Mostrar mensagens com a etiqueta Artista: Pink Floyd. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Artista: Pink Floyd. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Pink Floyd - "Learning To Fly"

"Can't keep my eyes from the circling skies...
Tongue-tied and twisted, just an earth-bound misfit, I"




O lendário Storm Thorgerson morreu ontem, aos 69 anos de idade.

Para quem não sabe, Storm foi o criador das icónicas capas dos álbuns dos Pink Floyd (bem como de outros artistas, como as capas de "Houses Of The Holy" dos Led Zeppelin, ou dos primeiros álbuns de Peter Gabriel).

A obra de Storm é extraordinária. A nível visual, NENHUM outro artista teve tanta importância para mim como Storm, especialmente nos meus anos de infância.

As capas de "The Dark Side Of The Moon", "Wish You Were Here", "The Division Bell", "Animals", "Meddle" intrigavam-me, davam asas à minha imaginação. Ficava a olhar para aquilo durante horas, enquanto ouvia a música (não menos intrigante) dos Pink Floyd.
Hoje, algumas dessas imagens servem de decoração na minha casa, penduradas na parede.


Legenda (da esquerda para a direita e de cima para baixo):
 "A Saucerful of Secrets" (1968); "Ummagumma" (1969);
"Atom Heart Mother" (1970); "Meddle" 
(1971);
"Obscured by Clouds" (1972); "The Dark Side of the Moon" (1973); 
"Wish You Were Here" (1975); "Animals" (1977); 
"A Momentary Lapse of Reason" (1987); "The Division Bell" (1994);

Ninguém pensa na música de "The Dark Side Of The Moon", sem se lembrar do prisma.
Ninguém pensa na música de "Animals", sem se lembrar da Battersea Power Station.
Ninguém pensa na música de "Wish You Were Here", sem se lembrar do homem que ficou "a arder com o negócio".
Ninguém pensa na música de "Atom Heart Mother", sem se lembrar da vaquinha.
...e por aí fora.

Fica aqui a minha homenagem, com um vídeo (o único que conheço) realizado pelo próprio: "Learning To Fly", do álbum "A Momentary Lapse Of Reason", dos Pink Floyd.

A obra de Storm é eterna, vai acompanhar para sempre a música dos Pink Floyd e estará sempre comigo, a puxar pela minha imaginação.

Que descanse em paz.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pink Floyd - "In The Flesh?"

"So ya, thought ya, might like to... go the show!"




Quem conhece os cantos à casa aqui do blog, já decerto terá reparado no makeover a que ele foi submetido. Esta nova (temporária?) face do tasco deve-se à comemoração de uma efeméride deveras importante.

Passo a anunciar:
Acabei de comprar bilhetes para ir a Londres, ao Estádio do Wembley, ver o espectáculo "The Wall Live" de Roger Waters.

É isto. Escusado será dizer que estou nas nuvens! :)



Em primeiro lugar, ir ao estádio do Wembley, ver um concerto, sempre foi um sonho para mim. Se eu sou assim, quem sou e como sou, muito o devo àquele maravilhoso concerto dos Queen no velhinho Wembley - o "Live At Wembley '86" - com o qual eu cresci.
Foi a exposição numa idade tão tenra (segundo o meu Pai, com apenas 3 anos) àquele filme, em incessantes repetições numa (hoje decrépita) cassete de VHS (mais uma vez recorrendo ao meu Pai, a exposição era praticamente diária) que me fez chegar até aqui.
Não fosse aquele filme e hoje, mais que provavelmente não escreveria neste blog. Em vez de torrar dinheiro em música (desde concertos, a CD's, DVD's, Vinyl e por aí fora...), talvez o meu hobby fosse filatelia ou numismática e seria certamente uma pessoa bem mais aborrecida. O meu obrigado ao meu Pai, por me expor àquela maravilhosa cassete.
Mas já estou a divagar.

A verdade é que o Estádio do Wembley sempre fez parte do meu imaginário, desde criança, até aos dias de hoje. Até a minha banda de adolescência - os Oasis - tocaram ali e lançaram um álbum (e correspondente vídeo) ao vivo para marcar a ocasião.



É verdade que já lá não está o velhinho e mítico Estádio do Wembley. Já não é o mesmo edifício onde tocaram os Queen, ou onde o Rei Mercury brilhou no Live Aid. Mas o local é o mesmo e o misticismo mora todo ali. O novo estádio, inaugurado em 2007 por George Michael, é uma infraestrutura moderna, ainda mais megalómana que a anterior (com capacidade até 105 mil (!!) espectadores para concertos) e mais bem preparada para este tipo de eventos.



Agora pensem comigo: partindo do princípio que é impossível eu ver os Queen de volta ao Wembley (e lamento, mas o somatório Brian May + Roger Taylor + um vocalista amigo, não qualifica como Queen), que melhor ocasião poderia haver para cumprir o sonho de ver ali um concerto, que aquele que é provavelmente o espectáculo mais majestoso da História do Rock, como pude comprovar na visita de Roger Waters ao Pavilhão Atlântico no dia 21 de Março de 2011?

Quando é que vou voltar a ter a chance de ver ao vivo, no emblemático Estádio do Wembley, o Roger Waters, a tocar um dos meus álbuns preferidos e (já agora arrisco), com a provável "aparição especial" de David Gilmour para tocar o solo de "Comfortably Numb" (conforme fez no o2 Arena, em Maio do ano passado)?

Só de pensar em toda esta conjugação de factores, já estou com um orgasmo mental!
Venha daí o 14 de Setembro de 2013!!!! :)


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Pink Floyd - "Pigs (Three Different Ones)"

«Pink Floyd de "Animals" a "The Wall" - Um muro ao fundo do túnel» (Parte 2)

Capítulo IV - Um porco na estrada

O nascimento de "Animals" foi um processo difícil e moroso, que deixou mazelas anímicas nos membros dos Pink Floyd, mas foi apenas o início: o início do fim.
Uma vez lançado o monstro para a rua, era preciso alimentá-lo, levá-lo à estrada. Mas isso, nesta altura do "campeonato", com os Pink Floyd no topo do Mundo, só poderia ser feito em larga escala. Assim, os Pink Floyd decidiram que, dando resposta à elevada procura em algumas cidades, estava na hora de sair do conforto das arenas e aí levar o seu espectáculo para grandes estádios.

