quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Crowded House - "Private Universe"

"It's a pleasure that I have known and it's a treasure that I have gained..."





Ainda o ano de 2012. Já estamos no final de Janeiro e aqui no blog ainda se faz o balanço do ano que passou, num ritmo bem demonstrativo da velocidade de caracol em que o blog tem corrido.
No outro dia, deixei uma menção honrosa aos Tame Impala - uma das grandes revelações do ano passado - e hoje falo de outra grande banda da Oceânia, mais precisamente da Nova Zelândia, desta feita num registo bem diferente: os Crowded House.

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‎"He was in the throes of a nervous breakdown.
Alone in bed and crying uncontrollably, he noticed his baby daughter walking towards his bed, her arms outstretched.
In her hand was a glass of water. She wanted to give something. Something to make it alright.
This was all she could find."
Peter Paphides - radialista britânico, sobre a música dos Crowded House


É possivelmente a mais triste e, ao mesmo tempo, a mais edificante das histórias.
A história é verídica. Terá acontecido ao falecido humorista britânico Spike Milligan, a contas com uma depressão. A sua filha queria ajudá-lo e, sem saber como, levou-lhe um copo de água. Mal, o copo não faria; ao menos mataria a sede e reporia os níveis de água no corpo, esgotados de tanto choro.

O radialista Peter Paphides desenrolou esta metáfora para explicar a valência da música dos Crowded House e na minha opinião, acertou em cheio.
A música dos Crowded House não é a panaceia do mal de ninguém, mas alivia. Não cura as doenças, mas retira dor. Não é vacina, mas sim analgésico.

Se há algum sentido no rótulo de "Easy Listening", ele tem que ser aplicado à música dos Crowded House. A sonoridade é tão suave e acolhedora, que tem o dom de me transmitir tranquilidade.

Não deverá ser segredo para ninguém que tenha um rádio desde 1986, que os Crowded House são mestres no registo do Soft Rock, desde que invadiram as ondas FM com o seu grande êxito "Don't Dream It's Over". Este registo de banda de sótão, que seria explorado ao longo dos anos por bandas como os Coldplay, ou os Keane é o estilo Rock de mais fácil audição, apoiado na melodia e sem grandes espaços para distorções.

A voz dos Crowded House e sua principal força criativa é Neil Finn. À falta de rasgos musicias dilacerantes, Neil é um tipo que sabe escrever uma melodia, sabe colar-lhe uma lírica e sabe produzir tudo de forma a que caia no ouvido de forma macia e agradável, sem nunca perder a mensagem.

Neil Finn é um poeta. São várias as passagens ao longo da sua lírica que me abanam. Frases simples, mas de uma profundidade, sinceridade e, acima de tudo, realidade, comoventes:

 "You opened up your door, I couldn't believe my luck..."
in "Into Temptation" - Álbum "Temple Of Low Men" (1988)


"I don't pretend to know what you want, but I offer love."
in "Distant Sun" -  Álbum "Together Alone" (1993)


"Não finjo saber o que queres, mas eu ofereço amor." 
Sem comentários... É isto.

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"It feels like nothing matters in our private universe."

O tema que aqui fica é um dos meus preferidos dos Crowded House, apenas um dos grandes temas que podemos ouvir em "Recurring Dream". Originalmente, "Private Universe" foi lançado no álbum "Together Alone", em Outubro de 1993 e serviria, exactamente um ano mais tarde, de 6º (!!!) single de promoção ao álbum. 
Sim, leram bem; para tentar capitalizar o álbum nos vários mercados onde tentavam penetrar, os Crowded House lançaram um total de 7 singles de "Together Alone", nenhum deles com especial sucesso.



"You said the chance wasn't getting any better, labour of love is ours to endure"

"Private Universe" puxa algumas sonoridades da world music para criar uma atmosfera mística, muito própria do que se ouvia na rádio em meados dos anos 90. Estávamos na era dos Enigma ("Return To Innocence"), dos Era, da Enya, dos Sacred Spirit, do canto gregoriano, ou dos (hediondos) pan pipes (Deus me livre...). Um dia destes voltarei ao asssunto.

