quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Bruce Springsteen - "Thunder Road"

"Why do we suffer? I got the answer to that one: because we have to! What would life be?"
"Porque é que sofremos? Eu sei a resposta: porque temos que o fazer! Como é que seria a vida?"

Quem mais poderia reproduzir estas palavras, se não Bruce Springsteen?
Quem mais nos poderia fazer reflectir sobre a importância, o valor, de um estado de espírito do qual fugimos toda uma vida?
O sofrimento. Porque ninguém sabe sofrer como Bruce Springsteen.

É com esta reflexão que Bruce abre o filme "Wings For Wheels - The Making Of Born To Run", o (fabuloso) documentário que mostra o making of de "Born To Run", o álbum que em 1975 lançou Bruce definitivamente para o estrelato. O filme de Thom Zimny (que acabaria por ganhar um Grammy em 2007) é uma ferramenta essencial para se perceber Bruce Springsteen e como este criou um dos álbuns que marcaram de forma indelével o Rock americano nos anos 70.

"Born To Run" foi a obra que deu a conhecer Bruce Springsteen ao Mundo, dando-lhe as capas das revistas Time e da Newsweek na mesma semana. Mas mais do que isso, "Born To Run" foi o álbum que definiu Bruce Springsteen, onde ele nos revelou ao que vinha. Foi também onde Bruce introduziu os personagens que o seguiram nas 3 décadas seguintes. Personagens que deram asas à nossa imaginação, com as quais nos pudemos identificar tantas e tantas vezes. Porque como disse Jon Stewart, no seu discurso, aquando da condecoração de Bruce para os Kennedy Center Honors:
"When you listen to Bruce’s music, you aren’t a loser. You are a character in an epic poem... about losers."
"Quando ouves a música do Bruce, não és um falhado. És um personagem num poema épico... sobre falhados."


O álbum "Born To Run" está na lista daqueles assuntos que me são extremamente difíceis de abordar aqui no blog. Difícil porque é um álbum de grande significado pessoal, que em tempos me marcou profundamente e difícil porque (também por isso) há tanta, TANTA coisa para dizer... Por onde começar?

Segundo Bruce Springsteen, "Born To Run" é um conjunto de histórias épicas, que poderiam decorrer todas "numa interminável noite de Verão". São histórias que dançam à volta de uma motivação, de uma vontade: fugir.
Há por todo o álbum um sentimento que uma jornada importante se aproxima, um momento que vai definir a nossa vida. O sentimento é de urgência, de fuga das raízes. É preciso fazer alguma coisa para mudar uma vida que não nos satisfaz e é preciso fazê-lo urgentemente.
Querer fugir, ir embora para outro lado, mas sem saber ainda para onde. Na verdade, isso não interessa, desde que seja para fora daqui.
Não há certezas, a não ser de que aqui, nesta vida, neste paradigma, não dá.

"Born To Run" é um álbum que me diz muito. Diz tanto como "Darkness On The Edge Of Town", mas de uma maneira diferente, porque eles marcaram a minha vida em fases diferentes, mais ou menos da mesma maneira que marcaram Bruce. Em "Darkness", Bruce desmonta os sonhos que desenhara em "Born To Run", mas aqui, a ingenuidade da sua juventude impede-o de prever o que se passará a seguir. Passou-se com Bruce em meados dos anos 70, passar-se-ia comigo 30 anos depois.

Penso que já deu para perceber: tive uma fase fortíssima de "Born To Run" quando era mais novo, nomeadamente quando aos 17 anos fiz as malas e vim viver sozinho para Lisboa. Achava que o Mundo ia ser meu, todos os meus sonhos se iam tornar realidade e nada, nem ninguém, me poderia parar. E a verdade é que a História (a minha), com os seus percalços, até correu bastante bem.
Mas ao fim de algum tempo, inevitavelmente, percebemos que NADA na vida corre como tínhamos planeado. Pode até correr "bem", mas não era "bem aquilo" que nós havíamos pensado. Por vezes, corre mesmo "mal" e outras vezes ainda, quando pensamos que "pior" não pode ficar, porque chegámos ao fundo do poço, alguém se lembra de pegar numa pá e começar a escavar.

