sexta-feira, 9 de outubro de 2015

John Lennon - "How?"

"How can I give love when I don't know what it is I'm giving?"


Hoje o John Lennon faria 75 anos. O meu John. Sim, meu. Não que eu tenha especial orgulho nisso, porque toda a vida eu quis ser Paul. Mas não é Paul quem quer, é Paul quem pode. E eu não sou Paul, sou John. Temperamental, apaixonado, obstinado, conduzindo o dia-a-dia com o sangue a ferver nas veias. Não é fácil ser assim, acreditem. E também não deve ser fácil para quem me rodeia. Preferia a constância, o método e a segurança do Paul. Ou pelo menos acho que preferia. Mas talvez assim perdesse a piada.

Vejam aqui quem vocês são. O meu resultado foi (expectavelmente):


Para celebrar o John, deixo-vos "How?", do álbum "Imagine" (1971) -  um dos seus temas mais confessionais. Isto se for possível sequer fazer uma consideração deste tipo, já que todos os temas de John (pelo menos na sua carreira a solo) são confessionais. Os seus álbuns a solo são como que actas de várias sessões de terapia psicanalítica ao longo dos anos. Talvez por isso sejam tão inconsistentes e talvez por isso a sua carreira a solo seja tão ignorada. Ninguém quer olhar para John como ele é, preferimos manter a imagem estereotipada de um puto rebelde, de um excêntrico a lutar pela paz numa cama com uma chinesa, ou de um mártir que caiu aos pés de um louco. Mas John é muitíssimo mais complexo que isso. Ouçam, se conseguirem, a discografia a solo de John (álbuns avant-garde incluídos). É um desafio de mind games.

John está longe de ser perfeito (alguns idiotas formatados da internet descobriram agora isso), mas não é por isso que não o devemos amar por aquilo que ele é. Quem de nós é perfeito, anyway? Que direito temos de julgar quem se deu todo à sua arte e fez tudo o que podia para mudar o mundo que odiava onde vivia?

"How can I have feeling when I don't know if it's a feeling?"

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

David Gilmour - "Coming Back To Life" (live)

"I took a heavenly ride through our silence, I knew the moment had arrived for killing the past and coming back to life"



Rattle That Broken Fout Tour Journal

Tomo IV - Siga para Florença

Toda a vida ouvi maravilhas de Florença. Quando era pequeno, foi para lá o Rui Costa - o meu primeiro ídolo do futebol - e fiquei com o sonho de vestir aquela bela camisola patrocinada pela Nintendo. Não a vesti.
Falaram-me dos jardins (ao crescer em Castelo Branco, ouvia que o Jardim do Paço era uma miniatura dos alegadamente magníficos jardins de Florença). Não fui lá.
Falaram-me das praças, das catedrais, dos museus, das estátuas, da Galleria degli Uffizi, do Batistério de São João, da Ponte Vecchio. Tudo coisas que eu não vi, lugares onde eu não estive.
Falaram-me que ia ser uma viagem mágica, que Florença ia ficar comigo para sempre. Isso, vai. Porque a minha viagem a Florença não teve nada do que me falaram, mas teve mais um concerto de David Gilmour. O terceiro.

Recordo que na noite anterior tinha visto o segundo concerto da digressão, na Arena de gladiadores de Verona. Por isso não houve tempo para tretas de turismo. Na manhã seguinte, foi levantar e apanhar o Frecciarossa em direcção a Florença. Siga para bingo.

Chegado à estação de Santa Maria Novella, sigo directamente para o Ippodromo del Visarno.
Junto ao hipódromo, quase a bater nas seis da tarde, ouço sons de instrumentos vindos do palco. Estão a fazer o soundcheck! Começam com alguns temas do novo álbum. Nesta altura, dois concertos e outros tantos soundchecks depois, os temas já não constituem grande novidade. Até aqui, a setlist dos concertos fora sempre a mesma e não esperava grandes alterações para esta noite. Mas fico por ali. Para quê ver as maravilhas de Florença quando se tem a maior das maravilhas sonoras mesmo ao pé de nós?

