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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

"The World That Waits Outside" | O álbum perdido de Noel Gallagher (I)

"The World That Waits Outside"
O álbum perdido de Noel Gallagher

Como o primeiro álbum a solo de Noel Gallagher se transformou no álbum mais mal-amado dos Oasis

I. "Fuckin' In The Bushes" | Cocaína e feedback
II. "Gas Panic!" | O período de glaciação
III. "One Way Road" | O álbum de um homem só
IV. "Where Did It All Go Wrong?" | O mundo que espera lá fora
V. "Solve My Mystery" | O álbum perdido

I. "Fuckin' In The Bushes" | Cocaína e feedback



Se perguntarem ao Noel Gallagher qual foi o seu apogeu enquanto compositor, de certeza que ele vos aponta o período entre 1993 e 1995, anos em que escreveu e gravou as canções que viriam a figurar nos álbuns "Definitely Maybe" e "(What's the Story) Morning Glory?". É difícil contra-argumentar com isto. Mas se a seguir lhe questionarem sobre o seu pior período, é provável que Noel indique a era do álbum "Standing On The Shoulder Of Giants", lançado no ano 2000. E aí meus amigos, o Noel está out of his fucking mind.


Vou ser directo: "Standing On The Shoulder Of Giants" (SotSoG) é não só o álbum mais underrated dos Oasis, como também é o trabalho sonicamente mais audaz da banda de Manchester, a milhas de tudo o que fizeram antes. O álbum tem dois problemas que atormentam a sua reputação: é muito dark e portanto completamente diferente do que o público estava à espera (especialmente depois do hedonismo de "Be Here Now"); e porque, de facto, está pejado de um punhado de temas do mais desinspirado que Noel já escreveu ("Put Your Money Where Your Mouth Is"? Really?).

Só pondo as mãos numa daquelas compilações menos legais de demos das sessões de 1998 e 1999 é que percebemos o que se perdeu em SotSoG. E só conhecendo a História e juntando as peças do puzzle, conseguimos ter a noção que poderíamos estar na presença da obra-prima dark de Noel Gallagher; uma espécie de Definitely Maybe negro; um Morning Glory da depressão; o grande álbum perdido de Noel Gallagher. Mas lá chegaremos. Antes disso, um pouco de História.
"Once you've written the greatest Rock N' Roll album of the 90s, what do you do?"
Noel Gallagher, "Standing On The Shoulder Of Giants" EPK

Em primeiro lugar, para perceber a (óbvia) mudança de sonoridade de "Be Here Now" para SotSoG, é preciso contextualizar a miríade de tempestades que Noel Gallagher viveu no fecho da década de 90. Depois de ocupar a cadeira dos deuses em Knebworth, em Agosto de 1996, o melhor que Noel poderia ter feito seria gozar umas merecidas férias para limpar a cabeça. Mas Noel e a Creation (a editora dos Oasis) queriam capitalizar o momentum da banda e como tal afogaram-se em cocaína para conseguirem finalizar o álbum "Be Here Now", lançado um ano mais tarde, em Agosto de 1997.

O álbum denotava clara falta de quality control: metade brilhante, metade decepcionante, mas todo ele BOOOMfull-blown, in your face e outros anglicanismos que tais. Uma horda de layers de feedback desnecessário que nuns casos tentavam disfarçar canções insossas, mas noutros apenas asfixiavam temas ao melhor nível de Noel ("Don't Go Away" à cabeça).

O mundo recebeu "Be Here Now" em euforia, mas rapidamente se apercebeu que não era assim tão bom como ansiava (e precisava). Entretanto, Spices, Backstreets, Britneys e Robbies continuavam a sua ascensão até ao topo e rapidamente o mundo se esqueceu dos Oasis, tão depressa como tinha sido sacudido com a sua chegada em 1994/1995. De repente, todos duvidavam das capacidades de Noel, o mesmo homem que durante dois anos escrevera hits atrás de hits que haviam povoado as tabelas britânicas. Noel via-se obrigado a provar o seu valor outra vez.

Amanhã, a História dos anos negros de Noel Gallagher ou, como eu lhe gosto de chamar, o seu período de glaciação.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Noel Gallagher - "Riverman"

"The rain that comes..."


"Ram On"  UK Spring Tour Journal 
(Part 3)

Continuando daqui e daqui, ficam hoje com a terceira e última parte do meu diário de bordo, escrito a partir da minha segunda cidade preferida do Mundo – Londres (se quiserem saber, a primeira é Lisboa; se não queriam saber, paciência, agora já sabem).

Mas antes de continuar o diário, uma reflexão. Eu tenho uma teoria sob sustentação científica inatacável: a de que 2015 vai ser (e está a ser) o melhor ano de sempre. Esta teoria é baseada em três fundamentos:
–  vou ver o David Gilmour ao vivo três vezes este ano (ele actua com a mesma frequência da aproximação terrestre do cometa Halley), entre muitos outros concertos;
– a absurda e idiotamente optimista convicção de que o dia de amanhã vai ser do caralhão;
– o irritante hábito que eu tenho em afirmar taxativamente que isto e aquilo e tudo é o "melhor de sempre" numa qualquer categoria que eu invente na altura.
Este último levava uma colega minha a recorrentes suspiros de olhos semi-cerrados: "Nuno, nem tudo pode ser o melhor de sempre!" (agora isso já não acontece; eu não melhorei, ela é que deixou de trabalhar comigo). Então não pode, claro que pode. A minha ida "por acaso" a Liverpool já confirmara isso mesmo. Agora havia a (remota) possibilidade de uma jornada dupla de Noel Gallagher. Mas a verdade é que nem sempre as coisas correm como planeamos, especialmente quando temos todas as probabilidades contra nós...

Dia 7 – Brockley
O concerto "secreto" do Noel Gallagher começava às 8:30PM (estamos em Inglaterra, por isso vamos tratar de horas locais), mas às 3:00PM já estou à porta do Rivoli Ballroom, uma sala de bailes (é mesmo para isso que é utilizada) perdida algures em Brockley – um bairro que está para Londres como Famões está para Lisboa. Fica longe como a merda.
Mal chego ao local, vejo logo o caso mal parado. Os seguranças do Noel já cá estão e tratam logo de me avisar que a entrada é só por guest list; e sublinham que eu não tenho a mínima hipótese.
Não vacilo. Acabei de chegar e demorei mais de uma hora a dar com isto, agora não vou a lado nenhum.
Estão a ver o mapa de Londres? O Rivoli Ballroom fica ali no canto inferior direito, nem o metro lá chega.