2012 foi o ano da confirmação dos Crowded House no meu reportório. Foi o ano em que passei a olhar para a sua discografia com um espectro mais alargado, para além dos êxitos mais conhecidos. De tal forma que a compilação "Recurring Dream - The Very Best Of Crowded House" foi um dos álbuns mais tocados do ano transacto.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Tears For Fears - "Raoul And The Kings Of Spain"

"When the seventh son of the seventh son comes around and breaks the chain..."


Quando que me perguntam qual é a minha música preferida de sempre (na verdade, não me lembro de alguém me perguntar isto, eu é que gosto de fazer estas reflexões nerdicas), há meia dúzia temas que me vêm imediatamente à cabeça. Entre temas como "High Hopes" dos Pink Floyd, "The Show Must Go On" dos Queen, ou "Champagne Supernova" dos Oasis, está... (como já devem ter adivinhado por esta introdução) "Raoul And The Kings Of Spain" dos Tears For Fears.

Tenho uma amiga que me costuma dizer que as nossas preferências musicais se devem a 3 factores: "Opiniões, gostos e vivências", porque "muitas vezes gostamos ou não de uma música pela vivência que temos com ela". 
É uma teoria com fundamento.

Separar opiniões e gostos, é algo que não é fácil, mas que é possível. Por exemplo, se me perguntarem qual e a minha banda preferida (a que eu mais gosto), a resposta seriam os Queen. Por outro lado, se me perguntarem qual a melhor banda de sempre (a que na minha opinião, é a melhor), a minha resposta já seriam os Pink Floyd. Em qualquer dos casos, obviamente que gosto de ambas.

Relativamente às vivências, é uma relação que dispensa exemplificações. A música fica associada a momentos da nossa vida. Os bons e os maus. É inevitável. E se tivermos em conta o efeito terapêutico da música, nem é preciso ficar associada a bons momentos, para que crie um elo de ligação connosco.
Pensem nos vossos temas preferidos, ou nos vossos álbuns preferidos e avaliem, caso a caso, se eles estão associados a tempos de bonança, ou a tempos de provação. Pode ser que tenham uma surpresa.

Mas se é verdade que já risquei determinados álbuns, por me levarem para lugares para onde eu não quero ir; há outros que puxo sempre que preciso de navegar para o meu porto seguro. São os álbuns que passam mais tempo empilhados junto ao leitor de CD's, do que devidamente arrumados na prateleira. São os álbuns que me teleportam para um lugar de segurança e despreocupação, a maioria deles associados a momentos da minha infância.

Este é o caso de "Raoul And The Kings Of Spain", dos Tears For Fears - um disco que marcou a minha vida, um dos meus álbuns preferidos de sempre.

Viajemos então no espaço e no tempo.

Fim de semana alargado, de 6 a 9 de Abril, de 1996. A família Bento decide fazer a sua primeira grande viagem de carro ao estrangeiro, no seu Lancia Dedra branco. O roteiro compreendia o Sul de Espanha, com passagens por Sevilha, Gibraltar, Algeciras, Granada e a Serra Nevada.

No auto-rádio Alpine do carro, uma cassete:



Mas a cassete não tinha o álbum todo. Numa geração diferente da pirataria, muito antes do mp3 e dos downloads, esta ainda se fazia com a gravação indevida em formato Compact Cassette, abreviado de MC (MusicCassette). Nas cassetes, gravava-se o que se podia, tendo em conta a limitação de espaço na fita. No caso de "Raoul", com pouco mais de 50 minutos, o álbum caberia em qualquer cassete de 60 minutos - as mais banais naquela altura.

