terça-feira, 20 de junho de 2017

Lindsey Buckingham & Christine McVie - "Carnival Begin"

"I'll take it all, I may lose or win, a new merry-go-round. Carnival begin"


Permitam-me que solte isto logo de início: "Carnival Begin" é um dos temas do ano. É lindo, lindo, lindo. Eu sei, certamente não o vão encontrar nas listas dos melhores do ano das publicações mais trendy, mas fuck that, não deixem que isso afecte o vosso sentido de melodia. Só precisei de o ouvir uma vez para ficar agarrado. Amor à primeira audição, podem chamar-lhe. Acontece. E nem de propósito, porque é mesmo de amor que fala o tema; mais especificamente um novo amor, um novo carrossel, um novo carnaval que começa ("I want it all / All the colours and swings / A new merry-go-round / Carnival begin").

Começar de novo. É sempre uma merda. É preciso estômago, depois dos enjoos sofridos na última viagem. Mais que isso, é preciso coragem para vencer o medo de um carrossel desconhecido, sentar no pónei e ter a esperança pueril que desta vez vai correr tudo bem. Mas antes que isto se pareça com um livro do Pedro Chagas Freitas, vou fazer uma ligação ao mundo real e citar o meu filósofo de eleição ainda vivo: "Why the fuck would anything nice ever happen?!".



Ou então sou que tenho ouvido demasiadas vezes o novo álbum do Roger Waters. Também pode ser isso.

Alheios à erma realidade, Lindsey Buckingham e Christine McVie navegam ingenuamente pelas águas do sonho em "Carnival Begin" e isso reconforta-me; nem que seja para também eu me alhear da realidade. O ambiente acolhedor bluesista senta-me imediatamente na velha poltrona do meu Pai na sala da minha casa antiga, à meia luz das persianas quase-fechadas, deixando apenas os orifícios para passar a luz e o barulho da linha de comboio. Desenganem-se se pensam que vos falo de nostalgia. Não. Isto não é saudade da infância e muito menos da casa à beira da linha de comboio (belas madrugadas eram essas). É sim uma ânsia de um sentimento familiar. Saudades de um futuro desejado, talvez. Mas avancemos que isto agora é que se está a tornar num livro do Pedro Chagas Freitas.

"Carnival Begin" só peca por terminar demasiado cedo, interrompendo o coito de um solo de guitarra tão belo e tão raro nestes tempos em que toda a gente se pela de medo por arriscar um solo num disco. Louvo-te a coragem, Lindsey. O solo de guitarra em fade out fecha "Lindsey Buckingham Christine McVie" — um álbum que tem tanto de elusivo, que eu me pergunto se os seus criadores querem mesmo que tenha sucesso.


"Lindsey Buckingham Christine McVie" é, na prática, o novo álbum dos Fleetwood Mac em tudo menos no nome. Senão vejamos: todos os temas são escritos por Lindsey Buckingham e Christine McVie, dois terços do núcleo de compositores da formação clássica dos Fleetwood Mac; a secção rítmica que toca no álbum é composta por Mick Fleetwood na bateria e John McVie no baixo, nomes que acho que são auto-elucidativos; e last, but defintely not least, o álbum soa brutalmente a Fleewood Mac. E como não? Afinal de contas, a equipa é a mesma. Só falta mesmo a Stevie Nicks. Mas quem precisa da Stevie Nicks, anyway? Nada contra a senhora, seria aqui muito bem-vinda com dois ou três temas e uns "Aaaahs" e uns "Oooohs" nas backing vocals, mas será que ela é mesmo precisa? Só se for mesmo para dar direito a usar o nome. Mas se ela não queria ter trabalho, podia ter aparecido para tocar umas maracas num dos temas e resolvia-se a questão.

