quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Genesis - "The Lamia"

"The lights are dimmed and once again the stage is set for you"



"As luzes estão apagadas e mais uma vez, o palco está à tua espera."


Já uma estrela de culto, figura de proa do Rock Progressivo, foi no dia 22 de Maio de 1975, que Peter Gabriel entrou em palco pela última vez com os Genesis. A ocasião foi a última noite da "The Lamb Lies Down On Broadway Tour" - um espectáculo teatral alucinante, na época revolucionário no Rock.
O palco esperava-o no Palais des Sports, em Besançon, muito longe de casa. Gabriel estava farto. Até esta noite, um longo caminho com os Genesis ficara para trás. Com 5 álbuns em 4 anos e uma agenda de espectáculos intensa, Peter Gabriel decidiu sair dos Genesis e dedicar-se à sua família, orientando a sua carreira segundo o seu próprio ritmo, sem a pressão associada ao monstro que ele acabara de ajudar a criar. Uma banda de virtuosos, com um instinto melódico ímpar e guiada por uma força conceptual pioneira, os Genesis sobressaíam na cena do Rock Progressivo. Não que os Genesis tivessem a força e o sucesso, por exemplo, dos Pink Floyd, na mesma época. Mas mesmo assim era demais para Gabriel.
Peter Gabriel foi-se embora e nunca mais voltou.

E de que melhor forma Gabriel se poderia despedir dos Genesis, do que com um álbum absolutamente pivotal na História do Rock Progressivo, um marco que seria recordado e admirado durante décadas? Falo obviamente de "The Lamb Lies Down On Broadway", o 6º álbum dos Genesis e o último que contou com o seu histórico vocalista.


A vontade de abordar este álbum vem desde há muito tempo e matéria prima para escrever não falta. Diria mesmo que desde o início do blogue que venho acumulando pequenas ideias sobre "Lamb". Então porquê a demora? A razão é muito simples: por onde começar? Há tanto, TANTO para dizer... "Lamb" é uma obra tão complexa que não é fácil estruturar uma análise global satisfatória. Por isso mesmo, essa abordagem ficará para outro dia.
Para desatar este novelo, hoje resolvi começar por um dos fios: "The Lamia". Será que, ao puxar este fio, conseguimos desenlaçar parte do novelo de "Lamb"? Veremos.

"The Lamb Lies Down On Broadway" é um álbum duplo e extremamente diverso. O álbum conta a história surreal de Rael (um anagrama de "Real" e "Gabriel") - um jovem delinquente de ascendência Porto-Riquenha, perdido no subsolo de Nova Iorque.
"The Lamia" aparece a meio do 2º disco e é um dos temas de maior beleza do álbum. Segundo a wikipedia (adaptado a português legível):

"De acordo com a versão mais corrente, Lâmia era uma belíssima rainha da Líbia, filha de Poseidon e amante de Zeus, de quem concebeu muitos filhos, entre os quais a ninfa Líbia. Hera (mulher de Zeus), corroída pelos ciúmes, matava os filhos de Lâmia ao nascer. Desesperada, Lâmia escondeu-se numa caverna isolada e devido ao seu próprio desespero, transformou-se num monstro. Por fim, para torturá-la ainda mais, Lâmia foi condenada por Hera a não poder fechar os olhos, para que ficasse para sempre obcecada com a imagem dos filhos mortos. Por piedade, Zeus deu-lhe o dom de poder extrair os olhos de vez em quando, para descansar."

Repito o bold: "Desesperada, Lâmia escondeu-se numa caverna isolada e devido ao seu próprio desespero, transformou-se num monstro.". É isto. Para mim, esta explicação é uma das chaves do significado de "The Lamb Lies Down On Broadway". O isolamento, o desespero e a transformação. A transformação que se dá sempre que nos damos de caras com uma das anteriores.

Mas antes de avançar, vou tecer algumas considerações sobre o que significa falar de "The Lamb Lies Down On Broadway".

Em "The Lamb Lies Down On Broadway", os Genesis tratam um conflito interno, como os Pink Floyd fizeram em "The Wall". O ciclo crise/conflito/resolução/crise/... está lá, a descida à loucura na fase de conflito também, mas "Lamb" é infinitamente mais denso, complexo e multi-layered que "The Wall". Impenetrável.

É muito mais fácil identificarmo-nos com "The Wall", do que com "Lamb", da mesma maneira que, em geral, é muito mais fácil identificarmo-nos com Roger Waters do que com Peter Gabriel. Ambos têm uma compulsiva necessidade de auto-procura e auto-resolução, que os leva em busca de respostas aos dilemas pessoais mais profundos. Mais que isso, ambos sofrem de um determinado grau de demência e genialidade ("De génio e de louco..."), que lhes permite criar estas fascinantes obras sobre a condição humana. Porém, são graus de demência diferentes. Não sou psicólogo, nem aspiro a tal, mas a demência de Gabriel é diferente, porque ele também é diferente. Único.
Peter Gabriel tem uma qualidade impenetrável que o distingue de os demais vocalistas Rock. Ele é mais erudito, mais culto, mais eloquente e mais perturbado que o clássico artista Rock. E essa junção bizarra de características torna o seu trabalho nos Genesis e o seu trabalho a solo numa ilha, isolada. Impenetrável.

Eu posso dissertar parágrafos e parágrafos sobre o que ele quer dizer com esta ou aquela linha, mas tudo não passam de interpretações. Interpretações pessoais de uma obra que pode ser lida de muitas formas, porque de tão metaforicamente rica, se torna opaca. Impenetrável.

Tendo tudo isto em conta, quero esclarecer que tudo o que está aqui exposto é apenas a minha visão da história. "The Lamb Lies Down On Broadway" é um mistério cuja resolução cabe a cada ouvinte que se proponha a desvendar a história de Rael.

Talvez para nos elucidar, talvez para nos confundir ainda mais, Peter Gabriel conta mais uma parte da história de Rael (a que não entrou nas letras dos temas) no livrete do álbum (ou no gatefold do LP original). Esta serve de complemento explicativo para a acção que ocorre durante a música.
Em baixo fica a parte de "The Lamia":

"Rael touches his face to confirm that he is still alive. He writes Death off as an illusion, but notices a thick musky scent hanging in the air. He moves to the corner where the scent is stronger, discovering a crack in the rubble through which it is entering. He tries to shift the stones and eventually clears a hole large enough to crawl out of. The perfume is even stronger on the other side and he sets off to find its source, with a new-found energy.