O problema é que, quem quer que tenha gravado a cassete, gravou duas vezes o mesmo "lado", isto é, o mesmo conjunto de temas nos dois lados da fita. Graças ao inovador sistema auto-reverse do auto-rádio, o resultado foi um loop contínuo de 25 minutos que se repetiu ad aeternum ao longo da viagem, durante 4 dias, dentro do carro:


1. "Raoul and the Kings of Spain" (5:16)
2. "Falling Down" (4:56)
3. "Secrets" (4:42)
4. "God's Mistake" (3:47)
5. "Los Reyes Católicos" (1:44)
6. "Sorry" (4:48)


Uma viagem destas, cheia de paisagens novas e cheiros desconhecidos, teria que marcar indelevelmente a impressionável mente de um miúdo de 10 anos. Colado às imagens da neve na Serra Nevada, da chuva copiosa de Gibraltar, ou da miragem de África lá ao fundo, para lá do intenso nevoeiro, estará para sempre um grito:
"Raaaaaaoooouuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuul!!"
Aos 10 anos, a minha percepção da língua inglesa ainda não era grande coisa, mas para cantar a plenos pulmões o refrão de "Raoul And The Kings Of Spain" com Roland Orzabal, tal não era necessário.

Colados à música, ficaram estes momentos, estas vivências. Daí em diante, "Raoul" ficaria sempre como um bilhete directo para os bancos de trás do Lancia Dedra branco, onde eu podia dormitar em segurança, despreocupadamente, enquanto olhava pela janela, para paisagens nunca vistas.

Dentro em breve, voltarei inevitavelmente a "Raoul And The Kings Of Spain", da mesma forma que já voltei imensas vezes ao longo da minha vida. Voltarei a "Raoul", porque muito mais fica por dizer sobre este álbum, na minha opinião uma das obras primas da curta, mas concisa, carreira dos Tears For Fears.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Tame Impala - "Apocalypse Dreams"

"It feels so real in my sleep, never held something so close I couldn't keep"




Na semana passada, aleguei que "fecharia" o ano de 2012 neste post. Not quite. Antes disso, tenho ainda que fazer algumas menções honrosas, de bandas, álbuns e temas que não entraram nas selectivas escolhas do ano: Álbum original, Artista no activo, Revelação/DescobertaBanda mais ouvida e Tema do ano.

Começo hoje com um tema de mais um álbum que me abanou em 2012, com a particularidade de ter sido lançado... em 2012. Aliás, este não é meramente "um" tema, é mais "o" tema que me abanou e me agarrou aos Tame Impala. Falo deste fantástico "Apocalypse Dreams", que podem ouvir em cima.
Aqui, o termo fantástico é usado num sentido abrangente e pode ser entendido em múltiplas dimensões, incluindo aquela "dimensão paralela" para onde se pode ir em determinadas condições... ingerindo determinadas substâncias (não sei se me estou a fazer entender). Enfim, aquela dimensão para onde o Syd Barrett foi muitas vezes; tantas vezes, que certo dia ficou lá preso e nunca mais conseguiu voltar.

Artwork de "Apocalypse Dreams", lançada em download gratuito a 14 Julho de 2012, como primeira amostra de "Lonersim"


Para quem não conhece, os Tame Impala são uma uma banda australiana de Rock Psicadélico (segundo os próprios, uma banda que faz psychedelic hypno-groove melodic rock music), cujo primeiro álbum foi lançado em 2010 ("Innerspeaker"). A dica foi-me dada por uma amiga, algures numa caixa de comentários deste blog e a aposta foi claramente ganhadora. Este registo psicadélico é totalmente a minha praia.

"This could be the day that we push through, it could be the day that all our dreams come true... For me and you"

A música que ouvimos em "Lonerism" e particularmente neste meu favorito "Apocalypse Dreams" é uma curiosa amálgama da sonoridade de uma banda Indie dos anos 00, dos Pink Floyd circa-"Piper" e dos The Beatles circa-"Pepper" (note-se que o paralelismo entre estes dois álbuns, ambos lançados em 1967, é maior do que se possa pensar). Tudo isto, acompanhado pela inconfundível voz de... John Lennon (espera aí, o Lennon foi assassinado em 1980) Kevin Parker, também ele o grande criativo da banda.

