domingo, 4 de novembro de 2012

Queen - "One Vision"

"syaw suoiretsym ni skrow doG"



Hoje. Faz hoje exactamente 27 anos que os Queen lançaram "One Vision" em single no Reino Unido. Um dos meus temas preferidos dos Queen.

O tema foi inspirado na experiência que a banda viveu no "Live Aid", poucos meses antes, no Estádio de Wembley e no famoso discurso de Martin Luther King Jr.. Esta onda de solidariedade que os Queen viviam na época, depois dos turbulentos anos vividos na primeira metade dos anos 80, levou a que banda esquecesse as disputas internas e se unisse em torno de um tema.

Uma composição original de Roger Taylor, desenvolvida em conjunto com Freddie Mercury e Brian May nos estúdios Musicland em Munique (John Deacon estava de férias e só mais tarde juntaria as suas partes de baixo), "One Vision" foi a primeira faixa a ser creditada a todos os membros dos Queen.

O lançamento de "One Vision" serviria também de primeira amostra do álbum "A Kind Of Magic", que só veria a luz do dia em Junho de 1986. Até lá, "One Vision" seria ainda incluído na banda sonora do (de resto desinteressante) filme "Iron Eagle".
O single contou com o bizarro "Blurred Vision" como Lado B, tanto na versão de 7'', como de 12''. Este último teve direito a versões "Extended" de ambos os temas.


 




Na época, os Queen abriram uma excepção (única) ao longo da carreira da banda e deixaram as câmaras entrar nos Musicland Studios, para filmarem um pouco do seu processo criativo. As filmagens resultariam no vídeo promocional de "One Vision" e num documentário muito interessante, onde se vê a banda a trabalhar no tema, com algumas palhaçadas à mistura:



O meu momento preferido deste documentário, surge no fim, quando ouvimos Freddie Mercury a brincar às palavras, enquanto a lírica do tema ainda não estava definida:
"One man, one goal, one true religion.
One dump, one turd, two tits, John Deacon!
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah! Ckicken feed, babe!
One heart, one soul, one sex position!
One flesh, one night!
One dog, that one religion!
One shrimp, one bra, one clam, one chicken!
One Man, one goal!
One vi-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-v-vision!"


Hoje. Faz hoje exactamente 27 anos que os Queen lançaram "One Vision" em single no Reino Unido.
Quis o destino que a milhares de quilómetros, nesse mesmo dia, nascesse um enorme fã da banda...

sábado, 3 de novembro de 2012

David Bowie - "Time"

"Love has left you dreamless. The door to dreams was closed."



Perdido entre a ressaca do sucesso de "The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars" e a teatralidade de "Diamond Dogs", o álbum "Aladdin Sane" aparece como uma espécie de filho bastardo de Ziggy Stardust. Uma compilação desconexa de temas sobre decadência, o álbum revela (como normalmente acontece) o momento que David Bowie viva na altura.
"Ziggy goes to America", foi como Bowie descreveu "Aladdin Sane".



"Aladdin Sane" é, de facto, o outro álbum de Ziggy Stardust. Mas quem daqui concluir que "Aladdin Sane" não tem motivos de interesse, não pode estar mais longe da verdade.

David Bowie introduzira este personagem ao Mundo em Julho de 1972, com "The Rise And Fall Of Ziggy Stardust" (chamemo-lo apenas "Ziggy Stardust" a partir de agora...) e este trabalho elevara-o ao estatuto de super-estrela internacional. A digressão americana que se seguiu, serviu de inspiração para grande parte da escrita de "Aladdin Sane".

"All I had to give was the guilt for dreaming."

Experimentando um estilo de vida hedonístico, onde o álcool, as drogas e o sexo fácil eram partes do quotidiano, a personalidade absorvente de David Bowie dissolvia-se dia após dia naquela espiral decadente.
Enquanto tal acontecia, Bowie ia escrevendo canções, desenvolvendo uma fixação na cultura americana; canções que resultariam em "Aladdin Sane", lançado em Julho de 1973. Estas canções não formavam uma história, nem seguiam uma linha condutora, como em "Ziggy Stardust". Eram apenas páginas soltas de uma vida agarrada ao ponto mais alto do céu, enquanto batia no fundo do poço.
"Strung out on heaven's high, hitting an all time low", escreveria Bowie no autobiográfico "Ashes To Ashes", uns anos mais tarde.

