quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Ringo Starr - "It Don't Come Easy"

"I don't ask for much, i only want your trust and you know it don't come easy."



Não vos estarei a dar uma grande novidade se disser que Ringo Starr não era o mais talentoso dos The Beatles. Não que ele fosse mau na sua função de baterista. Aliás, na minha opinião, Ringo era o baterista ideal para a banda; o seu estilo assentava que nem uma luva nos Beatles.
Ringo marcou um estilo de tocar e influenciou milhares de outros bateristas em todo o Mundo. Beneficiando da popularidade sem paralelo dos Beatles, não há dúvidas que Ringo foi influente na arte do seu instrumento como muito poucos.

No entanto, como compositor, o facto é que Ringo era a face mais pálida dos Beatles. Como referi aqui, quando escrevi sobre George Harrison, os The Beatles foram a banda de Lennon e McCartney, onde também tocavam Harrison e Ringo. Os momentos destes últimos debaixo dos holofotes foram efémeros e se pela parte de George, isso pode ser apontado como uma crítica à política vigente do grupo, pela parte de Ringo, isso só pode ser apontado como uma forma de proteger o próprio baterista.

À falta de material escrito por Ringo para incluir nos álbuns, este foi interpretando temas escritos por outros artistas, nos primeiros anos dos The Beatles: "Boys" (Dixon, Farrell) em "Please Please Me"; "I Wanna Be Your Man" (Lennon, McCartney) em "With The Beatles"; "Honey Don't" (Carl Perkins) em "Beatles For Sale" e "Act Naturally" (Russell, Morrison) em "Help!".
O primeiro crédito de Ringo Starr apareceria em "Rubber Soul" (6º álbum da banda), como co-autor de "What Goes On" (único exemplo de co-autoria Lennon-McCartney-Starkey), que na minha opinião salda-se como um dos temas pobres de um álbum que, no resto, é simplesmente fabuloso.

Se é verdade que Paul e John sempre tentaram ajudar Ringo na sua carreira, logo desde a fase inicial (George também o faria mais tarde, como veremos à frente), também não é menos verdade que sempre tiveram noção das limitações do seu colega e amigo. Numa entrevista em 1980, John Lennon acabaria por se mostrar (estranhamente) bastante cínico em relação à "ajuda" que dera a Ringo, referindo-se a "I Wanna Be Your Man" (primeiro tema composto pela dupla Lennon-McCartney para Ringo cantar) de forma muito pouco abonatória:
"It was a throwaway. The only two versions of the song were Ringo and the Rolling Stones. That shows how much importance we put on it: We weren't going to give them anything great, right?"

Não é habitual ouvirmos John referir-se a Ringo nestes termos. Alguns anos antes, em 1975, numa entrevista para a televisão americana, Jonh abordou a dificuldade que Ringo sentia em escrever o seu próprio material, mas defendeu o seu amigo, sublinhando que ele não era um estúpido (dumb) qualquer e que até àquele ponto a sua carreira a solo até já conhecera mais sucesso que a do próprio Lennon:



Desabafos à parte, dêem-se as voltas que quiserem, a verdade é que os membros dos Beatles sempre tentaram proteger o seu elo mais fraco. Ringo era o "gajo porreiro" da banda e contribuía, à sua maneira, para aquilo que os Beatles se tornaram.

Nesse sentido, reza a História que George Harrison lhe terá oferecido "It Don't Come Easy" em 1970, mais uma sobra da pilha de temas que tinha para o álbum "All Things Must Pass".
Em Abril de 1971, Ringo lançou "It Don't Come Easy" em single (figurando como co-autor) e o tema tornar-se-ia numa dos seus ex libris.