A sério: que raio de acontecimento genético terá sucedido com Kevin Parker - o vocalista dos Tame Impala, que a voz dele é exactamente igual à do John Lennon? Principalmente àquele irresistível timbre arrastado do Lennon mid-60's, quando este estava encharcado em drogas? Incrível. Só mesmo ouvindo, para acreditar.
Terá o John Lennon ido à Austrália passar umas férias e deixado legado? Mas Lennon foi morto em 1980 e Parker nasceu em 1986, portanto não, não pode ser. A não ser que... Oh well.
A verdade é que fiquei completamente siderado com a voz do puto.

"Everything is changing and there’s nothing I can do..."

"Lonerism" é, de facto, um mostruário daquilo que de bom ainda se pode fazer no indie rock. Uma verdadeira maravilha, um dos álbuns mais entusiasmantes de 2012. Entusiasmante, porque ouvir um grupo de miúdos a fazer música desta, faz-me perceber que há esperança para o Rock.



O panorama da música está em mudança. A mudança é contínua, mas hoje, numa época em que tudo é feito e consumido a grande velocidade, essa mudança é feita a um ritmo ainda maior, num vórtice vertiginoso. O problema é que tenho dificuldade em ver uma direcção que me agrade neste vórtice e não há nada que possa fazer para mudar este panorama. Nada... a não ser levantar os braços sempre que sou abanado por algo novo.

A música dos Tame Impala é razão mais que suficiente para me fazer levantar os braços e ver uma luz. Uma luz de cores em tons de amarelo, verde, lilás e vermelho...
Deposito enormes esperanças neles, esperança que me tragam muito mais música para eu sonhar às cores... muito mais "Apocalypse Dreams".

Poster promocional da digressão britânica em 2012. Medusas psicadélicas para promover os Tame Impala, how appropriateDos melhores, mais fixes, mais fantásticos (pun intended) posters que já vi.
Está estava à venda neste site por 25$ (!!!), mas o stock foi trucidado em poucas horas.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

David Bowie - "Where Are We Now?"

"You never knew that... That I could do that"


Bowie voltou.
Já poucos esperavam o seu regresso. Mas no dia em que fez 66 anos, David resolveu quebrar o lago gelado em que se encontrava a sua carreira e lançar o primeiro calhau.
Um tema novo - "Where Are We Now?" - já está aqui para todos ouvirmos. Um álbum novo - "The Next Day" - chegará no dia 11 de Março e é o seu primeiro em 10 anos (o último tinha sido "Reality", de 2003).
David Bowie esteve de fora muito tempo, demasiado tempo. No anúncio oficial, o seu site deu conta desta prolongada ausência:
"In recent years radio silence has been broken only by endless speculation, rumour and wishful thinking... a new record...who would have ever thought it, who'd have ever dreamed it! After all David is the kind of artist who writes and performs what he wants when he wants...when he has something to say as opposed to something to sell.
Today he definitely has something to say."

Então, afinal, o que é que Bowie tem para dizer?
Na minha opinião, "Where Are We Now?" é um bom tema... que não compromete. Não é extraordinário, mas também não corre grandes riscos.

O tema evoca a era de Berlim de Bowie (isto é, o período que compreende os álbuns "Low", ""Heroes"" e "Lodger"), uma época de grande revolução na sua música, cujo impacto na música de outros artistas (nomeadamente no seu país) é hoje já bastante reconhecido. Mas a verdade é que "Where Are We Now?" se assemelha mais ao período neo-clássico Bowie, dos anos 00, do que ao período de Berlim (para o qual eu tenho programado um post, a sair muito brevemente), do final dos anos 70. 



A aproximação ao período (hoje) mais cool da carreira de Bowie é perceptível (até a capa da edição de luxo do álbum é um makeover da capa de ""Heroes""), mas não é materializada nesta primeira amostra de "The Next Day".
Note-se que colocar "The Next Day" ao lado de um álbum como "Heathen" (de 2002), em vez de ""Heroes"" (de 1977), em nada o desqualifica; é apenas uma comparação mais realista, para um artista que já leva uma carreira a entrar na 5ª (!!) década.