Ouve-se um som grave. "É a introdução de "Sorrow"", penso. Confirma-se: David pratica o choro da sua Stratocaster. Ainda não ficou bem no "ponto", mas está quase.
Pausa.
Conversa-se no palco. Volta a ouvir-se o mesmo som grave. toum-toum... tãe-tãe... "Coming Back To Life"!!! Quatro notas chegam para identificar novo elixir da alma retirado de "The Division Bell". É a novidade da noite, espero.

Na foto não dá para ver, mas por trás daquelas árvores vem o som de "Coming Back To Life".

Ao contrário do concerto de Verona, em Florença há lugares marcados, por isso a entrada é feita de forma ordeira e lá dentro, salvo alguns grupos demasiado entusiastas, está um ambiente relativamente pacífico. Pelo menos até eu ter a brilhante ideia de comprar um Tour Program. Vendo o motim à frente da barraca do merchandising, hesito. Mas "estou de canadianas", penso. "O que é que pode correr mal?". Mal sabia eu.
Aproximo-me da multidão junto ao merch e não passa muito tempo até que se dê início ao empurranço... Que poucos minutos depois, dá lugar ao esmagamento. Canadianas? Who cares? Os italianos de certeza que não. Ao meu lado está um senhor com os seus 50 anos, aspecto fino de latifundiário da Toscana, que me põe a mão na cara e me empurra para trás para ganhar posição, num gesto que na grande área daria lugar a penalty. Siga para bingo.

O concerto (o terceiro) foi, musicalmente, o melhor de todos. Depois da insegurança de Pula e da tensão de Verona, em Florença, a banda já estava coordenada e saiu tudo quase ao milímetro. E tivemos, claro, a grande novidade: "Coming Back To Life". Faltou a mística das arenas romanas, a virgindade de Pula e a electricidade de Verona. Lados diferentes das mesmas moedas. Florença foi mais polido, mas também mais previsível.

Fiquem com "High Hopes":

David Gilmour - "High Hopes" live at Ippodromo del Visarno, Firenze

Posted by Nuno Bento on Quarta-feira, 16 de Setembro de 2015


No fim do terceiro concerto em apenas quatro dias, já estava habituado a isto. Tirar-me esse hábito foi como se me privassem da minha heroína (não que eu já tenha passado por essa experiência, ok Mãe? Eu sei que lês isto), mas já não dava mesmo para seguir David para Orange, demasiado fora de mão. A Oberhausen, foi o "Miguel" (esse mesmo) e a Londres, só se fosse doido, tendo em conta os preços dos bilhetes para o Royal Albert Hall. Era preferível ir aos EUA, ao outro lado do Mundo, na légua de 2016 da digressão, do que ir a Londres. Por isso, olhem, vou mesmo (por esta é que não estavas à espera, não é Mãe?).

Em 2016, lá estarei em Los Angeles, no histórico Hollywood Bowl, casa de noites lendárias de Beatles, Elton John e tantos outros, para mais duas doses de David (com possibilidade de uma terceira, no Forum de Inglewood). Siga para bingo.



terça-feira, 6 de outubro de 2015

Paul McCartney & Michael Jackson - "Say Say Say" (2015 Remix)

Dizem que a Segunda-Feira é o pior dia da semana, mas não para mim. Para mim, é a Terça-Feira que devia ser despejada numa sala às escuras com o Pedro Guerra e o Bruno Carvalho. Terça-Feira é o dia em que a ressaca do último fim-de-semana já desvaneceu e ainda estou demasiado longe de Sexta-Feira para pensar em abrir o Jameson. Terça-Feira é o dia em que passo a hora de almoço na aula de francês (desculpa lá, Gorete) - fala-se muito nas vítimas do holocausto, mas só fala nisso quem nunca teve aulas de francês quando devia estar a comer um bom bitoque.
A Terça-Feira é uma merda, ponto.
Serve este raciocínio para inferir que o que a minha Terça-Feira precisava era disto:

"Say, say, say what you want, but don't play games with my affection"

Paul McCartney and Michael Jackson 'Say Say Say [2015 Remix]'

Paul McCartney and Michael Jackson - '#SaySaySay [2015 Remix]'Song taken from 'Pipes of Peace 2015 Remaster' - in stores nowVideo directed by Ryan Heffington#PaulMcCartney #MichaelJackson #PipesOfPeace

Posted by Paul McCartney on Terça-feira, 6 de Outubro de 2015


aqui dissera que no fim da década de 70 e início da década de 80, Michael Jackson e Freddie Mercury eram bons amigos. Mas o verdadeiro mate de Michael nesta altura era mesmo Paul McCartney. Talvez o Cute Beatle se revisse na dureza da fama precoce de Michael e o quisesse ajudar, ajudando-se também a si mesmo, ao navegar na onda da maior superestrela mundial da época.
Paul já tinha sofrido com a Beatlemania e era de facto, a pessoa indicada para aconselhar Michael. E aconselhou-o bem: Paul persuadiu Michael a investir bem o seu dinheiro, aplicando-o em direitos de autor. Michael foi bem mandando e em 1985 investiu muitos milhões em direitos de autor de músicas... dos The Beatles (aproximadamente 47.5 milhões de dólares por 160 a 260 temas, incluindo "Yesterday" e "Let It Be"). E assim a amizade terminou abruptamente.
Paul só recuperaria os direitos das suas próprias canções em 2013, já depois da morte de Michael.

Mas voltemos aos tempos em que Mack and Jack eram best mates.
Uma amizade entre duas estrelas nos anos 80 significava a palavra mágica dueto (onde é que andam os duetos hoje em dia? Eram uma coisa tão boa nos 80s. Mas onde é que andam as estrelas, anyway?). Macca e Michael juntaram-se várias vezes em estúdio entre 1981 e 1982 e dessa colaboração nasceram dois temas: "Say Say Say" (1981) e "The Girl Is Mine" (1982). O primeiro tema a ver a luz do dia até seria o segundo a ser gravado - "The Girl Is Mine" - como o primeiro single do álbum megaseller "Thriller". "Say Say Say" só seria lançado em 1983, como single de avanço do álbum "Pipes Of Peace", de Paul McCartney.


"Pipes Of Peace" foi esta semana lançado em formato de luxo, conjuntamente com "Tug Of War" - o álbum que juntou Paul e Chris Martin (o produtor dos Beatles) novamente. E que grande álbum.
É nessa campanha que agora surge a nova remistura de "Say Say Say", com honras de novo vídeo. E que grande remistura foi feita aqui. O conceito foi simples, mas eficaz: pegaram nas faixas vocais originais de Michael e de Paul e trocaram as linhas que cada um cantava, relativamente à versão original. Podemos assim praticamente afirmar que as versões de 2015 e 1983 são complementares.
Eis o original:



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

New Order - "Tutti Frutti"

"Non è ancora il momento di entrare. Non è ancora il momento di..."


Antes de mais, uma constatação: a capa do novo álbum dos New Order é uma das melhores artworks que vi nos últimos anos. É uma ideia tão simples e tão enigmática. Será que estão lá um M e um C, das iniciais do álbum? Ou estão lá um N e um O, das iniciais da banda? Será que é uma mensagem subliminar que eu não consigo ler? Fuck knows. Passo dezenas de minutos a olhar para aquilo e não faço a mínima ideia do que é. Mas é espectacular. Se consegue pôr a imaginação a trabalhar, não se pode pedir mais.




Para além da capa, o que dizer então deste "Music Complete" - o primeiro álbum dos New Order desde a saída do meu elemento preferido da banda, Peter Hook? Cuidado. Muito cuidado. Ou "foda-se!", também podemos dizer isso. No meu livro, "Music Complete" é somente o melhor álbum dançável desde que o "Invaders Must Die" dos The Prodigy invadiu os meus ouvidos em 2009 e é somente o melhor dos New Order desde 1989, ano de "Technique". Chega para vos chamar a atenção? Boa.

