sábado, 29 de dezembro de 2012

New Order - "True Faith"

"I feel so extraordinary, something's got a hold on me"



"Who is the laziest member of the band?
Ian Curtis. I've never seen him do anything for years!"
Peter Hook - baixista dos New Order e dos Joy Division - por volta de 1993


Não deve ter sido fácil. Perder um amigo, um amigo que era também o vocalista da banda, que era o principal autor das letras e figura de proa do grupo... Perdê-lo quando, finalmente, a banda começara a ganhar alguma notoriedade...
Não deve, não pode ter sido fácil.

Contudo, os restantes Joy Division queriam continuar a fazer música. Nem fazia sentido ser de outra forma.
A perda de Ian Curtis significava que a identidade carregadamente urbano-depressiva da banda ia também cair. As temáticas do isolamento, da alienação, ou da depressão, trazidas pela mente perturbada de Ian, dissipar-se-iam com a sua saída. Mas a música, essa, estava lá intacta.

Porém, sem Ian Curtis, os Joy Division não faziam mais sentido. Assim, Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris decidiram adoptar um novo nome e recrutar um novo elemento para as teclas - Gillian Gilbert; nasciam então os New Order.

Os primeiros singles e o primeiro álbum dos New Order, lançados entre 1981 e 1982, cheiravam ainda a Joy Division. Por vezes, isso era bom, como em "Ceremony", "Everything's Gone Green", ou "Dreams Never End", por outras nem por isso. Em todo o caso, era impossível esconder que a banda dos subúrbios de Manchester estava a passar uma fase de transição.

"I can't tell you where we're going, I guess there's just no way of knowing"

Porém, quando em 1983 rebentou "Blue Monday" e se tornou no single de 12'' mais vendido de sempre (ainda hoje detém esse título), era evidente que os New Order já tinham passado para a outra margem. Já não eram uma referência do Post-punk, eram agora um porta-estandarte do Synthpop e do New Wave. Passaram do registo urbano-depressivo para um registo "dançável".

Confesso: não sou, em geral, um apreciador de música de dança; nem sequer, num conceito mais abrangente, de música "dançável". Nunca fui.
Nunca fui... até chegar aos New Order. Talvez pelo facto de misturarem as guitarras e as influências Punk, com as influências electrónicas germânicas (Kraftwerk, etc.), como David Bowie tinha feito 6 anos antes, os New Order arrebataram-me de imediato. Primeiro, com o inevitável "Blue Monday" e depois, com este superlativo "True Faith".

"True Faith" é o meu tema preferido dos New Order, mas é mais que isso: é o meu tema preferido de toda a "música dançável"; e mais ainda: é o meu tema de 2011.

Já devo um post aos New Order há muito tempo. Pelo menos desde há um ano quando, por esta altura, deveria ter feito o balanço de 2011. Porque a escolher o Tema do ano de 2011, seria "True Faith", na sua versão de 12''. O tema que simboliza uma das melhores coisas que me aconteceu nos últimos anos.

O papel dos New Order em 2102 foi diferente, não tão centrado num tema, como em 2011, mas mais abrangente.
Se ontem falei da banda Revelação do ano - os The Smiths - hoje é tempo para a Banda do ano - a banda que mais marcou o meu quotidiano, em 2012. Como já terão percebido por esta altura, trata-se dos New Order. Curiosamente, foi uma banda que explodiu no Reino Unido, mais ou menos na mesma altura que os The Smiths.

Já a minha explosão de New Order deu-se no último trimestre de 2012, quando descobri esta pequena maravilha:


"Substance" (ou "Substance 1987", para os puristas) deixou-me cabalmente agarrado aos New Order. A partir do dia em que ouvi a versão de 12'' "The Perfect Kiss" (WTF is that?!), o resto veio de arrasto, qual enxurrada: "State of the Nation", "Everything's Gone Green",  "Ceremony", "Touched By The Hand Of God" e mais.... muito mais.