Não houve Stevie Nicks, não pôde haver Fleetwood Mac e foi aqui que começou um rol de equívocos. Começando logo pelo nome do álbum. Quem conhece as bases da história dos Fleetwood Mac, mais especificamente da sua formação clássica, saberá que Lindsey Buckingham e Stevie Nicks foram recrutados anos depois do vazio deixado pela saída do icónico compositor e guitarrista Peter Green (por este ter, digamos, "fritado" com as drogas) e que o que lhes valeu a entrada na banda foi um álbum que gravaram em 1973, nos tempos em que eram um casal — "Buckingham Nicks", chamava-se o LP. Faria todo o sentido que este álbum, sendo uma colaboração entre Buckingham e McVie se chamasse... "Buckingham McVie". Foi esse o working title do álbum até à última hora e eu adorava que me explicassem a decisão de mudar.

Agora atentem na capa em cima. Será que era possível o Lindsey e a Christine estarem mais separados na foto da capa?! É que eu acho que nem as sombras se tocam. Para um álbum onde o afecto e a intimidade são temáticas recorrentes, não poderia haver capa mais fria. E tantas imagens melhores havia. Como esta foto de promoção, por exemplo:


Ou esta, com ambos sentados no sofá e Lindsey a mostrar todo o seu desconforto por estar ali. Ok, esta talvez não.


E por que não a recuperação de uma imagem clássica, dos velhos tempos dos Fleetwood Mac?


A capa do álbum é uma aberração entre o esquisito e o inexplicável. Não acredito que ninguém fosse capaz de avisar o Lindsey e a Christine que aquilo na melhor das hipóteses era medíocre e na pior passava a mensagem errada ao público (de afastamento). E se eu não conhecesse as capas obscenamente más dos álbuns a solo do Lindsey, ainda era capaz de suspeitar que era auto-sabotagem.

Ainda me resta mais uma queixa relativamente a "Buckingham McVie" (deixem-me ficar com o título antigo): o som. Mas que raio de assassinato sonoro vem a ser este? Para quê tanta compressão? Para quê o volume tão alto? Os álbuns dos Fleetwood Mac soam maravilhosamente bem, por isso sei que o Lindsey e a Christine sabem melhor que isto. Qual é a ideia? Apelar à geração Spotify? Malta, ninguém vai ouvir o vosso álbum porque o apanharam na barra de sugestões do Drake ou da Ariana Grande. Vão ouvir porque conhecem os Fleetwood Mac e estão habituados a essa bitola.

Agora que já ventilei as minhas reclamações, eis o meu veredicto. Nestes dias do Indie Rock perdido, bipolar e esquizofrénico, é sempre bom ouvir um álbum firmemente ancorado na melodia. E na positividade também. Para variar.
Se são fãs da era clássica dos Fleetwood Mac (entre o álbum homónimo "Fleetwood Mac" de 1975 e "Tango In The Night" de 1987), vão adorar "Buckingham McVie"; é um return to form da dupla mais improvável dos Fleetwood Mac e o melhor trabalho desde o longínquo (e a todos os títulos maravilhoso) "Tango In The Night". Se são fãs da era de Peter Green, talvez isto não seja para vocês. Se só conhecem alguns temas avulsos dos Fleetwood Mac (provavelmente "Little Lies", "Go Your Own Way" e "Gypsy"), devem dar uma chance a "Buckingham McVie", mas mais importante que isso, do que é que estão à espera para ouvir esfomeadamente o "Rumours" e o "Tango In The Night"? Ou esta playlist espectacular? Ainda aqui estão? Tudo para o Spotify! O "Buckingham McVie" pode esperar.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Bruce Springsteen - "For You" (Live at Hammersmith Odeon '75)

"I came for you, but you did not need my urgency"


Tenho uma teoria: acho que a minha vida pode ser contada através dos álbuns do Bruce Springsteen. Eliminando algumas incongruências e introduzindo algumas analepses e outras tantas prolepses, posso contar a minha história a partir do "Born To Run", quase cronologicamente. O mais engraçado é que os álbuns são biográficos, sim, mas naturalmente do próprio Bruce. Eles reflectem o seu estado de espírito na altura em que foram gravados e cada um desses álbuns entrou na minha vida em ordem cronológica no respectivo tempo em que eu passei esse mesmo estado de espírito ou condição de vida. Perdoem-me se tiverem que ler esta frase mais uma vez, mas é isto mesmo.