Neste sentido, "Aladdin Sane" é um álbum que, no meio da sua esquizofrenia e falta de fio condutor, resulta pela força individual dos temas que o compõem. E aqui, olhando para os temas individualmente, arrisco dizer que não fica a dever nada ao seu antecessor.

"Time - He's waiting in the wings, he speaks of senseless things... His script is you and me"

O meu momento preferido de "Aladdin Sane" surge no início do Lado B. "Time" foi escrito por David Bowie em Nova Orleães, Novembro de 1972, durante a já referida digressão de Ziggy Stardust pelos EUA.
O tema foi descrito pela crítica como uma peça burlesca e comparada à música de cabaret de Jacques Brel. Tal como o álbum onde aparece, "Time" dividiu as opiniões, entre os que aclamavam a nova abordagem erudita de Bowie e o melodramatismo do tema e os que achavam que Bowie se devia cingir ao Rock. Como a história se encarregaria de provar, Bowie fez muito bem em nunca se cingir a qualquer estilo definido e os seus melhores trabalhos resultariam sempre das fusões musicais nascidas na sua cabeça.



O nome do álbum é um trocadilho com "A lad insane", referindo-se obviamente ao próprio David Bowie. Embora "Aladdin Sane" possa ser visto como um novo personagem, tendo em conta a sugestiva pintura facial que Bowie apresenta na capa, Aladdin não é mais que um desenvolvimento de Ziggy Stardust. Mesmo a digressão de promoção a "Aladdin Sane" foi apenas a continuação do espectáculo de Ziggy Stardust, acompanhado dos Spiders From Mars.

No fim da digressão, num concerto no lendário Hammersmith Odeon a 3 de Julho de 1973, David Bowie matou Ziggy Stardust e seguiu em frente com a sua vida e a sua carreira.



David Bowie ressuscitaria David Bowie uma última vez no Marquee, em Outubro de 1973, curiosamente para interpretar "Time", numa actuação para a televisão:


sábado, 27 de outubro de 2012

Freddie Mercury - "The Great Pretender"

"My need is such, I pretend too much. I'm lonely but no one can tell"



"I don't like to write message songs, like John Lennon or Stevie Wonder. I like to write songs about what I feel and what I feel about, very strongly, is love and emotion." 
King Mercury

Acabei de assistir ao novo documentário sobre a vida e a música do Rei - Freddie Mercury, apropriadamente baptizado de "Freddie Mercury: The Great Pretender". O documentário foi realizado este ano por Rhys Thomas, para a BBC e foi recentemente lançado em DVD e Blu-Ray.


Eu vi a versão completa do Blu-Ray, de 107 minutos e que dizer...? O único problema destes documentários é que acabam sempre em tragédia... Foi uma hora e meia de carpidura a baba e ranho.
Não sou de chorar em filmes, mas é porem-me a ver uma biografia dos Queen, ou do Freddie Mercury e logo vêem como é...




Disse que o documentário foi apropriadamente chamado de "Freddie Mercury: The Great Pretender". Apropriadamente, porque foi exactamente assim que Freddie viveu: fingindo.
Mas não é isso que todos fazemos, até um determinado nível, nas nossas vidas? Até a mais genuína das pessoas é obrigada a fingir, ou foi obrigada nalgum dia, ou nalgum aspecto da sua vida. Seja para se sentir inserida na sociedade, para agradar a alguém, para cumprir um desafio.

Parte da nossa vida é feita a fingir.

Fingir que somos mais fortes. Fingir que somos mais divertidos. Fingir que somos mais dinâmicos.
Para chegarmos onde queremos, somos muitas vezes obrigados a usar uma máscara e ser aquilo que não somos. A vida é isto mesmo.
"Too real is this feeling of make-believe
Too real when I feel what my heart can't conceal"

Isto tinha especial relevância para Freddie Mercury, um homem que usava em palco a máscara de macho dominante, mas que não se traduzia na realidade. Segundo o próprio, Freddie considerava-se uma "pessoa aborrecida" na vida privada, quando despia a sua persona de artista. No entanto, com esta vestida, Freddie era uma força da natureza: uma voz divina aliada a uma presença em palco como nunca se tinha visto e nunca se voltou a ver.