Fiquei de tal forma agarrado aos New Order, que 2012 viu a minha única interpretação de um tema em público, num karaoke de um bar. Nem mais nem menos que... "True Faith".

Depois, respeitando a minha pancada coleccionista (a partir do momento que gosto de alguma banda, tenho que ter tudo dessa banda), prima directa da minha pancada de romântico (se gosto de algo ou alguém, gosto mesmo muito), fui "obrigado" a comprar este lote:



Exacto. Falo de edições de coleccionador, expandidas, dos 4 primeiros álbuns dos New Order. Isto resultou, como já referi, num verdadeira enxurrada de New Order na fase final de 2012, o suficiente para ganharem o meu prémio de Banda do ano. E tenho para mim que isto ainda não acabou...

Nota: a versão 12'' de "The Perfect Kiss" - o meu ex libris dos New Order em 2012 - só não leva as honras deste tópico porque... Bem, porque já devia um post ao "True Faith"!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

The Smiths - "What Difference Does It Make?"

"So, what difference does it ma-a-ake?
It makes none."



"What came first? Music or the misery?
People worry about kids playing with guns or watching violent videos; that some sort of culture of violence will take them over...
Nobody worries about kids listening to thousands - literally thousands - of songs about heartbreak... rejection... pain... misery... and loss.
Did I listen to pop music because I was miserable? Or was I miserable because I listened to pop music?"
 John Cusack, como Rob Gordon, no filme "High Fidelity"




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Há uns dias atrás, um amigo confessava-me a sua convicção que "Se não fosse a música, os psicólogos e os psiquiatras teriam muito mais trabalho." Eu próprio já aqui defendi essa visão terapêutica da música várias vezes e ainda ontem, no post alusivo à importância da música de Bruce Springsteen, no desenrolar da minha vida em 2012, fiz questão de o fazer novamente.
No filme "High Fidelity" (que eu recomendo vivamente, que mais não seja porque parece contar um pouco da minha História no grande ecrã), a personagem interpretada por John Cusack - como eu, um daqueles amantes de música - levanta uma questão pertinente: ouvimos música porque nos sentimos miseráveis? Ou sentimo-nos miseráveis porque ouvimos música?
Será que a música nos tira da miséria? Ou será que prolonga o nosso sofrimento?

Excelente questão. Eu, confesso, não sei a resposta. Dependerá de pessoa para pessoa e a verdade andará algures no meio dos dois conceitos. Mas façamos uma reflexão sobre o assunto.
O que eu sei é que não vou deixar de ouvir música, por pensar que esta me pode por num lugar pior do que aquele em que estou. A História, a minha História, já me deu provas mais que suficientes em sentido contrário.

O Mundo é um lugar não raras vezes difícil. A música tem o condão de nos transportar para um lugar seguro, onde quer que estejamos, seja em que situação for. Ao ouvirmos os acordes daquele tema que gostamos, ou o som da voz terapêutica daquele artista, somos automaticamente levados para um abrigo, sãos, salvos e em segurança de todos os danos que nos possam infligir.

"I'm feeling very sick and ill today, but I'm still fond of you, oh-ho-oh"

Mas porquê, afinal, todo este discurso sobre a bondade da música e o que é que isso tem a ver com os The Smiths?
Bem, digamos que o papel dos The Smiths em 2012 foi, no mínimo, sui generis. Pode ser que no final do post, esta relação já seja perceptível.

Começo por declarar que os The Smiths levam o epíteto de Revelação do ano em 2012 e é por isso mesmo que lhes dedico este post. Claro que antes deste ano já tinha ouvido algumas coisas aqui e ali, mas ainda não estava familiarizado com o legado e a lenda da banda de Manchester.
2012 mudou tudo isso e com grande impacto. Literalmente.