The scent grows richer, he knows he must be near,
He finds a long passageway lit by chandelier.
Each step he takes, the perfumes change
From familiar fragrance to flavours strange.
A magnificent chamber meets his eye.

He finally reaches a very ornate pink-water pool. It is lavishly decorated with gold fittings. The walls around the pool are covered with a maroon velvet up which honeysuckle is growing. From out of the mist on the water comes a series of ripples.

Inside, a long rose-water pool is shrouded by fine mist.
Stepping in the moist silence, with a warm breeze he's gently kissed.

Thinking he is quite alone,
He enters the room, as if it were his own
But ripples on the sweet pink water
Reveal some company unthought of

Three snakelike creatures are swimming towards Rael. Each reptilian creature has the diminutive head and breasts of a beautiful woman. His horror gives way to infatuation as their soft green eyes show their welcome. The Lamia invite him to taste the sweet water and he is quick to enter the pool. As soon as he swallows some liquid, a pale blue luminescence drips off from his skin. The Lamia lick the liquid; very gently as they begin, with each new touch, he feels the need to give more and more.

Rael stands astonished doubting his sight,
Struck by beauty, gripped in fright;
Three vermilion snakes of female face
The smallest motion, filled with grace.
Muted melodies fill the echoing hall,
But there is no sign of warning in the siren's call:
"Rael welcome, we are the Lamia of the pool.
We have been waiting for our waters to bring you cool."

Putting fear beside him, he trusts in beauty blind,
He slips into the nectar, leaving his shredded clothes behind.
"With their tongues, they test, taste and judge all that is mine.
They move in a series of caresses
That glide up and down my spine.

They knead his flesh until his bones appear to melt, and at a point at which he feels he cannot go beyond, they nibble at his body. Taking in the first drops of his blood, their eyes blacken and their bodies are shaken. Distraught with helpless passion he watches as his lovers die. In a desperate attempt to bring what is left of them into his being, he takes and eats their bodies, and struggles to leave his lovers' nest.

As they nibble the fruit of my flesh, I feel no pain,
Only a magic that a name would stain.
With the first drop of my blood in their veins
Their faces are convulsed in mortal pains.
The fairest cries, 'We all have loved you Rael'.

Each empty snakelike body floats,
Silent sorrow in empty boats.
A sickly sourness fills the room,
The bitter harvest of a dying bloom.
Looking for motion I know I will not find,
I stroke the curls now turning pale, in which I'd lain entwined
"O Lamia, your flesh that remains I will take as my food"
It is the scent of garlic that lingers on my chocolate fingers.

Looking behind me, the water turns icy blue,
The lights are dimmed and once again the stage is set for you.
"


...e depois arranca Steve Hackett, com um dos solos mais arrepiantes que alguma vez registou nos Genesis. Um dos momentos altos do álbum. Fabuloso.

"The Lamia" era também um dos pontos altos do espetáculo ao vivo de "Lamb". Peter Gabriel cantava este tema dentro de um cone translúcido, com imagens de cobras, que rodava à sua volta. No fim do tema, o cone caía e Peter surgia envergando um body branco que brilhava no escuro.


Este foi um dos pontos altos da reconstrução que os The Musical Box - a banda de covers mais reconhecida dos Genesis - fizeram no Drámatico de Cascais na noite de 10 de Março deste ano, revivendo a lendária dupla jornada de 6 e 7 de Março de 1975. Mas isso é assunto para outro dia.


O que me resta dizer é que muito devido a este concerto, Fevereiro e Março de 2012 só deram "Lamb", fazendo "The Lamb Lies On Broadway", até ver, o meu álbum do ano. Para além disso, está também (já estava) na minha lista de 10/20 álbuns preferidos de sempre e isso não é dizer pouco. Já andava a dever este post aos Genesis. Mais sobre "Lamb" brevemente.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Elton John vs Pnau - "Sad"

"Sad... So sad..."



Quando soube que Elton John iria lançar um álbum de remisturas produzidas por um duo de música electrónica, confesso que a minha primeira reacção foi torcer o nariz. Geralmente, não sou apreciador de remisturas. Em primeiro lugar, porque desvirtuam a essência criativa do tema original. Depois, porque esta violação é normalmente feita em virtude de uma componente "dançável", que possa promover a reprodução do tema nas pistas de dança. O que costuma sair destas remisturas electrónicas é um híbrido que não funciona para os seguidores do artista original, nem para os apreciadores da música electrónica. Com algumas excepções, é isto.
Objectivamente, a função das remisturas (falo, obviamente, daquelas que são promovidas pelos próprios artistas originais e habitualmente lançadas nos singles) é comercializar os seus temas noutros mercados, que não o do seu target mais óbvio. Dessa (absurda) necessidade, às vezes saem verdadeiras hecatombes, como o caso da versão de Wycleaf Jean de "Another One Bites The Dust" dos Queen. (Por respeito a mim mesmo, não coloco aqui o link desse assassinato musical. Se quiserem, procurem vocês por vossa conta e risco...)

Voltando a Elton, a História reza que em 2007, enquanto estava preso no trânsito em Sydney, Elton ouviu na rádio "Wild Strawberries" - tema do duo electrónico Pnau, retirado do álbum baptizado com o nome da banda - e o tema chamou a sua atenção. Ao ouvir o restante álbum, Elton proclamou que "aquele era o melhor álbum que ouvira nos últimos 10 anos" e ofereceu aos Pnau um contrato discográfico. A colaboração entre ambos começou no álbum de 2008 dos Pnau "Soft Universe", um álbum com forte input de Elton. Mas Elton tinha guardado para os Pnau um projecto bem mais ambicioso.

O projecto foi desvendado na semana passada e dá pelo nome de "Good Morning To The Night" - um álbum de mashups de temas de Elton John, gravados entre 1970 e 1976. E é um trabalho notável. Mas já lá vamos.
Primeiro, vou ter que sublinhar uma diferença fundamental que faço entre um remix e um mashup: enquanto que o primeiro se limita a "dar uma nova cara" a um determinado tema (eventualmente adicionando alguns elementos novos, mas partindo sempre com base num tema), o segundo combina elementos de diversos temas e resulta num tema completamente novo. Atenção que isto não são são definições semânticas absolutas, são apenas as minhas.