Julgando pela sua primeira amostra, não me parece que "The Next Day" seja o álbum do grande comeback de David Bowie. Parece-me, sim, o álbum do seu "adeus".
Bowie não procura aqui uma revolução na sua sonoridade, como fez tantas vezes ao longo da sua carreira; como fez quando foi para Berlim em 1976. Nessa altura, Bowie impregnou na sua música as influências vigentes na cidade - a Electronica e o Krautrock - e obteve os resultados brilhantes que hoje conhecemos.
Hoje, as influências vigentes em Berlim continuam dentro da Electronica, mas agora em estilos mais focados como o Dubstep ou o House. Aos 66 anos, duvido que David Bowie tenha grande interesse em enveredar por esse caminho. E eu duvido que isso fosse, sequer, boa ideia...

Mais... mais, para já, não sabemos. Da minha parte, já estou a fazer figas com dedos das mãos e dos pés, para que David Bowie volte à estrada em 2013 e eu possa finalmente ver o Thin White Duke ao vivo. Nem que, para tal, tenha que voltar a Londres.

Para já, o que fica é que "Where Are We Now?" é bom e é Bowie... e isso é óptimo.
Para já, isso basta para nos encher o coração. 
Para já, o importante é que... Bowie voltou.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

George Harrison - "Hear Me Lord"

"Now, won't you please... Please... Hear me, Lord"



Hoje volto a "All Things Must Pass" para fechar 2012 e vos falar na categoria que falta: o Tema do Ano. A minha escolha é o divinal "Hear Me Lord".
Em Agosto, já aqui falei da grande obra-prima de George Harrison; o albatroz da sua discografia; o álbum onde o Quiet Beatle almejou alcançar, sozinho, as alturas babilónicas dos The Beatles. Na minha modesta opinião, subiu alto, muito muito alto.
"All Things Must Pass" foi o meu álbum preferido de 2011 e foi, quase, quase, quase... o meu preferido de 2012. O volume de material que encontramos aqui é tão vasto, tão imenso, que a longevidade que este álbum teve comigo foi enorme.



"All Things Must Pass" é um álbum onde George Harrison abre o coração e despeja tudo o que lhe vai na alma. E como seria de esperar de George (principalmente nesta fase da sua vida), o que vai na sua alma é essencialmente fé.
A fé aqui exposta não está necessariamente ligada a uma religião específica, como deixa entender em "Awaiting On You All" ("By chanting the nameS of the Lord, you'll be free"); George nunca fala em Deus ("God"), mas refere-se repetidamente ao Senhor ("Lord"). O que George quer transmitir é que qualquer que seja a crença (e ele também tem a dele), o que é preciso é ter fé. Porque a fé é a luz que nos previne da escuridão ("Beware Of Darkness").

Ora bem, eu não me considero, de todo, uma pessoa religiosa. A invocação contínua do Senhor por parte de George, como figura religiosa da Salvação, não é uma acção com a qual eu me identifique directamente.
Mas tenho fé, pois claro. Tenho fé na verdade de valores (muitos deles cultivei com a aprendizagem religiosa que tive), fé na verdade de sentimentos, fé na verdade de pessoas que me rodeiam. Porque a fé é muito mais do que religião.

"Help me, Lord, please, to rise a little higher, hmmm-hmmm
Help me, Lord, please, to burn out this desire, hmmm-hmmm"

Por isso, a forma como George se entrega em "Hear Me Lord" deixou-me completamente rendido ao tema. George canta em desespero, despe o seu íntimo, revela as suas fraquezas, pede força para o ajudarem a ultrapassá-las e assim usa a fé como uma arma... para ser uma melhor pessoa. E se não é isso que todos queremos, é de certeza o que todos deveríamos querer.