O arranque de "Music Complete" é feito com "Restless", um típico single dos New Order. Bernard Sumner põe-nos logo à partida em casa, confortáveis, quando nos pergunta "how does it feel?". Onde é que já ouvimos isto? Numa segunda-feira azul, talvez? Pois. O tema poderia vir dos anos 80, mas também poderia vir dos 90s, ou dos 00s, de tão New Order que é. Instant classic. É a música mais amigável do álbum e o single óbvio.

As coisas ficam mais interessantes quando passamos para o segundo tema. "Singularity" começa como um tema dos Joy Division, mas por volta da marca dos 50 segundos salta para território dos New Order. Fica marcado o antagonismo entre a música downer dos JD e a música upper dos NO e como elas podem funcionar na mesma personalidade densa que é a banda de Manchester.

Falando em Manchester, é para lá que vamos logo a seguir em "Plastic". Logo no início levamos com Acid House e BUM, estamos na Haçienda. Fookin' Madchester all over again. É possível ter saudades de um tempo que nunca vivi, num lugar onde nunca estive? Não interessa. Que saudades da Haçienda, onde estão agora aqueles apartamentos trendy (mas ofensivos) e um dia foi o sítio mais cool mancuniano. O álbum, esse, continua a ganhar passada. 

Hook já não está lá, mas os hooks não faltam em "Music Complete" (haha, viram o que eu fiz? ya, brutal). A cavalgada do refrão de "Tutti Frutti" (You've got me where it hurts / but I don't really care / cause I know I'm OK / whenever you are there) é mais um clássico Pop. Mas o toque de Midas vem a seguir, quando entra a voz de um narrador de um qualquer filme soft porn italiano de Tinto Brass (julgava que nunca ia mostrar a minha sabedoria nesta matéria), a atirar "TUTTI FRUTTIIIIII". Eishhh... E ainda só vamos no quarto tema.

Depois chega o funk. Porra, que os velhotes de Manchester querem mesmo bater em todas as portas da dança. O riff de piano de "People On The High Line" é das maiores pérolas deste álbum, a lembrar aqueles doces Pop deliciosos dos early 90s, quando George Michael e Madonna davam masterclasses de como fazer um single Pop.

O resto do álbum? Sei lá! Hei-de ouvi-lo brevemente. Para já, estou em audição repetida e obsessiva da primeira metade. As primeiras 5 faixas são do melhor que tenho ouvido no panorama da música dançável. Que maravilha de álbum. Agora que a música de dança está tão em voga e é tão popular (tomando conta até dos festivais, como sabemos), os velhotes voltam a mostrar quem é que sabe disto.

"Music Complete" entronca um árduo desafio para mim. Numa altura em que ainda estou a recuperar de um pé partido e não posso dar azo à grande motivação deste álbum - DANÇAR - como é que eu consigo ouvir isto sem, no mínimo, bater o pé? Não me fazem a vida fácil, estes senhores dos New Order.

Nota: Falta-me fechar a saga do Rattle That Broken Foot Tour, eu sei. Mas tive que fazer um interlúdio para os New Order, não conseguia aguentar mais calado sobre este álbum. Este tema é parcialmente em italiano, por isso estamos enquadrados.

sábado, 26 de setembro de 2015

Papa Francisco - "Wake Up! Go! Go! Forward!"



Depois de David Gilmour​, também o Papa Chico tem um novo álbum na manga para este ano, subindo para dois o número de divindades com novos trabalhos em 2015.

As promotoras portuguesas já estão no terreno para trazer o Papa Chico a Portugal, mas consta que o sumo pontífice já recusou o Sudoeste devido ao cartaz ridículo, vetou o Alive devido à barraca da Control e não quis o Rock In Rio em protesto pela saída da Roberta dos Ídolos.