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Há uns meses atrás, um certo acontecimento dramático desencadeou uma série de transformações na minha vida.
O acontecimento? Um violento choque de automóvel. A relação com os The Smiths? No exacto momento do choque, ouvia "There Is A Light That Never Goes Out", no caso pela voz de Noel Gallagher.
Esta mórbida coincidência levou-me a explorar mais a fundo a música dos The Smiths e a retirar, da sua música, uma experiência terapêutica. Terapia sobre o acidente, terapia sobre as coisas que estavam mal na minha vida e uma decisão sobre o que tinha que mudar. A subsequente revolução.
Outras bandas tiveram um papel importante nesta revolução (falarei numa delas amanhã), mas nenhuma teve uma relação tão situacional, diria até metafísica, como os The Smiths. Foram eles que me apontaram o caminho.

Tony Fletcher - autor da biografia da banda "A Light That Never Goes Out: The Enduring Saga of The Smiths" - acredita que "nenhuma outra banda conseguiu retratar a alma atormentada de um jovem como os The Smiths". Eu não arrisco nenhum epíteto deste tipo (até porque sou relativamente novo ao fenómeno), mas a verdade é que deles veio a música que melhor caracterizava a minha própria atormentada alma, num tempo de revolução.

Um dos temas chave desse meu conflito interno, que marcou os últimos meses deste ano, foi "What Difference Does It Make?".
Este tema foi o 3º single dos The Smiths, lançado em Janeiro de 1984, como aperitivo do 1º álbum da banda - o homónimo "The Smiths" - que veria a luz do dia um mês mais tarde. Acabaria por ser o único single retirado do álbum, com relativo sucesso (atingiu o nº 12 das tabelas britânicas), sendo hoje um dos temas mais reconhecidos da banda.

As duas capas do single "What Difference Does It Make?"; à esquerda a capa original, retirada do mercado e substituída pela da direita, com Morrissey; por sua vez retirada e substituída pela primeira novamente;


Em baixo fica a versão que foi lançada em single e incluída no álbum "The Smiths":




Alegadamente, "What Difference Does It Make?" é um dos temas dos The Smiths que Morrissey menos gosta. Pela minha parte, é um dos meus preferidos.

A versão que me conquistou está mais em cima no post e foi gravada ao vivo na BBC - no programa de John Peel (as Peel Sessions) - e incluída na na compilação "Hatful Of Hollow", lançada em Novembro de 1984.
Conquistou-me tanto pelo riff de Johnny Marr, como pela interpretação vocal fa-bu-lo-sa de Morrissey;  pelo desdém com que ele diz "It makes none", depois de perguntar em agonia "What difference does it ma-a-ake?"; pelo falsetto no fim.
Mas conquistou-me principalmente porque capturou um momento. Um momento numa noite feliz, numa noite de libertação, em que um DJ decidiu colocar este tema, nesta versão, a tocar numa das minhas pistas de dança preferidas de Lisboa. Num momento, cristalizou-se a bondade da música dos The Smiths; provou-se, pela enésima vez, a bondade da música na minha vida.
Que diferença é que isso faz? Faz toda.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Bruce Springsteen - "Rocky Ground"

"We've been traveling over rocky ground, rocky ground
There's a new day coming"



A próxima Escolha musical de 2012 é um habitué aqui no blog. Figura marcante da minha vida nos últimos 5 anos e vencedor em várias "categorias" neste ano, falo-vos de Bruce Springsteen que, com este post, soma já 15 entradas no blog.
Mesmo não sendo ouvido com tanta consistência como noutros anos, segundo a minha revisão, em 2012 Bruce foi o Artista no activo do ano; em grande parte devido a ter dado o Concerto do Ano (no Rock In Rio Lisboa) e a ter lançado o Tema original do ano ("Land Of Hopes And Dreams"), no seu álbum "Wrecking Ball".

"Wrecking Ball" pode ter perdido para "Shields" na categoria de Álbum original do ano, mas nem por isso Bruce Springsteen deixou de ter um papel importante no meu quotidiano, em 2012.
Uma vez que já tinha escrito um post sobre "Land Of Hopes And Dreams" (na véspera do concerto no Rock In Rio), hoje deixo aqui aquele que foi "o outro" grande tema do álbum.