A fome de sucesso (e de dinheiro) da máquina dos Pink Floyd era enorme, pelo que foi lançada uma campanha de promoção muito agressiva para a digressão de promoção a "Animals", enchendo páginas dos jornais com maior tiragem nos países que visitou. Embora o álbum não tenha sido comercialmente tão bem sucedido como os dois anteriores, os Pink Floyd bateram recordes de escala, de demanda e de vendas de bilhetes, esgotando arenas e estádios na Europa e nos EUA.
A procura era imensa e a ganância dos promotores ainda maior, de tal forma que, para fazer face à elevada demanda de bilhetes, as salas estavam muitas vezes claramente sobrelotadas. Foi o caso do Soldier Field Stadium em Chicago, para onde deveriam ter sido vendidos 67 000 bilhetes, mas foram na realidade emitidos mais de 95 000, lesando a banda em centenas de milhares de dólares.

"You're nearly a good laugh, almost a joker
With your head down in the pig bin saying 'Keep on digging'"



Dentro do espírito megalómano que já estava intrínseco a tudo o que os Pink Floyd faziam, a banda decidiu levar consigo Algie (em baixo, à esquerda), o grande ícone de "Animals" - um porco insuflável gigante, que flutuava sobre a audiência e se tornaria numa das imagens de marca da banda. Foi projectado um palco mais elaborado e foram ainda criados outros insufláveis, como a "Família Nuclear" (em baixo, à direita), para completar o cenário. Mas o que ficou para a História foi mesmo o porco insuflável, que passou a presença assídua nos concertos dos Pink Floyd e, mais tarde, de Roger Waters a solo.


E foi assim que nasceu a "In The Flesh Tour" (ou "Animals Tour"), que espalhou raiva e desdém pela Europa e os EUA fora, desde Janeiro a Julho de 1977, em 55 concertos.
Musicalmente e energicamente, a banda estava melhor do que nunca: coesa e confiante. Pela primeira vez desde 1972, foram dispensadas as backup singers, mas foi recrutado o guitarrista Snowy White (que já tinha estado nas gravações de "Animals"), bem como o saxofonista Dick Parry, que preenchiam a paisagem sonora da banda em palco.

A estrutura do espectáculo era fixa: no 1º Set, o álbum "Animals" completo, numa sequência diferente da original; no 2º Set, o álbum "Wish You Were Here" completo, na sequência original; nos encores, o normal era a banda tocar "Money" ou "Us And Them", do álbum "the Dark Side Of The Moon", embora nalgumas ocasiões tocassem os dois. Com a interpretação dos 2 últimos álbuns completos, muitas vezes reforçados por longas passagem de improviso, mais um encore (por vezes alargado), os espectáculos desta digressão foram uma demonstração de força dos Pink Floyd como "banda de palco", para além do espectáculo que os rodeava.
Embora as digressões anteriores já tivessem utilizado lasers, projecções e insufláveis, foi especialmente a partir daqui (começando com a digressão "The Wall Live" original), que os concertos dos Pink Floyd começaram a atirar os intérpretes da música para um plano quase "complementar" do espectáculo.

Por tudo isto e por ser a última digressão com maior "liberdade de improviso", a "In The Flesh Tour" é amplamente reconhecida como uma das mais memoráveis digressões da História dos Pink Floyd e ainda hoje é vista com saudade pelos fãs da banda. Mas esteve longe de ser uma digressão fácil. Começando pela escala monumental dos concertos.
Outrora intimistas e em salas pequenas, os concertos dos Pink Floyd eram agora um espectáculo teatral imenso - à imagem da megalomania de Waters - servido para dezenas de milhares de espectadores, onde a música representava apenas uma parte do entretenimento. O mais curioso é que quem estava a ter mais problemas em lidar com este novo paradigma, era o próprio Roger, cujo comportamento foi ficando sucessivamente mais agressivo, à medida que a digressão foi avançando.

As faíscas dentro da banda não tardaram a surgir e as relações entre os membros dos Pink Floyd foram-se deteriorando. Foi nos EUA que a situação piorou e a determinada altura, Richard Wright chegou mesmo a apanhar um avião para a Inglaterra, ameaçando deixar a banda a meio da digressão. Waters, mais uma vez ele, começou a isolar-se do resto da banda, chegando às salas sozinho e saindo imediatamente a seguir ao fim dos concertos. Para piorar, a sua nova namorada não se dava com Ginger Gilmour - a mulher de David na época (não eram só os homens que se davam mal...) e aí surgiu mais um ponto de discórdia entre os dois. Nesta altura, David Gilmour já não via futuro nos Pink Floyd, uma vez que já tinham atingido tudo o que sonharam e partir daí seria sempre a descer.

O ambiente estava muito difícil.
Quando finalmente chegaram as últimas noites da "In The Flesh Tour" em Julho, na Costa Leste dos EUA e Canadá, o copo transbordou.

Capítulo V - Um porco no estádio

Se é verdade que a "In The Flesh Tour" deve a sua especial mística à agressividade com os Pink Floyd interpretavam as suas músicas no palco, não é menos verdade que foi essa agressividade que matou a banda. Com ferros matou, com ferros morreu.
Roger Waters, sempre ele, era nesta altura a figura central da banda, quer como força criativa, quer como força anímica. O seu comportamento cada vez mais agressivo ao longo da digressão foi a faísca demasiado incandescente, que acabou por consumir a banda em lume forte, uns anos mais tarde. Até lá, Roger ainda foi a tempo de criar uma das maiores obras primas da História do Rock: "The Wall".
Grande parte do caminho pelo túnel tenebroso que levou Roger Waters ao muro de "The Wall" foi percorrido ao longo da "In The Flesh Tour" e terminou na noite de 6 Julho, no Estádio Olímpico de Montreal, a última data da digressão de "Animals".


Poucas noites antes, no Madison Square Garden em New York, Roger já tinha perdido a cabeça com os técnicos de luz, contratados localmente devido à greve dos técnicos da comitiva dos Pink Floyd. Dando-se conta da dificuldade em manusearem o equipamento da banda e acertarem com as luzes no palco, Roger mandou parar a banda e gritou: "I think you New York lighting guys are a fucking load of shit!".

