sábado, 20 de outubro de 2012

José Régio - "Cântico Negro"

Ontem pensei em qual seria o meu poema preferido. O primeiro que me lembrei foi o "Cântico Negro", de José Régio. Este poema foi incluído no seu primeiro livro de antologia - "Poemas de Deus e do Diabo", publicado originalmente em 1925.

Já não lia o "Cântico Negro" há anos. Ontem procurei-o na net, imprimi-o num A4 e fechei-me no carro durante 2 minutos para voltar a ler o poema. Uma leitura, um take. O resultado foi este:



Já tinha saudades de ler poesia.
Hoje a palavra escrita dá lugar à palavra falada e a única música que se ouve são as palavras de José Régio. Fica aqui o fabuloso poema na íntegra:

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos... 
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. 
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Mihály Víg - "Valuska"



Todos procuramos no cinema (e em qualquer forma de arte) algo de particular.
Procuremos o riso e temos as comédias relaxantes que povoam os fins de tarde na televisão; procuremos o romance e temos as comédias românticas que enchem os video-clubes; procuremos vestir a pele de um herói por 2 horas e temos os filmes de acção do James Bond; enfim, e por aí fora, só para dar alguns exemplos do cinema mais comercial.

De quando em vez, também procuro no cinema um dos tópicos que listei em cima, mas confesso que cada vez tenho menos paciência para tais lugares comuns. Não levem isto como uma posição de snobismo, eu continuo a venerar os filmes do James Bond e não perdi a estreia do último "American Pie" (já agora, o filme que mais me fez rir da saga).
Porém, em sentido contrário, cada vez mais sou atraído pelos circuitos de cinema indie (ou alternativos), os quais nos oferecem um leque de sensações bem diferentes.

Acabar de ver um filme e ficar, estupefacto, a olhar para o ecrã negro durante alguns minutos; sair da sala de cinema a matutar; ficar o resto da semana com o filme colado na nossa mente; são estas as sensações que procuro nestes dias, algo ao alcance de muito poucos realizadores.

Já dei um excelente exemplo disso mesmo, aqui, quando descrevi (ou tentei) a minha experiência esvaziante de ver "A Torinói Ló" ("O Cavalo de Turim"), de Béla Tarr, numa sala de cinema.
Esvaziante, porque foi de profundo vazio, o sentimento com que o filme me deixou. Como um pano seco, outrora húmido, depois de torcido vigorosamente.

Como tive a oportunidade de referir na altura, à falta de acção no filme, um dos "aspectos chave" era a sua banda sonora, a cargo de Mihály Vig. Ora, se "A Torinói Ló" foi a última longa metragem de Béla Tarr, foi também o último capítulo de uma longa história de colaborações entre Béla e Mihály, que começou em 1984. A saber (entre parêntesis os nomes em inglês e/ou em português, quando disponíveis):
- "Őszi Almanach" ("Autumn Almanac") - 1984
- "Kárhozat" ("Damnation" / "Danação") - 1988
- "Az utolsó hajó" - 1990 [curta-metragem]
- "Sátántangó" ("Satan's Tango" / "O Tango de Satanás") - 1994
- "Utazás az Alföldön" ("Journey on the Plain") - 1995 [curta-metragem]
- "Werckmeister Harmóniák" ("Werckmeister Harmonies" / "As Harmonias de Werckmeister") - 2000
- "A Londoni Férfi" ("The Man From London" / "O Homem de Londres") - 2007
- "A Torinói Ló" ("The Turin Horse" / "O Cavalo de Turim") - 2011

Na prática, isto significa que Mihály Vig foi o autor da banda sonora de todas as longas-metragens de Béla Tarr desde 1984, bem como de algumas curtas. Note-se que algumas destas obras ("O Tango de Satanás", "As Harmonias de Werckmeister" e "Danação") estão previstas para lançamento em DVD, ainda este mês, pela Midas Filmes.

Não sei muito sobre Mihály Víg e a pesquisa sobre ele não é fácil, devido à imperceptibilidade do idioma magiar. Mas sei que a sua música é um complemento fundamental dos filmes de Béla Tarr, especialmente tendo em conta o tipo de cinema "contemplativo" do realizador húngaro.
Mais do que isso, as bandas sonoras de Mihály Víg nos filmes de Béla Tarr são uma obra em si mesmo.