É a vida. Somos obrigados a lidar com todas estas situações e a música de Bruce Springsteen parece servir de manual para saber como fazê-lo. Ou pelo menos para perceber que não estamos sozinhos. Que alguém, há muitos anos, muito longe de nós e em circunstâncias diferentes, passou pelo mesmo.
Bruce mostrou que o sofrimento é sentido por todos, da mesma forma. Porque ninguém sabe sofrer como Bruce Springsteen.




"It's a town for losers, but I'm pulling down here to win"

...grita Bruce Springsteen no clímax de "Thunder Road", tema de abertura do álbum "Born To Run" e que resultara de uma evolução de "Wings For Wheels" (nome que iria baptizar o documentário de Thom Zimmy sobre "Born To Run").
"Thunder Road" materializava, da cabeça à ponta dos pés, o que sentia no dia que cheguei a Lisboa. De facto, "Thunder Road" foi o primeiro tema que ouvi em Lisboa, imediatamente a seguir a ter montado a minha (hoje defunta) aparelhagem. Era a transcrição do que me ia na alma.
Tinha 17 anos e a mesma vontade, o mesmo sentido de urgência, que Bruce anunciava naquele tema. Eu ouvia "Thunder Road" e chegando àquele clímax, aumentava o volume dos altifalantes até ao máximo. Estava sozinho, no meu exíguo quarto em Lisboa (tão exíguo, que se eu esticasse os braços, tocava nas paredes de ambos os lados do quarto!) mas Bruce estava ali, a cantar para mim, sobre mim. Restava-me cumprir a profecia de Bruce Springsteen.

Naquele momento, era tudo tão claro. De tal forma que parecia que Bruce escrevera este álbum sobre mim, ou dirigido à minha pessoa, 10 anos antes de eu ter nascido. Claro que, como eu, milhões de pessoas espalhadas por todo o Mundo sentiam o mesmo.
Com "Born To Run", Bruce Springsteen uniu pela primeira vez milhões de pessoas à volta de um sentimento, de uma vontade, de uma urgência, de um sofrimento. É essa a força, é essa a magia de Bruce Springsteen.
Porque a verdade é que ninguém sabe sofrer como Bruce Springsteen.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Scorpions - "Catch Your Train"

"Don't be low, keep your own style and catch your train!"



A saída de Uli Jon Roth dos Scorpions, no final de 1978, marcou um ponto de viragem para a banda, o ponto em que se aproximou da sua sonoridade mais reconhecida.
Para trás, ficara uma década de metal ao mais alto nível, no mais pesado registo e um espólio de álbuns de enorme relevância no género. O meu álbum preferido desta fase é "Virgin Killer", lançado em 1976.
Seguindo o exemplo de "In Trance" e talvez alienados pelo estilo de vida de excessos que seguiam (para terem uma ideia, os Scorpions tinham acabado de andar em digressão com os Kiss), a banda decidiu lançar "Virgin Killer" com uma capa de álbum muitíssimo arrojada:


A ideia nem sequer partiu de nenhum dos membros da banda, mas sim da RCA - editora discográfica dos Scorpions na época - que queria gerar maior atenção à volta da banda. O objectivo foi cumprido, mas o problema é que, desta vez, muitos acharam que os Scorpions tinham ido longe demais. De tal forma que a capa acabou banida na maioria dos países onde o álbum foi lançado, sendo substituída por esta:


