segunda-feira, 4 de março de 2013

The Smiths - "Heaven Knows I'm Miserable Now"

"I was happy in the haze of a drunken hour, but heaven knows I'm miserable now"


Ainda os The Smiths e ainda o imbatível legado musical britânico. Hoje para um pequeno paralelismo entre duas bandas britânicas pivotais, nos anos 80 e 90: os The Smiths e os Oasis, respectivamente. E também para um mais que merecido reconhecimento da indústria musical, para com um dos ícones da música do Reino Unido.

A influência dos The Smiths na música britânica é imensa. Todo o Rock alternativo que apareceu a partir de meados dos anos 80 na Grande Ilha tem qualquer coisa de Smiths. Na música e no estilo. Basta olhar para Noel Gallagher, guitarrista dos Oasis - banda britânica "chave" dos anos 90 - para se perceber a analogia.


Desde o penteado até à escolha da guitarra - a Gibson ES-355 - Noel Gallagher fez questão de imitar Johnny Marr, um dos seus heróis:


Noel começou a utilizá-la em 2002, na digressão de promoção ao álbum "Heathen Chemistry" e desde então que se tornou na sua guitarra de eleição.
Já antes disso, Johnny Marr tinha servido como uma espécie de mentor dos Oasis, oferecendo uma Gibson Les Paul Sunburst a Noel, antes da gravação de "Definitely Maybe", bem como estadia livre num dos seus apartamento em Londres. Os tempos eram outros, na altura Noel estava à procura de sucesso e não tinha dinheiro para usufruir de luxos como uma Les Paul. Johnny teve fé em Noel e apostou nele.

O problema é que o mau feitio de Noel foi descarregado na lindíssima Les Paul, quando um fã dos Oasis invadiu o palco em Newcastle, em 1994, e Noel o "aviou" com a guitarra, destruindo-a. Sem a guitarra de Noel, a digressão dos Oasis estava em risco e foi aí que Johnny interveio novamente, oferecendo mais uma Gibson a Noel.


A propósito da sua nomeação, este mês, para o prémio Godlike Genius da revista NME (prémio que, curiosamente, foi entregue a Noel Gallagher no ano passado por... Johnny Marr), Marr pegou na lendária guitarra Gibson ES-355 e contou a história de como ela foi parar originalmente às suas mãos:



No vídeo, Johnny Marr conta a história do dia 2 de Janeiro de 1984 - o dia em que lhe chegou às mãos a icónica Gibson ES-355 e em que escreveu o êxito dos The Smiths "Heaven Knows I'm Miserable Now".
Umas semanas antes, quando os The Smiths iam assinar com a Sire Records, para a distribuição dos seus discos nos EUA, Seymour Stein (presidente da editora) levou a banda a jantar. No meio de uma série de histórias do meio musical, Seymour contou que uma dia tinha comprado uma guitarra a Brian Jones dos Rolling Stones, em Nova Iorque. Johnny viu aí uma oportunidade de lucrar com isso e disse que se o levasse também a Nova Iorque para comprar uma guitarra, como fizera a Brian Jones, que os The Smiths assinavam com a sua editora. Num momento de fraqueza, Seymour concordou e no dia 2 de Janeiro de 1984, Johnny e Seymour foram à Rua 48, em Nova Iorque, para cumprir a promessa. Já cansado de esperar e com medo da hora tardia, mesmo antes do fecho das lojas, Johnny Marr escolheu a icónica guitarra vermelha Gibson ES-355. A mesma guitarra vermelha onde escreveria, nessa mesma noite, no hotel, "Heaven Knows I'm Miserable Now" e "Girl Afraid".

"Heaven Knows I'm Miserable Now" foi lançado em single em Maio de 1984 e atingiu o 10º posto nas tabelas de singles britânicas - a posição mais alta durante o tempo de vida dos The Smiths. O tema seria mais tarde incluído na compilação "Hatful Of Hollow".



