Estava eu a vasculhar o meu Spotify, quando dou de caras com uma das minhas bandas preferidas, a quem eu tenho feito vista grossa nos últimos tempos — os Crowded House. Outrora os Crowded House serviam para me aquecer o coração, qual cobertor quentinho que se puxa quando acordamos a tremer de frio naquelas noites em que parece que vai estar calor, só que depois não.
Lembrei-me então de uma história cutchi-cutchi de um grande amigo com o hit "Weather With You". Há uns anos, ele tinha uma "love interest" americana de nome Heather; a páginas tantas, a Heather —apaixonada — enviou-lhe por correio uma foto em formato postal dos dois juntos num barco. Romântico? Esperem. Virando o postal, no verso podia ler-se:
"Everywhere you go, always take the Heather with you"
Awwwww.
E eu, que não conhecia, nem nunca cheguei a conhecer a Heather, fiquei fã dela imediatamente.
Nunca fui a Knebworth Park. Com muita pena minha, nunca tive oportunidade de ir ao local sagrado onde os Pink Floyd enterraram o "The Dark Side Of The Moon" em 1975, os Led Zeppelin enterraram os seventies em 1979 e os Queen se enterraram em 1986. Por alguma razão, Knebworth parece estar sempre associado a uma imagem bipolar de apogeu e fecho de ciclo.
Qual acaso profético, foi também o local escolhido pelos Oasis para celebrar o pináculo da Britpop, com um fim-de-semana de concertos esgotados em Agosto de 1996. Sem saberem, os Oasis estavam também a enterrar a Britpop. Mas já lá vamos.
E eis que ontem, num acaso não-sei-se profético, sem que eu soubesse ou esperasse, o Universo me fez cair nas mãos um bilhete para o evento mais importante dos anos 90:
Fuck me, por esta não estava à espera.
Knebworth Park, 11 de Agosto de 1996; Noel Gallagher entra no palco cheio de si, perfeitamente ciente que naquele momento morava no topo do mundo; e grita:
"THIS IS HISTERAY! THIS IS HISTERAY! Right here, right now, THIS IS HISTERAY!"
Ao seu lado, Liam podre de bêbedo, como sempre. Na sua cabeça, ele já morava no topo do mundo desde que cantava para dez bifes saídos das obras nos bares de Manchester "Tonaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa-ite I'm a Rock N' Roll staaaaaaaaaaaar". Knebworth Park era por isso somente o cumprimento do óbvio para Liam. "Hoje embebedo-me aqui, amanha embebedo-me na casa de uns mates", terá pensado, enquanto reclamava que a cerveja não estava suficientemente fresca.
Mas Noel sabia da efeméride que Knebworth encerrava. Depois de ditar que todos os que estavam ali, naquele momento, presenciavam História, Noel dá as boas vindas oficiais com um "Good evening planet Earth"... e arranca para um eufórico "Columbia", do álbum de estreia "Definitely Maybe". Ouçam os gritos de Noel, lá atrás nas backing vocals de "Yeah-yeah-yeah!!! Yeah! Yeah! YEAAAAAH!" e meçam por vocês, de zero a Knebworth, o quanto ele estava a flutuar acima do chão.
11 de Agosto de 1996 foi o clímax da bebedeira da Britpop. O problema é que nessa mesma semana, tinha saltado para o primeiro lugar das tabelas no UK e na Irlanda o tema "Wannabe", de umas tais Spice Girls, uma "banda" desconhecida que, mal sabiam Noel e os seus pares, iria mudar tudo. Depois vieram as Britneys e os Backstreets e nada nunca mais seria o mesmo. No dia da sua maior bebedeira, a Britpop começara o seu rápido declínio.
P.S.: Sim, a foto também mostra o último álbum do Noel autografado pelo próprio. Também me chegou às mãos por acaso. Mas não digam nada ao Noel que, até ver, ainda estamos zangados.
"I dreamt about you last night and fell out of bed twice"
Sonho #2
Estou num hotel. Em Lisboa, acho. O Morrissey vem cá e eu vou vê-lo. Como estou num hotel, talvez já não more em Lisboa, não sei. Estou à porta do quarto, num piso muito alto, num corredor envidraçado com vista panorâmica sobre uma metrópole que não se parece nada com a Lisboa que eu conheço. Mas sinto que é Lisboa. Ela vem aí. Acabámos há já muito tempo, não sei precisar quanto, mas sinto que já se passaram vidas. Morri e renasci várias vezes desde a última vez que a vira. Vejo-a chegar pelo corredor envidraçado, está igual. Ela veste rosa, um sorriso aberto e uma cara de quem esperou uma eternidade por aquele momento.