Em plena era de rebentamento do punk, par uma banda de massas como os Pink Floyd, o público era um "bicho" difícil de lidar, para quem estava habituado às audiências mais contemplativas do início da década de 70.
Durante a digressão, especialmente nos concertos americanos, com audiências mais barulhentas, era frequente Waters insultar os espectadores das primeiras filas que não paravam de gritar nos temas mais calmos, bem como os que levavam petardos para rebentar na sala, desconcentrando a banda.
Na noite de 6 Julho, em Montreal, diante de aproximadamente 90 mil pessoas, Roger não aguentou mais. Um grupo de miúdos mais entusiasmados da fila da frente irritou Roger ao ponto de... já lá vamos.


Com a prática e a confiança acumulada ao longo da digressão (para além das já referidas tensões), o último concerto da "In The Flesh Tour" foi musicalmente muito forte. A banda mostrava forte coesão e durante os primeiros temas do álbum "Animals" ("Sheep", "Pigs on the Wing (Part I)" e "Dogs") tudo parecia correr dentro do normal em cima do palco. Fora dele... nem por isso. A audiência mostrava-se particularmente faladora e barulhenta, ouvindo-se uma série de petardos a rebentar, aqui e ali. Era impossível esperar que 90 mil pessoas se mantivessem quietas.



Quando chegou "Pigs on the Wing (Part II)", Roger Waters perdeu a paciência. Depois de tentar tocar os primeiros acordes do tema, por 3 vezes, na sua guitarra acústica, rebentou mais um petardo e Roger parou de tocar, dirigindo-se assim ao público:



"Aww, for fuck's sake, stop lettin' off fireworks and shouting and screaming, I'm trying to sing the song!
I mean, I don't care.. If you don't want to hear it, you know... Fuck you! I'm sure there's a lot of people here who do want to hear it. So why don't you just be quiet!
If you want to let your fireworks off, go outside and let them off there, and if you want to shout and holler, go and do it out there...
I'm trying to sing a song that some people want to listen to! I want to listen to it..."

Estava assim feita uma declaração de guerra à audiência, não só do Estádio Olímpico de Montreal, mas também de todos os concertos dos Pink Floyd. Pelo disparo de raiva contra o seu próprio público, como um pai para um filho mal comportado, percebe-se que Roger estava farto de tudo e tinha chegado ao seu limite.

A banda continuou, mas Roger não tinha ainda terminado de despejar a sua amargura no público de Montreal. Quando chegou "Pigs (Three Different Ones)", Roger cumpriu a profecia que o próprio lançara num verso do tema "Dogs", chocando a audiência, a banda e, principalmente, ele próprio. Durante a secção de improviso no final do tema, Roger chamou um dos fãs da fila da frente para cima do palco e cuspiu-lhe na cara. "Who was trained not to spit in fan", indeed.



É impossível dizer exactamente quando é que foi a cuspidela, mas pelo destempero que Roger mostra no fim do tema, percebe-se que perdeu o controlo e ficou perturbado com o que acabou de fazer. Depois de ter cuspido no rapaz, Roger grita:

"Come back pig! All is forgiven! Come on, boy!"
(assobia, como se estivesse a chamar um animal)
"Come on, son! YEEEAAAH"

Tudo o que se passa no palco ganha contornos ainda mais macabros com a música sinistra de improviso, de "Pigs (Three Different Ones)", que a banda está a tocar neste momento.

Este foi o momento de epifania de Roger Waters, quando chegou à conclusão que nada daquilo fazia sentido: "Afterwards I became really depressed and thought, ‘My God, what have I been reduced to?'"
No fim da noite, de volta ao quarto de hotel, Roger percebeu que a audiência era um perigo para ele, uma vez que o estava a alienar do Mundo real e, mais que isso, ele próprio se tornara um perigo para a audiência, como ficou demonstrado pela famosa cuspidela.
Foi desta ideia de perigo mútuo que Roger Waters formulou a ideia do muro, um muro que separasse a banda e a audiência, garantindo que ninguém fizesse mal a ninguém.
Foi esta a base de construção do muro, foi esta a origem da ideia por trás do álbum "The Wall".

Epílogo - Um muro...

Se é habitual ouvir que os álbuns dos Pink Floyd são uma viagem, eu diria que "Animals" nos leva para um túnel escuro, numa fábrica abandonada. Como a que vemos nas fotos que acompanharam a edição original do álbum, em vinyl. No fundo desse túnel, um muro: "The Wall".
Deixo a última palavra a Roger Waters:

"In the Old Days, pre-Dark Side of the Moon, Pink Floyd played to audiences which, by virtue of their size, allowed an intimacy of connection that was magical.
However, success overtook us and by 1977 we were playing in football stadiums. The magic was crushed beneath the weight of numbers. We were becoming addicted to the trappings of popularity.
I found myself increasingly alienated in that atmosphere of avarice and ego until one night in the Olympic Stadium, Montreal, the boil of my frustrations burst.
Some crazed teenage fan was clawing his way up the storm netting that separated us from the human cattle pen in front of the stage screaming his devotion to the demi-gods beyond his reach. Incensed by his misunderstanding and my own connivance, I spat my frustration in his face.
Later that night, back at the hotel, shocked by my behavior, I was faced with a choice. To deny my addiction and embrace that comfortably numb but magic-less existence or accept the burden of insight, take the road less traveled and embark on the often painful journey to discover who I was and where I fit.
THE WALL was the picture I drew for myself to help me make that choice."



quinta-feira, 5 de julho de 2012

Pink Floyd - "Dogs"

«Pink Floyd de "Animals" a "The Wall" - Um muro ao fundo do túnel» (Parte 1)

Prólogo - ...ao fundo do túnel

O álbum "The Wall" já foi assunto aqui no blog quando Roger Waters trouxe a Lisboa a sua megalómana digressão "The Wall Live", em Março de 2011.
Entretanto, Waters levou esse conceito uns passos mais além, expandido o espectáculo para uma escala ainda maior e levando-o a estádios um pouco por toda a América do Sul e do Norte. A digressão tem sido um sucesso retumbante, dando-lhe a visibilidade que lhe escapava desde que deixou os Pink Floyd, em 1985. De tal forma que o histórico baixista dos Pink Floyd foi entrevistado pela CBS, no popular programa "60 Minutes".