Meses depois, em Agosto de 1971, Ringo juntou-se à banda de George Harrison no Madison Square Garden, para o concerto de ajuda ao Bangladesh (The Concert For Bangladesh) e cantou "It Don't Come Easy", ao mesmo tempo que tocava bateria. Resultado? Ringo esqueceu-se da letra e assim imortalizou esta actuação com uma valente argolada:

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Noel Gallagher - "(It's Good) To Be Free" (Semi-Acoustic Live)

"The little things, they make me so happy. Well, it's good... Yes, it's good... It's good to be free"



"Head like a rock spinning round and round"
Volvido praticamente um mês, hoje voltei a ouvir no carro o "álbum do acidente". O álbum é "The Dreams We Have As Children", uma gravação semi-acústica de Noel Gallagher, ao vivo no Royal Albert Hall, no concerto de beneficiência para Teenage Cancer Trust.
Chamo-lhe o "álbum do acidente", mas sem quaisquer ressentimentos. Ao ouvi-lo, obviamente me lembrei do acidente, mas acho que isso vai ficar para sempre. O meu primeiro acidente de viação (muito menos grave que este, só "chapa") foi há quase 4 anos e deu-se ao som de "Candy's Room" de Bruce Springsteen. Não há vez nenhuma que eu ouça o tema e eu não me lembre dessa manhã azarada...
Mas dizia eu que não guardo ressentimentos da música de Noel Gallagher. Afinal, o acidente foi muito mais que um simples azar, foi uma chamada de atenção, um wake up call.

A vida testa-nos de muitas maneiras e às vezes dá-nos um valente abanão, que no mínimo serve para nos obrigar a repensar o nosso caminho. Não estou aqui a teorizar sobre o destino, ou sobre qualquer ordem que o Universo tenha sobre os acontecimentos caóticos da nossa vida, de modo a dar algum sentido a "tudo isto". Nada disso. À parte de toda a subjectividade de tais discussões, reitero apenas que alguns destes acontecimentos caóticos nos obrigam a parar... e a pensar.
E foi o que se passou comigo.

"So what would you say if I said to you: "it`s not in what you say, it`s in what you do!"...?"
Esta manhã, ao ouvir novamente o maravilhoso órgão na introdução de "(It's Good) To Be Free" - tema de abertura de "The Dreams We Have As Children" - mais do que recordar o acidente, lembrei-me que o abanão teve resultados práticos.
Lembrei-me de como é bom ser livre para operar uma revolução na nossa vida , sempre que tal seja necessário. ("so I start a revolution from my bed", como dizia Noel em "Don't Look Back In Anger")
Lembrei-me que, volvido um mês um mês do acidente, a palavra já deu lugar a acção.
A palavra escrita vai dar lugar à palavra falada.
A palavra lida vai dar lugar à palavra escutada.

Lembrei-me de tudo isso... e esbocei um sorriso.
Porque são as pequenas coisas que me fazem feliz.

"The little things, they make me so happy. All I wanna do is live by the sea Well, it's good... Yes, it's good... It's good to be free"


P.S.: "(It's Good) To Be Free" foi originalmente lançado pelos Oasis em 1994, como um Lado B do single "Whatever". Criminoso, como é que Noel relegou um tema da tarimba de "To Be Free" para a obscuridão de um lado B... Crime esse que repetiria mais vezes ao longo da sua carreira, tanto nos Oasis, como a solo, ao deixar temas de fora dos álbuns temas como "Fade Away", "Masterplan", "Idler's Dream", "Listen Up", "Alone On The Rope" e muitos outros.
À semelhança de "Fade Away", a versão original de "(It's Good) To Be Free" era cantada por Liam Gallagher, num registo bem mais eléctrico. Ambas foram incluídas em 1998 na colectânea de Lados B "The Masterplan".


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Simple Minds - "Once Upon A Time"

"Well, that's a question down to time"



Um pouco à imagem do que acontece com os Scorpions, os escoceses Simple Minds vivem hoje com o estigma dos dinossauros do Rock, que com o passar dos anos foram rotulados com os trabalhos mais comerciais e de menor qualidade que fizeram.

Ainda que a fase mais inventiva dos Simple Minds tenha, efectivamente, ocorrido no período de 1979 a 1982  (com apogeu no álbum New Gold Dream (81/82/83/84)"), aquele que é, para mim, o grande trabalho da banda surgiria em 1985, com o nome de "Once Upon A Time".

"Once Upon A Time" capitalizou o sucesso do single "Don't You (Forget About Me)", da banda sonora do filme de culto "The Breakfast Club", que no ano anterior tinha chegado ao topo das tabelas em todo o Mundo (incluindo os EUA). O single de avanço do álbum seria "Alive And Kicking" e este projectou, em definitivo, os Simple Minds para a linha da frente do mainstream Pop/Rock internacional.
O álbum atingiria o nº 1 no Reino Unido, vendendo 4 milhões de cópias em todo o Mundo.