Num volte-face aparentemente randómico, explode uma gritaria ao fundo do piso. Alguém grita "vem aí o Liam!". Oi? O Liam? O Gallagher? Deve ter vindo ver o Morrissey também. O piso é invadido por uma multidão histérica que rodeia um Gallagher mais baixo que o Liam. É o Noel! Alguém o agarra e PUM, o Noel acerta-lhe com um soco mesmo no centróide do nariz. A multidão dispersa e eu penso "foda-se, será que estou a sonhar?" (estava mesmo), mas vou lá na mesma. Grito "HEY NOEL", ao mesmo tempo que levanto o punho com cara cerrada, a fazer bingo com a fúria que ele vestia debaixo dos Ray-Ban. Noel deixa escapar um sorriso no fundo da boca e acerta-me afirmativamente, punho com punho. Fizemos finalmente as pazes.
Viro-me para trás e ela estava a sorrir. Sabia da importância daquele momento. Demos as mãos, sorrimos um para o outro e fomos ver o Morrissey. Just like in the beginning.
Acordo. São 6 da manhã. É o segundo bloco de duas horas que durmo hoje.
Uma das temáticas que mais gosto de ouvir na música é a comunicação; ou o problema da falta dela. É disso que trata o meu álbum preferido de sempre e é disso que fala este "Signal To Noise", superlativo tema do álbum "Up", o mais recente de Peter Gabriel (ainda o é, apesar de ter sido lançado em 2002).
A comunicação é a base de todo o relacionamento interpessoal e deveria ser uma das aptidões a merecer maior atenção da nossa parte. Mas não é. Ao invés, é uma competência tratada de forma débil, negligente e selectiva. Tiramos MBAs, vamos a cursos de oratória para aprender a falar em público, desenvolvemos todo um leque de capacidades comunicativas de uso profissional e esquecemo-nos da puta da capacidade para comunicar com quem gostamos. Uma coisa tão simples, mas tão difícil.
É mais fácil dizer "vai-te foder", "não vales nada" e "és uma merda", do que "amo-te", "não quero que vás embora", "senti a tua falta" ou "isto sem ti não tem piada nenhuma". Não me refiro a dizê-lo por mensagem, Messenger, Facebook, ou qualquer uma da miríade de redes sociais que catalisam palavras nunca ditas ao vivo. Refiro-me a dizê-lo cara-a-cara, no meio de uma discussão que dura há horas, sem que ninguém se lembre como começou e cujo único propósito é a pífia vitória de "ter razão". Como se isso fosse uma grande merda. Nunca ninguém foi para o Marquês de Pombal por ter ganho uma discussão com a namorada. Não há vencedores num jogo que não acaba com a taça de um beijo.
Ainda pior que a má comunicação, é a falta dela. No jogo do silêncio não há taças, saem todos a perder.
Não há coragem para falar nos problemas. Preferimos viver em paz podre, com sorrisos plásticos, olhares vazios e conversas que ignoram os elefantes que já não deixam ver mais nada na sala. Criou-se a noção que falar nos problemas é criá-los, como se os elefantes fossem embora sem que alguém os acordasse.
É desesperante, o atrito mental na hora de abrir o coração e expressar um sentimento. Mais desesperante ainda, é expressar um sentimento e ver o interlocutor fechar-se em copas, dentro de uma muralha intransponível.
Talvez devido à falta de comunicação, talvez devido à má comunicação com os que o rodeavam, Peter Gabriel fala desta muralha na sua música desde os tempos dos Genesis. O álbum "The Lamb Lies Down On Broadway" não é mais que uma amálgama de metáforas sobre isolamento e alienação de Peter, quando tinha apenas 24 anos. As estalactites e as estalagmites de "In The Cage" enclausuravam Rael (anagrama de Gabriel) nas catacumbas de Manhattan e protegiam-no do mundo mau lá fora, ao pé de pessoas. Ugh, outra pessoas.
Mais tarde, no álbum sem título de 1980 (conhecido por "Melt", devido à sua face que aparece derretida na capa), Peter deu conta da sua dificuldade em lidar com outras pessoas. "Sabes que eu detesto magoar-te, detesto ver a tua dor, mas não sei como parar, não sei como me controlar", dizia em "No Self Control", já com 30 anos e a perfeita noção das suas dificuldades na comunicação com quem ama.