Para mim, é muito difícil avaliar o impacto que uma imagem destas teria nos anos 70, mas partindo do princípio que ela ainda hoje é censurada em vários sites na internet (incluindo, durante um período de tempo, na Wikipedia), imagino o choque que deve ter provocado na altura. Na minha opinião, trata-se de uma obra de arte, onde não vejo qualquer apelo sexual (é uma criança, porra!) e deve ser vista como tal. A imagem ilustra literalmente uma metáfora presente num tema do álbum (na verdade "Virgin Killer" diz respeito ao "tempo" e não deve ser lido literalmente) e pretende, objectivamente, chamar a atenção da púdica e tantas vezes perversa mente humana.
Eu não me sinto minimamente chocado ao olhar para a imagem, mas confesso que se tivesse o álbum em LP em casa, com esta capa, não o deixaria à vista dos meus filhos. Partindo do princípio que a capa de um álbum está exposta em qualquer loja de discos e que estas são acessíveis a qualquer criança... fica difícil de avaliar.
Resumindo: Inapropriado? Certamente. Mau gosto? Talvez. Ofensivo? Não me parece.

A polémica das capas vinha de trás ( "In Trance" já tinha sido censurado) e continuaria com "Taken By Force", que também seria banida de vários países, por mostrar dois miúdos a brincar aos cowboys num cemitério. Para terem uma ideia da política de choque que os Scorpions seguiam com as capas dos seus álbuns, deixo aqui a sequência de capas de "In Trance" (1975) a "Love At First Sting" (1984), os 10 anos dourados da carreira dos Scorpions:
(e já nem vou às compilações...)


"In Trance" (1970)

"Virgin Killer" (1976)

"Taken by Force" (1977)

"Lovedrive" (1979)

"Animal Magnetism" (1980)

"Blackout" (1982)

"Love at First Sting" (1984)

Voltando agora ao que realmente interessa (a música), o álbum "Virgin Killer" abre com uma sequência de 3 temas absolutamente esmagadora: "Pictured Life" / "Catch Your Train" / "In Your Park". Situado a meio deste lote está "Catch Your Train" - o espelho perfeito da música dos Scorpions naquele tempo: um tema "sempre a abrir", cortesia da guitarra rítmica de Rudolph Schenker; com aquela "lírica genérica Rock", característica dos Scorpions (não encontro melhor maneira de definir este registo que, aliás, acompanhou a banda ao longo de toda a sua carreira); um fenomenal solo de shredding de Uli Jon Roth (estilo de tocar guitarra em que ele foi pioneiro) e uma pujante interpretação vocal de Klaus Meine. Esta era a receita dos Scorpions na época e o resultado está à vista. É a banda sonora perfeita para a estrada, especialmente se for à noite, especialmente no Verão.

Em contrapartida, se ouvirmos a versão gravada em 2000, ao vivo no Convento do Beato, em Lisboa, para o álbum "Acoustica", perguntamo-nos para onde foi toda aquela pujança. Talvez ter-se-á perdido com os anos, ou ficado na Alemanha, mas a Lisboa não veio naquela noite de certeza. Aqui, vemos os Scorpions já totalmente domesticados (como falei aqui), apoiados por hediondos coros femininos, sem uma réstia da mística obscura dos anos 70.



Se é verdade que eu sou o primeiro a defender os Scorpions contra os hipsters que vêem neles um alvo fácil, como dinossauros sobreviventes do metal dos anos 70 e 80 que se tornaram, também não posso deixar de admitir que eles durante algum tempo contribuíram muito para a desintegração social do seu próprio nome.
Comparem agora a versão acústica de Lisboa, com a actuação ao vivo no Nakano Sun Plaza, em 1978, no mesmo concerto em que foi gravado "Tokyo Tapes" (álbum que deixou este tema de fora):



Os verdadeiros Scorpions? É neste comboio, é por aqui.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Scorpions - "We'll Burn The Sky"

"We´ll burn the sky, when it´s time for me to die!"