Agora fica a questão que é sempre levantada sempre que certas bandas de culto, mestres num determinado registo (como eram os Simple Minds no New Wave), atingem o sucesso mainstream: a que preço é que veio o sucesso? Será que sucumbiram às regras da indústria em detrimento da sua arte?
A resposta não pode ser generalizada. Neste caso concreto, do álbum "Once Upon A Time", esse conceito certamente que não se aplica.
Apesar de terem, inequivocamente, adoptado um registo mais comercial, tal não significa que os Simple Minds perderam qualidade na sua música. Não aqui, não ainda. Bem pelo contrário.

"Once Upon A Time" mostra uma banda madura, sincronizada e com a perfeita noção das suas qualidades e limitações. Mostra uns Simple Minds inspiradíssimos, com 8 temas muitos fortes, ao mais alto nível na sua escrita.
Por outro lado, são também uns Simple Minds mais calculistas, atentos ao pormenor, com menos espaço para as divagações próprias do New Wave mais puro, que marcou os seus primeiros álbuns. Esta atenção ao detalhe não tem que ser algo necessariamente mau, quando o resultado é algo tão bem produzido e ao mesmo tempo, com tanta vida, como "Once Upon A Time".
Talvez se tenha perdido um pouco do "rasgo" nos Simple Minds. Mas o que se perdeu num lado, ganhou-se no outro.


"Once Upon A Time"  é um álbum fabuloso do princípio ao fim, um casamento perfeito entre as qualidades dos Simple Minds e as premissas do sucesso.
O álbum apresenta uma consistência notável, com o seu ponto alto a aparecer logo no início, no seu tema-título. Sem paragens para baladas, são 8 faixas antémicas de coração aberto e punhos erguidos no ar. Perfeitas para encaixarem que nem uma luva nas ondas da rádio dos anos 80.

Não sei se a intenção era, declaradamente, a de produzir um álbum de sucesso em massa (algo que aconteceu também, no mesmo ano, com o amigo e inspiração da banda Peter Gabriel e o seu álbum "So"), mas a verdade é que em 1985 as estrelas se alinharam na perfeição para os Simple Minds. O sucesso lançou a banda para um patamar de tal ordem estratosférico, que na época vendiam mais discos que, por exemplo, os U2.

Com isto tudo, reafirmo que "Once Upon A Time" é a prova que para produzir música com sucesso, não é preciso comprometer a sua qualidade. Aliás, basta olhar para as carreiras dos The Beatles, ou dos Queen, para termos exemplo disso mesmo.
É claro que esta viragem comercial é um movimento perigoso e tem um preço muito alto a pagar, caso corra mal. Muito poucos são os casos em que uma banda consegue manter a sua matriz base, adaptar-se ao registo da época e manter um sucesso continuado (já dei o exemplo dos Queen). O passar dos anos provou que os Simple Minds não são um desses exemplos.
Depois de "Once Upon A Time", a banda pagou a factura da viragem comercial, vulgarizou-se a pouco e pouco (os álbuns continuaram a ter material interessante, mas cada vez em menos quantidade) e comprometeu a sua música e a sua imagem.
"God only knows, God only knows... That's time!"

domingo, 23 de setembro de 2012

Blur - "Beetlebum"

"And when she lets me slip away..."


Em meados da década de 90, os Blur disputavam com os Oasis o domínio da cena musical do Reino Unido. Juntas (com a ajuda de mais um leque de outras bandas como os Pulp, os Suede, ou os Elastica), formavam o núcleo duro do movimento Britpop e conseguiram diluir a incessante "americanização" da música britânica, resultante da explosão do grunge e da invasão das tabelas do UK por bandas como os Nirvana, os Pearl Jam, ou os Soundgarden. Contra este tipo de música "I Hate Myself And Want To Die" do grunge (ressalvando que esta generalização não corresponde, obviamente, à totalidade da música americana da época), as bandas britânicas retaliaram com uma mensagem mais positiva e mais de acordo com as suas origens.