"Rocky Ground" é um dos temas mais arriscados da carreira de Bruce Springsteen. Esta ofereceu-nos um filão quase inesgotável de boa música, mas sem grande diversidade. Bruce é muito forte no seu registo, mas arrisca pouco para além das suas incursões mais carregadamente folk.
Com "Rocky Ground", Bruce vai ao hip-hop (que heresia!) buscar uns loops e até põe um rap pelo meio; vai ao gospel buscar as vozes para uma paisagem harmoniosa edificante. No papel, nada disto parece ter a ver com Bruce Springsteen, mas a verdade é que em "Rocky Ground", esta mistura resulta.

Resulta ainda melhor no álbum "Wrecking Ball", com a passagem do fade-out gospel de "Rocky Ground" - tema de lamento em tempos difíceis, para o início a capella de "Land Of Hopes And Dreams" - hino de esperança. Os dois grandes temas de "Wrecking Ball" e dois temas que ilustram, e de que maneira, o meu 2012.

Se pensarmos no assunto, é incrível como a música pode ter um impacto tão grande nas nossas vidas:  conduz o nosso estado de espírito; ajuda-nos a levantar quando estamos no chão.
Mas mais que a ajuda pessoal, a música serve ainda como elo de ligação interpessoal: fortifica as amizades magoadas; dá-nos a conhecer amigos que ainda não o eram.
O concerto de Bruce Springsteen e da E Street Band no Rock In Rio foi um dos pontos mais altos do ano e foi tudo aquilo que referi. Para o bem e para o mal.

Neste post, já descrevi com bastante rigor aquilo que, para mim, foi ver Bruce Springsteen ao vivo no meu país. Mas não resisto a deixar só mais uma nota acerca da "experiência" que é um concerto da E Street Band e da autenticidade de Bruce.
James Hetfield - vocalista dos Metallica (banda de Thrash Metal, ou seja, longe do estilo de Bruce) - fala sobre a importância de ser verdadeiro na sua música:



"We went to see Bruce Springsteen the other night. I'm not the biggest fan of his music, but I watched him live and..." 
(James arregala os olhos) 
"My God, he means it!
He really means it! It's in his heart, it's in his face, it's in his eyes! 
You see him and you go.. WOW! He could go forever!"

A verdade. É isso que procuro na música de Bruce Springsteen. Não a verdade sobre Bruce, mas a verdade sobre mim. Como disse o Presidente dos EUA - Barack Obama (outro grande fã do Boss) - quando laureou Bruce Springsteen nos Kennedy Center Honors, citando o próprio:
"I’ve always believed that people listen to your music not to find out about you, but to find out about themselves."

Ao longo dos anos que a música de Bruce me acompanhou, muito já descobri sobre mim e 2012 não foi excepção. Para o bem e para o mal.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Grizzly Bear - "Speak In Rounds"

"Step back just once, learn how to be alone"



Depois do longo hiato, o blog regressa hoje para o que eu espero que seja uma ponta final de 2012 e um 2013 em força. Os últimos meses foram de grande azáfama e espero, também nesse sentido, ter novidades em breve. Para já, voltemos ao clássico modelo da Escolha musical do dia.

Estamos no fim do ano e é por isso tempo de balanço. No ano passado (2011) não tive oportunidade para fazer essa analepse aqui no blog, mas na última semana de 2010 fiz nestes posts a revisão do que ouvira nesse ano.
Como na altura referi, raramente a música que eu mais ouço num determinado ano concorre com a música que se fez nesse ano. Claro que há excepções e é nesse sentido que eu, desde os meus 14 anos,  em jeito de revisão, sistematizo os mais ouvidos do ano, dividindo as "escolhas musicais do ano" em várias categorias.
Sem mais demoras, passemos então ao Álbum original do ano (ou seja, o álbum que mais gostei de 2012, em 2012): "Shields" dos Grizzly Bear.