Várias vezes senti que o Bruce estava "ali" a tomar notas sobre a minha vida e a escrever sobre isso, em canções com 30 e 40 anos. Mesmo admitindo algum (ou muito!) pretensiosismo associado a esta teoria, às vezes eu próprio fico pasmado com a capacidade que Bruce tem em descrever minuciosamente os eventos da minha vida e pôr em palavras o meu estado de alma.

É enquadrado nessa teoria que hoje me lembrei de "For You", tema que faz parte do primeiro álbum de Bruce Springsteen (teria que ser introduzido na minha história como uma analepse na sua discografia, portanto), mas que só levantou voo quando Bruce se sentou ao piano e deu asas ao que lhe ia na alma. A versão que resultou do concerto no Hammersmith Odeon em Londres, 1975 — o primeiro concerto da E Street Band na Europa — é das materializações mais bonitas de um sentimento em música. Como só Bruce Springsteen sabe fazer.
Princess cards she sends me, with her regards
Her bar room eyes shine vacancy, to see her you have to look hard
I was wounded deep in battle, but I stood stuffed like a soldier undaunted
To her Cheshire smile I'd stand on file, she was all I ever wanted
But you let your blue walls get in the way of these facts
And honey, get your carpetbaggers off my back
You wouldn't even give me time to cover my tracks
You said, "Here boy, here's your mirror, your ball and your jacks"
But they ain't what I came for, and I'm sure you know that's true

Baby, I came for you, for you, I came for you; but you did not need my urgency
For you, for you, I came for you, but your life was one long emergency
And the cloud line urges me, and my electric surges free

Oh, crawl into my ambulance, your pulse is getting weak
Reveal yourself just once for me baby, while you've got the strength to speak
'Cause they're waiting for you at Bellevue with their oxygen masks
But I could give it all to you here, if only you would ask...
And don't call for your surgeon, even he says it's too late
It ain't your lungs this time, baby, it's your heart that holds your fate
Don't give me my money, honey, I don't want it back
You and your pony face and your union jack
You can take that local joker and teach him how to act
You know I was never that way even, even when I really cracked
And didn't you think I knew that you were born with the power of a locomotive
You could leap tall buildings in a single bound
And your Chelsea suicide with no apparent motive
You could laugh and could cry in a single sound

Your strength is devastating in the face of all these odds
Remember how I kept you waiting when it was finally my turn to play the god?
And you were not quite half so proud when I found you broken on the beach
Remember how I poured salt on your tongue and hung just out of reach
And the band they played the homecoming theme as I caressed your cheek
And that ragged, ragged jagged melody, still clings to me like a leech
And you know that medal you wore on your chest, and how it always got in the way
You were like a little girl with a trophy, so soft to buy her way
We were both hitchhiking, but you had your ears tuned to the roar
Of some metal-tempered engine on an alien, distant shore
So you left to find a better reason than the one we were living for
And it ain't that nursery mouth that I came back for
And it ain't the way that you're stretched out on the floor
'Cause I've broken all your windows and rammed through all your doors
And who am I to ask you to lick my sores? 
You should know that's true

Baby, I came for you! But you did not need it...
For you, baby, I came for you, but your life was one long, long emergency
And your cloud line urges me, and my electric surges free

domingo, 18 de junho de 2017

Roger Waters - "Picture That"

"Picture a leader with no fucking brains"


Faz-me muita confusão ler as opiniões quase unanimemente complacentes e moderadas relativamente ao novo álbum de Roger Waters. Condescendentes, diria até. Parece que ouviram uma vez — se ouviram uma vez sequer — escreveram meia dúzia de banalidades e siga para bingo. Mas que caralho, pá. Aceito todas as reacções, mas se há uma coisa que Roger Waters não provoca é indiferença. Preservem a dignidade do homem, por favor. Na minha óptica, esta condescendência constitui maior ofensa ao Roger do que de lhe dissessem na cara que o álbum é uma valente merda. Mas que nova moda é esta de não ter opinião para não magoar ninguém? Pela minha parte, até posso nem dar a minha opinião, mas se me perguntam, eu digo. Costumo ter opiniões. Vamos agora todos pintar as nossas palavras de cinzento porquê? Para agradar aos outros? Citando o Roger, fuck them.