Também já cá estão alguns dos fãs do Noel, daqueles que o seguem para todo o lado como os No Name Boys seguem o Benfica. Aliás, os No Name são uns meninos. É que uma coisa é ir a Paços de Ferreira atrás do Benfica; outra coisa é ir atrás do Noel para a Coreia do Sul. Hardcore stuff.
A maioria é malta muito mal encarada. Estranho. A excepção é o Brian, um texano que no ano passado viu 23 concertos e este ano ainda "só" viu 2, mas já tem bilhetes para todas as datas da digressão americana do Noel. O Brian está triste, porque não são assim tantas quanto isso. O drama do Brian é que o Noel "só" vai dar 17 concertos nos EUA, mas ele ainda tem esperança que marque mais. Isto é o que eu chamo um doido de chancela internacional. Julgava que eu era um ganda maluco, porque vou ver os 3 primeiros concertos da digressão do David Gilmour, mas isto é a Liga dos Campeões.

Às 4:00PM, começa a notar-se grande alvoroço entre os seguranças. Vem aí o homem por quem esperamos. Ou não. Chegam várias carrinhas com vidros fumados e Noel, nem vê-lo. Entretanto fico a conversar 10 minutos com um tipo chamado Mike, que parece ser da organização, a quem conto a minha história. Ele diz que não pode fazer nada, mas deseja-me boa sorte.
Nota-se um nervoso miudinho por entre os fãs, mas todos já estiveram ao lado do Noel várias vezes. Eu, nervoso miudinho? Nada disso. Estou mais em taquicardia de nível avião a jacto.
Enquanto os olhos estavam postos ao fundo da rua, do outro lado da estrada...
...Noel aparece vindo da estação de comboios à frente do Rivoli Ballroom. Palavras para quê, é um homem do povo. Mas um homem que vem visivelmente mal disposto. Noel ainda pára para uns autógrafos, mas quando a segurança aperta, ele vira costas e vai para dentro da sala, onde vai fazer o soundcheck.
Boa, conheci o Noel Gallagher! Bem, "conhecer" aqui é um hipérbole. Foi mais conhecer no sentido em que se conhece sushi quando se passa ao lado do Sushi Corner no Colombo, a caminho de um Big Mac no McDonalds.
A minha "situação" é que ficou ainda mais complicada, uma vez que tive uma pequena altercação com o Kevin (o segurança pessoal do Noel), que não me deixou sequer aproximar do Noel. O gajo com quem eu precisava de fazer amizade tomou-me de ponta. Isto está a correr bem.

As horas vão passando, o frio vai apertando e o ambiente também vai ficando mais gélido. A segurança fecha a porta interior da sala, o que nos impede de ver o soundcheck. Até o Brian (o fã do Texas) comenta que nunca viu um ambiente tão mau antes de um concerto do Noel. E ele já viu muitos, sabemos bem. Parece que ninguém quer estar ali e não é (só) devido ao concerto ser em Brockley. Começa-me a cheirar que o Noel foi enganado e comprometeu-se a dar um concerto de borla (lembro que não há bilhetes, só há mesmo guest list) sem saber.

Pouco depois, Noel volta a sair da sala e aqui já o consigo apanhar para uma foto. Quer dizer, "apanhar" aqui volta a ser uma hipérbole. A meio da foto, o Noel caga na cena e vai-se embora, deixando-me com esta cara de parvo. Noel, gosto muito de ti, mas essa merda não se faz. Not cool, man. Not cool. Se fosse o Liam, de certeza que não faria isto.
Às 6:00PM, chega o "Miguel" ao Rivoli Ballroom. Ele não conhece nenhum tema a solo do Noel, mas como apropriadamente refere: "de borla, até injecções na testa". Assim é que é falar.
Ao olhar para os fãs que rondavam a entrada da sala, o "Miguel" comenta assertivamente: "Nunca vi tantos cabelos à Gallagher juntos. Cuidado, estes gajos levam isto a sério." Mas quando lhe conto o ponto de situação, noto-o apreensivo. Toda aquela confiança de ontem pareceu gelar no frio londrino.

As portas abrem às 6:30PM e começam a ser distribuídas pulseiras a quem tem o nome na guest list. Falamos com umas miúdas da organização, munidas de uma lista em A3 com os nomes dos sortidos, mas não conseguimos nada. Que raio se passa hoje, que nem o charme lusitano nos vale?

Às 7:00PM, o frio implacável da noite londrina (ou brockliana, como quiserem) começa a dar de si: o "Miguel" começa a tentar seduzir-me com a ideia de umas pints no quentinho de um pub. Ao fim de 1 hora, já está a vacilar. E com razão, isto é de loucos.
Mas eu estou mais numa de seduzir as miúdas da organização.
Identifico a minha única hipótese: a miúda do gorro. É ela que nos vai pôr lá dentro. Já tinha tentado a minha sorte com ela, mas vou lá insistir, dar o meu charme mais uma vez.
Está difícil, ela continua a abanar a cabeça. Faço a minha melhor cara de cachorrinho abandonado. Nada.

Vacilo. Mas não há saída agora. Já estou aqui há 4 horas e sinto que neste momento não podemos desistir. É para ir até ao fim.
Neste ponto, já dei conversa a toda a gente da organização, já implorei a todos e nada. O mais revoltante é que todos os No Name que chegaram sem bilhete e sem guest já conseguiram entrar. Só para os tugas é que não há nada.

Vou à miúda do gorro mais uma vez ainda. Nada... Isto com as mancunianas era limpinho, mas aqui não está fácil.

O Miguel lembra-me o ridículo que será quando me perguntarem o que eu vi nas minhas férias em Londres e eu responder "Vi Brockley". Se não acham isto suficientemente ridículo, então refaçam esta analogia, mas com um turista que vem a Lisboa para ver Famões. Haha, que idiota.

São 8:00PM. Já não sinto os pés, nem cartilagens acima do pescoço. O "Miguel" já só abana a cabeça.
As tropas estão desmoralizadas.
Eu próprio começo a vacilar.


E eis que do nada, chega a miúda do gorro: "Já não aguento mais ver-vos aqui à espera, ao frio!" e dá-nos a desejada pulseira.
Venci-a pelo cansaço. Em engenharia, chamamos a isto rotura por fadiga.

Et voilá, 5 horas depois, estou dentro do Rivoli Ballroom.

Vejam bem estas caras de felicidade juvenil. Até os pés já estão mais quentinhos.
O concerto? Bem, o concerto foi bem melhor que injecções na testa.
Noel Gallagher tocou um alinhamento curto (13 temas), quase inteiramente composto por temas a solo (a excepção foi "The Masterplan", que fechou a setlist). O "Miguel" não conhecia nenhum tema a solo, mas não se importou muito com isso, uma vez que no 2º refrão de cada tema, já o cantava a plenos pulmões com um sorriso rasgado. Noel é mesmo um mestre dos singalongs.

Sentado nas teclas, está uma cara que me é familar. Olha, é o Mike! Afinal, o Mike com quem falara durante a tarde era o Mike Rowe, teclista do Noel.
A meio do set, Noel volta a mostrar a sua rabugice e justifica assim a ausência de temas dos Oasis:

"Não vou tocar temas dos Oasis porque: A) Vocês não pagaram; B) Tenho um novo álbum para vender; C) Vocês não pagaram e por isso, se depender de mim, podem-se foder". 