É uma pena que não esteja disponível (pelo menos, que eu saiba) para compra, uma compilação exaustiva destas bandas sonoras, mas em 2001 foi lançado um álbum que faz parte desse trabalho: "Filmzenék Tarr Béla filmjeihez". Esta compilação junta os temas chave das bandas sonoras de 4 filmes de Béla Tarr: "Őszi Almanach", "Kárhozat", "Sátántangó" e "Werckmeister Harmóniák".
O alinhamento é o seguinte:

"Filmzenék Tarr Béla filmjeihez" (2001)

"Őszi almanach":
1. "Főcím" (1:13)
2. "Lukin" (1:37)
3. "Őskígyó" (1:27)
4. "Lengyelország" (1:42)
5. "Pajesz" (2:00)
6. "Synth" (1:46)
"Kárhozat":
7. "Csille" (1:33)
8. "Kész az egész" (8:18)
9. "Eső I." (4:24)
10. "R&R" (4:47)
11. "Lassú tánc" (5:05)
12. "Körtánc I." (5:38)
13. "Vonósnégyes" (1:44)
"Sátántangó":
14. "Harang I." (2:47)
15. "Eső II." (1:40)
16. "Halics" (3:46)
17. "Szabad egy tangót?" (3:04)
18. "Körtánc II." (5:24)
19. "Pityi" (0:13)
20. "Harang II." (1:33)
"Werckmeister harmóniák":
21. "Valuska" (4:14)
22. "Öreg" (10:00)

O tema que eu aqui deixo é "Valuska" de "Werckmeister Harmóniák" e é o meu preferido de Mihály Vig. Mais do que isso, "Valuska" é um dos meus temas preferidos de sempre, no que a bandas sonoras diz respeito. Principalmente se for ouvido e contextualizado, com a cena do filme em que aparece.



Valuska é o nome do personagem principal do filme. Nesta cena, depois de ser expulso de um bar, Valuska caminha sozinho no frio da noite, pela rua vazia, escondido entre as sombras dos candeeiros de rua. A cada passo de Valuska, a câmara afasta-se mais e mais, revelando a natureza solitária da sua existência.


Um homem só, caminhando pela rua escura e deserta, no frio cru da noite.

Este plano da caminhada solitária de Valuska dura aproximadamente 2 minutos (nada de especial, na escala de Béla Tarr) e é, na minha opinião, o mais poderoso de toda a obra cinematográfica do húngaro. É um plano que condensa toda a força que o cinema do realizador nos despeja: toca-nos no fundo da alma; mexe com a complexa profundeza da psique.
Como?
Mostrando num plano, numa simples metáfora, numa soma de imagem e som, algo que personifica toda a história de uma vida.

Todos procuramos algo no cinema. Às vezes, sem querer, encontramo-nos.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Sting - "Brand New Day"

"Somanu stana stano stino remono remulibo lafulê
Stabinaf a BRAND NEW DAY!!"



Gosto do Sting. No final dos anos 70 / início dos anos 80 liderou os The Police - uma banda Rock de enorme sucesso, com Stewart Copeland e Andy Summers, que fazia um cruzamento curioso entre o Post Punk e o Reggae. De 1978 a 1983, os The Police lançaram 5 álbuns, alguns deles muito bons e depois de atingirem o seu ponto alto com "Synchronicity", Sting desfez a banda.

Entretanto, Sting atingira o estrelato do panorama musical, o que o levou, entre outras coisas, a assumir participações de destaque na Band Aid e no Live Aid, ou a ser convidado para gravar com os artistas de maior sucesso da época. Casos de "Money For Nothing" com os Dire Straits (aqui na versão estúdio e aqui ao vivo no Live Aid), tema do álbum "Brothers In Arms", e de "Long, Long Way To Go" com Phil Collins (aqui no Live Aid), que apareceu no seu álbum blockbuster "No Jacket Required" (aqui no álbum).

Como disse, gosto do Sting. O homem tem talento, sabe escrever uma canção e aprendeu a adornar as paisagens sonoras dos seus temas como ninguém. No entanto, para mim a sua carreira a solo é uma caixa de melões, que só depois de abertos é que se sabe se estão bons para consumo.