Damon Albarn previu que o público do seu país iria abraçar esta nova mensagem, de acordo com a sua herança, em detrimento do grunge e os Blur apostaram forte no sentimento british, com os seus álbuns "Modern Life Is Rubbish" (1992) e "Parklife" (1994). Por esta altura, surgia então a outra grande banda do Britpop, com o seu dilacerante álbum de estreia "Definitely Maybe". Falo, obviamente, dos Oasis.

Os Oasis e os Blur começaram por trocar elogios, como duas bandas do mesmo movimento a disputarem um lugar nas luzes da ribalta. Damon Albarn e Graham Coxon mostraram o seu respeito pelos Oasis quando nos Brit Awards de 1995 (que "limparam" com o seu álbum "Parklife"), lhes dedicaram o prémio de "Melhor Banda". No entanto, os irmãos Gallagher nunca foram especialmente conhecidos pela sua boa educação e começaram a olhar para os Blur como um adversário.

Alimentado pela imprensa e pela indústria discográfica britânica, ávidas de lenha para a fogueira do lucro, o conflito entre os Oasis e os Blur teve o seu apogeu na famosa "Batalha do Britpop" que, a 14 de Agosto de 1995, pôs o Mundo em expectativa para saber quem ia tomar o 1º lugar das tabelas de singles britânicas. O conflito era comparado ao dos The Beatles contra os The Rolling Stones, 30 anos antes. Escusado será dizer, que as tabelas de singles britânicas ferviam como nunca e naquelas semanas foram batidos recordes de vendas dos últimos 10 anos.

Frente a frente, estavam "Roll With It" pelos Oasis (2º single de "(What's the Story) Morning Glory?") e "Country House" pelos Blur (1º single de "The Great Escape"). Na "Batalha do Britpop", os Blur ganharam, vendendo 274 mil cópias, contra 216 mil dos Oasis. Mas se os Blur ganharam a batalha, foram os Oasis que venceram a guerra.
Depois do lançamento de "Wonderwall", o álbum "(What's the Story) Morning Glory?" tornou-se num fenómeno de vendas no Reino Unido (4 Milhões (!!!) de cópias só no UK, tornando-se no 3º álbum mais vendido de sempre nas ilhas) e obteve enorme sucesso nos EUA (chegou ao nº 4 das tabelas), algo que os Blur nunca conseguiram.

Como resultado, os Blur acabaram o ano ridicularizados no Reino Unido, passando do estado de graça de "banda mais fixe" do Reino Unido em 1995, para a "banda dos choninhas", um ano mais tarde. Era anunciada a vitória da classe operária do Norte de Inglaterra, representada pelos Oasis, contra a classe intelectual do Sul, representada pelos Blur.
Nos Brit Awards de 1996, um ano depois da homenagem dos Blur, os Oasis resolveram devolver o mimo de uma forma ligeiramente diferente...


(note-se na qualidade dos nomeados para álbum do ano no Reino Unido em 1996 e compare-se com o marasmo vivido nos últimos anos...)

Para Graham Coxon, guitarrista dos Blur, chegara a hora de uma mudança de estilo. Fã de sempre de música underground britânica, Graham estava então imerso no Indie Rock americano, de bandas como os Sonic Youth ou os Pavement.
Inicialmente, a mudança proposta por Coxon não foi bem vista pelos outros membros da banda, mas com o tempo, Albarn deixou-se conquistar por aquele tipo de música mais caótico, em favor da sua Pop mais meticulosa, em parte responsável pelo ridículo em que a banda tinha caído.