Se dúvidas houvessem, Noel confirmou o mau humor que já lhe tinha topado. Será que era por estar em Brockley? Não sei. A verdade é que no fim do primeiro tema, Noel perguntou com o mesmo ar enojado que o "Miguel" fizera no dia anterior: "What the fuck are you doing in Brockley?!". Só mesmo para te ver, Noel.

Acabamos a noite em Marble Arch, a comer o melhor kebab de todos os tempos. Pelo menos sabe-me ao melhor kebab de todos os tempos, depois de estar 12 horas sem comer. Que dia glorioso. Que noite épica. E amanhã há mais Noel.


Dia 8 – Londres
O dia começa com uma feira de discos no Old Spitalfield Market, perto da estação de Liverpool Street.

Saio daqui com uma cópia selada do "The Queen Is Dead" dos The Smiths. Depois da minha visita ao Salford Lads Club, vem mesmo a calhar.
Umas barracas ao lado, num vinil usado dos anos 70, um aviso curioso: "HOME TAPING IS KILLING MUSIC. AND IT'S ILLEGAL". Olha, isto soa-me familiar. Afinal a história dos downloads e a perseguição das editoras ao público já é uma cantiga com muitos anos, desde os tempos áureos do vinil. É uma cantiga que tresanda a naftalina, fede a bolor.
Compras feitas, passo por casa para deixar a mercadoria e sigo para o Royal Albert Hall.

É a minha estreia no RAH e posso dizê-lo sem exageros (até porque, como sabem, eu não sou um indivíduo de exageros): é a sala de espectáculos mais espectacular onde já entrei, de uma grandiosidade e magnificência que só é compreensível, estando lá.



Há aqui um grande senão. É que a vista do meu lugar é esta:

Brutal. Dei 50£ por um lugar onde vejo meio palco, o qual ainda está tapado por grades. Como a lotação está esgotada, nem sequer tenho hipótese de mudar de lugar. Ainda tento dar a banhada a um casal que se sentou ao meu lado, mas não tenho sorte. Os bifes perceberam que foram ludibriados e mandam o português sentar-se no seu lugar. Um pouco de História no RAH, mapa cor de rosa all over again.
O melhor é focar-me na música.

Às 7:30, entram os Future Islands. Desde que os vi tomarem de assalto o palco do David Letterman que fiquei maluco com eles. Este não é o seu público, mas os Islands não desapontam. O RAH começa com aplausos tímidos no fim do primeiro tema, mas o ruído cresce com o avanço do concerto e com o preenchimento da sala, principalmente quando Sam Herring começa a dançar. Ah pois, aquela dança.

Sam Herring prepara-se para fazer "a dança"; na foto dá também para ver que fiquei longe como a merda


Chega "Seasons (Waiting On You)", Sam faz a sua dança e o público responde audivelmente. Já fervem as bancadas do RAH. Sentado à minha frente, aparentemente alheio ao entusiasmo à sua volta, um snob londrino manda uma mensagem no telemóvel. Curioso como sou, dou uma olhada indiscreta (sim, eu sei que o que fiz é terrível e não se deve fazer):

"This dude on stage is quite probably the worst dancer I've ever seen, babe. Worse than me. 
Quite good band but lmao."

O pior dançarino do Mundo? Porque dança de forma diferente e despreocupada? Malta, não liguem a este snob (nem aos outros), o Sam Herring é awesome! Dancem como queiram, dancem como ninguém estivesse a ver!
#rant

O set dos Future Islands é curto (7 temas) e eles rapidamente saem de cena. Daqui a pouco temos (novamente) Noel Gallagher.

O ambiente à volta do concerto de hoje não tem nada a ver com o de ontem. Hoje respira-se electricidade positiva. Nos corredores do Royal Albert Hall, vêem-se fãs na casa dos 20, 30 e 40 (todo o espectro atingido pelos Oasis) a beber pints, contando estórias de concertos passados e partilhando expectativas para hoje. Sente-se o entusiasmo na sala.
Noel finalmente chega e TODA a gente se levanta. Yeah! O problema do lugar sem visão, afinal, não é problema nenhum. O meu lugar até é o melhor de todos, porque fica na ponta e dá para eu dançar à vontade. Hehe espectáculo.

O público veio para ver Noel and he delivers. Muito mais bem disposto que ontem em Brockley, toca na íntegra o seu alinhamento normal desta digressão, desta vez com direito a vários temas dos Oasis e a um coro lá atrás. Soberbo. Muito melhor que Brockley.

O momento da noite? "Fade Away", um lado B dos Oasis. Esse foi o meu momento, porque na verdade, todos os temas da antiga banda de Noel são recebidos em delírio pelo público, claramente com fome dos Oasis.
Por muito que a audiência adore o Noel (e adoram, pelo menos pagaram bem caro para estar ali), ela recorda-lhe várias vezes que ainda ama o seu irmão. Ao longo da noite, são vários os interlúdios que o público aproveita para gritar "Liam! Liam! Liam!". É impossível Noel não ouvir. Ouve de certeza. De tal forma, que às tantas franze o olho e diz qualquer coisa como:
"What?! Thought so...". 
Ignora. Mas continua: "This next song is for my brother, cos he needs it now. This is called Champagne Supernova.". 
Loucura na audiência. Acho que nunca vi nada assim.
Toda a gente canta de pulmões cheios aquela letra maravilhosa sem sentido nenhum ("Slowly wlaking down the hall, faster than a cannonball"?!). O homem que está ao meu lado chuta a namorada para o lado e põe o braço à volta do meu pescoço, enquanto grita aos meus ouvidos "Where were you while we were getting high?". E de repente, os Oasis quase estão ali outra vez. Só falta o Liam. Todos queremos o Liam. E o Noel sabe. Resta saber se vai continuar a ignorar.

No fim do concerto, o mate que insistia em agarrar-me – suspirando que a namorada não sabe o que um concerto do Noel significa, mas com a certeza que eu sei – revela que viu o Noel no O2 há 3 semanas, mas que a noite de hoje foi incomparavelmente melhor: "This night had energy, this night had heart", confessa.

No caminho para casa, sentado à frente de um double decker bus (onde é que eu já ouvi isto?!), miro o bilhete. As férias acabam aqui, mas poderia haver melhor final que este?