Mas o meu maior problema com o "Sting moderno" é este ter perdido a sua espontaneidade na música, em detrimento de uma excessiva preocupação com o detalhe da produção e a ornamentação sonora; e ter perdido a sua espontaneidade na lírica, em detrimento de uma eloquência erudita, que faz com que demasiadas vezes o ouvinte não perceba que raio ele está ali a cantar. Se a isto juntarmos um inusitado uso da métrica, de modo a conseguir atafulhar o maior número de sílabas num verso, então Sting torna os seus temas praticamente imperceptíveis.

Claro que não fui o primeiro a reparar na "viragem criativa" de Sting, pelo que esta sua característica peculiar foi aproveitada magistralmente por Seth MacFarlane em Family Guy:
"I promise you'll understand all the words. Not like Sting, where you can only understand the last 3!"




Não é que eu (e presumo, a malta do Family Guy) não goste de "Brand New Day", ou de Sting. Mas é impossível deixar de reparar na montanha de coisas que Sting quer expressar num simples verso. Ele é realmente alguém com muito para dizer.
Isto complica a vida, e de que maneira, à malta que gosta de cantar ao som das músicas de Sting (talvez ele não goste de sing-alongs). O melhor que podem fazer é balbuciar uns fonemas quaisquer até chegar a parte reconhecível do título da música.
Agora que penso nisto, lembro-me que tal dificuldade já foi sentida, em tempos, por um outro britânico:




ALELUIA!

Porque hoje, especialmente hoje, começa um novo dia para mim.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Noel Gallagher's High Flying Birds - "AKA... What A Life!"

"What a life!"



"It’s about things you love that are bad for you – drinking, women, smoking, you know... hero worship, that kind of thing. But thinking... aren’t they great?"
Noel Gallagher, sobre "AKA... What A Life!" 


Foi o "meu" grande álbum original (isto é, lançado no mesmo ano) de 2011. Lançado a 17 de Outubro do ano passado, bastou-me uma audição para ficar completamente rendido a "Noel Gallagher's High Flying Birds". A semana que se seguiu a esta 1ª audição foi para mim de trabalho intensivo, todos os dias "até às tantas" na empresa. O primeiro álbum a solo de Noel Gallagher foi a minha companhia. Resultado? Devorei positivamente "High Flying Birds".
Para terem uma ideia, segundo os registos do Windows Media Player do meu PC na empresa, nessa semana o álbum tocou mais de 40 vezes, enquanto trabalhava. E nisto já nem estou a contar com o CD em casa, nem com a cópia no carro, ambas em rotação constante.

Na semana seguinte, fui de férias para Londres e adivinhem o que levei no meu Creative? (sim, como já expliquei aqui, a Creative tem leitores de media portáteis muito melhores que a Apple e o seu iPod) "Noel Gallagher's High Flying Birds", "All Things Must Pass" de George Harrison e "Wasting Light" dos Foo Fighters.
Por motivos parcialmente alheios à música, essas férias em Londres resultaram numa das semanas mais felizes e entusiasmantes de toda a minha vida. Digo "parcialmente", porque a semana teve o  bónus de, sem estar à espera, ter a oportunidade de assistir ao concerto de estreia dos Noel Gallagher's High Flying Birds (o nome do álbum é igual ao nome da banda) na capital mundial do Rock. Ainda para mais, o concerto era no lendário Hammersmith Odeon (palco onde actuaram grandes nomes como os Queen, ou os Genesis e onde David Bowie "matou" Ziggy Stardust), hoje rebaptizado de HMV Hammersmith Apollo, por motivos publicitários.

Foi uma noite lendária, daquelas que ficam para sempre gravadas na nossa memória, como se uma longa metragem se tratasse. Daquelas noites para as quais somos transportados holograficamente, com o simples rebentar de uma determinada música nos altifalantes.

Mas como fazer parte de tudo isso?
Como seria de esperar, o concerto estava esgotadíssimo (toda a digressão britânica de estreia de Noel Gallagher esgotou em 4 minutos) e tive que recorrer a um scalper (em bom português, à candonga) para arranjar o bilhete. As pequenas lojas de discos mostravam nos seus placards anúncios com pessoas a vender os bilhetes a preços a rondar os 100£ / 150£, tudo para garantir um lugar no pequeno e exclusivo Hammersmith Odeon.