A história que vos quero contar (hoje numa primeira parte, que terá continuação mais tarde) explica qual é a origem da ideia por trás do icónico álbum dos Pink Floyd, um dos mais vendidos da História da música.

Mas para perceber a origem de "The Wall", temos que recuar até "Animals", mais precisamente até à noite de 6 de Julho de 1977, a última noite da lendária "In The Flesh Tour" - a digressão de promoção ao álbum "Animals". Mas já lá vamos.
Antes disso, atentemos no álbum "Animals", lançado em 1977, possivelmente o conjunto de temas mais agressivo de todo o catálogo dos Pink Floyd.

Capítulo I - Uma faísca perigosamente incandescente

Na ressaca do mega-sucesso dos álbuns "The Dark Side Of The Moon" (também um dos álbuns mais vendidos de sempre, ainda mais que "The Wall", ficando nas tabelas dos EUA durante mais de 15 anos (!!) consecutivos (!!!)) e "Wish You Were Here", os Pink Floyd estavam, em 1976, no topo do Mundo. No entanto, a gravação do álbum seguinte seria tudo menos pacífica.

Nesta altura, os Pink Floyd já tinham alcançado tudo o que poderiam sonhar, como artistas e como estrelas Rock. Desde o sucesso, primeiro localmente como banda de culto e depois internacionalmente como banda de massas, passando pelas vendas monumentais, a aclamação por parte da crítica, a enorme legião de fãs, que enchia estádios em toda a Europa e toda a América, o hedonismo e, como é óbvio... muito, muito, MUITO... dinheiro. Depois de tudo isto, já não havia muito mais que fazer para uma banda como os Pink Floyd, que neste momento já era um monstro fora do controlo de qualquer dos seus membros. A estes, restava continuar com o espectáculo.

O problema é que as tensões dentro dos Pink Floyd já faziam faíscas perigosamente incandescentes. À cabeça destes atritos, estavam as 2 questões clássicas que se levantam, sempre que se cria um monstro de popularidade: poder e dinheiro.
O dinheiro, apesar dos lucros obscenos que a banda apresentava, já começava a ser um problema, uma vez que em 1976, os Pink Floyd decidiram investir em capitais de alto risco, os quais fizeram a banda perder milhões de libras.
Já o poder, esse tinha um nome: Roger Waters.
Foi nesta altura que Waters começou a ganhar cada vez maior proeminência na banda. O novo álbum "Animals" tinha 5 faixas e com a excepção de "Dogs" (escrita com David Gilmour), todas as faixas foram escritas por Roger Waters, sendo a primeira vez que Richard Wright não contribui com qualquer tema num álbum dos Pink Floyd. "Pigs on the Wing", um curto tema acústico, foi dividido em dois, de modo a abrir e fechar o álbum. Porém, como as royalties (dividendos por direitos de autor) eram distribuídas de acordo com o número de faixas e não com a duração das mesmas ("Dogs" ocupava o Lado 1 praticamente todo), Waters recebia muito mais dividendos que Gilmour. Poder e dinheiro, portanto.

Capítulo II - O Triunfo dos Porcos

""Animals" was a slog. It wasn't a fun record to make, but this was when Roger really started to believe that he was the sole writer for the band. He believed that it was only because of him that the band was still going, and obviously, when he started to develop his ego trips, the person he would have his conflicts with would be me."

Richard Wright

A verdade é que Roger Waters era, de facto, a grande força criativa da banda. Pelo menos no que concerne ao lado conceptual. Tal como tinha sucedido com "The Dark Side Of The Moon", também "Animals" nasceu de uma ideia de Roger Waters: fazer um álbum conceptual baseado na obra "Animal Farm" (em português: "O Triunfo dos Porcos") de George Orwell.
"Animal Farm" é uma fábula politico-social, onde as várias classes da sociedade são equiparadas a diferentes espécies de animais: os cães, como forças de combate (exército); os porcos, como forças dominantes, déspotas e cruéis (classe política); as ovelhas, como seguidores cegos e acéfalos das forças dominantes (o povo).
Na alutra do seu lançamento, o livro de Orwell serviu como uma crítica ao Comunismo (mais precisamente o Estalinismo, em vigor na URSS), mas Waters usa as mesmas alegorias para desconstruir a sociedade capitalista em que vivia. Ao comparar a condição humana à de meros animais de quinta, Waters pretendia pôr a nu a dissolução moral e social da sociedade de então.
Sendo o capitalismo e o comunismo duas doutrinas teoricamente antagónicas, não deixa de ser curioso que as mesmas metáforas encaixem que nem uma luva na crítica a qualquer uma delas.

"Animals" é um álbum duro, raivoso, revoltado. Um álbum que bebeu a sua inspiração da raiva e da revolta que os membros dos Pink Floyd sentiam na época, seja em relação à sociedade (Waters), seja uns pelos outros. Estes sentimentos estão bem patentes ao longo de todo o álbum, quer na lírica e na forma irada como Roger e David cantam, quer na música e na forma furiosa como os Pink Floyd a tocam.
Ouçam os solos de David Gilmour em "Dogs" e no final de "Sheep" e digam-me se ele não estava fod**** da vida quando os tocou em estúdio. David vivia um dos momentos mais inspirados da sua carreira e, neste caso, não importa se a sua inspiração veio do (eterno) conflito/rivalidade que mantinha com Roger Waters, ou do nascimento do seu 1º filho. O que importa é o que ouvimos e o que ouvimos é fabuloso. Se é recorrente ouvirmos que Gilmour faz a guitarra falar, em "Animals" a guitarra de Gilmour fala alto e... com palavrões.

"It's too late to lose the weight you used to need to throw around.
So have a good drown, as you go down, all alone, dragged down by the stone."