Nas cogitações estão agora duas datas, uma no Estádio Nacional e outra no Santuário de Fátima. Consta que o Papa Chico vai trazer o espectáculo completo, com ecrãs gigantes, lasers e insufláveis. Espera-se uma setlist com os grandes êxitos, mas o Papa já avisou que não toca o "Comfortably Numb" no encore, a não ser que o David Gilmour e o Roger Waters​ se juntem em palco novamente.

A abrir estará o Bispo de Portalegre, que também traz um novo álbum de covers de Bruce Springsteen​ em Death Metal, contando com faixas como "Jesus Was An Only Son", "Adam Raised A Cain" e "Born In Portalegre".

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

David Gilmour - "Faces Of Stone"



Rattle That Broken Fout Tour Journal

Tomo III - Gilmour e Gladiadores no Arena di Verona

As lutas de gladiadores que animavam o Império Romano tinham quatro desfechos possíveis para os intervenientes: ou ganhavam; ou perdiam e morriam em combate; ou perdiam e o público ordenava-lhes a morte apontando o polegar para baixo; ou perdiam e o público poupava-os por bravura ou misericórdia. De todos os desfechos, o quarto era o mais raro. Ao sentar-me nas bancadas de pedra do Arena di Verona para um espectáculo expectavelmente menos sanguinário, percebi porquê.

O concerto de David Gilmour no Arena di Verona foi uma experiência surreal, para contar aos filhos e netos. Foi um regresso aos tempos de glória do Império, das lutas de gladiadores, quando havia uma contagem de baixas do público no fim do espectáculo. Muito álcool, muita droga à minha volta e nem sequer faltou a cena de porrada para animar. Surreal, mesmo.

Mas comecemos pelo início. Sair de Pula a um Domingo (o concerto fora no Sábado) e chegar a Verona para o segundo concerto não foi fácil. Desde logo porque não havia transportes. Autocarros para o estrangeiro, ao Domingo, nem vê-los. Aviões, só acima dos 1 000€. A alternativa eram os barcos. Mas como estávamos em Setembro — época baixa — só havia um ferry a sair da Croácia para Veneza nesse dia e era em Porec, a quase 100 kms de Pula. Ah e era às 7 da manhã. A minha única hipótese era assim apanhar um autocarro que saía de Pula às 5 da manhã e rezar para que ele não se atrasasse.
Bem dito, bem feito: o autocarro chega a Pula às 5:30 da manhã. meia hora de atraso. Foda-se. Furioso, dirijo-me ao condutor, explicando-lhe que preciso de estar em Porec às 7:00, misturando discurso em inglês com vernáculo em português. Imaginem um "I need to be there at seven, caralho!", à boa tradição benfiquista do Toni no Irão.

Talvez motivado pelo vernáculo que ele não entendia, o condutor arranca numa corrida desenfreada rumo a Porec, tirando vantagem do parco trânsito matutino, mas numa velocidade claramente desaconselhada para a segurança do veículo e dos seus ocupantes. Pouco antes da paragem em Rovinj... PA-PAUM!! ...o autocarro tropeça num buraco que deixa a suspensão num perceptível mau estado. Resultado: paramos em Rovinj, esvazia-se o autocarro e espera-se pelo seguinte. O tempo que o condutor recuperou no caminho, esfuma-se novamente. Mas ele tranquiliza-me que chegaremos a Porec a tempo, mesmo contra as leis da Matemática e do Google Maps, com o ar assustadoramente assertivo de quem relativiza as regras de trânsito. Mas chegamos mesmo: às 6:55, estou a Porec... para descobrir que o ferry vinha uma hora atrasado.

Chegado a Veneza, regresso à Praça de São Marcos para recordar o concerto que me introduziu aos Pink Floyd aos 5 anos. Mas não sem antes virar um pequeno almoço à campeão: uma caneca de litro.



Sigo para Verona. Segundo concerto do David Gilmour e logo num dos recintos que sempre quis visitar: a Arena di Verona, onde os Simple Minds gravaram um vídeo histórico nos late 80s. Depois da Arena de Pula, é mais um concerto num anfiteatro romano.