Dia 9 – Epílogo / Regresso a Lisboa
Já de regresso a Lisboa, em Heathrow lembrei-me de uma ex-namorada que estava sempre com o período atrasado. Não era nada de preocupante, ela trabalhava na TAP.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Paul McCartney - "Ram On"

"Ram on"


"Ram On"  UK Spring Tour Journal 
(Part 2)

Continuando daqui, hoje deixo-vos a segunda parte do meu diário de bordo, em plena Disneylan... Liverpool.
Antes disso, uma explicação: porquê "Ram On" ali no título? Riam-se à vontade, "Ram On" é o nome da viagem. Sim, do alto da minha nerdice, baptizo a todas as viagens que faço. O nome é invariavelmente escolhido em função da música que ouço nessa altura (todas as viagens têm uma banda sonora, que depois fica para sempre colada àqueles lugares) e nesta viagem, a predominância foi do 2º álbum a solo de Paul McCartney – "Ram". "Ram" é cozy e homey, como a maioria da música do Paul; e talvez por isso me tenha sentido em casa no UK. Há qualquer coisa de heartwarming na música do Paul – ela é caseira, quentinha e deliciosa. But I digress. Voltando à viagem.
Estava eu a planear as minhas férias em cima do joelho (como sempre faço), dois dias antes da partida e deparo-me com um tempo morto entre York e Londres. O que fazer? Regresso a Manchester? Boa ideia. E por que não dar um saltinho a Liverpool? Genial. Marquei hotel no minuto seguinte. E assim cheguei à Liverpool Lime Station, quase por acaso. Mal eu sabia que aquela fora uma das melhores decisões da minha vida.

Dia 4 – Liverpool
Chegado a Liverpool, vou directo ao Cavern na Mathew Street – o mítico bar onde despontaram uns tais de The Beatles. No caminho, levo nos ouvidos "Ram". "Ram" sabe especificamente a morangos fresquinhos e doces, acabadinhos de colher. Mas talvez isso seja de eu estar a comer morangos neste preciso momento. Adiante.

Hoje, o Cavern está dividido em dois: o Cavern Pub e o Cavern Club. Como seria de esperar, Beatles por todo o lado. Ao lado, uma estátua do John Lennon, a imitar a pose na capa do álbum "Rock ‘N’ Roll". Vou já meter-me com estas italianas para me tirarem uma foto ali.
Ok, afinal eram inglesas; bem que podia ter guardado o italiano que aprendi com o Trappatoni e poupava-me a vergonha. Isto com as miúdas corria melhor em Manchester.
No topo da rua está o A Hard Day’s Night Hotel (sim, existe mesmo), com uma megastore dos Beatles. Imaginem a Fnac, mas de dois andares, só com Beatles: t-shirts, camisolas, pijamas, bonés, aventais, posters, quadros, bancos, porta-chaves, almofadas, bonecos, canecas, pratos, copos, livros, discos, sei lá, tudo o que possam imaginar. Estão a ver a loja no fim da Disneylândia, que é o terror dos pais, porque os miúdos querem tudo? É isso, mas aqui sou eu o miúdo. Com a carteira dos pais.
A Hard Day's Night Hotel, com a loja dos Beatles virada para a Mathew Street

Fico de tal forma esmagado com tudo o que vejo à minha volta na loja, que a minha cabeça entra em tilt. No fim de contas, acabo por trazer "só" um porta-chaves do Sgt. Pepper. Isso e um coração partido, porque vi o hoodie (nome muito mais fixe para "camisola com capuz") mais cool de sempre e não havia o meu número. Damn. Mas isto não fica assim, acreditem.

Agora sim, o momento por que tanto esperava. Chego ao museu dos Beatles.

À entrada do The Beatles Story, dizem-me que tenho duas horas para ver dois museus, mas é tranquilo: mesmo que eu seja um daqueles nerds que gosta de ver e ouvir tudo, duas horas chegam perfeitamente. Bora.
Começamos com o Casbah (onde os Beatles se estrearam), o Kaiserkeller, o Star-Club (Hamburgo) e claro, o Cavern, aqui brilhantemente reproduzido:


Depois, chegamos a Abbey Road, onde os Beatles gravaram quase toda a sua discografia. Passamos na porta de entrada dos estúdios e temos os instrumentos todos ali: o baixo do Paul, as guitarras do John e do George, a bateria do Ringo. A bateria do Ringo é hands down a minha peça preferida do museu. Temos também o Mellotron com que os Beatles gravaram o "Sgt.Pepper" e o "Magical Mystery Tour". The real thing. Isto é muito melhor do que ir à Eurodisney com 10 anos.

As duas horas passam e nem a meio do primeiro museu eu consigo chegar. Estava tranquilamente a estudar o concerto no Shea Stadium, quando sou convidado a sair pelo impaciente staff, numa altura em que já as senhoras da limpeza varriam o chão. Nem ao Sgt. Pepper cheguei! O que vale é que posso voltar amanhã.
De regresso ao hotel, tinha no quarto à minha espera uma chaleira eléctrica, chávenas de porcelana e chá – o kit completo. Adoro Inglaterra.

Dia 5 – Liverpool / Londres
Começo o dia bem cedinho, às 7:30 (houvesse vontade para me levantar tão cedo para trabalhar e a minha vida seria bem diferente), para um glorioso English Breakfast no hotel.
Bacon, salsicha, ovos estrelados, feijão, torradas com muita manteiga e sumo de laranja. No fim, um chazinho. Adoro Inglaterra.

Às 9:30, já estou na The Beatles Shop na Mathew Street, que ontem me escapou. O motivo? O hoodie, obviamente. Não tenho sorte. Siga para o museu, que o tempo está contado até ao comboio para Londres, às 12:47.
O museu dos Beatles abre às 10:00 e às 10:00, eu estou à porta. Pontualidade britânica (deve ser a primeira vez na vida). Estou eu e está uma excursão sénior de chineses (ou coreanos; ou japoneses; não perguntei, mas isso não interessa para o caso). Que se lixe, vou passar à frente destes Miyagis todos, que não há tempo a perder. Começo onde fiquei ontem: "Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band". Dou com isto. Nice.

Depois, vem o "Magical Mystery Tour" (temos mesmo os bancos do autocarro, para nos sentarmos), o "Yellow Submarine" (entramos mesmo num submarino amarelo), o White Album e de repente, já estamos no fim. Ou sou eu que estou com pressa, ou eles claramente se desleixaram com os anos 1968, 1969 e 1970 – anos que os Beatles passaram em estúdio. Havia tanto para dizer... Enfim, na verdade também já não tenho muito tempo.

No fim, temos uma sala de design minimalista dedicada à memória de Lennon, onde ouvimos "Imagine". (então e o George, malta?!)

... e uma última sala dedicada aos Beatles a solo:
John:
Paul:
George:


Rin...:
...ora porra, ia jurar que tirei uma foto à secção do Ringo, mas não dou com ela. Queria ter um registo do melhor baterista dos Beatles, mas apareceu-me outra foto do Paul.
Haha, desculpa lá Ringo, eu adoro-te, a sério.

