que bairro maravilhoso, tão british, tão charmoso, quem diz que Manchester é feio deve estar doido da cabeça.



Passo a pente fino todas as lojas de discos do bairro: Vinyl Exchange (tudo muito caro), Piccadilly Records (só vinil novo, muito caro também), Vinyl Revival (boa selecção de bandas de Manchester, já estamos a falar melhor), Beatin’ Rhythm (um espantoso espólio de singles 7’’; fixe, mas não é a minha cena), V Revolution (Punk), Eastern Bloc (Electronica), Empire Exchange (boas borlas, mas qualidade duvidosa) e Clampdown Records (melhor loja do Northern Quarter, com tudo o que é essencial). Uff... E tudo com uma mala de 20 kg atrás.

Trazia grandes esperanças, mas saio daqui frustrado. Vi bons discos, mas poucas pechinchas como em Camdem. Siga para York.
Nas palavras do "Rui", York é como Águeda, mas mais frio. Águeda uma porra, isto é mais como a Covilhã. Até já tenho saudades do frio de Manchester. Até o "Rui", que sempre disse que cachecóis eram para meninos, aqui está equipadíssimo com gorro, cachecol e múltiplas camadas de roupa. O que vale é que nos pubs está quente, bora para a noite.
O "Rui" quer mostrar-me todos os bares locais. Local pubs for local people. Em todos os bares por onde passo (e vão três!) toca o "Don’t Stop Me Now" dos Queen, para gáudio absoluto da pista. E eu pareço ser o único que sabe a letra de trás para a frente. Amadores... Mas é incrível, estamos em pleno 2015 e o Rei Freddie continua a dar cartas.
Entramos numa festa de estudantes. Não sei porquê, mas a figura do vestiário à entrada do bar, para um tipo deixar o casaco, aqui, não existe. Deixo o casaco numa cadeira e vou para a pista. Está-se mesmo a ver o que vai acontecer, não é? Pois claro: "Don’t Stop Me Now" passa outra vez e é o delírio da miudagem. Sinto-me quase traído, ao ver tanta gente em êxtase com a música dos Queen. Era suposto aquela música ser minha, só minha. Agora tenho que dividi-la com o Mundo. Mas o que é que estou para aqui a dizer? É muito melhor assim do que andar a levar com o David Guetta.
Ah, pois, e roubam-me o casaco. A noite de Águeda está a ficar perigosa. Sem o único casaco que trouxe na mala, começo a reavaliar se aqueles collants que a minha mãe me obrigava a usar na primária não eram, afinal, uma boa ideia. Acho que esta é a pior noite de sempre.

Dia 2 – York
A noite de ontem não foi assim tão má. Diria até que foi das mais épicas de sempre. Pena a cena do casaco. Mas que se lixe, as bifas do norte de Inglaterra são impecáveis e o filho de mil meretrizes que me levou o casaco, no final de contas, fez-me um favor. Comprei um casaco de pele muito mais cool e fiquei a ganhar com a mudança. Se agora aparecesse o antigo é que era. E já que estamos a pedir, também podia aparecer o outro blusão de pele que me roubaram no Bairro Alto em 2009. E a mala de CDs que me gamaram do carro no Arraial do Técnico em 2008. Ou talvez seja eu que tenho que começar a beber menos. Haha, beber menos, estava a brincar.
Já agora, um aparte: será que chamar as inglesas rosaditas de 'bifas' é racista, se eu gostar da raça? (e gosto) Fica a questão.
#estaroubeiaoSeinfeld

À procura do casaco novo, ainda dou com uma feira de discos, com aqueles preços apetitosos que tanto procurava e saio de braços carregados com uma selecção portentosa do bom vinil britânico; e ainda compro uma t-shirt dos Stone Roses. Mesmo a calhar, "I Wanna Be Adored" tem sido um dos hinos desta viagem. Também já aprendia a fechar a braguilha.
#oldhabitsdiehard
#estouaficarviciadonoshashtags
#omelhorépararcomestamerda






Dia 3 – Manchester
Regresso a Manchester para uma jornada de descoberta. Descubro que a Haçienda (clube histórico da cena Madchester) é agora um complexo de apartamentos. Descubro que o Salford Lads Club (onde os The Smiths posaram para a artwork do "The Queen Is Dead") continua a ser o que sempre foi. Faço uma visita guiada pela mancuniana mais simpática e católica que eu já conheci, que me mostra todos os cantos à casa. O sonho dela é ir a Fátima. Quando lhe digo que já lá fui várias vezes, os seus olhos brilham. Fixe, nunca pensei que ter ido a Fátima me desse um leverage com uma miúda. Estou mesmo a gostar de Inglaterra. Descubro que o Lads Club tem hoje uma sala indescritível – mais parece um altar – dedicada aos The Smiths, com paredes forradas do chão ao tecto com lembranças e post-its deixados por fãs que por ali passaram. Só estando lá é que se tem noção do nível de devoção que uma banda como os The Smiths provoca. Indescritível, mesmo.