"Is This The Life We Really Want?" é um álbum difícil. Podemos começar por aí. É uma audição extenuante, tal o negativismo que assola a música do princípio ao fim. "I'm still ugly, you're still fat", começa Roger por dizer logo no primeiro tema. "Our parents made us what we are. Or was it God? Who gives a fuck? It's never really over."
Também é um álbum fatalmente político, não há volta a dar. Eu costumo ser apologista que os meus artistas se mantenham longe da política, mas a verdade é que "Animals" era político ("The Final Cut" idem) e não deixa de ser uma obra-prima por isso. Roger tem opiniões fortes e quer expressá-las; e ainda bem. Se ao menos o fizesse mais vezes. Foi preciso ir o Trump para a Casa Branca para o fazer sair da toca.


O tom é agressivíssimo, mesmo para a bitola de Roger. Para terem uma ideia da violência das palavras, vou citá-lo no niilista "Picture That": "Picture a courthouse with no fucking laws / Picture a cathouse with no fucking whores / Picture a shithouse with no fucking drains / Picture a leader with no fucking brains". Bem, por onde começar? Comecemos pelo fim: Trump, obviamente. Ele aparece várias vezes ao longo do álbum, quer neste tipo de referências, quer em discurso directo ("This is a fine tuned machi.."). É ele o alvo principal de todo o fel que Roger despeja ao longo destes 54 minutos. Depois, "Picture a cathouse with no fucking whores"?! Uma tradução possível disto será "imaginem uma casa de putas sem as putas das putas".

Mark Twain disse um dia que em determinadas circunstâncias de urgência e desespero, um palavrão é capaz de proporcionar um alívio negado até pela oração. Roger faz uso deste alívio profusamente ao longo do álbum, como um velhote a gritar obscenidades à televisão. À custa disto, Roger foi avisado pela editora que se não fizesse uma versão limpa, o seu álbum não iria ser vendido no Walmart e noutras cadeias mais "sanitizadas" nos Estados Unidos. Em resposta, Roger gritou sem pensar duas vezes: "FUCK WALMART! Se não quiserem vender o meu álbum, não vendem! FUCK THEM!". Grande Roger. É por estas coisas que te amo.

Mas calma, que isto ainda fica pior. Voltemos a "Picture That" e atentemos na estrofe seguinte: "Follow me filming myself at the show / On a phone from a seat in the very front row / Follow Miss Universe catching some rays / Wish You Were Here in Guantanamo Bay" — mais um punhado de estalos à nossa realidade. Roger começa por apontar aos próprios fãs e à porra dos telemóveis hasteados nos concertos; não há paciência, de facto. Depois àquela nossa mania de seguir a Miss Universo, a Miss Portugal e a Miss Israel no Instagram. Para quê, ao certo? Não sei, mas todos o fazemos e não há inocentes. Mas o pior vem a seguir: "Wish you were here in Guantanamo Bay"?! A referência ao álbum dos Pink Floyd é óbvia e representa uma desconstrução de tudo de bom que Roger já teve. É que "Wish You Were Here" é tão somente o álbum mais pacífico da História dos Floyd e aquele normalmente apontado por toda a banda como o melhor esforço colaborativo de todos. Um produto de amizade, portanto. Mas aqui parece que toda a luz em Roger foi ensombrada pela escuridão e tudo de bom que passou cheira a podre.

"Is This The Life We Really Want?" é pesadíssimo. O desconforto é uma sensação provocada deliberadamente no ouvinte e por diversas vezes no limite do suportável ao longo do álbum, como na secção média de "Bird On A Gale". Roger está tão fodido aqui como estava em "Animals", com a diferença fundamental que agora já não tem o David nem o Rick para complementar a sua raiva com música. Tem o Nigel Godrich (produtor dos Radiohead) para tentar emular isso, mas nem sempre chega.