Nos idos anos 70, os Scorpions eram um animal (pun intended) bastante diferente.
Antes de ser domesticado no final dos anos 80 e vulgarizado no final dos anos 90, o escorpião era um animal selvagem, que espalhava o seu veneno pelas salas escuras dos 70's, um pouco por todo o Mundo.
Nesta altura, os Scorpions eram uma banda de culto; uma banda que tocava puro metal, do mais pesado e inventivo que se fazia então. Foi assim que ganharam uma visibilidade notável, principalmente se tivermos em conta que estavam fora dos pólos comerciais US / UK. É que é preciso lembrar que os Scorpions são uma banda alemã que em tempos triunfou em TODO o Mundo, sem excepção. A tocar metal e a cantar em inglês, não houve mercado que os Scorpions não dominassem, mais tarde ou mais cedo. Em suma, triunfaram a jogar fora de casa e submetendo-se às regras do mercado adversário.
É verdade que esse triunfo se deu em muitos lugares à custa da já referida domesticação a posteriori, mas não deixa de ser um feito notável.

A carreira dos Scorpions está nesta altura prestes a terminar (ou pelo menos é o que eles apregoam desde 2010, ano de lançamento do suposto álbum de despedida "Sting In The Tail") e a banda parece já correr em modo automático. Mas a História dos Scorpions já vai longa, remontando ao ano de 1965, ainda os The Beatles não tinham lançado "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", altura em que o jovem guitarrista Rudolph Schenker decidiu formar uma banda.
Porém, só em 1970 é que os Scorpions começaram a tomar a sua forma, quando o também guitarrista Michael Schenker (irmão mais novo de Rudolph) e o vocalista Klaus Meine se juntaram ao grupo. A banda procurou tocar num registo semelhante ao que os Led Zeppelin faziam na época, e em 1972 lançaram o seu primeiro álbum "Lonesome Crow".

Após o 1º álbum, Michael Schenker saiu e entrou Ulrich Roth (que mais tarde "internacionalizou-se" como Uli Jon Roth). Com esta troca, os Scorpions endureceram e assim encontraram o seu caminho. À medida que foram lançando sucessivos trabalhos de enorme qualidade, ganharam notoriedade no panorama europeu do metal, culminando na extraordinária sequência de álbuns "In Trance" / "Virgin Killer" / "Taken By Force" que, de 1975 a 1977, elevaram os Scorpions ao status de banda de metal internacional.

Foi aqui que os Scorpions atingiram aquele que foi, na minha opinião, o ponto mais alto de toda a sua carreira, com o fabuloso "We'll Burn The Sky". O tema foi escrito por Rudolph Schenker e a lírica foi emprestada por Monika Dannemann - última namorada de Jimi Hendrix, que após a sua morte se envolveu com Uli Jon Roth - que dedicou a Hendrix o poema que serviu de base à canção.

"I know we´ve never been apart, your love sets fire to my heart
We´ll burn the sky, when it´s time for me to die! We´ll burn the sky!"

Capitalizando o sucesso retumbante que tinham no Japão (à semelhança de outras bandas pesadas da época como os Queen e os Deep Purple), os Scorpions viajaram para a "Terra do Sol Nascente" para gravar o álbum ao vivo "Tokyo Tapes" em 1978 (os Deep Purple também já o tinham feito, com "Made In Japan"). O álbum documentava as últimas actuações ao vivo da banda com Uli Jon Roth, que já tinha anunciado a sua saída depois do lançamento de "Taken By Force".
"We'll Burn The Sky" aparece em "Tokyo Tapes" com um solo prolongado de Uli Jon Roth, dando-lhe a oportunidade para brilhar intensamente na sua despedida dos Scorpions.