No fim, deixo o meu post-it, tiro a clássica foto em frente à entrada do Lads Club e sigo viagem.


De regresso ao centro, faço uma paragem técnica no Manchester Arndale (ao lado do Northern Quarter) para comer e descubro uma das lojas mais cool de sempre, com um nome não menos cool: Pulp  uma loja com tudo para rockers. Carrego uma t-shirt dos Guns e outra dos Stones. Vir ao UK para mim é caro, mas não é pelo preço da viagem; não consigo parar de gastar dinheiro.
Ao fim da noite, descubro ainda que as miúdas do norte de Inglaterra não lidam muito bem com a rejeição: quando tento explicar a uma loirita num bar que estou demasiado cansado para uma noite triunfal de Domingo (não sejam farrombas, já contava com 50 kms nas pernas em 3 dias e não há heróis), levo uma joelhada épica nas partes baixas. Não faz mal, estou a adorar isto e parece que o sentimento é correspondido.
Mas hoje já chega, vou dormir, que amanhã os Beatles esperam-me em Liverpool.

Não percam amanhã a segunda parte do diário de bordo, porque eu também não. Até porque sou eu quem a vai escrever.

terça-feira, 10 de março de 2015

Tame Impala - "Let it Happen"

ELECTRONIC IMPALA 
(a VERY early review of "Let It Happen")


Carregar na imagem para sacar "Let It Happen"

O guitarrista já tinha "avisado" e se nos pudermos guiar pelo novo single "Let It Happen", confirmam-se as suspeitas: o novo álbum dos Tame Impala é mais, muito mais electrónico.

Calma. Antes de começarem já a correr histericamente à volta do quarto, fiquem descansados, que isso não significa que eles são os novos Coldplay. "Mais electrónico" não obriga a ir buscar o Avicii (ouviste Chris Martin?) e não é necessariamente mau.

"Let It Happen" é um épico de 8 minutos que soa a Tame Impala vão ao Lux. A banda seguiu a direcção mais comercial de "Backwards", mas num registo diferente de tudo o que fizeram até aqui. Ainda assim, os Impala ainda têm aqui a sua sonoridade e não quero, nem vou — pelo menos para já — fazer-lhes o funeral. Até porque — choque! — gostei de ouvir "Let It Happen". Pelo menos já o ouvi 5 vezes seguidas, o que dá 40 minutos disto. Algumar coisa quererá dizer.

Venha de lá esse novo álbum, Kevin. Mas cuidado com isso da electrónica. Já dizia o Diácono Remédios: "avança, mas com juízzzo".

quarta-feira, 4 de março de 2015

David Gilmour - "Take A Breath"

"Take a breath"



Inspira.

Já se passaram algumas horas, mas os meus dedos ainda tremem, o meu coração ainda bate a ritmos BlueMondayanos e a minha pulsação ainda está em nível de minutos-finais-de-segunda-mão-da-meia-final-da-Liga-Europa. O que é isto? Estou nas nuvens, os pés flutuam dois palmos acima do chão. Mas estou de rastos, aquelas horas de stress deram cabo de mim. Suores frios. Dói-me a cabeça, dói-me o corpo todo. E de repente, sentimentos de dúvida assolam-me. A cabeça trabalha a mil. Será que isto me está mesmo a acontecer? Não, isto não me pode estar a acontecer. É bom demais para ser verdade. Foi o dia todo nisto. Calma, Nuno, já passou.
Que cavalgada de emoções.

Expira.



Inspira.

Já se passaram algumas horas desde que comprei bilhetes para dois (dois!!) concertos de David Gilmour e ainda não acredito que é verdade. Chovem-me flashes daquela noite mágica de 2006, em Paris, a melhor noite da minha vida. São flashes que me apertam o coração e o empurram contra a omoplata. São flashes de uma noite perfeita, da noite em que vi David Gilmour ao vivo no Grand Rex, acompanhado de Richard Wright, a tocar temas como "Echoes", "High Hopes", "Time", ou "Comfortably Numb". Subi ao céu.
Agora o céu espera-me novamente em Itália, em dose dupla, na belíssima Arena di Verona e no Ippodromo Le Mulina, em Firenze. É um sonho tornado realidade. Quem disse que a felicidade não é possível?