Um álbum de mashups de um grande artista Rock não é uma coisa completamente nova. Já em 2006, os The Beatles (os que ainda estão vivos, mais as famílias dos que já não estão) concordaram com a utilização das fitas multipistas para a criação de "Love" - um álbum de trabalhos totalmente novos, produzidos exclusivamente a partir das gravações originais da banda, com uma única excepção: os arranjos orquestrais em "While My Guitar Gently Weeps". Totalmente novos... ou quase.
Em "Love", os The Beatles jogaram pelo seguro. O álbum foi compilado com um objectivo concreto: servir de banda sonora para o espectáculo "Love" do Cirque de Soleil e quem fez as remisturas foi Sir George Martin - o lendário produtor da banda - e Giles Martin - o seu filho. O resultado foi muito interessante, com novos elementos a sobressaírem de temas que já conhecíamos, com passagens inesperadas feitas por snippets de outros temas, mas com muito poucos riscos assumidos. Curiosamente, "Love" resulta melhor onde os Martin arriscam mais, nomeadamente na passagem de "Being for the Benefit of Mr. Kite!" para o solo final de "I Want You (She's So Heavy)", acompanhado pelos berros de Paul McCartney em "Helter Skelter". Fabuloso. A linha "and tonight Mr. Kite is topping the bill" passou a ser um dos grande momentos da discografia dos The Beatles e não foi ideia de nenhum dos quatro.

O caso de Elton é completamente diferente. O risco aqui é assumido, em jeito de mergulho profundo, como Elton tão bem sabe fazer. Não é ao acaso que a sua carreira é marcada por quase tantos falhanços estrondosos, como por sucessos. Mas isso só acontece porque Elton arrisca e quando o faz, joga tudo. Neste caso, jogou brilhantemente.
Sem meias medidas, Elton deu aos Pnau livre acesso ao seu filão de ouro: o reportório gravado entre 1970 e 1976. Os Pnau evitaram a tentação dos êxitos e ao invés pegaram em temas menos conhecidos do catálogo de Elton, dissolvendo-os em várias matrizes completamente novas. O resultado foram 8 temas surpreendentemente originais, que combinam numa medida idílica a magia das gravações clássicas de Elton, com a face moderna da música electrónica, que assenta que nem uma luva às pistas de dança.
O tema-título "Good Morning To The Night" já é um êxito e o álbum teve uma ascensão meteórica ao 1º (primeiro!) lugar da tabelas de álbuns no Reino Unido. Isto marca "apenas" a primeira vez que Elton lidera esta tabela com um álbum de originais em 23 anos, desde "Sleeping With The Past" de 1989. Depois disso, só mesmo a compilação "The Very Best Of" de 1990 chegou ao topo das tabelas britânicas. Incrível.

Na generalidade, apesar de utilizarem elementos de vários temas (até um máximo de 9 (!!) em "Phoenix"), cada tema de "Good Morning To The Night" toma como inspiração um determinado tema. Por exemplo, "Good Morning To The Night" parte de uma linha de "Mona Lisas And Mad Hatters"; "Sad" serve-se do lamento "so sad..." de "Sorry Seems To Be The Hardest Word" como punchline de um tema Chill-Out; "Phoenix" pega numa linha de "Grey Seal" ("If the Phoenix bird can fly, then so can I"), sem nunca chegar ao refrão; "Telegraph To The Afterlife" parte do "Hello, baby hello" de "Harmony" para um tema psicadélico, a fazer lembrar os Pink Floyd. Mas mesmo nestes casos, os elementos originais estão tão difusos na matriz do tema novo, que tudo ganha nova vida.
É esta a chave de "Good Morning To The Night": os Pnau deram mesmo nova vida a Elton John. E a partir daqui, tudo é possível. Arrisco a dizer que este álbum, ao estar a tornar-se num caso de sucesso, pode abrir muitas portas para o mundo novo dos mashups.

Elton John nas pistas de dança? Ouçam o álbum "Good Morning To The Night" com os vossos próprios (descomplexados) ouvidos e digam de vossa justiça.
O álbum que mais me surpreendeu este ano e até ver, a minha banda sonora do Verão.


Em baixo fica a lista completa dos elementos utilizados pelos Pnau em cada tema de "Good Morning To The Night":

1. "Good Morning To The Night"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Philadelphia Freedom"
"Mona Lisas and Mad Hatters"
"Funeral for a Friend"
"Tonight"
"Gulliver / Hay Chewed"
"Sixty Years On" ("Live in Australia")
"Goodbye Yellow Brick Road"
"Someone Saved my Life Tonight"



2. "Sad"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Nice and Slow"
"Crazy Water"
"Curtains"
"Sorry Seems To Be the Hardest Word"
"Friends"

3. "Black Icy Stare"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Cold Highway"
"You’re So Static"
"Solar Prestige a Gammon"

4. "Foreign Fields"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Pinky"
"Someone Saved My Life Tonight"
"High Flying Bird"
"Sweet Painted Lady"
"Cage the Songbird"
"Chameleon"

5. "Telegraph to the Afterlife"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Harmony"
"We All Fall in Love Sometimes"
"Funeral for a Friend"
"Sweet Painted Lady"
"I've Seen That Movie Too"
"Love Song"
"Indian Sunset"

6. "Phoenix"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Grey Seal"
"Are You Ready for Love"
"Bennie and the Jets"
"Someone Saved My Life Tonight"
"Where to Now St Peter?"
"Love Lies Bleeding"
"Border Song"
"Country Love Song"

7. "Karmatron"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Madman Across The Water"
"Funeral for a Friend"
"Stinker"
"The Ballad of Danny Bailey (1909-1934)"
"Tonight"
"One Horse Town"
"Screw You"

8. "Sixty"
Contém elementos dos seguintes temas:
"Sixty Years On"
"Sixty Years On" ("Live in Australia")
"Sixty Years On" ("17-11-70")
"Indian Sunset"

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Radiohead - "Street Spirit (Fade Out)"

"I can feel death, can see its beady eyes"



Em homenagem ao concerto de ontem dos Radiohead no Alive (que eu, com muita pena, não assisti), hoje regresso ao álbum "The Bends" para "Street Spirit (Fade Out)", o tema que fechou o alinhamento de ontem.