No vídeo em cima, Johnny pega na Gibson ES-355 e toca os acordes de "Heaven Knows I'm Miserable Now", tema que já não tocava há 25 anos. Muito tempo passou, mas a música dos The Smiths (principalmente dos primeiros anos) continua fresca, parece nada ter envelhecido.
Enquanto houver um adolescente deprimido, trancado no seu quarto, com necessidade de carpir as suas mágoas, a música dos The Smiths será sempre actual.

sexta-feira, 1 de março de 2013

The Smiths - "Hand In Glove"

"And if the people stare, then the people stare...
Oh I really don't know, I really don't care!"



Há uns anos atrás, tive uma namorada que dizia não compreender a minha atracção "por tudo o que fosse Brit". Confesso que eu também nunca lhe consegui explicar, sabia apenas que ela tinha razão.
De facto, o meu gosto musical tinha sido, ao longo dos anos, adubado por tudo o que fosse oriundo do UK e o resultado foi isto. Basta olharem para a barra lateral do blog para terem uma ideia.

Esta tendência começou cedo, devido à influência do meu Pai. As suas bandas preferidas sempre foram os Queen e os Pink Floyd, curiosamente, ou não, também as minhas bandas preferidas de sempre. Foi (principalmente) a música deles que compôs a banda sonora da minha infância. Tratou-se de uma transmissão por osmose, portanto.

Como se tal não bastasse, na última metade dos anos 90, vivia eu a pivotal entrada na adolescência - fase fundamental na modelação do "gosto musical independente" (chamemos-lhe assim) - fui alimentado por toda a onda Britpop / Britrock, que na época dominava as playlists das rádios. Stereophonics, The Verve, Travis, Pulp, Blur, Oasis, Suede, Radiohead... Devorava praticamente tudo.

Os anos passaram e a tendência manteve-se: a fome pela descoberta de mais e mais música britânica. Desde a fornada psicadélica dos anos 60 (The Beatles, The Rolling Stones, The Who...), passando pelo Heavy-Glam-Prog Rock dos anos 70 (Led Zeppelin, Deep Purple, Genesis, Bowie...), o Post-Punk e o New Wave dos anos 80 (Joy Division/New Order, Simple Minds, Tears For Fears, Pet Shop Boys...) e claro, a Britpop dos anos 90. Com o tempo, bati todos os géneros Pop/Rock da Grande Ilha, de uma ponta à outra.
Enfim, como dizia a minha ex-namorada: "tudo o que fosse Brit".

Viram a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres? Repararam no infindável desfile luxuoso de música britânica que eles tinham para apresentar? Dá para ter uma ideia do que estou a falar.



Mas então porque é que fui buscar aquela história da namorada antiga e da sua dúvida acerca da minha atracção compulsiva pela música britânica? Porque acho que a resposta para essa dúvida reside algures aqui, na música dos The Smiths.

Na altura, ainda não conhecia os The Smiths, estes só chegaram mais tarde (no ano passado para ser mais preciso). Mas estou convencido que se eu lhe desse a conhecer os The Smiths, uma dúzia de temas que fosse, ela, de alguma forma, me perceberia finalmente.
Porquê? Não sei, continuo sem conseguir explicar exactamente esta atracção pela música Brit. Mas estou convicto que a resposta está algures nas melodias saídas da guitarra de Johny Marr, ou nas letras traumatizadas de Morrissey.

______________________________


Tive imensa dificuldade em optar por um tema dos The Smiths para ilustrar este texto. Decidi-me por "Hand In Glove", o primeiro single da carreira dos The Smiths, lançado em Maio de 1983. Foi um dos primeiros temas dos The Smiths que eu conheci e que despertou o meu interesse na banda.




A primeira aparição da versão single de "Hand In Glove" num álbum dos The Smiths foi em "Hatful Of Hollow" (Novembro de 1984), compilação que reuniu temas gravados ao vivo para a BBC (as BBC Sessions) e 3 singles que não apareceram no 1º álbum da banda ("The Smiths"): "Hand In Glove" , "Heaven Knows I'm Miserable Now", e "William, It Was Really Nothing", com os respectivos Lados B "Girl Afraid", "How Soon Is Now?" e "Please, Please, Please Let Me Get What I Want".
"Hand In Glove" fora incluído no álbum "The Smiths", mas numa versão diferente, na minha opinião mais plástica, mais estéril, à imagem do que havia sido feito com "What Difference Does It Make?".