"Hear Me Lord" é um dos temas mais pessoais que George Harrison escreveu em toda a sua carreira. George escava até ao ponto mais profundo do seu íntimo para sacar o que ouvimos. A sua inclusão no final do 2º disco de "All Things Must Pass" serve como uma chave de ouro, para fechar a sua obra-prima (não conto aqui com o 3º disco - Apple Jams).

Desde a explosiva introdução de bateria, que "Hear Me Lord" é um tema que me consegue, invariavelmente, arrancar arrepios na espinha. A beleza dos arranjos, da interpretação vocal de George e das harmonias, daquela slide guitar que se ouve a chorar lá ao fundo, do piano caótico a carpir as suas mágoas... é uma beleza que me esmaga. É tudo perfeito.

Em alternativa, ouvir George Harrison aqui, em modo solo, a cantar "Hear Me Lord" acompanhado apenas da sua guitarra eléctrica, despido de toda a produção de Phil Spector, pode ser ainda mais arrepiante. Decidam vocês.



Depois do post de Agosto e desta introdução, acho que já praticamente esgotei os elogios que poderia fazer a este álbum. O impacto que esta obra teve em mim está à vista e o que me resta agora é desafiar-vos a deixarem-se submergir nela, de mente livre e coração aberto, tal como eu o fiz, desde que o descobri no último terço de 2011.

sábado, 29 de dezembro de 2012

New Order - "True Faith"

"I feel so extraordinary, something's got a hold on me"



"Who is the laziest member of the band?
Ian Curtis. I've never seen him do anything for years!"
Peter Hook - baixista dos New Order e dos Joy Division - por volta de 1993


Não deve ter sido fácil. Perder um amigo, um amigo que era também o vocalista da banda, que era o principal autor das letras e figura de proa do grupo... Perdê-lo quando, finalmente, a banda começara a ganhar alguma notoriedade...
Não deve, não pode ter sido fácil.

Contudo, os restantes Joy Division queriam continuar a fazer música. Nem fazia sentido ser de outra forma.
A perda de Ian Curtis significava que a identidade carregadamente urbano-depressiva da banda ia também cair. As temáticas do isolamento, da alienação, ou da depressão, trazidas pela mente perturbada de Ian, dissipar-se-iam com a sua saída. Mas a música, essa, estava lá intacta.

Porém, sem Ian Curtis, os Joy Division não faziam mais sentido. Assim, Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris decidiram adoptar um novo nome e recrutar um novo elemento para as teclas - Gillian Gilbert; nasciam então os New Order.

Os primeiros singles e o primeiro álbum dos New Order, lançados entre 1981 e 1982, cheiravam ainda a Joy Division. Por vezes, isso era bom, como em "Ceremony", "Everything's Gone Green", ou "Dreams Never End", por outras nem por isso. Em todo o caso, era impossível esconder que a banda dos subúrbios de Manchester estava a passar uma fase de transição.

"I can't tell you where we're going, I guess there's just no way of knowing"

Porém, quando em 1983 rebentou "Blue Monday" e se tornou no single de 12'' mais vendido de sempre (ainda hoje detém esse título), era evidente que os New Order já tinham passado para a outra margem. Já não eram uma referência do Post-punk, eram agora um porta-estandarte do Synthpop e do New Wave. Passaram do registo urbano-depressivo para um registo "dançável".

Confesso: não sou, em geral, um apreciador de música de dança; nem sequer, num conceito mais abrangente, de música "dançável". Nunca fui.
Nunca fui... até chegar aos New Order. Talvez pelo facto de misturarem as guitarras e as influências Punk, com as influências electrónicas germânicas (Kraftwerk, etc.), como David Bowie tinha feito 6 anos antes, os New Order arrebataram-me de imediato. Primeiro, com o inevitável "Blue Monday" e depois, com este superlativo "True Faith".

"True Faith" é o meu tema preferido dos New Order, mas é mais que isso: é o meu tema preferido de toda a "música dançável"; e mais ainda: é o meu tema de 2011.