Sem outras alternativas, lá marquei um encontro com um destes "amigos", que me vendia o bilhete pela módica quantia de 80£. Apareceu um bife bem apresentado, com um blazer que lhe dava um ar de intelectual rockeiro (o que quer que esta amálgama signifique) e fiz o negócio. Não sabia se era um achado ou se estava a ser enganado, mas isso não interessava. Afinal, o Noel Gallagher estava à espera. Com a adrenalina a subir e uma pontinha de medo, lá fui desde o Hyde Park em direcção ao bairro de Hammersmith. A linha de metro estava cortada, o que me obrigou a dar uma volta enorme para lá chegar, com a hora do concerto a aproximar-se perigosamente.
Em cima da hora, com a adrenalina nos limites, cheguei ao Hammersmith Odeon.
Entrei.
O bilhete era genuíno.



WOW! Estava lá dentro. Finalmente, cumpria um sonho antigo, alimentado por todos aqueles documentários que seguiam as bandas em digressão. Estava "ali", "naquele momento", quando tudo estava a acontecer, debaixo da euforia londrina que recebia pela primeira o Noel Gallagher a solo. Fantástico!

Me @ Hammersmith Odeon

O concerto varreu o novo álbum por inteiro (estranhamente, com excepção de "Stop The Clocks", um dos seus temas fortes), mais alguns lados B, sacando aqui e ali nos inevitáveis clássicos dos Oasis.

- "(It's Good) To Be Free" (Lado B de "Whatever" - 1994)
- "Mucky Fingers" (Oasis - Álbum: "Don't Believe The Truth" - 2005)
- "Everybody's On The Run" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "Dream On" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "If I Had A Gun" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "The Good Rebel" (Lado B de "The Death Of You And Me" - 2011)
- "The Death Of You And Me" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "Freaky Teeth" (outtake de "Noel Gallagher's High Flying Birds"- 2011)
- "Wonderwall" [acústico] (Oasis - Álbum: "(What's the Story) Morning Glory?" - 1995)
- "Supersonic" [acústico] (Oasis - Álbum: "Definitely Maybe" - 1994)
- "(I Wanna Live In A Dream In My) Record Machine" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "AKA...What A Life!" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "Talk Tonight" [banda completa] (Lado B de "Some Might Say" - 1995)
- "Solider Boys And Jesus Freaks" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "AKA...Broken Arrow" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)
- "Half The World Away" (Lado B de "Whatever" - 1994)
- "(Stranded On) The Wrong Beach" (Álbum: "Noel Gallagher's High Flying Birds" - 2011)

Encore:
- "Don't Look Back In Anger" (Oasis - Álbum: "(What's the Story) Morning Glory?" - 1995)
- "The Importance Of Being Idle" (Oasis - Álbum: "Don't Believe The Truth" - 2005)
- "Little By Little" (Oasis - Álbum: "Heathen Chemistry" - 2002)




Para mim, ávido fã de (quase) tudo o que os Oasis e Noel fizeram (incluindo, obviamente, este álbum), foi uma setlist perfeita. O culminar de um dia perfeito.
Londres ainda me reservaria mais umas surpresas, mas não tinha nenhum lugar mais alto para me levar. Naquele momento, já estava no céu.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ringo Starr - "Photograph"

"Now you're expecting me to live without you, but that's not something that I'm looking forward to..."




Hoje continuamos a olhar para o trajecto de Ringo Starr nos Beatles e na impotância da banda na sua carreira a solo.
No último dia, ficámos em 1965, no álbum "Rubber Soul", onde John Lennon e Paul McCartney ajudaram Ringo no seu primeiro crédito de autoria, com o sensaborão "What Goes On" (único tema creditado a Lennon-McCartney-Starkey).
Lennon e McCartney continuariam a ajudar Ringo ao longo dos anos, mas em 1966, logo a seguir a "Rubber Soul", dar-lhe-iam um presente envenenado. Ou não, depende da perspectiva.

Na gravação de "Revolver", Paul McCartney achou por bem escrever um tema para Ringo, um tema que se adequasse à sua imagem e à sua voz. O resultado de tal ideia pioneira seria... "Yellow Submarine".
Segundo as palavras de John Lennon, "Yellow Submarine" foi: "Paul's inspiration. Paul's idea. Paul's title... written for Ringo".
"Yellow Submarine" é um tema que parece saído dos megafones de uma banda marcial (para quem não sabe, é o que em inglês se denomina marching band), que desce a rua a anunciar que "vivemos todos num submarino amarelo"... Exacto. Foi esta a brilhante conclusão de Paul, depois de mais uma daquelas sessões de inspiração transcendental (cough... trips) que ele gostava de experimentar na época: a de que vivemos todos num submarino amarelo!