O tema não conseguiu entrar nas tabelas de singles britânicas, mas atingiu o nº 3 na tabela Indie, vendendo consistentemente durante o ano e meio seguinte, época de ascensão da banda. Este sucesso em "banho-maria" valeu aos The Smiths um registo no livro do Guinness em Janeiro de 1984, quando "Hand In Glove", "This Charming Man" e "What Difference Does It Make?" ocuparam os 3 primeiros lugares da tabela Indie britânica.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Queen - "The Show Must Go On"

"Inside my heart is breaking, my make-up may be flaking, but my smile still stays on."


"You probably already know that I am suffering and what my problem is.
But I don't want to talk about it...
I just want to keep making music 'til the day I f***ing die."
Freddie Mercury, revelando aos membros dos Queen que estava infectado com o vírus da SIDA
(reconstituição de Brian May no documentário "Days Of Our Lives")

Freddie sabia que lhe restava pouco tempo. Ainda o álbum "The Miracle" aguardava ordens de lançamento nas lojas e já os Queen estavam de volta aos estúdios para a gravação do álbum seguinte. Estávamos na Primavera de 1989, altura em que se iniciava a gestação de "Innuendo" - o álbum que a banda temia ser o seu último.

Desde as gravações de "The Miracle" que, no restrito círculo da banda, todos já tinham percebido que Freddie estava gravemente doente, mas ninguém sabia ao certo o que se passava. Só Jim Beach - o manager dos Queen - sabia exactamente o que era: Freddie recebera a notícia que estava infectado com o vírus da SIDA na Páscoa de 1987 e sabia que estava com os dias contados.
Note-se que, naquele tempo, o diagnóstico de SIDA era como que de uma sentença de morte se tratasse.

"On and on, does anybody know what we are looking for?"

A partir daí, Freddie Mercury nunca mais parou. Em primeiro lugar, realizou o seu sonho de trabalhar com a sua voz preferida: a cantora lírica catalã Montserrat Caballé. Desse projecto nasceu a fabuloso álbum "Barcelona", cujo tema-título seria utilizado, uns anos mais tarde, como hino dos Jogos Olímpicos de Barcelona.

Depois de "Barcelona", Freddie reuniu os seus fiéis escudeiros para um sprint final. Os últimos anos da sua vida seriam passados entre as camas de sua casa e dos hospitais e os estúdios de gravação, com os Queen.

Entretanto, multiplicavam-se as histórias nos jornais sobre o estado de saúde de Freddie. Os restantes membros dos Queen negavam tudo. "Freddie está bem de saúde e a trabalhar como nunca!", disse uma vez Roger Taylor aos tablóides. Mas só a parte de "trabalhar como nunca" era verdade.

"The sicker Freddie got, the more he seemed to need to record.
It was really a period of fairly intense work."
Roger Taylor - baterista dos Queen


Certo dia, Freddie teve que confessar aos seus colegas de banda que, afinal, as histórias dos tablóides eram verdade. Ele estava realmente doente e já lhe restava pouco tempo. Todo o tempo era precioso e todo o tempo teria que ser investido a fazer música.
Até ao fim.

A notícia da doença de Freddie tinha atingido a esfera dos Queen como uma tempestade feroz, mas o assunto era tabu. A ordem era para ignorar a doença e continuar a fazer música. Quanto muito, canalizar aquele drama para a música.
Os Queen continuaram a negar os rumores e a imprensa não soube de nada até à véspera da morte de Freddie.

Os sumos criativos dos Queen estavam ao rubro. Neste período de intensa criatividade, a partir de uma sequência de acordes de Roger Taylor e John Deacon, da cabeça de Brian May saiu o corpo de "The Show Must Go On" - um tema que descrevia com precisão o estado de alma vigente da banda. Era preciso continuar, custasse o que custasse.