"Man I'm losing sound and sight of all those who can tell me wrong from right When all things beautiful and bright sink in the night"
"Signal To Noise" aparece muito mais tarde, depois dos 50, após inúmeras horas de psicoterapia, presumo eu. Mas não é por isso que Peter Gabriel já resolveu os seus problemas na comunicação. Infelizmente não é a idade, nem o falso sentimento de maturidade adquirido com o passar dos anos, que resolve os problemas de comunicação. É preciso falar sobre isso.
"I know how you feel inside, I've been there before"
Numa altura em que se fala com insistência ensurdecedora (mas ainda sem grande fundamento) do regresso de Slash e Duff aos Guns N' Roses, hoje mostro um exemplo da magia criada quando os microfones se ligavam numa sala com o gangue original.
De certeza que já ouviram "Don't Cry". Estão com certeza familiarizados com a versão que passa nas rádios desde 1991, incluída no primeiro volume do álbum tudo-à-bruta "Use Your Illusion I", devidamente acompanhada por um videoclip épico realizado por Andy Morahan (cujos trabalhos à data incluíam clips de Wham!, Pet Shop Boys e The Human League):
Esta conhecem, certo? Se viveram no planeta Terra nos últimos 25 anos, não há maneira de não reconhecerem isto.
O que talvez não sabem é que "Don't Cry" remonta aos primórdios dos Guns N' Roses, quando Tracii Guns e Rob Gardner ainda faziam parte da banda, antes de serem substituídos por Slash e Steven Adler, respectivamente. Se não vejamos: o primeiro concerto dos Guns conforme nós conhecemos e amamos foi a 6 de Junho de 1985 (ainda nem eu era nascido) no Troubadour, West Hollywood, após apenas um dia de ensaios (!!!) com Slash e Steven. Foi assim:
Flyer do primeiro concerto dos Guns N' Roses com a formação clássica: Axl, Izzy, Duff, Slash, Steven;
Nas fotos ainda estão Tracii Guns e Rob Gardner
Segundo o livro "Reckless Road: Guns N' Roses and the Making of Appetite for Destruction" (e já agora, o setlist.com), os Guns tocaram "Don't Cry" no seu primeiro concerto. Este vídeo afirma ser dessa noite (mas eu não ponho as minhas mãos no fogo por isso):
Já o "Watch You Bleed: The Saga of Guns N' Roses" (só grandes títulos de livros) confirma que "Don't Cry" foi um dos primeiros temas que Axl e Izzy escreveram. O tema era um habitué na setlist durante 1985 e 1986 (aqui em versão acústica em 1985) e no entanto, nós só ouvimos a versão de estúdio 6 anos mais tarde. Mas porquê o hiato?
Simples.
Quando os Guns assinaram finalmente com a Geffen Records em 1986 (o que foi uma decisão arriscadíssima da editora, uma vez que eram conhecidos em Hollywood por serem um camião-cisterna descontrolado numa cidade a arder), "Don't Cry" foi gravado em estúdio para o álbum "Appetite For Destruction". Esta é a versão que podemos ouvir em cima. Mas depois apareceu "Sweet Child O' Mine" e a banda decidiu incluir apenas uma balada no álbum, de forma a representar fidedignamente o estilo de vida vicioso que levavam na época. O resto é História. O camião-cisterna ainda durou uns anos, mas eventualmente explodiu a meio dos anos 90.
A versão original de "Don't Cry", gravada em 1985, foi esquecida na gaveta e apenas recuperada num CD single, rotulada como Demo. Mas é muito mais que isso. É mais e é mais até que aquela versão limpinha e sanitizada que conhecem desde 1991. Hoje recupero-a, suja, crua e dura. Se fecharem os olhos, quase conseguem sentir o cheiro a látex e Jack Daniels.
Cinco anos. Parece impossível, mas o blog faz cinco anos. São cinco anos desde que comecei a escrever sobre música com alguma regularidade. São cinco anos em que tudo mudou, desde a minha vida, à minha escrita. São cinco anos que concorreram com a fase mais louca da minha vida. As histórias são imensas, algumas foram aqui relatadas, outras apenas insinuadas e muitas deliberadamente escondidas, com risco de perder emprego e namorada. Ui, dessas então, perdi inúmeras nestes cinco anos, mais do que um mero blog de fundo de rua na blogosfera poderia comportar. Mas deixemos essas epopeias de lado por hoje. Mais que histórias que não podem ser contadas, este blog foi um receptáculo de sentimentos e de emoções, porque são esses os impulsos neurológicos associados à música - a força motriz do meu blog e da minha vida. Em muitas ocasiões, ao longo destes cinco anos, ambos se confundiram.