Contas feitas, o museu dos Beatles é dos melhores lugares que pisei em toda a minha vida. Confesso-vos que é difícil descrever o entusiasmo em estar aqui, mesmo em contra-relógio. Sinto-me como o miúdo de 10 anos que vê o Mickey pela primeira vez, ou aquele pastor de Pitões que foi a Lisboa ver o mar de helicóptero e conhecer o Mantorras. Qual Louvre, qual Smithsonian, qual Tate, o melhor museu do mundo fica em Liverpool e chama-se The Beatles Story (pelo menos até eu ir a Montreux e ver o museu dos Queen; ou ver aquele dos Pink Floyd que ia abrir em Milão, mas foi cancelado). Recomendo sem reservas, marquem a vossa viagem ainda hoje.

Com os minutos que me restam antes do comboio, ainda vou ao museu sobre a British Invasion (invasão cultural britânica dos EUA) e aproveito a oportunidade para me sentar pela primeira vez numa bateria, numa aula em vídeo do Ringo Starr. Acho que tive uma epifania: tenho que repetir isto.
Ringo, desculpa lá aquilo há bocado. Adoro-te, mesmo.

Não há tempo para mais, siga para Londres.











Mal chego à estação de Euston, tenho a brilhante ideia de ir para Camden com uma mala de 20 kg atrás. Malta, não tentem isto. O conceito de "aproveitar o tempo" não é válido quando tens que carregar uma mala de 20 kg ao longo de uma escada com 96 degraus [sim, as escadas rolantes estavam avariadas; e sim, estava lá escrito o número de degraus]. Isto não é aproveitar o tempo, é só estúpido.
Como ainda não estava preenchido no capítulo do exercício físico, ainda vou à London Beatles Store em Baker Street. O motivo?  Adivinharam, o hoodie. Mais uma vez, tão tenho sorte.
[Como sempre acontece nestes casos, fiquei obstinado pelo hoodie e nunca mais deixei de o perseguir. À hora que publico este texto, já deve vir a caminho de uma loja online dos States... que me cobrou a camisola duas vezes. A saga do hoodie ainda parece longe de terminar...]

Dia 6 - Londres
O primeiro dia em Londres é para compras. E compras em Londres significa discos, discos e mais discos. Ah e umas t-shirts também. Há uma loja em Notting Hill — Backstage Originals — que só vende merch de bandas Rock e é uma das lojas mais cool onde já entrei, uma das minhas paragens obrigatórias, sempre que vou a Londres.

Trago (mais) uma t-shirt dos Beatles, com desconto à pala de uma longa conversa com a miúda italiana (esta era mesmo) que lá trabalhava e que me prometeu uma visita a Sesimbra. O atendimento nesta loja é mesmo personalizado. Adoro Inglaterra, não sei se já disse.

A seguir, passo na Rough Trade ali ao lado e menciono ao Nigel (espero que o Nigel não se importe que eu use o nome dele) um concerto "secreto" que o Noel Gallagher ia dar em Londres no dia a seguir. O Nigel não sabe do que eu estou a falar, mas promete averiguar. Diz-me para lhe deixar o meu mail; se ele souber mais qualquer coisa, avisa-me. Deixo-lhe o mail, mas sem grandes esperanças. Nem um vinil levei, o que é que o Nigel se vai importar com um tuga?
Notting Hill, Soho, Camden e uma porradona de discos depois, está cumprido mais um objectivo da viagem. 15 discos na mala. Venham agora os concertos.

À noite, vou beber umas pints com um amigo que vive em Londres. Chamemos a este amigo "Miguel". O "Miguel" esqueceu-se das chaves dentro de casa (onde vive com a namorada) e por isso a noite prolonga-se. As pints multiplicam-se.
Vou ver o mail. Não acredito, o Nigel respondeu! O concerto secreto é no Rivoli Ballroom, em Brockley. Haha, lindo! Ganda Nigel. Esta viagem está cada vez melhor. "Brockley?! Ninguém vai a Brockley!", diz o "Miguel" com ar enojado. "Mas não interessa, vamos lá na mesma! Aliás, é como se já tivéssemos entrado!", profetiza o "Miguel". E assim brindamos a um concerto para o qual não temos bilhete e onde não fazemos a mínima ideia de como entrar. Sabemos apenas que temos que entrar. Típica chico-espertice tuga.

Se querem saber se conseguimos entrar no concerto secreto do Noel Gallagher, não percam a última parte do diário de bordo. Se não quiserem saber, leiam na mesma. Sempre se podem rir à nossa custa.

segunda-feira, 4 de março de 2013

The Smiths - "Heaven Knows I'm Miserable Now"

"I was happy in the haze of a drunken hour, but heaven knows I'm miserable now"


Ainda os The Smiths e ainda o imbatível legado musical britânico. Hoje para um pequeno paralelismo entre duas bandas britânicas pivotais, nos anos 80 e 90: os The Smiths e os Oasis, respectivamente. E também para um mais que merecido reconhecimento da indústria musical, para com um dos ícones da música do Reino Unido.

A influência dos The Smiths na música britânica é imensa. Todo o Rock alternativo que apareceu a partir de meados dos anos 80 na Grande Ilha tem qualquer coisa de Smiths. Na música e no estilo. Basta olhar para Noel Gallagher, guitarrista dos Oasis - banda britânica "chave" dos anos 90 - para se perceber a analogia.


Desde o penteado até à escolha da guitarra - a Gibson ES-355 - Noel Gallagher fez questão de imitar Johnny Marr, um dos seus heróis:


Noel começou a utilizá-la em 2002, na digressão de promoção ao álbum "Heathen Chemistry" e desde então que se tornou na sua guitarra de eleição.
Já antes disso, Johnny Marr tinha servido como uma espécie de mentor dos Oasis, oferecendo uma Gibson Les Paul Sunburst a Noel, antes da gravação de "Definitely Maybe", bem como estadia livre num dos seus apartamento em Londres. Os tempos eram outros, na altura Noel estava à procura de sucesso e não tinha dinheiro para usufruir de luxos como uma Les Paul. Johnny teve fé em Noel e apostou nele.

O problema é que o mau feitio de Noel foi descarregado na lindíssima Les Paul, quando um fã dos Oasis invadiu o palco em Newcastle, em 1994, e Noel o "aviou" com a guitarra, destruindo-a. Sem a guitarra de Noel, a digressão dos Oasis estava em risco e foi aí que Johnny interveio novamente, oferecendo mais uma Gibson a Noel.