Ao longo do documentário, Freddie aparece várias vezes em discurso directo sobre a sua personalidade, a sua maneira de estar e as suas fraquezas.
Freddie era uma pessoa frágil. A sua persona artística era uma máscara que o protegia disso mesmo. Ao elevar-se ao patamar de estrela Rock inacessível, Freddie guardava uma distância de segurança em relação às pessoas. A páginas tantas, Freddie refere-se à dificuldade que tem em encontrar alguém que o compreenda:
"People have a hard time to accept me as a normal person."
"I'd like to share my life with someone, but nobody wants to share their life with me"
"The more I open up, the more I get hurt. I'm riddled with scars and I just don't want anymore."

Freddie formulara a sua persona para se distanciar de quem o magoara, mas no fim de contas, a sua persona alienava as outras pessoas da sua verdadeira maneira de estar, por vezes mais calma e até "aborrecida". Freddie atara um novelo paradoxal com a sua personalidade e a única forma de fugir a isso seria, uma vez mais, fingindo.

"Oh yes, I'm the great pretender, pretending I'm doing well"

Por outro lado, Freddie era uma pessoa muito intensa (ver citação depois do vídeo) e isso não é, de todo, uma característica com que é fácil lidar. Pelo menos é o que me vão dizendo, pelo que me posso identificar com este outro paradoxo da sua vida.
Como mostrar o apreço por alguém sem o fazer de maneira exagerada? Como mimar alguém, sem assustar? Qual a medida certa? Eu nunca soube, Freddie também não.
Como ultrapassar isto? Fingindo.
"I seem to be what I'm not, you see!"

"The Great Pretender" é por isso um tema que encaixa que nem uma luva em Freddie Mercury. É um tema escrito por Buck Ram, para os The Platters, originalmente lançado em 1955. Foi o primeiro e único cover lançado por Freddie Mercury ao longo da sua carreira, algo que, segundo o próprio diz no documentário, ele sempre quisera fazer, mas que seria impossível nos Queen.
A interpretação de Freddie foi um sucesso (chegou a nº 4 nas tabelas britânicas) que ainda hoje é tocado nas rádios, sendo muito mais reconhecida que a versão original.



O documentário é obrigatório para quem gosta dos Queen, especialmente para quem, como eu, tem grande admiração por Freddie Mercury. Depois do meu Pai, o meu ídolo de sempre.

domingo, 21 de outubro de 2012

Guns N' Roses - "Out Ta Get Me" (Live At The Ritz '88)

‎"I don't know, what by chance, the television audience will see... what anyone will see.
But what we'll see tonight..."



"We want to dedicate this song to the people that try to hold you back!
The people that tell you how to live!
People that tell you how to dress!
People that tell you how to talk!
People that tell you what you can say, and what you can't say...
I personally don't need that! I don't need that shit in my life!
Those are the kind of people that get me down. They make me feel like somebody, somebody out there... is OUT TA GET ME!"

Para lá das minhas bandas preferidas de sempre - os Queen e os Pink Floyd - bandas de quem sou fã desde que me lembro de existir e que acompanharam o meu crescimento como Homem e como ouvinte, houve 3 artistas/bandas que revolucionaram a minha vida: nos despreocupados anos de adolescência, pré-faculdade, houve os Oasis; mais recentemente, quando comecei a provar os sabores amargos da vida, apareceu Bruce Springsteen; e entre estes dois, vivia eu os meus revoltados anos de faculdade, os Guns N' Roses. Foram estes os artistas que maior impacto tiveram em mim.



Nos árduos anos do Técnico, o impacto dos Guns N' Roses na minha vida foi completamente transversal. A música dos Guns trouxe-me o ímpeto da revolta: fez-me virar contra o estado das coisas que passavam à minha volta e, mais importante que isso, tomar atitudes nesse sentido.

Mudou a música que ouvia.
Os Guns foram o ponto de partida para toda a música mais pesada que comecei a ouvir a partir daqui, desde o Heavy dos clássicos Deep Purple, Black Sabbath, ou Led Zeppelin, até ao Thrash Metal dos Metallica.

Mudou a roupa que vestia.
A partir do momento em que mergulhei na tecnosfera dos Guns, defini um estilo de roupa que me acompanha até hoje: calças de ganga, T-shirt, casaco de cabedal preto e óculos Ray-Ban Aviator. Basta olhar para a foto no meu perfil para se perceber a ideia.
O estilo acompanha-me até hoje, sim, mas desde que saí da faculdade apenas aos fins-de-semana. Durante a semana, outro estilo mais formal se desenvolveu, mas sempre pincelado com o original, nunca prescindindo do casaco de cabedal, nem dos óculos.
You are what you wear, já diz o ditado.