Já sei que não vou pregar olho hoje, o êxtase não me vai deixar. Mas que se lixe, não preciso de sonhar. Eu vou viver o meu sonho.

Expira.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Pink Floyd - "The Show Must Go On"

"Where has the feeling gone? Will I remember the songs? The show must go on."


Imagino que todas as (cinco) pessoas que costumam vir aqui ler o meu espaço já se tenham perguntado o que é feito de mim. Não? Nem vocês? Ok. Em todo o caso, eu tenho um enorme respeito por vocês e seria incapaz de deixar o meu espaço neste limbo, sem uma resolução.

O que se passou comigo foi aquele tipo de coisas que achamos que só acontecem aos outros, até que nos acontece e não sabemos bem como reagir. Não, não foi nenhum acidente. Foi algo bem mais improvável: a concretização de um sonho.

No fim do Verão, fui convidado para escrever sobre música na New in Town (NiT) — uma nova revista urbana digital de lifestyle, lazer e cultura. Esta é a página do Facebook, os gajos escrevem alguns artigos muito fixes e dão muitas dicas interessantes (principalmente para quem vive em Lisboa). Podem lá ir fazer like para acompanhar o que vou escrevendo.
O que é que tudo isto significa? Que sim, é verdade: os sonhos também se tornam realidade. Por isso, sempre que vos quiserem convencer do contrário, não acreditem. Façam-lhes um pirete e continuem a lutar pelos vossos sonhos, por mais insignificantes ou idiotas que possam parecer aos outros.



Desde que a revista foi online a 12 de Novembro, escrevo uma crónica semanal (a Rapsódia Boémia - não poderia haver outro nome) e, sempre que tenho mais alguma disponibilidade, vou dando também a minha opinião sobre os álbuns que vão saindo. No fim de contas, não sobrou muito tempo para voltar a escrever aqui.


Para vos falar a verdade, nem sabia bem o que vos dizer, porque também não sabia ainda o que ia fazer com o blog, obviamente sufocado pelo tempo que dispenso com a NiT. Mas o blog não pode morrer. Afinal de contas, onde é que eu ia escrever sobre os álbuns que David Bowie lançou em 1977? Exactamente.
Que continue o espectáculo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Pink Floyd - "Louder Than Words"

"It's louder than words, this thing that we do.
Louder than words, the way it unfurls.
It's louder than words, the sum of our parts.
The beat of our hearts is louder than words."

Se me dissessem há uns meses que hoje, 9 de Outubro de 2014, eu me levantaria mais cedo da cama, só para ligar a emissão online da BBC Radio e ouvir um tema novo dos Pink Floyd, eu abanaria a cabeça em descrença, olhando para o chão enquanto pensava nas parcas possibilidades para que tal pudesse acontecer. Mas às vezes a vida guarda-nos surpresas onde menos esperamos.

"Louder Than Words" está aí e é o tema de avanço do álbum "The Endless River", que junta 4 diferentes peças musicais, cada uma ocupando um lado do duplo LP. Estas peças foram gravadas em 1993, nas sessões de "The Division Bell", as quais produziram 5 a 6 horas de música (segundo Richard Wright referiu numa entrevista em 1994).
Ao contrário do que eu especulei aqui, não vão aparecer as sessões instrumentais que Richard Wright gravou nos seus últimos anos (essas ficarão guardadas para o próximo álbum a solo de David Gilmour, ou até, quem sabe, para um álbum em nome próprio); não vão aparecer elementos da montagem "Soundscape"; e aparecerão alguns segundos apenas da peça "The Big Spliff", originalmente criada por Andy Jackson.
O que teremos em "The Endless River" é algo totalmente novo, inaudito.


"The Endless River" será - David Gilmour já o garantiu - o capítulo final da História dos Pink Floyd. É um duplo álbum quase integralmente instrumental do trio Gilmour-Wright-Mason. Quase, porque David Gilmour quis fechar a discografia dos Pink Floyd com um olhar para o passado.


"Well, Rick is gone. This is the last thing that’ll be out from us. I’m pretty certain there will not be any follow up to this. And Polly, my wife, thought that would be a very good lyrical idea to go out on. A way of describing the symbiosis that we have. Or had… I didn’t necessarily always give [Wright] his proper due. People have very different attitudes to the way they work and we can become very judgmental and think someone is not quite pulling his weight enough, without realising that theirs is a different weight to pull."
David Gilmour
É isso que ouvimos em "Louder Than Words".