E foi assim, na onda desta revolução na sua sonoridade, que os Blur endureceram e nos ofereceram aqueles que são, para mim, os dois grandes álbuns da banda: o homónimo "Blur", de 1997 e "13", de 1999.
A sequência de abertura de "Blur" não fazia por menos e apresentava desde logo os 2 primeiros singles do álbum - "Beetlebum" e "Song 2" - os veículos que os levariam à outra margem e devolveriam o respeito da sua audiência. O álbum acabaria por notabilizar-se mais com o seu 2º single "Song 2", mas o grande momento dos Blur, para mim, é mesmo este "Beetlebum".
"He's on, he's on, he's on it..."
Com "Beetlebum", Damon Albarn abriu as portas dos dramas da sua própria vida. O tema é sobre o seu vício da heroína, sendo que a "Beetlebum" é ela mesmo: a heroína.
Nas palavras do próprio Damon:



Não que eu não goste do material mais antigo dos Blur, mas quando eles fizeram esta transição de Britpop, para Britrock (chamemos-lhe assim) mostraram que, afinal, não eram apenas capazes de fazer música mordaz e irónica, com narrativas satíricas sobre a sociedade britânica. Para além disso, os Blur tinham sentimentos reais e eram capazes de os mostrar, com narrativas mais terra-a-terra e música mais dura e menos polida.


Graham Coxon queria com "Blur" fazer música "que voltasse a assustar as pessoas". Aquele solo de guitarra no fim de "Beetlebum" fez-me exactamente isso quando o ouvi pela primeira vez. Missão cumprida. Estavam aí os novos Blur.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Bruce Springsteen - "Thunder Road"

"Why do we suffer? I got the answer to that one: because we have to! What would life be?"
"Porque é que sofremos? Eu sei a resposta: porque temos que o fazer! Como é que seria a vida?"

Quem mais poderia reproduzir estas palavras, se não Bruce Springsteen?
Quem mais nos poderia fazer reflectir sobre a importância, o valor, de um estado de espírito do qual fugimos toda uma vida?
O sofrimento. Porque ninguém sabe sofrer como Bruce Springsteen.

É com esta reflexão que Bruce abre o filme "Wings For Wheels - The Making Of Born To Run", o (fabuloso) documentário que mostra o making of de "Born To Run", o álbum que em 1975 lançou Bruce definitivamente para o estrelato. O filme de Thom Zimny (que acabaria por ganhar um Grammy em 2007) é uma ferramenta essencial para se perceber Bruce Springsteen e como este criou um dos álbuns que marcaram de forma indelével o Rock americano nos anos 70.

"Born To Run" foi a obra que deu a conhecer Bruce Springsteen ao Mundo, dando-lhe as capas das revistas Time e da Newsweek na mesma semana. Mas mais do que isso, "Born To Run" foi o álbum que definiu Bruce Springsteen, onde ele nos revelou ao que vinha. Foi também onde Bruce introduziu os personagens que o seguiram nas 3 décadas seguintes. Personagens que deram asas à nossa imaginação, com as quais nos pudemos identificar tantas e tantas vezes. Porque como disse Jon Stewart, no seu discurso, aquando da condecoração de Bruce para os Kennedy Center Honors:
"When you listen to Bruce’s music, you aren’t a loser. You are a character in an epic poem... about losers."
"Quando ouves a música do Bruce, não és um falhado. És um personagem num poema épico... sobre falhados."


O álbum "Born To Run" está na lista daqueles assuntos que me são extremamente difíceis de abordar aqui no blog. Difícil porque é um álbum de grande significado pessoal, que em tempos me marcou profundamente e difícil porque (também por isso) há tanta, TANTA coisa para dizer... Por onde começar?

Segundo Bruce Springsteen, "Born To Run" é um conjunto de histórias épicas, que poderiam decorrer todas "numa interminável noite de Verão". São histórias que dançam à volta de uma motivação, de uma vontade: fugir.
Há por todo o álbum um sentimento que uma jornada importante se aproxima, um momento que vai definir a nossa vida. O sentimento é de urgência, de fuga das raízes. É preciso fazer alguma coisa para mudar uma vida que não nos satisfaz e é preciso fazê-lo urgentemente.
Querer fugir, ir embora para outro lado, mas sem saber ainda para onde. Na verdade, isso não interessa, desde que seja para fora daqui.
Não há certezas, a não ser de que aqui, nesta vida, neste paradigma, não dá.

"Born To Run" é um álbum que me diz muito. Diz tanto como "Darkness On The Edge Of Town", mas de uma maneira diferente, porque eles marcaram a minha vida em fases diferentes, mais ou menos da mesma maneira que marcaram Bruce. Em "Darkness", Bruce desmonta os sonhos que desenhara em "Born To Run", mas aqui, a ingenuidade da sua juventude impede-o de prever o que se passará a seguir. Passou-se com Bruce em meados dos anos 70, passar-se-ia comigo 30 anos depois.