A propósito da sua nomeação, este mês, para o prémio Godlike Genius da revista NME (prémio que, curiosamente, foi entregue a Noel Gallagher no ano passado por... Johnny Marr), Marr pegou na lendária guitarra Gibson ES-355 e contou a história de como ela foi parar originalmente às suas mãos:



No vídeo, Johnny Marr conta a história do dia 2 de Janeiro de 1984 - o dia em que lhe chegou às mãos a icónica Gibson ES-355 e em que escreveu o êxito dos The Smiths "Heaven Knows I'm Miserable Now".
Umas semanas antes, quando os The Smiths iam assinar com a Sire Records, para a distribuição dos seus discos nos EUA, Seymour Stein (presidente da editora) levou a banda a jantar. No meio de uma série de histórias do meio musical, Seymour contou que uma dia tinha comprado uma guitarra a Brian Jones dos Rolling Stones, em Nova Iorque. Johnny viu aí uma oportunidade de lucrar com isso e disse que se o levasse também a Nova Iorque para comprar uma guitarra, como fizera a Brian Jones, que os The Smiths assinavam com a sua editora. Num momento de fraqueza, Seymour concordou e no dia 2 de Janeiro de 1984, Johnny e Seymour foram à Rua 48, em Nova Iorque, para cumprir a promessa. Já cansado de esperar e com medo da hora tardia, mesmo antes do fecho das lojas, Johnny Marr escolheu a icónica guitarra vermelha Gibson ES-355. A mesma guitarra vermelha onde escreveria, nessa mesma noite, no hotel, "Heaven Knows I'm Miserable Now" e "Girl Afraid".

"Heaven Knows I'm Miserable Now" foi lançado em single em Maio de 1984 e atingiu o 10º posto nas tabelas de singles britânicas - a posição mais alta durante o tempo de vida dos The Smiths. O tema seria mais tarde incluído na compilação "Hatful Of Hollow".



No vídeo em cima, Johnny pega na Gibson ES-355 e toca os acordes de "Heaven Knows I'm Miserable Now", tema que já não tocava há 25 anos. Muito tempo passou, mas a música dos The Smiths (principalmente dos primeiros anos) continua fresca, parece nada ter envelhecido.
Enquanto houver um adolescente deprimido, trancado no seu quarto, com necessidade de carpir as suas mágoas, a música dos The Smiths será sempre actual.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Noel Gallagher's High Flying Birds - "AKA... What A Life!"

"What a life!"



"It’s about things you love that are bad for you – drinking, women, smoking, you know... hero worship, that kind of thing. But thinking... aren’t they great?"
Noel Gallagher, sobre "AKA... What A Life!" 


Foi o "meu" grande álbum original (isto é, lançado no mesmo ano) de 2011. Lançado a 17 de Outubro do ano passado, bastou-me uma audição para ficar completamente rendido a "Noel Gallagher's High Flying Birds". A semana que se seguiu a esta 1ª audição foi para mim de trabalho intensivo, todos os dias "até às tantas" na empresa. O primeiro álbum a solo de Noel Gallagher foi a minha companhia. Resultado? Devorei positivamente "High Flying Birds".
Para terem uma ideia, segundo os registos do Windows Media Player do meu PC na empresa, nessa semana o álbum tocou mais de 40 vezes, enquanto trabalhava. E nisto já nem estou a contar com o CD em casa, nem com a cópia no carro, ambas em rotação constante.

Na semana seguinte, fui de férias para Londres e adivinhem o que levei no meu Creative? (sim, como já expliquei aqui, a Creative tem leitores de media portáteis muito melhores que a Apple e o seu iPod) "Noel Gallagher's High Flying Birds", "All Things Must Pass" de George Harrison e "Wasting Light" dos Foo Fighters.
Por motivos parcialmente alheios à música, essas férias em Londres resultaram numa das semanas mais felizes e entusiasmantes de toda a minha vida. Digo "parcialmente", porque a semana teve o  bónus de, sem estar à espera, ter a oportunidade de assistir ao concerto de estreia dos Noel Gallagher's High Flying Birds (o nome do álbum é igual ao nome da banda) na capital mundial do Rock. Ainda para mais, o concerto era no lendário Hammersmith Odeon (palco onde actuaram grandes nomes como os Queen, ou os Genesis e onde David Bowie "matou" Ziggy Stardust), hoje rebaptizado de HMV Hammersmith Apollo, por motivos publicitários.

Foi uma noite lendária, daquelas que ficam para sempre gravadas na nossa memória, como se uma longa metragem se tratasse. Daquelas noites para as quais somos transportados holograficamente, com o simples rebentar de uma determinada música nos altifalantes.

Mas como fazer parte de tudo isso?
Como seria de esperar, o concerto estava esgotadíssimo (toda a digressão britânica de estreia de Noel Gallagher esgotou em 4 minutos) e tive que recorrer a um scalper (em bom português, à candonga) para arranjar o bilhete. As pequenas lojas de discos mostravam nos seus placards anúncios com pessoas a vender os bilhetes a preços a rondar os 100£ / 150£, tudo para garantir um lugar no pequeno e exclusivo Hammersmith Odeon.

Sem outras alternativas, lá marquei um encontro com um destes "amigos", que me vendia o bilhete pela módica quantia de 80£. Apareceu um bife bem apresentado, com um blazer que lhe dava um ar de intelectual rockeiro (o que quer que esta amálgama signifique) e fiz o negócio. Não sabia se era um achado ou se estava a ser enganado, mas isso não interessava. Afinal, o Noel Gallagher estava à espera. Com a adrenalina a subir e uma pontinha de medo, lá fui desde o Hyde Park em direcção ao bairro de Hammersmith. A linha de metro estava cortada, o que me obrigou a dar uma volta enorme para lá chegar, com a hora do concerto a aproximar-se perigosamente.
Em cima da hora, com a adrenalina nos limites, cheguei ao Hammersmith Odeon.
Entrei.
O bilhete era genuíno.



WOW! Estava lá dentro. Finalmente, cumpria um sonho antigo, alimentado por todos aqueles documentários que seguiam as bandas em digressão. Estava "ali", "naquele momento", quando tudo estava a acontecer, debaixo da euforia londrina que recebia pela primeira o Noel Gallagher a solo. Fantástico!

Me @ Hammersmith Odeon

O concerto varreu o novo álbum por inteiro (estranhamente, com excepção de "Stop The Clocks", um dos seus temas fortes), mais alguns lados B, sacando aqui e ali nos inevitáveis clássicos dos Oasis.

- "(It's Good) To Be Free" (Lado B de "Whatever" - 1994)
- "Mucky Fingers" (Oasis - Álbum: "Don't Believe The Truth" - 2005)
- "Everybody's On The Run" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "Dream On" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "If I Had A Gun" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "The Good Rebel" (Lado B de "The Death Of You And Me" - 2011)
- "The Death Of You And Me" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "Freaky Teeth" (outtake de "Noel Gallagher's High Flying Birds"- 2011)
- "Wonderwall" [acústico] (Oasis - Álbum: "(What's the Story) Morning Glory?" - 1995)
- "Supersonic" [acústico] (Oasis - Álbum: "Definitely Maybe" - 1994)
- "(I Wanna Live In A Dream In My) Record Machine" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "AKA...What A Life!" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "Talk Tonight" [banda completa] (Lado B de "Some Might Say" - 1995)
- "Solider Boys And Jesus Freaks" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "AKA...Broken Arrow" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "Half The World Away" (Lado B de "Whatever" - 1994)
- "(Stranded On) The Wrong Beach" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)