Para substituir Uli Jon Roth, entrou Matthias Jabs, guitarrista que se mantém até hoje na banda. Com esta mudança, o registo dos Scoprions foi amolecendo a pouco e pouco, tornando a sonoridade da banda mais "amigável" e consequentemente, o sucesso nas tabelas foi aumentando.
Os álbuns de qualidade continuaram a suceder-se até a meados dos anos 80, mas quando surgiu "Love At First Sting" e os Scorpions encontraram o sucesso, o escorpião deixou em definitivo a selva e o animal nunca mais foi o mesmo...

domingo, 9 de setembro de 2012

Bruce Springsteen - "My City Of Ruins"

"Come on, rise up!"



Reza a História que logo a seguir aos atentados de 11 de Setembro de 2001, enquanto os orgulhosos Estados Unidos da América tentavam colar os cacos de um país despedaçado, alguém viu Bruce Springsteen na rua e gritou: "Bruce, we need you now!"

Bruce respondeu à chamada e reuniu a lendária E Street Band, para gravar o seu primeiro álbum desde "Born In The U.S.A." de 1984. Naquele momento, mais do que nunca, os EUA precisavam de Bruce Springsteen e o Boss não os desiludiu. O resultado foi "The Rising" - um álbum que serviu de catarse para o orgulho americano, um álbum que serviu não só para carpir as mágoas de todos os que perderam os seus entes queridos, mas também para lhes apontar um caminho.


Na ressaca dos atentados de 9/11, muitos foram os artistas que se inspiraram naqueles acontecimentos e lançaram álbuns sobre essa temática… e depois houve Bruce Springsteen.

"The Rising" é uma das mais cabais obras sobre a perseverança, é uma ode à esperança. Bruce convoca aquela força interior que desconhecíamos até nos depararmos com uma situação adversa, seja essa situação uma tragédia como a perda de um familiar ou de um amigo num atentado (como o 9/11), um acidente, ou a dissolução de uma relação. Ao longo de todo o álbum percorre-se um sentimento de perda. Mas "The Rising" é uma receita de como dar a volta por cima, rogar a verdadeira natureza humana, a força necessária para dobrar uma situação.

"My City Of Ruins" foi escrito em Novembro de 2000 para um evento de beneficência em Asbury Park, bairro natal de Bruce, que havia baptizado o seu primeiro álbum "Greetings From Asbury Park, NJ". O significado original do tema era o abandono a que o seu bairro tinha sido vetado, mas depois do 9/11, "Ruins" ganhou todo um novo significado.
Bruce tocou o tema no America: A Tribute to Heroes - o concerto de apoio aos familiares das vítimas do 11 de Setembro - apenas com a sua guitarra e a sua harmónica. "My City Of Ruins" serviu de abertura do programa, com Bruce a introduzir como "uma reza pelos nossos irmãos e irmãs perdidos". Foi um dos pontos altos da noite.



"Now tell me how do I begin again?"

Como é que eu começo de novo? O que é que eu faço? "The Rising" não se limita a fazer as perguntas, os dilemas que nos colocamos depois de uma tragédia. Mais do que isso, este álbum dá as respostas.
Com "The Rising", Bruce mostra também a sua faceta de messias, alguém que para além de saber apontar os problemas da sociedade (como fez ao longo da maior parte da sua carreira), sabe igualmente apontar as suas valências e mostrar o seu lado mais humano, mais redentor.
Áfinal, Bruce também sabe fazer canções de esperança.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Noel Gallagher - "There Is A Light That Never Goes Out" (Live)

"There is a light and it never goes out..."



Já tive dias melhores. Não que o dia de regresso ao trabalho após as férias seja, alguma vez, um dia muito feliz, mas regressar ao trabalho com um acidente de automóvel é, digamos, um dia especialmente mau.
O que mais vos posso dizer acerca do dia de hoje? É que hoje é um dia tão bom como qualquer outro para se ser poético. E por isso mesmo vos digo que hoje, pela primeira vez em toda a minha vida, durante uma fugaz sequência de fracções de segundo... as luzes apagaram todas e eu vi a Velha Senhora. Fitei-a e olhei-a nos olhos, algo que espero nunca mais fazer durante muitos... muitos anos.
As luzes apagaram todas... todas menos uma. Porque para mim, há ainda uma luz que nunca se apaga.