"We spent our days in the studio waiting for Freddie.
Whenever he was feeling better, he would come, throw a couple of vodkas down and... go for it.
It was some of our best studio times."
Brian May - guitarrista dos Queen


Brian May temia o pior. Brian tinha desenvolvido "The Show Must Go On" e projectara um tema com uma faixa vocal poderosa e proeminente, estupidamente exigente, ao nível do "melhor" Freddie Mercury. Algumas notas eram tão altas, que na gravação demo do tema, Brian fora obrigado a cantar várias partes em falsetto.

O problema é que a doença de Freddie não parava de avançar e por isso, reticente, Brian mostrou a demo a Freddie, com medo que este não conseguisse atingir as notas mais altas.
Segundo reza a lenda, para surpresa de todos, Freddie consumiu então uma considerável quantidade de vodka e gravou, em apenas um take, a impressionante faixa vocal de "The Show Must Go On".

"Dêem-me alguma coisa para cantar e eu canto. Qualquer coisa.", terá suspirado Freddie para os seus colegas de banda. Mesmo que a sua condição física, cada vez mais frágil, parecesse servir de obstáculo, esse handicap não é, de todo, audível no álbum.

"I'll top the bill! I'll overkill! I have to find the will to carry on! On with the show!"

Ao longo de todo o álbum "Innuendo", parece que Freddie tenta, sozinho, travar uma luta hercúlea contra a sua doença, usando como arma apenas o poder catártico das suas cordas vocais.
Durante os 4 minutos de "The Show Must Go On", parece até que Freddie está em vantagem.

"I'll face it with a grin! I'm never giving in!  On with the show!"

Ouçam Freddie a cantar em "The Show Must Go On". Mas ouçam com atenção. Prestem atenção às nuances expressivas, à força, à dinâmica, à emoção.
É o mais preciso, concentrado, afinado, grito de desespero que jamais ouvirão.

Freddie está preso num beco sem saída, à procura da sobrevivência. Se alguma forma de escapar existe, ela será de certeza a cantar. E quem pode dizer que Freddie não escapou? Volvidos mais de 20 anos, a sua música continua aí, mais forte que nunca.

Na época, o single de "The Show Must Go On" chegou apenas ao 16º lugar nas tabelas britânicas - uma posição modesta, explicável tendo em conta que já era o 4º single de um até aí muito bem sucedido álbum "Innuendo".
Com a notícia da morte do Rei, desencadeou-se uma febre pela música dos Queen, que duraria anos.


"The Show Must Go On" serviu como canto do cisne da discografia dos Queen, "aprovada" por Freddie Mercury. Lançado a pouco mais de 1 mês da sua morte, foi o último single e o último tema do último álbum dos Queen, em tempo de vida de Freddie.
Se há algum sentido na expressão "fechar com chave de ouro", ela tem que ser aplicada a "The Show Must Go On".

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Crowded House - "Private Universe"

"It's a pleasure that I have known and it's a treasure that I have gained..."





Ainda o ano de 2012. Já estamos no final de Janeiro e aqui no blog ainda se faz o balanço do ano que passou, num ritmo bem demonstrativo da velocidade de caracol em que o blog tem corrido.
No outro dia, deixei uma menção honrosa aos Tame Impala - uma das grandes revelações do ano passado - e hoje falo de outra grande banda da Oceânia, mais precisamente da Nova Zelândia, desta feita num registo bem diferente: os Crowded House.

__________________________________________________________


‎"He was in the throes of a nervous breakdown.
Alone in bed and crying uncontrollably, he noticed his baby daughter walking towards his bed, her arms outstretched.
In her hand was a glass of water. She wanted to give something. Something to make it alright.
This was all she could find."
Peter Paphides - radialista britânico, sobre a música dos Crowded House


É possivelmente a mais triste e, ao mesmo tempo, a mais edificante das histórias.
A história é verídica. Terá acontecido ao falecido humorista britânico Spike Milligan, a contas com uma depressão. A sua filha queria ajudá-lo e, sem saber como, levou-lhe um copo de água. Mal, o copo não faria; ao menos mataria a sede e reporia os níveis de água no corpo, esgotados de tanto choro.

O radialista Peter Paphides desenrolou esta metáfora para explicar a valência da música dos Crowded House e na minha opinião, acertou em cheio.
A música dos Crowded House não é a panaceia do mal de ninguém, mas alivia. Não cura as doenças, mas retira dor. Não é vacina, mas sim analgésico.

Se há algum sentido no rótulo de "Easy Listening", ele tem que ser aplicado à música dos Crowded House. A sonoridade é tão suave e acolhedora, que tem o dom de me transmitir tranquilidade.

Não deverá ser segredo para ninguém que tenha um rádio desde 1986, que os Crowded House são mestres no registo do Soft Rock, desde que invadiram as ondas FM com o seu grande êxito "Don't Dream It's Over". Este registo de banda de sótão, que seria explorado ao longo dos anos por bandas como os Coldplay, ou os Keane é o estilo Rock de mais fácil audição, apoiado na melodia e sem grandes espaços para distorções.

A voz dos Crowded House e sua principal força criativa é Neil Finn. À falta de rasgos musicias dilacerantes, Neil é um tipo que sabe escrever uma melodia, sabe colar-lhe uma lírica e sabe produzir tudo de forma a que caia no ouvido de forma macia e agradável, sem nunca perder a mensagem.

Neil Finn é um poeta. São várias as passagens ao longo da sua lírica que me abanam. Frases simples, mas de uma profundidade, sinceridade e, acima de tudo, realidade, comoventes:

 "You opened up your door, I couldn't believe my luck..."
in "Into Temptation" - Álbum "Temple Of Low Men" (1988)


"I don't pretend to know what you want, but I offer love."
in "Distant Sun" -  Álbum "Together Alone" (1993)


"Não finjo saber o que queres, mas eu ofereço amor." 
Sem comentários... É isto.

__________________________________________________________

"It feels like nothing matters in our private universe."

O tema que aqui fica é um dos meus preferidos dos Crowded House, apenas um dos grandes temas que podemos ouvir em "Recurring Dream". Originalmente, "Private Universe" foi lançado no álbum "Together Alone", em Outubro de 1993 e serviria, exactamente um ano mais tarde, de 6º (!!!) single de promoção ao álbum. 
Sim, leram bem; para tentar capitalizar o álbum nos vários mercados onde tentavam penetrar, os Crowded House lançaram um total de 7 singles de "Together Alone", nenhum deles com especial sucesso.



"You said the chance wasn't getting any better, labour of love is ours to endure"

"Private Universe" puxa algumas sonoridades da world music para criar uma atmosfera mística, muito própria do que se ouvia na rádio em meados dos anos 90. Estávamos na era dos Enigma ("Return To Innocence"), dos Era, da Enya, dos Sacred Spirit, do canto gregoriano, ou dos (hediondos) pan pipes (Deus me livre...). Um dia destes voltarei ao asssunto.

2012 foi o ano da confirmação dos Crowded House no meu reportório. Foi o ano em que passei a olhar para a sua discografia com um espectro mais alargado, para além dos êxitos mais conhecidos. De tal forma que a compilação "Recurring Dream - The Very Best Of Crowded House" foi um dos álbuns mais tocados do ano transacto.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Tears For Fears - "Raoul And The Kings Of Spain"

"When the seventh son of the seventh son comes around and breaks the chain..."


Quando que me perguntam qual é a minha música preferida de sempre (na verdade, não me lembro de alguém me perguntar isto, eu é que gosto de fazer estas reflexões nerdicas), há meia dúzia temas que me vêm imediatamente à cabeça. Entre temas como "High Hopes" dos Pink Floyd, "The Show Must Go On" dos Queen, ou "Champagne Supernova" dos Oasis, está... (como já devem ter adivinhado por esta introdução) "Raoul And The Kings Of Spain" dos Tears For Fears.

Tenho uma amiga que me costuma dizer que as nossas preferências musicais se devem a 3 factores: "Opiniões, gostos e vivências", porque "muitas vezes gostamos ou não de uma música pela vivência que temos com ela". 
É uma teoria com fundamento.