Agora impõe-se a pergunta: será que as expectativas geradas por um novo tema dos Pink Floyd foram correspondidas? A resposta é não. Era praticamente impossível.

Não me interpretem mal, eu adorei "Louder Than Words". Mesmo. A voz de David continua divinal, a sua guitarra está no ponto e o Hammond de Richard conseguiu puxar-me as lágrimas diversas vezes em 4 minutos e meio. Só que "The Division Bell" é o meu álbum preferido de todos os tempos. É o álbum que o meu Pai punha a tocar todos os Domingos de manhã, durante anos a fio. Está na minha cabeça colado com a mesma força que a face da minha mãe e o caminho para a minha casa. É injusto comparar o que quer que seja ao melhor de sempre.

Posto isto, confesso que fiquei um pouco desapontado com o solo de guitarra do David Gilmour, para aquele que ficará para sempre como o último tema da discografia dos Pink Floyd. É demasiado curto. Mas depois lembrei-me que o que ouvi hoje é apenas um radio edit(uma versão curta para passar na rádio), por isso é possível que haja mais 2 minutos de solo no disco.
Mais uma vez, note-se que David é o meu guitarrista preferido de todos os tempos, por isso the bar was set very high para ele também.

Nesta paixão pela música, como em qualquer outra paixão, quando as expectativas são tão altas... É previsível haver dissabores e alguém acabar magoado.
Assim, sem querer ser um desmancha prazeres, vou pôr um pouco de água na fervura (também na minha).
Sejamos realistas, é muito difícil (para não dizer virtualmente impossível) que "The Endless River" supere "The Division Bell". Logo à partida, por 2 motivos: em primeiro lugar, porque TER é o que sobra das sessões de gravação de TDB, TER está para TDB como a Liga Europa está para a Liga dos Campeões; depois, porque o que vamos ouvir é material inacabado e daí ser revelado em forma instrumental.

Reitero que não quero com isto decretar o funeral a "The Endless River". Eu estou em pulgas para ouvir o resto do álbum. Estou convicto que vai ser fenomenal (olha para mim de volta aos superlativos), que vou adorá-lo e que vou ouvi-lo 100 vezes, só contando com o pouco que resta de 2014. Mas tenho que resfriar os ânimos desta paixão, especialmente para mim.

Honestamente, "The Endless River" é uma incógnita para mim. É um álbum duplo com 45 minutos instrumentais. Não sei o que esperar.

Se os Pink Floyd tivessem terminado em "High Hopes", teria sido um final perfeito. Mas se me derem a escolher entre ter ou não ter mais um álbum dos Pink Floyd, ainda que imperfeito, ainda que inacabado, a minha resposta será sempre: "SIM! CLARO QUE SIM! 'tás parvo ou quê, para me fazeres uma pergunta dessas?!".

Às vezes, a vida guarda-nos surpresas onde menos esperamos. E essas são as mais saborosas.
Foi o que me ensinou 2014.
"Let's go with the flow, wherever it goes. We're more than alive."

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Trent Reznor and Atticus Ross - "What Have We Done To Each Other?" (Gone Girl Soundtrack)



Acabo de sair da sala de cinema, onde fui exposto a "Gone Girl" - o filme que supostamente será o melhor do ano. E é mesmo.
Não me vou alongar sobre como David Fincher já deve reclamar para si um lugar de proa no panteão dos melhores contadores de histórias da História de Hollywood. Outros especialistas em cinema tratarão disso.

Vou antes falar da banda sonora. Porque da mesma maneira que o povo diz que "por trás de um grande homem, está sempre uma grande mulher", também por trás de um grande filme, está sempre uma grande banda sonora. E não raras vezes, por trás de um grande realizador, está um grande músico. Foi assim com David Lynch e Angelo Badalamenti, foi assim com Béla Tarr e Mihály Vig, foi assim com Krzysztof Kieślowski e Zbigniew Preisner.

Fincher encontrou o seu Badalamenti em Trent Reznor e no seu fiel escudeiro Atticus Ross. Juntos, deram voz a "The Social Network" de 2010 (que ganharia o Oscar de melhor banda sonora), "The Girl with the Dragon Tattoo" de 2011 (que ganharia o equivalente Grammy) e agora trazem-nos a banda sonora de "Gone Girl", acabadinho de chegar aos cinemas.
Se as 2 anteriores foram muito boas, esta é de cortar a respiração; causa ansiedade, provoca arritmia. É o perfeito casamento com o filme que sonoriza.