Qual era a música que profeticamente tocava no auto-rádio no exacto momento do acidente?
Nem a propósito: "There Is a Light That Never Goes Out", tema original dos The Smiths, do seu álbum ex libris "The Queen Is Dead" (mas lançado em single apenas em 1992), na voz de Noel Gallagher.

"Driving in your car, I never never want to go home, because I haven't got one... Anymore."

Já tive dias melhores. Mas daqui vos continuo a escrever porque para mim, há ainda uma luz que nunca se apaga.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

The Beatles - "Magical Mystery Tour"

"Roll up for the Magical Mystery Tour! Step right this way!"



Hoje foi finalmente anunciado o lançamento do filme "Magical Mystery Tour" em DVD e Blu-Ray, uma obra criada, produzida e realizada pelos The Beatles.
"Magical Mystery Tour" foi o 3º filme dos The Beatles e partiu de uma ideia de Paul McCartney que, depois do álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" (conceito que também partiu dele), queria criar um filme sobre a música que os Beatles faziam na época. Ora, estando os Beatles na sua fase mais profundamente psicadélica, cheios de droga no corpo (pronto, já disse!), o que é que se poderia esperar de um filme sem enredo e sem guião, baseado numa excursão de autocarro (que existia mesmo nos anos 60) de Liverpool a Blackpool em que, segundo George Harrison, apenas servia para os passageiros se embebedarem como se não houvesse amanhã? O que esperar disto?
Uma fritadura do princípio ao fim. Objectivamente, é isto.

Mas "Magical Mystery Tour" vale pela sua música e isso não é pouco. De resto, sejamos sinceros, como filme, é uma imagem pálida da arte dos Beatles. Vale momentos de piada, por mostrar algumas situações inusitadas, como John Lennon a servir esparguete com uma colher gigante e claro, pelos interlúdios musicais. Na minha opinião, são estes que salvam o filme, e salvam (sempre) a pele dos Beatles, porque na verdade é de música que os The Beatles percebem, é essa a sua arte. E isso não é pouco.

A recepção ao filme foi um verdadeiro desastre, logo após a sua transmissão na BBC, a preto-e-branco. Sendo "Magical Mystery Tour" uma obra psicadélica, onde a cor assume um papel fundamental, isto não ajudou a divulgação do filme e revelou ainda mais as suas fraquezas. O facto de ter sido mostrado ao público a preto-e-branco foi apontado pelo produtor dos Beatles George Martin, como o responsável pelo seu falhanço, mas a verdade é que todos sabiam que o filme era realmente fraco, especialmente tendo em conta que levava a marca de qualidade dos Beatles. O falhanço foi mais tarde admitido pelo próprio Paul, que acabou por pedir desculpa publicamente pelo filme, algo que, segundo o biógrafo dos Beatles Hunter Davies, marcou a primeira vez que um artista foi obrigado a pedir desculpa pelo seu trabalho.

O grande interesse de "Magical Mystery Tour" é, como referi, a música.
Para acompanhar o lançamento do filme, em Dezembro de 1967 os The Beatles lançaram no Reino Unido um duplo EP (Extended Play) de 45 rotações com a sua banda sonora:


DUPLO EP (lançado a 8 de Dezembro de 1967 no Reino Unido)

EP 1
- Lado A
"Magical Mystery Tour"
"Your Mother Should Know"
- Lado B
"I Am the Walrus"

EP 2
- Lado A
"The Fool on the Hill"
"Flying"
- Lado B
"Blue Jay Way"

Nos EUA, a Capitol (editora dos The Beatles naquele país) não gostou da ideia dos EP's em 45 rotações, um formato que não era popular no público americano. Como o material era muito pouco para um álbum inteiro (daí o lançamento em formato EP), a editora decidiu colocar a banda sonora no Lado A, adicionar o material dos singles lançados em 1967 pelos Beatles no Lado B e assim lançar um reformulado LP (Long Play).