São cinco anos a amaldiçoar a escolha do nome do blog. Escolha musical do dia? A sério? Poderia dizer em minha defesa que simplesmente não estava inspirado naquele dia; que mandei ao ar o primeiro nome que me veio à cabeça, como aquele e-mail que criámos quando tínhamos 14 anos e fomos buscar a um título de uma música, anexando a idade ou o ano de nascimento em sufixo. Mas não. Eu pensei mesmo nesta merda. Porque na verdade, o blog não faz cinco anos, mas sim SEIS ANOS. Tchi, que golpe de teatro! Pois é, foi exactamente HOJE, há seis anos que criei o (também genialmente baptizado) Rock na prateleira. O conceito desse blog era ligeiramente diferente do Escolha musical e bem mais ambicioso: desafiei-me a dissecar a fundo a criação, edição e reedições de todos os álbuns que já ouvira, classificando-os no fim. Foi um desafio que a mim próprio me recusei. Demasiado trabalho associado.
O Rock na prateleira ficou na prateleira indefinidamente e durante um ano ruminei conceitos diferentes para um blog. Estávamos em 2010 e começava entretanto o advento do Facebook. Como a maior parte da população ocidental, deixei-me de hipsterices e também eu me alistei na rede social por esta altura. E como seria de esperar, comecei a expressar-me no Facebook através... de música. No meu grupo de amigos do Facebook (que na altura se limitavam mesmo aos amigos / conhecidos com quem me cruzava com frequência na vida real), era eu quem percebia mais do assunto e achava que tinha que partilhar com eles o meu conhecimento. Fazia-o todos os dias e por isso comecei a chamar-lhe Escolha musical do dia. Mas o interesse dentro do grupo era diminuto, pelo que regressei à ideia do blog para tentar encontrar quem me entendesse do lado de fora.
E foi assim que em 2010 refundei o blog, desta feita com o (genial...) nome de Escolha musical do dia. Qual não foi a minha surpresa quando percebi que afinal, do lado de fora da redoma onde vivia, estava uma multidão. Uma multidão de maluquinhos como eu, que amam a música como eu amo e sentem o que eu sinto. E nunca mais me senti sozinho.
A minha dívida para com o blog é enorme, o sentimento de pertença foi só uma das muitas coisas que ele me deu. De cabeça, o Escolha musical do dia deu-me um divã de confissão, deu-me uma coluna numa revista, deu-me amigos para a vida e até me deu uma namorada. Foi das melhores coisas que aconteceu na minha vida. Pena o nome. O nome que o blog devia ter foi mais tarde dado à minha coluna na NiT e depois ao blog onde publico os artigos que lá escrevo - Rapsódia Boémia. Curiosamente, criei o Rapsódia Boémia dias depois de ter fundado o Escolha musical do dia, mas como rapidamente ganhei aqui a notável média de um visitante por dia (que, ou vinham enganados, ou eram a minha mãe), achei que não podia defraudar os leitores e por isso nunca mudei o nome ao tasco. Enfim.
Pensei bastante no tema para acompanhar este post comemorativo. Primeiro considerei "Five Years" do David Bowie, mas esse é um tema que lamenta a tragédia de que a Humanidade só tem mais cinco anos de vida e eu espero que blog viva bem mais que isso. Em oposição a esse conceito, pensei em "Long May You Run" de Neil Young, mas esse é um tema demasiado luminoso para a escuridão que foram os últimos cinco anos. Voltei a Bowie. Se há artista que representa bem o que foram estes 5 anos, esse artista é David Bowie. Pensei então num álbum que assume um significado muito pessoal. Pensei no labirinto emocional de "Low", o álbum que, na sua loucura, na sua intensidade e na sua incongruência, melhor resume os últimos cinco anos. Amo os anos que passaram tanto como amo este álbum. Não os trocava por nada.
Este post vem acompanhado, como não poderia deixar de ser, de uma edição remasterizada do banner do blog. Edit: E não é que Bowie desvendou hoje o seu novo single do álbum "Blackstar" a ser lançado em Janeiro? Coincidências.