Goste-se ou não, Nigel Godrich teve um papel importantíssimo na criação deste álbum e arrisco dizer que se não fosse ele, "Is This The Life We Really Want?" não teria sido possível. Pelo menos não assim. O objectivo de Nigel parece ter sido tripartido: focar Roger nas suas canções e obrigá-lo a abandonar (na medida do possível) as suas megalomanias; destacar ao máximo as valências de Roger (nomeadamente a mensagem); e fazer soar o álbum "à Pink Floyd" (os callbacks à música dos Pink Floyd são intermináveis). Nigel assumiu responsabilidades e correu riscos. E meteu a cabeça no cepo quando avisou os fãs que não havia solos de guitarra em "Is This The Life We Really Want?". Passado o choque inicial, hoje creio que esta medida veio em tudo beneficiar Roger. Senão vejamos: nos três primeiros álbuns a solo, Roger convidou Eric Clapton, Andy Fairweather Low e Jeff Beck para tentar compensar a falta de David Gilmour. Nenhum deles conseguiu. Melhor assim então.

É um exercício interessante comparar "Is This The Life We Really Want?" a "Rattle That Lock", álbum de David Gilmour de 2015. O álbum de David é leve e despreocupado, o reflexo de alguém que está bem com a vida. Por outro lado é também um álbum demasiado relaxado, que não levanta muita poeira e não corre riscos (e quando corre é mal sucedido e sim, estou a falar do terrível "The Girl In The Yellow Dress"). O álbum de Roger mostra exactamente o oposto: um homem amargurado e revoltado, oblívio a tudo de bom que já lhe aconteceu (e foi muito) e a todo o mundo que o ama.

Gostava um dia de dizer ao Roger que it's all right. Que ele não precisa de carregar todo o peso do mundo em cima dos ombros e que não será ele, sozinho, a resolver os males da humanidade. Mas não posso. E mesmo que lhe dissesse tudo o que quero, sei que ele não me iria ouvir. E talvez ainda bem, porque é assim que eu gosto do meu Roger. Fodido.

Tenho a perfeita noção que pintei um cenário tão negro que, se chegaram até aqui, já não sabem se devem ou não ouvir o novo álbum do Roger. Devem, pois claro que devem. "Is This The Life We Really Want?" é o álbum mais niilista da carreira de Roger Waters e se isso não chega para atrair a vossa atenção, não sei o que fará. Ouçam, mas tenham um copo de vinho à mão, de preferência. Sempre é uma anestesia para o vazio que vão sentir.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Roger Waters - "Smell The Roses"

Roger Waters está de volta. Regozijemos.

Abram as garrafas de champanhe. Vinte e cinco anos depois do último álbum, Roger Waters está de volta com música nova, este furioso "Smell The Roses". O veredicto? É do caralho.



Eu disse música nova? Mais ou menos. O tema é basicamente um rip-off directo de "Have A Cigar", com algumas texturas de "Dogs" e de "Pigs (Three Different Ones)" lá pelo meio. É uma reciclagem do seu próprio material antigo com nova roupagem, mas e depois? É o Roger. Ele está fodido com o mundo e como sempre que isso acontece, tem coisas para dizer. Muitas coisas. Como não lhe dão a devida atenção nas entrevistas, resolveu então dizer tudo da melhor forma que sabe: com música. Para isso, foi buscar Nigel Godrich - produtor dos Radiohead -, que o manteve focado a produzir um álbum que tivesse uma estrutura e sonoridade "à Waters" e que o fizesse abandonar a ideia da radio-novela sobre um avô e a sua neta, que investigavam por que tantas crianças morrem no médio-oriente. Louvado seja Nigel. Até ver, acertou em cheio.