LP (lançado a 27 de Novembro de 1967 nos EUA)
- Lado A (Banda Sonora)
"Magical Mystery Tour"
"The Fool on the Hill"
"Flying"
"Blue Jay Way"
"Your Mother Should Know"
"I Am the Walrus"
- Lado B (Singles de 1967)
"Hello, Goodbye"
"Strawberry Fields Forever"
"Penny Lane"
"Baby, You're a Rich Man"
"All You Need Is Love"


Esta reformulação foi feita contra a vontade da banda, mas a verdade é que pegou e com o passar dos anos, "Magical Mystery Tour" ganhou o estatuto de um álbum genuíno dos The Beatles, em nome próprio.
Durante muitos anos, antes de mergulhar mais profundamente no maravilhoso mundo dos álbuns dos The Beatles, se perguntassem qual o meu álbum preferido da banda, a minha resposta seria mesmo "Magical Mystery Tour". Entre uma série de singles que moldaram a minha infância, o álbum tem aquele que foi o meu tema preferido da banda desde que um amigo meu levou uma cassete com uma gravação pirata da compilação 1967-1970 para a escola, andava eu no 4º ano: "I Am The Walrus". Quando fui exposto pela primeira vez ao grito de Lennon "GOO GOO G´JOOB", soube imediatamente que estava ali uma banda que iria marcar indelevelmente a minha vida.

Fica então o vídeo promocional do novo lançamento do filme "Magical Mystery Tour" em DVD e Blu-Ray, bem como numa caixa de luxo que junta os dois formatos a um livro e a uma réplica do duplo EP original. O maior ponto de interesse é, para mim, a remistura da banda sonora em surround 5.1 e stereo. Se tudo correr como de costume, vou acabar por ceder à maior (e mais cara) edição...



Podem também ver os extras destas reedições no site oficial da banda, ou no meu blog de eleição no que toca a toda a actualidade informativa de reedições: o The Second Disc.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

George Harrison - "All Things Must Pass"

"All things must pass, none of life's strings can last
So I must be on my way and face another day"



Adoro o George Harrison.
Ele pode até ter sido o "Quiet Beatle" - o mais modesto e discreto elemento dos The Beatles. Contudo, ele carrega uma aura que nenhum dos outros alguma vez atingiu. Talvez devido à sua devoção espiritual, ou às influências indianas, há algo em George de único, que lança a sua música para um patamar de apreciação metafísico. Isso é particularmente audível no seu tour de force "All Things Must Pass" - o primeiro álbum a solo de George, lançado em 1970.
"All Things Must Pass" é um álbum fabuloso, mas é mais que isso. É divinal.


"All Things Must Pass" é um álbum duplo, que resulta de uma gigantesca pilha de temas que George Harrison tinha deixado de lado ao longo do seu tempo nos Beatles, onde estava limitado a uma pequena quota de temas por álbum. Dos poucos que George conseguia meter nos álbuns dos Beatles, apenas "Something" chegou a single e só em 1969, ano de despedida da banda.
Temos que ter em conta que os Beatles eram fundamentalmente a banda de Lennon e McCartney... onde Harrison também tocava. Os seus momentos de protagonismo na banda foram muito efémeros e concentrados na fase final, onde a escrita de Harrison melhorou exponencialmente, com temas como "Something", "Here Comes The Sun", ou "While My Guitar Gently Weeps".
Este domínio de Lennon e de McCartney (principalmente de McCartney que, não por acaso, era chamado de "Bossy Beatle") sobre Harrison ficou bem demonstrado no filme "Let It Be" e na discussão com Paul, durante os ensaios para "Maxwell Silver Hammer". Farto de ser subjugado pelos seus colegas, George saiu furioso do estúdio e foi para casa escrever "Wah-Wah", tema que mais tarde seria também incluído em "All Things Must Pass".