David Fincher pode continuar a confiar em Trent Reznor e Atticus Ross. Foi muito à custa deles que eu passei as últimas 2 horas e meia com os rins colados ao fundo do banco do cinema. Fica o aviso: não bebam café antes de "Gone Girl".


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Queen - "Let Me In Your Heart Again"

"You took my heart and soul away with you, but now I stand alone and dream I'm in your heart again"


Muito se tem passado nos últimos dias, sem que eu tivesse tempo para actualizar devidamente este espaço com todas as boas novas. Mas o blog não corre ao mesmo ritmo do mundo lá fora, "aqui o tempo não é tempo, é só um chão que ninguém pisou" (já dizia o Pedro Abrunhosa) e como tal, nunca houve grande preocupação em seguir as tendências. Mas agora há muito chão para pisar.

Uma das grandes notícias dos últimos dias foi a revelação de 3 novas faixas dos Queen com Freddie Mercury na voz, para inclusão em  "Queen Forever" - compilação que pretende recolher algumas das melhores baladas dos Queen e assim dar a conhecer esse lado do grupo à geração mais nova.
Espera aí, faixas novas dos Queen, com Freddie Mercury na voz?! Então mas esse barril não tinha já sido esvaziado com o "Made In Heaven" em 1995? Parece que não.

Há cerca de um ano, Brian May fez uma revelação avassaladora para os fãs dos Queen (para mim, pelo menos, foi com certeza): havia mais faixas vocais de Freddie Mercury, inauditas, passíveis de serem utilizadas para um novo álbum dos Queen, à imagem de "Made In Heaven". Um Made In Heaven II, portanto. Êxtase completo.

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Deixem-me enquadrar-vos na matéria: "Made In Heaven" foi o único álbum que eu vivi dos Queen.
Houve outros que foram lançados no meu tempo de vida ("One Vision" foi lançado no dia em que vim ao Mundo), mas era demasiado novo na altura. Apesar do meu Pai me contar que eu já vibrava com a música dos Queen desde os 2 anos - altura em que comprou o álbum "Live Magic" e gravou o concerto dos Queen no Wembley e eu não queria ver outra coisa senão a cassete VHS com aquelas 2 horas mágicas - eu era muito novo para ter noção do que era aquilo.

Só quando o Freddie Mercury morreu a 24 de Novembro de 1991 - tinha eu acabado de fazer 6 anos - é que eu me apercebi: isto não era como os desenhados animados das outras cassetes que eu via; isto era um ser humano, real, que desaparecera naquele dia.
Com o choque com que a notícia foi dada na televisão, chorei.
Chorei, como se de um tio se tratasse. Não um tio afastado; mas sim um tio que vivia ali ao lado e que eu via e ouvia todos os dias; que falava comigo numa língua estranha que eu não entendia, mas de alguma forma percebia o que ele me queria dizer.
Chorei, sem perceber bem o impacto que teria o desaparecimento de uma pessoa.

Quando 4 anos mais tarde, já com 10 anos de idade e totalmente seguro do meu know-how dos Queen, é anunciado o lançamento de "Made In Heaven" - o álbum com as últimas gravações de Freddie Mercury, rejubilei.
A promoção ao álbum foi forte e eu sabia bem o que queria para os meus anos, em 1995. No dia em que chegou à loja de discos de Castelo Branco, o meu Pai foi lá e trouxe o CD mágico para casa.

Devorei positivamente o álbum naquele Inverno e no Verão seguinte e no Inverno seguinte e no Verão posterior. Era como se não existisse mais nada.
Apesar do soslaio com que é olhado por alguma crítica (sempre os mesmos idiotas), eu grito-o sem reservas: eu amo o "Made In Heaven". Sem ses, nem mas, nem apesares.
"Made In Heaven" é um álbum muito especial para mim e tem lugar no meu Top 5 de álbuns de sempre.

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Agora que já vos enquadrei na matéria, podem imaginar a excitação que me induziu a revelação de Brian May. Só me restava esperar para ver o que daí vinha.

Não é que eu não imaginasse que temas poderiam vir aí. O Freddie já cá não está desde 1991 e depois de "Made In Heaven", o poço da água que ele nos deixou para beber já estaria com certeza quase seco. Mas sabia que havia ainda algumas faixas no arquivo dos Queen que poderiam levar o mesmo toque de Midas que acontecera no álbum "Made In Heaven".