Mudou o penteado que usava.
Esta foi uma das maiores revoluções, que o diga a minha namorada da altura. Do corte "jovem" de cabelo espetado e moldado com gel, passei a usar longos cabelos ondulados. Ah e barba comprida, também. De barba e cabelos compridos, se vestisse um manto branco e aparecesse sem aviso nas instalações do antigo cinema Império, era capaz de confundir algumas cabeças.
Infelizmente este penteado não foi muito duradouro; depois de muitos desgostos às minhas avós, acabaria por desaparecer poucos dias antes de começar a trabalhar. Contingências da sociedade.

Mudou a minha forma de pensar.
Dentro das certezas que compõem o motor que move a nossa vida, todos temos as nossas dúvidas. Nesta fase, algumas foram colocadas de cima da mesa.
Tudo foi posto em causa na minha vida. O que é que eu andava a fazer? Os estudos universitários eram o caminho correcto? Era feliz? Era preciso romper com algo que se passava na minha vida? Os dogmas que carregava faziam algum sentido?

Neste ímpeto de revolução, passou mesmo pela minha cabeça deixar os estudos de Engenharia e enveredar pela... rádio. Depois de uma chamada telefónica ébria com a minha mãe, a ideia foi obviamente abortada. Mas ficou para sempre implantada no sub-consciente...

Em suma, a música dos Guns N' Roses mudou a música que eu ouvia, mudou a roupa que eu vestia, mudou o penteado que eu usava e mudou até a forma como eu pensava relativamente a alguns assuntos.
Se isto não encarna o poder da música numa pessoa, então não sei o que será.

Todo este poder teve como base não só a música dos Guns N' Roses, mas também a sua imagem. Principalmente a imagem do concerto que deram no Ritz Hotel, em Nova Iorque, na noite de 2 de Fevereiro de 1988. O DVD deste concerto foi tocado tantas vezes pelo meu leitor, que praticamente gastou o disco.
A música que os Guns tocavam, a maneira como eles se vestiam, a forma como eles se mexiam... Para um jovem que acabara de chegar sozinho à grande cidade, tudo ali puxou o gatilho da mudança na minha vida.

O tema que aqui fica é "Out Ta Get Me", parte do superlativo "Appetite For Destruction", álbum epitomador da revolta contra a sociedade. Antes de Izzy e Slash arrancarem com o riff de "Out Ta Get Me", Axl Rose faz um dos discursos mais inflamados que já ouvi num concerto rock, combustível para os ouvidos de um jovem revoltado. Puro veneno.


Na crista da crescente onda de sucesso do álbum "Appetite For Destruction" (lançado a Julho de 1987), os Guns mostraram-se aqui na sua forma pura e crua: um gangue de miúdos rebeldes, cheios de álcool e drogas no corpo; a tocar Rock pesado, reminiscente das bandas dos anos 70, mas com o cabelo das bandas de Hair Metal de então.
O mais electrizante os concertos Rock em filme. Pode mudar uma vida. A minha mudou.

sábado, 20 de outubro de 2012

José Régio - "Cântico Negro"

Ontem pensei em qual seria o meu poema preferido. O primeiro que me lembrei foi o "Cântico Negro", de José Régio. Este poema foi incluído no seu primeiro livro de antologia - "Poemas de Deus e do Diabo", publicado originalmente em 1925.

Já não lia o "Cântico Negro" há anos. Ontem procurei-o na net, imprimi-o num A4 e fechei-me no carro durante 2 minutos para voltar a ler o poema. Uma leitura, um take. O resultado foi este:



Já tinha saudades de ler poesia.
Hoje a palavra escrita dá lugar à palavra falada e a única música que se ouve são as palavras de José Régio. Fica aqui o fabuloso poema na íntegra:

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos... 
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. 
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Mihály Víg - "Valuska"



Todos procuramos no cinema (e em qualquer forma de arte) algo de particular.
Procuremos o riso e temos as comédias relaxantes que povoam os fins de tarde na televisão; procuremos o romance e temos as comédias românticas que enchem os video-clubes; procuremos vestir a pele de um herói por 2 horas e temos os filmes de acção do James Bond; enfim, e por aí fora, só para dar alguns exemplos do cinema mais comercial.