Já devo um post aos New Order há muito tempo. Pelo menos desde há um ano quando, por esta altura, deveria ter feito o balanço de 2011. Porque a escolher o Tema do ano de 2011, seria "True Faith", na sua versão de 12''. O tema que simboliza uma das melhores coisas que me aconteceu nos últimos anos.

O papel dos New Order em 2102 foi diferente, não tão centrado num tema, como em 2011, mas mais abrangente.
Se ontem falei da banda Revelação do ano - os The Smiths - hoje é tempo para a Banda do ano - a banda que mais marcou o meu quotidiano, em 2012. Como já terão percebido por esta altura, trata-se dos New Order. Curiosamente, foi uma banda que explodiu no Reino Unido, mais ou menos na mesma altura que os The Smiths.

Já a minha explosão de New Order deu-se no último trimestre de 2012, quando descobri esta pequena maravilha:


"Substance" (ou "Substance 1987", para os puristas) deixou-me cabalmente agarrado aos New Order. A partir do dia em que ouvi a versão de 12'' "The Perfect Kiss" (WTF is that?!), o resto veio de arrasto, qual enxurrada: "State of the Nation", "Everything's Gone Green",  "Ceremony", "Touched By The Hand Of God" e mais.... muito mais.

Fiquei de tal forma agarrado aos New Order, que 2012 viu a minha única interpretação de um tema em público, num karaoke de um bar. Nem mais nem menos que... "True Faith".

Depois, respeitando a minha pancada coleccionista (a partir do momento que gosto de alguma banda, tenho que ter tudo dessa banda), prima directa da minha pancada de romântico (se gosto de algo ou alguém, gosto mesmo muito), fui "obrigado" a comprar este lote:



Exacto. Falo de edições de coleccionador, expandidas, dos 4 primeiros álbuns dos New Order. Isto resultou, como já referi, num verdadeira enxurrada de New Order na fase final de 2012, o suficiente para ganharem o meu prémio de Banda do ano. E tenho para mim que isto ainda não acabou...

Nota: a versão 12'' de "The Perfect Kiss" - o meu ex libris dos New Order em 2012 - só não leva as honras deste tópico porque... Bem, porque já devia um post ao "True Faith"!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

The Smiths - "What Difference Does It Make?"

"So, what difference does it ma-a-ake?
It makes none."



"What came first? Music or the misery?
People worry about kids playing with guns or watching violent videos; that some sort of culture of violence will take them over...
Nobody worries about kids listening to thousands - literally thousands - of songs about heartbreak... rejection... pain... misery... and loss.
Did I listen to pop music because I was miserable? Or was I miserable because I listened to pop music?"
 John Cusack, como Rob Gordon, no filme "High Fidelity"




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Há uns dias atrás, um amigo confessava-me a sua convicção que "Se não fosse a música, os psicólogos e os psiquiatras teriam muito mais trabalho." Eu próprio já aqui defendi essa visão terapêutica da música várias vezes e ainda ontem, no post alusivo à importância da música de Bruce Springsteen, no desenrolar da minha vida em 2012, fiz questão de o fazer novamente.
No filme "High Fidelity" (que eu recomendo vivamente, que mais não seja porque parece contar um pouco da minha História no grande ecrã), a personagem interpretada por John Cusack - como eu, um daqueles amantes de música - levanta uma questão pertinente: ouvimos música porque nos sentimos miseráveis? Ou sentimo-nos miseráveis porque ouvimos música?
Será que a música nos tira da miséria? Ou será que prolonga o nosso sofrimento?

Excelente questão. Eu, confesso, não sei a resposta. Dependerá de pessoa para pessoa e a verdade andará algures no meio dos dois conceitos. Mas façamos uma reflexão sobre o assunto.
O que eu sei é que não vou deixar de ouvir música, por pensar que esta me pode por num lugar pior do que aquele em que estou. A História, a minha História, já me deu provas mais que suficientes em sentido contrário.

O Mundo é um lugar não raras vezes difícil. A música tem o condão de nos transportar para um lugar seguro, onde quer que estejamos, seja em que situação for. Ao ouvirmos os acordes daquele tema que gostamos, ou o som da voz terapêutica daquele artista, somos automaticamente levados para um abrigo, sãos, salvos e em segurança de todos os danos que nos possam infligir.