Para materializar o álbum conceptual baseado em "Animal Farm", os Pink Floyd pegaram em 2 temas de 1974, deixados de fora de "Wish You Were Here", e desenvolveram-nos para a temática do álbum. Os temas em questão são "Raving and Drooling" e "You Gotta Be Crazy", peças longas já conhecidas pelo público que assistiu a qualquer concerto da digressão de promoção a "Wish You Were Here". "Raving and Drooling" deu origem a "Sheep" e "You Gotta Be Crazy" foi rebaptizado e reformulado para "Dogs", a única composição de David Gilmour (conjuntamente com Roger Waters) em "Animals".
"Dogs" e "Sheep" foram separados por "Pigs (Three Different Ones)" - um tema novo de Roger Waters - e, como referi em cima, a curta peça acústica "Pigs On The Wing" abria e fechava o álbum. Estava assim feito mais um álbum "à Pink Floyd", com apenas 5 temas, sendo que as duas partes de "Pigs On The Wing" não chegavam a 2 minutos e meio.

O tema que aqui deixo hoje é "Dogs", um dos temas mais furiosos deste álbum. Aqui ouvimos a receita para a criação de um bom homem de negócios, um homem que triunfe num mundo de porcos. Para tal, este homem deve estar sempre de sobreaviso em relação aos colegas, ser obediente à chefia (qual cão amestrado), não ter amigos e estar sempre preparado para lhes "espetar a faca".

"You have to be trusted by the people that you lie to, so that when they turn their backs on you, you'll get the chance to put the knife in"

Capítulo III - Um porco a voar

Apesar de não ter sido comercialmente tão bem sucedido como os seus antecessores, o álbum "Animals" deixou uma marca iconográfica indelével na cultura Rock. E isso deve-se a Algie (o porco a voar), à Battersea Power Station em Londres e a uma fotografia sublime, que ficará para sempre como uma das melhores capas de um álbum na História do Rock.


Sombrio e intrigante. Fabuloso.
Lembro-me perfeitamente de, quando miúdo, olhar para a capa do vinyl do meu Pai e ficar assustado. Era uma mistura de sensações sui generis: por um lado, intrigado com o porco a voar junto às chaminés, por outro estarrecido com o poder sombrio desta imagem. Assustava-me, mas eu tinha que olhar. Uma atracção fatal.

A ideia do porco a voar sobre a Battersea Power Station foi também de Roger Waters. Nessa época, Roger passava pela estação regularmente e terá achado que aquela era uma imagem muito forte. E com razão.

"I’d always loved Battersea Power Station, just as a piece of architecture. And I thought it had some good symbolic connections with Pink Floyd as it was at that point:

A) It was a power station, that’s pretty obvious.
B) It had four legs. If you inverted it, it was like a table. And there were four bits to it, representing the four members of the band. But it was upside down, so it was like a tortoise on its back — not going anywhere, really.
I had already started thinking about using inflatables during a live show. Parachuting sheep and floating pigs and all of that. And so I thought why not combine the ideas for the live show with this symbol of a decaying rock group, and put them together? Added to all that, kind of simple stuff about pigs flying, the unlikely nature of that."

Roger Waters

Ainda mais forte, era a primeira ideia de Roger para a capa de "Animals": um rapaz a entrar no quarto dos seus pais, de urso de peluche na mão, apanhando-os a fazer sexo. Segundo Roger: "copulating, like animals!"
Felizmente para nós e para a banda, a ideia que vingou foi a do porco a voar sobre a estação.


O porco original, ao qual foi dado o nome de Algie, foi projectado por Waters e construído em Dezembro de 1976, com mais de 12 metros de comprimento. A ideia era fazer subir o porco a meia-altura das chaminés da estação, fotografar e fazê-lo descer. Para o caso do porco se soltar, os Pink Floyd contrataram um sniper para atirar sobre o insuflável e assim evitar que este voasse, literalmente, sobre os céus de Londres. Com tudo pronto, faltava apenas pôr a ideia em prática.
Porém, a tarefa não se revelou nada fácil. A sessão fotográfica prolongou-se ao longo de 3 penosos dias, em que tudo parecia correr mal.
No 1º dia, com o sniper preparado, e o céu ameaçador, o cenário foi fotografado, mas o porco não subiu.
No 2º dia, o porco subiu, mas uma rajada de vento forte soltou-o das chaminés e, por azar, tinham-se esquecido de avisar o sniper para regressar no 2º dia. Assim, o porco voo mesmo, desaparecendo no horizonte até se atravessar na rota aérea de alguns aviões que iam aterrar no Aeroporto de Heathrow, levando ao cancelamento de vários voos. O porco acabaria por aterrar numa quinta em Kent, a aproximadamente 100 km de distância de Battersea.
O porco foi assim recuperado e reparado para o 3º dia de sessão fotográfica, em que finalmente se conseguiu a tão desejada fotografia. No entanto, neste dia o céu estava azul, faltando-lhe a personalidade que tinha, por exemplo, no 1º dia.
Desta forma, a capa do álbum acabou por ser uma montagem do cenário do 1º dia, com o porco do 3º dia.

O céu escuro e ameaçador na capa de "Animals" reflecte aquilo que ouvimos no álbum. É um casamento perfeito entre a imagem e a música.

P.S.: O próximo post vai continuar a história de "Animals" e fazer a ligação à origem de "The Wall". O mote é uma frase do tema "Dogs", que podemos ouvir em cima:

"Who was trained not to spit in the fan"


Edit : Parte 2 aqui.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Pink Floyd - "Pigs on the Wing (Part I)"

"If you didn't care what happened to me...
And I didn't care for you..."




Quando surgiu a ideia de criar este blog já tinha, à partida, uma lista mental com meia dúzia de histórias que queria contar. Volvidos quase 2 anos e mais de 100 posts depois, algumas das histórias que encabeçavam a minha lista ainda estão enigmaticamente à espera.
Amanhã, vou contar uma delas.

Amanhã, vão voar porcos na Escolha musical do dia.

"Watching for pigs on the wing"

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Pink Floyd - "High Hopes"

"Beyond the horizon of the place we lived when we were young, in a world of magnets and miracles..."



Hoje recuamos a 1994, para uma escolha muito pessoal, de um tema que marcou indelevelmente toda a minha vida, particularmente a minha infância.
Trata-se de um dos meus temas preferidos de sempre, de uma das minhas bandas preferidas de sempre, naquele que é muito provavelmente o álbum que mais vezes ouvi na minha vida. Eu sei, são muitos superlativos juntos na mesma frase. Mas é isso mesmo que significa para mim "High Hopes", retirado do melhor álbum de sempre (não sei se já o referi) "The Division Bell" dos Pink Floyd.