O novo álbum chama-se "Is This The Life We Really Want?" e foi gravado ao longo dos últimos 7 anos. O disco será editado dia 2 de junho e terá o seguinte alinhamento:

1. "When We Were Young" (1:38)
2. "Déjà Vu" (4:27)
3. "The Last Refugee" (4:12)
4. "Picture That" (6:47)
5. "Broken Bones" (4:57)
6. "Is This The Life We Really Want?" (5:55)
7. "Bird In A Gale" (5:31)
8. "The Most Beautiful Girl" (6:09)
9. "Smell The Roses" (5:15)
10. "Wait For Her" (4:56)
11. "Oceans Apart" (1:07)
12. "Part Of Me Died" (3:12)

Algumas das faixas que já tinham sido confirmadas por Roger - "Crystal Clear Brooks", "Safe and Sound" e "Lay Down Jerusalem (If I Had Been God)" -, afinal não aparecem no álbum. Obra de Nigel, aposto. Esperemos que o novo álbum esteja (pelo menos) à altura deste furioso "Smell The Roses". E não, não me importo com reciclagens.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Pink Floyd - "Pigs (Three Different Ones)" (Live)

Pink Floyd: 40 anos depois de "Animals", os porcos triunfaram mesmo

O mais irado e niilista de todos os álbuns foi lançado há 40 anos. 



"Animals" foi a adaptação à música da visão distópica de George Orwell em "Animal Farm" ("O Triunfo dos Porcos", na sua spoiler tradução portuguesa). Foi também o álbum que fez implodir os Pink Floyd (como não?), mas não é disso que vos falo hoje, até porque esse assunto já está bem escapelizado aqui e aqui. Hoje falo-vos da carga política do álbum mais irado e niilista dos Pink Floyd.

Como todas as grandes obras de arte, "Animals" é tão relevante hoje como no dia em que foi desvendada. No caso em concreto, podemos até dizer que é mais relevante hoje do que há 40 anos.
Se é verdade que a profecia de Orwell estava lá desde 1945, ela parecia exageradamente dantesca para que alguém acreditasse que poderia ter fundamento para além da revolução pós-czar soviética. Ouvíamos "Animals" com a mesma candura que visionamos entre pipocas qualquer filme do "Matrix", demasiado longínquo e fantasioso para nos preocupar para além das duas horas em frente ao ecrã.

Ninguém diria que chegaríamos aqui. Neste reality show 24/7 que mais se assemelha a um episódio de Black Mirror, os factos passaram a ser debatíveis (veja-se a secretária de imprensa de Trump a falar em "factos alternativos"), a ciência misturou-se com a opinião (Trump já expurgou todas as menções do aquecimento global do site da presidência) e a fronteira entre a realidade e a fantasia tornou-se difusa.



Todos somos culpados. Amolecidos por esta overdose tecnológica, demos as nossas regalias como garantidas, desprezámos a História e esquecemo-nos que as acções têm consequências. Começámos por tomar Trump como uma anedota; depois achámos que ele iria moderar o seu discurso no fim das primárias; depois durante a campanha; depois chegado à Casa Branca. Nunca o fez. Ignorámos o perigo que batia à porta e sem que nos déssemos conta, ele está aí. 40 anos depois de "Animals", 72 após "Animal Farm", os porcos triunfaram mesmo.

O que é que isto nos interessa? Deste lado do Atlântico, a cinco mil quilómetros e um oceano de distância, podemos olhar para tudo isto como um grande reality-show que acompanhamos todos os dias ao jantar; podemos fazer como os americanos e ignorar o perigo que representa uma criança de 5 anos num corpo de adulto chegar à presidência da maior potência económica mundial, ao dispor do maior arsenal bélico do planeta. Isso, ou então perceber que quando a América espirra, a Europa constipa-se e que tudo leva a crer que o futuro próximo é imprevisível.