Bem... Eu sou o primeiro a dar graças pelas trips dos Beatles! Afinal, elas deram-nos coisas fantásticas como os álbuns "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" e "Magical Mystery Tour". Louvado seja o cogumelo que deu "I Am The Walrus" a Lennon, ou "Fixing a Hole" a McCartney!
Mas isto?! WTF?!

Não contentes com a façanha, os Beatles resolveram lançar "Yellow Submarine" em single... E não é que acertaram?! O tema esteve no 1º lugar das tabelas britânicas durante 4 semanas (1 mês!!!) e venceu um Ivor Novello Award como o single mais vendido de 1966 no Reino Unido. Incrível.
Para elevar a demência a níveis estratosféricos, ainda foi feito um filme de animação baseado no conceito de "Yellow Submarine": uma viagem dos Beatles... num submarino amarelo. (Jesus...) Incrível, mesmo...

A redenção de Lennon e McCartney para com Ringo (na minha opinião, claro; porque para o resto do Mundo, parece que "Yellow Submarine" é coisa que se apresente...) surgiria logo a seguir no álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band". Apresentando-se como Billy Shears - líder da Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band - Ringo canta "With A Little Help From My Friends", na minha opinião, um dos melhores temas do álbum. Aqui sim, um tema digno de Ringo.

O primeiro tema da autoria exclusiva de Ringo Starr seria "Don't Pass Me By" e apareceria apenas em 1968, no álbum homónimo da banda "The Beatles" (vulgarmente conhecido como o "White Album"). Convenhamos que foi um início muito pouco auspicioso para o baterista dos Beatles como compositor.

Por esta altura, Ringo ameaçou abandonar a banda, por achar que estava a um nível muito inferior de todos os outros. Com a auto-estima em baixo, farto das incessantes discussões em estúdio (lembro que foi aqui que uma nova personagem entrou no quotidiano da banda - a sinistra Yoko Ono) e de um processo de gravação cheio de precalços e indefinições, Ringo deixou Londres e foi de férias para o sul de França.
Duas semanas depois, a pedido dos restantes Beatles, Ringo regressaria ao estúdio para terminar as gravações do álbum. Fruto dos rasgos criativos individuais de cada um dos Beatles, sem qualquer matriz orientadora, o "White Album" acabaria por resultar numa compilação de álbuns a solo dos vários elementos da banda (obviamente com o domínio de John Lennon e Paul McCartney).

Depois da primeira amostra de criatividade com "Don't Pass Me By", o ano seguinte traria um enorme salto qualitativo para as composições de Ringo, quando contribuiu com "Octopus's Garden" para "Abbey Road", o último álbum gravado pelos Beatles. Agora sim, finalmente: um tema divertido e jovial, mesmo à imagem de Ringo Starr, para terminar o seu trajecto na banda.
Continuando na saga do surrealismo que tantos frutos tinha dado no passado, desta vez Ringo exclama que quer viver num jardim habitado por polvos no fundo do mar. Muito bem. Entre o jardim dos polvos e o cântico da banda marcial em como vivemos num submarino amarelo... fico com o jardim!

Com este panorama, previa-se que a carreira a solo de Ringo seria a menos interessante de todos os Beatles. E é assim sem surpresa que, a meu ver, percebemos que essa previsão se confirmou.
Só não digo que a carreira a solo de Ringo Starr foi, de todo, "desinteressante", porque em 1971 George "apareceu" com "It Don't Come Easy" e em 1973, Ringo chamou os restantes amigos da sua antiga banda (afinal, Ringo até era o "gajo porreiro" dos Beatles) para o álbum "Ringo".

O álbum "Ringo" foi a estrela que iluminou todo o seu reportório a solo.
"Ringo" é a cara de Ringo: é divertido, descontraído e despreocupado. A adicionar a esta equação, tem um punhado de boas canções, compostas com o auxílio dos seus amigos. Não é nada de extraordinário, nada que se possa pôr lado a lado com discos como "Band On the Run" (dos Wings de McCartney), ou a "All Things Must Pass" (de Harrison); mas cumpre. Cumpre a missão de deixar um trabalho de referência na carreira a solo de Ringo e mostra aquilo que ele pode e sabe fazer, especialmente quando é bem auxiliado.
O caso mais bem sucedido é este "Photograph", escrito (mais uma vez) com o auxílio de George Harrison (que andava on fire nesta altura), tema lançado em single em Maio de 1973 e que liderou as tabelas nos EUA; um feito que seria repetido no fim desse ano por "You're Sixteen".