"The Division Bell" foi o álbum de despedida dos Pink Floyd. Sem Roger Waters - o principal compositor da banda nos anos 70 - este foi o 2º esforço dos restantes Floyd para voltar a fazer algo de verdadeiramente relevante, o que não tinha sido totalmente conseguido com o álbum de 1987 "A Momentary Lapse Of Reason".
E sem dúvida que acertaram em cheio.

Como um bom vinho envelhecido, "The Division Bell" mostra uma sonoridade apurada dos Pink Floyd, resultante da maturidade musical e pessoal da dupla Richard Wright / David Gilmour.
Sem a vivacidade dos seus tempos de juventude e sem a adrenalina criativa do veneno injectado por Roger Waters, "The Division Bell" mostra o lado tranquilo e pacífico da música de Gilmour e de Wright.

Ao contrário dos álbuns da década de 70, aqui deixamos de ver o "lado negro", para passarmos a ver o "lado luminoso".
A claridade, a luminosidade, são efeitos quase holograficamente palpáveis em diversos pontos ao longo do álbum, como o piano em "Cluster One", ou as introduções de "Take It Back" e "Coming Back To Life".
É lindo. Absolutamente lindo. Não encontro melhor maneira de descrever.

Esta capacidade que Gilmour e Wright possuem, em esculpir imagens exclusivamente com os seus instrumentos, confere a "The Division Bell" um predicado ímpar: o álbum consegue comunicar uma mensagem ao ouvinte, sem que para isso tenha que utilizar a palavra.
Recordo que a lírica sempre foi uma parte de extrema importância na música dos Pink Floyd até à saída de Roger Waters. Os álbuns tinham sempre uma mensagem muito forte, expressa pela escrita de Waters, quer de crítica da sociedade ("The Dark Side Of The Moon" e "Animals"), quer de crítica da indústria ("Wish You Were Here"), quer de crítica política ("Animals" e "The Final Cut"), quer mesmo da crítica do comportamento humano ("The Wall").

O reverso da medalha é que, com o tempo, a preocupação com a mensagem foi-se sobrepondo à atenção com a música. O domínio de Waters foi crescendo, os álbuns foram tornando-se mais líricos e as tensões criadas por estas mudanças, juntamente com uma série de outros factores (que dariam para vários artigos diferentes), levariam à sua saída da banda em 1984.
Com isto, se perguntarem a alguém como o meu pai, que não percebe a língua inglesa, a opinião sobre "The Division Bell" e, por exemplo, "The Final Cut" (o mais lírico de todos os álbuns dos Pink Floyd), ele dir-vos-á sem hesitações que adora o primeiro e não tem grande simpatia pelo segundo.
Porquê? A resposta está na preocupação com a música, recuperada pelo renascimento da dupla Richard Wright (expulso da banda depois da digressão de "The Wall") / David Gilmour.

Em "The Division Bell", as temáticas deixam de ser a alienação individual, ou a alienação com a sociedade. Aqui fala-se de temas simples e que nos tocam a todos: a vida, o caminho que percorremos, o amor e a importância da comunicação como a chave da interligação dos elementos anteriores. Nesta mudança de direcção, teve grande importância o input lírico da então namorada de David Gilmour, a novelista londrina Polly Samson (casados desde a digressão de "The Division Bell"), o que não agradou a muitos fãs dos Floyd.
Quanto a mim, nada disto me faz grande celeuma. O que em "The Division Bell" se perde em eloquência, ganha-se em música.
E isso não é pouco.

"The grass was greener..."

O tema que aqui fica é o épico "High Hopes", cujo vídeo é, por si só, uma obra de arte.
O tema abre com os famosos sinos de igreja, intercalados pelo piano de Richard Wright. Curiosamente, o efeito sonoro dos sinos foi retirado de um tema muito anterior dos Pink Floyd: "Fat Old Sun", do álbum "Atom Heart Mother de 1970.

"High Hopes" é o tema de despedida dos Pink Floyd. É um olhar sorridente sobre o passado, com vista ao que o futuro pode trazer. É o epílogo perfeito para o brilhante reportório dos Pink Floyd, com um solo final que parece propagar-se eternamente, no tempo e no espaço. Que é exactamente o que eu espero que aconteça com a música dos Pink Floyd.

"Forever and ever..."

terça-feira, 12 de julho de 2011

Pink Floyd - "The Narrow Way - Part 3"

"You know the folly was your own, but the force behind can't conquer all your fears"



Muito antes dos milhões de discos vendidos, dos concertos em estádios e da adoração internacional, a "formação clássica" dos Pink Floyd (Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright) andou perdida durante muito tempo, na procura de uma sonoridade própria.

Esta demanda por uma direcção teve origem na saída de Syd Barrett, a meio da gravação do segundo álbum da banda "A Saucerful Of Secrets", devido aos seus problemas com o uso de drogas. Syd era a força criativa da banda e o autor da esmagadora maioria dos temas dos Pink Floyd. A sua saída foi colmatada com a entrada da David Gilmour, que se tornaria mais tarde num ícone da guitarra, mas até lá chegar, as coisas não foram nada fáceis...

Depois das dificuldades em terminar "A Saucerful Of Secrets" sem Syd Barrett e da muito sofrível banda sonora para o filme "More", os Pink Floyd decidiram mergulhar no experimentalismo com o excêntrico "Ummagumma".

"Ummagumma" foi lançado em 1969 como um álbum duplo: um disco ao vivo e um disco em estúdio. No álbum ao vivo, os Pink Floyd davam uma amostra do espectáculo avant-garde que faziam na época, com largas dezenas de minutos de improviso todas as noites. Versões de 25 minutos de "A Saucerful Of Secrets", ou versões de 15 minutos de "Careful With That Axe, Eugene" figuravam habitualmente num concerto dos Pink Floyd.

O problema estava mesmo no disco de estúdio. Os Floyd estavam sem ideias e depois de gravarem o tema "Embryo" (uma composição conjunta que ficaria guardada na penumbra até ao seu lançamento na compilação americana "Works" de 1983), decidiram que o disco de estúdio devia ser formado por 4 composições individuais, uma de cada membro dos Pink Floyd.