Fast-forward para o concerto. À chegada à Arena di Verona, não há lugar para me sentar. Ou o tráfico de bilhetes esteve ao rubro, ou os italianos venderam mais um terço da capacidade da Arena, na esperança que "cabe sempre mais um". Ando eu de canadianas, a mancar exageradamente para chamar a pena de algum bom samaritano, mas ninguém se oferece sequer para se desviar um bocadinho (não há cadeiras, o cu ia mesmo na pedra). É cada um por si. Depois lá me consigo sentar numas escadas onde nem sequer posso ver o David, que está tapado pelas colunas. É como os lugares da ACAPO no estádio do Alvalade. Isto está bonito.

  
Penso em protestar, mas como? Não há ninguém indignado com a organização, todos agem como se fosse tudo normal. E protestar com quem? Seguranças? Stewards? Nem vê-los. Se houvesse problemas à séria, isto era um festival de pancadaria à antiga, com corpos a rebolar pelas bancadas de pedra até lá abaixo e cânticos em latim de sacrifícios divinos, como nos bons velhos tempos do Império. Há uma equipa da cruz vermelha, sim. Mas passam o concerto a filmar o palco, sentadinhos em lugares de honra. Maravilha.
O que não falta são tipos a vender cerveja. É vê-los a subir aquelas bancadas de pedra íngremes sem qualquer protecção ou preocupação. Não pode faltar cerveja com fartura, para satisfazer este público dos gladiadores, que bebe como se a bexiga não tivesse limite.
Se nas bancadas há gente a mais, lá à frente não há gente nenhuma. Ou as primeiras filas faltaram ou o David tem medo destes italianos, porque nunca vi um espaço tão grande entre a primeira fila e o palco. 

Neste cenário reminiscente do Século I, penso que só falta mesmo uma boa cena da pancada. E ela aí está! Mesmo na minha fila. O que vale é que a porrada se dá entre um tipo que é um cruzamento entre o Totti e o Michael Scofield e um que parece o Fernando Mendes do Preço Certo em Euros. O Fernando Mendes viu à partida que não tinha grande hipótese, mas ainda assim levou três tabefes de mão fechada, mesmo ao lado da mulher e dos filhos. Não contente, o Totti Scofield ainda lhe arrancou os óculos, atirou-os para o chão e pisou-os repetidamente. Só visto.

Dito isto, por mais incrível que pareça, Verona foi uma experiência interessante. O concerto perdeu obviamente para Pula, mas só porque depois de chegar ao Olimpo, só se pode descer. A performance da banda até foi melhor: David já não borrou a pintura tantas vezes (só o solo de "The Blue" é que foi destruído pela distorção nos agudos) e até tivemos um "Comfortably Numb" para a história. Mas as distracções à minha volta eram tantas, que o espectáculo no palco era apenas um dos factores de interesse.


Mais que interessante, Verona foi uma experiência surreal. A Arena é uma sala de espectáculos lindíssima, um anfiteatro romano clinicamente preservado, que nos leva até aos tempos dos gladiadores. Não há guardas, não há cadeiras, não há protecções, nada. É tudo como dantes. E se mais alguma coisa faltasse, a negligência da organização e do público transporta-nos até à época do Império. É uma viagem no tempo, como se Caligula ainda ditasse leis na Lusitânia.

Se alguém disse que o Rock está morto, tem que vir a Itália. Onde haviam combates de gladiadores, há hoje concertos Rock. A sede de sangue é a mesma.

Próxima paragem: Florença.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

David Gilmour - "In Any Tongue"



Rattle That Broken Fout Tour Journal

Tomo II - Um Fariseu em Pula, três contactos

Conta o Novo Testamento que quando os Fariseus conheceram Jesus, não ficaram muito impressionados. Os Fariseus sabiam de estórias de um Rei cujo reino "não fazia parte deste mundo", um Rei dos Reis, mas quando lhes apareceu, Jesus era "apenas" um homem mal vestido que falava de maneira diferente. "O quê? É isto?! É este gajo? Este gajo está vestido pior que nós!", terão protestado os Fariseus, num qualquer dialecto hebraico.

Quando eu tive o David Gilmour à distância da minha canadiana na Arena de Pula, por três ocasiões diferentes, lembrei-me deste episódio bíblico. Durante toda a minha vida, tive Gilmour como um ser divino, criador de sons que me definiram, autor de obras que engrandeceram a minha existência, um ser perfeito. Mas agora, este ser divino estava ali, tão perto de mim, mais perto do que eu poderia imaginar quando aos 5 anos de idade, o meu Pai me submetia repetidamente ao concerto de Veneza até eu decorar a arquitectura da Praça de São Marcos. Pude-lhe ver as rugas, o medo de ser engolido pela multidão, a insegurança de quem já não tocava ao vivo há 10 anos, a preocupação de quem pelejava para que nada falhasse, o ar frágil de quem borrou a pintura numa série de solos e o alívio de quem chegou ao fim da primeira noite deixando tudo o que podia em palco. Vi tudo como um qualquer Fariseu que teve o acaso de se cruzar com aquele a quem chamavam o Rei dos Reis.

E assim pude ver que David Gilmour é "apenas" um homem vestido com uma t-shirt preta. Um homem com fragilidades, medos e dúvidas. David é, afinal, humano.

Mas vamos ao princípio. Recuemos 24 horas.

Chego a Pula no dia anterior ao concerto e vou directo para a Arena. Estão a montar o palco e pasme-se, as visitas turísticas ainda estão abertas!
Entro.
WOWOWOW!!! O que é isto? Caixas dos Pink Floyd?!


Ando no meio do equipamento do David Gilmour, a maioria ainda remonta aos tempos dos Pink Floyd. Quase todas as caixas têm a inscrição PINK FLOYD WORLD TOUR. Nem acredito que me deixam andar ali.
Depois de uma hora estarrecido em frente ao equipamento com um estranho sentimento de "foda-se, estou mesmo aqui", dou uma volta ao recinto e deparo-me com o camarim de David Gilmour. Amanhã à noite estará ocupado.



Ao fim da tarde, enquanto virava canecas de cerveja croata num bar com vista panorâmica para a Arena (a foto fala por si) e trocava histórias de vidas Floydianas com um fã turco, David aparece para o soundcheck. Sem mais, começa a despejar temas do novo álbum, um depois do outro, seis no total, quatro deles ouço pela primeiríssima vez (só conhecia "Today" e Rattle That Lock"). Incrível, um concerto de borla! Dois destes temas conquistam-me desde logo, com solos directamente saídos do Olimpo (saberia mais tarde que dão pelo nome de "Faces Of Stone" e "In Any Tongue". Ouçam este último no vídeo em cima, é uma bomba.).
Depois vem "Wish You Were Here". Esta todos conhecem, é vê-los de telemóvel em punho, a gravar o momento. Cena normal nos nossos dias. Mas David ainda tem mais uma na manga. Pam... Pam... Pam... Pam... "High Hopes"! A minha reacção neste momento não deveria ser descrita aqui, sob pena de perder a imagem máscula perante as meninas. Mas que se foda. Mal ouvi o sino, desatei a chorar descontroladamente, cara escondida no braço da canadiana. "High Hopes" é a minha música, o meu elixir. Naquele momento, tudo valera a pena. O pé partido, o risco da viagem solitária para a Croácia, o frio que rapei em Zagreb, tudo fora compensado. O sentimento era um misto de deslumbramento e de "o que raio está a acontecer?!".
Para quem não acredita, o próprio David partilhou no Youtube um vídeo do ambiente na esplanada com vista para a Arena.