Penso que já deu para perceber: tive uma fase fortíssima de "Born To Run" quando era mais novo, nomeadamente quando aos 17 anos fiz as malas e vim viver sozinho para Lisboa. Achava que o Mundo ia ser meu, todos os meus sonhos se iam tornar realidade e nada, nem ninguém, me poderia parar. E a verdade é que a História (a minha), com os seus percalços, até correu bastante bem.
Mas ao fim de algum tempo, inevitavelmente, percebemos que NADA na vida corre como tínhamos planeado. Pode até correr "bem", mas não era "bem aquilo" que nós havíamos pensado. Por vezes, corre mesmo "mal" e outras vezes ainda, quando pensamos que "pior" não pode ficar, porque chegámos ao fundo do poço, alguém se lembra de pegar numa pá e começar a escavar.

É a vida. Somos obrigados a lidar com todas estas situações e a música de Bruce Springsteen parece servir de manual para saber como fazê-lo. Ou pelo menos para perceber que não estamos sozinhos. Que alguém, há muitos anos, muito longe de nós e em circunstâncias diferentes, passou pelo mesmo.
Bruce mostrou que o sofrimento é sentido por todos, da mesma forma. Porque ninguém sabe sofrer como Bruce Springsteen.




"It's a town for losers, but I'm pulling down here to win"

...grita Bruce Springsteen no clímax de "Thunder Road", tema de abertura do álbum "Born To Run" e que resultara de uma evolução de "Wings For Wheels" (nome que iria baptizar o documentário de Thom Zimmy sobre "Born To Run").
"Thunder Road" materializava, da cabeça à ponta dos pés, o que sentia no dia que cheguei a Lisboa. De facto, "Thunder Road" foi o primeiro tema que ouvi em Lisboa, imediatamente a seguir a ter montado a minha (hoje defunta) aparelhagem. Era a transcrição do que me ia na alma.
Tinha 17 anos e a mesma vontade, o mesmo sentido de urgência, que Bruce anunciava naquele tema. Eu ouvia "Thunder Road" e chegando àquele clímax, aumentava o volume dos altifalantes até ao máximo. Estava sozinho, no meu exíguo quarto em Lisboa (tão exíguo, que se eu esticasse os braços, tocava nas paredes de ambos os lados do quarto!) mas Bruce estava ali, a cantar para mim, sobre mim. Restava-me cumprir a profecia de Bruce Springsteen.

Naquele momento, era tudo tão claro. De tal forma que parecia que Bruce escrevera este álbum sobre mim, ou dirigido à minha pessoa, 10 anos antes de eu ter nascido. Claro que, como eu, milhões de pessoas espalhadas por todo o Mundo sentiam o mesmo.
Com "Born To Run", Bruce Springsteen uniu pela primeira vez milhões de pessoas à volta de um sentimento, de uma vontade, de uma urgência, de um sofrimento. É essa a força, é essa a magia de Bruce Springsteen.
Porque a verdade é que ninguém sabe sofrer como Bruce Springsteen.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Scorpions - "Catch Your Train"

"Don't be low, keep your own style and catch your train!"



A saída de Uli Jon Roth dos Scorpions, no final de 1978, marcou um ponto de viragem para a banda, o ponto em que se aproximou da sua sonoridade mais reconhecida.
Para trás, ficara uma década de metal ao mais alto nível, no mais pesado registo e um espólio de álbuns de enorme relevância no género. O meu álbum preferido desta fase é "Virgin Killer", lançado em 1976.
Seguindo o exemplo de "In Trance" e talvez alienados pelo estilo de vida de excessos que seguiam (para terem uma ideia, os Scorpions tinham acabado de andar em digressão com os Kiss), a banda decidiu lançar "Virgin Killer" com uma capa de álbum muitíssimo arrojada:


A ideia nem sequer partiu de nenhum dos membros da banda, mas sim da RCA - editora discográfica dos Scorpions na época - que queria gerar maior atenção à volta da banda. O objectivo foi cumprido, mas o problema é que, desta vez, muitos acharam que os Scorpions tinham ido longe demais. De tal forma que a capa acabou banida na maioria dos países onde o álbum foi lançado, sendo substituída por esta:


Para mim, é muito difícil avaliar o impacto que uma imagem destas teria nos anos 70, mas partindo do princípio que ela ainda hoje é censurada em vários sites na internet (incluindo, durante um período de tempo, na Wikipedia), imagino o choque que deve ter provocado na altura. Na minha opinião, trata-se de uma obra de arte, onde não vejo qualquer apelo sexual (é uma criança, porra!) e deve ser vista como tal. A imagem ilustra literalmente uma metáfora presente num tema do álbum (na verdade "Virgin Killer" diz respeito ao "tempo" e não deve ser lido literalmente) e pretende, objectivamente, chamar a atenção da púdica e tantas vezes perversa mente humana.
Eu não me sinto minimamente chocado ao olhar para a imagem, mas confesso que se tivesse o álbum em LP em casa, com esta capa, não o deixaria à vista dos meus filhos. Partindo do princípio que a capa de um álbum está exposta em qualquer loja de discos e que estas são acessíveis a qualquer criança... fica difícil de avaliar.
Resumindo: Inapropriado? Certamente. Mau gosto? Talvez. Ofensivo? Não me parece.

A polémica das capas vinha de trás ( "In Trance" já tinha sido censurado) e continuaria com "Taken By Force", que também seria banida de vários países, por mostrar dois miúdos a brincar aos cowboys num cemitério. Para terem uma ideia da política de choque que os Scorpions seguiam com as capas dos seus álbuns, deixo aqui a sequência de capas de "In Trance" (1975) a "Love At First Sting" (1984), os 10 anos dourados da carreira dos Scorpions:
(e já nem vou às compilações...)


"In Trance" (1970)

"Virgin Killer" (1976)

"Taken by Force" (1977)

"Lovedrive" (1979)

"Animal Magnetism" (1980)

"Blackout" (1982)

"Love at First Sting" (1984)

Voltando agora ao que realmente interessa (a música), o álbum "Virgin Killer" abre com uma sequência de 3 temas absolutamente esmagadora: "Pictured Life" / "Catch Your Train" / "In Your Park". Situado a meio deste lote está "Catch Your Train" - o espelho perfeito da música dos Scorpions naquele tempo: um tema "sempre a abrir", cortesia da guitarra rítmica de Rudolph Schenker; com aquela "lírica genérica Rock", característica dos Scorpions (não encontro melhor maneira de definir este registo que, aliás, acompanhou a banda ao longo de toda a sua carreira); um fenomenal solo de shredding de Uli Jon Roth (estilo de tocar guitarra em que ele foi pioneiro) e uma pujante interpretação vocal de Klaus Meine. Esta era a receita dos Scorpions na época e o resultado está à vista. É a banda sonora perfeita para a estrada, especialmente se for à noite, especialmente no Verão.

Em contrapartida, se ouvirmos a versão gravada em 2000, ao vivo no Convento do Beato, em Lisboa, para o álbum "Acoustica", perguntamo-nos para onde foi toda aquela pujança. Talvez ter-se-á perdido com os anos, ou ficado na Alemanha, mas a Lisboa não veio naquela noite de certeza. Aqui, vemos os Scorpions já totalmente domesticados (como falei aqui), apoiados por hediondos coros femininos, sem uma réstia da mística obscura dos anos 70.



Se é verdade que eu sou o primeiro a defender os Scorpions contra os hipsters que vêem neles um alvo fácil, como dinossauros sobreviventes do metal dos anos 70 e 80 que se tornaram, também não posso deixar de admitir que eles durante algum tempo contribuíram muito para a desintegração social do seu próprio nome.
Comparem agora a versão acústica de Lisboa, com a actuação ao vivo no Nakano Sun Plaza, em 1978, no mesmo concerto em que foi gravado "Tokyo Tapes" (álbum que deixou este tema de fora):



Os verdadeiros Scorpions? É neste comboio, é por aqui.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Scorpions - "We'll Burn The Sky"

"We´ll burn the sky, when it´s time for me to die!"