E assim foi.
Largados ao isolamento das suas ideias, sem saberem bem o que fazer e para onde ir, cada membro dos Pink Floyd compôs um tema novo para o disco de estúdio de "Ummagumma", formando aquele que é certamente o mais bizarro álbum dos Pink Floyd.
Considerado por muitos o pior álbum dos Pink Floyd, "Ummagumma" vive a difícil existência de ser o fruto de um experimentalismo desenfreado e sem qualquer direcção.

Mas isto não significa que o disco de estúdio de "Ummagumma" não tenha os seus momentos. Nomeadamente, a composição acústica de Roger Waters "Grantchester Meadows", mas principalmente este fabuloso "The Narrow Way" do recém-chegado David Gilmour.

Com a banda à procura do seu rumo, David Gilmour terá dado aqui o primeiro passo em direcção ao seu estilo único, hoje em dia imediatamente reconhecível. Mais que isso, terá dado até o primeiro passo na direcção que os Pink Floyd seguiriam a partir daí (já no álbum seguinte "Atom Heart Mother") e que iriam aperfeiçoar até ao álbum "Meddle" de 1971.

"The Narrow Way" está dividido em 3 partes: a primeira parte é uma fabulosa introdução acústica, com elementos spacey de slide guitar; a segunda é um arrepiante "crescendo" eléctrico, com mais efeitos psicadélicos ("The Waiting Room" dos Genesis parece retirado daqui); mas a terceira... Bem, é na terceira parte que David Gilmour finalmente se foca, deixa o noodling do psicadelismo e decide compor uma canção.

O resultado? Nada menos que fabuloso.



Pouco ou nada antes de "The Narrow Way" parecia apontar para aqui. Por isso mesmo, a importância histórica deste tema é imensa para os Pink Floyd. David Gilmour toca todos os instrumentos em "The Narrow Way", mas curiosamente, é o próprio quem desconsidera o seu trabalho, referindo-se ao tema como o fruto do "desespero da falta de ideias".
Talvez isso tenha sucedido, mas se o resultado da falta de ideias de David Gilmour é algo como "The Narrow Way", é fácil entender que este seja o mesmo homem que viria a criar as partes de guitarra de "Shine On You Crazy Diamond", "Comfortably Numb", "Time" e tantos... tantos outros.

terça-feira, 22 de março de 2011

Pink Floyd - "Comfortably Numb" (Live at Earls Court '80/'81)

"The child is grown, the dream is gone... I have become comfortably numb"



Volvidas 24 horas, ainda estou siderado com o espectáculo "The Wall Live" de Roger Waters em Lisboa.
Faltam-me as palavras. Todos os superlativos me parecem redutores. A língua portuguesa é muito rica, mas não sei se o suficiente para descrever o que presenciei ontem no Pavilhão Atlântico. E mesmo tendo essa riqueza, seria preciso chamar um Fernando Pessoa para obter uma imagem fiel do que se passou.

De forma muito simples e directa, afirmo que "The Wall Live" foi o maior espectáculo Rock que já assisti em toda a minha vida. Ponto. Pode não ter sido o melhor concerto (aí Roger Waters terá que dar o flanco a outro Pink Floyd - David Gilmour ao vivo no Grand Rex em Paris ainda é o concerto da minha vida), mas ficou muito perto disso. Mas em termos de espectáculo, foi simplesmente avassalador. Porcos a voar (tive um porco gigante diante dos meus olhos durante vários minutos), aviões a despenhar-se, guitarristas em gruas, pirotecnia, projecções em vídeo e o muro... o muro! Um muro físico em frente ao palco, escondendo a banda da audiência durante metade do concerto. Sublime.
Tudo isto acompanhado da maravilhosa música de um dos meus álbuns preferidos de sempre: "The Wall", o qual já abordei ontem.

Como referi, ainda estou a digerir tudo o que vi e por isso ainda me faltam as palavras. Pode ser que dentro de algum tempo consiga estruturar um texto com o retrato do que foi o espectáculo "The Wall Live".
Para já, enquanto procuro recuperar o fôlego do carrossel de emoções da última noite, deixo aqui "Comfortably Numb" ao vivo na mítica digressão original de "The Wall", em 1980/1981. Esta digressão terá mesmo dado prejuízo, tal a extravagância do conceito e a dificuldade de aplicação e rentabilização naquela época.


A versão que aqui fica é assim uma mistura das gravações de "Comfortably Numb" ao vivo no Earls Court em Londres, nos dias 9 de Agosto de 1980 e 15 de Junho de 1981, figurando no álbum oficial "Is There Anybody Out There? The Wall Live 1980–81", que eu recomendo vivamente.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Roger Waters - "One Of My Turns" / "Don't Leave Me Now" (Live in Berlin)

"...we came in?"
"Run to the bedroom, in the suitcase on the left you'll find my favorite axe"



Hoje chega a Lisboa aquele que é um dos maiores, se não o maior, espectáculo da História do Rock: a majestosa apresentação ao vivo do álbum "The Wall".
"The Wall Live" não é um espectáculo de divertimento qualquer. Não é bem disposto, não é alegre e não faz sorrir a plateia. A magia de "The Wall Live" está na profundidade da mensagem e na forma extravagante como é transmitida. Conteúdo e forma.

A forma traduz-se pela construção de um muro físico entre a audiência e o palco durante a primeira parte do espectáculo, sendo que a segunda parte é feita integralmente com o muro à frente da audiência.
O conceito pode ser estranho, mas tem muito que se lhe diga. Desde projecções em vídeo, lasers, bonecos insufláveis gigantes, porcos voadores, destruição de mobílias, guitarristas em gruas... Não faltam elementos para manter os sentidos do público em constante hiperactividade.

O conteúdo é de uma enorme complexidade, mas pode ser dissecado em diversos tópicos simples. O álbum é essencialmente uma obra auto-biográfica de Roger Waters, primeiro abordando os seus problemas de infância, com a dificuldade de adaptação à sociedade, mas principalmente devido à falta do seu pai, morto na 2ª Guerra Mundial, que nunca chegou a conhecer; e depois abordando os conflitos internos resultantes da adaptação à vida de uma estrela Rock.