De quando em vez, também procuro no cinema um dos tópicos que listei em cima, mas confesso que cada vez tenho menos paciência para tais lugares comuns. Não levem isto como uma posição de snobismo, eu continuo a venerar os filmes do James Bond e não perdi a estreia do último "American Pie" (já agora, o filme que mais me fez rir da saga).
Porém, em sentido contrário, cada vez mais sou atraído pelos circuitos de cinema indie (ou alternativos), os quais nos oferecem um leque de sensações bem diferentes.

Acabar de ver um filme e ficar, estupefacto, a olhar para o ecrã negro durante alguns minutos; sair da sala de cinema a matutar; ficar o resto da semana com o filme colado na nossa mente; são estas as sensações que procuro nestes dias, algo ao alcance de muito poucos realizadores.

Já dei um excelente exemplo disso mesmo, aqui, quando descrevi (ou tentei) a minha experiência esvaziante de ver "A Torinói Ló" ("O Cavalo de Turim"), de Béla Tarr, numa sala de cinema.
Esvaziante, porque foi de profundo vazio, o sentimento com que o filme me deixou. Como um pano seco, outrora húmido, depois de torcido vigorosamente.

Como tive a oportunidade de referir na altura, à falta de acção no filme, um dos "aspectos chave" era a sua banda sonora, a cargo de Mihály Vig. Ora, se "A Torinói Ló" foi a última longa metragem de Béla Tarr, foi também o último capítulo de uma longa história de colaborações entre Béla e Mihály, que começou em 1984. A saber (entre parêntesis os nomes em inglês e/ou em português, quando disponíveis):
- "Őszi Almanach" ("Autumn Almanac") - 1984
- "Kárhozat" ("Damnation" / "Danação") - 1988
- "Az utolsó hajó" - 1990 [curta-metragem]
- "Sátántangó" ("Satan's Tango" / "O Tango de Satanás") - 1994
- "Utazás az Alföldön" ("Journey on the Plain") - 1995 [curta-metragem]
- "Werckmeister Harmóniák" ("Werckmeister Harmonies" / "As Harmonias de Werckmeister") - 2000
- "A Londoni Férfi" ("The Man From London" / "O Homem de Londres") - 2007
- "A Torinói Ló" ("The Turin Horse" / "O Cavalo de Turim") - 2011

Na prática, isto significa que Mihály Vig foi o autor da banda sonora de todas as longas-metragens de Béla Tarr desde 1984, bem como de algumas curtas. Note-se que algumas destas obras ("O Tango de Satanás", "As Harmonias de Werckmeister" e "Danação") estão previstas para lançamento em DVD, ainda este mês, pela Midas Filmes.

Não sei muito sobre Mihály Víg e a pesquisa sobre ele não é fácil, devido à imperceptibilidade do idioma magiar. Mas sei que a sua música é um complemento fundamental dos filmes de Béla Tarr, especialmente tendo em conta o tipo de cinema "contemplativo" do realizador húngaro.
Mais do que isso, as bandas sonoras de Mihály Víg nos filmes de Béla Tarr são uma obra em si mesmo.



É uma pena que não esteja disponível (pelo menos, que eu saiba) para compra, uma compilação exaustiva destas bandas sonoras, mas em 2001 foi lançado um álbum que faz parte desse trabalho: "Filmzenék Tarr Béla filmjeihez". Esta compilação junta os temas chave das bandas sonoras de 4 filmes de Béla Tarr: "Őszi Almanach", "Kárhozat", "Sátántangó" e "Werckmeister Harmóniák".
O alinhamento é o seguinte:

"Filmzenék Tarr Béla filmjeihez" (2001)

"Őszi almanach":
1. "Főcím" (1:13)
2. "Lukin" (1:37)
3. "Őskígyó" (1:27)
4. "Lengyelország" (1:42)
5. "Pajesz" (2:00)
6. "Synth" (1:46)
"Kárhozat":
7. "Csille" (1:33)
8. "Kész az egész" (8:18)
9. "Eső I." (4:24)
10. "R&R" (4:47)
11. "Lassú tánc" (5:05)
12. "Körtánc I." (5:38)
13. "Vonósnégyes" (1:44)
"Sátántangó":
14. "Harang I." (2:47)
15. "Eső II." (1:40)
16. "Halics" (3:46)
17. "Szabad egy tangót?" (3:04)
18. "Körtánc II." (5:24)
19. "Pityi" (0:13)
20. "Harang II." (1:33)
"Werckmeister harmóniák":
21. "Valuska" (4:14)
22. "Öreg" (10:00)

O tema que eu aqui deixo é "Valuska" de "Werckmeister Harmóniák" e é o meu preferido de Mihály Vig. Mais do que isso, "Valuska" é um dos meus temas preferidos de sempre, no que a bandas sonoras diz respeito. Principalmente se for ouvido e contextualizado, com a cena do filme em que aparece.