O que fazer? Em primeiro lugar, evitar que o efeito dominó comece a fazer efeito e proteger as democracias europeias do populismo que levou os EUA a este ponto. O mundo mudou muito e muito rapidamente e é hoje um lugar diferente daquele que conhecemos há 10 ou 20 anos, quando quer que nos deixámos dormir e não percebemos que a precariedade do trabalho e da educação poderia levar o povo a tomar decisões inenarráveis, como eleger um pateta para seu líder. É preciso fazer uma purga na classe política e injectá-la com mais gente qualificada e menos demagogos jotinhas que só lá estão porque não tiveram capacidade de ganhar a vida em mais lado nenhum.
Já não basta andarmos com activismos de Facebook para depois ir para a praia em dias de eleições. Aliás, se há uma lição que se pode tirar destas eleições americanas é que o voto conta e que é fundamental votar. Só assim se protege a democracia. É capaz de ser hora de acordar.

...ou, como diz o Roger, a resistência começa hoje:




P.S.: O blog já leva 7 anos e este é o primeiro post sobre política. É revelador dos tempos em que vivemos.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

George Michael - "You Have Been Loved"



Adeus, George — You have been loved
Tudo o que eu queria ter dito ao George Michael
George, o que foste fazer? A minha namorada ligou-me há uma hora com a notícia que te tinhas ido embora e desde então que me tranquei no quarto e não consigo parar de chorar. Só penso em tudo o que te queria ter dito mas nunca tive a oportunidade. Escrevo-te aqui para me despedir de ti e te contar tudo o que não pude; para falar na tua importância, em como tu eras amado e em como te preocupavas demasiado. Esta é a carta do que nunca te disse.

Estou devastado, em choque no meu velho quarto da casa dos meus pais, a tentar processar que já cá não estás. Calhou receber a notícia aqui porque te foste embora no Natal, logo no Natal, época em que todo o mundo ouve a tua música. Aqui, neste quarto, a tua música sempre se ouviu todo o ano.
Foi dentro destas paredes que eu cresci ao som dos teus álbuns: foi aqui que dancei despreocupadamente com os Wham!, foi aqui que me revi nas tuas inseguranças — essas malditas inseguranças que te perseguiram e te levaram — e foi aqui que me senti protegido pela tua voz. Por me teres ajudado quando precisei, sempre te defendi acerrimamente. Fi-lo na escola, quando não havia nada mais uncool do que gostar de ti e fi-lo todos os dias até hoje, que ainda subsiste esse estigma idiota. Acredita, sempre fiz tudo o que pude para te defender.

Ainda assim, não consigo deixar de pensar que podia ter feito mais. Queria ter tido a chance de te dizer que te amava, que meio mundo te amava e que todos te amávamos incondicionalmente porque eras o George Michael. Não era preciso preocupares-te em ser outra coisa qualquer, estava tudo bem em seres "apenas" o George Michael. Tinhas ganho esse direito. Eras teimoso, mas talvez as coisas pudessem ter sido diferentes se me ouvisses.

Conhecia-te bem.  Sabia toda a tua música de cor, mas também sabia dos teus traumas, dos teus fantasmas e dos teus vícios. Sabia que eras um homem complexo, cheio de vícios adultos, mas no fundo só um menino perdido e frágil. Sabia do teu medo de envelhecer. Quando me mandei para Madrid sozinho para te ver e tu sacaste um tema obscuro do teu amigo Elton — "Idol", uma das minhas canções preferidas de sempre —, eu percebi que estavas a cantar sobre ti e as tuas inseguranças. E pensei que aquilo podia ser sobre mim também. E desatei ali a chorar compulsivamente.

A minha vida foi cheia de ti. A primeira grande viagem que fiz foi quando peguei corajosamente no carro e fui de Lisboa a Coimbra para te ver. A primeira vez que viajei para fora do país sozinho foi quando apanhei um avião para Madrid para te ver. A minha namorada, só o é, por causa de ti; porque na noite em que nos conhecemos lhe disse que gostava de Wham! e ela me desafiou a nomear o meu tema preferido da banda. Quando lhe cantei o refrão do "The Edge Of Heaven", ganhei a miúda. Era esta a importância que tinhas na vida das pessoas. 