Assim, "The Wall" retrata a vida de Pink, uma estrela Rock que tem uma infância muito perturbada, atormentada por professores tirânicos e uma mãe sobre-protectora. Quando adulto, Pink também sofre com a dificuldade para lidar com a pressão de ser uma estrela e as suas relações invariavelmente se dissolvem em rasgos de violência, infidelidade, ou abuso de drogas.
A forma que Pink tem de se defender de todos estes traumas é procurando o seu próprio isolamento, confinando-se ao abandono, à margem do resto do Mundo.
Metaforicamente, estes traumas são associados a tijolos no muro (bricks on the wall) e é assim que Pink vai construindo o muro ao longo da primeira parte de "The Wall".

A construção do muro é acompanhada pela espiral de auto-destruição de Pink (levando mesmo à auto-mutilação, vista no filme) e da sua descida à loucura, completa no fim da primeira parte de "The Wall", quando se despede do Mundo ("Goodbye Cruel World") e o último tijolo é colocado no muro.
Pink pensa que finalmente está protegido.

Já do lado de lá do muro, isolado do Mundo, na segunda parte de "The Wall" a crise psicológica de Pink dispara. Pink é assolado por uma letargia ("Comfortably Numb") que o leva a um estado alucinogénico, onde se depara com as suas lutas internas de identidade. Isto culmina num julgamento no seu subconsciente ("The Trial"), onde Pink é acusado de má conduta por todos os personagens da sua vida, nomeadamente de mostrar sentimentos, um crime que teria cometido ao se expor ao Mundo. O veredicto do juíz é a queda do muro, que devolve Pink ao Mundo, completando o seu processo de luta interna.

Esta é a leitura mais linear do conteúdo do álbum. Na prática, a construção do muro é uma técnica usada por todos nós para a luta contra os males que nos atacam, os traumas que nos assolam, os problemas que nos atravessam... O processo de construção do muro/luta interna/queda do muro é algo por que todos já passámos, mais cedo ou mais tarde nas nossas vidas, qualquer que tenha sido o motivo. É uma metáfora com a qual todos nós nos podemos identificar.
É esta a força, é esta a magia de "The Wall".


Se é verdade que este princípio funciona na perfeição para descrever um processo pessoal, não é menos verdade que também pode ser associado a fenómenos bem mais palpáveis. O Muro de Berlim é um caso paradigmático disso mesmo.
Usado para isolar Berlim Leste do Mundo Ocidental, também aqui houve um processo de luta que levou à queda do muro.

Foi na ressaca da queda do Muro de Berlim, que em 1990 Roger Waters deu um concerto na "terra de ninguém", entre Potsdamer Platz e as Portas de Brandenburgo, onde tocou o álbum "The Wall" na íntegra, replicando os concertos da digressão original. Este foi um dos maiores concertos da História do Rock, com uma assistência de aproximadamente 350 000 pessoas e também um dos mais importantes, devido à carga emocional que transportou.


Aqui vemos a sequência "One Of My Turns" / "Don't Leave Me Now", um dos clímaxes do espectáculo, em que o protagonista da história chega ao ponto de ebulição, em rumo descendente na sua espiral de loucura. Uma interpretação magnífica de Roger Waters, completa com a destruição de mobílias de um quarto.

Não sei ao certo o que vou ver, mas é mais ou menos isto que espero no concerto daqui a pouco, quando Roger Waters trouxer a Lisboa a digressão "The Wall Live".

"Isn't this where..."

sábado, 20 de novembro de 2010

Pink Floyd - "Sorrow" (Live in Venezia)

"A silence that speaks so much louder than words of promises broken"



Hoje fica aqui "Sorrow", um dos meus temas preferidos dos Pink Floyd, do álbum de 1987 "A Momentary Lapse Of Reason". O vídeo documenta um concerto histórico em 1989 na baía de Veneza, com um palco flutuante e a audiência em gôndolas.

Estima-se que, entre os milhares nas gôndolas e na Praça de S.Marcos (no lado oposto da baía) estavam 200 000 pessoas para assistir a este evento histórico. O concerto foi ainda objecto de uma mega operação televisiva, com transmissão em directo para 23 países (entre eles a URSS, a Alemanha de Leste, a Jugoslávia e... Portugal) e uma estimativa de mais de 100 milhões de telespectadores.

Apesar de congregar diferentes povos a assistir, numa época de conflitos internacionais complicados, este esteve longe de ser um evento consensual. A 2 dias do concerto, o seu cancelamento esteve iminente, devido a protestos em como as vibrações poderiam fazer estragos nos monumentos da cidade e nas fundações dos edifícios. As suspeitas confirmaram-se na ressaca do concerto e o Ministério da Cultura demitiu-se em bloco.

O Presidente da Câmara de Veneza garantiu que este seria o último evento deste tipo a ter lugar na cidade.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Pink Floyd - "Astronomy Domine" (Live - The Look Of The Week 1967)

"The sound surrounds the icy waters underground"


Se há um erro histórico na crítica musical é a de considerar o álbum "Sgt Pepper And The Lonely Hearts Club Band" dos The Beatles a "bíblia" do psicadelismo. Não é. Quanto muito, foi o mais influente álbum influenciado pelo psicadelismo, porque foi o que mais vendeu.

A verdadeira "bíblia" do psicadelismo, o álbum que representa em si mesmo o psicadelismo chama-se "The Piper At The Gates Of Dawn" e foi o 1º álbum dos Pink Floyd e a obra-prima do seu líder de então: Syd Barrett.

Muito antes de "Dark Side Of The Moon", "The Wall", dos milhões de discos vendidos, dos estádios cheios e até antes de David Gilmour (o "Deus" da guitarra) fazer parte da banda, nos mid-60's os Pink Floyd eram uma banda da cena underground de Londres; e uma das poucas que encontrou sucesso mais tarde.

A meio da gravação do 2º álbum, Syd Barrett começou a ter graves problemas devido a danos cerebrais causados pelo excesso no consumo de drogas e acabou por ser expulso da banda, entrando para o seu lugar David Gilmour. O resto é História...

Neste vídeo vemos os Pink Floyd a promover "The Piper At The Gates Of Dawn" no programa "Look Of The Week" na BBC, com uma performance ao vivo de "Astronomy Domine". Muitíssimo interessante é a forma como Hans Keller - o apresentador do programa - introduz os Pink Floyd, como uma banda abominável de qualidade muito fraca e som demasiado alto. Priceless!