Eu disse que "All Things Must Pass" era um álbum duplo? Esqueçam. É sim um álbum triplo, se contarmos com o disco bónus "Apple Jams", incluído na caixa de LP's original:


A quantidade de material que George Harrison tinha guardada para o seu primeiro álbum a solo era tão grande que deixou o produtor do Phil Spector completamente estarrecido, como o próprio conta no (excelente) filme biográfico de George "Living In The Material World" de Martin Scorsese (que recomendo vivamente). George chamou Spector para lhe apresentar o seu material e à medida que sacava de mais e mais temas que tinha empilhados dos tempos dos Beatles, Spector apercebia-se que George tinha em mãos um filão colossal e que a grande dificuldade seria fazer uma triagem daquilo tudo para o seu primeiro álbum a solo. O resultado da triagem acabou por ser um álbum duplo (mais o "Apple Jams"), dos melhores álbuns duplos de sempre, um álbum que rivaliza com o melhor que os The Beatles já fizeram. Uma maravilha musical, um álbum divinal.


Eu não sei se têm a noção do que vos espera em "All Things Must Pass". É um álbum que pode mudar a vossa vida. A minha, mudou um bocadinho com certeza.
Diria que este foi um dos álbuns que teve mais impacto na minha vida, mas um impacto diferente do que teve, por exemplo, "Appetite For Destruction" dos Guns N' Roses na minha adolescência. "All Things Must Pass" é uma mensagem de esperança, uma lufada de ar fresco, uma aterragem suave num colchão de água, forrado com lençóis de seda.



Sempre que ouço este álbum, sinto um arrepio na espinha. É uma sensação estranha... Como que se fosse esmagado, subjugado, overwhelmed pela beleza da música.
Não há vez nenhuma que eu ouça a entrada explosiva de "Awaiting On You All" ou "Let It Down", o riff de "Art Of Dying" (tema que conta com um Phil Collins de 17 aninhos na percussão), ou a introdução de bateria de "Hear Me Lord", que eu não sinta o tal arrepio na espinha.
Não sei se é o do uso contínuo da slide guitar (instrumento que eu adoro), se do preenchimento da paisagem sonora pela densidade de instrumentos resultante da produção "Wall Of Sound" de Phil Spector... Não sei, mas este álbum mexe comigo. Mexe comigo de uma maneira que mais nenhum álbum a solo dos The Beatles faz; mais: que nenhum álbum dos The Beatles faz; mais ainda: como muito poucos álbuns fazem.
Eu sei que tenho um uso fácil dos superlativos (como me diz uma amiga frequentemente: "Nuno, nem tudo pode ser o melhor de sempre!"), mas confiem em mim relativamente a "All Things Must Pass". É um álbum que vos vai atirar para um lugar de paz e tranquilidade.

"Now the darkness only stays the night-time, in the morning it will fade away..."

Pessoalmente, foi o meu álbum de 2011, o álbum que mais me marcou no ano que passou. É um álbum que associo a bons tempos que passei em Londres e todos sabemos como nos sentimos relativamente à música ligada a bons momentos.

Adoro o George Harrison. Já o tinha dito?
Ele pode ter sido o "quiet Beatle", uma figura de segundo plano da banda. Mas na minha opinião, foi ele quem escreveu o melhor tema da banda ("While My Guitar Gently Weeps"), lançou o melhor álbum a solo ("All Things Must Pass") e... last but definitely not least, tinha a mulher mais bonita entre todos os The Beatles: a maravilhosa Pattie Boyd.



Pattie Boyd, que faria com George Harrison e Eric Clapton o triângulo amoroso mais lendário da História do Rock, uma disputa entre dois melhores amigos pela mesma miúda, que resultou nalgumas das baladas mais fantásticas de sempre. Mas isso é assunto para outras núpcias...