A 2ª metade dos anos 90 foram tempos gloriosos para os Radiohead, com 2 álbuns de enorme popularidade, que os transportaram para a linha da frente do indie rock britânico. Tanto "The Bends" de 1995, como "OK Computer" de 1997 são dois álbuns extremamente sólidos, duas marcas indeléveis dos anos 90. Estes foram foram os álbuns "blockbuster" dos Radiohead, que deram a conhecer ao Mundo o seu nome e levaram a sua música para as rádios mainstream. Depois disso, os Radiohead trocaram as voltas a toda a gente e lançaram "Kid A", um álbum tão afastado do registo de "OK Computer", que arrisco a chamar de comercialmente suicida. Mas a verdade é que a banda se safou com a aposta arriscada e fizeram um mergulho ainda mais profundo na electrónica nos álbuns seguintes.

"This machine will not communicate, these thoughts and the strain I am under..."

Escrito em 1993, os Radiohead deixaram "Street Spirit (Fade Out)" para o fecho do seu 2º álbum "The Bends", sendo o último single retirado deste álbum. "Street Spirit" está para o Reino Unido como "Creep" está para os EUA, uma vez que foi o 1º single a ter verdadeira atenção no país de origem dos Radiohead, chegando ao 5º lugar nas tabelas.
Thom Yorke descreve este tema como um dos mais profundos e mais pesados da banda, "rejeitando" mesmo a sua autoria. "O tema escreveu-se a si próprio", diz. Para o tocar ao vivo, Thom tem que o deixar para o fim do concerto, como fez ontem, tal a sua carga dramática... Como não consigo descrever o que Yorke quer dizer com isto, pelo menos não tão bem como o próprio, deixo aqui Thom Yorke em discurso directo, sobre "Street Spirit":

""Street Spirit (Fade Out)" is our purest song, but I didn’t write it. It wrote itself. We were just its messengers; its biological catalysts. Its core is a complete mystery to me, and, you know, I wouldn’t ever try to write something that hopeless. All of our saddest songs have somewhere in them at least a glimmer of resolve. Street Spirit has no resolve. It is the dark tunnel without the light at the end. It represents all tragic emotion that is so hurtful that the sound of that melody is its only definition. We all have a way of dealing with that song. It’s called detachment. Especially me; I detach my emotional radar from that song, or I couldn’t play it. I’d crack. I’d break down on stage. That’s why its lyrics are just a bunch of mini-stories or visual images as opposed to a cohesive explanation of its meaning. I used images set to the music that I thought would convey the emotional entirety of the lyric and music working together. That’s what’s meant by ‘all these things you’ll one day swallow whole’. I meant the emotional entirety, because I didn’t have it in me to articulate the emotion. I’d crack…

Our fans are braver than I to let that song penetrate them, or maybe they don’t realise what they’re listening to. They don’t realise that Street Spirit is about staring the fucking devil right in the eyes, and knowing, no matter what the hell you do, he’ll get the last laugh. And it’s real, and true. The devil really will get the last laugh in all cases without exception, and if I let myself think about that too long, I’d crack.

I can’t believe we have fans that can deal emotionally with that song. That’s why I’m convinced that they don’t know what it’s about. It’s why we play it towards the end of our sets. It drains me, and it shakes me, and hurts like hell every time I play it, looking out at thousands of people cheering and smiling, oblivious to the tragedy of its meaning, like when you’re going to have your dog put down and it’s wagging its tail on the way there. That’s what they all look like, and it breaks my heart. I wish that song hadn’t picked us as its catalysts, and so I don’t claim it. It asks too much. I didn’t write that song."


Neste discurso, Thom toca em 3 pontos fundamentais: "Street Spirit (Fade Out)" é o tema mais depressivo dos Radiohead e é o único que não tem nenhum laivo de esperança associado ("um túnel escuro, sem luz no fim"); esta carga depressiva faz com que o próprio rejeite a autoria do tema; Thom "atira-se" aos fãs que nos concertos rejubilam ao entoar a letra do tema a plenos pulmões, convencido que "eles não sabem do que se trata".

O que dizer? Estas palavras são "clássico" Thom Yorke. Tão densas e tão profundas, que a sua análise já nos leva a um estado quase-depressivo. Este sofrimento é a base de toda a música dos Radiohead e eu acredito piamente que Thom sofra mesmo. Ele é tão fiel à sua arte, que eu não duvido que, para interpretar dignamente "Street Spirit", ele sofra um desgaste anímico tão forte, que a tenha mesmo que deixar para o fim dos concertos.
Este sofrimento, este lento caminhar na corda bamba da depressão é a base de toda a música dos Radiohead e é por isso mesmo que eu sou obrigado a consumi-los em doses pequenas, espaçadas no tempo. De outra forma, dava em maluco. Em maluco, ou em Thom Yorke, mas sem a habilidade de tocar a guitarra. Nenhuma das duas me parece saudável.

"Immerse your soul in love..."

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Pink Floyd - "Pigs (Three Different Ones)"

«Pink Floyd de "Animals" a "The Wall" - Um muro ao fundo do túnel» (Parte 2)

Capítulo IV - Um porco na estrada

O nascimento de "Animals" foi um processo difícil e moroso, que deixou mazelas anímicas nos membros dos Pink Floyd, mas foi apenas o início: o início do fim.
Uma vez lançado o monstro para a rua, era preciso alimentá-lo, levá-lo à estrada. Mas isso, nesta altura do "campeonato", com os Pink Floyd no topo do Mundo, só poderia ser feito em larga escala. Assim, os Pink Floyd decidiram que, dando resposta à elevada procura em algumas cidades, estava na hora de sair do conforto das arenas e aí levar o seu espectáculo para grandes estádios.

A fome de sucesso (e de dinheiro) da máquina dos Pink Floyd era enorme, pelo que foi lançada uma campanha de promoção muito agressiva para a digressão de promoção a "Animals", enchendo páginas dos jornais com maior tiragem nos países que visitou. Embora o álbum não tenha sido comercialmente tão bem sucedido como os dois anteriores, os Pink Floyd bateram recordes de escala, de demanda e de vendas de bilhetes, esgotando arenas e estádios na Europa e nos EUA.
A procura era imensa e a ganância dos promotores ainda maior, de tal forma que, para fazer face à elevada demanda de bilhetes, as salas estavam muitas vezes claramente sobrelotadas. Foi o caso do Soldier Field Stadium em Chicago, para onde deveriam ter sido vendidos 67 000 bilhetes, mas foram na realidade emitidos mais de 95 000, lesando a banda em centenas de milhares de dólares.