Tinha começado a escrever um texto a tecer loas a "Shields", mal o ouvi pela primeira vez no início de Setembro. Na altura, pensei logo que isto era o melhor que os Grizzly Bear já tinham feito. Seria impossível ouvir algo tão bom como isto até ao final de 2012, tinha instantaneamente ouvido o "álbum do ano".
Isto no ano em que um dos meus artistas preferidos - Bruce Springsteen - lançara um álbum novo, um trabalho que até ganhou o prémio de "álbum do ano" atribuído pela Rolling Stone (publicação que classificou "Shields" no 35º lugar).

Mas "Shields" deixara-me estarrecido com aquela sequência de 4 músicas iniciais ("Sleeping Ute" / "Speak In Rounds" / "Adelma" / "Yet Again") e senti uma urgência de revelar ao mundo o meu êxtase. Porém, acabei por me decidir em esperar uns meses, para deixar o álbum amadurecer em mim e, depois sim, emitir um julgamento.

Ao fim de alguns meses, qual é o meu veredicto? Exactamente o mesmo.
Um dos álbuns mais entusiasmantes do ano, "Shields" é um trabalho fabuloso dos Grizzly Bear, mas merece ser mais que isso: merece o epíteto de álbum do ano.

"Shields" mostrou uns Grizzly Bear inventivos como sempre. Para além de todo o virtuosismo técnico e sónico que lhes é reconhecido e que já fora cristalizado em "Veckatimest" (álbum que eu adorei), em  "Shields", a banda de Brooklyn conseguiu superar as minhas expectativas.
Como? Uma palavra chega, para descrever como: coração.

O meu problema com algumas bandas art-house / alternativas de hoje, tão veneradas pelas publicações hipster como a Pitchfork, deve-se precisamente à falta de coração; à falta de sentimentos que me conseguem transmitir.
A ânsia de criar algo de diferente leva a que muitas vezes a música perca o que mais tem de importante: o veículo de um sentimento.
"Play with your fu**ing heart!", já dizia o Bill Hicks.

Este é um conflito que não se aplica ao mais recente trabalho dos Grizzly Bear. Se eles me impressionaram com "Veckatimest" em 2009, em 2012 tocaram-me fundo com "Shields".

O meu momento preferido do álbum surge a meio da já referida sequência inicial, com este "Speak In Rounds".

"Shields" é um álbum com coração. É um álbum que na produção mantém o nível meticuloso, qual peça de relojoaria, mas que a isso acrescenta grandes canções. É o apogeu criativo da banda nova-iorquina.
É o meu álbum "original" de 2012.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pink Floyd - "In The Flesh?"

"So ya, thought ya, might like to... go the show!"




Quem conhece os cantos à casa aqui do blog, já decerto terá reparado no makeover a que ele foi submetido. Esta nova (temporária?) face do tasco deve-se à comemoração de uma efeméride deveras importante.

Passo a anunciar:
Acabei de comprar bilhetes para ir a Londres, ao Estádio do Wembley, ver o espectáculo "The Wall Live" de Roger Waters.

É isto. Escusado será dizer que estou nas nuvens! :)



Em primeiro lugar, ir ao estádio do Wembley, ver um concerto, sempre foi um sonho para mim. Se eu sou assim, quem sou e como sou, muito o devo àquele maravilhoso concerto dos Queen no velhinho Wembley - o "Live At Wembley '86" - com o qual eu cresci.
Foi a exposição numa idade tão tenra (segundo o meu Pai, com apenas 3 anos) àquele filme, em incessantes repetições numa (hoje decrépita) cassete de VHS (mais uma vez recorrendo ao meu Pai, a exposição era praticamente diária) que me fez chegar até aqui.
Não fosse aquele filme e hoje, mais que provavelmente não escreveria neste blog. Em vez de torrar dinheiro em música (desde concertos, a CD's, DVD's, Vinyl e por aí fora...), talvez o meu hobby fosse filatelia ou numismática e seria certamente uma pessoa bem mais aborrecida. O meu obrigado ao meu Pai, por me expor àquela maravilhosa cassete.
Mas já estou a divagar.