Separar opiniões e gostos, é algo que não é fácil, mas que é possível. Por exemplo, se me perguntarem qual e a minha banda preferida (a que eu mais gosto), a resposta seriam os Queen. Por outro lado, se me perguntarem qual a melhor banda de sempre (a que na minha opinião, é a melhor), a minha resposta já seriam os Pink Floyd. Em qualquer dos casos, obviamente que gosto de ambas.

Relativamente às vivências, é uma relação que dispensa exemplificações. A música fica associada a momentos da nossa vida. Os bons e os maus. É inevitável. E se tivermos em conta o efeito terapêutico da música, nem é preciso ficar associada a bons momentos, para que crie um elo de ligação connosco.
Pensem nos vossos temas preferidos, ou nos vossos álbuns preferidos e avaliem, caso a caso, se eles estão associados a tempos de bonança, ou a tempos de provação. Pode ser que tenham uma surpresa.

Mas se é verdade que já risquei determinados álbuns, por me levarem para lugares para onde eu não quero ir; há outros que puxo sempre que preciso de navegar para o meu porto seguro. São os álbuns que passam mais tempo empilhados junto ao leitor de CD's, do que devidamente arrumados na prateleira. São os álbuns que me teleportam para um lugar de segurança e despreocupação, a maioria deles associados a momentos da minha infância.

Este é o caso de "Raoul And The Kings Of Spain", dos Tears For Fears - um disco que marcou a minha vida, um dos meus álbuns preferidos de sempre.

Viajemos então no espaço e no tempo.

Fim de semana alargado, de 6 a 9 de Abril, de 1996. A família Bento decide fazer a sua primeira grande viagem de carro ao estrangeiro, no seu Lancia Dedra branco. O roteiro compreendia o Sul de Espanha, com passagens por Sevilha, Gibraltar, Algeciras, Granada e a Serra Nevada.

No auto-rádio Alpine do carro, uma cassete:



Mas a cassete não tinha o álbum todo. Numa geração diferente da pirataria, muito antes do mp3 e dos downloads, esta ainda se fazia com a gravação indevida em formato Compact Cassette, abreviado de MC (MusicCassette). Nas cassetes, gravava-se o que se podia, tendo em conta a limitação de espaço na fita. No caso de "Raoul", com pouco mais de 50 minutos, o álbum caberia em qualquer cassete de 60 minutos - as mais banais naquela altura.

O problema é que, quem quer que tenha gravado a cassete, gravou duas vezes o mesmo "lado", isto é, o mesmo conjunto de temas nos dois lados da fita. Graças ao inovador sistema auto-reverse do auto-rádio, o resultado foi um loop contínuo de 25 minutos que se repetiu ad aeternum ao longo da viagem, durante 4 dias, dentro do carro:


1. "Raoul and the Kings of Spain" (5:16)
2. "Falling Down" (4:56)
3. "Secrets" (4:42)
4. "God's Mistake" (3:47)
5. "Los Reyes Católicos" (1:44)
6. "Sorry" (4:48)


Uma viagem destas, cheia de paisagens novas e cheiros desconhecidos, teria que marcar indelevelmente a impressionável mente de um miúdo de 10 anos. Colado às imagens da neve na Serra Nevada, da chuva copiosa de Gibraltar, ou da miragem de África lá ao fundo, para lá do intenso nevoeiro, estará para sempre um grito:
"Raaaaaaoooouuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuul!!"
Aos 10 anos, a minha percepção da língua inglesa ainda não era grande coisa, mas para cantar a plenos pulmões o refrão de "Raoul And The Kings Of Spain" com Roland Orzabal, tal não era necessário.

Colados à música, ficaram estes momentos, estas vivências. Daí em diante, "Raoul" ficaria sempre como um bilhete directo para os bancos de trás do Lancia Dedra branco, onde eu podia dormitar em segurança, despreocupadamente, enquanto olhava pela janela, para paisagens nunca vistas.

Dentro em breve, voltarei inevitavelmente a "Raoul And The Kings Of Spain", da mesma forma que já voltei imensas vezes ao longo da minha vida. Voltarei a "Raoul", porque muito mais fica por dizer sobre este álbum, na minha opinião uma das obras primas da curta, mas concisa, carreira dos Tears For Fears.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Tame Impala - "Apocalypse Dreams"

"It feels so real in my sleep, never held something so close I couldn't keep"




Na semana passada, aleguei que "fecharia" o ano de 2012 neste post. Not quite. Antes disso, tenho ainda que fazer algumas menções honrosas, de bandas, álbuns e temas que não entraram nas selectivas escolhas do ano: Álbum original, Artista no activo, Revelação/DescobertaBanda mais ouvida e Tema do ano.

Começo hoje com um tema de mais um álbum que me abanou em 2012, com a particularidade de ter sido lançado... em 2012. Aliás, este não é meramente "um" tema, é mais "o" tema que me abanou e me agarrou aos Tame Impala. Falo deste fantástico "Apocalypse Dreams", que podem ouvir em cima.
Aqui, o termo fantástico é usado num sentido abrangente e pode ser entendido em múltiplas dimensões, incluindo aquela "dimensão paralela" para onde se pode ir em determinadas condições... ingerindo determinadas substâncias (não sei se me estou a fazer entender). Enfim, aquela dimensão para onde o Syd Barrett foi muitas vezes; tantas vezes, que certo dia ficou lá preso e nunca mais conseguiu voltar.

Artwork de "Apocalypse Dreams", lançada em download gratuito a 14 Julho de 2012, como primeira amostra de "Lonersim"


Para quem não conhece, os Tame Impala são uma uma banda australiana de Rock Psicadélico (segundo os próprios, uma banda que faz psychedelic hypno-groove melodic rock music), cujo primeiro álbum foi lançado em 2010 ("Innerspeaker"). A dica foi-me dada por uma amiga, algures numa caixa de comentários deste blog e a aposta foi claramente ganhadora. Este registo psicadélico é totalmente a minha praia.

"This could be the day that we push through, it could be the day that all our dreams come true... For me and you"

A música que ouvimos em "Lonerism" e particularmente neste meu favorito "Apocalypse Dreams" é uma curiosa amálgama da sonoridade de uma banda Indie dos anos 00, dos Pink Floyd circa-"Piper" e dos The Beatles circa-"Pepper" (note-se que o paralelismo entre estes dois álbuns, ambos lançados em 1967, é maior do que se possa pensar). Tudo isto, acompanhado pela inconfundível voz de... John Lennon (espera aí, o Lennon foi assassinado em 1980) Kevin Parker, também ele o grande criativo da banda.

A sério: que raio de acontecimento genético terá sucedido com Kevin Parker - o vocalista dos Tame Impala, que a voz dele é exactamente igual à do John Lennon? Principalmente àquele irresistível timbre arrastado do Lennon mid-60's, quando este estava encharcado em drogas? Incrível. Só mesmo ouvindo, para acreditar.
Terá o John Lennon ido à Austrália passar umas férias e deixado legado? Mas Lennon foi morto em 1980 e Parker nasceu em 1986, portanto não, não pode ser. A não ser que... Oh well.
A verdade é que fiquei completamente siderado com a voz do puto.

"Everything is changing and there’s nothing I can do..."

"Lonerism" é, de facto, um mostruário daquilo que de bom ainda se pode fazer no indie rock. Uma verdadeira maravilha, um dos álbuns mais entusiasmantes de 2012. Entusiasmante, porque ouvir um grupo de miúdos a fazer música desta, faz-me perceber que há esperança para o Rock.



O panorama da música está em mudança. A mudança é contínua, mas hoje, numa época em que tudo é feito e consumido a grande velocidade, essa mudança é feita a um ritmo ainda maior, num vórtice vertiginoso. O problema é que tenho dificuldade em ver uma direcção que me agrade neste vórtice e não há nada que possa fazer para mudar este panorama. Nada... a não ser levantar os braços sempre que sou abanado por algo novo.

A música dos Tame Impala é razão mais que suficiente para me fazer levantar os braços e ver uma luz. Uma luz de cores em tons de amarelo, verde, lilás e vermelho...
Deposito enormes esperanças neles, esperança que me tragam muito mais música para eu sonhar às cores... muito mais "Apocalypse Dreams".

Poster promocional da digressão britânica em 2012. Medusas psicadélicas para promover os Tame Impala, how appropriateDos melhores, mais fixes, mais fantásticos (pun intended) posters que já vi.
Está estava à venda neste site por 25$ (!!!), mas o stock foi trucidado em poucas horas.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

David Bowie - "Where Are We Now?"

"You never knew that... That I could do that"


Bowie voltou.
Já poucos esperavam o seu regresso. Mas no dia em que fez 66 anos, David resolveu quebrar o lago gelado em que se encontrava a sua carreira e lançar o primeiro calhau.
Um tema novo - "Where Are We Now?" - já está aqui para todos ouvirmos. Um álbum novo - "The Next Day" - chegará no dia 11 de Março e é o seu primeiro em 10 anos (o último tinha sido "Reality", de 2003).
David Bowie esteve de fora muito tempo, demasiado tempo. No anúncio oficial, o seu site deu conta desta prolongada ausência:
"In recent years radio silence has been broken only by endless speculation, rumour and wishful thinking... a new record...who would have ever thought it, who'd have ever dreamed it! After all David is the kind of artist who writes and performs what he wants when he wants...when he has something to say as opposed to something to sell.
Today he definitely has something to say."

Então, afinal, o que é que Bowie tem para dizer?
Na minha opinião, "Where Are We Now?" é um bom tema... que não compromete. Não é extraordinário, mas também não corre grandes riscos.

O tema evoca a era de Berlim de Bowie (isto é, o período que compreende os álbuns "Low", ""Heroes"" e "Lodger"), uma época de grande revolução na sua música, cujo impacto na música de outros artistas (nomeadamente no seu país) é hoje já bastante reconhecido. Mas a verdade é que "Where Are We Now?" se assemelha mais ao período neo-clássico Bowie, dos anos 00, do que ao período de Berlim (para o qual eu tenho programado um post, a sair muito brevemente), do final dos anos 70. 



A aproximação ao período (hoje) mais cool da carreira de Bowie é perceptível (até a capa da edição de luxo do álbum é um makeover da capa de ""Heroes""), mas não é materializada nesta primeira amostra de "The Next Day".
Note-se que colocar "The Next Day" ao lado de um álbum como "Heathen" (de 2002), em vez de ""Heroes"" (de 1977), em nada o desqualifica; é apenas uma comparação mais realista, para um artista que já leva uma carreira a entrar na 5ª (!!) década.

Julgando pela sua primeira amostra, não me parece que "The Next Day" seja o álbum do grande comeback de David Bowie. Parece-me, sim, o álbum do seu "adeus".
Bowie não procura aqui uma revolução na sua sonoridade, como fez tantas vezes ao longo da sua carreira; como fez quando foi para Berlim em 1976. Nessa altura, Bowie impregnou na sua música as influências vigentes na cidade - a Electronica e o Krautrock - e obteve os resultados brilhantes que hoje conhecemos.
Hoje, as influências vigentes em Berlim continuam dentro da Electronica, mas agora em estilos mais focados como o Dubstep ou o House. Aos 66 anos, duvido que David Bowie tenha grande interesse em enveredar por esse caminho. E eu duvido que isso fosse, sequer, boa ideia...

Mais... mais, para já, não sabemos. Da minha parte, já estou a fazer figas com dedos das mãos e dos pés, para que David Bowie volte à estrada em 2013 e eu possa finalmente ver o Thin White Duke ao vivo. Nem que, para tal, tenha que voltar a Londres.

Para já, o que fica é que "Where Are We Now?" é bom e é Bowie... e isso é óptimo.
Para já, isso basta para nos encher o coração. 
Para já, o importante é que... Bowie voltou.