A Wikipedia tem um levantamento bastante abrangente e assertivo do que se sabia haver nos arquivos dos Queen.
Aprofundarei o assunto dos arquivos mais tarde, mas já no último post dos Queen referi que "se há uma banda que ao longo da história inexplicavelmente ignorou os seus arquivos - tanto em áudio, como em vídeo - essa banda são os Queen.".
É verdade. Esperava-se então que este pecado fosse parcialmente corrigido com Made In Heaven II. Contava ver neste álbum, numa forma completa e renovada, as faixas vocais gravadas para temas como:

"Man On Fire" (deixado à última hora de fora de "The Works" e depois lançado a solo por Roger)
"I Guess We're Falling Out" (das sessões de "The Miracle")
"Dog With A Bone" (das sessões de "The Miracle")
"Face It Alone" (das sessões de "The Miracle" e "Innuendo")

Note-se que o que se ouve em cima são apenas demos, são pedras sem acabamento e o produto polido não teria nada a ver com isto. Contava para isso com o tal toque de Midas dos Queen.

Havia ainda o espólio a solo de Freddie que poderia ser aproveitado: desde as faixas inutilizadas do seu álbum a solo "Mr. Bad Guy" ("I Was Born To Love You" e "Made In Heaven" já tinham aparecido em "Made In Heaven"), as lindíssimas faixas do musical "Time" ("Time" e "In My Defense") e claro, os infames duetos com Michael Jackson, desde há 30 anos à espera para ver a luz do dia.


Resumindo a história, Freddie e Michael juntaram-se entre 1982 e 1983 e gravaram o esqueleto de 3 temas: "There Must Be More To Life Than This", "State Of Shock" e "Victory". As faixas nunca seriam terminadas porque Freddie perdeu a paciência com Michael - que levava um lama (sim, um lama) para o estúdio todos os dias - e teriam assim gestações distintas.
"State Of Shock" foi regravado com Mick Jagger e lançado no álbum dos The Jacksons "Victory" (faixa que deu nome ao álbum, mas que nunca foi lançada oficialmente).
Freddie, por seu lado, gravou "There Must Be More To Life Than This" a solo e incluiu-a no seu álbum "Mr. Bad Guy".

Uns anos mais tarde, a parte vocal de Michael Jackson em "There Must Be More To Life Than This" apareceu na internet e um fã fez o magnífico trabalho de juntar as duas vozes, criando esta maravilha.
Só de pensar no que os Queen tinham feito em "Made In Heaven", eu ficava aguado a imaginar o que poderia fazer o toque de Midas de Brian May e Roger Taylor a este tema.

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Bem me enganei.
5ª feira à noite chegou a grande revelação: vem aí novo álbum dos Queen, mas não é bem aquilo que estavam à espera. Afinal, o novo álbum é uma compilação e as novas faixas são apenas 3. É melhor que nada, é verdade. Mas não deixa de ficar um amargo na boca, sabendo do que poderia aí vir.



Mas o pior de tudo foi perceber que talvez o tal toque de Midas dos Queen já se tenha desvanecido.
A nova versão de "There Must Be More To Life Than This" - que agora aparecerá creditada a Queen + Michael Jackson - é inferior à versão maravilhosa criada por um mero fã, há mais de 10 anos.
A nova versão de "Love Kills" - que agora se apresenta com o subtítulo The Ballad - também fica a quilómetros de distância da assombrosa versão original de Freddie Mercury, que entrou na banda sonora de "Metropolis" de Giorgio Moroder.

Tanto os Queen quiseram polir as suas pedras, que elas ficaram sem nenhum edge.
(Esta observação resulta muito melhor em inglês: "Queen wanted so much to polish their rock, that they lost their edge" - veem? Muito melhor.)
Que pena...
Mas nem tudo está perdido.

Em contrapartida, os Queen desvendam em "Queen Forever" aquela que poderá ser a última pérola saída dos seus arquivos: "Let Me In Your Heart Again".
O tema foi gravado durante o ano de 1983, em Los Angeles, para o álbum "The Works" e emula exactamente aquilo que eu mais ansiava ouvir num Made In Heaven II. É um final de ciclo perfeito.
Naquela que pode ser a última vez que fala connosco, Freddie pede para entrar novamente no nosso coração.
Claro que sim, Freddie. Ele esteve sempre aqui para ti.

"Let Me In Your Heart Again" é mais um triunfo dos Queen. Possivelmente o último.