"You're nearly a good laugh, almost a joker
With your head down in the pig bin saying 'Keep on digging'"



Dentro do espírito megalómano que já estava intrínseco a tudo o que os Pink Floyd faziam, a banda decidiu levar consigo Algie (em baixo, à esquerda), o grande ícone de "Animals" - um porco insuflável gigante, que flutuava sobre a audiência e se tornaria numa das imagens de marca da banda. Foi projectado um palco mais elaborado e foram ainda criados outros insufláveis, como a "Família Nuclear" (em baixo, à direita), para completar o cenário. Mas o que ficou para a História foi mesmo o porco insuflável, que passou a presença assídua nos concertos dos Pink Floyd e, mais tarde, de Roger Waters a solo.


E foi assim que nasceu a "In The Flesh Tour" (ou "Animals Tour"), que espalhou raiva e desdém pela Europa e os EUA fora, desde Janeiro a Julho de 1977, em 55 concertos.
Musicalmente e energicamente, a banda estava melhor do que nunca: coesa e confiante. Pela primeira vez desde 1972, foram dispensadas as backup singers, mas foi recrutado o guitarrista Snowy White (que já tinha estado nas gravações de "Animals"), bem como o saxofonista Dick Parry, que preenchiam a paisagem sonora da banda em palco.

A estrutura do espectáculo era fixa: no 1º Set, o álbum "Animals" completo, numa sequência diferente da original; no 2º Set, o álbum "Wish You Were Here" completo, na sequência original; nos encores, o normal era a banda tocar "Money" ou "Us And Them", do álbum "the Dark Side Of The Moon", embora nalgumas ocasiões tocassem os dois. Com a interpretação dos 2 últimos álbuns completos, muitas vezes reforçados por longas passagem de improviso, mais um encore (por vezes alargado), os espectáculos desta digressão foram uma demonstração de força dos Pink Floyd como "banda de palco", para além do espectáculo que os rodeava.
Embora as digressões anteriores já tivessem utilizado lasers, projecções e insufláveis, foi especialmente a partir daqui (começando com a digressão "The Wall Live" original), que os concertos dos Pink Floyd começaram a atirar os intérpretes da música para um plano quase "complementar" do espectáculo.

Por tudo isto e por ser a última digressão com maior "liberdade de improviso", a "In The Flesh Tour" é amplamente reconhecida como uma das mais memoráveis digressões da História dos Pink Floyd e ainda hoje é vista com saudade pelos fãs da banda. Mas esteve longe de ser uma digressão fácil. Começando pela escala monumental dos concertos.
Outrora intimistas e em salas pequenas, os concertos dos Pink Floyd eram agora um espectáculo teatral imenso - à imagem da megalomania de Waters - servido para dezenas de milhares de espectadores, onde a música representava apenas uma parte do entretenimento. O mais curioso é que quem estava a ter mais problemas em lidar com este novo paradigma, era o próprio Roger, cujo comportamento foi ficando sucessivamente mais agressivo, à medida que a digressão foi avançando.

As faíscas dentro da banda não tardaram a surgir e as relações entre os membros dos Pink Floyd foram-se deteriorando. Foi nos EUA que a situação piorou e a determinada altura, Richard Wright chegou mesmo a apanhar um avião para a Inglaterra, ameaçando deixar a banda a meio da digressão. Waters, mais uma vez ele, começou a isolar-se do resto da banda, chegando às salas sozinho e saindo imediatamente a seguir ao fim dos concertos. Para piorar, a sua nova namorada não se dava com Ginger Gilmour - a mulher de David na época (não eram só os homens que se davam mal...) e aí surgiu mais um ponto de discórdia entre os dois. Nesta altura, David Gilmour já não via futuro nos Pink Floyd, uma vez que já tinham atingido tudo o que sonharam e partir daí seria sempre a descer.

O ambiente estava muito difícil.
Quando finalmente chegaram as últimas noites da "In The Flesh Tour" em Julho, na Costa Leste dos EUA e Canadá, o copo transbordou.

Capítulo V - Um porco no estádio

Se é verdade que a "In The Flesh Tour" deve a sua especial mística à agressividade com os Pink Floyd interpretavam as suas músicas no palco, não é menos verdade que foi essa agressividade que matou a banda. Com ferros matou, com ferros morreu.
Roger Waters, sempre ele, era nesta altura a figura central da banda, quer como força criativa, quer como força anímica. O seu comportamento cada vez mais agressivo ao longo da digressão foi a faísca demasiado incandescente, que acabou por consumir a banda em lume forte, uns anos mais tarde. Até lá, Roger ainda foi a tempo de criar uma das maiores obras primas da História do Rock: "The Wall".
Grande parte do caminho pelo túnel tenebroso que levou Roger Waters ao muro de "The Wall" foi percorrido ao longo da "In The Flesh Tour" e terminou na noite de 6 Julho, no Estádio Olímpico de Montreal, a última data da digressão de "Animals".


Poucas noites antes, no Madison Square Garden em New York, Roger já tinha perdido a cabeça com os técnicos de luz, contratados localmente devido à greve dos técnicos da comitiva dos Pink Floyd. Dando-se conta da dificuldade em manusearem o equipamento da banda e acertarem com as luzes no palco, Roger mandou parar a banda e gritou: "I think you New York lighting guys are a fucking load of shit!".

Em plena era de rebentamento do punk, par uma banda de massas como os Pink Floyd, o público era um "bicho" difícil de lidar, para quem estava habituado às audiências mais contemplativas do início da década de 70.
Durante a digressão, especialmente nos concertos americanos, com audiências mais barulhentas, era frequente Waters insultar os espectadores das primeiras filas que não paravam de gritar nos temas mais calmos, bem como os que levavam petardos para rebentar na sala, desconcentrando a banda.
Na noite de 6 Julho, em Montreal, diante de aproximadamente 90 mil pessoas, Roger não aguentou mais. Um grupo de miúdos mais entusiasmados da fila da frente irritou Roger ao ponto de... já lá vamos.


Com a prática e a confiança acumulada ao longo da digressão (para além das já referidas tensões), o último concerto da "In The Flesh Tour" foi musicalmente muito forte. A banda mostrava forte coesão e durante os primeiros temas do álbum "Animals" ("Sheep", "Pigs on the Wing (Part I)" e "Dogs") tudo parecia correr dentro do normal em cima do palco. Fora dele... nem por isso. A audiência mostrava-se particularmente faladora e barulhenta, ouvindo-se uma série de petardos a rebentar, aqui e ali. Era impossível esperar que 90 mil pessoas se mantivessem quietas.