À saída da Arena, a carrinha que levava David e a sua mulher Polly Samson passa mesmo à minha frente. Primeiro contacto. Estive a uma janela de David! Comigo, carregava um LP do meu álbum preferido ("The Division Bell", para quem não sabe) na esperança que David pudesse parar para assinar. Nos olhos dele, o medo de ser engolido pela multidão. Já visualizava a capa do melhor álbum de todos os tempos assinada, mas havia muita gente. Não é desta.
Ainda assim, levo uma recordação da minha visita à Arena de Pula. É o que dá deixarem os fãs andarem pelo backstage antes dos concertos. Agora quero ver como é que a banda se orienta para fazer chichi durante o solo de 10 minutos do "Comfortably Numb".


Dia de concerto. Porra, já não era sem tempo, a expectativa já estava a dar cabo de mim. Na camarata do hostel, acumulam-se rapazes de todo o mundo, ali de propósito para o concerto: um uruguaio, um argentino, um russo, um espanhol, um inglês e um português. Nações Unidas Floydianas. Com todos abaixo dos 25 anos, sou o mais velho ali. Conto histórias do meu concerto em Paris de 2006, do Roger Waters em Wembley e ganho logo a admiração da plateia. Fossem todas as plateias assim tão fáceis.
À tarde, aproveito para um mergulho no Adriático de canadianas, para espanto dos transeuntes na praia. O mergulho de canadianas até foi fácil, a grande aventura foi chegar ao mar. Falaram-me maravilhas das praias na Croácia, mas esqueceram-se de me avisar que as praias eram de calhaus, óptimas para um pé partido. Adiante.

Hora do concerto. Já conhecendo os cantos à casa, finto a segurança e consigo entrar com uma garrafa de Jameson. Ouvir Pink Floyd sóbrio também é fixe, é verdade, mas para que é que eu haveria de fazer uma coisa dessas?
Vou directo com o meu LP para junto do camarim do David. Poucos minutos depois, aí está ele. David sai do camarim. Segundo contacto.
"DAAAAVID!", grito em súplica. David vira-se e vem na minha direção. Quase a chegar, a um metro apenas, David repara que naqueles parcos segundos se haviam juntado dezenas atrás de mim. David pára. Vira-se. Vai-se embora.
"FODA-SE! Estive tão TÃO perto! FODA-SE!", gritei num português que pareceu aos demais um qualquer dialecto hebraico. Ainda não é desta.

Procuro o meu lugar. Que maravilha: segunda fila, ainda a inspirar o fumo saído do palco. E logo chega David. Com todas as rugas à minha frente, juntando o ar frágil de um homem de 69 anos, com a robustez de quem teve que aturar o Roger Waters durante quase duas décadas. Terceiro contacto.
Porque o som e as imagens são, como sabemos, louder than words, deixo-vos com alguns dos momentos em Pula (desculpem-me, não consegui carregar os vídeos do Facebook aqui. Se me puderem ajudar, agradecia).


"Wish You Were Here"

"Money"

"High Hopes"


Astronomy Domine
Posted by Nuno Bento on Segunda-feira, 14 de Setembro de 2015

"Fat Old Sun"


"Sorrow"

"Run Like Hell"




"Time"

Pula foi especial. Não sabia nada da setlist e tinha feito um aviso de excomunhão a quem ousasse quebrar-me esse segredo. Mesmo assim, a setlist foi mais ou menos aquilo que eu estava à espera. Mas quando David arrancou com o BRRRRRUMMMM de "Sorrow", saltei da cadeira, num grito que deve ter sido audível no outro lado do Adriático (na verdade são dois gritos e são bem audíveis no vídeo em cima). Foi o meu momento da noite.
O concerto não foi perfeito, mas foi memorável. O David fartou-se de meter água, mas foi humano. Pula foi especial porque estive mesmo ali, ao pé de David, vi que ele é "apenas" um homem. E passei a amá-lo ainda mais por isso. Porque David Gilmour não é um homem qualquer, é um homem que cria coisas divinas.

Fui à Croácia e à Itália à caça de momentos. Este foi o primeiro.