Agora que já cá não estás e que o mundo chora o teu desaparecimento, estou convicto que já estamos preparados para reconhecer o génio que foste e enfim apreciar a tua obra conforme tu nos aconselhaste: "ouvir sem preconceitos". O teu legado será imortal. No que depender de mim, sê-lo-á de certeza absoluta. Vou falar de ti a todos os que se cruzarem comigo e celebrar a tua música até ao fim dos meus dias. É o mínimo que posso fazer para devolver o tanto que tu me deste.

You have been loved, George. And forever you will be. The world is going to be a shittier, shittier place without you.

George Michael - "Wating (Reprise)"

"All those insecurities that have held me down for so long, I can't say I've found a cure for these, but at least I know them, so they're not so strong.
You look for your dreams in heaven, but what the hell are you supposed to do when they come true?"

George, o que foste fazer? A minha namorada ligou-me há uma hora com a notícia que te tinhas ido embora e desde então que me tranquei no quarto e não consigo parar de chorar. Só penso em tudo o que te queria ter dito mas nunca tive a oportunidade. Escrevo-te aqui para te contar tudo o que não pude; para falar na tua importância, em como eras amado e em como te preocupavas demasiado. Esta é a carta do que nunca te disse.

Estou em choque, devastado, no meu velho quarto da casa dos meus pais, a tentar processar que já cá não estás. Calhou receber a notícia aqui porque te foste embora no Natal, logo no Natal, época em que todo o mundo ouve a tua música. Aqui, neste quarto, a tua música sempre se ouviu todo o ano.
Foi dentro destas paredes que eu cresci ao som dos teus álbuns: foi aqui que dancei despreocupadamente com os Wham!, foi aqui que me revi nas tuas inseguranças — essas malditas inseguranças que te perseguiram e te levaram — e foi aqui que me senti protegido pela tua voz. Por me teres ajudado quando precisei, sempre te defendi acerrimamente. Fi-lo na escola, quando não havia nada mais uncool do que gostar de ti e fi-lo até agora, que ainda subsiste esse estigma idiota. Acredita, sempre fiz tudo o que pude para te defender.

Ainda assim, não consigo deixar de pensar que podia ter feito mais. Queria ter tido a chance de te dizer que te amava, que meio mundo te amava e que todos te amávamos incondicionalmente porque eras o George Michael. Não era preciso preocupares-te em ser outra coisa qualquer, estava tudo bem em seres "apenas" o George Michael. Tinhas ganho esse direito. Eras teimoso, mas talvez as coisas pudessem ter sido diferentes se me ouvisses.

Conhecia-te bem.  Sabia dos teus traumas, dos teus fantasmas e dos teus vícios. Sabia que eras um homem complexo, cheio de vícios adultos, mas no fundo só um menino perdido e frágil. Sabia do teu medo de envelhecer. Quando me mandei para Madrid sozinho só para te ver e tu sacaste de um tema obscuro do teu amigo Elton — "Idol", um dos meus preferidos dele —, eu percebi que estavas a cantar sobre ti e as tuas inseguranças. E pensei que aquilo podia ser sobre mim também. E desatei ali a chorar compulsivamente.

A minha vida foi cheia de ti. A primeira grande viagem que fiz foi quando peguei corajosamente no carro e fui de Lisboa a Coimbra para te ver. A primeira vez que viajei para fora do país sozinho foi quando apanhei um avião para Madrid para te ver. A minha namorada, só o é, por causa de ti; porque na noite em que nos conhecemos lhe disse que gostava de Wham! e ela me desafiou a nomear o meu tema preferido da banda. Quando lhe cantei o refrão do "The Edge Of Heaven", ganhei a miúda. Era esta a importância que tinhas na vida das pessoas. O teu legado é imortal.

Agora que já cá não estás e que o mundo chora o teu desaparecimento, estou convicto que já estamos preparado para reconhecer o génio que foste e enfim apreciar a tua obra conforme tu nos aconselhaste: "ouvir sem preconceitos". 

Love you, George. The world is going to be a shittier, shittier place without you.

Edit: post original publicado às 4 da manhã, poucas horas depois da morte do George. Revisto em cima.