Quando chegou "Pigs on the Wing (Part II)", Roger Waters perdeu a paciência. Depois de tentar tocar os primeiros acordes do tema, por 3 vezes, na sua guitarra acústica, rebentou mais um petardo e Roger parou de tocar, dirigindo-se assim ao público:



"Aww, for fuck's sake, stop lettin' off fireworks and shouting and screaming, I'm trying to sing the song!
I mean, I don't care.. If you don't want to hear it, you know... Fuck you! I'm sure there's a lot of people here who do want to hear it. So why don't you just be quiet!
If you want to let your fireworks off, go outside and let them off there, and if you want to shout and holler, go and do it out there...
I'm trying to sing a song that some people want to listen to! I want to listen to it..."

Estava assim feita uma declaração de guerra à audiência, não só do Estádio Olímpico de Montreal, mas também de todos os concertos dos Pink Floyd. Pelo disparo de raiva contra o seu próprio público, como um pai para um filho mal comportado, percebe-se que Roger estava farto de tudo e tinha chegado ao seu limite.

A banda continuou, mas Roger não tinha ainda terminado de despejar a sua amargura no público de Montreal. Quando chegou "Pigs (Three Different Ones)", Roger cumpriu a profecia que o próprio lançara num verso do tema "Dogs", chocando a audiência, a banda e, principalmente, ele próprio. Durante a secção de improviso no final do tema, Roger chamou um dos fãs da fila da frente para cima do palco e cuspiu-lhe na cara. "Who was trained not to spit in fan", indeed.



É impossível dizer exactamente quando é que foi a cuspidela, mas pelo destempero que Roger mostra no fim do tema, percebe-se que perdeu o controlo e ficou perturbado com o que acabou de fazer. Depois de ter cuspido no rapaz, Roger grita:

"Come back pig! All is forgiven! Come on, boy!"
(assobia, como se estivesse a chamar um animal)
"Come on, son! YEEEAAAH"

Tudo o que se passa no palco ganha contornos ainda mais macabros com a música sinistra de improviso, de "Pigs (Three Different Ones)", que a banda está a tocar neste momento.

Este foi o momento de epifania de Roger Waters, quando chegou à conclusão que nada daquilo fazia sentido: "Afterwards I became really depressed and thought, ‘My God, what have I been reduced to?'"
No fim da noite, de volta ao quarto de hotel, Roger percebeu que a audiência era um perigo para ele, uma vez que o estava a alienar do Mundo real e, mais que isso, ele próprio se tornara um perigo para a audiência, como ficou demonstrado pela famosa cuspidela.
Foi desta ideia de perigo mútuo que Roger Waters formulou a ideia do muro, um muro que separasse a banda e a audiência, garantindo que ninguém fizesse mal a ninguém.
Foi esta a base de construção do muro, foi esta a origem da ideia por trás do álbum "The Wall".

Epílogo - Um muro...

Se é habitual ouvir que os álbuns dos Pink Floyd são uma viagem, eu diria que "Animals" nos leva para um túnel escuro, numa fábrica abandonada. Como a que vemos nas fotos que acompanharam a edição original do álbum, em vinyl. No fundo desse túnel, um muro: "The Wall".
Deixo a última palavra a Roger Waters:

"In the Old Days, pre-Dark Side of the Moon, Pink Floyd played to audiences which, by virtue of their size, allowed an intimacy of connection that was magical.
However, success overtook us and by 1977 we were playing in football stadiums. The magic was crushed beneath the weight of numbers. We were becoming addicted to the trappings of popularity.
I found myself increasingly alienated in that atmosphere of avarice and ego until one night in the Olympic Stadium, Montreal, the boil of my frustrations burst.
Some crazed teenage fan was clawing his way up the storm netting that separated us from the human cattle pen in front of the stage screaming his devotion to the demi-gods beyond his reach. Incensed by his misunderstanding and my own connivance, I spat my frustration in his face.
Later that night, back at the hotel, shocked by my behavior, I was faced with a choice. To deny my addiction and embrace that comfortably numb but magic-less existence or accept the burden of insight, take the road less traveled and embark on the often painful journey to discover who I was and where I fit.
THE WALL was the picture I drew for myself to help me make that choice."



quinta-feira, 5 de julho de 2012

Pink Floyd - "Dogs"

«Pink Floyd de "Animals" a "The Wall" - Um muro ao fundo do túnel» (Parte 1)

Prólogo - ...ao fundo do túnel

O álbum "The Wall" já foi assunto aqui no blog quando Roger Waters trouxe a Lisboa a sua megalómana digressão "The Wall Live", em Março de 2011.
Entretanto, Waters levou esse conceito uns passos mais além, expandido o espectáculo para uma escala ainda maior e levando-o a estádios um pouco por toda a América do Sul e do Norte. A digressão tem sido um sucesso retumbante, dando-lhe a visibilidade que lhe escapava desde que deixou os Pink Floyd, em 1985. De tal forma que o histórico baixista dos Pink Floyd foi entrevistado pela CBS, no popular programa "60 Minutes".

A história que vos quero contar (hoje numa primeira parte, que terá continuação mais tarde) explica qual é a origem da ideia por trás do icónico álbum dos Pink Floyd, um dos mais vendidos da História da música.

Mas para perceber a origem de "The Wall", temos que recuar até "Animals", mais precisamente até à noite de 6 de Julho de 1977, a última noite da lendária "In The Flesh Tour" - a digressão de promoção ao álbum "Animals". Mas já lá vamos.
Antes disso, atentemos no álbum "Animals", lançado em 1977, possivelmente o conjunto de temas mais agressivo de todo o catálogo dos Pink Floyd.

Capítulo I - Uma faísca perigosamente incandescente

Na ressaca do mega-sucesso dos álbuns "The Dark Side Of The Moon" (também um dos álbuns mais vendidos de sempre, ainda mais que "The Wall", ficando nas tabelas dos EUA durante mais de 15 anos (!!) consecutivos (!!!)) e "Wish You Were Here", os Pink Floyd estavam, em 1976, no topo do Mundo. No entanto, a gravação do álbum seguinte seria tudo menos pacífica.

Nesta altura, os Pink Floyd já tinham alcançado tudo o que poderiam sonhar, como artistas e como estrelas Rock. Desde o sucesso, primeiro localmente como banda de culto e depois internacionalmente como banda de massas, passando pelas vendas monumentais, a aclamação por parte da crítica, a enorme legião de fãs, que enchia estádios em toda a Europa e toda a América, o hedonismo e, como é óbvio... muito, muito, MUITO... dinheiro. Depois de tudo isto, já não havia muito mais que fazer para uma banda como os Pink Floyd, que neste momento já era um monstro fora do controlo de qualquer dos seus membros. A estes, restava continuar com o espectáculo.

O problema é que as tensões dentro dos Pink Floyd já faziam faíscas perigosamente incandescentes. À cabeça destes atritos, estavam as 2 questões clássicas que se levantam, sempre que se cria um monstro de popularidade: poder e dinheiro.
O dinheiro, apesar dos lucros obscenos que a banda apresentava, já começava a ser um problema, uma vez que em 1976, os Pink Floyd decidiram investir em capitais de alto risco, os quais fizeram a banda perder milhões de libras.
Já o poder, esse tinha um nome: Roger Waters.
Foi nesta altura que Waters começou a ganhar cada vez maior proeminência na banda. O novo álbum "Animals" tinha 5 faixas e com a excepção de "Dogs" (escrita com David Gilmour), todas as faixas foram escritas por Roger Waters, sendo a primeira vez que Richard Wright não contribui com qualquer tema num álbum dos Pink Floyd. "Pigs on the Wing", um curto tema acústico, foi dividido em dois, de modo a abrir e fechar o álbum. Porém, como as royalties (dividendos por direitos de autor) eram distribuídas de acordo com o número de faixas e não com a duração das mesmas ("Dogs" ocupava o Lado 1 praticamente todo), Waters recebia muito mais dividendos que Gilmour. Poder e dinheiro, portanto.

Capítulo II - O Triunfo dos Porcos

""Animals" was a slog. It wasn't a fun record to make, but this was when Roger really started to believe that he was the sole writer for the band. He believed that it was only because of him that the band was still going, and obviously, when he started to develop his ego trips, the person he would have his conflicts with would be me."

Richard Wright

A verdade é que Roger Waters era, de facto, a grande força criativa da banda. Pelo menos no que concerne ao lado conceptual. Tal como tinha sucedido com "The Dark Side Of The Moon", também "Animals" nasceu de uma ideia de Roger Waters: fazer um álbum conceptual baseado na obra "Animal Farm" (em português: "O Triunfo dos Porcos") de George Orwell.
"Animal Farm" é uma fábula politico-social, onde as várias classes da sociedade são equiparadas a diferentes espécies de animais: os cães, como forças de combate (exército); os porcos, como forças dominantes, déspotas e cruéis (classe política); as ovelhas, como seguidores cegos e acéfalos das forças dominantes (o povo).
Na alutra do seu lançamento, o livro de Orwell serviu como uma crítica ao Comunismo (mais precisamente o Estalinismo, em vigor na URSS), mas Waters usa as mesmas alegorias para desconstruir a sociedade capitalista em que vivia. Ao comparar a condição humana à de meros animais de quinta, Waters pretendia pôr a nu a dissolução moral e social da sociedade de então.
Sendo o capitalismo e o comunismo duas doutrinas teoricamente antagónicas, não deixa de ser curioso que as mesmas metáforas encaixem que nem uma luva na crítica a qualquer uma delas.

"Animals" é um álbum duro, raivoso, revoltado. Um álbum que bebeu a sua inspiração da raiva e da revolta que os membros dos Pink Floyd sentiam na época, seja em relação à sociedade (Waters), seja uns pelos outros. Estes sentimentos estão bem patentes ao longo de todo o álbum, quer na lírica e na forma irada como Roger e David cantam, quer na música e na forma furiosa como os Pink Floyd a tocam.
Ouçam os solos de David Gilmour em "Dogs" e no final de "Sheep" e digam-me se ele não estava fod**** da vida quando os tocou em estúdio. David vivia um dos momentos mais inspirados da sua carreira e, neste caso, não importa se a sua inspiração veio do (eterno) conflito/rivalidade que mantinha com Roger Waters, ou do nascimento do seu 1º filho. O que importa é o que ouvimos e o que ouvimos é fabuloso. Se é recorrente ouvirmos que Gilmour faz a guitarra falar, em "Animals" a guitarra de Gilmour fala alto e... com palavrões.

"It's too late to lose the weight you used to need to throw around.
So have a good drown, as you go down, all alone, dragged down by the stone."



Para materializar o álbum conceptual baseado em "Animal Farm", os Pink Floyd pegaram em 2 temas de 1974, deixados de fora de "Wish You Were Here", e desenvolveram-nos para a temática do álbum. Os temas em questão são "Raving and Drooling" e "You Gotta Be Crazy", peças longas já conhecidas pelo público que assistiu a qualquer concerto da digressão de promoção a "Wish You Were Here". "Raving and Drooling" deu origem a "Sheep" e "You Gotta Be Crazy" foi rebaptizado e reformulado para "Dogs", a única composição de David Gilmour (conjuntamente com Roger Waters) em "Animals".
"Dogs" e "Sheep" foram separados por "Pigs (Three Different Ones)" - um tema novo de Roger Waters - e, como referi em cima, a curta peça acústica "Pigs On The Wing" abria e fechava o álbum. Estava assim feito mais um álbum "à Pink Floyd", com apenas 5 temas, sendo que as duas partes de "Pigs On The Wing" não chegavam a 2 minutos e meio.

O tema que aqui deixo hoje é "Dogs", um dos temas mais furiosos deste álbum. Aqui ouvimos a receita para a criação de um bom homem de negócios, um homem que triunfe num mundo de porcos. Para tal, este homem deve estar sempre de sobreaviso em relação aos colegas, ser obediente à chefia (qual cão amestrado), não ter amigos e estar sempre preparado para lhes "espetar a faca".

"You have to be trusted by the people that you lie to, so that when they turn their backs on you, you'll get the chance to put the knife in"

Capítulo III - Um porco a voar

Apesar de não ter sido comercialmente tão bem sucedido como os seus antecessores, o álbum "Animals" deixou uma marca iconográfica indelével na cultura Rock. E isso deve-se a Algie (o porco a voar), à Battersea Power Station em Londres e a uma fotografia sublime, que ficará para sempre como uma das melhores capas de um álbum na História do Rock.


Sombrio e intrigante. Fabuloso.
Lembro-me perfeitamente de, quando miúdo, olhar para a capa do vinyl do meu Pai e ficar assustado. Era uma mistura de sensações sui generis: por um lado, intrigado com o porco a voar junto às chaminés, por outro estarrecido com o poder sombrio desta imagem. Assustava-me, mas eu tinha que olhar. Uma atracção fatal.

A ideia do porco a voar sobre a Battersea Power Station foi também de Roger Waters. Nessa época, Roger passava pela estação regularmente e terá achado que aquela era uma imagem muito forte. E com razão.

"I’d always loved Battersea Power Station, just as a piece of architecture. And I thought it had some good symbolic connections with Pink Floyd as it was at that point:

A) It was a power station, that’s pretty obvious.
B) It had four legs. If you inverted it, it was like a table. And there were four bits to it, representing the four members of the band. But it was upside down, so it was like a tortoise on its back — not going anywhere, really.
I had already started thinking about using inflatables during a live show. Parachuting sheep and floating pigs and all of that. And so I thought why not combine the ideas for the live show with this symbol of a decaying rock group, and put them together? Added to all that, kind of simple stuff about pigs flying, the unlikely nature of that."

Roger Waters

Ainda mais forte, era a primeira ideia de Roger para a capa de "Animals": um rapaz a entrar no quarto dos seus pais, de urso de peluche na mão, apanhando-os a fazer sexo. Segundo Roger: "copulating, like animals!"
Felizmente para nós e para a banda, a ideia que vingou foi a do porco a voar sobre a estação.


O porco original, ao qual foi dado o nome de Algie, foi projectado por Waters e construído em Dezembro de 1976, com mais de 12 metros de comprimento. A ideia era fazer subir o porco a meia-altura das chaminés da estação, fotografar e fazê-lo descer. Para o caso do porco se soltar, os Pink Floyd contrataram um sniper para atirar sobre o insuflável e assim evitar que este voasse, literalmente, sobre os céus de Londres. Com tudo pronto, faltava apenas pôr a ideia em prática.
Porém, a tarefa não se revelou nada fácil. A sessão fotográfica prolongou-se ao longo de 3 penosos dias, em que tudo parecia correr mal.
No 1º dia, com o sniper preparado, e o céu ameaçador, o cenário foi fotografado, mas o porco não subiu.
No 2º dia, o porco subiu, mas uma rajada de vento forte soltou-o das chaminés e, por azar, tinham-se esquecido de avisar o sniper para regressar no 2º dia. Assim, o porco voo mesmo, desaparecendo no horizonte até se atravessar na rota aérea de alguns aviões que iam aterrar no Aeroporto de Heathrow, levando ao cancelamento de vários voos. O porco acabaria por aterrar numa quinta em Kent, a aproximadamente 100 km de distância de Battersea.
O porco foi assim recuperado e reparado para o 3º dia de sessão fotográfica, em que finalmente se conseguiu a tão desejada fotografia. No entanto, neste dia o céu estava azul, faltando-lhe a personalidade que tinha, por exemplo, no 1º dia.
Desta forma, a capa do álbum acabou por ser uma montagem do cenário do 1º dia, com o porco do 3º dia.

O céu escuro e ameaçador na capa de "Animals" reflecte aquilo que ouvimos no álbum. É um casamento perfeito entre a imagem e a música.

P.S.: O próximo post vai continuar a história de "Animals" e fazer a ligação à origem de "The Wall". O mote é uma frase do tema "Dogs", que podemos ouvir em cima:

"Who was trained not to spit in the fan"


Edit : Parte 2 aqui.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Pink Floyd - "Pigs on the Wing (Part I)"

"If you didn't care what happened to me...
And I didn't care for you..."




Quando surgiu a ideia de criar este blog já tinha, à partida, uma lista mental com meia dúzia de histórias que queria contar. Volvidos quase 2 anos e mais de 100 posts depois, algumas das histórias que encabeçavam a minha lista ainda estão enigmaticamente à espera.
Amanhã, vou contar uma delas.

Amanhã, vão voar porcos na Escolha musical do dia.

"Watching for pigs on the wing"

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Tony Bennett & George Michael - "How Do You Keep The Music Playing?"

"I know the way I feel for her: it’s now or never
The more I love, the more that I’m afraid, that in her eyes I may not see forever"



Hoje sinto-me romântico. Eu sei, é uma grande décalage em relação ao estado espírito de ontem, mas ainda bem. Antes assim. E quando me sinto romântico, o mais habitual é recorrer a George Michael - a minha voz de eleição, no que toca a baladas. Mas se é verdade que ao longo da sua carreira, George tem no seu reportório um imenso lote de grandes baladas, este não é um desses casos. Ou melhor, é uma grande balada, sim, mas não foi composta por ele.

Numa altura em que a carreira de George Michael já se encontrava em fase descendente, Tony Bennett convidou-o para um dueto para o álbum de celebração do seu 80º aniversário.
O tema escolhido foi este "How Do You Keep The Music Playing?", um tema originalmente composto para o filme de 1982 "Best Friends". O filme consistia numa mera comédia romântica dos anos 80, com Burt Reynolds e Goldie Hawn, destinado a ficar esquecido nas traseiras de qualquer videoclube (espera, isso hoje já não existe...), mas isso não impediu que o seu tema principal ganhasse uma vida própria e assim se prorrogasse no tempo.

"How Do You Keep The Music Playing?" foi nomeado para o Oscar de Melhor Canção Original em 1983, tendo perdido para o célebre "Up Where We Belong", do filme "Oficial e Cavalheiro" (nome original "An Officer and a Gentleman"), interpretado por Joe Cocker e Jennifer Warnes.

"How Do You Keep The Music Playing?" fala sobre a dificuldade de manter uma relação duradoura e lidar com o lento abafamento da chama da paixão. Como é que se mantém a música a tocar? É difícil, de facto. Já todos passámos por isso. É difícil e, no entanto, é tão simples:

Rendição: "How do you lose yourself to someone? And never lose your way"
Amizade: "If we can be the best of lovers, yet be the best of friends..."
Adaptação: "Since we know we’re always changing, why should it be the same?"

Pôr isto em prática? Pois, isso já é outra história...

"If we can try with every day to make it better as it grows, with any luck, then I suppose, the music never ends."