Valuska é o nome do personagem principal do filme. Nesta cena, depois de ser expulso de um bar, Valuska caminha sozinho no frio da noite, pela rua vazia, escondido entre as sombras dos candeeiros de rua. A cada passo de Valuska, a câmara afasta-se mais e mais, revelando a natureza solitária da sua existência.


Um homem só, caminhando pela rua escura e deserta, no frio cru da noite.

Este plano da caminhada solitária de Valuska dura aproximadamente 2 minutos (nada de especial, na escala de Béla Tarr) e é, na minha opinião, o mais poderoso de toda a obra cinematográfica do húngaro. É um plano que condensa toda a força que o cinema do realizador nos despeja: toca-nos no fundo da alma; mexe com a complexa profundeza da psique.
Como?
Mostrando num plano, numa simples metáfora, numa soma de imagem e som, algo que personifica toda a história de uma vida.

Todos procuramos algo no cinema. Às vezes, sem querer, encontramo-nos.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Sting - "Brand New Day"

"Somanu stana stano stino remono remulibo lafulê
Stabinaf a BRAND NEW DAY!!"



Gosto do Sting. No final dos anos 70 / início dos anos 80 liderou os The Police - uma banda Rock de enorme sucesso, com Stewart Copeland e Andy Summers, que fazia um cruzamento curioso entre o Post Punk e o Reggae. De 1978 a 1983, os The Police lançaram 5 álbuns, alguns deles muito bons e depois de atingirem o seu ponto alto com "Synchronicity", Sting desfez a banda.

Entretanto, Sting atingira o estrelato do panorama musical, o que o levou, entre outras coisas, a assumir participações de destaque na Band Aid e no Live Aid, ou a ser convidado para gravar com os artistas de maior sucesso da época. Casos de "Money For Nothing" com os Dire Straits (aqui na versão estúdio e aqui ao vivo no Live Aid), tema do álbum "Brothers In Arms", e de "Long, Long Way To Go" com Phil Collins (aqui no Live Aid), que apareceu no seu álbum blockbuster "No Jacket Required" (aqui no álbum).

Como disse, gosto do Sting. O homem tem talento, sabe escrever uma canção e aprendeu a adornar as paisagens sonoras dos seus temas como ninguém. No entanto, para mim a sua carreira a solo é uma caixa de melões, que só depois de abertos é que se sabe se estão bons para consumo.

Mas o meu maior problema com o "Sting moderno" é este ter perdido a sua espontaneidade na música, em detrimento de uma excessiva preocupação com o detalhe da produção e a ornamentação sonora; e ter perdido a sua espontaneidade na lírica, em detrimento de uma eloquência erudita, que faz com que demasiadas vezes o ouvinte não perceba que raio ele está ali a cantar. Se a isto juntarmos um inusitado uso da métrica, de modo a conseguir atafulhar o maior número de sílabas num verso, então Sting torna os seus temas praticamente imperceptíveis.

Claro que não fui o primeiro a reparar na "viragem criativa" de Sting, pelo que esta sua característica peculiar foi aproveitada magistralmente por Seth MacFarlane em Family Guy:
"I promise you'll understand all the words. Not like Sting, where you can only understand the last 3!"




Não é que eu (e presumo, a malta do Family Guy) não goste de "Brand New Day", ou de Sting. Mas é impossível deixar de reparar na montanha de coisas que Sting quer expressar num simples verso. Ele é realmente alguém com muito para dizer.
Isto complica a vida, e de que maneira, à malta que gosta de cantar ao som das músicas de Sting (talvez ele não goste de sing-alongs). O melhor que podem fazer é balbuciar uns fonemas quaisquer até chegar a parte reconhecível do título da música.
Agora que penso nisto, lembro-me que tal dificuldade já foi sentida, em tempos, por um outro britânico:




ALELUIA!

Porque hoje, especialmente hoje, começa um novo dia para mim.