"I'm feeling very sick and ill today, but I'm still fond of you, oh-ho-oh"

Mas porquê, afinal, todo este discurso sobre a bondade da música e o que é que isso tem a ver com os The Smiths?
Bem, digamos que o papel dos The Smiths em 2012 foi, no mínimo, sui generis. Pode ser que no final do post, esta relação já seja perceptível.

Começo por declarar que os The Smiths levam o epíteto de Revelação do ano em 2012 e é por isso mesmo que lhes dedico este post. Claro que antes deste ano já tinha ouvido algumas coisas aqui e ali, mas ainda não estava familiarizado com o legado e a lenda da banda de Manchester.
2012 mudou tudo isso e com grande impacto. Literalmente.

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Há uns meses atrás, um certo acontecimento dramático desencadeou uma série de transformações na minha vida.
O acontecimento? Um violento choque de automóvel. A relação com os The Smiths? No exacto momento do choque, ouvia "There Is A Light That Never Goes Out", no caso pela voz de Noel Gallagher.
Esta mórbida coincidência levou-me a explorar mais a fundo a música dos The Smiths e a retirar, da sua música, uma experiência terapêutica. Terapia sobre o acidente, terapia sobre as coisas que estavam mal na minha vida e uma decisão sobre o que tinha que mudar. A subsequente revolução.
Outras bandas tiveram um papel importante nesta revolução (falarei numa delas amanhã), mas nenhuma teve uma relação tão situacional, diria até metafísica, como os The Smiths. Foram eles que me apontaram o caminho.

Tony Fletcher - autor da biografia da banda "A Light That Never Goes Out: The Enduring Saga of The Smiths" - acredita que "nenhuma outra banda conseguiu retratar a alma atormentada de um jovem como os The Smiths". Eu não arrisco nenhum epíteto deste tipo (até porque sou relativamente novo ao fenómeno), mas a verdade é que deles veio a música que melhor caracterizava a minha própria atormentada alma, num tempo de revolução.

Um dos temas chave desse meu conflito interno, que marcou os últimos meses deste ano, foi "What Difference Does It Make?".
Este tema foi o 3º single dos The Smiths, lançado em Janeiro de 1984, como aperitivo do 1º álbum da banda - o homónimo "The Smiths" - que veria a luz do dia um mês mais tarde. Acabaria por ser o único single retirado do álbum, com relativo sucesso (atingiu o nº 12 das tabelas britânicas), sendo hoje um dos temas mais reconhecidos da banda.

As duas capas do single "What Difference Does It Make?"; à esquerda a capa original, retirada do mercado e substituída pela da direita, com Morrissey; por sua vez retirada e substituída pela primeira novamente;


Em baixo fica a versão que foi lançada em single e incluída no álbum "The Smiths":




Alegadamente, "What Difference Does It Make?" é um dos temas dos The Smiths que Morrissey menos gosta. Pela minha parte, é um dos meus preferidos.

A versão que me conquistou está mais em cima no post e foi gravada ao vivo na BBC - no programa de John Peel (as Peel Sessions) - e incluída na na compilação "Hatful Of Hollow", lançada em Novembro de 1984.
Conquistou-me tanto pelo riff de Johnny Marr, como pela interpretação vocal fa-bu-lo-sa de Morrissey;  pelo desdém com que ele diz "It makes none", depois de perguntar em agonia "What difference does it ma-a-ake?"; pelo falsetto no fim.
Mas conquistou-me principalmente porque capturou um momento. Um momento numa noite feliz, numa noite de libertação, em que um DJ decidiu colocar este tema, nesta versão, a tocar numa das minhas pistas de dança preferidas de Lisboa. Num momento, cristalizou-se a bondade da música dos The Smiths; provou-se, pela enésima vez, a bondade da música na minha vida.
Que diferença é que isso faz? Faz toda.