No concerto de tributo a George Harrison no Royal Albert Hall, depois da sua morte em 2002, Ringo apareceu para tocar o tema escrito conjuntamente com o seu amigo, numa homenagem que, tendo em conta o conteúdo da letra de "Photograph", fez todo o sentido:

"Every time I see your face, it reminds me of the places we used to go.
But all I've got is a photograph and I realize you're not coming back anymore..."




"I thought I'd make it, the day you went away. But I can't make it, 'til you come home again to stay..."

George e Ringo partilhavam uma enorme amizade. No documentário "Living In The Material World" de Martin Scorsese (que já recomendei, sem reservas, aqui), Ringo conta a comovente história da última vez que viu George, já este estava gravemente doente... e não conseguiu evitar as lágrimas:


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Ringo Starr - "It Don't Come Easy"

"I don't ask for much, i only want your trust and you know it don't come easy."



Não vos estarei a dar uma grande novidade se disser que Ringo Starr não era o mais talentoso dos The Beatles. Não que ele fosse mau na sua função de baterista. Aliás, na minha opinião, Ringo era o baterista ideal para a banda; o seu estilo assentava que nem uma luva nos Beatles.
Ringo marcou um estilo de tocar e influenciou milhares de outros bateristas em todo o Mundo. Beneficiando da popularidade sem paralelo dos Beatles, não há dúvidas que Ringo foi influente na arte do seu instrumento como muito poucos.

No entanto, como compositor, o facto é que Ringo era a face mais pálida dos Beatles. Como referi aqui, quando escrevi sobre George Harrison, os The Beatles foram a banda de Lennon e McCartney, onde também tocavam Harrison e Ringo. Os momentos destes últimos debaixo dos holofotes foram efémeros e se pela parte de George, isso pode ser apontado como uma crítica à política vigente do grupo, pela parte de Ringo, isso só pode ser apontado como uma forma de proteger o próprio baterista.

À falta de material escrito por Ringo para incluir nos álbuns, este foi interpretando temas escritos por outros artistas, nos primeiros anos dos The Beatles: "Boys" (Dixon, Farrell) em "Please Please Me"; "I Wanna Be Your Man" (Lennon, McCartney) em "With The Beatles"; "Honey Don't" (Carl Perkins) em "Beatles For Sale" e "Act Naturally" (Russell, Morrison) em "Help!".
O primeiro crédito de Ringo Starr apareceria em "Rubber Soul" (6º álbum da banda), como co-autor de "What Goes On" (único exemplo de co-autoria Lennon-McCartney-Starkey), que na minha opinião salda-se como um dos temas pobres de um álbum que, no resto, é simplesmente fabuloso.

Se é verdade que Paul e John sempre tentaram ajudar Ringo na sua carreira, logo desde a fase inicial (George também o faria mais tarde, como veremos à frente), também não é menos verdade que sempre tiveram noção das limitações do seu colega e amigo. Numa entrevista em 1980, John Lennon acabaria por se mostrar (estranhamente) bastante cínico em relação à "ajuda" que dera a Ringo, referindo-se a "I Wanna Be Your Man" (primeiro tema composto pela dupla Lennon-McCartney para Ringo cantar) de forma muito pouco abonatória:
"It was a throwaway. The only two versions of the song were Ringo and the Rolling Stones. That shows how much importance we put on it: We weren't going to give them anything great, right?"

Não é habitual ouvirmos John referir-se a Ringo nestes termos. Alguns anos antes, em 1975, numa entrevista para a televisão americana, Jonh abordou a dificuldade que Ringo sentia em escrever o seu próprio material, mas defendeu o seu amigo, sublinhando que ele não era um estúpido (dumb) qualquer e que até àquele ponto a sua carreira a solo até já conhecera mais sucesso que a do próprio Lennon:



Desabafos à parte, dêem-se as voltas que quiserem, a verdade é que os membros dos Beatles sempre tentaram proteger o seu elo mais fraco. Ringo era o "gajo porreiro" da banda e contribuía, à sua maneira, para aquilo que os Beatles se tornaram.