Nos idos anos 70, os Scorpions eram um animal (pun intended) bastante diferente.
Antes de ser domesticado no final dos anos 80 e vulgarizado no final dos anos 90, o escorpião era um animal selvagem, que espalhava o seu veneno pelas salas escuras dos 70's, um pouco por todo o Mundo.
Nesta altura, os Scorpions eram uma banda de culto; uma banda que tocava puro metal, do mais pesado e inventivo que se fazia então. Foi assim que ganharam uma visibilidade notável, principalmente se tivermos em conta que estavam fora dos pólos comerciais US / UK. É que é preciso lembrar que os Scorpions são uma banda alemã que em tempos triunfou em TODO o Mundo, sem excepção. A tocar metal e a cantar em inglês, não houve mercado que os Scorpions não dominassem, mais tarde ou mais cedo. Em suma, triunfaram a jogar fora de casa e submetendo-se às regras do mercado adversário.
É verdade que esse triunfo se deu em muitos lugares à custa da já referida domesticação a posteriori, mas não deixa de ser um feito notável.

A carreira dos Scorpions está nesta altura prestes a terminar (ou pelo menos é o que eles apregoam desde 2010, ano de lançamento do suposto álbum de despedida "Sting In The Tail") e a banda parece já correr em modo automático. Mas a História dos Scorpions já vai longa, remontando ao ano de 1965, ainda os The Beatles não tinham lançado "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", altura em que o jovem guitarrista Rudolph Schenker decidiu formar uma banda.
Porém, só em 1970 é que os Scorpions começaram a tomar a sua forma, quando o também guitarrista Michael Schenker (irmão mais novo de Rudolph) e o vocalista Klaus Meine se juntaram ao grupo. A banda procurou tocar num registo semelhante ao que os Led Zeppelin faziam na época, e em 1972 lançaram o seu primeiro álbum "Lonesome Crow".

Após o 1º álbum, Michael Schenker saiu e entrou Ulrich Roth (que mais tarde "internacionalizou-se" como Uli Jon Roth). Com esta troca, os Scorpions endureceram e assim encontraram o seu caminho. À medida que foram lançando sucessivos trabalhos de enorme qualidade, ganharam notoriedade no panorama europeu do metal, culminando na extraordinária sequência de álbuns "In Trance" / "Virgin Killer" / "Taken By Force" que, de 1975 a 1977, elevaram os Scorpions ao status de banda de metal internacional.

Foi aqui que os Scorpions atingiram aquele que foi, na minha opinião, o ponto mais alto de toda a sua carreira, com o fabuloso "We'll Burn The Sky". O tema foi escrito por Rudolph Schenker e a lírica foi emprestada por Monika Dannemann - última namorada de Jimi Hendrix, que após a sua morte se envolveu com Uli Jon Roth - que dedicou a Hendrix o poema que serviu de base à canção.

"I know we´ve never been apart, your love sets fire to my heart
We´ll burn the sky, when it´s time for me to die! We´ll burn the sky!"

Capitalizando o sucesso retumbante que tinham no Japão (à semelhança de outras bandas pesadas da época como os Queen e os Deep Purple), os Scorpions viajaram para a "Terra do Sol Nascente" para gravar o álbum ao vivo "Tokyo Tapes" em 1978 (os Deep Purple também já o tinham feito, com "Made In Japan"). O álbum documentava as últimas actuações ao vivo da banda com Uli Jon Roth, que já tinha anunciado a sua saída depois do lançamento de "Taken By Force".
"We'll Burn The Sky" aparece em "Tokyo Tapes" com um solo prolongado de Uli Jon Roth, dando-lhe a oportunidade para brilhar intensamente na sua despedida dos Scorpions.



Para substituir Uli Jon Roth, entrou Matthias Jabs, guitarrista que se mantém até hoje na banda. Com esta mudança, o registo dos Scoprions foi amolecendo a pouco e pouco, tornando a sonoridade da banda mais "amigável" e consequentemente, o sucesso nas tabelas foi aumentando.
Os álbuns de qualidade continuaram a suceder-se até a meados dos anos 80, mas quando surgiu "Love At First Sting" e os Scorpions encontraram o sucesso, o escorpião deixou em definitivo a selva e o animal nunca mais foi o mesmo...