A verdade é que o Estádio do Wembley sempre fez parte do meu imaginário, desde criança, até aos dias de hoje. Até a minha banda de adolescência - os Oasis - tocaram ali e lançaram um álbum (e correspondente vídeo) ao vivo para marcar a ocasião.



É verdade que já lá não está o velhinho e mítico Estádio do Wembley. Já não é o mesmo edifício onde tocaram os Queen, ou onde o Rei Mercury brilhou no Live Aid. Mas o local é o mesmo e o misticismo mora todo ali. O novo estádio, inaugurado em 2007 por George Michael, é uma infraestrutura moderna, ainda mais megalómana que a anterior (com capacidade até 105 mil (!!) espectadores para concertos) e mais bem preparada para este tipo de eventos.



Agora pensem comigo: partindo do princípio que é impossível eu ver os Queen de volta ao Wembley (e lamento, mas o somatório Brian May + Roger Taylor + um vocalista amigo, não qualifica como Queen), que melhor ocasião poderia haver para cumprir o sonho de ver ali um concerto, que aquele que é provavelmente o espectáculo mais majestoso da História do Rock, como pude comprovar na visita de Roger Waters ao Pavilhão Atlântico no dia 21 de Março de 2011?

Quando é que vou voltar a ter a chance de ver ao vivo, no emblemático Estádio do Wembley, o Roger Waters, a tocar um dos meus álbuns preferidos e (já agora arrisco), com a provável "aparição especial" de David Gilmour para tocar o solo de "Comfortably Numb" (conforme fez no o2 Arena, em Maio do ano passado)?

Só de pensar em toda esta conjugação de factores, já estou com um orgasmo mental!
Venha daí o 14 de Setembro de 2013!!!! :)


domingo, 4 de novembro de 2012

Queen - "One Vision"

"syaw suoiretsym ni skrow doG"



Hoje. Faz hoje exactamente 27 anos que os Queen lançaram "One Vision" em single no Reino Unido. Um dos meus temas preferidos dos Queen.

O tema foi inspirado na experiência que a banda viveu no "Live Aid", poucos meses antes, no Estádio de Wembley e no famoso discurso de Martin Luther King Jr.. Esta onda de solidariedade que os Queen viviam na época, depois dos turbulentos anos vividos na primeira metade dos anos 80, levou a que banda esquecesse as disputas internas e se unisse em torno de um tema.

Uma composição original de Roger Taylor, desenvolvida em conjunto com Freddie Mercury e Brian May nos estúdios Musicland em Munique (John Deacon estava de férias e só mais tarde juntaria as suas partes de baixo), "One Vision" foi a primeira faixa a ser creditada a todos os membros dos Queen.

O lançamento de "One Vision" serviria também de primeira amostra do álbum "A Kind Of Magic", que só veria a luz do dia em Junho de 1986. Até lá, "One Vision" seria ainda incluído na banda sonora do (de resto desinteressante) filme "Iron Eagle".
O single contou com o bizarro "Blurred Vision" como Lado B, tanto na versão de 7'', como de 12''. Este último teve direito a versões "Extended" de ambos os temas.


 




Na época, os Queen abriram uma excepção (única) ao longo da carreira da banda e deixaram as câmaras entrar nos Musicland Studios, para filmarem um pouco do seu processo criativo. As filmagens resultariam no vídeo promocional de "One Vision" e num documentário muito interessante, onde se vê a banda a trabalhar no tema, com algumas palhaçadas à mistura:



O meu momento preferido deste documentário, surge no fim, quando ouvimos Freddie Mercury a brincar às palavras, enquanto a lírica do tema ainda não estava definida:
"One man, one goal, one true religion.
One dump, one turd, two tits, John Deacon!
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah! Ckicken feed, babe!
One heart, one soul, one sex position!
One flesh, one night!
One dog, that one religion!
One shrimp, one bra, one clam, one chicken!
One Man, one goal!
One vi-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-vision!"