Encore:
- "Don't Look Back In Anger" (Oasis - Álbum: "(What's the Story) Morning Glory?" - 1995)
- "The Importance Of Being Idle" (Oasis - Álbum: "Don't Believe The Truth" - 2005)
- "Little By Little" (Oasis - Álbum: "Heathen Chemistry" - 2002)




Para mim, ávido fã de (quase) tudo o que os Oasis e Noel fizeram (incluindo, obviamente, este álbum), foi uma setlist perfeita. O culminar de um dia perfeito.
Londres ainda me reservaria mais umas surpresas, mas não tinha nenhum lugar mais alto para me levar. Naquele momento, já estava no céu.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Noel Gallagher - "(It's Good) To Be Free" (Semi-Acoustic Live)

"The little things, they make me so happy. Well, it's good... Yes, it's good... It's good to be free"



"Head like a rock spinning round and round"
Volvido praticamente um mês, hoje voltei a ouvir no carro o "álbum do acidente". O álbum é "The Dreams We Have As Children", uma gravação semi-acústica de Noel Gallagher, ao vivo no Royal Albert Hall, no concerto de beneficiência para Teenage Cancer Trust.
Chamo-lhe o "álbum do acidente", mas sem quaisquer ressentimentos. Ao ouvi-lo, obviamente me lembrei do acidente, mas acho que isso vai ficar para sempre. O meu primeiro acidente de viação (muito menos grave que este, só "chapa") foi há quase 4 anos e deu-se ao som de "Candy's Room" de Bruce Springsteen. Não há vez nenhuma que eu ouça o tema e eu não me lembre dessa manhã azarada...
Mas dizia eu que não guardo ressentimentos da música de Noel Gallagher. Afinal, o acidente foi muito mais que um simples azar, foi uma chamada de atenção, um wake up call.

A vida testa-nos de muitas maneiras e às vezes dá-nos um valente abanão, que no mínimo serve para nos obrigar a repensar o nosso caminho. Não estou aqui a teorizar sobre o destino, ou sobre qualquer ordem que o Universo tenha sobre os acontecimentos caóticos da nossa vida, de modo a dar algum sentido a "tudo isto". Nada disso. À parte de toda a subjectividade de tais discussões, reitero apenas que alguns destes acontecimentos caóticos nos obrigam a parar... e a pensar.
E foi o que se passou comigo.

"So what would you say if I said to you: "it`s not in what you say, it`s in what you do!"...?"
Esta manhã, ao ouvir novamente o maravilhoso órgão na introdução de "(It's Good) To Be Free" - tema de abertura de "The Dreams We Have As Children" - mais do que recordar o acidente, lembrei-me que o abanão teve resultados práticos.
Lembrei-me de como é bom ser livre para operar uma revolução na nossa vida , sempre que tal seja necessário. ("so I start a revolution from my bed", como dizia Noel em "Don't Look Back In Anger")
Lembrei-me que, volvido um mês um mês do acidente, a palavra já deu lugar a acção.
A palavra escrita vai dar lugar à palavra falada.
A palavra lida vai dar lugar à palavra escutada.

Lembrei-me de tudo isso... e esbocei um sorriso.
Porque são as pequenas coisas que me fazem feliz.

"The little things, they make me so happy. All I wanna do is live by the sea Well, it's good... Yes, it's good... It's good to be free"


P.S.: "(It's Good) To Be Free" foi originalmente lançado pelos Oasis em 1994, como um Lado B do single "Whatever". Criminoso, como é que Noel relegou um tema da tarimba de "To Be Free" para a obscuridão de um lado B... Crime esse que repetiria mais vezes ao longo da sua carreira, tanto nos Oasis, como a solo, ao deixar temas de fora dos álbuns temas como "Fade Away", "Masterplan", "Idler's Dream", "Listen Up", "Alone On The Rope" e muitos outros.
À semelhança de "Fade Away", a versão original de "(It's Good) To Be Free" era cantada por Liam Gallagher, num registo bem mais eléctrico. Ambas foram incluídas em 1998 na colectânea de Lados B "The Masterplan".


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Noel Gallagher - "There Is A Light That Never Goes Out" (Live)

"There is a light and it never goes out..."



Já tive dias melhores. Não que o dia de regresso ao trabalho após as férias seja, alguma vez, um dia muito feliz, mas regressar ao trabalho com um acidente de automóvel é, digamos, um dia especialmente mau.
O que mais vos posso dizer acerca do dia de hoje? É que hoje é um dia tão bom como qualquer outro para se ser poético. E por isso mesmo vos digo que hoje, pela primeira vez em toda a minha vida, durante uma fugaz sequência de fracções de segundo... as luzes apagaram todas e eu vi a Velha Senhora. Fitei-a e olhei-a nos olhos, algo que espero nunca mais fazer durante muitos... muitos anos.
As luzes apagaram todas... todas menos uma. Porque para mim, há ainda uma luz que nunca se apaga.



Qual era a música que profeticamente tocava no auto-rádio no exacto momento do acidente?
Nem a propósito: "There Is a Light That Never Goes Out", tema original dos The Smiths, do seu álbum ex libris "The Queen Is Dead" (mas lançado em single apenas em 1992), na voz de Noel Gallagher.

"Driving in your car, I never never want to go home, because I haven't got one... Anymore."

Já tive dias melhores. Mas daqui vos continuo a escrever porque para mim, há ainda uma luz que nunca se apaga.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Noel Gallagher - "Fade Away" (Semi-Acoustic Live)

"Fade away while we're living the dreams we have as children"



Depois do fim dos Oasis em 2009, a carreira a solo de Noel Gallagher está neste momento a arrancar a sério.
Em Outubro teremos o lançamento do álbum homónimo da sua nova banda - os "Noel Gallagher's High Flying Birds" - e entretanto o single de avanço "The Death Of You And Me" foi lançado dia 21 de Agosto, chegando ao (discreto) 15º lugar das tabelas britânicas. Uma desilusão, tendo em conta que Noel Gallagher é ainda uma das referências do Rock britânico.
Veremos como é que o álbum será recebido no mês que vem.

No entanto, o primeiro lançamento oficial de Noel Gallagher a solo data de Março de 2009, uns meses antes da famosa discussão em Paris, que ditaria o fim dos Oasis. Trata-se de "The Dreams We Have As Children", um álbum gravado ao vivo no Royal Albert Hall em 2007, para a instituição de caridade "Teenage Cancer Trust".


"The Dreams We Have As Children" tem sido o meu álbum de eleição nas últimas semanas, tocando repetidamente em qualquer lado onde esteja: seja em casa na minha aparelhagem, ou na rua no meu Creative (sim, porque em termos de compatibilidade e de qualidade sonora, a Creative é muito melhor que a Apple e o seu iPod).

O que mais me impressiona em "The Dreams We Have As Children" é a forma como os temas clássicos dos Oasis ganham uma nova vida, uma vez submetidos à transformação semi-acústica imposta por uma banda formada por Noel na guitarra acústica, Gem na guitarra eléctrica ou nas teclas e "the mysterious Terry" na percussão.



É esse o caso deste fabuloso "Fade Away", que dá nome a este álbum numa das suas linhas.
"Fade Away" é um tema da autoria do próprio Noel, originalmente gravado em 1994 como um Lado B para o Single de "Cigarrettes And Alcohol".


A versão original de "Fade Away" era cantada por Liam Gallagher e situava-se no território mais próximo do Punk que os Oasis pisaram. Ao ouvir "Fade Away" novamente em "The Dreams We Have As Children", este tema transforma-se, de repente, numa melódica balada.
Fabuloso.

Curiosamente, "Fade Away" já tinha conhecido um tratamento semelhante, quando em 1998 foi gravada a "Warchild Version", para uma compilação de ajuda à caridade e incluída como lado B no single japonês de "Don't Go Away". Esta versão conta com Noel na voz, Johnny Depp na guitarra e Lisa Moorish e Liam nos backing vocals.



Na altura em que Noel escreveu "Fade Away", supostamente com o propósito definido de ser um lado B, era habitual este ter a arrogância de atirar grandes temas para lados B dos singles, não os guardando para futuros álbuns. Embora constantemente avisado que os temas que escrevia eram bons demais para serem relegados para lados B, Noel teimava que "se foram escritos para serem lados B, lados B devem ser". E assim foi.

"Now my life has turned another corner, I think it`s only best that I should warn you: Dream it while you can, maybe someday I`ll make you understand"

Noel julgava que a inspiração que carregava consigo nos anos dourados dos Oasis duraria para sempre. Como seria de esperar, uns anos mais tarde Noel já se confessava arrependido destas decisões.
Outro exemplo desta arrogância é o fabuloso "Listen Up", que curiosamente também foi deixado como um Lado B de "Cigarrettes And Alcohol". Estes temas, juntamente com outros lados B de qualidade semelhante, foram reunidos em 1998 para a compilação "The Masterplan" - provavelmente a mais sólida compilação de lados B da História.


O vídeo que se apresenta em cima foi gravado na Union Chapel (em Londres), em Novembro de 2006. Este foi um concerto inserido numa pequena digressão semi-acústica pela Europa, que Noel Gallagher e Gem Archer fizeram para promover a compilação "Stop The Clocks" dos Oasis.
Esta actuação na Union Chapel seria posteriormente editada para transmissão televisiva, dando lugar ao especial "Sitting Here In Silence", numa alusão a "Sittin' Here In Silence (On My Own)", outro lado B dos Oasis, também escrito por Noel Gallagher, para o single de "Let There Be Love".

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Noel Gallagher's High Flying Birds - "The Death Of You And Me"

"Let's run away together you and me, forever we'd be free
Free to spend our whole lives running, from people who would be the death of you and me"



Já aqui falei dos Beady Eye, o novo projecto de Liam Gallagher e dos restantes membros dos Oasis, depois da separação da banda, na sequência da saída de Noel. Falei, mas falei ainda muito pouco, uma vez que adorei "Different Gear, Still Speeding", até ao momento um dos meus álbuns preferidos de 2011.

Chegou então agora a hora de falar da nova vida de Noel Gallagher, também conhecido como "o Chefe".
Depois da implosão dos Oasis em 2009, consequência de uma já célebre discussão em Paris entre os irmãos Gallagher, em que Liam se serviu de uma guitarra para tentar atingir Noel, qual lenhador que usa o machado num pinheiro, Liam e Noel seguiram caminhos diferentes.

Liam desdobrou-se em entrevistas e mensagens no Twitter, formou os Beady Eye e estes rapidamente gravaram e lançaram o seu primeiro álbum. Ao contrário de Liam, Noel resguardou-se na discrição que achou necessária para decidir o que fazer a seguir. Mas nem por isso o tempo de Noel foi menos produtivo...

No início deste mês, Noel deu uma conferência de imprensa para anunciar o lançamento não de um, mas de dois (!!!) novos álbuns: ainda este ano, o álbum de estreia dos "Noel Gallagher's High Flying Birds" - a sua nova banda de acompanhamento - e para o ano, um álbum de colaboração com os Amorphous Androgynous.

"Noel Gallagher's High Flying Birds" deverá ser um álbum em linha de continuidade com a direcção que Noel já seguia nos tempos finais dos Oasis (por exemplo, com "Falling Down" ou "The Importance Of Being Idle"), com mais influências electrónicas e psicadélicas na sua música. Contudo, Noel já avisou que "só lá para a 6ª faixa" é que há o primeiro solo de guitarra, por isso podemos esperar algo de, no mínimo, diferente.


Quanto ao projecto com os Amorphous Androgynous, aí sim devemos ter Noel a fazer um mergulho profundo na electrónica, o que ele já ameaça fazer desde a colaboração com os The Chemical Brothers em 1997 para o single "Setting Sun", que atingiu o 1º lugar nas tabelas britânicas.

Para já, venha então o "Noel Gallagher's High Flying Birds"!
Pessoalmente, tenho as expectativas nos píncaros para o primeiro álbum do "Chefe", como não me lembro para nenhum outro álbum recentemente. Aqui, Noel pôde finalmente trabalhar para si, sem se preocupar com os standards do que os fãs dos Oasis esperam. Escolher as melhores músicas (já todos conhecemos "Stop The Clocks" e "Record Machine"), fazer arranjos ainda mais psicadélicos e, quem sabe, surpreender-nos a todos com um álbum seminal. A ver vamos.

"Noel Gallagher's High Flying Birds" foi produzido pelo próprio Noel Gallagher e Dave Sardy (produtor dos dois últimos álbuns dos Oasis) e chegará às lojas a 17 de Outubro deste ano. O álbum contará com 10 temas:

"Everybody's On The Run"
"Dream On"
"If I Had A Gun"
"The Death Of You And Me"
"(I Wanna Live In A Dream In My) Record Machine"
"AKA...What A Life!"
"Solider Boys And Jesus Freaks"
"AKA...Broken Arrow"
"(Stranded On) The Wrong Beach"
"Stop The Clocks"


Antes da chegada do álbum, a notícia do dia é a revelação de "The Death Of You And Me", o single de avanço de "Noel Gallagher's High Flying Birds" e por aqui já podemos ter a noção que não se deve fazer grandes previsões para este álbum.
A primeira impressão de "The Death Of You And Me"? Poderia ser um tema clássico dos Oasis, com a diferença que, ao invés de termos um solo de guitarra, temos um solo de... trompetes e saxofones!
De resto, os hooks da música do Noel estão todos lá. Depois de ouvir o tema pela 2ª vez, fiquei automaticamente com ele na cabeça e esse é o maior elogio que ainda posso fazer ao Noel, ao fim de tantos anos a seguir a sua carreira.