Nesse sentido, reza a História que George Harrison lhe terá oferecido "It Don't Come Easy" em 1970, mais uma sobra da pilha de temas que tinha para o álbum "All Things Must Pass".
Em Abril de 1971, Ringo lançou "It Don't Come Easy" em single (figurando como co-autor) e o tema tornar-se-ia numa dos seus ex libris.



Meses depois, em Agosto de 1971, Ringo juntou-se à banda de George Harrison no Madison Square Garden, para o concerto de ajuda ao Bangladesh (The Concert For Bangladesh) e cantou "It Don't Come Easy", ao mesmo tempo que tocava bateria. Resultado? Ringo esqueceu-se da letra e assim imortalizou esta actuação com uma valente argolada:

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Noel Gallagher - "(It's Good) To Be Free" (Semi-Acoustic Live)

"The little things, they make me so happy. Well, it's good... Yes, it's good... It's good to be free"



"Head like a rock spinning round and round"
Volvido praticamente um mês, hoje voltei a ouvir no carro o "álbum do acidente". O álbum é "The Dreams We Have As Children", uma gravação semi-acústica de Noel Gallagher, ao vivo no Royal Albert Hall, no concerto de beneficiência para Teenage Cancer Trust.
Chamo-lhe o "álbum do acidente", mas sem quaisquer ressentimentos. Ao ouvi-lo, obviamente me lembrei do acidente, mas acho que isso vai ficar para sempre. O meu primeiro acidente de viação (muito menos grave que este, só "chapa") foi há quase 4 anos e deu-se ao som de "Candy's Room" de Bruce Springsteen. Não há vez nenhuma que eu ouça o tema e eu não me lembre dessa manhã azarada...
Mas dizia eu que não guardo ressentimentos da música de Noel Gallagher. Afinal, o acidente foi muito mais que um simples azar, foi uma chamada de atenção, um wake up call.

A vida testa-nos de muitas maneiras e às vezes dá-nos um valente abanão, que no mínimo serve para nos obrigar a repensar o nosso caminho. Não estou aqui a teorizar sobre o destino, ou sobre qualquer ordem que o Universo tenha sobre os acontecimentos caóticos da nossa vida, de modo a dar algum sentido a "tudo isto". Nada disso. À parte de toda a subjectividade de tais discussões, reitero apenas que alguns destes acontecimentos caóticos nos obrigam a parar... e a pensar.
E foi o que se passou comigo.

"So what would you say if I said to you: "it`s not in what you say, it`s in what you do!"...?"
Esta manhã, ao ouvir novamente o maravilhoso órgão na introdução de "(It's Good) To Be Free" - tema de abertura de "The Dreams We Have As Children" - mais do que recordar o acidente, lembrei-me que o abanão teve resultados práticos.
Lembrei-me de como é bom ser livre para operar uma revolução na nossa vida , sempre que tal seja necessário. ("so I start a revolution from my bed", como dizia Noel em "Don't Look Back In Anger")
Lembrei-me que, volvido um mês um mês do acidente, a palavra já deu lugar a acção.
A palavra escrita vai dar lugar à palavra falada.
A palavra lida vai dar lugar à palavra escutada.

Lembrei-me de tudo isso... e esbocei um sorriso.
Porque são as pequenas coisas que me fazem feliz.

"The little things, they make me so happy. All I wanna do is live by the sea Well, it's good... Yes, it's good... It's good to be free"


P.S.: "(It's Good) To Be Free" foi originalmente lançado pelos Oasis em 1994, como um Lado B do single "Whatever". Criminoso, como é que Noel relegou um tema da tarimba de "To Be Free" para a obscuridão de um lado B... Crime esse que repetiria mais vezes ao longo da sua carreira, tanto nos Oasis, como a solo, ao deixar temas de fora dos álbuns temas como "Fade Away", "Masterplan", "Idler's Dream", "Listen Up", "Alone On The Rope" e muitos outros.
À semelhança de "Fade Away", a versão original de "(It's Good) To Be Free" era cantada por Liam Gallagher, num registo bem mais eléctrico. Ambas foram incluídas em 1998 na colectânea de Lados B "The Masterplan".