Hoje. Faz hoje exactamente 27 anos que os Queen lançaram "One Vision" em single no Reino Unido.
Quis o destino que a milhares de quilómetros, nesse mesmo dia, nascesse um enorme fã da banda...

sábado, 3 de novembro de 2012

David Bowie - "Time"

"Love has left you dreamless. The door to dreams was closed."



Perdido entre a ressaca do sucesso de "The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars" e a teatralidade de "Diamond Dogs", o álbum "Aladdin Sane" aparece como uma espécie de filho bastardo de Ziggy Stardust. Uma compilação desconexa de temas sobre decadência, o álbum revela (como normalmente acontece) o momento que David Bowie viva na altura.
"Ziggy goes to America", foi como Bowie descreveu "Aladdin Sane".



"Aladdin Sane" é, de facto, o outro álbum de Ziggy Stardust. Mas quem daqui concluir que "Aladdin Sane" não tem motivos de interesse, não pode estar mais longe da verdade.

David Bowie introduzira este personagem ao Mundo em Julho de 1972, com "The Rise And Fall Of Ziggy Stardust" (chamemo-lo apenas "Ziggy Stardust" a partir de agora...) e este trabalho elevara-o ao estatuto de super-estrela internacional. A digressão americana que se seguiu, serviu de inspiração para grande parte da escrita de "Aladdin Sane".

"All I had to give was the guilt for dreaming."

Experimentando um estilo de vida hedonístico, onde o álcool, as drogas e o sexo fácil eram partes do quotidiano, a personalidade absorvente de David Bowie dissolvia-se dia após dia naquela espiral decadente.
Enquanto tal acontecia, Bowie ia escrevendo canções, desenvolvendo uma fixação na cultura americana; canções que resultariam em "Aladdin Sane", lançado em Julho de 1973. Estas canções não formavam uma história, nem seguiam uma linha condutora, como em "Ziggy Stardust". Eram apenas páginas soltas de uma vida agarrada ao ponto mais alto do céu, enquanto batia no fundo do poço.
"Strung out on heaven's high, hitting an all time low", escreveria Bowie no autobiográfico "Ashes To Ashes", uns anos mais tarde.

Neste sentido, "Aladdin Sane" é um álbum que, no meio da sua esquizofrenia e falta de fio condutor, resulta pela força individual dos temas que o compõem. E aqui, olhando para os temas individualmente, arrisco dizer que não fica a dever nada ao seu antecessor.

"Time - He's waiting in the wings, he speaks of senseless things... His script is you and me"

O meu momento preferido de "Aladdin Sane" surge no início do Lado B. "Time" foi escrito por David Bowie em Nova Orleães, Novembro de 1972, durante a já referida digressão de Ziggy Stardust pelos EUA.
O tema foi descrito pela crítica como uma peça burlesca e comparada à música de cabaret de Jacques Brel. Tal como o álbum onde aparece, "Time" dividiu as opiniões, entre os que aclamavam a nova abordagem erudita de Bowie e o melodramatismo do tema e os que achavam que Bowie se devia cingir ao Rock. Como a história se encarregaria de provar, Bowie fez muito bem em nunca se cingir a qualquer estilo definido e os seus melhores trabalhos resultariam sempre das fusões musicais nascidas na sua cabeça.



O nome do álbum é um trocadilho com "A lad insane", referindo-se obviamente ao próprio David Bowie. Embora "Aladdin Sane" possa ser visto como um novo personagem, tendo em conta a sugestiva pintura facial que Bowie apresenta na capa, Aladdin não é mais que um desenvolvimento de Ziggy Stardust. Mesmo a digressão de promoção a "Aladdin Sane" foi apenas a continuação do espectáculo de Ziggy Stardust, acompanhado dos Spiders From Mars.

No fim da digressão, num concerto no lendário Hammersmith Odeon a 3 de Julho de 1973, David Bowie matou Ziggy Stardust e seguiu em frente com a sua vida e a sua carreira.



David Bowie ressuscitaria David Bowie uma última vez no Marquee, em Outubro de 1973, curiosamente para interpretar "Time", numa actuação para a televisão: